Tudo é para agora — e, assim, processos, lutos, ideias e até futuros são encurtados. Esse ritmo frenético gerou uma “sociedade do cansaço” e impossibilita o verdadeiro encontro. Mas e se nos libertarmos do tempo para exercitar a lentidão?

James Ensor – Masques regardant une tortue (1894)

Escrito por Marcelo Saturnino da Silva

– São as crianças que sabem o que procuram – disse o principezinho – Perdem tempo com uma boneca de pano, e choram quando elas lhes é tomada…

– Elas são felizes – Disse o manobreiro.

O tempo urge; tempo é dinheiro… Não há tempo a perder – Eis os jargões de nosso tempo!

Somos constantemente confrontados a não perdermos tempos, vivemos apressados, correndo, corações acelerados… Acabrunhados por trabalhos que nos privam de nós mesmos, por mil e uma atividades, por agendas intermináveis e compromissos infinitos.

Já não respeitamos o ritmo biológico e natural, o ritmo da vida, da nossa própria vida e da vida dos outros seres com as quais nos relacionamos. Assim é que utilizamos, cada vez mais, hormônios e outros produtos visando acelerar o crescimento de animais e plantas, utilizados para consumo humano; criamos medicamentos para abreviarmos a vivência do luto; e, como já denunciado pelo filósofo alemão Hans Jonas, nossas técnicas têm-nos possibilitado antecipar e, esgotar, no presente, o nosso futuro e o futuro das gerações vindouras, numa voracidade sem limites que coloca em risco o direito das próximas gerações ao recursos naturais necessários à manutenção da vida (ar, água, fauna, flora, solo etc.).

Recentemente o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han denunciou a pressa que caracteriza nossas sociedades contemporâneas, por ele denominadas “sociedades do cansaço” que têm produzido seres humanos esgotados, cansados, depressivos. Para Han (2017, p. 91), o depressivo é um “sujeito esgotado de si mesmo, de lutar consigo mesmo. […] Desgasta-se correndo numa roda de hamster que gira cada vez mais rapidamente ao redor de si mesma”.

Em 1969, Paulinho da Viola compôs a música “Sinal Fechado” na qual retrata a fugacidade dos encontros humanos, como traço que marca as sociedades industriais e que ganha contornos inéditos nas sociedades pós-industriais, nas quais, como lembra Han, somos constantemente convocados a ultrapassarmos nossos limites, na perspectiva de um sucesso profissional lançado ao infinito. Interessante que logo no início da música os interlocutores (no sinal fechado) pontuam: “vou indo correndo pegar meu lugar no futuro” ou “em busca de um sono tranquilo” e diante da pressa que impossibilita o verdadeiro encontro, um dos interlocutores dá um passo em direção a uma certa responsabilização, chegando a pedir perdão (“me perdoe a pressa”), mas, logo voltando atrás e apresentando uma justificativa para o não encontro, já que, se há pressa, esta é ditada pela “alma dos nossos negócios”, isto é, não tem relação com nossas escolhas e opções, mas é culpa do sistema, dos “nossos negócios”.

Precisamos parar, libertarmos o tempo, exercitarmos a lentidão, como nos convida o teólogo português José Tolentino de Mendonça, em livro publicado no Brasil, também em 2017. Para o teólogo, vivemos sob o signo da pressa e assim “passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir [como bem exemplifica a música de Paulinho da Viola], juntamos informações que nunca chegamos a aprofundar” e, assim vivendo, nessa velocidade toda, acabamos impedidos(as) de viver… Como não lembrar do preceito bíblico “quem quiser salvar sua vida, vai perdê-la” (Mateus, 15:25).

Que tenhamos a coragem e a ousadia de aproveitarmos o tempo que nos resta para refletirmos sobre os encontros que perdemos (com nós mesmos(as), com os outros, com o mundo, enfim com a vida), sobre o que deixamos para trás quando, ainda nas palavras do teólogo já citado, “permitimos que a aceleração nos condicione desse modo” (MENDONÇA, 2017, p. 20).

Que possamos reconciliarmo-nos com o tempo, para podermos reconciliarmo-nos conosco, com os outros, com o planeta e, em suma, com a vida, inclusive em sua dimensão transcendental.

Referências:

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução: Giachini, Enio Paulo. Petrópolis-Rio de Janeiro: Vozes, 2017.

JONAS, Hans. O Princípio Responsabilidade: Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. da PUC-Rio, 2006.

MENDONÇA, José Tolentino. Libertar o tempo. Para uma arte espiritual do presente. São Paulo: Paulinas, 2017.

SAINT-EXUPÉRY, Antoine. O Pequeno Príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

 

 

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]