Por Valentim Fagim

Também denominado como evidência suprimida ou incompleta, o cherry-picking define-se, na Wikipédia, como “uma falácia que consiste em citar casos ou dados individuais que parecem confirmar uma determinada posição, ao mesmo tempo em que se ignora uma porção significativa de casos ou dados relacionados que possam contradizer aquela posição”. A leitura do ensaio Assim nasceu uma língua, da autoria de Fernando Venâncio, deixa a sensação, muitas vezes, de que faltam cereijas.

O autor é um linguista, um lexicólogo, e pode ser uma delícia acompanhá-lo quando discorre sobre a história das palavras. Ora, quando sulca mares de natureza social, o ensaio perde rigor e assoma uma vontade de tudo encaixar, mesmo que fiquem cereijas fora da caixa. 

Uma das ideias-força do livro é de que ambas as variedades, a galega e a portuguesa, estão castelhanizadas, portanto @s galeg@s “abraçarem o português seria caírem de uma castelhanização noutra”, porque a sul do Minho existe uma grande quantidade de castelhanismos que teriam entrado nas falas e nas escritas, nomeadamente entre 1400-1750. Afirma, ainda, que os dicionários que seguem o modelo do galego Ilg-Rag não recolhem muitas dessas formas. É o caso, entre outros, de repolhohediondo ou palito. Assim sendo, ambas as variedades, ou línguas, no seu parecer, estão a par nesse aspeto e a estratégia reintegracionista não tem aí muito a reclamar. 

Ora, para que todas as cereijas estejam sobre a mesa, a fim de serem analisadas, conviria fazerem-se duas perguntas: a) que quantidade de castelhanismos estão em uso em Portugal que não o estejam na Galiza? b) qual é o dinamismo do processo de castelhanização em ambos os países?

Se pegarmos na lista de castelhanismos portugueses e procurarmos aqueles que não existem na Galiza, verificamos que são poucos e a maioria é de uso menor em Portugal. Usando uma metáfora matemática, podemos dizer que o castelhanismo de exclusividade portuguesa tende para zero. Ora, na Galiza o processo é outro, muito diferente, quantitativa e qualitativamente. Poucas palavras castelhanas, diferentes das galegas, não aninham nas nossas falas em maior ou menor medida: aier, suerte, hacienda, huelga, jueves, tejemaneje, acera, adiós … não há limite. O castelhanismo de exclusividade galega tende para o infinito.

Repare-se ainda que muitos dos castelhanismos que entram na Galiza são substitutivos. Numa data tão recuada como 1911, o livreiro Eugénio Carré lamentava-se de que palavras como abafaroutono e segunda-feira eram atacadas por não serem galegas mas “lusitanismos”. Quando uma palavra galega não se pode “deduzir” de uma castelhana por serem muito diferentes (por exemplo, segunda-feira/lunes), a forma galega ganha muitas hipóteses de perder uso social. 

A segunda questão tem a ver com a preeminência deste processo. Nas últimas décadas, talvez entrasse nas falas portuguesas palavras ligadas à cultura espanhola (tapa ou calamar, a lula empanada) mas é um processo marginal, à imensa distância da entrada de anglicismos. No caso galego a dinâmica está aberta. Nos últimos séculos, como bem tem vindo a indicar Carlos Garrido, em mais de uma ocasião, a prática totalidade dos novos objetos, que foram criados, denominam-se da mesma forma no nosso país do que em Burgos. Isto é realizado de uma forma inconsciente e só o contraste com o português permite identificar o processo. Eis alguns exemplos de entradas recentes nos dicionários do castelhano europeu, todas elas comuns nas falas galegas: hoja de ruta (portanto folha de ruta), postureo, pantallazo, zasca, escrache, mensajear… Qualquer palavra criada com sucesso na sociedade espanhola vai ser importada nas falas galegas quase no mesmo instante. 

Num quadro, poderia-se sintetizar assim:


 
Galiza Portugal
Castelhanismos “genuínos” Tende ao infinito Tende a 0
Período histórico Aberto 1400-1750

1750 é uma data importante. A partir daí começam a se construir as línguas nacionais. 

Uma pergunta que é preciso fazer: porque @s galeg@s falamos como falamos e escrevemos como escrevemos? Para já, como em qualquer parte do planeta, do ponto de vista da produção linguística recebemos inputs linguísticos e esses inputs condicionam os nossos output, as nossas produções linguísticas, os nossos falares e escreveres. Input é, por exemplo, o programa de rádio que ouvimos enquanto almoçamos, o jornal desportivo que lemos, a série que visualizamos, a conversa com a vizinha, as aulas que recebemos ou o tutorial para arranjar um aparelho eletrónico. Na Galiza, o input em castelhano é hegemónico. Daí, os output. Não tem nada de peculiar, de resto, como sabem os falantes de catalão na França, os de francês no Vale de Aosta ou os de castelhano de Porto-Rico. 

Dado o peso que o galego tem nesta obra é estranho a escassa referência aos usos sociais da língua, por exemplo, para que usamos o galego e para que usamos o castelhano. Neste sentido, a estratégia reintegracionista oferece soluções que não consegue fornecer a estratégia autonomista e, provavelmente, não consiga nunca: sites, textos, audiovisuais, apps, legendagens… Por esta razão, são precisamente @s galeg@s que vivem a sua língua como sendo partilhada com outras nações, as menos expostas ao input castelhano. Por esta razão “social” e polo facto de marcar o português como uma referência de correção, estas pessoas geram textos com menores doses de castelhanização do que aquelas que vivem o galego como sendo uma língua autonómica. Não tem nada de particular, é mecânica, é matemática. 

