A fronteira se tornou uma das palavras-chave para ler o mundo, interpretá-lo e desvelá-lo. E a cena protagonizada por uma criança haitiana na fronteira Brasil-Peru exemplifica como elas têm sido protagonistas de um mundo pós-fronteiriço

Escrito por Handerson Joseph*

No último dia 14 de fevereiro, uma criança haitiana de aproximadamente 3 anos protagonizou uma cena pós-fronteiriça e humanizou a fronteira. Ela apertou as mãos dos policiais peruanos que formavam uma barreira na fronteira do Brasil com o Peru, no estado do Acre, para impedir a mobilidade das pessoas haitianas que queriam sair do Brasil, passando pelo país vizinho, para retornar ao Haiti e/ou tentar uma vida melhor em outros países.

Enquanto os policiais impediam os migrantes haitianos de cruzarem a fronteira, usando as forças estatais, o menino distribuía apertos de mãos e abraços aos policiais. Uma das cenas mais profundas das/nas fronteiras nesses últimos tempos, no seu gesto, desprovido da securitização das fronteiras, lá estava uma fronteira afetuosa possível, aquela de união enquanto humanos, independente das nossas diferenças etnorraciais, nacionais, linguísticas, religiosas etc.

No gesto do menino negro migrante espelha-se a fronteira da paz, do amor, da compaixão pelo outro. Por vezes os órgãos nacionais e internacionais pregam a paz e a união, mas na prática exercem suas forças destruidoras mais do que as forças humanas e afetuosas para a gestão das fronteiras e das mobilidades das pessoas.

Para transformar as fronteiras

A ideia de um mundo pós-fronteiriço para o qual tenho chamado a atenção em alguns dos meus trabalhos acadêmicos talvez seja a capacidade de transformar as fronteiras estatais em humanizadoras. O mundo e os governos têm muito o que aprender com as crianças, principalmente nos modos de gestão das fronteiras e das migrações.

As crianças têm sido protagonistas de um mundo pós-fronteiriço. Muitas delas, quando chegam às fronteiras, principalmente entre os Estados Unidos e o México, são separadas de seus pais e familiares, sem saber se um dia se poderão reencontrar nos corredores da vida e nos corredores migratórios. Outras não agem olho por olho, dente por dente, mas respondem à militarização das fronteiras com abraços e apertos de mãos, como a cena do menino haitiano.

Nessa última década, a fronteira se tornou uma das palavras-chave para ler o mundo, interpretá-lo e desvelá-lo. Hoje, as condições de possibilidades de uma transformação do mundo passam necessariamente por uma transformação das fronteiras, passam pela demolição dos muros, a destruição das cercas, a extinção dos regimes de controle e o desmantelamento das tecnologias de vigilância das fronteiras e das migrações.

Negação das fronteiras?

Os regimes e as tecnologias de controle e de dominação devem ser obrigatoriamente substituídos por mais pontes (simbólica e materialmente) para unir as pessoas e os países, por mais políticas equitativas entre indivíduos e nações para diminuir as desigualdades, por mais abraços e apertos de mãos entre aqueles que são de nacionalidades diferentes, em outras palavras, por um mundo pós-fronteiriço, notadamente um mundo sem fronteiras desagregadoras e assoladoras.

As fronteiras estatais devem entrar em ruínas para ceder espaço àquelas que são humanas e humanizadas, no sentido mais profundo e sensível do termo humano. Advogar por um mundo sem fronteiras não significa negar a existência (ainda forte) das que existem entre Estados.

Não se trata, necessariamente, de um mundo sem fronteiras, não há como as negar, pois onde há diversidade e diferenças, lá estão elas, sejam físicas ou simbólicas (culturais, étnicas, linguísticas, religiosas etc). Reafirmar a existência das fronteiras não significa advogar em nome das que são desagregadoras, mas sim dar um passo para transformá-las, humanizá-las, superando a dimensão estadocêntrica para alcançar um mundo pós-fronteiriço. O futuro do mundo é a mobilidade e o devir migratório.

Sobre o autor

Handerson Joseph é doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional, com doutorado sanduíche pela École des hautes études en sciences sociales (EHESS) e pela École normale supérieure (ENS) em Paris. Professor do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGAS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Fronteira (PPGEF) da Unifap (Universidade Federal do Amapá), foi um dos fundadores e coordenador do PPGEF (2019-2020). Fundador do Programa de Apoio a Migrantes e Refugiados (PAMER).

 

[Fonte: http://www.migramundo.com]

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