Ontem, preparava-me eu para ir celebrar os 98 anos do meu querido amigo Gonçalo Ribeiro Telles, como exatamente fiz, quando um brincalhão se lembrou de me recordar o que um dia aconteceu com Mark Twain. Deram-no como morto e ele reagiu dizendo que a notícia era algo exagerada. Por segundos pairou no ar a notícia absurda de que o Gonçalo tinha partido. Notícia sem pés nem cabeça, diria ele ao fim da manhã com os seus botões lançando uma gargalhada sonora. “Ainda vão ter de me aturar um pouco mais”. E nós seus amigos fomos beber uma jeropiga para celebrar a anedota. Mas essa anedota tem muito que se lhe diga, uma vez que esse brincalhão que joga com a vida das pessoas faz parte de uma gente que todos os dias nos procura enganar com notícias bem mais singelas repetidas interminavelmente para que acreditemos nelas… É muito fácil. Uma mentira repetida mil vezes parece tornar-se verdade. Puro engano, porém. Uma mentira repetida um ror de vezes será sempre mentira e só pode convencer-nos de que o combate pela verdade é uma tarefa necessária e bem difícil. Uma meia-verdade é uma mentira. Uma pós-verdade, mentira é. Mas todos os dias procuram induzir-nos no contrário. E o melhor exemplo é o nosso querido Gonçalo, que nos seus escritos e nas suas lições continua a ensinar-nos que as paisagens que nos querem roubar, a natureza de que nos querem privar, os corredores verdes que querem destruir só podem continuar a ser verdade se houver combatentes persistentes como o nosso imortal herói. Foi ele que nos ensinou muito a sério que «o homem desempenha na modelação da paisagem um papel muito importante; ser considerado, neste aspeto, como um autêntico criador de beleza. Toda a atividade humana tem como pode fim a satisfação das suas necessidades, quer espirituais, quer materiais. (…) A paisagem terá de ser considerada como um todo orgânico e biológico em que cada elemento é interdependente, influenciando e sofrendo da presença dos restantes participantes. A reciprocidade é a lei fundamental da natureza». Estas são palavras de 1956, mas poderiam ser escritas hoje. Centrando-se na pessoa, na sua dignidade e no seu sentido comunitário, Gonçalo Ribeiro Telles apela a uma natureza equilibrada, na qual a lembrança e o desejo, a memória e a criação se encontrem. Reconstruam-se os jardins, retomem-se os quintais. E a ideia de reciprocidade representa a importância de uma relação diferenciada, com influências cruzadas de interdependência e complementaridade. Sim, o que esse inventor de mentiras de meia-tigela nos ensinou ontem foi que só a verdade persistente, invencível, determinada, incómoda, à prova de bala, como água mole em pedra dura é que vale verdadeiramente a pena. O camponês do Ribatejo de botas enterradas na terra sabe bem que a enxada ou que a tesoura do jardineiro podem muito mais do que meia dúzia de piratas do mar da tinta. Por isso o nosso Gonçalo riu a bom rir ontem, mas com ar sério lembrou que ao longo da sua vida houve muitos que o quiseram ver pelas costas. Um velho amigo nosso deu-se, assim, a procurar uma pista para descobrir esse caçador de patos amador que mais uma vez se queria ver livre do nosso persistente arquiteto das paisagens, jardineiro de paraísos. Mas bastou usarmos uma corneta de caçador, para ele vir lampeiro até à armadilha. E não foi difícil encontrar a pista certa – era um pato bravo qualquer. Ele há muitos por aí, e a verdade é que este foi fácil de encontrar. Mascarado de inofensivo patos bravo da natureza é um verdadeiro pantomineiro das paisagens. Foi, de facto, um pato bravo qualquer que inventou a atoarda. Mentira torpe, mesquinha, era daquelas que se denunciam facilmente. Por isso, pela tardinha, satisfeitos todos por termos o aniversariante das noventa e oito primaveras connosco, pudemos brindar com um verdadeiro hip hip hip hurrah! Continuamos com o combatente connosco. Mas esses patos bravos de feira que tanto mal nos fazem a tentar convencer-nos de que não vale a pena continuar a combater pela paisagem, são caçadores traiçoeiros que só visam os verdadeiramente vivos, as pessoas de carne e osso com a têmpera do nosso herói –  persistente, invencível, determinado, incómodo, à prova de bala, como água mole em pedra dura. Está descoberto o sevandija, pobre pescador de águas turvas, zé-ninguém de maus fígados, belzebu vicentino… E o Gonçalo aqui está!

Agostinho de Morais 

[Fonte: e-cultura.blogs.sapo.pt]