Percursos sem roteiro

Por Joám Lopes Facal

Para Victorino Pérez Prieto

Três som as acepçons do termo lusismo no dicionário da RAG, duas de índole defensiva e só a terceira pertinente, e mesmo me atreveria a prognosticar que a única com futuro. As duas primeiras acepçons tentam pôr-lhe portas ao campo, onde galopa sem freio o andaço lusista que ameaça a harmonia de estufa-fria onde mora o galego administrado.

Os exemplos escolheitos para ilustrar as duas primeiras acepçons da voz lusismo ilustram bem às claras a dificuldade de tentar isolar o galego do influxo português: 1) “A expresión ‘gostar de’ é un lusismo”, 2) “A palabra ‘obrigado’ empregada para dar as grazas é un lusismo”. Auguro-lhe curta vida a ambas hipóteses. Quanto á primeira, é pertinente apontar que a regência da preposiçom “de” com o verbo “gostar” é optativa, como lecciona o Dicionário Houaiss [“a prep. de é freq. omitida antes de complemento oracional (p.ex.: gostaria (de) que chegassem mais cedo), o que faz com que alguns autores considerem este verbo tb. transitivo directo”]; de transitivo e intransitivo qualifica este verbo Estraviz e, o mais chocante, o próprio dicionário da RAE confirma a correcçom das expresons “gustar De correr”e“gustar De jugar”.

Quanto ao uso de obrigado como fórmula de cortesia, seria bom reparar na sua crescente vitalidade que alcança já o próprio Parlamento Espanhol por boca do deputado Nestor Rego. A terceira acepçom, a única isenta de carga ideológica é, como consequência, a mais ajustada à sua funçom descritiva: lusismo é a “Corrente lingüística que considera que o galego é unha variedade da lingua portuguesa polo que a súa codificación, particularmente a gráfica, debe realizarse procurando a converxencia co português”. Assi mesmo é.

Como quer que se veja, é bom observar que a aduana levantada contra o contrabando lusista é um autêntico crivo furado. Circulam sem receio polo país juroinvestimentoorçamentocervejaranha céus, amizade, porém… por nom falar da pujança das feiras para denominar os dias da semana, como podemos observar na manchete do Diário Nós. Em flagrante contraste, tropeçamos no dicionário da RAG com o neologismo espanhol azafata, habilitado provavelmente para tentar ocluir alternativas mais genuínas, como aeromoça ou hospedeira de bordo, seguramente habituais já para os inúmeros usuários galegos do aeroporto portuense de Sá Carneiro. Em catalám, pode ser útil lembrar, preferiu-se hostessa: hospedeira.

A imparável polinizaçom cruzada do galego polo português constitui um poderoso antídoto contra a ingerência perturbadora do castelhano. Por mero reflexo defensivo, o galego vai seguir acumulando lusismos — simples arcaísmos do galego em muitos casos — como reconfortante elixir de eterna juventude inoculado em doses homeopáticas. Os seus efeitos benéficos nom se limitam à mera depuraçom lexical e locucional, velaí temos como prova o venturoso restauro do infinitivo flexionado [resultou decisivo chegares ti naquele momento, para estarmos todos juntos...] ou do futuro de conjuntivo [seja como for, aprovaçom do orçamento se proceder, caso chegares tarde…], sem esquecer a eliminaçom de preposiçon “a” com verbos em complemento directo [chamei o médicovou visitar um amigo…] ou o uso de respostas ecoQueres pam? Quero, privativas do galego-português. Nom há como a família, amigos.

Tentar minar a língua com artefactos anti-reintegracionistas é empenho estéril na era digital. Neste ecossistema, os biótopos linguísticos marginais resultam especialmente vulneráveis ao entorno. A crescente pressom das redes sociais e o irrestrito acesso à informaçom disponível confabulam-se em detrimento dos frágeis redutos locais. A flexibilidade acumulativa e adaptativa do inglês e o número de usuários de um idioma som factores decisivos na carreira da perdurabilidade. Comparemos as 138.167 entradas do Estraviz e a sua qualidade de indulgente interface com o léxico lusófono com as 60.000 do dicionário da RAG por nom falar das 228.000 entradas do sumptuoso dicionário Houaiss que senhoreia a ecúmena portuguesa nas suas vertentes sincrónica, diacrónica e gramatical. Jogar ao regionalismo linguístico é apostar pola insignificância: pura agorafobia estéril.

