Autora de obras como Ciranda de Pedra (1955), Antes do Baile Verde (1970) ou As Meninas (1973), tinha 98 anos.

Uma imagem da exposição do fotógrafo Fernando Lemos para a Fundação Cupertino de Miranda, em Famalicão, em que é retratada Lygia Fagundes Telles.

Escrito por Joana Amaral Cardoso

A romancista e académica Lygia Fagundes Telles, há muito reconhecida como a grande dama da literatura brasileira, morreu este domingo aos 98 anos, noticiou o diário brasileiro O Globo, pela voz do seu colunista Ancelmo Gois. A sua agente literária, Lucia Riff, confirmou também o óbito ao jornal Folha de São Paulo. Telles era membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupando a cadeira 16 desde 1985, e começou a publicar em 1938.

Nascida em S. Paulo a 19 de abril de 1923, morreu em sua casa, de causas naturais, diz a imprensa brasileira.

Lygia Fagundes Telles está muito ligada ao conto e à pequena narrativa, como escrevia o PÚBLICO em 2005, quando a escritora foi distinguida com o Prémio Camões. Foi o crítico e escritor brasileiro Hélio Pólvora que a decretou “a imbatível primeira-dama da literatura”. Nesse ano em que recebeu o prémio luso-brasileiro, o também escritor e então jornalista do PÚBLICO Jorge Marmelo frisava: “Fuma cigarros Cartier, bebe café misturado com água e vinho do Porto” e foi seleccionada por um júri encabeçado por Vasco Graça Moura e Agustina Bessa-Luís, a quem sucedeu na distinção com o Camões depois de ter sido proposta em anos anteriores para o prémio; Urbano Tavares Rodrigues e José Saramago eram seus admiradores. Na sua carreira, recebeu também o Prémio Jabuti por Invenção e Memória (2000).

Numa entrevista à amiga Clarice Lispector algures entre 1968 e 69, Lygia Fagundes Telles desmistificava a admiração que a rodeava e as certezas de que entraria num qualquer panteão: “Sou paulista, e como o mineiro, o paulista é meio desconfiado. Então, o certo é dizer com Millôr Fernandes: ‘Quero ser amado em Ipanema, agora, agora’”. Outra referência literária, Lispector questionava a grande dama sobre “O que mais lhe perguntam?”; Lygia responde que a pergunta mais ouvida é “Compensa escrever?”. E responde: “Economicamente, não. Mas compensa — e tanto – por outro lado… através do meu trabalho fiz verdadeiros amigos. E o estímulo do leitor? E daí? ‘As glórias que vêm tarde já vêm frias’, escreveu o Dirceu de Marília. Me leia enquanto estou quente”.

É uma frase que gosta de citar, e que repete ao PÚBLICO em 2011: “O medo da morte é o desconhecido. Ao mesmo tempo penso na ressurreição, na reencarnação. Há um filósofo grego que disse: ‘Pois já fui mancebo e já fui donzela, pois já fui um pássaro da floresta e já fui um peixe mudo do mar.’ Então essa filosofia dá-me muita esperança, porque na reencarnação eu vou voltar. Não sei como, mas vou. Com Deus. Ele vai escolher por mim”.

Uma carreira longa

O seu primeiro livro, Porão e Sobrado, remonta a 1938. Seguiram-se Praia Viva (1944) e O Cacto Vermelho, pelo qual recebeu o prémio da Academia Brasileira de Letras, (1949), que a própria escritora considerava apenas antecâmaras — “a pouca idade não justifica o nascimento de textos prematuros, que deveriam continuar no limbo”, disse em tempos — para as suas obras maiores: Ciranda de Pedra (1954) ou As Meninas (1973). O seu currículo contém ainda títulos como Histórias do Desencontro (1958), Verão no Aquário (1963), Histórias Escolhidas (1964) e Antes do Baile Verde (1970). No romance assinou ainda As Horas Nuas, em 1989, e os livros de contos mais recentes são Durante Aquele Estranho Chá: Perdidos e Achados (2002), Conspiração de Nuvens (2007), Passaporte para a China: Crônicas de Viagem (2011), O Segredo e Outras Histórias de Descoberta (2012) ou Um Coração Ardente (2012).

