Antropóloga examina estratégias de grupos fundamentalistas para negar a pandemia. Mas vê crescente fissura na base evangélica antes ligada ao bolsonarismo, e identifica segmentos com bandeiras progressistas e em defesa da vacina

Jacqueline Moraes Teixeira, em entrevista a João Vitor Santos, no IHU Online

Quem pesquisa os segmentos evangélicos insiste em destacar que não se trata de uma massa homogênica e compacta, mas sim grupos com diferentes perspectivas e nuances. É o caso da antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira que, nesse ano de 2020, percebeu ainda mais essas distinções com relação a experiência da pandemia e todos os desdobramentos políticos frente ao governo de Jair Bolsonaro. Olhando para a Igreja Universal, seu objeto de estudo e que também tem grande representatividade no segmento, reconhece um apoio mais coeso a posturas do governo. No entanto, aponta que tal apoio começa a revelar fissuras nesse ano pandêmico. “Tenho percebido que, pela primeira vez, desde janeiro de 2019, essa aliança entre Bolsonaro e esse núcleo específico de apoio do seu governo — Igreja Universal do Reino de Deus —, começa a dar sinais de um enfraquecimento”, observa, em entrevista concedida via áudios de WhatsApp enviados ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Para Jacqueline, tais fissuras tem relação com o resultado eleitoral de candidatos apoiados por Bolsonaro e também pelo fim de grandes mandatos, como o de Marcelo Crivella no Rio de Janeiro. “Então, assim se configura uma necessidade para garantir boas alianças políticas para manter uma boa performance no Legislativo e uma aliança crescente para produzir, realmente, os acessos ao Executivo”, analisa.

Além disso, outros segmentos descolaram do governo nos temas da pandemia e passaram a defender as orientações de cientistas e da própria Organização Mundial da Saúde – OMS. Segundo a pesquisadora, é interessante ainda observar o discurso de quem ainda seguiu com o governo, como a Universal. Mais uma vez reducionismos não cabem, pois não se trata simplesmente de negacionismo científico. “O que se produzia e se circulava o tempo todo eram outras correntes científicas que diziam coisas distintas dos estudos e das pesquisas divulgadas pela OMS e outras instituições importantes e que realmente estavam fazendo todo o processo de saúde sanitária durante a pandemia”, observa.

Jacqueline chama atenção para uma ideia de fraude e perseguição que transcende a ideia de negar a realidade. Para ela, “é válido refletir como essa sensação de fraude, de adulteração, que é algo fundamental que vai construir todo esse processo que resulta na invasão do Capitólio nos Estados Unidos, também está muito forte e esteve fortemente presente no Brasil durante todo esse período de pandemia, em que teremos o tempo todo uma desconfiança em relação aos dados produzidos pelas instituições científicas”.

Por fim, ainda analisa outra pauta de 2020 entre o segmento evangélico: o antirracismo. Recuperando outros estudos, a pesquisadora comprova que esse é um tema presente em setores evangélicos há tempos e que ainda foi intensificado em 2020. “Esses movimentos se configuram e se apresentam publicamente como ‘evangélicos progressistas’, que não apenas têm formado associações importantes de evangélicos contrários ao governo Bolsonaro, mas que têm produzido posições relevantes para pensar a democracia e a relação entre religião e Estado laico sob outros termos. Como são grupos que também têm pensado a questão racial a partir de uma relação com os movimentos e com o feminismo negro”, destaca.

Jacqueline Teixeira (foto: arquivo pessoal)

Jacqueline Moraes Teixeira é doutora em Antropologia Social na Universidade de São Paulo – USP, onde também obteve o título de mestre. Possui graduação em Ciências Sociais pela USP e graduação em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. É pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – Cebrap, realizando pesquisas na área de gênero, sexualidade e religião. Ainda atua no Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana da USP – NAU, onde desenvolve pesquisas sobre religiosidade em contextos urbanos, e no Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença da USP – Numas. Atualmente é professora substituta no Departamento de Filosofia da Educação e Ciências da Educação da Faculdade de Educação da USP, professora credenciada no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE-USP) e realiza estágio de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS-USP).

