Referentes da identidade nacional galega 

Escrito por Xerardo Pereiro

Em 1970, o antropólogo Julio Caro Baroja publicou o livro “El mito del carácter nacional”, um ensaio histórico-antropológico e crítico das teorias culturalistas do caráter étnico-nacional espanhol. O livro foi reeditado em 2004 pela editora Caro Ragioo (Caro Baroja, 2004) com prólogo do antropólogo francês Bernad Traimond. No fundo, o seu livro é uma crítica não somente aos académicos, que já tinham na sua maioria abandonado o conceito, mas também ao regime franquista e à sua defesa de uma única idiossincrasia nacional espanhola, base ideológica do franquismo e do seu espanholismo fascista. 

Mas a crítica de Caro Baroja apresenta lições interessantes para outros contextos nacionais, graças ao questionamento de uniformidade numa nação de cidadãos diversos e desiguais. A sua via é desconstrutivista, desmascarando as contradições dos seus clichés, tópicos e estereótipos, mas sem explicar porque estes se produzem e os motivos da sua resistência à mudança como faz Michael Herzfeld por exemplo para o caso grego. Caro Baroja foca-se neste ensaio no campo das representações (autoimagens e heteroimagens), e não no das práticas sociais e culturais, para criticar frontalmente a existência de um caráter nacional espanhol único: 

“…porque hasta en nuestros días el carácter de “lo español” se puede descomponer mucho frente a caracteres tales como los de lo “catalán”, lo “gallego” o lo “andaluz”, por no hablar de algo tan enigmático como lo “vasco” o algo tan ambiguo como lo “castellano” “(Caro Baroja, 2004: 39). 

Face ao unitarismo espanholista franquista, que continua hoje presente a meu ver como ideossistema ideológico em muitos partidos e movimentos políticos, Caro Baroja reivindica a diversidade e afirma a permanência de uma consciência de ser diferente de navarros, andaluzes e outros povos, enquanto membros de nações diferentes. Os traços desse caráter nacional espanhol descansariam sobre: a) o aspeto físico; b) os hábitos, costumes e culturas do trabalho; c) os traços morais e intelectuais assentam nas velhas glórias como recurso. Todos eles continuariam no tempo e serviriam para odiar outros povos através da cristalização de uma versão única e simplista da identidade espanhola e uma idealização de um povo espanhol de uma única cor. 

Portanto o caráter nacional espanhol teria um caráter de fixação coletiva e seria hereditário no ideário do espanholismo franquista. Mas esse mito acaba por ser ameaçador e perigoso, pois facilmente se cai no racismo, na exclusão social, no purismo e no moralismo do bom e do mal espanhol como acontece ainda nos dias de hoje. Neste contexto, é difícil negociar as afinidades e ligações entre os diferentes povos de Espanha, não apenas no plano político como também no plano educativo e social. Isto é, neste ideossistema aparentemente só Castela teria contribuído para a criação de Espanha, sendo o resto do Estado espanhol protagonista de contributos muito periféricos. 

Neste quadro estatal e mítico espanhol, a Galiza apresenta-se como uma nação com uma identidade nacional complexa e fraca. Em que sentido? Em primeiro lugar, porque é uma nação que está integrada noutro Estado, que para alguns é Estado nacional e para outros é Estado plurinacional. Se é certo que do ponto de vista político Galiza é uma das nacionalidades históricas reconhecidas pela Constituição espanhola de 1978, podemos afirmar que do ponto de vista cultural, Galiza é uma nação com autonomia e governo próprio. Mas é preciso reconhecer também a sua subsidiaridade dentro do atual marco do Estado espanhol ao qual pertence. Algo que nos recorda obsessiva e constantemente o presidente da Junta da Galiza, Alberto Núñez Feijoo, nos seus discursos, isto é, que Galiza é parte de Espanha, algo que a maior parte dos galegos não questiona nem por assomo.