“A sua literatura incide sobre a classe média branca, aquela onde Lygia nasceu, em 1923, no bairro de Santa Cecília, centro de São Paulo, e na qual cresceu e foi educada”, postula a crítica literária Isabel Lucas quando mergulhou em São Paulo, em 2020, com As Meninas como guia para o presente no “país do futuro”. “Nos seus livros, fala de medo e morte, de amor, de mulheres, loucura, de espartilhos em quotidianos dilacerados.”

Há ainda, na sua bibliografia, muitas crónicas. “Esqueça as crónicas”, pediu à escritora e ex-jornalista do PÚBLICO Alexandra Lucas Coelho quando esta a visitou em sua casa em 2011. “São como uma espécie de sobremesa, sem dar o melhor de mim. O melhor são os contos e os romances.”

A sua obra está traduzida em cerca de dez línguas e foi adaptada para cinema e televisão — Ciranda de Pedra, que escreveu numa fazenda onde em tempos se reuniam modernistas como Tarsila do Amaral ou Mário e Oswald de Andrade, foi, por exemplo, uma novela da Globo em 1981; As Meninas têm várias encarnações no cinema. Em Portugal, a sua obra está editada há anos entre a Livros do Brasil ou a Companhia das Letras, sendo alguns dos títulos disponíveis Antes do Baile Verde, Histórias de Desencontros, A Disciplina do Amor, As Meninas, Ciranda de Pedra, A Noite Escura e Mais Eu ou A Estrutura da Bola de Sabão.

O seu papel político é destacado por Ancelmo Gois no Globo: “Em 1977, em plena ditadura, é uma das autoras do manifesto dos intelectuais contra a censura” e o regime militar que amordaçava o Brasil, recorda, acrescentando que “a académica é considerada uma das grandes referências no pós-modernismo, enquanto suas obras retratam temas como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia”.

Quarta filha de um casal de classe média, viveu nos primeiros anos da sua vida em alguma itinerância — o pai, Durval de Azevedo Fagundes, era delegado e promotor público. A mãe, Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, era pianista. Temiam que a filha, que desde a adolescência entretinha sonhos literários, não se ajustasse na sociedade de então, nem se casasse. “Eu fui na frente, poucas moças escreviam. Levei rajada no peito. A mais importante revolução do século XX foi a da mulher entrando nas fábricas, nos escritórios, nas universidades. Sofri muito, muito, no começo da carreira. As pessoas não acreditavam. Mulher era para casar, ser rainha da casa, no máximo tocar piano. Mas escrever?”, recordou ao PÚBLICO em 2011.

Fez o curso de Educação Física e encetou o curso de Direito, quando já frequentava as tertúlias literárias onde se cruza com os importantes nomes de Mário e Oswald de Andrade. Licenciou-se em Direito e, segundo recorda este domingo a revista brasileira Veja, era grande amiga de Carlos Drummond de Andrade e Érico Veríssimo, que a incentivaram a expressar a sua veia literária. Casou-se por duas vezes, teve um filho, o realizador e actor Goffredo da Silva Telles Neto, e exerceu Direito como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo.

Lygia Fagundes Telles tinha raízes em Portugal, mais precisamente no antepassado João Álvares Fagundes (1470-1527), natural de Viana do Castelo, que recordou quando veio a Portugal receber o Camões das mãos de Jorge Sampaio e Lula da Silva — na altura, recuperou também a frase de Eça de Queiroz sobre como “o português do Brasil é um português com açúcar” e corrigiu: “Com todo o respeito, é um português com sal”.

 

[Foto: ENRIC VIVES-RUBIO – fonte: http://www.publico.pt]