Voz da revolução e autor de temas como « Menina d’Olhos de Água », Pedro Barroso tinha 69 anos.

Póvoa de Varzim, 25/04/2015 – Concerto de Pedro Barroso no Cine-Teatro Garrett marca o regresso deste musico aos palcos, após um período sabático, de cerca de um ano, provocado por problemas de saúde.

Escrito por Maria João Caetano

Viva quem canta/ Que quem canta é quem diz/ Quem diz o que vai no peito/ No peito vai-me um país »

Lemos estas palavras de Pedro Barroso e lembramos a sua voz e o entusiasmo com que as costumava cantar. O músico Pedro Barroso, autor, compositor e cantor, conhecido por temas como Viva Quem CantaMenina dos Olhos de Água e Cantarei morreu aos 69 anos, em Lisboa, esta segunda-feira à noite.

O filho, Nuno Barroso, confirmou no Facebook.

Pedro Barroso encontrava-se internado « em fase terminal » desde o passado dia 7 de março, segundo informou o seu filho na altura, também numa publicação no Facebook:

Nascido em 1950 em Lisboa, com os pais professores, Pedro Barroso cresceu em Riachos, Torres Novas, formou-se em Educação Física e foi professor do ensino secundário durante mais de 20 anos. Também estudou, mais tarde, Psicoterapia Comportamental e trabalhou na área da saúde mental e da musicoterapia. Foi pioneiro no ensino de crianças surdas-mudas numa escola de ensino especial em Lisboa. Também era pintor, assinando as suas obras artísticas como Pedro Chora.

No entanto, foi como músico que se tornou conhecido do grande público ao participar, no final de 1969, no programa Zip Zip, apresentado por Raul Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz. No programa cantou Pedido de MeninoCanção de Amigo e Toada da Vida. « Eu fazia canções desde os meus 14 anos, comecei até por fazer em francês », recordou numa entrevista recente ao site Medio Tejo, tendo surgido a oportunidade dos « baladeiros – chamavam-nos baladeiros na altura porque consideravam tudo como baladas » irem ao programa. No ano seguinte, lançou o seu primeiro EP, intitulado Trova-dor, produzido por Thilo Krassman, que tinha conhecido no Zip Zip.

Os seus temas eram de intervenção e muitas vezes teve problemas com a censura e foi obrigado a alterar as suas letras.

No Teatro Experimental de Cascais, sob direção do encenador Carlos Avilez, participou como ator nas peças Fuenteovejuna, de Lope de Vega, e Breve Sumário da História de Deus, de Gil Vicente, ao lado de José Jorge Letria e António Macedo.

Após o 25 de abril, Pedro Barroso integrou as campanhas de dinamização cultural e cantou por todo o país, « em sítios onde nem eletricidade havia, onde nunca sequer tinham visto um microfone », como recordou numa entrevista ao DN em 2005. Foi « o tempo da libertinagem intelecto-revolucionária que hoje nos faz sorrir um pouco », contou. « Íamos explicar às pessoas a luta pelo multipartidarismo, a luta pela liberdade », pelo fim do analfabetismo e da ditadura.

Cantarei foi escrito nessa altura. Nesse tema, Pedro Barrosos prometia: « Cantarei, cantarei/ à chuva ao sol ao vento ao mar/ seara em movimento/ ondulante, sem parar ».

Depois de dois singles1.º de Maio e Pastilhas Reacção, com arranjos de Pedro Osório e de Jorge Palma, respetivamente, editou em 1976 o primeiro álbum, Lutas Velhas Canto Novo, pela Diapasão. Desde então, foi sempre editando discos (mais de 30, no total), maioritariamente com canções completamente suas ou com poemas de nomes como José Saramago, Sophia de Mello Breyner Andresen, Sá de Miranda ou Cesário Verde.

O álbum Quem Canta Seus Males Espanta foi editado em 1980. A Canção Para O Rio Almonda seria distinguida com o Troféu Karolinka no Festival Menschen und Meer, realizado na antiga RDA, em 1981.

Em 1982, participou no Festival da Canção da Rádio Comercial com Cantar Brejeiro e em 1983 obteve um grande sucesso com a canção Ai Consta. 1987 foi o ano do disco Roupas de Pátria Roupas de Mulher e do sucesso Menina dos Olhos d’Água.

Em 2004 celebrou os 35 anos de carreira com a edição do CD Navegador do Futuro. Em 2008 lançou o disco Sensual Idade, sobre os seus 40 anos de carreira.

Em dezembro do ano passado, já doente com cancro, deu um concerto no Teatro Virgína em Torres Vedras, em que assinalava os 50 anos (exatos) da sua carreira e o fim da mesma. « Respeitou-se a data de 21 de dezembro exatamente 50 anos – na hora e no dia da minha estreia no velho Zip Zip« , explicou na sua página de Facebook. « A condição física, após mais um ano de tratamentos médicos, impede-me de tocar; e, mesmo na parte de canto, canso-me ao fim de minutos », disse Pedro Barroso na altura.

E num balanço do que foi: « Não frequentei os sítios que era preciso e dava jeito para ser frívolo, colunável e bajulado diariamente no medíocre social de referencia. Mas é bom, ao mesmo tempo, estar aqui de cabeça erguida, 50 anos de ideias, música e palavras convividas ».

« Cesso atividade como músico, não me retirando obviamente, nem como homem das ideias, nem das artes, nem das palavras. E da diferença. Não abandono a intervenção critica, nem a cidadania, pelo menos enquanto o ultimo neurónio mo permitir », disse na altura, no Facebook. « A minha vida foi um privilégio. Uma festa compartilhada », concluía.

Ao Medio Tejo dizia, em dezembro passado: « Quando somos jovens estamos convencidos da nossa eternidade. Não há horizonte, é planetário. Nunca vamos acabar, vamos ter sempre o tempo todo do mundo. E ao mesmo tempo saber que não temos todo o tempo do mundo catalisa-nos para uma seleção de prioridades, que é útil. Com a idade aprendemos a aligeirar a carga dos inúteis ».

« Espero que me lembrem pelas coisas profundas e sérias e poeticamente mais perfeitas que fiz », comentava, reconhecendo o receio de que a memória se agarre apenas a partes avulsas da sua obra. « A obra é sempre muito mais importante que o autor. A obra fica. A obra é que é importante ».

Póvoa de Varzim, 25/04/2015 – Concerto de Pedro Barroso no Cine-Teatro Garrett marca o regresso deste musico aos palcos, após um período sabático, de cerca de um ano, provocado por problemas de saúde.

[Fotos: José Carlos Marques/ Arquivo Global Imagens – fonte: http://www.dn.pt]