Confira a entrevista

A invasão ao Capitólio, nos Estados Unidos, escancarou as reações da chamada extrema-direita, ou nova direita, às instituições constitucionais e a própria democracia. Que relações podemos estabelecer com esse episódio e a associações de grupos religiosos a essas perspectivas políticas, tendo em vista, especialmente, o cenário brasileiro?

Apesar de a gente perceber a presença de grupos religiosos na invasão, com faixas de apoio a Donald Trump e mesmo com as cruzes em homenagem a Ku Klux Klan, (considerando que a cruz sempre foi um símbolo importante para grupos supremacistas brancos), acredito que seja fundamental pensarmos no papel de determinadas lideranças religiosas no apoio ao Trump e a crença de que as eleições presidenciais tinham sido fraudadas. É possível destacar duas lideranças religiosas de alcance nacional, o primeiro deles é Franklin Graham, filho de Billy Graham, um dos mais importantes evangelistas do século XX. Desde a eleição, Graham tornou-se “conhecido, acima de tudo, como o aliado evangélico mais vociferante” de Trump. Ele se opôs fortemente ao processo de impeachment, chamando-o de “inquisição injusta”. Em uma entrevista de 21 de novembro de 2020, Graham sugeriu que a oposição a Trump era obra de um “poder demoníaco”. Em dezembro, quando a revista Christianity Today, fundada por seu pai, Billy Graham, publicou um editorial chamando Trump de “profundamente imoral” e apoiando sua destituição do cargo, Franklin Graham respondeu dizendo que seu pai também votou em Trump.

As postagens constantes de apoio a Trump e de questionamento do resultado das eleições presenciais, e declarações de defesa da própria posição de Trump em relação a invasão do Capitólio resultou em várias manifestações contrárias a Graham, com a produção de uma petição para que ele seja afastado do cargo que ocupa junto a uma associação de ação humanitária.

Não estou tentando estabelecer uma relação direta de causalidade entre as posições publicas dos religiosos que citei aqui e a invasão ou a violência ocorrida no Capitólio, o que estou pensando na verdade é que o modo como posições públicas podem funcionar como produtoras de justificativas éticas para ativismos que representam risco à democracia.

Quando eu escolhi fazer referência à relação entre o Franklin Graham e o Donald Trump, bem como pensar as declarações dele e as afirmações publicadas nas suas redes sociais — redes que são seguidas por milhões de pessoas —, de que as eleições nos Estados Unidos tinham de fato sido adulteradas, considerei que essa relação entre Trump e Graham pode, de alguma maneira, nos ajudar a pensar uma série de questões que relacionam e produzem uma imagem do que se vem configurando como uma extrema-direita ou nova direita no Brasil. E pensando a relação que essa imagem se vai constituindo com determinadas lideranças religiosas. Nesse caso específico, algumas lideranças evangélicas.

Em primeiro lugar, é importante considerar a relevância do evangelista Billy Graham, ou Graham pai, para a configuração das imagens de multidões e ocupações públicas relacionadas ao segmento evangélico no Brasil. Isso porque as suas visitas e cruzadas evangelísticas ocorridas no país, entre os anos 1960 e 1970, produziram, por exemplo, a ocupação de praças, do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, e do Pacaembu, em São Paulo, fazendo com que de alguma maneira se constituíssem as primeiras imagens das denominações evangélicas relacionadas às grandes multidões. A escolha do Graham pai em fundar uma missão evangelística com característica interdenominacional fez com que suas mensagens circulassem pelo Brasil, tanto por denominações que compõem o que entendemos por protestantismo histórico, como por denominações pentecostais e neopentecostais.

Nesse sentido, além de inspirar os enquadramentos para os primeiros programas televisivos evangélicos, por exemplo, e de suscitar as primeiras relações significativas de visibilidade entre ritos evangélicos e equipamentos públicos fundamentais, o Billy Graham (ou Graham pai) também inspirou o modelo de ação política tendo atuado como conselheiro religioso direto, de ao menos quatro presidentes nos Estados Unidos.

