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Em documento, sem-terra avaliam papel do governo Lula. E apresentam suas propostas para reforma agrária agroecológica, agroindústrias cooperativadas, produção de alimentos saudáveis e Plano Nacional de Reflorestamento

 

O Brasil vive a pior crise de sua história, que se manifesta na economia, na sociedade, no aumento da desigualdade social, nos crimes ambientais, na fome, no desespero e falta de perspectiva que atinge mais de 70 milhões de trabalhadores. Tudo isso se aprofundou nos últimos seis anos, após o golpe contra o Governo Dilma e os quatro anos de um governo neoliberal com práticas fascistas e autoritárias.

A vitória política de Lula nas últimas eleições revelou a vontade da maioria dos brasileiros de mudarmos os rumos, retomarmos os caminhos democráticos, para resolver os problemas urgentes da população brasileira. Essa vitória foi fruto de uma ampla aliança social de todas as forças progressistas e, certamente, marcará também um governo de Frente Ampla, com os mais diversos setores ai representados.

O governo Lula terá o desafio fundamental de enfrentar em caráter emergente as necessidades fundamentais do povo, como o combate à fome, ao desemprego, e investimentos pesados em educação e saúde. E no médio prazo debater com toda sociedade um novo projeto de pais, fundado na reindustrialização e na agricultura produtora de alimentos saudáveis, única forma de retomarmos o crescimento econômico com justiça social.

Na agricultura, se enfrentam há décadas três modelos de organização da produção. O latifúndio predador, que enriquece com a especulação imobiliária e da apropriação das riquezas naturais; o agronegócio, que produz apenas commodities agrícolas para exportação, concentrados em apenas cinco produtos (soja, milho, cana, algodão e pecuária bovina). Os fazendeiros enriquecem, mas não pagam impostos à sociedade graças às isenções das exportações e agridem a natureza com o desmatamento, o uso de agrotóxicos e o monocultivo. E o terceiro modelo é da agricultura familiar que, usando mão de obra familiar, protege à natureza e se dedica a produzir alimentos para suas famílias e para o mercado interno.

Nossa Constituição federal exige que a Terra cumpra sua função social, produzindo racionalmente, respeitando a legislação trabalhista e o meio ambiente. Assim como nossa Constituição, defendemos sempre que o latifúndio é antissocial e deve ser banido, e o agronegócio precisa assumir sua responsabilidade socioambiental, adequar-se às necessidades da sociedade, pagar impostos, parar de usar agrotóxicos e dar condições de dignidade os seus trabalhadores.

Defendemos a agricultura familiar e dentro dela a distribuição de terras dos latifúndios, sobretudo nas proximidades das cidades, para que se multipliquem as famílias camponesas produtoras de alimentos.

Defendemos o desmatamento zero. Não precisamos derrubar mais nenhuma árvore. Precisamos, sim, é de um Plano Nacional de Reflorestamento urgente, plantando milhões de árvores, em todo país, em todos os biomas, no campo e nas cidades. Condição necessária para combater as mudanças climáticas que afligem a população em todo território e a todo planeta.

Defendemos que o novo governo deve implementar urgentemente diversas medidas de políticas públicas – como os Programas de Aquisição de Alimentos e de Alimentação Escolar – buscando a soberania alimentar e para que se amplie imediatamente a produção alimentos saudáveis em todo país. E que se usem os mecanismos de aumento de renda, via bolsa família, e aumento do salário mínimo e do emprego para que o povo tenha condições de se alimentar dignamente.

Defendemos o estímulo da agroecologia como um modelo tecnológico que busca produzir alimentos saudáveis, sem agredir a natureza, gerando mais empregos e melhorando a produtividade física das lavouras. Garantindo assim saúde para nosso povo.

Defendemos um programa urgente de implementação de máquinas agrícolas para agricultura familiar, para que possamos aumentar a produtividade do trabalho, diminuindo o sacrifício humano.

Defendemos a implantação de um amplo programa de agroindústrias cooperativadas em todos os municípios, para beneficiar alimentos e gerar emprego e renda para mulheres e jovens no campo.

Devemos combater todas as forças de exploração no campo, como o trabalho escravo e as péssimas condições dos assalariados sem direitos trabalhistas. Devemos combater o garimpo e ação perversa das mineradoras que depredam nosso meio ambiente e riqueza natural apenas em função do lucro privado. Os bens da natureza devem estar subordinados às necessidades de todo o povo.

Defendemos um amplo programa de educação e cultura no meio rural que dê oportunidade a todas as pessoas, em especial aos jovens, que erradique o analfabetismo, ofertando todas formas de escolarização no interior do país, que preserve e fomente as manifestações e expressões culturais do povo.

Combateremos e denunciaremos todas as formas de violência, discriminação, racismo, misoginia, LGBTfobias e intolerância religiosa que foram alimentados pelo bolsonarismo fascista.

Levaremos essas propostas e ideias para o próximo governo Lula e contribuiremos de todas as formas possíveis para que elas sejam aplicadas.

Nossa missão maior é seguir organizando o povo, para que lute por seus direitos, consagrados na constituinte de 1988, pois sabemos que sem mobilização popular não haverá nenhuma mudança verdadeira no país.

Esses são os nossos compromissos que queríamos reafirmar para toda sociedade brasileira, em tempos de crise e de mudanças necessárias.

 

[Imagem: Tarcísio Nascimento – fonte: http://www.outraspalavras.net]

 

 

Chaque jour, un grand témoin évoque pour « La Croix », ce temps singulier de la crise sanitaire du Covid-19 et du confinement. Aujourd’hui, la psychanalyste Marie Balmary médite et questionne les Écritures. Dieu a-t-il quelque chose à voir avec le fléau de la pandémie ? Peut-on lui trouver un sens ?

Propos recueillis par Élodie Maurot

Je n’ai jamais eu autant de mal à écrire un article. La Croix me demande une méditation sur ce que nous vivons actuellement. Je venais de vivre un deuil et un incendie. Et puis sont arrivés pandémie mondiale et confinement. Pas étonnant que je me sois retrouvée devant la question du sens.

Y a-t-il un sens à découvrir ? Autour de moi, on me met en garde. Danger d’y voir une intervention punitive de Dieu dans l’histoire. Ce sont les hommes qui ont fait quelque part une grave erreur sur la vie. La science sait lire les causes. Pas besoin de chercher un sens…

Pas de chance pour moi, cela ne me suffit pas. Je ne peux pas ne pas entendre en moi la question impossible : Dieu est-il pour quoi que ce soit dans ce qui nous arrive à tous ? Des amis m’ont dit : attention, sur ce chemin les pièges sont partout. Dieu n’y est pour rien. Il nous laisse libres, responsables. Il n’intervient pas dans l’histoire. D’ailleurs, a-t-Il bougé lors de la Shoah ? Je réponds : non, il n’intervient pas dans les violences entre humains : a-t-il sauvé Jésus de ses ennemis ? Dieu est hors de cause.

Mais quelque chose grince dans le cœur des croyants si nous affirmons l’absence de Dieu au monde. Puisque même chacun de nous, individuellement, a sans doute un jour espéré, prié peut-être, pour qu’Il intervienne dans son histoire personnelle, pour lui permettre d’échapper à un danger mortel, pour protéger ceux que nous aimons. Ne disons-nous pas, lorsqu’un malheur nous a épargnés : Dieu merci ? Et tant de psaumes L’appellent à notre secours.

Une guerre ? Il me semble que cela ne nous aide pas de choisir ce terme. Un « fléau » plutôt. Mot mystérieux qui, depuis l’Antiquité, suscite une enquête : pourquoi apparaît-il ici maintenant ?

Si le déluge, Babel, la sortie d’Égypte sont des mythes, alors comment Dieu ne serait-il pas lui aussi mythique ?

Je file dans la Bible, la Genèse et l’Exode. On peut croire qu’il s’agit d’événements symboliques, voire mythiques mais non réels. Seulement si le déluge, Babel, la sortie d’Égypte sont des mythes, alors comment Dieu ne serait-il pas lui aussi mythique ?

Un fléau, c’est en général un phénomène qui vient de la nature. D’où qu’il implique le Créateur. J’entraîne le lecteur dans un essai de lecture. Vous allez trouver que j’exagère. D’accord. Exagérons ensemble et voyons ce que cela donne. Pour cela, il me faut revenir beaucoup en arrière.

Je vais reprendre trois interventions divines dans le récit biblique, mais d’abord entendre ce qui est dit dans le Nouveau Testament de Dieu. Pas d’intervention divine – parce que, comme il est écrit (Jean 5, 17), « le Père agit sans cesse ». Action permanente, donc.

Déluge, Babel et la sortie d’Égypte. Les raisons de ces trois « interventions divines » concernent d’abord la perte de l’égalité en dignité entre homme et femme : en Genèse 6, avant le Déluge, les hommes se croient fils des dieux tandis que les femmes ne seraient que des mortelles qu’ils prennent comme ils veulent. Et alors, « la route » qui menait l’humain mâle et femelle à l’image de Dieu est perdue. Les humains ne seront plus « divinisables ». D’où peut-être que Dieu regrette de les avoir faits. Sauf Noé et sa femme, ses fils et leur femme, et des animaux pour refonder la terre.

Babel (Genèse 11) : un rassemblement « mondial », totalitaire : « Toute la Terre… des paroles uniques. » Des slogans qui ne parlent que travail et technique pour se faire un nom unique, construire une ville et une tour dont la tête atteindra le ciel. Là encore la route de la relation entre humains et avec Dieu est perdue. Dieu les disperse sur la surface de la Terre, arrêtant leur asservissement à leur propre puissance. Il confond leur langue, ils ne se comprennent plus et arrêtent de construire.

Et puis l’Égypte (Exode) : Pharaon fait tuer tous les garçons. Il ne restera que des filles que les Égyptiens prendront comme ils veulent. Les hommes hébreux deviennent esclaves. Moïse demande à Pharaon de laisser partir son peuple trois jours au désert pour fêter YHWH. Faire un sabbat, un arrêt. Pharaon refuse. Il y aura alors les dix plaies d’Égypte. À la dixième plaie, le fléau a « réussi » : Pharaon laisse naître les Hébreux.

