Um remédio amargo, mas imprescindível para salvar vidas.

Clara Figueiredo _ sem título  _ensaio Filmes Vencidos – fotografia analógica_digitalizada_Recife_2016

Escrito por ELENIRA VILELA*

Ninguém gosta de fechar tudo, parar circulação de pessoas e da economia (são os trabalhadores e trabalhadoras que produzem e fazem circular a economia, viu que descoberta interessante, patrões?). Ninguém acha que suspender aulas, comércio, serviços, cultura, entretenimento é medida simples, sem efeitos colaterais e prejuízos: NINGUÉM! Também ninguém defende que essa medida seja adotada sem medidas de renda básica e refinanciamento e suporte a empresas pequenas e médias para que não fechem e possam manter-se pagando salários), além de autônomos e outros segmentos vulneráveis.

Mas sabe quando um oncologista recomenda quimioterapia ou um ortopedista ou o angiologistas indicam amputação? Eles não fazem isso porque é divertido, porque é a primeira opção, porque é uma opção simples ou porque não conhecem os danos e efeitos colaterais, eles fazem isso porque todas as outras medidas tentadas não surtiram efeito e essa foi a única que restou. A cidade de Fukushima precisou ser evacuada depois de terremoto e tsunami que também resultaram em um acidente na usina nuclear que espalhou radioatividade. Você imagina alguém dizendo que não quer sair porque “vai ter prejuízos”. Claro que vai ter prejuízo, mas é preciso salvar a vida e depois ver como equacionar o prejuízo.

Ah, mas não havia nada que pudéssemos fazer para evitar chegar aqui…

Havia. E foi explicado por cientistas especialistas da área: virologistas, imunologistas, epidemiologistas, especialistas em saúde pública, entre outros e outras.

As medidas eram: distanciamento social; controle e acompanhamento de casos e contatos; uso massivo de máscaras (agora já sabemos que é necessário que sejam máscaras certificadas); higiene das mãos; controle de fronteiras e de circulação em aeroportos, rodovias e ferrovias de quem vem de áreas de contaminação; fortalecimento do sistema de saúde: com aumento de leitos, reforço nos estoques de insumos de saúde e equipamentos de proteção; medidas econômico-sociais que permitissem às pessoas respeitar o distanciamento social e as eventuais paralisações de atividades econômicas, informação clara em pronunciamentos oficiais e campanhas de orientação e esclarecimento.

Todas essas medidas precisavam ser tomadas de maneira coordenada e organizada por um governo central orientado por comitês científicos, em articulação com poderes regionais ou locais e outros poderes (legislativo e judiciário) e organizações da sociedade civil, incluindo sindicatos, associações de moradores, ONGs, imprensa etc. Países como o Vietnã, a Nova Zelândia, a China e a Noruega adotaram esses protocolos. Todos esses países estão com controle da pandemia mesmo sem o uso da vacina, têm números muito baixos de óbitos e de casos. O Vietnã é provavelmente o país que conseguiu o melhor equacionamento, tendo em todo o período – mesmo sendo muito próximo da China onde foram notificados os primeiros casos — 35 mortes, sendo um país de em torno de 100 milhões de habitantes.

Jamais estaríamos defendendo paralisação de todas as atividades não essenciais (essencial de verdade e de maneira imediata são alimentação, abastecimento, energia, serviços tecnológicos e, obviamente, serviços de saúde e de transporte de todos os envolvidos citados anteriormente) e fechamento rígido de fronteiras, aeroportos e rodovias se houvesse outra opção para a situação do momento. E infelizmente essas medidas têm que ser impostas e fiscalizadas de maneira exemplar e rigorosa. Para ter um exemplo, na França durante o período das medidas mais restritivas, se você estivesse andando na rua e suas compras não fossem suficientes para uma semana a multa era de €143, o equivalente a cerca de R$ 940.

Sim, há muitos efeitos colaterais tão ou mais graves do que uma amputação, mas o Brasil como nação, a partir das entidades empresariais e do governo Bolsonaro e com a anuência de (quase) todos os demais poderes e esferas de governo e de parte considerável da chamada sociedade civil optou por deixar rolar. Dar liberdade para o vírus fazer seu próprio caminho e deixar a população à própria sorte. Algumas cidades e estados adotaram medidas de distanciamento social em diversos níveis, mas elas nunca foram tomadas adequadamente e de modo suficiente. Sabemos que era impossível ser suficiente sem haver orientação centralizada e nacional. Mas também sabemos que boa parte dos mandatários de governos estaduais e prefeituras fizeram bem menos do que estava ao seu alcance, com exceções como Edinho (PT, prefeito de Araraquara) ou Alexandre Kalil (PSD, prefeito de BH), entre não muitos outros e outras. É preciso dizer que as grandes empresas representados por suas federações, incluindo banqueiros, indústria, varejo e outras que são os mandantes do genocídio em nível nacional implantaram via sedes regionais uma pressão de todos os tipos contra todos os gestores que adotaram as medidas conforme comitês científicos inicialmente, e a grande maioria cede à pressão e escolhe o lado dos lucros dos grandes exploradores. Assim, pavimentamos um caminho consistente para o desastre que enfrentamos agora.

