Há muita coisa de brasileiro que, em realidade, é de origem africana. Conhecê-las é conhecer a nós mesmos

África

Festa de Iemanjá na Praia do Rio Vermelho, Bahia

Escrito por Bruno Ribeiro Oliveira

O Brasil não existiria como o conhecemos se não fosse a África. O local onde vivemos surge da ligação de três continentes. Da Europa, nós sabemos quase tudo. E, sem problema algum, nós nos consideramos seus herdeiros. Dos povos originários, nada sabemos, infelizmente (e continuamos, de modo geral, a ignorá-los). O mesmo vale para o continente africano. Mas não seríamos quem somos se não fosse a nossa histórica ligação com a África. Há muita coisa de brasileiro que, em realidade, é de origem africana. Conhecê-las é conhecer a nós mesmos. As provas dessa ligação estão por todo o Brasil e até mesmo sob nossos pés.

Não é tão precisa a história de como foi que aqui chegou. Mas o próprio capim que pisamos e que alimenta o gado não é originário das Américas ou da Europa. É provável que ele tenha vindo a bordo de navios escravagistas que saíam do continente africano no século XVIII. Seus nomes são capim-guiné, capim-pará, capim-marmelada e capim-jaraguá. Hoje eles vivem em regiões em que antes havia Mata Atlântica.

O historiador e brasilianista Warren Dean afirma que mais de quarenta espécies de capim importados da África habitam o solo brasileiro.[1] Não fosse a introdução do capim-guiné, como é que os bois da música do baiano Raul Seixas poderiam abanar o rabo em sua canção de 1983 chamada de Capim-Guiné?

Não é apenas pelo capim que a África aparece em canções de Raul. Na música chamada Rock’n’ Roll, de 1989, ele canta as coisas do seu estado de origem, a Bahia. Há dendê, Oxum e Oxóssi na letra da canção.

O azeite de dendê, como é conhecido no Brasil, ou dendém, como é conhecido na Angola, ou elaeis guineensis, como é cientificamente chamado, vive nos dois lados do Atlântico. Em África, o dendezeiro vive do Senegal até Angola. Já o Brasil é o nono maior produtor de dendê no mundo, sendo que 90% da sua produção fica no estado do Pará. Ou seja, o dendê alimenta pessoas nos dois continentes.

Não foi só o dendê que veio da África para encher barrigas. O quiabo e a bertalha vieram para cá, enquanto a mandioca foi virar matapa em Moçambique e acompanhar o mafé no Senegal. Mas não foi só em gastronomia que o Brasil se tornou próximo da África. Raul Seixas não teria citado Oxum e Oxóssi sem que houvesse uma conexão mais profunda com o continente africano, uma conexão entre mentes e histórias.

Os iorubás são um povo que hoje habita a República da Nigéria. Séculos antes de o país tornar-se uma realidade em 1960 (data de sua independência), os povos da região, como haussás, igbos, fulani e os próprios iorubás, foram esporadicamente visitados por gente branca do continente europeu. Entre eles, os portugueses, que durante o percurso para o Brasil, tentavam transformar as pessoas capturadas na África em coisas. Os colonizadores responsáveis pelo tráfico no Atlântico queriam negar a humanidade dos povos africanos.

Ao chegar no Brasil, esses povos, entre eles os iorubás, se tornaram algo novo, mas sem totalmente deixar de ser o que eram. Algo se manteve, algo resistiu. Os colonizadores e traficantes, que pensavam trazer coisas para trabalhar, não sabiam que traziam humanos cujas mentes estavam recheadas com ideias e formas de pensar o mundo que os escravagistas jamais tentaram compreender.

Graças às suas resistências, os iorubás introduziram e fizeram florescer Oxum e Oxóssi por todo o Brasil. Após longo percurso geográfico e histórico, ambos orixás se tornaram parte das religiões presentes e praticadas em todo o território brasileiro.

Não foi só o rock baiano de Raul Seixas que foi influenciado pela nossa história de contato com a África. Os gaúchos do sul do Brasil, até do Uruguai e Argentina, possuem entre seus ritmos tradicionais um estilo musical chamado milonga, cuja palavra é de origem africana, da língua mbunda. Gaúchos também gostam de farofa (palavra de origem quimbundo) acompanhando o seu tradicional churrasco.