Avivamento de igrejas

No ano de 2018, o nome do Billy Graham voltou a circular com força no Brasil em decorrência de sua morte e, nesse período, foi muito comum a circulação em redes sociais e plataformas de notícias gospel uma profecia que foi dita por um outro evangelista, cujo livros e mensagens também circulam pelo Brasil, Benny Hinn, dizia que o ano da morte do Billy Graham e a morte em si serviriam como um sinal para que as igrejas evangélicas se reunissem num grande avivamento. 2018, esse mesmo ano, foi o ano de eleição de Jair Bolsonaro e, lembro bem, acompanhando grupos de WhatsApp das pesquisas que realizo, que era muito comum ver uma vinculação entre a votação do Bolsonaro como uma resposta a esse avivamento, que seria fruto desse sinal enviado por Deus, totalmente atrelado ao Billy Graham, que teria sido um “grande homem de Deus”.

É interessante pensarmos como o Bolsonaro, que tem esse perfil que não parece aceitar conselho de ninguém, se encaixou de alguma maneira nesse imaginário desse estadista ou político que se sentaria à mesa com seus pastores conselheiros e que receberia conselhos de como guiar o país e uma nação que estaria totalmente salvaguardada debaixo do poder de Deus.

A invasão do Capitólio e cenário brasileiro

É válido refletir como essa sensação de fraude, de adulteração, que é algo fundamental que vai construir todo esse processo que resulta na invasão do Capitólio nos Estados Unidos, também está muito forte e esteve fortemente presente no Brasil durante todo esse período de pandemia, quando assistimos o tempo todo uma desconfiança em relação aos dados produzidos pelas instituições científicas, uma desconfiança em relação às mortes e às políticas sanitárias de isolamento social. Consequentemente, sempre há a necessidade de se pensar e se olhar para essa figura central que estaria o tempo todo sendo foco de uma série de conspirações.

Esse, de alguma maneira, seria o jogo que constrói todo o processo e o engajamento dentro das linguagens produzidas pelo governo de Jair Bolsonaro e, de alguma maneira, o modo como isso também constrói as imagens desses movimentos, que se passam a configurar e entender-se como movimentos de direta e de extrema-direita no Brasil.

Você pesquisa há algum tempo essa incidência da religião, especialmente de evangélicos, no espectro político e na vida urbana. Em que medida a experiência mundial da pandemia reconfigura essas relações? E, em específico no caso do Brasil, como a você apreende isso?

Se pensarmos essa relação entre igrejas evangélicas, vida urbana e cenário político nacional durante a pandemia, a primeira coisa que podemos apreender é que a pandemia produziu uma mudança significativa, quase que como uma alteração ontológica de uma paisagem. Isso porque a pandemia exigiu que as igrejas evangélicas, principalmente — pensando no que eu já disse sobre o Billy Graham —, se defrontassem com a necessidade de reconstruir sua imagem pública de religião das multidões, a medida em que grandes multidões ou grandes ajuntamentos deixam de ser permitidos.

Isso trouxe a necessidade de se recalcular e produzir novas imagens sobre essa forma pública de religiosidade. Esse processo vai alcanças desde as igrejas e denominações que aderem muito rapidamente às políticas sanitárias de isolamento social, e realmente deixam de fazer seus cultos mesmo antes disso se tornar de fato foco de decreto, até as igrejas e denominações evangélicas que se recusaram a parar de funcionar e que de fato assumiram de modo mais direto a necessidade de reconfigurar esse enquadramento, de religião de multidão.

Refiro-me a isso pensando na Igreja Universal do Reino de Deus — IURD, que é a denominação neopentecostal que estudo há mais de dez anos, e o modo como durante todo esse período de pandemia a IURD se posicionou contrária as políticas sanitárias de isolamento assumindo para si o compromisso de reconfigurar enquadramentos e atualizar as imagens capazes de manter a experiência pública da multidão, e isso se deu logo no inicio da pandemia, quando a igreja orientou para que as pessoas se organizassem para cumprir alguns horários de culto, ajoelhadas nas ruas próximas a algum templo da IURD, mantendo um metro de distancia entre uma e outra. Essas imagens circularam pelas redes sociais da igreja, pelos grupos de whatsapp e foram foco de reportagens na Record. Isso trazia a ideia de uma religiosidade cuja possibilidade de realização depende sempre de sua capacidade de produzir figuras públicas, de uma corporeidade cuja expressão religiosa depende sempre das condições para se produzir formas de ajuntamentos públicos. Essas imagens foram fundamentais para se sustentar, ainda no primeiro trimestre de pandemia no Brasil, a defesa de que igrejas deviam ser reconhecidas como serviços essenciais para garantir a realização de cultos e outras atividades presenciais.

