Escrito por Júlia Corrêa

Conferencista do Fronteiras do Pensamento em junho de 2018, a escritora franco-marroquina Leïla Slimani vivenciou, recentemente, um experimento revelador. A convite da editora Stock, a autora do premiado romance Canção de Ninar (2016) passou uma noite isolada no museu Punta della Dogana, em Veneza, conhecido por abrigar uma importante coleção de arte contemporânea. A proposta era que, a partir das lições extraídas da experiência, ela produzisse um novo livro, que integraria uma coletânea composta também por relatos de outros escritores. Publicada em janeiro deste ano e disponível por enquanto apenas em francês, a obra Le Parfum des Fleurs la Nuit não apresenta ao público nenhuma análise sobre artistas do acervo do museu ou obras de arte específicas — o que o livro traz são reflexões da autora a respeito de temas como confinamento, solidão, intimidade e identidade.

Tais palavras não soam estranhas aos leitores que, diante da pandemia que assola o planeta, passaram, em maior ou menor grau, por alguma experiência de reclusão. Em entrevista à rádio France Culture, Slimani — que é tida como expoente da literatura francófona contemporânea e faz diversas aparições públicas na mídia francesa e internacional — mostrou como as lições expostas no livro valem, claro, para o atual momento, mas não se restringem a ele.

Isso porque, seja qual for a situação de isolamento a que estamos submetidos, dispomos, segundo ela, de um meio de fuga incomparável: a nossa vida interior. “Todos nós temos uma imaginação que é muito mais vívida do que acreditamos e que nos ajuda a superar o confinamento. Pela nossa mente, pela leitura, pelo fato de apreciarmos as obras de arte, somos capazes de perfurar as paredes e atravessá-las”, descreveu Slimani na entrevista à rádio.

É assim que ela convoca os leitores de seu livro a irem a fundo em sua imaginação; a desenvolvê-la adequadamente de modo a não se ficar preso dentro de si mesmo. E qual é a sugestão de Slimani para colocar isso em prática? “Nada nos emancipa tanto”, diz ela, “quanto o conhecimento, quanto a racionalidade, quanto mergulhar nos livros e, de fato, aprender.”

Com esse conselho da escritora, é difícil não lembrar, no contexto brasileiro, da afirmação de Sérgio Buarque de Holanda de que, para o homem cordial, “a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência ». Na sequência de tal constatação do historiador e sociólogo, também salta aos olhos a menção que ele faz a uma frase de Nietzsche: “Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro.”

“Mergulhemos na poesia, na leitura, no cinema… Quando cultivamos a imaginação, somos seres mais libertos, sejam quais forem as circunstâncias”, sugere Slimani. Sem esse verdadeiro cultivo da vida interior, que demanda um mínimo de apreço pela introspecção, vemos, hoje, uma massa de brasileiros que, a despeito das privilegiadas condições para seguir em isolamento, opta por aglomerações em plena crise sanitária (nota-se que não se trata, aqui, de quem não tem essa possibilidade de escolha).

Nesse sentido, Slimani destaca a missão, da qual devem estar imbuídos escritores, intelectuais e meios de comunicação, de reafirmar o “potencial emancipatório do conhecimento” e de revelar a alienação existente quando recusamos qualquer forma de racionalidade. Uma missão certamente árdua em um contexto, como o brasileiro, de índices educacionais baixíssimos, falta de incentivo à cultura e de extrema polarização social, em que a mídia é desacreditada e o debate público nunca chega a qualquer consenso.

Uma chance para o autoconhecimento

Embora tenha seus momentos de reclusão, sem os quais diz ser incapaz de produzir suas obras, Slimani revela que vislumbrou com a experiência no museu a possibilidade de aproveitá-los em sua forma mais completa. “A solidão no mundo em que vivemos nunca existe realmente, pois está sempre ameaçada por um exterior que está aí; ela é sempre reversível, sempre está prestes a acabar”, diz ela, referindo-se aos telefonemas, notificações e demandas que interrompem constantemente nossas atividades.

Aqueles que assistiram à sua conferência para o Fronteiras do Pensamento devem lembrar, com a afirmação acima, do desejo expresso por Slimani de poder se afastar, vez ou outra, de suas obrigações. “Gostaria muito de ter uma pausa dessa pessoa que me habita, que me assombra com suas preocupações, com sua ansiedade, com todos os seus problemas e coisas para cuidar”, afirmou na ocasião. A confissão ilustrava a sua análise a respeito das “pessoas estrangeiras” que vivem dentro de nós; das diferentes facetas do nosso “eu”, com suas identidades e desejos os mais variados. Em última instância, portanto, o apreço pela reclusão e pela introspecção parece ser, para a autora, uma forma de autoconhecimento em seu sentido mais amplo.

[Fonte: http://www.fronteiras.com]