Radiografia ficcional do massacre de Srebrenica, ‘Quo Vadis, Aida?’ concorre ao Oscar de filme internacional. A denúncia da selvageria sérvia e da inércia global repercute com agudeza e vitalidade

(Divulgação)

Escrito por Carlos Alberto Mattos

A partir de citações bíblicas, a expressão latina « Quo vadis? » (Aonde vais?) adquiriu ressonâncias sobre o caminho que leva ao martírio. Nesse ultradramático filme bósnio, ela se aplica a uma professora que, durante a Guerra da Bósnia, atua como intérprete para as forças da ONU estacionadas na pequena cidade de Srebrenica, então declarada zona internacional segura. Desde a primeira cena de Quo Vadis, Aida?, fica clara a impotência dos capacetes azuis para cumprir sua função de manter a paz e conter o avanço sérvio sobre a cidade.

Aida (em interpretação intensa da atriz sérvia Jasna Djuricic) passa o filme inteiro valendo-se do seu crachá para cruzar as barreiras do acampamento da ONU na tentativa desesperada de salvar seu marido e os dois filhos de uma evacuação que seguramente os conduziria à morte. O massacre de Srebrenica, uma das páginas mais horripilantes da segunda metade do século passado, consistiu no fuzilamento sumário de mais de 8000 homens e meninos sob o comando do general Ratko Mladić, além de estupros seguidos do assassinato de mulheres, em julho de 1995.

A diretora bósnia Jasmila Zbanic não poupa ênfases na caracterização dos militares e paramilitares sérvios, que perpetram uma versão do Holocausto com todos os elementos característicos, exceto a substituição do gás pelas balas. Mas Quo Vadis. Aida? deixa patente também o que mais chamou a atenção do mundo durante aquela guerra, que foi a indiferença internacional perante o genocídio de civis. A tropa holandesa da ONU, mal armada e desabastecida de combustíveis, além de composta em boa parte por jovens intimidados, até insistiu por um ataque aéreo ao exército sérvio, mas não foi atendida. A partir daí, tornou-se virtual cúmplice de um claro plano de extermínio.

Aida vê-se obrigada a traduzir ordens de comando que levariam seu povo para a morte, numa angustiante negociação para salvar sua família. O epílogo posterior aos acontecimentos complementa a figura trágica de uma mulher que sobrevive com a alma estilhaçada.

Um grande esforço de produção foi mobilizado nas filmagens na histórica Mostar (Bósnia e Herzegóvina), com centenas de figurantes e um clima de tensão sem tréguas. Jasmila Zbanic foi responsável por Em Segredo (Grbavica, 2006), outro drama potente sobre mulheres na Guerra da Bósnia. Quo Vadis Aida talvez não ultrapasse os limites de uma radiografia ficcional do episódio. Mas sua denúncia da selvageria sérvia e da inércia global repercute com agudeza e vitalidade.

[Fonte: http://www.cartamaior.com.br]