Também foi importante para fortalecer pautas como o uso de medidas preventivas e profiláticas ao Covid 19, fortalecendo a distribuição de alguns medicamentos que compunham o chamado “tratamento precoce” isso tanto em igrejas evangélicas como em fundações e associações de confissão católica. Esse princípio de uma religiosidade que só se realiza mediante a suas possibilidades de ocupar, de produzir imagens de ajuntamento público podem ser recuperadas também se pensarmos nas manifestações intituladas: “Evangélicos contra o isolamento social” ocorridas em 1 de junho de 2020, em várias cidades do Maranhão, em protesto contra as medidas de lockdown defendidas pelo governador do Estado, além de exibir bíblias e de cantar hinos que falavam sobre o Exército de Cristo, os manifestantes queimaram máscaras e frascos de álcool gel em praça pública. Essas imagens foram importantes na construção de uma cortina de desconfiança em relação a medidas sanitárias e mesmo, do número de mortes durante a pandemia, o que garantiu, ampla circulação das críticas de desconfianças apontadas pelo próprio Jair Bolsonaro.

Discursos negacionistas?

Esse processo também vai constituir-se por uma série de discursos que passamos a entender como discursos negacionistas, mas olhando a partir dos dados que coletei durante esse período de pandemia, principalmente os dados circulados pela Igreja Universal, não se tratava de uma política negacionista, mas fundamentalmente de uma disputa por discursos científicos. O que se produzia e se circulava o tempo todo eram outras correntes científicas que diziam coisas distintas dos estudos e das pesquisas divulgadas pela Organização Mundial da Saúde — OMS e outras instituições importantes e que realmente estavam a frente de todo o trabalho de articulação de medidas sanitária durante a pandemia.

Essa disputa traz novamente à tona essa relação significativa entre Estados Unidos e Brasil, na medida em que vários desses institutos de pesquisa e várias dessas pesquisas tinham sido produzidas em universidades privadas norte-americanas, que são reconhecidas como importantes laboratórios produtores e formadores de cientistas e acadêmicos de uma chamada direita política ou de um pensamento conservador.

Ainda sobre a pandemia, sua experiência escarnou uma crise ambiental, uma imensa desigualdade e gerou um assombroso desemprego. De que forma esses grupos (político-religiosos, se dá para chamar assim) têm reagido a essas consequências da grande crise pandêmica?

É preciso ressaltar o quão segmentado e difuso são os evangélicos e, consequentemente, o quanto, de alguma maneira, quando estamos pensando em respostas, ou possíveis soluções ou possibilidade de gestão dessa grande crise pandêmica em que continuamos mergulhados, estamos falando de uma infinidade de respostas, de inúmeras possibilidades e, portanto, de vinculações políticas que também resultam de várias dessas práticas e posições.

Nesse sentido, podemos pensar que determinados grupos de lideranças e denominações evangélicas permaneceram mais próximos das pautas e do modo como o governo Bolsonaro vem lidando com a pandemia. Esse engajamento com a narrativa do governo acerca da pandemia, desenvolvida, sobretudo, no âmbito do Executivo Federal, se dá para algumas lideranças evangélicas pela defesa da garantia da manutenção do funcionamento dos serviços considerados não essenciais, assegurando a manutenção de postos de trabalho, justificativa que esteve muito presente na adesão das lideranças e nas posturas públicas da Igreja Universal contra o endurecimento das medidas de distanciamento social.

Por outro lado, existem outros grupos e lideranças evangélicas que pensam a questão da pandemia sob outros termos e, assim, vêm apresentando posturas de distanciamento em relação às práticas difundidas pelo governo Bolsonaro. Um exemplo que posso citar aqui é o modo como várias denominações e lideranças evangélicas têm feito questão de produzir posicionamentos públicos favoráveis à vacina, têm explicitado que a crise provocada pelo covid-19 seja enfrentada com soluções científicas cabíveis – e o que tem suscitado posicionamentos públicos contra o tratamento precoce, que foi difundido não apenas pelo presidente Bolsonaro, mas também pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazzuelo e que continua sendo foco de investimento do Ministério da Saúde em 2021, quando ainda enfrentamos altos índices de infecção e de óbito.

