A performance extraordinária de Elio Germano e um trabalho impecável de sugestão visual recomendam ‘A Vida Solitária de Antonio Ligabue’

(Divulgação)

Escrito por Carlos Alberto Mattos

Se vivesse no Brasil, Antonio Ligabue poderia ser mais um artista do Museu do Inconsciente aos cuidados da Dra. Nise da Silveira. Na Itália fascista, antes, durante e depois da II Guerra, ele viveu sem endereço certo nas cercanias do Rio Po ou internado num hospital psiquiátrico. Sobreviveu e projetou-se na pintura naïf graças ao apoio de um pintor e um escultor, que o acolheram e o estimularam em certos períodos. Essa trajetória chegou às telas em A Vida Solitária de Antonio Ligabue (Volevo Nascondermi), filme valorizado não só pela direção inspirada de Giorgio Diritti, mas principalmente pela atuação singular de Elio Germano, premiado como melhor ator no Festival de Berlim de 2020 e no David di Donatello (o Oscar italiano) em 2021.

Um pequeno documentário da RAI-TV, feito com o Ligabue real em 1962, três anos antes de sua morte (veja aqui), dá uma ideia do trabalho portentoso do ator e da equipe de maquiagem para reproduzir em minúcias a aparência, a conduta corporal e a voz do pintor. Tendo crescido longe dos pais, em condições miseráveis e à mercê de todo tipo de bullying, Antonio Costa (esse era o seu nome de registro) desenvolveu um transtorno que o fazia maltratar-se fisicamente e ter acessos de agressividade. Identificava-se com animais selvagens, que imitava e era o tema principal de seus quadros e esculturas, junto com autorretratos que lembram os de Van Gogh.

Quando teve sua pintura reconhecida, após a guerra, passou a perseguir sonhos infantis como a posse de motocicletas, carros e coelhos. Se tivesse seu trabalho artístico menosprezado, podia destruir as obras com fúria. O desejo de uma companhia feminina, nunca realizado, fê-lo projetar seu afeto em diversas figuras de mulher, de carne e osso ou não. Numa das cenas mais curiosas do filme, ele tira proveito financeiro do pequeno quadro de uma mulher nua.

Giorgio Diritti construiu uma narrativa romanesca em que os vários tempos cronológicos se alternam e se espelham. Sempre presente, a sugestão visual da solidão e da perturbação mental do personagem não deixa que o filme seja apenas uma mímese do modelo real. A fotografia de Matteo Cocco e a trilha musical de Marco Biscarini e Daniele Furlati criam uma atmosfera entre o lírico e o disfuncional. Elio Germano projeta um corpo conturbado contra os espaços de locações impressionantes do Vale do Po, com suas tonalidades terrosas e afrescos gastos pelo tempo.

O filme corre um único perigo, que é o de transformar Ligabue num personagem cômico. A sucessão de episódios na fronteira entre o burlesco e o dramático pode gerar essa impressão. Afinal, ele tinha ora arroubos inesperados, ora posturas quase chaplinianas. Da mesma forma, a cinebiografia omite os incidentes em que Ligabue investia com violência contra outras pessoas. Mas nada disso chega a abalar a experiência fascinante de conhecer um puro gênio artístico na flor do seu inconsciente.

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[Fonte: http://www.cartamaior.com.br]