La mort du corps n’est pas ce qui peut nous arriver de pire. D’ailleurs, n’est-ce pas notre route à tous ? Le danger, c’est la perdition de l’âme

Lorsque j’ai vu écrit à Paris sur un grand magasin « Ouvert tous les dimanches », j’ai pensé : nous sommes donc en Égypte. Notre fléau à nous apparaît maintenant, alors que nous cumulons, en Occident du moins, les trois erreurs racontées dans la Genèse et l’Exode. Nous défaisons la différence homme/femme, donc la relation, nous construisons une mondialisation de plus en plus technique pour atteindre le ciel (l’homme augmenté, l’immortalité) et nous sommes à nous-mêmes nos propres pharaons, nous soumettant à toujours plus de travail – ou bien pas de travail pour ceux qui ne sont pas bons dans cette course-là. Nous n’avions aucun moyen d’arrêter cela. Or, tout s’est arrêté.

Arriverons-nous, maintenant, à sortir de ce mode de vie, avec notre âme, et la nature – elles demandent que s’arrête le désordre mortel de la surconsommation mondiale. Allons-nous lire selon l’Écriture que lorsque l’humanité va « droit dans le mur », comme cela a été tellement dit, alors la nature, la Terre, la vie intervient ? Hasard ou alerte ?

Dans l’Évangile de Matthieu (10, 30), je lis : «Et ne craignez pas ceux qui tuent le corps et qui ne peuvent tuer l’âme ; mais craignez plutôt celui qui peut perdre et l’âme et le corps dans la géhenne. Deux petits passereaux ne se vendent-ils pas pour un sou ? Et pas un d’eux ne tombera en terre sans votre Père. Et pour vous, les cheveux mêmes de votre tête sont tous comptés. » Passereau ou cheveu, pas un d’eux ne tombera sans votre Père. Curieuse formule. Ce n’est pas le Père qui fait tomber, Il est « avec ».

Il y a, dans ce passage de l’Évangile, une autre chose à laquelle je souscris totalement : la mort du corps n’est pas ce qui peut nous arriver de pire. D’ailleurs, n’est-ce pas notre route à tous ? Le danger, c’est la perdition de l’âme. Il ne faudrait pas que les pouvoirs publics nous asservissent maintenant à notre santé.

Nous imaginons comme il va être difficile de changer nos priorités, de quitter des conforts qui nous infantilisent et des bonheurs catastrophiques. Difficile de trouver accès au désir le plus profond dont ce virus peut nous redonner le goût : la relation aux autres, la reconnaissance (y compris financière) de ceux qui servent la vie et pas le profit, qu’ils soient soignants, enseignants, entrepreneurs à tous échelons… Le désir d’être ensemble en paix dans une nature respectée et bénéfique. Ce désir profond auquel le fléau peut nous faire trouver l’accès.

Ce que je (re) découvre : les nouveaux outils pour échanger

Avant le confinement, je me méfiais des nouveaux outils de communication. D’ailleurs, je ne les utilisais pas, à l’exception du téléphone portable. Aujourd’hui, je réalise qu’ils sont plus porteurs de présence que je ne le pensais. Je découvre que l’on peut en faire un bon usage, même si c’est plus fatigant pour soi et pour l’autre. C’est donc qu’il y a de l’énergie dans la présence physique. Nous nous donnons mutuellement de l’énergie quand nous sommes les uns avec les autres. Il y a quelque chose d’un don dans la présence physique que je ne saurais – et ne voudrais – définir. Comme dans la Visitation de Marie à Élisabeth…

J’ai proposé à mes patients de poursuivre le travail au téléphone. Professionnellement, je le préfère à la vidéo, car je ne suis pas pour le face-à-face d’aussi près. J’utilise les autres outils – avec vidéo – pour poursuivre mon travail avec des groupes de recherche et pour les relations de famille, café Skype et apéro Zoom…

Je me suis demandé si je poursuivrais cet usage au-delà de cette période. Je crois que l’impossibilité nourrit quelque chose que le choix ne rendrait pas forcément possible. Si l’on pouvait faire autrement, est-ce que cela marcherait aussi bien ?

Ce qui me frappe également aujourd’hui, c’est que, quand on demande « Comment allez-vous ? », ce n’est plus une formule sans contenu. Comme si la merveille de la vie cessait d’être une évidence banale. C’est un gain pour nous tous. On sort de l’indifférence. C’est une force que la proximité de la mort donne…

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Marie Balmary, une psychanalyste en dialogue avec la Bible

Marie Balmary est psychanalyste à Paris. Psychologue clinicienne de première formation, elle poursuit depuis plusieurs décennies une relecture du récit biblique, qu’elle mène avec un groupe de lecteurs ayant l’expérience de la psychanalyse. Ce travail de traduction et de mise en résonance des Écritures avec la psychanalyse a donné naissance à plusieurs ouvrages : Le Sacrifice interdit. Freud et la Bible (Grasset, 1986), La Divine Origine. Dieu n’a pas créé l’homme (Grasset, 1993), Abel ou la traversée de l’Éden (Grasset, 1999), Freud jusqu’à Dieu (Actes Sud, 2010).

 

[Source : http://www.la-croix.com]

 

Escrito por Rubén Armendáriz – CLAE

El domingo 20 de noviembre falleció a los 93 años de edad Hebe de Bonafini, militante argentina por los derechos humanos, cofundadora el 30 de abril de 1977 de la asociación Madres de Plaza de Mayo, organización de madres de detenidos-desaparecidos durante la última dictadura cívico-militar que gobernó Argentina entre 1976 y 1983.

El gobierno decretó tres días de duelo en «homenaje a Hebe, su memoria y su lucha que estarán siempre presentes como guía en los momentos difíciles». El presidente Alberto Fernández despidió “con profundo dolor y respeto a Hebe de Bonafini, Madre de Plaza de Mayo y luchadora incansable por los derechos humanos».

«Queridísima Hebe, Madre de Plaza de Mayo, símbolo mundial de la lucha por los derechos humanos, orgullo de la Argentina. Dios te llamó el día de la Soberanía Nacional… no debe ser casualidad. Simplemente gracias y hasta siempre», escribió la vicepresidenta Cristina Fernández de Kirchner a modo de despedida.

La Asociación Madres de Plaza de Mayo anunció este domingo que las cenizas de su fallecida titular, Hebe de Bonafini, descansarán en la Plaza de Mayo por pedido de la propia dirigente.

En 1977, Hebe sufrió la desaparición de dos de sus hijos –Jorge Omar y Raúl Alfredo– y, un año más tarde, la de su nuera, María Elena Bugnone Cepeda, esposa de Jorge, secuestrados y asesinados por la dictadura cívico militar.

A menos de un año de la instauración de la sangrienta dictadura, las Madres, con sus pañuelos blancos, comenzaron a visitar las redacciones de las agencias noticiosas internacionales, tratando de que sus denuncias trascendieran la férrea censura local.

Madre e hija, la historia de la foto (de Adriana Lestido) símbolo de una resistencia.

En 1978, la Madres mostraron su ronda de todos los jueves en la Plaza de Mayo a la prensa internacional que llegó a la Argentina para cubrir el Mundial de Fútbol, mientras a unos cientos de metros del estadio de River Plata, en el centro de tortura, desaparición y muerte de la Escuela de Mecánica de la Armada se torturaba y asesinaba a sus hijos.

“Antes de que fuera secuestrado mi hijo, yo era una mujer del montón, un ama de casa más –declaró en 1982. Yo no sabía muchas cosas. No me interesaban. La cuestión económica, la situación política de mi país me eran totalmente ajenas, indiferentes. Pero desde que desapareció mi hijo, el amor que sentía por él, el afán por buscarlo hasta encontrarlo, por rogar, por pedir, por exigir que me lo entregaran”, decía, “el encuentro y el ansia compartida con otras madres que sentían igual anhelo que el mío, me han puesto en un mundo nuevo, me han hecho saber y valorar muchas cosas que no sabía y que antes no me interesaba saber. Ahora me voy dando cuenta de que todas esas cosas de las que mucha gente todavía no se preocupa son importantísimas, porque de ellas depende el destino de un país entero; la felicidad o la desgracia de muchísimas familias”, añadió.

«Nosotras vamos a seguir caminando y peleando como siempre. No va a haber punto final mientras haya compañeros militantes que acompañen en esta plaza a los pañuelos blancos. Cuando las madres no estén más, deben ser el reaseguro para que otros puedan caminar alguna vez en libertad».

Hebe ha sido y seguirá siendo por siempre, junto a otras voces de otras madres y abuelas, la conciencia de los silenciados, la palabra de los asesinados, la irreverencia de los que no se sometieron al poder ni aceptaron la irreversibilidad de la historia que se ofrecía como una política del olvido y la reconciliación.

El intelectual Ricardo Foster recordó que la voz de Hebe se levantó cuando la mayoría callaba. La inflexión intempestiva de su palabra, nacida del dolor, reivindicó la dignidad en un país atravesado por la mayor de las indignidades y por las diferentes formas de la complicidad.

Fue una voz destemplada e injuriosa como solo sabe amasarla el habla popular que no buscó eufemismos para golpear en el corazón de la injusticia y del terror, pero que tampoco se calló cuando, ya en democracia, muchos exigían cerrar los expedientes de la dictadura, añadió. Icono internacional de la lucha por los derechos humanos, deja tras de sí más de media vida dedicada a la búsqueda de dos de sus hijos, secuestrados por la dictadura militar en 1977.

Hasta el último día se la vio cada jueves frente a la Casa Rosada, para cumplir rigurosamente con las rondas que desde el 30 de abril de 1977 esas mujeres que plantaron cara a la dictadura siguen dando alrededor de la Pirámide de Mayo. Cuando emprendieron su lucha eran, en su mayoría, amas de casa que buscaban por todos los sitios posibles a sus hijos desaparecidos.

Cuando la policía les dijo que no podían quedarse allí y tenían que circular comenzaron a dar vueltas a la plaza. Hebe de Bonafini tenía 49 años y su vida volvía a empezar.

El 5 de octubre, Hebe participó de la inauguración de una muestra fotográfica dedicada a su vida, titulada Hebe de Bonafini, una madre rev/belada. Allí recordó que había tenido “una niñez alegre, donde uno aprendía a disfrutar de las pequeñas cosas en su infancia”. Allí pidió que se llevase a los niños a ver las fotos que la recordaban, para que mantuviesen encendida la llama de sus batallas.

Las Madres fundaron una universidad, bibliotecas, una radio y hasta una señal de televisión. Tuvo siempre el apoyo del kirchnerismo en su gesta por la trascendencia, mientras enfrentaba con dureza al gobierno neoliberal y negacionista de Mauricio Macri y ahora al de Alberto Fernández, al que consideraba un traidor a la causa del peronismo de izquierda representado por Kirchner.