Todas essas posições vão configurando ora um processo de identificação e ainda engajamento com questões relacionadas ao governo Bolsonaro, ora distanciamentos e engajamentos de lutas que tentam, cada vez mais, traduzirem-se em pedidos de impeachment.

Acerca disso, é importante falarmos sobre o documento que foi assinado em protocolado em 26-01-2021, reunindo assinatura de várias associações importantes católicas e evangélicas. Pelo menos 300 lideranças católicas e evangélicas assinaram uma carta pedindo o impeachment de Bolsonaro, o documento sustentou a denúncia de inúmeras negligências e crimes cometidos durante a pandemia, desde políticas públicas em saúde que não foram implementadas, até ações de negligência que causaram mortes e que resultaram também na crise oxigênio vivida em Manaus em janeiro.

Como você analisa os apoios da base religiosa ao governo Bolsonaro atualmente? Que movimentos foram possíveis detectar desde o início da pandemia?

É importante destacar que quando estamos pensando em uma base religiosa para o governo Bolsonaro, e uma base que tem sua substancialidade muito configurada pela participação evangélica, é difícil imaginar as estabilidades dessa base pensando numa aliança política constituída por um grupo que é tão fragmentário. Isso porque ao falar de evangélicos estamos falando sempre de inúmeras denominações, de lideranças distintas, de formas de interpretações bíblicas, de vinculações teológicas específicas — Teologia da Prosperidade, Teologia da Missão Integral e Teologia da Guerra.

Portanto, é sempre muito difícil pensarmos no conteúdo dessa base religiosa do governo Bolsonaro e é importante reconhecermos que a estabilidade de uma base religiosa, que depende significativamente dessa capacidade de engajar e de produzir imagens públicas de ajuntamento, é muito mais um efeito do que de fato de algo possível e factível de se observar nas relações e nas alianças políticas estabelecidas com o governo Bolsonaro. Nesse sentido, estamos o tempo todo olhando para disputas, para novas alianças, para todo um devir de processos políticos que se estão configurando dentro desse efeito que nos permite pensar e visualizar o que seria essa base religiosa dentro do governo Bolsonaro.

O fim do Auxílio Emergencial, o aumento dos índices de infecção por covid-19, o aumento das mortes, a crise no norte do país protagonizada pela cidade de Manaus e a falta de vacinas no momento em que vários países do mundo estão vacinando com muito mais velocidade, tudo isso, logo no início de 2021, tem demonstrado que algumas coisas estão movimentando-se dentro dessa rede de apoio ao governo Jair Bolsonaro por parte de algumas lideranças evangélicas. E quero ressaltar que não estou falando de um apoio geral e homogêneo, ou seja, desse efeito que nos faz pensar numa base religiosa, mas de um enfraquecimento nos engajamentos pró-Bolsonaro, nas relações de apoio dentro de grupos que já o apoiavam e que foram fundamentais para sua eleição no final de 2018.

Igreja Universal e governo: uma relação em crise?

Eu gosto sempre de falar na Igreja Universal, porque se formos embarcar de fato nessa ideia da base religiosa como um efeito, a IURD é fundamental. Vamos voltar um pouco para a relação entre a Universal e o governo Bolsonaro durante todo este período de pandemia, quando chamo atenção para esse ponto, não estou pensando apenas nas atividades e redes sociais da Igreja, mas no modo como isso também produz outros desdobramentos de mídia na medida em que repercute em temáticas abordadas por jornais e programas da Rede Record.

Considerando esses meios de observação podemos dizer que durante a pandemia a IURD demonstrou e usou sua rede para produzir engajamento com as posturas e apostas do governo Bolsonaro, ao fechar um discurso governamental de enfraquecimentos de medidas sanitárias em nome das pautas relacionadas à economia, apostar na retórica da perseguição religiosa e de que havia uma conspiração cujo foco era produzir um pânico social frente a uma doença que poderia ser controlada com tratamento profilático — publicando na Folha Universal, suando seus programas televisivos e as pautas jornalísticas da mídia aberta para divulgar pesquisas científicas favoráveis ao uso da cloroquina.

