De forma gratuita, chegam ao streaming sete obras do cineasta, com toda sua genialidade — e até os erros fecundos. Entre eles, Câncer (1968), um experimento radical de “pedagogia da violência”, que antecipa a estética do Cinema Marginal

Escrito por José Geraldo Couto

Está no ar desde o último dia 19 uma nova plataforma gratuita de streaming, o Itaú Cultural Play, dedicada especialmente ao cinema brasileiro. E já começa com muita força, colocando à disposição sete filmes de Glauber Rocha, além de seções dedicadas ao cinema negro e ao cinema indígena, entre outras preciosidades.

Os sete filmes de Glauber permitem uma revisão crítica de sua obra e a constatação de que ela continua viva e inquietante como nunca. Do curta-metragem de estreia, Pátio (1959), realizado aos 20 anos, ao último longa, o espinhoso e desconcertante A idade da terra (1980), é possível acompanhar o atribulado desenvolvimento dessa filmografia ímpar.

No cerne desse tesouro estão duas obras-primas incontestáveis, das maiores já realizadas no Brasil: Deus e o diabo na terra do sol (1964) e Terra em transe (1967), ambas incluídas no pacote. Delas já se falou bastante e não vou chover no molhado aqui. Basta dizer que são os exemplos mais perfeitos e felizes da estética épico-barroca que o cineasta deu ao mundo, encantando gente da estatura de Luis Buñuel, Fritz Lang e Martin Scorsese.

O restante da filmografia glauberiana é marcada, em geral, pelo destempero, pela desmesura, pelo erro – com tudo que esses atributos podem ter de fecundo e inspirador.

Fiquemos com dois exemplos, dois longas-metragens realizados praticamente ao mesmo tempo, em 1968, e que são como que faces opostas e complementares da criatividade explosiva do diretor: O dragão da maldade contra o santo guerreiro (ou Antônio das Mortes) e Câncer, ambos também disponíveis na plataforma.

Sangrento western político

O dragão da maldade…, primeiro filme colorido de Glauber, ganhou em Cannes o prêmio de melhor direção, conquista que foi ironizada pelo próprio diretor numa carta a Cacá Diegues: “Eu e Zelito [Viana, produtor] demos gargalhadas dos elogios, todos a mesma coisa – opéra brûlante, chant d’amour et d’espoir, poème flamboyant –, todos uns babacas incapazes de perceber a estrutura de uma cultura diversa da cultura velha clássica europeia etc. Veja só: faço um filme de estrutura comercial, com o objetivo de ganhar dinheiro, e os caras que esculhambaram Terra em transe vêm me dizer que este é o meu melhor filme”.

Mas o mesmo Glauber foi menos cáustico e mais objetivo ao definir o filme um ano antes ao crítico francês Michel Ciment: “Um sangrento western político, uma espécie de terceiro episódio de Deus e o diabo, em que retomo o personagem de Antônio das Mortes, dez anos mais tarde, num sertão modernizado e ainda bárbaro”.

Não poderia haver resumo melhor. O dragão atualiza e reembaralha as figuras apresentadas em Deus e o diabo: o cangaceiro, o coronel, o padre, o matador de cangaceiros, o beato (substituído pela santinha). Só que aqui a alegoria é menos esquemática, os papeis políticos são mais fluidos e instáveis, com a maldade e a santidade mudando de sinal ao longo da narrativa, que parece conduzida mais pelo mito popular e por apelos inconscientes do que pela análise intelectual.

A configuração estética é de uma originalidade chocante, mesclando auto medieval, ópera popular e teatro brechtiano, com longos planos magnificamente coreografados e filmados (a fotografia é de Affonso Beato, então com 27 anos). Se havia muito de John Ford em Deus e o diabo, a exuberância plástica e coreográfica do Dragão remete aos faroestes de Sergio Leone.

Num belo depoimento, Martin Scorsese procurou explicar o impacto que o filme lhe causou na época:

Câncer

Bem diferente, mas igualmente atribulada e significativa, é a história de Câncer, um filme que até hoje pouca gente teve oportunidade de ver. Rodado em 16mm em quatro dias, aproveitando parte da equipe e do elenco (Hugo Carvana, Odete Lara) do Dragão da maldade, demorou quatro anos para ser finalizado.

É uma experiência cinematográfica radical, que antecipa (ou anteciparia, se tivesse sido concluído na época) boa parte do que seria praticado nos anos seguintes pelo chamado cinema marginal ou underground de Rogério Sganzerla e Julio Bressane.

Essa proximidade, que talvez nenhum dos dois lados gostasse de admitir, dá-se não apenas no terreno formal (longos planos-sequências, uso pródigo do faux-raccord, diálogos improvisados, intervenções metalinguísticas), mas também e principalmente na interação com a marginália carioca – num gesto cinematográfico análogo ao do artista plástico Hélio Oiticica, que aliás aparece no filme como ator.

O resultado final é flagrantemente irregular, como costuma acontecer com as obras experimentais. Alguns momentos são muito fortes: uma DR entre Odete Lara e Hugo Carvana que descamba para uma exposição de conflitos de classe irredutíveis; as cenas improvisadas na rua, tendo “populares” como coadjuvantes, a exemplo do “teatro invisível” de Augusto Boal. Outros trechos são pouco mais que laboratórios de improvisação teatral, com diálogos algo desconexos. O conjunto configura o que a crítica Ivana Bentes qualificou de “pedagogia da violência”: são sempre relações de poder que estão em evidência.

A idade da terra

O filme derradeiro de Glauber, A idade da terra, de certa maneira funde todos os passos de sua trajetória. Fundir não é bem o verbo, pois cada uma dessas facetas – o épico popular, a alegoria política, a reinvenção dos mitos, a experimentação formal – sobrepõe-se às outras ou colide com elas de modo aparentemente aleatório, ao sabor da criatividade borbulhante do diretor.

Na contramão de seus companheiros de cinema novo, que de modo geral domesticaram sua linguagem e atenuaram sua contundência política para buscar uma maior comunicação com o público, o diretor baiano radicalizou cada vez mais a sua estética e a sua indignação.

O montador Ricardo Miranda, que coordenou a complexa montagem de A idade da terra, disse anos depois que Glauber queria que as latas do filme fossem mandadas aos cinemas sem numeração, para que cada projecionista as exibisse na ordem que quisesse. (A ideia foi barrada pela Embrafilme, que exigia a numeração.) Seria, virtualmente, um filme diferente a cada sessão, mais ou menos como as leituras alternativas de O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar.

Glauber morreu pouco tempo depois, aos 42 anos. “Não conseguiu firmar o nobre pacto/ entre o cosmo sangrento e a alma pura”, como diz o verso de Mario Faustino que serviu de epígrafe a Terra em transe. Mas bem que tentou. E, puxa, como foi bela a tentativa.

[Foto: Correio Braziliense – fonte: outraspalavras.net]