Nas poesias de “sexo estranho com desconhecidos em lugares impróprios”, de Natália Nolli, a descoberta do ser por meio de interações com a urbe e suas gentes, de forma feminista.

Escrito por Simone Paz

sexo estranho com desconhecidos em lugares impróprios é um livro de poesia erótica e feminista, que dialoga muito diretamente com a cidade e seus movimentos: transporte público, terminais, parques, ruas, prédios de escritórios, cinemas, elevadores, apartamentos, hospitais.

O movimento de um trem, a errância de um trajeto, é também o movimento de um corpo, ou de uma corpA — como a autora, Natália Nolli Sasso, prefere chamar.

O poema inicial, e que dá título ao livro, encerrava o primeiro volume da trilogia Sexo SP, Ninfas do Tietê. Este, por sua vez, também será relançado pelo Selo Libertária, marca desenvolvida pela autora para abraçar todos os seus materiais: e-books, audiobooks, curtas-metragens, saraus e, é claro, os livros — que contam com coedição da cearense Substânsia.

Conversando com Natália, ela me conta que se sente muito representada pelo pensamento de Audre Lorde (a escritora caribenha-americana, feminista, lésbica e ativista dos direitos civis que viveu de 1934 a 1992) — embora só tenha descoberto sua obra e legado recentemente, depois de já ter escrito o Ninfas do Tietê e o sexo estranho.

Em ensaio disponível no blog Peita.me, Audre Lorde sintetiza: “O erótico tem sido frequentemente difamado pelos homens, e usado contra as mulheres. Tem sido tomado como uma sensação confusa, trivial, psicótica e plastificada. É por isso que temos muitas vezes nos afastado da exploração e consideração do erótico como uma fonte de poder e informação, confundindo isso com seu oposto, o pornográfico. Mas a pornografia é uma negação direta do poder do erótico, uma vez que representa a supressão do sentimento verdadeiro. A pornografia enfatiza a sensação sem sentimento.”

Esse pensamento, do erótico como poder que luta contra o enfraquecimento dos corpos, fica nítido nas poesias de Natália Nolli. Em sexo estranho, a construção da identidade dx narradorx de cada poesia, se dá por meio de um corpo erótico e que, a partir de suas experiências sexuais, se encontra e se percebe no mundo.

Por momentos, sexo estranho tem o poder de nos fazer sentir que estamos assistindo a um filme: é estético, atmosférico, cinematográfico, com suas transas na rua Augusta ou nos jardins de uma universidade carioca:

56 – literatura pra baixo da cintura

poesia indiscreta

que mesmo paulista, não é concreta

poesia-fêmea

nem toda escrita é macha

nem todo poema troca marcha

engata

rasga o asfalto

caminha ereto

por curvas em linha reta.

Há ainda os momentos em que Natália consegue criar um paralelo entre o nome de um bairro, um acontecimento político e um momento histórico crucial, como no caso da poesia chamada República:

13 – República

alcanço o céu de três bocas

estrelas caem atrás de nós

ninguém repara

no escuro

me apalpa

não vejo quem me deseja

não sei quem me beija

poderes desabam na Venezuela

enquanto lambo alguns dedos

Nele, estabeleço um paralelo com o final de fevereiro de 2019, era carnaval no Brasil, enquanto a Venezuela sofria um golpe. O poema se passa na República ou numa república, falando de outras repúblicas?

Sei lá, mas a viagem cheia de curvas pelas páginas de sexo estranho vale cada minuto.

O livro foi lançado em setembro deste ano graças a um edital da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (PROAC), do Governo do Estado de São Paulo.

Conheça mais sobre a autora e seu universo criativo, no perfil: instagram.com/selo_libertaria

 

[Ilustrações: Persie Oliveira – fonte: http://www.outraspalavras.net]