Durante o ano de 2020 a Igreja Universal, de várias maneiras, fez questão de realmente manter e demonstrar sua coesão e sua importância como base religiosa dentro do governo Bolsonaro. Porém, considerando o atual cenário nesse início de 2021 e os resultados das eleições municipais no final de 2020, quando a figura de Bolsonaro não garantiu engajamento suficiente para eleger candidatos a prefeitura em nenhum grande município do país, teve também a demora de Bolsonaro em manifestar seu apoio a campanha de Marcelo Crivella para a reeleição no Rio de Janeiro. Sem dúvida a derrota de Crivella afeta a relação política entre Jair Bolsonaro e a Universal, derrota política acrescida da prisão e do impedimento para concluir o mandato faltando apenas três dias para a posse de Eduardo Paes.

Se tem um aprendizado importante que as lideranças religiosas que ajudam a compor uma base religiosa de direita no Brasil é que representatividade e engajamento em pautas e candidaturas ao Legislativo e ao Executivo Federal dependem do sucesso e da possibilidade de capilaridade pelos legislativos e executivos de instâncias municipais, tal pedagogia de agenciamento político se tornou muito contundente, por exemplo, na defesa e tramitação de projetos sobre Ideologia de Gênero e Escola sem Partido em esferas municipais garantindo centralidade e visibilidade para essas pautas no governo federal. Isso traz a necessidade de garantirem-se boas alianças políticas capazes de manter uma boa performance no Legislativo e uma aliança crescente para produzir, realmente, os acessos ao Executivo.

Nesse sentido,— considerando esse resultado ruim relacionado ao Bolsonaro nas eleições municipais, o fim do Auxílio Emergencial e toda essa crise que vem com o ocorrido em Manaus, com o aumento dos casos de covid-19 e de mortes, e que vem, na verdade, com a ausência de uma política para pensar a vacina —, tenho percebido que, pela primeira vez, desde janeiro de 2019, essa aliança entre Bolsonaro e esse núcleo específico de apoio ao seu governo — protagonizado em grande medida pela Igreja Universal do Reino de Deus —, começa a dar sinais de um enfraquecimento. Teremos que ver como isso vai continuar e configurar-se no decorrer do ano de 2021. E se esse movimento terá forças para enfraquecer Bolsonaro em 2022.

Nesse ano de 2020, a pauta do racismo voltou à tona. Quais foram as reações entre os grupos evangélicos a essa pauta? Como isso vem sendo – ou passou a ser – discutido nesses grupos?

A pauta racial foi muito forte durante o ano de 2020, isso porque o processo todo provocado pela pandemia escancarou ainda mais as desigualdades que atravessam nossa experiência nacional. Considerando a dimensão racial, essa desigualdade foi escancarada a partir da divulgação do aumento das mortes de pessoas negras, mortes por conta do aumento da violência policial, da violência de gênero e da violência doméstica enfrentada por essa população, e mortes por conta da própria covid-19 — em números a covid-19 é muito mais letal entre pessoas negras do que em pessoas brancas, exatamente porque a população negra é muito mais vulnerável por estar mais exposta ao vírus e ter menos acesso a equipamentos de saúde.

Esse processo promoveu uma série de movimentos sociais e de importantes e significativas manifestações. Tivemos protestos, tanto nos Estados Unidos em decorrência do assassinato de George Floyd, como no Brasil em decorrência do assassinato de vários adolescentes que foram vitimados por operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro. Dentre as milhares de mortes provocadas por violência do Estado ou pelo racismo estrutural, vale lembrar que a gente fechou o ano de 2020 com a morte trágica do João Alberto Freitas no Carrefour de Porto Alegre.

Todo esse processo resulta, consequentemente, em algumas respostas contundentes vindas do segmento evangélico e por parte de grupos evangélicos. Por isso, é valioso destacar, por exemplo, as pesquisas superatuais de Vitor Medeiros e da Simony dos Anjos, desenvolvidas na USP, e de Cleiton Rocha e João Pedro Araujo, ambos da UFRGS, que têm estudado movimentos sociais de populações negras protagonizados por evangélicos, que vêm lutando pela denúncia do genocídio da população negra, denunciando os processos e as dimensões colonialistas que existem dentro da tradição cristã e que marcam a própria constituição da fé do protestantismo no Brasil e das denominações evangélicas.