Las Madres nunca abandonaron la lucha, y Bonafini siempre estuvo allí, al frente, fiel a las posiciones más duras. Cuando Argentina recuperó la democracia en 1983, las Madres se dividieron. Bonafini se aferró a la demanda de “aparición con vida” de sus hijos, mientras que un sector más moderado, que pasó a llamarse Madres Línea Fundadora, se avino a negociar pensiones oficiales con la resignación de que sus “desparecidos” ya no volverían.

Su fallecimiento trajo repercusiones internacionales. Los primeros en expresarse fueron los expresidentes Evo Morales, de Bolivia, y Rafael Correa, de Ecuador.  «Muy triste y consternado por la partida de la hermana Hebe de Bonfini, histórica, muy respetada y querida presidenta de Madres de Plaza de Mayo. Su lucha incansable contra las dictaduras por memoria, verdad y justicia, es un ejemplo….», escribió Morales. Correa, por su parte, señaló: «Gracias por tanto, Hebe heroica y querida. Por ti vamos a vencer».

El Punto Final de 1985

imagenEn enero de 1987, poco después de la aprobación de la Ley de Punto Final, Hebe escribió este texto para la revista Crisis, casi un manifiesto contra la democracia gris, esa que necesitaba aplacar la rebelión. Vale la pena recordarlo en momento en que un filme como “1985” quiere hacer creer a las nuevas generaciones que los héroes fueron dos fiscales nombrados por la dictadura, y no el pueblo que combatió y resistió tantos años de horror, con las Madres como ejemplo permanente:

«Las Madres, desde que asumió el radicalismo, le venimos anunciando al pueblo qué es lo que iba a pasar si nos quedábamos esperando lo que el gobierno prometía. Muchos afirmaron que las madres no entendíamos nada, que no sabíamos de política; que había que esperar y que le teníamos que firmar un cheque en blanco al presidente. Las Madres no quisimos firmar porque estábamos convencidas de que los represores iban a ser perdonados. A nuestros hijos se los llevaron por la complicidad de los partidos políticos; eso no lo tenemos que olvidar.

El doctor (Raúl) Alfonsín acaba de decir: «Me explico el dolor de los familiares, lo hago cabalmente, aunque desde luego no comparto el criterio de quienes tomados por ese dolor, quizás hayan asumido las mismas ideas de los pobres muchachos». Nuestros hijos no eran pobres muchachos.

No nos interesa que el doctor Alfonsín nos comprenda, nos interesa que respete a nuestros hijos, porque si él está en ese sillón es porque ellos dieron su juventud y su vida enfrentando a los asesinos. Nosotros somos los encargados de que así sea: las Madres, los compañeros militantes y los que siguen este camino de reivindicación de su lucha. El único pobre muchacho es el presidente, que está postrado ante los Estados Unidos.

También dijo el doctor Alfonsín que cuando se habla de amnistía se miente, pero el único que miente es él porque esta es una ley de amnistía descarada, por más vueltas que le den.

La Asociación Madres de Plaza de Mayo no ha ido a ver a ningún diputado ni a ningún senador. Más aún, por la radio, noches pasadas, yo he dicho que el senador Gass no merece ser padre del hijo que tuvo, porque ha tenido un hijo muy valiente que fue asesinado por la dictadura, luchando por construir un mundo mejor, cosa que no repite el senador.

El doctor Alfonsín afirmó en otro párrafo: «Paramos en el presente para que la justicia haga lo que tiene que hacer, hay que mirar hacia adelante, unirnos y abrazarnos…» La justicia que hay no sirve, porque es una justicia burguesa, hecha para los burgueses y por los burgueses. Nosotras estamos convencidas de que debemos mirar para adelante, claro que sí; por eso enfrentamos a la feroz dictadura y no abajo de la cama, como dijo el doctor Alfonsín impunemente.

La enfrentamos en plena Plaza de Mayo, donde a él nunca lo vi compartiendo las luchas y los peligros. Por eso queremos mirar para adelante junto con todos, con esos jóvenes a los que él está preparando como nuevas víctimas de la represión, acusándolos de ultras. Creo que el único ultra es él, ultraantidemocrático, pues no permite criticas ni disenso.

Habla de que quiere justicia y no el paredón. Ninguna de nosotras quiere el paredón, porque no hay mejor paredón que 30 años de prisión y a él le falta hombría para hacer que los genocidas paguen sus culpas debidamente, día a día.

45 años de la primera marcha de las Madres de Plaza de Mayo - Asociación Empleados de Comercio de RosarioEl nuevo verso de los radicales es preguntar si tenemos odio. Yo les pregunto a los que dicen que no hay que tener odio, si después de ver cómo fusilaban a nuestros hijos cobardemente, cómo los violaban y torturaban, cómo los asesinaban de rodillas y con los ojos vendado, si después de todo esto alguien puede no tener odio. Quien diga que no, es un falso y un hipócrita.

El doctor Alfonsín expresó finalmente todo lo que sentía desde el primer momento. Lo que prometió en su campaña electoral fue falso: fueron mentiras para ganar votos. Él está dispuesto a pagar todo el costo político necesario, de la misma manera que piensa pagar la deuda externa: postrado ante Norteamérica, comprometido con la política de dominación.

Por eso dice que va a pagar el costo, porque él ya se comprometió cuando hablaba del pacto militar-sindical: solo que se olvidó de agregar que era militar-sindical-radical el verdadero pacto. Por eso estamos ahora endeudados, con salarios de hambre, con cuerpos especiales preparados para reprimir y con leyes que entre gallos y medianoche otorgan la impunidad.

Nosotras vamos a seguir caminando y peleando como siempre. Igual que enfrentamos el documento final de la dictadura, que nos hizo movilizar con más fuerza, ahora lo haremos con la ley radical. No va a haber punto final mientras haya compañeros militantes que acompañen en esta plaza a los pañuelos blancos. Cuando las Madres no estén más, deben ser el reaseguro para que otros puedan caminar alguna vez en libertad, sobre todo con el proyecto que tenían nuestros hijos que era, precisamente, lo contrario de lo que dijo Alfonsin respecto a que negaban la dignidad del hombre.Argentina recuerda con un pañuelazo desde casa a las víctimas de la dictadura argentina | Sociedad | EL PAÍS

Nuestros hijos jamás lucharon por causas innobles ni por ambiciones personales: le enseñaron al país que es la solidaridad, la comprensión y el compartir todo lo que se tiene. En cambio, esto nunca se ve en los que nos gobiernan, que son los únicos que se aumentan los sueldos que tienen viviendas privilegiadas y siempre están listos para obtener las prebendas y los beneficios que les da el poder ejercido sin decencia. Justamente todo lo opuesto de lo que querían nuestros hijos, que siguen siendo el espejo que desnuda la prostitución de la casta gobernante.»

Periodista y politólogo, asociado al Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico (CLAE)

 

[Fuente: http://www.estrategia.la]

Pablo Milanés va ser el Fundador de la Nova Troba cubana

Escrit per Alba Solé Ingla

El cantautor cubà Pablo Milanés ha mort aquest dimarts a la nit als 79 anys després de romandre ingressat a Madrid durant més d’una setmana. Milanès, una de les veus més reconegudes de la música cubana, va ser el fundador i artífex del so de la Nova Troba juntament amb altres reconeguts artistes com Silvio Rodríguez i Noel Nicola. Autor de clàssics com Yolanda, Milanés ha publicat més de 40 discos al llarg de la seva carrera i ha obtingut, entre d’altres, el Premi Nacional de Música de Cuba i el Grammy Llatí a l’Excel·lència Musical.

El cantautor cubà va ser hospitalitzat el 12 de novembre a Madrid per « els efectes d’una sèrie d’infeccions recurrents que en els últims tres mesos han vingut afectant al seu estat de salut », segons un comunicat d’aleshores de la seva oficina artística. A partir d’aquell moment va suspendre diverses actuacions que tenia previstes a Pamplona, Ciutat de Mèxic i Santo Domingo. « Aquesta situació clínica -afegia la nota- és secundària a una malaltia oncohematològica que pateix des de fa diversos anys i que li va exigir instal·lar-se a Madrid » a finals de 2017 per rebre tractament.

El comunicat explicava que « de moment ha estat necessari cancel·lar els concerts previstos en les properes setmanes i suspendre tota la seva activitat artística mentre duri aquesta circumstància ». Pablo Milanés ja va haver de cancel·lar el setembre passat algun concert. Una de les seves últimes actuacions en directe va ser el juny passat a l’Havana.

El seu últim concert

« La música ho és tot per a mi, la millor forma que trobo per expressar-me, la millor manera de sentir i fins i tot de pensar. Crec que els músics comptem amb un altre llenguatge molt especial, que ens permet comunicar, això és una cosa única », confessava en una ocasió l’artista, nascut a Bayamo el 24 de febrer de 1943. Milanés afirmava que els seus millors recitals, « els més oberts i espontanis, passen davant del públic de la meva illa ». El juny passat, l’Havana va acollir la seva última actuació a Cuba. I va ser tot un esdeveniment.

Poesia per lluitar contra la política

Fundador de la Nova Troba cubana juntament amb Silvio Rodríguez i el mort Noel Nicola, un moviment musical carregat de caires polítics, Milanés va ser durant les últimes dècades una de les figures de la cultura cubana més crítiques amb el sistema polític de l’illa. « L’any 1992 vaig tenir la convicció que definitivament el sistema cubà havia fracassat i ho vaig denunciar », va declarar després de les protestes antigovernamentals de l’11 de juliol de 2021 a l’illa, les més grans en dècades.

El creador de Para vivir, El breve espacio en que no estás i Amo esta isla, va reiterar llavors la seva confiança en el poble cubà « per buscar el millor sistema possible de convivència i prosperitat, amb llibertats plenes i sense repressió ». El setembre passat Milanes va ser part del centenar d’artistes i intel·lectuals cubans que va subscriure un manifest de la societat civil i es va pronunciar en les xarxes socials per l’impuls de canvis al seu país « dins d’un esperit de sobirania, inclusió i respecte a l’ésser humà, a la seva dignitat i aspiracions més bàsiques. »

[Foto: EFE – font: http://www.elnacional.cat]

A morte do artista foi lamentada por xefes de Goberno e Estado de América Latina e España.

Pablo Milanés nun concerto en Vigo no ano 2019 – Óscar Vázquez

Cuba despediu ao cantautor Pablo Milanés, falecido na madrugada do martes de Madrid aos 79 anos, entre actos solemnes, música e mensaxes de pésame do Goberno da illa e mandatarios do mundo.