Noutro plano, os galegos têm, em parte, consciência étnica da sua diferença, mas não uma forte consciência nacional (cf. Beramendi, 1997). Dito por outras palavras, a maioria dos galegos são nacionalistas cívicos ou noutra perspetiva, “nacionalistas de barriga”, defensores dos seus produtos alimentares locais e caseiros, mas não maioritariamente “nacionalistas políticos”, no sentido de afirmação de um projeto político diferencial e/ou reivindicativo para a sua terra, apenas defendido por uma terceira parte da população galega. Para explicar melhor este ponto de vista convém analisar a identidade nacional galega desde os seus referentes. Ela apresenta-nos quatro referentes identitários (ver tabela abaixo): a) um referente afirmativo: quem somos ou como nos representamos; b) um referente de negação-oposição face a um outro, geralmente espanhol ou castelhano nalguns casos; c) um referente de reintegração – reunificação, que no quadro atual é Portugal e a União Europeia; d) um referente de analogia – afinidade, constituindo um terreno de luta entre Espanha, Portugal, a Lusofonia, a Ibero América e o espaço atlântico chamado popularmente como “céltico”. 

Quanto ao referente afirmativo (ver gráfico abaixo), este integra a etnicidade, a historicidade, a estrutura política e a estrutura socioeconómica, tal como sumariamos no gráfico abaixo e que não desenvolveremos aqui por questão de espaço. Apenas apontar que a identidade nacional galega apresenta um problema identitário de dupla personalidade e biculturalidade. Por um lado, a cultura galega representa-se e revê-se como uma cultura ibérica lusófona, europeia, ibero-americana e atlântica. Por outro, a Galiza pertence a um Estado, o espanhol, que se afirma como hispano, hispano-americano, monocultural por vezes, e que assume uma cultura política pouco respeitadora e integradora das diferenças e diversidades socioculturais no quadro político estatal espanhol.

Esta duplicidade da identidade galega, como o deus grego Janus, leva associada uma tensão estrutural e um conflito de lealdades que não se resolve sempre da melhor maneira. Isto é, por um lado, o poder do aparato político-administrativo-mediático-cultural do Estado espanhol é tão grande que consegue ter uma eficácia simbólica grande no seu objetivo de espanholizar culturalmente os espanhóis e os galegos, muitas vezes à custa de desgaleguizar a Galiza e desrespeitar a diversidade. Por outro lado, a forte cultura anglo-saxónica, especialmente a estadounidense, dominante no mundo ocidental e no atual mundo globalizado, entra como uma cunha nas mentes e fogares da sociedade galega, com uma eficácia simbólica surpreendente, até ao ponto de muitos galegos conhecerem melhor a geografia dos EUA do que a geografia da Galiza. Nesta ótica, a identidade nacional galega está numa situação resistencialista e a construção de um projeto identitário nacional galego navega contracorrente em muitos sentidos, e que analisaremos, em seguida, no plano das representações e imaginação coletivas. 

Gráfico n.º 1: Referente afirmativo da identidade nacional galega

A identidade nacional galega apresenta-se no mundo, em vários relatos, com uma série de componentes cognitivos, afetivos, emocionais e ideológicos que constituem um conjunto de mitos de um imaginado e suposto caráter nacional galego, defendido à direita e à esquerda do espectro político galego, e também projetado, desde fora da Galiza, por não galegos. Eles são a meu ver os seguintes: 

A Galiza como nação rural. 

A Galiza como região periférica. 

A Galiza como região geocultural de Espanha. 

A Galiza como parte da cultura mediterrânica. 

A Galiza como região pobre. 

A Galiza como província espanhola. 

A Galiza como área cultural de matriarcado. 

Os galegos como gente moderada e conservadora.

O galego como dialeto do espanhol. 

Estes clichés estereotipados, os quais não vão ser analisados por questões de espaço, condicionam negativamente a posição geocultural da Galiza como nação política e cultural no mundo. Eles atuam socialmente como crenças firmes, como verdades absolutas, e não como ideias a questionar criticamente, e para, além disso, resistem à mudança e às demonstrações empíricas dos seus equívocos. 

Agradecimentos

Muito agradeço ao Prof. Dr. Fernando Cruz a revisão atenta ao texto. Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UID/SOC/04011/2019. “Este trabalho enquadra-se no projeto de I&D “Património cultural da Euro-região Galiza-Norte de Portugal: Valorização e Inovação. GEOARPAD” Programa operativo EP – INTERREG V A Espanha Portugal (POCTEP). Convocatória 1, Identificador 769- GEOARPAD (0358_GEOARPAD_1_E), financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) através do Programa de Cooperação INTERREG V-A Espanha-Portugal 2014-2020 (POCTEP)”.

[Fonte: http://www.praza.gal]