Psicólogas clínicas lembram que as máscaras não devem ficar “indefinidamente” nas nossas vidas, mas pedem calma na transição, evitando níveis elevados de ansiedade, sobretudo para quem tem um sistema imunitário mais frágil.

Escrito por Inês Duarte de Freitas 

Para aqueles que sofrem de doenças crónicas ou têm vulnerabilidades do sistema imunitário, a máscara tornou-se uma melhor amiga ao longo dos últimos dois anos. Agora, perante o fim da obrigatoriedade do uso deste equipamento de protecção individual, muitos são os que se sentem ansiosos — não só pelo medo de contrair a covid-19, mas também por mostrarem por inteiro o rosto. Ao PÚBLICO as especialistas em psicologia salientam que é preciso calma nesta adaptação, mas lembram que a máscara não deverá ficar “indefinidamente” nas nossas vidas.

Não são apenas os imunodeprimidos que se sentem ansiosos por deixar cair as máscaras, “muitos de nós precisaremos de um período de transição para lidarmos com esta exposição”, começa por reconhecer a psicóloga clínica Teresa Espassandim, sublinhando que, para muitas pessoas, esta protecção “foi um conforto”. Sofia Andrade concorda, mas contrapõe, ao recordar que a resiliência que a pandemia exigiu de todos corre o risco de se tornar “resistência”. E justifica: “Esta resistência está associada ao medo. O medo é o despertador da ansiedade.”

Para quem foi directamente afectado pela pandemia, quer sejam aqueles com uma saúde mais frágil, os que tiveram covid-19 com sintomas mais severos ou os que “sofreram a perda de um ente querido”, é natural que “precisem do seu próprio tempo para retirar a máscara com o sentido interno de segurança controlado”, destaca a psicóloga Vera Ramalho. Será preciso também gerir a ansiedade que surgirá de ver os outros sem máscara e, nesses casos, deve imperar o respeito. “Não deve haver julgamentos, nem críticas”, defende Sofia Andrade.

Teresa Espassandim teme precisamente que a máscara (ou a falta dela) crie “uma sensação de distância entre as pessoas”, “aumentado a pressão sobre a escolha individual”. O enfoque, agora, poderá passar para as pessoas que continuam a usar máscara. Esta situação poderá gerar uma “ambivalência de emoções”, diz também Sofia Andrade, acrescentando que “esta insegurança ainda gera muita ansiedade, mas, aos poucos, as pessoas vão-se sentir mais confiantes, sem pressão”.

Contudo, a investigadora e docente no Iscte Rute Agulhas avisa que, se se “passar muito tempo” e o uso de máscara generalizado continuar, “temos de pensar que poderemos estar perante uma situação problemática”. É por esse motivo que Teresa Espassandim incentiva à confiança: “Temos de confiar nas autoridades de saúde que souberam gerir e que se baseiam na ciência. Se nos focarmos apenas nas ameaças, estaremos sempre ansiosos.”

Camuflar o rosto e as emoções

Mais do que um equipamento de protecção, a máscara tem sido também uma forma de diminuir a exposição e até de camuflagem. As especialistas preocupam-se agora com todos os que apresentam níveis de autoestima mais baixos e que se esconderam atrás da máscara nos últimos dois anos. “Tenho uma paciente que me conta que agora lhe elogiavam o sorriso, vendo apenas os olhos. E esta pessoa tem um grave complexo com os dentes. Sente que, ao tirar a máscara, será uma desilusão para muita gente”, relata Sofia Andrade.

Esconder parte do rosto foi uma forma de “aumentar a autoestima de quem nunca a teve”, lembra a psicóloga, especialista em ansiedade. Rute Agulhas acrescenta que a máscara tem dado “uma maior sensação de segurança física, mas também emocional” no que toca a estas questões. “Todos os que sentem algum desconforto com a sua aparência física usaram-na como um escudo protector, seja porque têm borbulhas, os dentes tortos ou o nariz achatado”, descreve. O acto de retirar a máscara faz com que se sintam “despidos”, activando a ansiedade e o “medo de serem criticados, gozados ou rejeitados”.

Além de ocultar o aspeto físico, este equipamento serviu também para camuflar emoções, avança Teresa Espassandim. As pessoas passarão a ver o que o outro sente espelhado no seu rosto e isso “pode ser positivo” na óptica da especialista. “A máscara tem o propósito de nos proteger de um vírus e não de nos esconder. Esconder é evitar. E evitar não é gerir”, refere.

A situação poderá ser especialmente aguda entre os adolescentes — muitos nunca viram o rosto de alguns colegas ou professores e adoptaram a máscara como mecanismo de defesa. Vera Ramalho lembra que os jovens se viram privados de experiências sociais importantes por culpa da pandemia e que agora é hora de incentivar à flexibilidade e à retirada da máscara nas situações seguras.

Caso haja uma resistência em deixar a máscara, Rute Agulhas aconselha os pais a procurarem a origem do verdadeiro problema, já que esta “serviu apenas como um penso rápido” para algo mais profundo. “É importante ouvir, falar e perceber que crenças ou receios podem estar a impedir que o jovem volte a ter experiências sociais sem máscara”, conclui Vera Ramalho.

[Fonte: http://www.publico.pt]