Escrito por Susana Dobal

Cheguei em Brasília quando as árvores ainda eram baixas e esparsas, o vazio era bem mais extenso e a terra vermelha predominava no vasto espaço entre os prédios. Eu era uma criança, mas tinha consciência suficiente para reconhecer uma certa estranheza, inarticulável, do lugar onde a vida ia continuar. Quando cresci, li as duas crônicas da Clarice Lispector sobre a cidade (Brasília (1962) e Brasília: esplendor (1974)) que soaram como uma epifania: os textos não só tinham eco nas minhas lembranças pois eu reconhecia o que ela estava dizendo, como também desvendavam um território impensável que a palavra pode atingir. Para falar mais precisamente da cidade, ela não descreve nada que não sejam sensações e outras situações que possam expressar o impacto daquele cenário do começo de Brasília.

Essa escrita me dizia que uma entrada pelo avesso do mundo pode flagrá-lo com mais precisão. Há mais de vinte anos fiz essas fotos, com um filme em preto e branco, dos objetos da casa materna combinados a trechos daquelas crônicas – uma prática que repeti ao longo da vida fotografando frases de autores que me impressionavam. Hoje, retrabalhando as imagens, penso que eu procurava algo no avesso dos objetos domésticos. Talvez eu quisesse flagrar o momento em que as coisas se multiplicam em outras facetas e sobrevivem como ecos à espera de novas impressões que as venham reacordar. Ao rever esses negativos e tratar as imagens, faço um tributo a quem pisou na cidade em que cresci e deixou um poderoso rastro.

 

 

[Imagens: Susana Dobal – fonte: sotaquesbrasilportugal.wordpress.com]