Tal e como informa Efe, a noticia non tardou en percorrer o país. Desde primeira hora da mañá os medios oficiais comezaron a dar unha extensa cobertura da traxectoria do artista -fundador, xunto con outros como Silvio Rodríguez, da nova trova- e a radio estatal reproduciu en bucle os éxitos do artista.

Desde Moscova, onde realiza unha visita oficial xunto con boa parte do seu gabinete, o presidente, Miguel Díaz-Canel, enviou as súas condolencias á familia do autor de éxitos mundiais como Yolanda. «Desaparece fisicamente un dos nosos máis grandes músicos. Voz inseparable da banda sonora da nosa xeración», escribiu en Twitter o mandatario.

A mensaxe do Ministerio de Cultura da illa foi no mesmo sentido. No seu sitio web, a institución resaltou a «obra monumental» e as «maxistrais presentacións» do cantautor.

Reaccións internacionais 

A morte de Milanés (Bayamo, oriente de Cuba, 1943) foi lamentada por xefes de Goberno e Estado de América Latina e España. Na súa conferencia matutina, o presidente de México, Andrés Manuel López Obrador, dixo que a morte da icona da nova trova é unha «perda lamentable» para a cultura. «Empezamos enviando un abrazo a familiares, amigos, compañeiros de Pablo Milanés, que faleceu, un gran cantautor que escoitaron moitos as súas cancións. Moitos, moitos», declarou o mandatario.

Tamén se uniu o presidente de Venezuela, Nicolás Maduro, quen se referiu a Milanés como un «grande da trova». Mentres que, o de Colombia, Gustavo Pedro, engadiu que «a arte abandona á música». Do outro lado do Atlántico, o presidente do Goberno español, Pedro Sánchez, utilizou unha das cancións do cantautor para lamentar o seu falecemento.

«Pisaremos as rúas novamente e choraremos aos ausentes no teu nome. A música de Pablo Milanés estará sempre connosco», escribiu.

A morte de Milanés tamén afectou o cantautor cubano Silvio Rodríguez, outro dos pais do movemento e que é, xunto con el, o seu máximo expoñente internacional. Rodríguez publicou no seu blogue a letra de Pablo, unha canción inédita que lle dedicou ao seu compatriota en 1969.

Ambos os músicos interpretaron a dúo temas universalmente coñecidos como «O breve espazo en que non estás» e chegaron a elaborar un álbum conxunto, titulado Cuba nova trova. Haydée Milanés, unha das fillas do artista, expresou a súa gratitude por «os belos e sinceros xestos de amor» recibidos tras o falecemento do seu pai.

Actos na Habana 

Sobre o mediodía, o estatal Instituto Cubano da Música convocou en redes sociais a un concerto en honra de Milanés na zona do Vedado habaneiro. Desde as 15.00 (20.00 GMT) comezáronse a congregar preto dunhas 200 persoas, moitas delas novas, para despedir con música a un dos máis famosos artistas cubanos da historia recente.

«Os mozos cubanos podemos escoitar Bad Bunny ou a Milanés, nós gozamos a música en xeral sen importar a época e el é un dos mellores», contou Mariana, de 23 anos, unha das asistentes. Antes do inicio do concerto, o ministro de Cultura, Alpidio Alonso Grau, sinalou a EFE que a obra do cantautor «perténcenos a nós, perténcelle á vila de Cuba».

Así mesmo, pediu non «politizar» a súa figura. Milanés foi durante as últimas décadas uno dos representantes da cultura cubana máis críticos co sistema político da illa e censurou as sentenzas contra os que participaron nas protestas do 11 de xullo de 2021, as maiores en décadas.

Varias personas hacen cola para entrar en la capilla ardiente de Pablo Milanés, en la Casa de América.

Varias persoas fan cola para entrar na capela ardente de Pablo Milanés, na Casa de América. Alejandro Martínez Vélez

En setembro pasado Milanes foi parte do centenar de artistas e intelectuais cubanos que subscribiu un manifesto da sociedade civil polo impulso de cambios no seu país «dentro dun espírito de soberanía, inclusión e respecto ao ser humano, á súa dignidade e aspiracións máis básicas».

Claudia, outra das novos presentes na homenaxe, dixo que «está ben» que Milanés teña cambiado o seu pensamento pero que tamén «hai que separar a obra e a opinión» que poida ter un artista. A poucos quilómetros do lugar, familiares de Milanés abriron un libro de condolencias no estudo do músico na Habana, no que se congregaron decenas de persoas esta tarde, visiblemente conmovidos.

Amigos e seguidores despiden hoxe a Pablo Milanés na Casa de América

A Casa de América de Madrid acolle este mércores a capela ardente do cantautor cubano Pablo Milanés, que faleceu na madrugada do martes na capital.

A capela ardente permanecerá aberta na Sala Cervantes da Casa de América entre as 10.30 e as 15.30 horas, para que familiares e amigos poidan ofrecer o seu último adeus a unha das voces máis recoñecidas da música cubana, fundador e artífice do son da Nova Trova.

 

[Fonte: http://www.lavozdegalicia.es]

 

 

 

A publicación do ‘Código de Hammurabi e outras compilacións legais de procedencia babilónica’ (Rinoceronte, 2022) traducido da súa lingua orixinal, a acadia, achega textos fundamentais para o desenvolvemento da humanidade. A obra presentouse esta sexta feira en Ribeira. O seu tradutor, Xosé Antón Parada, conversa con ‘Nós Diario’ do « proceso de vertido » ao galego e da trascendencia desta edición que agora ve a luz.

O profesor e experto en linguas antigas, Xosé Antón Parada

Publicado por A. ESCUREDO
—Como naceu a idea de realizar esta tradución?
A miña formación foi filosófica e teolóxica, estudei nun seminario, e aprendín hebreo. Daquela estaba de bibliotecario e tiven que catalogar toda a obra de Amor Ruibal polo que atopei varias edicións do Código de Hammurabi e outros textos acadios. Foi a miña paixón e dediqueime a estas linguas tamén coa idea de dotar ao galego de dignidade con respecto ás traducións que xa existían. Estes textos non estaban na nosa lingua nin había traza de que se fosen publicar, e decidín embarcarme na tarefa.

—Foi difícil o proceso até rematar coa súa publicación?
Pasei primeiro unha etapa dura de formación, entrando en contacto con varios profesores e algunhas universidades, sobre todo dos Estados Unidos de América, que é onde se traballan máis estas linguas.  A lectura de textos cuneiformes non é cousa doada. Presupón unha aprendizaxe de 900 signos distintos. Despois, ao principio non atopaba información no Estado español. Coa aparición de internet conseguín avanzar polo contacto con expertos como Miquel Civil, un dos mellores sumeriólogos do mundo que, após varias campañas en Iraq, pasou toda a súa vida na Universidade de Chicago. Dirixiu parte do meu traballo e achegoume moita información.

—Que significado teñen estes textos dentro da historia universal?
Código Hammurabi supuxo un fito dentro da historia. Lémbrome que a un profesor de historia do dereito alguén do seu alumnado cuestionaba que o código defendía a lei do talión, a de “ollo por ollo”, e a súa resposta era que “é mellor ter unha lei como esa que non ter ningunha”. Supuxo a evolución da humanidade con respecto do que son as formas legais. Non foi o primeiro. Na edición que publicamos está o de Eshnuna e outros. En realidade está unha parte pequena da obra primitiva en xeral que non puido saír ao exceder o plan inicial e pasar de 500 páxinas. Están as compilacións legais máis importantes do período babilonio, por iso son catro obras.

Código de Hammurabi foi o máis importante tanto pola súa fixación por mantelo escrito como pola súa transcendencia social na época. Hai que ter en conta que se fixo nun momento en que o rei Hammurabi acababa de pacificar a contorna territorial. No prólogo e no epílogo xa di que esta obra é para que o pobre non sexa oprimido polo rico e o poderoso non oprima ao débil. A súa importancia, polo tanto, está en que foi un sistema de pacificación nun territorio que era, naquela altura, un crisol de distintas etnias.

A nivel xurídico tamén tivo a importancia de ser unha das primeiras lexislacións que se fixeron públicas, mesmo ao estar no templo sagrado de Marduk, en Babilionia. Na propia estela aparece o deus Šamaš entregando a capacidade de dereito ao rei Hammurabi, desde un punto de vista relixioso tamén.

—E que relevancia ten para a tradución galega?
Temos que tomar conciencia de que unha lingua que se valore ten que contar con obras tan antigas traducidas. Son chanzos no nivel de formación cultural do noso pobo. As linguas, onde tamén se forxan, é na tradución. En verter dentro desa lingua as obras máis importantes da historia.

—Que outros textos fundamentais habería que traducir?
Estou rematando a tradución sobre o poema da creación, en babilonio, o «Enuma Elish». Tamén traballo no poema «Etana», que fala da inmortalidade do ser humano. Por último, teño pensado pór en galego a «Epopea de Gilgamesh», o primeiro poema épico que hai na historia con versións sumerias e babilonias.

[Fonte: http://www.nosdiario.gal]

Vencer Bolsonaro foi o primeiro passo. Agora, é preciso entender a militarização da política e o pânico moral das igrejas neopentecostais, bases do retrocesso. E apontar saídas à gourmetização da vida, enquanto milhões amargam a fome

Escrito por Daniel M. Huertas

Todas as forças progressistas e democráticas deste país ficaram atônitas com o resultado geral do primeiro turno das eleições deste ano, com votações inimagináveis a candidatos que beiram a insanidade – ou, na melhor das hipóteses, a uma caricatura grotesca de algo amorfo. Em suma: um retrocesso de proporções inestimáveis. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no pleito de 30 de outubro amenizou o sentimento de frustração e temor em relação ao futuro do Brasil, mas é preciso reconhecer que este espectro sinistro conhecido como bolsonarismo plantou raízes e se tornou, por incrível que pareça, uma peça extremamente relevante no cenário político brasileiro.

Muito tem sido escrito sobre a ascensão desse fenômeno macabro, e minha contribuição parte do princípio de que a esquerda precisa reavaliar a sua compreensão sobre a realidade brasileira. Isso não significa necessariamente abortar velhos conceitos e metodologias. Afinal, as permanências perversas do constructo social brasileiro (como o racismo estrutural e o latifúndio, por exemplo) estão mais vivas do que nunca e os inimigos de sempre continuaram (e continuarão) à espreita, no aguardo de uma janela de oportunidade para a cooptação de partidários e implementação de uma agenda com ações extremamente reacionárias maximizadas pela velocidade e capilaridade das redes sociais. As tubulações de esgoto do tecido social deste país nunca estiveram tão entupidas.