Estamos no pior cenário possível: as tentativas de controle desarticuladas e precárias (a única consistente foi a suspensão de aulas presenciais) foram eficientes até maio de 2020, de lá para cá a flexibilização das regras antes de diminuição consistente da circulação do vírus geraram mortes e alimentaram uma sensação coletiva de uma normalidade que não existia. A implantação do auxílio emergencial sem planejamento e de maneira desorganizada, com sua redução e posterior interrupção inaceitável, o aumento do desemprego e o aprofundamento de uma crise econômica que já vínhamos alimentando em um contexto de desinvestimento estatal e privatizações, recessão e falta de confiança e, como cereja do bolo, o fim de qualquer distanciamento social efetivo com a realização das eleições e a retomada de aulas presenciais no pior momento geraram uma destruição compatível com cenário de guerra: desemprego, recessão, inflação, desabastecimento (inclusive de insumos de saúde como oxigênio e medicamentos essenciais para sedação), vacinação a passos de tartaruga, colapso do sistema de saúde e do sistema funerário, falta de profissionais da saúde e funerários, fome, fechamento massivo de empresas, paralisação parcial de setores fundamentais como o cultural e, é claro, o pior de todos: centenas de milhares de mortos ainda em crescimento exponencial. Ainda não estamos no ápice da crise, só saberemos que passamos por ele depois que tivermos duas semanas de queda consistentes no número de casos (correspondendo a uma taxa de transmissibilidade menor que 1), seguida por duas semanas de queda consistente e numericamente significativa do número de internações e mortes.

Um aspecto importante da compreensão dessa pandemia é que estamos sempre olhando para o passado quando olhamos os números. O número de casos notificados hoje é resultado do que foi feito há dez ou quinze dias antes, o de internações de 20 dias e o de óbitos de 1 mês antes ou mais. E como o crescimento é exponencial, qualquer medida leva muito tempo para gerar resultados a partir de um certo ponto de descontrole, e somente o tempo não é suficiente, é preciso agir.

O colapso da saúde que estamos vivendo é como o rompimento de uma represa, não se resolve tentando voltar atrás, não é possível voltar atrás. Mas é necessário agir imediatamente. E há poucas medidas que podem ser eficientes para minimizar o tempo de duração do colapso e consequentemente o número de mortes que ainda podemos evitar.

É preciso determinar uma diminuição radical da circulação do vírus e o vírus só se reproduz nas pessoas e sempre passa de uma pessoa pra outra. Assim a medida mais urgente é: cada pessoa tem que ter contato com o mínimo de outras pessoas – o que impõe parar todas as atividades não essenciais para a sobrevivência e mínima qualidade de vida. Quando acontecer esse contato, somente nos casos em que ele é inevitável, o ambiente precisa ser ventilado, as pessoas têm que estar de máscara certificada (cirúrgica bem ajustada, pff1 ou 2, n95), devem higienizar as mãos com frequência e manter distanciamento. Em relação a ambas as medidas, a fiscalização tem que ser rigorosa e exemplar. Para que essas medidas sejam possíveis é absolutamente essencial que uma renda mínima nacional seja implementada de maneira universal o mais rapidamente possível, com a mesma presteza e agilidade que R$ 1,2 trilhão foram disponibilizados aos bancos e que medidas de refinanciamento e manutenção das pequenas e médias empresas. É preciso executar medidas de fortalecimento do SUS e um planejamento do provimento de insumos para a saúde e contratação de todos os profissionais com capacitação para atuar em emergências de saúde e sua valorização e criação de condições para que atuem nas melhores condições possíveis (como proteção de suas famílias, remuneração adequada e seguros). Também é preciso um levantamento e atuação em relação ao sistema funerário.

E em paralelo à diminuição da circulação do vírus é preciso comprar ou produzir, distribuir e aplicar vacinas em todo mundo a quem ela se destina (por enquanto, a maior parte das vacinas aprovadas não foi testada em adolescente com menos de 16 anos e crianças ou em gestantes). A briga por estar na prioridade 1, 2, 3 ou 4 é a briga errada. É preciso comprar vacina pra todos e essa é a briga: ter o número de vacinas para 180 milhões de brasileiros e brasileiras o quanto antes. O Brasil tem uma capacidade de vacinar de 2 a 5 milhões de brasileiros e brasileiras por dia. A vacinação iniciou há quase 50 dias, se estivéssemos vacinando de segunda a sábado 2 milhões de pessoas por dia, já podíamos ter mais de 50 milhões de brasileiros tomado uma dose e 25 milhões tomando as duas. Vacinamos menos de 9 milhões até hoje com uma dose e menos de 3 milhões tomaram as duas doses.

Se as medidas forem tomadas hoje, o controle da situação virá em poucas semanas. Como é um processo que ocorre em progressão geométrica, cada dia que demoramos pra tomar uma atitude pode adiar o controle da situação de semanas para meses e pode significar ao invés de mais 50 mil mortos, 200 mil mortos.

É preciso agir imediatamente para evitar mortes! Sabemos o que fazer!

É urgente!

Obs. 1 Eu sou professora de matemática. Epidemiologia, virologia, imunologia, saúde pública ou áreas afins não são meu objeto de estudo ou de trabalho. O que está sistematizado aqui é resultante do meu conhecimento matemático sobre crescimento exponencial e de tudo que tenho lido e ouvido de especialistas em alguns artigos científicos, vídeos e muitas reportagens e entrevistas de especialistas como Miguel Nicolelis, Natalia Pasternak, Átila Iamarino, Gonçalo Vecina Neto, Ethel Maciel, Margareth Dalcomo, Alexandre Padilha entre outres. Naturalmente que a responsabilidade pelo que está escrito é somente minha. Se você é especialista e encontrar algum erro, inconsistência ou qualquer tipo de problema nas informações ou mesmo opiniões eu agradeço muito se você puder me alertar por meio do endereço eletrônico elenira.blog@gmail.com para que eu possa corrigir ou tornar o texto mais preciso.

Obs.2 Os dados citados são do dia 14 de março de 2021 e infelizmente se alteram muito rapidamente.

*Elenira Vilela é professora e membro da direção nacional do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (SINASEFE).

 

 

[Fonte: http://www.aterraeredonda.com.br]