Era como um raio urgente: um espectro pulsante da língua a qual, Clarice Lispector (1920-1977), nascida Chaya Pinkhasovna Lispector na Ucrânia, radicada naturalizada desde sempre (como ela mesmo dizia), no Brasil, escrevia. Jornalista e escritora – para muitos, a maior escritora do século XX e a maior escritora judia desde Franz Kafka – conectava em sua escrita os ecos do que sentia no mundo ao redor de si e das cidades. Escrevia pulsações. E nesse ano turbulento, o 20XX, o isolado ano pandêmico, tornar-se-ia Clarice, centenária, em meio a sua já existente eternidade. Não escrevia para agradar ninguém.

Do percurso literário de Perto do coração selvagem até A Hora da Estrela, muitas portas fechadas, outras abertas e um feminismo nato que exalava da artista por sua atitude totalmente refinada e autêntica. É como se reconhecemos em Ana (Amor, 1960) as suas indagações do cerceamento que a escolha pelo lar a trazia, que se espelhavam em nós mesmos; em Macabéa (A hora da Estrela, 1977), que nasceu de escritos em versos de cheques e maços de cigarros, a dor de ser estrangeira em seu próprio país, os abusos verbais, físicos e mentais; na banalidade do cotidiano em ruínas de G.H (A paixão segundo G.H., 1964), no invólucro do mundo des-reconhecido até o surgimento do universo em uma construção genealógica e cosmogônica (O Ovo e a Galinha, 1964). Assim, em meio ao caos e uma vida de questionamentos, a autora reverbera até hoje seus ecos, que provam sua existência no imaginário literário a todo tempo. Provação significa que a vida está me provando. Mas provação significa também que estou provando. E provar pode ser transformar numa sede cada vez mais insaciável (Clarice Lispector, em nota sobre A paixão segundo G.H.). Estilhaços de palavras que procuramos e que não tem nome, nem endereço, nem dicionário. Ecos de Clarices.

Para essa edição especial do Dossiê Língua Portuguesa fui presenteado pelo trabalho de três mulheres incríveis e talentosas de três gerações diferentes, conectadas pela urgência da resistência. Compartilhou conosco as fotografias usadas nessa edição do dossiê, Susana Dobal, doutora em história da arte, fotógrafa e professora na Universidade de Brasília, captura um olhar sobre a passagem de Clarice por Brasília. Com pegada ativista do jornalismo social e das relações internacionais a produtora cultural, escritora, tradutora e fotógrafa, Renata Humann faz um panorama textual sobre Patrícia Galvão, a Pagu. Para fechar com delicadeza no grito de alerta, a cantora, compositora e escritora brasiliense Clara Telles nos emociona com um manifesto da força feminina nas artes.

Um bálsamo que eu, confesso admirador da força nativa e criadora feminina, só tenho a agradecer por esse presente que é o privilégio de conectar e poder trazer essas histórias em ecos, reverberando a Clarice nossa de cada dia em cada um de nós.

Curadoria: Marlus Alvarenga

[Imagens: Susana Dobal – fonte: sotaquesbrasilportugal.wordpress.com]