Esse novo contexto invoca novas análises e reflexões, que devem estar correlacionadas com as profundas mudanças que têm impactado o território brasileiro desde o fim da ditadura militar e o início da chamada Nova República. E, para além da questão meramente nacional, edificá-las de forma mais realística e eficiente com o movimento do mundo que foi aberto com o declínio da bipolaridade da Guerra Fria, do qual emanou um poderoso turbocapitalismo globalizado. A questão é complexa, obviamente, e pede uma análise multidimensional que não se esgota em um livro, muito menos em um artigo. Procurei organizar o meu ponto de vista em temáticas que considero altamente relevantes para que uma espécie de “ajuste fino” no plano das ideias seja alçado à condição de reflexão mais geral dos rumos do Brasil, ajudando de alguma forma nas estratégias que serão utilizadas pelas forças progressistas de agora em diante.

A militarização da política

Desde o advento da República, a política brasileira sempre reservou algum grau de militarização, mas em raras ocasiões havia ultrapassado o sentido estrito do termo. Ou seja, a militarização da política, em maior ou menor escala, de acordo com o contexto, ficara geralmente restrita à participação direta e indireta das Forças Armadas – e o golpe de 1964, como sabemos, foi o ápice desse processo. Mas, infelizmente, o fenômeno ganhou amplitude inédita com a entrada significativa no jogo das forças policiais civis e militares e com uma parcela considerável da sociedade civil que explicitamente defende políticas armamentistas.

Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada em 31 de agosto último, 30% dos entrevistados disseram acreditar que as leis que facilitam compra, porte e uso de armas aumentaram a segurança das pessoas, e o mesmo percentual gostaria de ter uma arma para se defender1. Cabe lembrar, ainda, que o número de unidades em nome de colecionador, atirador desportivo e caçador (CAC) aumentou de 350,7 mil, em 2018, para pouco mais de um milhão, em 2022, após a publicação dos decretos do governo Bolsonaro flexibilizando as normas para compra, porte e uso de armas pela população civil2.

O sociólogo José Vicente Tavares dos Santos, estudioso das pautas ligadas à segurança pública, já havia observado, no âmbito das greves policiais de 2012, na Bahia, a constituição de um “fenômeno social”. Ele lembrou que uma lei de 1967, editada em plena ditadura, transformou as polícias militares em órgãos auxiliares das Forças Armadas e militarizou o ensino policial. Ou seja, não houve a devida adequação das PMs ao trabalho em uma sociedade democrática, já que “faltam noções de direitos humanos, de investigação criminal, algo básico mas incrivelmente precário no Brasil”3, além da ausência de conteúdo correlato a mediação de conflitos.

A própria integração das Forças Armadas ao país depois de 21 anos (1964-85) de mandos, desmandos e atrocidades também se mostrou bastante frágil. A criação do Ministério da Defesa em 2000, durante o governo FHC, parecia ser um antídoto, mas novas crises apareceram na relação entre civis e militares no terreno político. Em 2004, a demissão do então ministro José Viegas ocorreu em meio à insatisfação de militares diante da anunciada abertura dos arquivos da ditadura. Cabe lembrar que a Comissão Nacional da Verdade, proposta no Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), no segundo mandato do governo Lula, também não foi bem recebida por vários setores da caserna. O caso do general Maynard Marques de Santa Rosa, que a chamou de “comissão da calúnia” e acabou sendo exonerado, ganhou as manchetes em 2010. “Os três comandantes militares reagiram contrariamente às cláusulas que propunham rever abusos contra os direitos humanos durante a ditadura e colocaram seus cargos à disposição”, lembrou a cientista política Maria Celina d’Araujo4.

A proposição da revisão da Lei de Anistia – que acabou sendo barrada pelo Superior Tribunal Federal (STF) por 7 votos a 2 — foi outro evento com ressonância extremamente negativa no seio das Forças, sobretudo com as declarações públicas de apoio do então ministro da Justiça, o petista Tarso Genro. E, na sociedade civil, os defensores do golpe de 1964 e de uma nova quartelada em pleno século XXI assombram o país, de forma recorrente desde as eleições de 2018, com demonstrações de efeito. Para completar, o antropólogo Celso Castro, especialista do universo militar, admite que existe um déficit de conhecimento sobre o cotidiano da caserna, “daí compreender-se pouco o funcionamento dessas instituições”5.

D’Araujo clama por uma reflexão sobre o papel das forças de defesa perante o povo e o Estado brasileiros, assunto que “nunca mobilizou os partidos, nunca deu votos”, além do desinteresse generalizado do Congresso sobre a questão. Mas, ao que parece, o bolsonarismo conseguiu encontrar aí uma brecha valiosa para a sua estratégia de poder, de certa forma interditando qualquer debate sobre a pauta sugerida por D’Araujo. É fato a adesão de setores e agentes das forças de segurança ao bolsonarismo – a participação de militares em cargos de confiança ao longo do governo Bolsonaro é espantosa –, mas muito ainda permanece sob uma cortina de fumaça quanto ao real potencial de ativismo político da categoria, sobretudo em relação aos policiais civis e militares.

A articulação política das igrejas evangélicas neopentecostais

A pesquisadora francesa Marion Aubrée talvez tenha sido uma das primeiras intelectuais a se debruçar sobre o fenômeno do expressivo crescimento dos movimentos evangélicos tidos como neopentecostais no Brasil. Um projeto que remonta ao final dos anos 1980, ainda em estágio inicial, encabeçado pela Igreja Universal do Reino de Deus com a sua missão global de evangelização a partir de um país do Terceiro Mundo. Segundo ela, esses movimentos “se adaptam bem à busca de uma devoção emocional pelo povo brasileiro às suas aspirações de uma relação direta com Deus”, na qual o transe corporal (ou a explosão do corpo, como define Aubrée), pouco compreendido ou rejeitado, foi substituído pela “transverbal”, ou “a linguagem dos anjos que, quando praticada, inibe as expressões corporais”6.

Mesmo assim, a articulação midiática dos cultos e atividades na tela da tevê – apenas para ficar no exemplo mais emblemático, a tradicional TV Record, fundada em 1953, foi comprada pelo bispo e empresário Edir Macedo em 1989 – levou a um ajuste, tolerando a maquiagem e roupas menos convencionais e deixando o corpo mais livre. Como afirma Aubrée, “voltou a ser brasileiro”. Desse modo, “sensibilizou setores ponderáveis das classes mais modestas da população”, além de acolher, continua ela, “parte dos vitimados pelo êxodo rural e pela marginalização urbana e ajudando-os a reconstruir suas identidades perdidas em tantas vicissitudes”.

O resultado é que, integrados ao movimento, os indivíduos “redescobrem a autoestima, o senso da dignidade”, atendendo, assim, ao “preceito-chave da ética individualista predominante no mundo atual – (…) que o homem tem que ser forte, equilibrado espiritual e moralmente para encontrar seu lugar ao sol”. Soma-se a isso a introdução pragmática da Teologia da Prosperidade nas comunidades evangélicas, alavancada por cursos de alfabetização, aprendizado de profissões, oferta de empregos e possibilidade de desenvolver carreira eclesiástica, “buscando meios para as pessoas progredirem na vida”.

Como bem disse o historiador Leandro Karnal, a “capilaridade notável” de “milhares de pequenas igrejas nas periferias das cidades” elevou o mundo evangélico a um “poderoso dínamo para as almas e para as urnas”7. Na sua análise, como tendência geral os evangélicos “valorizam pontos como críticas ao casamento homoafetivo”, embora o tom médio do eleitorado brasileiro “é muito conservador e isso antecede a presença evangélica no Parlamento”. Para Karnal, “evangélicos não criam, apenas reforçam um reacionarismo difuso”, e acreditar que votam em quem pastores e bispos mandam seria uma ideia que “subestima a capacidade crítica dos evangélicos e omite a mudança na composição social do grupo”. Naquele contexto, em 2014, Karnal analisou a questão como um controle até desejável pelas lideranças religiosas, mas que “não existe como dado absoluto”. Entretanto, deixou o debate em aberto, pois a temática estaria em “ebulição intensa”.

Mas os fatos recentes mostram que neste campo foi aberta outra brecha bastante utilizada pelo bolsonarismo: uma aliança tácita e explícita entre os exploradores da fé alheia e os falsos defensores dos valores de Deus e da família que envolve interesses de ambos os lados e muito dinheiro. E o dado absoluto agora está aí: o resultado foi o reforço da chamada bancada evangélica no Congresso – dos 177 candidatos a deputado federal, 109 foram eleitos, taxa superior a 60%. Ademais, alguns novatos ligados às igrejas evangélicas foram campeões de voto em seus respectivos estados. Nikolas Ferreira (PL-MG), o deputado mais votado do Brasil, com cerca de 1,492 milhão de votos, integra a Comunidade Evangélica Graça e Paz. O ex-procurador Deltan Dallagnol (Podemos-PR), conhecido por ter sido um dos cabeças da famigerada Operação Lava Jato, é da Igreja Batista do Bacacheri, em Curitiba, e com alguma frequência realiza palestras e pregações nos púlpitos evangélicos.

Filipe Barros (PL-PR), da Igreja Presbiteriana Central de Londrina, Silas Câmara (Republicamos-AM), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Paulo Freira Costa (PL-SP) e Cezinha Madureira (PSD-SP) são outros exemplos, todos da Assembleia de Deus, que mantém o seu domínio sobre a Frente Parlamentar Evangélica, que tem na “pauta dos costumes” a sua trincheira de valores conservadores contrários à esquerda. “Vai ter um grupo mais coeso agora, porque os novos deputados eleitos são evangélicos e é gente mais aguerrida. Isso vai ficar muito bom para a bancada”, declarou o deputado Gilberto Nascimento (PSC-SP), um dos principais articuladores do movimento e reeleito para o seu quarto mandato8. Por outro lado, os evangélicos de esquerda continuam sendo minoria.

O ex-ministro do STF, Cezar Peluso, já havia declarado que a Corte, provocada a deliberar sobre direitos considerados lesivos à sociedade pelas forças conservadoras (aborto, células-tronco, fetos anencéfalos, direitos dos homoafetivos), “reforça o caráter laico do ordenamento jurídico, (…) ao ponto de enfrentar as resistências religiosas em nome da laicidade do Estado”9. Na campanha para o segundo turno, Lula teve que lançar, estrategicamente, uma carta aos evangélicos que afirma a liberdade de culto e a posição contrária ao aborto. Ao mesmo tempo, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, lota igrejas neopentecostais Brasil afora ao lado da senadora eleita Damares Alves (Republicanos-DF), conhecida por inflar a pauta conservadora de costumes.

