Aline Kominsky-Crumb tinha-se mudado para o Sul de França, onde vivia com o marido, Robert. Artista underground, deixou-se espantar quando galerias do mundo inteiro passaram a querer expor as suas obras. Feminista controversa e sem tabus, a artista norte-americana de origem judaica rompeu os dogmas coletivos e inspirou gerações. Morreu aos 74 anos

Morreu terça-feira, na sua casa em França, a artista Aline Kominsky-Crumb. Tinha 74 anos e um legado com sementes na contracultura da década de 1960 que não simpatizava com as mulheres artistas.

O humor de Kominsky-Crumb foi suficientemente corrosivo para romper grande parte das limitações que eram impostas ao seu género. A franqueza e a familiaridade com a autodestruição pautavam as suas obras, estilo que inspirou novos contadores de histórias imagéticas e que se infiltrou pela cultura de forma transversal.

Nasceu Aline Goldsmith e cresceu em Long Island, estado de Nova Iorque. Sobre esse passado primordial, os primeiros anos de infância e juventude, a artista revelou, numa grande entrevista com o Expresso, a inadequação que sentia e como a arte salvou a sua sanidade mental.

“A minha família era totalmente inculta. Eram comerciantes. Só tentavam fazer dinheiro, eram judeus americanos em Nova Iorque. Queriam ficar cada vez mais ricos, com casas cada vez mais chiques, tudo nessa lógica de novo-rico. Eu era uma estudante mesmo boa e o que queria era ir para a faculdade de Medicina. E eles disseram-me: ‘Não, tu podes casar-te com um médico, mas não podes ser médica’. Eram os anos 1950. […] Seja como for, comecei a ler e a desenhar quando tinha oito anos, para fugir a essa cultura de que nunca gostei e em que nunca me senti confortável. Era mesmo um lugar desconfortável”.

Enveredou pelo universo do underground, na Universidade do Arizona, no final dos anos 60. Há cerca de três meses, em entrevista com o Expresso, explicou como o trabalho que fazia com o marido, Robert Crumb, era “tão underground e tão fora de tudo” que era “espantoso” como grandes galerias internacionais o queriam expor.

Foi em 1972 que a cartoonista se mudou para São Francisco para seguir a carreira artística. Na cidade das liberdades, conheceu o ícone Robert Crumb. Casaram-se em 1978 e tiveram uma filha, Sophie, em 1981, de que Aline Kominsky-Crumb falou também ao Expresso, notando como partilharam as experiências de ambas com o aborto e entrega de um filho para a adoção.

Uma das fundadoras do grupo feminino que produziu a antologia feminista “Wimmin’s Comix” partiu na década de 70 para fazer o próprio destino com a publicação “Twisted Sisters”. A banda desenhada incidia em questões como o empoderamento feminino, críticas ao patriarcado, sexualidade e identidade norte-americana e judaica. Aline transgrediu regras com o humor baseado no grotesco que desafiava as convenções de género e criou uma identidade enquanto Kominsky-Crumb, merecedora de reinterpretações em vários módulos da arte do século XXI.

Colaborou, depois, com o marido numa publicação esporádica, “Aline and Bob’s Dirty Laundry”. Nos anos 80 foi nomeada editora da influente revista “Weirdo”, fundada por Robert. Mas foi na década de 2000 que o trabalho de Kominsky-Crumb se tornou mais conhecido, com galerias de todo o mundo a requisitarem as suas obras.

A artista voltava assim aos lugares de onde tinha ido buscar sentido. “A arte salvou-me, salvou a minha sanidade mental”, expôs-se em entrevista com o Expresso. “Quando ia a museus para ver obras-primas, isso fazia tão bem à minha alma que me dava um motivo para viver”.

 

[Fonte: http://www.expresso.pt]