Quando eu era criança e ia nas locadoras de videogame para jogar uma ou duas horas, eu aprendia e ensinava manhas (ou dicas, ou cheats) para os outros meninos, mas não sabia que estava a usar uma palavra de origem africana (Cabo Verde). Quando apaixonado, pareço gostar de cafuné (Angola). E hoje sei que os bêbados do bar da esquina da rua de minha casa de infância, quando tomavam algo que eu considerava muito brasileiro, a cachaça, utilizavam uma palavra de origem quicongo (falada em Angola e Congo). Esse algo “muito brasileiro”, a cachaça, possui uma ligação histórica com África. Todas essas coisas ligadas com África estavam presentes na minha fala, na mesa da cozinha e na esquina da minha rua.

Essa conexão histórica entre Brasil e África pode ser lida em mapas. Lagos na Nigéria, Porto Novo no Benin, Ponta Negra no Congo e a República de Serra Leoa, são todas nomeadas a partir da língua dos colonizadores. Essa mesma língua dá nome a Porto Seguro, Salvador, Santarém (que também existe em Portugal) e São Paulo, todas cidades brasileiras. Não é só mostra do colonialismo, é também prova de que as ligações históricas do Brasil com a costa atlântica de África que foi mediada por um poder europeu.

Em Lagos existe um bairro chamado Brazilian Quarter (Bairro Brasileiro), e nele vivem os “brasileiros”. No bairro brasileiro existe a Brazilian Salvador Mosque (Mesquita Salvador do Brasil). Há também escolas de samba e pessoas cujos sobrenomes são da Silva, dos Santos ou Marinho. Existem ainda diversas construções de arquitetura brasileiras que resistem ao teste do tempo desde meados do século XIX.

Lagos foi um importante centro de retornados, aqueles africanos que voltavam do Brasil, principalmente da Bahia. Diferente do Brasil, a Lagos do século XIX oferecia liberdade, algo que era proibido para muitos brasileiros. Um brasileiro como Augusto João Barcellos, foi do Rio Grande do Sul até Salvador e de lá zarpou para Lagos em 1868. Mas Augusto não abandonou o Brasil, seu trabalho de fazendeiro e mercador propiciou uma nova visita a Salvador em 1889.

O exemplo de Augusto mostra como um homem de origem africana tornou-se algo diferente no Brasil, sem que algo de África dentro de si acabasse. E depois de retornar para África, tornou-se um brasileiro em Lagos. Augusto, como muitos outros, é uma prova dessa antiga e ainda presente troca que ocorreu entre o Brasil e diversos povos de África.

A mistura de Brasil com África está por todos os lados, mesmo que não saibamos. Tomemos por exemplo o próprio Raul Seixas. Um homem branco nascido e criado na Bahia (o estado mais negro do Brasil), dentro do país mais negro do mundo fora de África. Seixas escrevia e cantava em português (língua de origem europeia que hoje é luso-afro-brasileira), citando termos iorubás (da Nigéria) em um ritmo criado nos Estados Unidos por descendentes de africanos escravizados, entre eles, Chuck Berry. Este último aparece na canção Rock’n’Roll ao lado do africano (e também brasileiro) Oxum, o paraibano Genival Lacerda e o russo Tchaikovsky.

Não há como falar em uma história geral do Brasil e dos brasileiros sem que exista o continente africano. Não é apenas em salas de aula ou em livros de história que encontramos essas informações. O olhar atento mostra essa presença em nosso cotidiano. O ser brasileiro, de alguma forma, inclui algo de África, uma vez que no ato de ser brasileiro nós encontramos uma salganhada de coisas do mundo, mas entre elas, uma grande parcela é de África.

Bruno Ribeiro Oliveira é mestre em História de África pela Universidade de Lisboa e doutorando do Programa de História e Artes da Universidade de Granada.

[1] DEAN, Warren. A Ferro e Fogo, a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. Companhia das Letras, São Paulo, 2011, p.130.

 

[Foto: Tiago Celestino/ Unsplash – fonte: http://www.diplomatique.org.br]