É com grande tristeza que recebemos hoje cedo  a notícia do falecimento da prof. Miriam Lemle.  O sepultamento será  hoje, 12 de fevereiro de 2020, no Cemitério Comunal Israelita do Caju, no Rio de Janeiro às 15 horas.

Apesar de aposentada, a prof. Miriam Lemle continuava ativa na nossa pós-graduação.

Uma vida dedicada à linguística

Em 1962, três anos depois de se graduar em Letras Neolatinas naquela que atualmente é a UFRJ, e ainda como estagiária no Museu Nacional (Rio de Janeiro), a professora Miriam Lemle começava seu percurso na linguística. Nesse momento, a linguística constituía-se ainda numa novidade no Brasil. O professor Joaquim Mattoso Camara Jr. lecionara essa disciplina em 1938 na Escola de Filosofia e Letras da antiga Universidade do Distrito Federal (UDF),  extinta por decreto-lei em 1939 e seus alunos transferidos para a Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras (FNF), parte da nova Universidade do Brasil. O currículo de Letras da FNF, que incluiu três diferentes cursos, a saber, Letras Clássicas, Letras Neolatinas e Letras Anglo-Germânicas, não incluiu a linguística em nenhum deles. Somente em 1948 Câmara Jr. seria convidado a lecionar linguística, mas apenas para Letras Clássicas. Até o final da década de 1950 esse seria o único curso do Brasil em que havia ensino regular de linguística.

Por outro lado, no Departamento de Antropologia do Museu Nacional começava a formar-se em torno de Camara Jr. um grupo de jovens pesquisadores. É aí que vamos encontrar a jovem Miriam Lemle em 1962.

Seis anos mais tarde, já mestre em linguística pela Universidade da Pensilvânia (EUA), a professora Miriam Lemle participaria da criação da primeira pós-graduação em linguística do país, inicialmente no Museu Nacional, mas logo transferida para a Faculdade de Letras da UFRJ: o mestrado e o doutorado em Teoria Linguística, credenciados ambos pelo parecer CESu 573/70, de 07 de agosto de 1970. Consequentemente, seu nome ficaria ligado à criação e expansão de uma área de conhecimento no Brasil, porque ela teria parte na formação dos professores que, oriundos de diferentes regiões do país, iam estudar essa nova área na UFRJ.

O doutoramento na UFRJ, numa linguística já consolidada no Brasil como área de conhecimento, viria bem mais tarde, em 1980. A demora na titulação refletia o consenso da época de que o doutorado não era a condição indispensável para o início de uma carreira acadêmica, mas uma forma de reconhecimento da maturidade acadêmica.

Em fevereiro de 1982 a professora Miriam Lemle consolidava sua participação nas atividades da Faculdade de Letras da UFRJ ao transferir-se formalmente do Setor de Linguística do Departamento de Antropologia do Museu Nacional para o Departamento de Linguística e Filologia da Faculdade de Letras. Com isso ganhava peso e regularidade seu envolvimento com a graduação.

Esse envolvimento não ficaria restrito à Faculdade de Letras, uma vez que 12 anos mais tarde ela estaria entre os professores do Departamento de Linguística e Filologia que passariam a atuar concomitantemente na Faculdade de Medicina, no então recém-criado curso de Fonoaudiologia da UFRJ.

Coordenou o Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFRJ em 1983-1984, e manteve-se como vice-coordenadora até 1986. Em 1985, bolsista Fulbright, faria pós-doutorado no Massachusetts Institute of Technology (EUA). Nessa época, já reconhecida no país como uma figura catalisadora da pesquisa em gramática gerativa, a professora Miriam Lemle estreitaria seu contacto com o professor Noam Chomsky, idealizador dessa teoria.

Em 1987 seria eleita para a presidência da Associação Brasileira de Linguística (Abralin) para o período 1987-1989. Atuaria ainda como substituto eventual do chefe do Departamento de Linguística e Filologia da UFRJ em 1993. A partir de  1991 manteve-se como membro da Comissão de Convênios da Faculdade de Letras e, a partir de 1994, quando se tornou professor titular, passou a membro nato da Congregação da Faculdade de Letras.  Ministrou cursos de extensão quer na Faculdade de Letras, quer no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

Aos muitos encontros de gramática gerativa que organizou na década de 1990, com professores renomados internacionalmente, como, por exemplo, Yosef Grodzinsky, Stephen R. Anderson, Juan Uriagereka, Massimo Piatelli-Palmarini, Michel Degraff  e o próprio Noam Chomsky, acorriam linguistas de todo o Brasil. Seu interesse pela gramática gerativa conduzi-la-ia para a neurociência, no final da década 1990, quando no Brasil essa área não incluía a linguística, nem a linguística reconhecia a neurociência.

Em 22 de maio de 2007, o Departamento de Linguística e Filologia da UFRJ decidiu unanimemente solicitar a concessão do título professor emérito para a professora Miriam Lemle, que se aposentaria em dezembro desse ano, ao completar 70 anos.

Participava atualmente do Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFRJ  na linha de pesquisa “Gramática na Teoria Gerativa”,  coordenava desde 2003 o Laboratório Clipsen (Computações Linguísticas: Psicolinguística e Neurofisiologia).

O texto acima foi minha colaboração para a Wikipedia 
para o artigo "Miriam Lemle".

[Fonte: linguisticaufrjcarlotablog.wordpress.com]