O reintegracionismo quer ser umha proposta razoável de promover umha variante nacional da língua ancorada na sua própria história, fiel ao galego vivo e congruente com o português. A depuraçom de aderências exógenas é parte essencial do programa reabilitador incluídas, gostaria de acrescentar, aquelas desajeitadas ou supérfluas que fluem desde a lusofonia. Penso em palavras como desapontamento (decepçom), workshop (seminário, laboratório) e tantos outros barbarismos impertinentes e prescindíveis. A vocaçom de ponte internacional entre o galego histórico e o galego vivo e deste coma lusofonia que inspira o programa reintegracionista deve apreender a navegar entre a inoperância auto-referencial e o imoderado fascínio lusófilo. O rumo certo para o galego progredir em amistoso diálogo com o português tem muito a ver com o judicioso paradigma do galego de qualidade formulado polo professor X. R. Freixeiro Mato para utentes reflexivos do idioma que se resistem a mudar de ortografia.

A legitimidade da proposta reintegracionista que se resiste a renunciar ao seu acervo ortográfico patrimonial tem no galego histórico o melhor apologista. É chegada a hora de arvorar o nosso rico avoengo linguístico que o entulho secular enterrou. O medievalismo autóctone é mais difícil de desdenhar que o fantoche lusista. Vindicar a ortografia histórica é umha via óptima para visualizar o curso diacrónico do galego e a sua congruência genética com o português.

Deixando à parte os sufixos *vel e *bel, mais vacilantes na história do idioma, paramos mentes nos belicosos *çon e *son, severamente reprimidos no galego moderno em favor do preceptivo *ción, grato ao ouvido castelhano. Abrimos o Tesouro Medieval Informatizado da Língua Galega patrocinado polo ILG1 para consultar o conflituoso sufixo *çon nas suas diversas variantes ortográficas; acodem de imediato à chamada 911 palavras: abrigaçon, absoluiçon, acusaçon, administraçon, alegaçon (…) oraçon, partiçon, renunciaçon, resurreçon, treeçon. Repetimos a procura com o sufixo *son; brotam de contado 211 registos adicionais: ascensson, ceson, coluson, comison, confesson, geerason (…) visón, lison, posison, rason, suceson…A consulta dos dígrafos *lh* e *nh* rende colheita igualmente copiosa. Resistimo-nos a multiplicar exemplos mas nom podemos deixar de demorar um instante na rija sonoridade de caralho e colhon, no recendo rural do milho e de palheiro e no aroma literário de senlheira ou velhice. Com *nh*, logo tropeçamos com a Alamanha, a Bretanha, e com Caminha e Moanha.

Velaí o nosso idioma vivo e palpitante de quando a palavra fluía livre do pensamento à pena. Espaço geográfico documentado: o território da Galiza. Período abrangido: do ano 787 ao 1600. Material analisado: 16.000 hunidades textuais distribuídas em 82 obras. Géneros compilados: prosa notarial e nom notarial, poesia e prosa vária. Procedência do material: concelhos, mosteiros, paróquias e catedrais, crónicas, cantigas e Histórias: Galiza em pleno exercício da sua soberania cultural.