Evangélicos progressistas

Esses movimentos se configuram e se apresentam publicamente como “evangélicos progressistas”, que não apenas têm formado associações importantes de evangélicos contrários ao governo Bolsonaro, mas que têm produzido posições relevantes para pensar a democracia e a relação entre religião e Estado laico sob outros termos. Como são grupos que também têm pensado a questão racial a partir de uma relação com os movimentos e com o feminismo negro, há uma aliança importante com as teorias feministas e uma aliança significativa com as populações LGBTIQA+. Portanto, é um movimento que se constitui em meio à necessidade de se pensar numa relação com todos os grupos que estariam sendo os maiores vulnerabilizados ou foco de produção de discursos violentos por parte desse outro grupo entendido como extrema direita ou mesmo nova direita.

Esse movimento negro evangélico não surgiu em 2020, ele é bem mais antigo. Temos pesquisas importantes produzidas por exemplo pelo Pr. Marco Davi, que é um pastor Batista e um dos fundadores do movimento negro evangélico, também pela pesquisa de doutorado do Prof. Dr. Rosenilton Oliveira, atualmente professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo — USP. Isso nos mostra o quanto esses grupos já se mobilizavam pensando questões relacionadas às cotas étnicos-raciais e para pensar a necessidade de se construir uma aproximação a uma Teologia Negra.

Dentro desse movimento, por exemplo, temos o Rio de Janeiro como lugar de destaque e nomes que hoje são nacional e internacionalmente conhecidos, como Ronilso Pacheco, que é o teólogo mais importante que temos hoje no Brasil pensando Teologia Negra, Jackson Augusto, que é idealizador da página Afrocrente, e Fabíola Oliveira. Assim, essa tipo de resposta já existe dentro do segmento evangélico, mas é perceptível seu crescimento à medida em que essa mobilização cara na história do movimento negro nacional vai ganhando outros espaços. É fundamental dizer e lembrar que a maior parte da população evangélica brasileira se autodeclara negra.

Teologia antirracista

É essencial compreendermos que, por mais que haja na história do movimento evangélico brasileiro a predominância de vinculações teológicas comuns as trazidas pelos protestantismo norte-americano que defendia a segregação territorial e supremacia branca, algo que se encaixou ao imaginário das políticas de embranquecimento do Estado brasileiro permitindo a produção de dimensões éticas capazes de dar materialidade a projetos políticos tais como o mito da democracia racial ideia de democracia racial. Esses movimentos sociais e teológicos de resistência nos permite enxergar como se dão os engajamentos as pautas raciais entre pessoas evangélicas e como é possível pensar uma teologia antirracista.

Falamos agora de seus estudos mais recentes, envolvendo a ministra Damares e a agenda de Direitos Humanos promovida por movimentos religiosos de direita. Os conselhos tutelares são como que laboratórios políticos para candidatos e partidos. Como você analisa a incidência de candidatos evangélicos nessa eleição para conselheiros? O que isso revela sobre a política e sobre a ascensão de religiosos no campo político?

O último processo de eleição para conselheiros tutelares, em 2019, teve muita visibilidade na mídia, pois discutia-se uma instrumentalização muito significativa por parte de pessoas evangélicas com candidaturas para ocupar esses cargos de conselheiros e conselheiras. Apesar de, na época, isso ser muito visibilizado como grande novidade, e mesmo como algo atrelado a Damares Alves e a eleição de Jair Bolsonaro, para quem pesquisa a presença de evangélicos no cenário político nacional (aqui posso citar pesquisadoras/res que foram fundamentais para minha formação em pesquisa nessa temática, como Paula Montero, Maria das Dores Campos Machado, Joanildo Burity, Ricardo Mariano, Ronaldo Almeida e Christina Vital) esse processo de ocupação que evangélicos vão fazendo na política vem ocorrendo com mais força desde a redemocratização do país, que vai marcar o ingresso majoritário de pentecostais na política, logo esse movimento não foi uma novidade desse último pleito eleitoral. O fato é que para se compreender tais dinâmicas, as quais chamo de pedagogias eleitorais, me parece fundamental olhar para a ocupação majoritária de evangélicos em conselhos tutelares, algo que acontece praticamente desde a fundação do conselho tutelar com a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, nos anos 90.