O diretor do Observatório Evangélico, Vinicius do Valle, enxerga um ambiente bastante violento no universo das igrejas, com “consequências sérias, dentro e fora dos templos”10. O desejo de aniquilamento da diferença, “mesmo entre aqueles que comungam da mesma fé”, foi incrustado nas igrejas pelo bolsonarismo, formando uma legião de (pseudo) religiosos que passou a disseminar a ideia de que o Partido dos Trabalhadores (PT), “amigo de ditaduras sanguinárias, fecharia igrejas, obrigaria as crianças a usar banheiros unissex, liberaria o aborto e ameaçaria a integridade das famílias”.

Valle explica que as pautas morais e religiosas, situadas “no terreno das crenças e das paixões, e menos conectadas à materialidade”, são “mais suscetíveis à dinâmica do marketing político agressivo e das fake news”. E o “bom marketing político”, como nos mostra a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, “é aquele que vai de encontro à imaginação política que já existe” e, portanto, “o bom candidato é aquele que sabe dialogar com esse imaginário da sociedade”11. Eis aqui, portanto, uma questão que precisa ser mais bem estudada, compreendida e enfrentada.

A força do dinheiro e do consumo

Uma enxurrada de números mostra o quadro sombrio para boa parte da população brasileira. Em 2021, 62,93 milhões de pessoas (ou 29,62% do total) viviam com renda domiciliar per capita de até US$ 5,50 por dia – ou seja, abaixo da linha da pobreza, segundo parâmetro internacional adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU). No mesmo ano, o rendimento médio mensal per capita registrou o menor valor desde o início da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 201212. Tecnicamente, de cada quatro brasileiros um está sob a linha de pobreza.

Não é exagero admitir, entretanto, que as condições materiais do povo brasileiro melhoraram, em níveis gerais, a partir dos anos 1990. Não pretendo aqui discutir as causas desse fenômeno – obviamente que as políticas sociais reorganizadas, azeitadas e vitaminadas com o PT no poder o explicam em parte –, e nem mesmo fechar os olhos para as mazelas crônicas e estruturais, mas o Brasil não é a Índia e nem a África, sem qualquer sentido pejorativo ou discriminatório sobre essas duas partes do mundo. Quero dizer com isso que a força do dinheiro e do consumo aterrissou com peso no Brasil a partir daquele contexto, mesmo que em escalas e condições diferenciadas. Com o neoliberalismo irresponsável e a abertura indiscriminada ao mundo globalizado, o país foi inserido numa posição amplamente disputada pelo capital internacional, já que passou a figurar entre os dez principais mercados consumidores mundiais de quase todos os bens de consumo, sejam eles duráveis, semiduráveis ou não duráveis.

Gradativamente houve uma multiplicação de shoppings centers nas grandes cidades, inclusive nas periferias, chegando anos depois a várias cidades de porte médio do interior do país. O efeito-demonstração causado pelo consumismo – e tudo o que ele carrega, como a criação inesgotável de desejos materiais, a ideia de felicidade, a busca por status e afirmação social e altas dosagens de entretenimento entorpecente – atingiu em cheio a todos os extratos da sociedade, sobretudo os mais baixos, que até então apenas de forma marginal faziam parte do mercado consumidor e, na sua estrutura psíquica e cultural, não tinham no consumo um valor em si de grande relevância para o seu cotidiano. Em suma, o dinheiro transformou-se no grande mediador das relações sociais em praticamente todas as porções do território e em todas as classes sociais.

O próprio governo Lula proporcionou um crescimento vertiginoso dessa dinâmica com as correlatas políticas de expansão do crédito público e aumento real do salário mínimo acima da inflação, incrementando o poder aquisitivo de grandes parcelas da população. Mas junto com o dinheiro e o consumo vêm o individualismo, a ganância e a ambição, um pacote completo embalado por milhares de peças publicitárias e pela ideia fortemente difundida da meritocracia e do empreendedorismo, diametralmente oposta aos valores humanistas de alteridade e solidariedade. O progresso material se sobrepõe a tudo e a todos e a busca pela “gourmetização da vida” é, agora, o modus operandi e o objetivo geral a ser alcançado por uma expressiva parcela da sociedade. Completa-se, assim, a atomização do indivíduo, presente nas periferias e nos bairros de classe média, nas capitais e no interior, no litoral e nos confins da Amazônia.

Como bem disse Karnal, “viver imune aos apelos do consumo é complexo para o adulto e quase intransponível para o jovem”13. O geógrafo Milton Santos vai além. Em sua análise sobre a globalização (que prefere denominar de “globaritarismo”, a aliança entre a tirania do dinheiro e da informação), o consumo é “o grande fundamentalismo do nosso tempo, porque alcança e envolve toda gente”. É um grande emoliente, “produtor ou encorajador de imobilismos”, ou “um veículo de narcisismos, por meio dos seus estímulos estéticos, morais, sociais”. E completa: “Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão.”14

Mesmo que em camadas, nuances, formas e situações diferenciadas o brasileiro entrou (ou foi empurrado) com força na dinâmica do turbocapitalismo globalizado, na qual a espiral do consumismo é um de seus principais traços, e o medo da perda das condições materiais, mesmo que reduzidas se comparadas aos extratos mais elevados da sociedade, aparece como elemento paralisante e reacionário. A questão da segurança pública ajuda a reforçar esse último aspecto com narrativas e imagens veiculadas incessantemente por programas de televisão sensacionalistas e a escassez, em outros tempos um forte elemento a favor das revoluções sociais, hoje parece estar mais inclinada ao reacionarismo.

Talvez a essência do brasileiro tenha-se tornado mais individualista e menos espontânea, cada vez mais enquadrada no “reino do cálculo e da competitividade”, amparado por um discurso único do mundo no qual as formas de relações econômicas implacáveis não aceitam discussão e exigem obediência imediata, como nos ensina Milton Santos15. Assim, a competitividade como norma acaba justificando os “individualismos arrebatadores e possessivos” na vida econômica, na ordem política, na ordem do território e na ordem social e individual. É o “dinheiro em estado puro”, explica o autor, em que dinheiro e consumo são tidos como reguladores da vida individual, cujo “objetivo é a necessidade, real ou imaginada, de buscar mais dinheiro”16.

Desde o último quartel do século XX, já há toda uma geração criada na frente da televisão, submetida a milhares de peças publicitárias por ano e seduzida pela expansão em grande escala da variedade de bens de consumo. Uma geração inteira receptora de enlatados estadunidenses em volume absurdo, na tevê, no cinema, nas rádios e nas antigas videolocadoras, fortalecendo o chamado american way of life na mente de grande parte da juventude brasileira de então. Uma geração inteira induzida ao convencimento da grandiosidade do papel dos Estados Unidos no mundo. Uma geração inteira com alto grau de despolitização, cujos ideais revolucionários pretéritos deixaram de ser atraentes.

Esses valores forjaram (e continuam forjando) a estrutura emocional, psíquica e cultural de parcela considerável das classes altas e médias das grandes e médias cidades brasileiras, frequentadoras assíduas da Disneylândia (desde criancinha) e dos inúmeros voos semanais para Miami e outros lugares dos Estados Unidos e da Europa. O pior é que esse fenômeno está gerando capilaridade entre as camadas mais pobres e se propaga pelo celular, na velocidade e ferocidade da internet e das redes sociais.

Por uma reforma agrária nos marcos do século XXI

É escancarada a rejeição dos agentes do agronegócio a Lula e ao PT. No primeiro turno, o candidato à reeleição venceu em 77 dos 100 municípios mais ricos do agronegócio, que juntos equivalem a 5,3 milhões de votos e concentram 34,3% do Valor Bruto da Produção Agrícola (VBP) nacional em 2021, índice medido pelo IBGE. A votação de Bolsonaro chegou a 74,84% em Canarana (MT), contra 21,80% de Lula. Em 22 municípios, o candidato do Partido Liberal (PL) recebeu mais de dois terços dos votos. Dos dez primeiros, sete são do Mato Grosso (Sorriso, Sapezal, Campo Novo dos Parecis, Diamantino, Nova Ubiratã, Nova Mutum e Querência), dois, da Bahia (São Desidério e Formosa do Rio Preto) e um, de Goiás (Rio Verde)17.

Segundo José Carlos Hausknecht, sócio-diretor da consultoria MB Agro, o forte apoio do setor já era esperado, “principalmente dos produtores, o que envolve as famílias e influencia nas cidades também”. Ele explica que os produtores “se sentem perseguidos, ameaçados com invasões do MST e atacados como responsáveis pelo desmatamento, pelo latifúndio improdutivo e pelo uso de defensivos”, e ao mesmo tempo nutrem o reconhecimento de um setor “que dá sustentação à economia e contribui com a balança comercial”18.

Seria muito ingenuidade imaginar que juntamente com esse fluxo produtivo e comercial, sobretudo em tempos muito favoráveis do ponto de vista cambial, não emergiria uma classe política potente e influente, que foi sendo construída gradativamente desde que a expansão da fronteira agrícola chegou aos confins do Centro-Oeste e à franja meridional da Amazônia, a partir da década de 1970. Como bem explicou o antropólogo Caio Pompeu, o agro não é pop, é político, e a partir do processo desencadeado para estabelecer o golpe contra a presidente Dilma Rousseff, em 2016, “nucleações dominantes do campo do agronegócio alcançaram protagonismo na agenda do Estado brasileiro” e o PT era considerado pelos líderes do agronegócio “como seu principal inimigo político”19.

Para além da questão política, sabemos que o agro não tem nada de pop, pois se trata de uma atividade com várias contradições e conflitos agudos nos temas que envolvem as questões agrária (condições de vida do trabalhador do campo e concentração fundiária), agrícola (latifúndio improdutivo), ambiental (desmatamento e outras práticas predatórias), indígena (violência e desrespeito para com as populações ancestrais) e trabalhista (trabalho escravo). E, nessa pauta, um dos elementos mais sensíveis diz respeito à reforma agrária — conceito temido pelas classes dominantes desde meados dos anos 1950, quando do advento das Ligas Camponeses no Nordeste.

Muitos autores advogam a tese de que o anúncio das Reformas de Base durante o governo João Goulart (1961-64) – da qual a reforma agrária era um dos pilares — foi a gota d’água para a deflagração do golpe militar de 1964, em um contexto caracterizado pela Guerra Fria. Do ponto de vista estrutural, o poder no Brasil guarda íntima correlação com a propriedade da terra, e uma mudança radical implicaria na eliminação do latifúndio e da especulação fundiária (a terra como reserva de valor).