Sem cair em saudades passadistas, bem ao contrário, em perspectiva actual e projectiva, gostaríamos de interpelar a gendarmaria ortográfica acerca da chocante divergência entre a sólida feitura ortográfica dos apelidos históricos com “g” ou “j”, como Feijó, Rajoy, Gigirey, Reija e tantos mais, e a torpe distorçom ortográfica da toponímia que nos assalta na sinalética de tráfico. Ortografia correcta com deplorável ortofonia resolvida em torpe gargarejo castelhano na onomástica; abjecta ortografia com clara ortofonia na toponímia. Um absurdo atrapalhamento entre letras e sons num momento em que Galiza dispom de plena competência em matéria linguística e educativa e o mais generoso acervo de meios didácticos, científicos e divulgativos. Como testemunha de cargo ante a desídia oficial, alça-se o insubornável inventário civil de contratos, partilhas e herdanças entremeados de apelidos e topónimos originários, para recordar do ignaro atropelo ortográfico. 

Resgatar o nosso avoengo ortográfico contribuiria decisivamente a dissolver o persistente estigma de rusticidade e vergonha que impregna ainda a consciência linguística colectiva do país e a projectá-la à sua condiçom de orgulhoso brasom da nossa estirpe cultural. A burocracia linguística estabelecida deve-nos um debate sossegado e sólido sobre o ponto cego da sua excêntrica política neológica e ortográfica. A sociedade democrática a que aspiramos é incompatível com o vicioso recurso ao silêncio administrativo.

Por cima de todo há umha boa notícia que merece ser divulgada entre os simpatizantes da via reintegracionista. É o facto de poder dispor de instrumental tecnológico capaz de resolver instantaneamente qualquer dúvida ortográfica ou gramatical. Basta com seleccionar o formato linguístico desejado no editor de textos ou consultar os dicionários em linha, ou mesmo instalar um bom corrector de texto como o português Priberam. Discretos guias para transitar no nosso idioma livre de servidumes alheias.

O modelo reintegracionista nasceu maduro com o Estudo Crítico (1983, 1989) às NOMIG do ILG-RAG (1982). Muita controvérsia tem corrido sobre o assunto nestes quarenta anos. O reintegracionismo actual, frágil fruto de fervorosas adesons e discretas dissidências, acabou esgalhando finalmente na rompente do assimilacionismo ao português. Umha posiçom, hoje maioritária, opta pola assimilaçom plena vista a dificuldade de socializar o discurso galeguista original, a outra porfia em desenvolver umha variante específica para o galego. Culminada a sua agenda reintegradora, a primeira opçom empenha-se numha agenda da difusom do padrom português. A segunda, como a praticada por mim nestas mesmas páginas desde 2012, pretende acompanhar e orientar o galego em processo. Horizonte e raiz.

Ao noviciado juvenil reintegracionista sugerir-lhe-ia temperar com afável tolerância a firmeza na intençom. Atitude cautelar aconselhável, aliás, no contexto da crise dos grandes relatos em que estamos instalados. Praticar o galego sem dogmatismo, adequando o formato à oportunidade e o auditório é um preceito elementar de bom juízo, imprescindível para manter o folgo ante o incerto caminho à frente. Galego institucional quando requerido, galego reintegrado quando possível (tal foi a minha escolha para redigir a tese doutoral na USC sem contratempos, nom acreditem no suposto carácter preceptivo do galego oficial!) e português padrom quando for preferido polo destinatário. Tal foi o caso no meu recente artigo A economia galega e o comércio exterior2inserido no Anuário 2020 do IGADI.

Folheio nestes dias artigos científicos de actualidade referentes à recente detecçom da estranha onda gravitacional GW190521. Leio-os numha variante do meu próprio idioma; maravilhoso privilégio do galego por direito de origem e primogenitura que poucos idiomas possuem. Do poema medieval à literatura científica mais actual o galego sem fronteiras acompanha-me de cote. No entanto, porfio neste meu particular estilo de inequívoco sabor galego com sufixaçom medieval. Qual poderia ser a vantagem de confiná-lo num restrito reduto provincial sem vistas ao exterior?

 

1 Tesouro Medieval Informatizado Língua Galegahttps://ilg.usc.es/tmilg/index.php

2 We in the world, Nós no mundo. Informa anual 2020. A paradiplomacia galega na nova normalidade: https://www.igadi.gal/web/sites/all/arquivos/igadi_weintheworld_2020.pdf

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