No entanto, neste aspeto o autor continua a brincar com as cereijas. Em várias páginas, usando um estilo do género Rottenmeier, referencia textos do coletivo lusógrafo galego com interferências do castelhano. Quando finaliza a lista, uma pequena luz de equanimidade parece surgir na sua mente, acabando por reconhecer que os falantes do galego autonomista também criariam texto deste teor. O que se esquece indicar é que no primeiro grupo social estamos perante um erro conjuntural, no segundo já é estrutural. Não é uma diferença menor em termos sociolinguísticos, de facto, avaliar o galego sem uma perspetiva social é o mesmo que não avaliar. 

Quando uma pessoa galega que escreve com a ortografia portuguesa digita “enquanto o saibas, avisa-me” está a cometer um erro mas quer não o sabe, quer o sabe e tivo um lapso. Quando o souber vai tentar não o cometer, com maior ou menor sucesso em função de diferentes variáveis. No segundo caso, na pessoa que usa a ortografia do castelhano, simplesmente… não há erro, não há interferência. Uma tática da estratégia autonomista para o “combate” ao castelhanismo que o autor poderia ter referido é a “naturalização do intruso”. É antiga. Num manual do ILG, de 1974, chamado Gallego 3, ensinava-se que as palavras a seguir eram lusismos (entre aspas aparecem os termos «genuínos»): achar «atopar» xornal «diario» «periódico», termo «término», diabo «diablo», xanela «ventano», isolado «aislado»,  «soio», garavata «corbata», liberdade «libertade», ate «hastra», paixón «pasión», comezar «comenzar», estrada «carretera», coñecer «conocer», cidade «ciudad». Se hoje o panorama é diferente é graças à existência do reintegracionismo. Louvado seja o Senhor!

Já no terreno gramatical o autor afirma: “o futuro do conjuntivo saiu praticamente dos usos galegos” para depois, o que é surpreendente, citar casos de usos errados do mesmo tempo verbal em textos reintegracionistas, o que poderá provocar, se houver vontade, algumas dúvidas: a) se há casos errados, então, talvez, haja casos atinados; e b) se calhar, na Galiza, só os falantes do galego-português usam estas formas. São apenas hipóteses. O que é uma certeza é que se trata de um tempo verbal que não se ensina, via de regra, nas aulas de língua galega, no ensino secundário. 

O do infinitivo flexionado é mais um caso notório, no processo de cherry-picking, onde segundo o autor, nos textos lusógrafos galegos, “é escasso o uso do infinitivo flexionado”. A este respeito já colocara dados estatísticos Paulo Gamalho num artigo onde contrastava os usos deste tempo verbal em meios de comunicação galegos, brasileiros e portugueses. Temos assim uma prova empírica, mas há um recurso racional simples: se os textos em português, orais e escritos, formam parte do quotidiano dos lusógrafos galegos, é expectável surgirem usos de infinitivo flexionado. E, ao contrário, se estes mesmos textos não são comuns aos falantes do galego ilg-rag é difícil que o infinitivo flexionado surja nas suas produções. É mecânica, outra vez. 

Não quero insinuar que não haja vontade de autenticidade na maior parte dos textos em Ilg-Rag; existe esse desejo, mas não na mesma direção e intensidade do que no galego reintegrado. Como escrevia Fernando Corredoira, em 101 Falares com Jeito, “quase tudo pode passar por galego, desde que borrifado aqui e acolá com doses acaídas de remataresesnaquizaresxeitosmálias, e mailos costumeiros xa que logos, que funcionam como mecanismos compensatórios da hibridação linguística, afagando de caminho uma visão particularista e diferencial da língua que tanto nos empobrece e limita”.

Outra carência importante da obra, também no plano social e galego, são as reflexões glotopolíticas. Temos um facto: existem dous modelos de língua para o galego. Um deles é o usado pola administração galega, governada quase sempre por um partido nacional espanhol e um outro, periférico, usado por pessoas e coletivos fortemente empenhados na saúde social da língua. Isto deveria motivar algumas perguntas: porque vigora a norma que vigora? Que grupos sociais apoiam a aproximação ao português? Quais são contrários? Porquê? Quantos anos somamos de política linguística, baseada na estrangeirização linguística da sociedade portuguesa e brasileira? Quais os resultados? Talvez ao leitor português interesse saber que 74% da rapazada entre 5 e 14 anos fala sempre ou basicamente em castelhano e que nos anos vindouros os resultados serão piores porque, como sabemos, não se pode esperar resultados diferentes se sempre fazemos as mesmas cousas.

Na Galiza, há um processo, muito avançado, de substituição e diluição linguística. A língua das crianças tende a ser o castelhano e as falas galegas estão cada vez mais castelhanizadas. Perante esta realidade há pessoas e instituições que desejam mudar o rumo da nossa língua e há, essencialmente, duas estratégias para conduzir este desejo. Uma delas foi implementada nos anos 80 e a ideia chave é que a língua das sociedades portuguesa e brasileira é estrangeira. Um dano colateral desta forma de viver a língua é que o castelhano é imprescindível. Se queremos “resultados diferentes” é o momento de ensaiar com novos ingredientes, como já foi feito pola entidade Apego, virada para o público infantil, recomendando desenhos animados na sua versão brasileira ou portuguesa. Não se trata de trocar A por B, mas de criar um AB poderoso entre iguais. Esse é o desafio do tempo que estamos a viver. E temos pouco tempo.

[Fonte: http://www.praza.gal]