Mas a temática da reforma agrária, a meu ver, precisa estar mais relacionada à realidade brasileira do século XXI, e não da segunda metade do século anterior. O país foi submetido a um enorme processo de urbanização, acompanhado de alterações demográficas igualmente substanciais, e grande parte dos problemas sociais também se deslocou para as cidades – déficit habitacional, ausência de saneamento básico, serviços insuficientes de saúde e educação, precariedade do transporte público, desemprego, etc.

Entretanto, não se trata de uma bandeira ultrapassada, pois a própria Constituição Federal prevê a desapropriação de terras que não cumprem a sua função social para serem destinadas à reforma agrária. Mas fica aqui a reflexão: será que o instrumento da reforma agrária seria eficaz, no momento atual, para resolver os problemas estruturais brasileiros? Por isso a necessidade de repensar o modelo de reforma agrária para o Brasil de hoje, sem deixar de criticar o que deve ser criticado. Afinal, como disse Eduardo Galeano, “a soberania começa pela boca” e, para quem dispõe de um mínimo de humanismo, é um absurdo ter fome no país aclamado como o “celeiro do mundo”.

É possível superar o ódio e a barbárie?

Agora caiu a máscara. Sem metáforas. Sem cortes. Sem o mito da tão propalada “democracia racial”. Ficou explícita a aversão que as forças conservadoras e reacionárias replicam em torno da figura do negro, indígena, pardo, favelado e suburbano, tida como de segunda categoria que atravanca o progresso do país — e, mais ainda, breca o desejo latente da “europeização” da sociedade brasileira. Sempre foi assim, é verdade, mas, nos marcos civilizatórios do atual contexto do mundo, deveria ser algo inadmissível. Uma “ralé eternizada”, na visão do sociólogo Jessé Souza, colocada como o “nosso maior conflito social”20. Um processo gradativo, perverso e crescente de naturalização da desigualdade social no Brasil e de tentativa de criminalização de qualquer tipo de movimento e/ou organização social daqueles que estão na base inferior da sociedade brasileira.

E, convenhamos, o núcleo duro do bolsonarismo está cheio de gente que pensa assim. São contra o fato de que o Brasil é um país mestiço e muito diverso em todos os aspectos. São contra a ideia de que empregadas domésticas devem ter salário digno e direitos trabalhistas. São contra a ideia de que pobres devem ter acesso às universidades públicas pelo sistema de cotas. Nunca aceitaram e não aceitam a ideia de um nordestino, metalúrgico e sindicalista ter sido presidente da República em duas ocasiões – e agora pela terceira vez.

Obviamente que o Brasil é muito mais complexo e diverso do que esse panorama e muitos aspectos colocados ao longo do texto são de conhecimento das forças progressistas. Entretanto, alguns elementos merecem uma compreensão mais profunda, muitos não foram sequer mencionados (o crescimento da extrema-direita em várias partes do mundo, por exemplo) e com outros ainda não sabemos ao certo como lidar, seja no plano intelectual, seja no plano político. Apesar de tudo, o Bolsonaristão foi derrotado e a esquerda está viva.


Referências citadas:

1. RAMOS, Pedro. Maioria rejeita uso de armas, afirma pesquisa Genial/Quaest,in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A9, 1º set. 2022.

2. Os dados, publicados pelo jornal O Estado de S. Paulo (Metrópole/A15, 06 out. 2022), são dos Serviços de Fiscalização de Produtos Controlados (SFPC).

3. CRUZ, Christian Carvalho. Mais uma para ficar na história, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 12 fev. 2012.

4. D’ARAUJO, Maria Celina. Demissão anunciada, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J3, 07 ago. 2011.

5. GREENHALGH, Laura e MARSIGLIA, Ivan. Brios e vacilos nas fileiras, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 14 fev. 2010.

6. SABÓIA, Napoleão. Estudiosa francesa analisa a fé dos brasileiros, in jornal O Estado de S. Paulo, Caderno2/D7, 08 jun. 2003.

7. KARNAL, Leandro. Rebanho não tão uniforme, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/E3, 07 set. 2014.

8. WETERMAN, Daniel. Campeões de voto reforçam bancada evangélica no Congresso,in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A21, 08 out. 2022.

9. GREENHALGH, Laura. Oceano processual, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 15 maio 2011.

10. VALLE, Vinicius do. Violência política toma conta de igrejas, in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A11, 20 out. 2022.

11. TAVARES, Flávia e MARSIGLIA, Ivan. Por trás da máscara, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 19 out. 2008.

12. AMORIM, Daniela e NEDER, Vinicius. Renda do brasileiro tem queda recorde, in jornal O Estado de S. Paulo, Economia&Negócios/B1, 11 jun. 2022.

13. KARNAL, Leandro. Compro e vivo, in jornal O Estado de S. Paulo, Cultura&Comportamento/C12, 09 out. 2022.

14-16. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do discurso único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2001, p.49 e p.56.

17-18. DUARTE, Isadora. Bolsonaro domina votação em 77 dos 100 municípios mais ricos do agronegócio, in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A10, 12 out. 2022.

19. POMPEIA, Caio. Formação política do agronegócio. São Paulo: Elefante, 2021, p.299.

20. SOUZA, Jessé. A ralé eternizada, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 06 jul. 2008.

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

Un récent reportage diffusé sur M6, appuyant sans vergogne sur tous les préjugés, pose une fois de plus la question du traitement médiatique de cette communauté.

Violette, filmée par les caméras de «Capital» sur M6. | Capture d'écran

Violette, filmée par les caméras de «Capital» sur M6. | Capture d’écran

Écrit par Richard Monteil — édité par Sophie Gindensperger 

Dimanche 9 octobre, la chaîne M6 a diffusé un nouvel épisode de «Capital»: «Forains, gens du voyage: révélations sur une économie secrète». Le public fut au rendez-vous. Ce soir-là, le magazine au titre racoleur présenté par Julien Courbet s’est offert un record d’audience. Quelque 2,9 millions de téléspectateurs ont retrouvé tout ce à quoi la plupart des médias français les ont habitués au sujet des gens du voyage, c’est-à-dire une montagne de clichés.

«Je ne crains pas le pire. Je sais d’avance la catastrophe que ce brûlot raciste va produire», s’est étranglé William Acker, juriste issu d’une communauté de gens du voyage, dans une série de tweets à travers laquelle il pointe les amalgames et les stéréotypes les plus nauséabonds mobilisés pour promouvoir l’enquête du dimanche soir, compilés dans un communiqué de presse.

Pour en avoir le cœur net, il a regardé l’émission, récemment élue préférée des Français«Les profils sélectionnés sont caricaturaux et correspondent à la plupart des clichés qui collent à la peau des gens du voyage. On nous présente comme des voleurs. Des voleurs riches ou des voleurs pauvres, mais toujours des voleurs», soupire-t-il.

Capitaliser sur les clichés

Les caméras suivent par exemple Henock Cortes, rappeur et investisseur immobilier dans le Puy-de-Dôme. «Comment fait-il pour acheter des maisons sans argent?», s’interroge M6, laissant entendre au spectateur que forcément, là où il y a gitan, il y a embrouille. En réalité, ce père de famille pratique le crédit vendeur, une opération parfaitement légale, mais les journalistes laissent planer le doute.

À l’autre bout du spectre des clichés, on retrouve Violette. Elle est présentée par l’émission comme vivant sur un «parking sans aucune autorisation» dans la banlieue de Besançon avec ses dix enfants, des petits-enfants et son mari. En zoomant sur ses demandes d’allocations familiales, l’émission en conclut qu’elle fraude en se déclarant mère célibataire alors que son mari est présent. Une version mise à mal par la personne qui a mis le journaliste en relation avec elle, Rémy Vienot, président de l’association Espoir et fraternité tsigane de Franche-Comté, interrogé par le site Arrêt sur images. Et qui fait bondir William Acker.

«Violette est pauvre et élève seule ses dix enfants sur un parking sans eau ni électricité, où elle vit dans l’illégalité, faute d’avoir accès à une aire d’accueil. Les journalistes l’ont filmée en train d’expliquer qu’elle touche 800 euros d’aides de l’État chaque mois. Mais les équipes de M6 ne la croient pas et font leur propre calcul, sans connaître tous les détails de la situation de Violette pour ensuite l’accuser de frauder, assurant qu’elle touche probablement plus d’argent», s’insurge le juriste.

William Acker ne décolère pas: «Taper sur les pauvres à coup de suspicions, le procédé interroge. Violette a une vie difficile, c’est humainement dégueulasse de la traiter comme ça.»

Le sensationnalisme assumé de ce spectacle a été étrillé par Télérama. De son côté, Arrêt sur images raconte à quel point les personnes interrogées se sentent trahies et salies par les journalistes venus les rencontrer. Pire encore, certaines affirment avoir reçu des menaces après leur passage à l’écran, et se disent aujourd’hui harcelées.

Des audiences assurées

Les émissions de télévision sur les gens du voyage, notamment celles de M6 mais aussi celles de C8 sont «des piliers de l’anti-tsiganisme» en France, dénonce William Acker. «Leurs choix éditoriaux sont problématiques. Le plus souvent, elles sont à la recherche de faits délictuels. La question de l’argent de ces communautés, centrale dans l’anti-tsiganisme, revient fréquemment elle aussi. Tout cela fait appel à un imaginaire raciste du public, convaincu que les gens du voyage sont une mafia», expose le juriste.

L’anti-tsiganisme, la haine des Roms, la peur des gitans sont les formes de racisme les plus présentes et tolérées dans la société française, rappelle chaque année le rapport sur la lutte contre le racisme, l’antisémitisme et la xénophobie produit par la Commission nationale consultative des droits de l’homme (CNCDH). Sa dernière édition, publiée le 18 juillet 2022, montre que les tsiganes sont la minorité la moins tolérée en France, loin derrière les musulmans, les Maghrébins, les juifs et les Noirs. En d’autres termes, l’anti-tsiganisme est la forme de racisme la plus banale en France, et donc, la plus acceptée au sein de notre société.

M6 est une chaîne privée, propriété de RTL Group, filiale du géant des médias Bertelsmann, un groupe allemand d’envergure internationale. Elle aurait les moyens humains et financiers de combattre les idées reçues. Mais en tapant ainsi sur les gens du voyage, M6 ne prend pas trop de risques et s’assure de belles audiences, et donc, des revenus… aux dépens de la dignité humaine et des principes de déontologie journalistiques qui devraient s’imposer à l’ensemble de la profession. Contactée, M6 n’a pas répondu à nos sollicitations.

