Deus pede estrita conta de meu tempo
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo
O tempo me foi dado, e não fiz conta
Não quis, sobrando tempo, fazer conta
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta
Não gasteis o vosso tempo em passatempo
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo.
  

 

[Soneto de Frei António Chagas (1631-1682)]

Guitarra portuguesa: José Manuel Neto

Viola de fado: José Carlos Proença

Contrabaixo: Paulo Paz

Coliseu do Porto

Infinito Presente, 2016