A Igreja Universal é, sem dúvida, a igreja que desenvolve estratégias mais contundentes nesse sentido. Essa ocupação pode ser pensada como um exercício, um espaço de aprendizado sobre a infância e sobre o léxico burocrático capaz de garantir que se trabalhe junto a máquina do Estado, seja em trabalhos de assessoria parlamentar, seja como parlamentar. Percebi que os conselhos tutelares propiciam uma experiência de iniciação política para pessoas evangélicas sem qualquer histórico de serviço público ou participação política, funcionando assim como, um laboratório em que se pode pensar, treinar, testar algumas pedagogias eleitorais, produzindo formas de ocupação evangélica na política. Para termos uma ideia, na cidade de São Paulo, no ano de 2019, acredita-se que 53% dos conselheiros/as que foram eleitos são ligados a denominações pentecostais, a maioria deles ligados à Igreja Universal do Reino de Deus.

Pautas da infância, a direita e valores conservadores

A construção de uma pauta política sobre a infância a partir dos conselhos tutelares acaba somando-se a um conjunto de pautas que têm constituído a imagem pública dessa relação entre políticos de direita e uma direita religiosa. Tais políticas estariam essencialmente vinculadas à proteção de uma espécie de sexualização precoce da infância, que desloca a luta por direitos humanos protagonizada pelos movimentos feministas e LGBTQIA+ a noção de um pânico moral. Esse não é um processo inaugurado no Brasil, mas é um processo que vamos perceber com muita força nos Estados Unidos ainda no final dos anos 1970, início dos anos 1980, com os movimentos antipornografia, na epidemia da AIDS com a associação da homossexualidade à pedofilia. Algo também presente nas políticas e publicações do Vaticano e que vão sendo organizados e entendidos a partir da ideia de ideologia de gênero. Me parece que a infância se torna um lugar de disputa, que as pautas de proteção contra as formas de violência infantil permite que esse sujeito religioso atualize suas relações com o Estado, apresentando a religião como um saber capaz de conferir direito de proteger um sujeito de direito.

Essa relação entre conselho tutelar e movimentos de políticas conservadores para a infância ficou muito evidente em 2020, por causa daquela triste história da menina de 10 anos que residia no Espírito Santo e que foi vítima de estupro por parte de um tio e engravidou. A gravidez, que tinha o direito de ser interrompida por lei, tornou-se foco de uma disputa envolvendo, não apenas os conselheiros tutelares da cidade, mas também assessores de gabinete da ministra Damares e uma série de influencers digitais de direita que produzem uma mobilização na internet contra o a realização de um aborto totalmente assegurado por lei.

O desfecho dessa história é bem conhecido, sem encontrar quem realizasse o procedimento no estado de residência da vítima, foi preciso levá-la para Pernambuco, para o mesmo hospital que em 2008 uma outra criança vítima de estupro, que também estava grávida, conseguiu a realização do aborto legal. Na porta do hospital um grupo ativista militou contra a realização do procedimento de fronte a outra manifestação que buscava garantir que o direito da criança violentada fosse preservado.

Assim, é possível pensar que os conselhos tutelares funcionam como uma tecnologia eleitoral e como uma tecnologia de aprendizado político, logo, é um lugar importante do exercício das pedagogias eleitorais, isso pelas características dos conselhos, um órgão de proteção e garantia de direitos que é municipalizado, um espaço importante para garantir capilaridade a algumas pautas políticas. Essas relações se estabelecem não apenas no âmbito dos conselhos, mas também com as câmaras municipais, e por sua vez, com outras câmaras estaduais. Assim, os conselhos tutelares se tornam um primeiro lugar no exercício de aprendizado sobre política, e têm, cada vez mais, encontrado um nicho específico no cenário Executivo Federal, na medida em que o ministério da Damares, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos tem-se colocado como lugar específico de busca, formação e auxílio para conselheiros tutelares de todo o Brasil — essa é uma das agendas da Secretaria da Criança e do Adolescente no atual Ministério.