L’arbre qui cache la forêt

L’enquête de «Capital» a fait réagir les associations représentatives des voyageurs. Un communiqué publié le 13 octobre et signé par sept d’entre elles appelle à «un traitement journalistique qui tourne le dos au mépris et aux préjugés»«D’évidence, pour aucune autre composante de la population, de telles pratiques ne sauraient aujourd’hui être envisagées par des rédactions ni tolérées par l’opinion publique», assène le texte.

Si M6 et consorts ont fait du sensationnalisme une marque de fabrique déjà très critiquée, le traitement journalistique des gens du voyage n’en est pas moins désastreux à toutes les échelles, notamment dans la presse quotidienne régionale, à quelques exceptions près«La presse locale n’écrit sur les gens du voyage que quand ils sont en situation d’illégalité, déplore William Acker. On a une réelle distorsion entre la somme de la production médiatique et la réalité des voyageurs qui est tout autre.» Ce déséquilibre entretient une image négative.

De mauvaises obsessions

«Dans les trente derniers jours, la presse française a publié 237 articles sur les “gens du voyage”, dont 136 portaient sur des délits et des installations supposées illicites (56%), souvent sans rappeler l’immense défaillance des pouvoirs publics pour mettre en œuvre la loi qui organise l’accueil et l’habitat, 55 sur des refus de projets d’aire d’accueil, 16 annonçant le reportage de “Capital”, 30 sur le thème de l’accueil et 4 sur l’enjeu de l’accès aux droits», selon un recensement opéré par le collectif d’associations de voyageurs cité plus haut. En résumé, sur la période, 88% des articles mis en ligne par la presse véhiculent une image négative des voyageurs.

Trois clics suffisent pour le constater. Taper «gens du voyage» dans un moteur de recherche et arpenter l’onglet «actualités» amène à une litanie d’articles aux titres et illustrations similaires. Les photos ne montrent pas les familles, mais plutôt leurs caravanes, prises à bonne distance, souvent derrière des grilles, ce qui écarte la dimension humaine des sujets. Sur le plan sémantique, les titres tournent autour des champs lexicaux du fléau, de l’invasion, du conflit ou encore des nuisibles et reprennent généralement les discours hostiles des autorités ou de riverains mécontents.

Quelques exemples récents: dans Le Midi libre, une mairie «veut en finir avec les gens du voyage»; dans le département de la Manche, «La Foire de Lessay peut-elle continuer à accueillir autant de gens du voyage?» se demande France 3; dans le Calvados, le gérant d’un hippodrome s’inquiète de la possible installation d’un camp de gens du voyage près de son site: «Cela peut nous détruire!», titre Le Pays d’Auge. Contactés, les rédactions et auteurs de ces articles n’ont pas répondu à nos sollicitations.

Pas de réseau dans les caravanes

Marie-Pierre Duval est journaliste au quotidien L’Union depuis trente ans. À Laon, dans l’Aisne, elle couvre l’actualité locale et notamment les faits divers. Sensible à la question, elle se désole de ce phénomène: «On a toujours cette trouille d’aller voir les gens du voyage alors qu’ils ne nous ont pour la plupart jamais rien fait, et nos supérieurs ne nous poussent pas à y aller.»

«Le problème, c’est qu’on manque de contact dans ces milieux», avance la journaliste, habituée comme ses confrères à travailler dans l’urgence quotidienne grâce à un réseau de sources déjà établi: un réseau institutionnel composé de policiers, de gendarmes, d’élus et autres autorités locales faciles à contacter. Ainsi, la parole des gens du voyage reste inaudible dans cette presse pourtant dite «de proximité», celle qui n’a aucun mal à aller voir les habitants, sauf s’ils vivent dans des caravanes.

Ce traitement médiatique stigmatisant est l’une des conséquences d’un mal qui gangrène le corps journalistique: l’entre-soi. Partir en quête d’un journaliste issu d’une communauté de voyageurs revient à chercher une aiguille dans une botte de foin. «Je n’en ai jamais croisé», assure Marie-Pierre Duval. William Acker en connaît quelques-uns «qui ont des origines tsiganes», mais aucun ne s’en revendique. «Les journalistes gitans existent peut-être, mais ce qui est sûr, c’est qu’ils ne sont pas visibles», conclut le juriste.

Manque de diversité dans les médias

Dans son rapport, la CNCDH accuse le manque de diversité dans les médias, qui «favorise[nt] la méconnaissance et le traitement discriminatoire de certains sujets», et insiste sur la nécessité de former les journalistes pour gommer les aspects stigmatisant de leur discours. La commission souligne des efforts réalisés en ce sens, mais appelle à les amplifier.

«Ce sont des changements impératifs qui prennent hélas du temps», souligne Marie-Pierre Duval. Journalistes, gens du voyage: «Il faut qu’on se voie, qu’on se rencontre», insiste la localière. William Acker a amorcé la réflexion à ce sujet. En janvier 2023, il prendra la suite du délégué général de l’Association nationale des gens du voyage citoyens, et dans ce cadre, réfléchit à coconstruire des outils au service des rédactions. De tels dispositifs ont déjà vu le jour en matière d’écologie ou de lutte contre l’homophobie, par exemple.

«L’idée, c’est de faire en sorte que les journalistes de bonne volonté ne se retrouvent pas démunis et pris au piège de leur pratique traditionnelle», explique William Acker, avec l’espoir qu’un jour, les médias et le reste de la société considèrent les gens du voyage pour ce qu’ils sont. C’est-à-dire des gens, tout simplement.

[Source : http://www.slate.fr]

Ananda Marques, mestra em Ciência Política pela UFPI

A semana seguinte é sempre pior que a atual há algum tempo no Brasil, o sem limites do sofrimento encontra cada vez mais espaço para corroer aqueles que sobreviveram aos últimos anos. E para as mulheres brasileiras, para as mulheres negras, para as mulheres pobres, para as mulheres mães, para as mulheres com deficiência, lgbt, indígenas e ativistas, para aquelas que ocupam esse lugar de coragem e risco tem sido ainda mais dolorido. Num intervalo de poucos dias, três vídeos circularam tanto na imprensa como nas redes sociais escancarando a insegurança na qual vivemos; não há garantia alguma de nossas vidas e direitos no Brasil em 2022.

Na cena que chocou o país, uma juíza tortura psicologicamente uma criança de 11 anos vítima de abuso sexual, cuja mãe buscou o sistema de saúde para acesso à interrupção da gravidez, como é previsto no Código Penal desde 1940. Depois da negativa do hospital, procurou o sistema de justiça, o que elas encontraram foi mais violência. Dois dias depois da matéria que denunciou o ocorrido, a juíza foi removida do caso porque, coincidentemente, estava em processo de promoção. O caso lembra a história de Cícera Fernandes de Oliveira, que em 1980 buscou o mesmo direito para a filha de 12 anos, estuprada pelo padrasto e que teve de levar a gestação a termo por falha do Estado brasileiro. Quarenta anos depois, retrocedemos.

Antes mesmo de que as notícias sobre a juíza de Santa Catarina esfriassem, outro vídeo nos horrorizou: a procuradora do município de Registro, no interior de São Paulo, foi espancada pelo colega de trabalho e toda a agressão, filmada. Ao desferir golpes, chutes e tapas contra a mulher, ele a xingava com termos machistas. A imagem da procuradora com o rosto ensanguentado estampou jornais. Três dias depois, o agressor foi levado para um hospital psiquiátrico.

Como o país não nos permite descansar entre uma tragédia e outra, logo depois ganhou repercussão um vídeo do RJTV no qual uma senhora acompanhada de seu neto chora ao ser entrevistada, conta à repórter – também emocionada – que no domingo anterior sua família não tinha absolutamente nada para comer, perdeu o marido e uma filha no último ano e estava na fila do projeto municipal que distribui refeições porque passava fome. Pergunto-me como ela perdeu o marido e a filha, se foi para a Covid. No Brasil de quem sobreviveu à pandemia, o prêmio é a fome? Mais de 33 milhões de brasileiros estão na mesma situação e mais da metade da população vive algum nível de insegurança alimentar em 2022.

O que essas três cenas têm em comum? Abuso sexual e revitimização são violências. Agressão física e psicológica são violências. Fome e violação de direitos básicos, como alimentação, são violências. As três histórias que ganharam visibilidade essa semana têm como alvo mulheres e crianças, vítimas não apenas de seus agressores diretos, mas também, dos sistemas de saúde, justiça e assistência social que falharam com elas, com todas nós. Vítimas de um modo de governar que promove a morte.

Uma criança abusada não ter acesso a um atendimento humanizado e a um direito previsto há décadas não é uma situação excepcional. A juíza, apesar dos requintes de crueldade da audiência, não é a única. Há pelo menos uma década conservadores, fundamentalistas e a extrema-direita têm travado uma cruzada ideológica que se deslocou da sociedade civil para as instituições. Nesse processo, promoveram pânico moral, ataque sistemático aos direitos humanos e, uma vez com acesso ao poder, implementaram um processo de desmonte de políticas públicas que garantiam o mínimo. Apenas para ilustrar, em maio deste ano o Ministério da Saúde publicou a nova caderneta da gestante, estimulando práticas que são notadamente reconhecidas como violência obstétrica. Os retrocessos na política de saúde, criada em 1984 como Política de Atenção Integral à Saúde da Mulher, são significativos, e a cada caso de falha na assistência à saúde, o quadro se agrava.

Da mesma forma, o governo de extrema-direita que hoje está no poder vem desmontando as políticas de direitos das mulheres e minorias, não apenas através da criação de programas ineficientes e encerrando ações historicamente reconhecidas como efetivas, mas também, devido à paralisia na gestão. Levantamento da revista Gênero e Número revela que apenas 56,5% dos recursos disponíveis para as mulheres foram efetivamente gastos até novembro passado pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, apesar do aumento de verbas destinadas à pasta.

Política pública não é apenas o que o Estado faz, é também o que deixa de fazer. A cultura de violência é reforçada quando não há políticas públicas eficientes de promoção da paz e em defesa das mulheres e crianças. O agressor da procuradora de Registro é o responsável direto pela violência, no entanto, a ausência de políticas de prevenção à violência contra mulheres e o incentivo ao machismo e à misoginia promovido pelo presidente e seus apoiadores têm peso no cenário de insegurança que vivemos.

E por fim, o aumento da pobreza e da fome no Brasil, que violenta de forma ainda mais grave mulheres e crianças, é responsabilidade também do governo federal. O fim do Bolsa Família, programa de combate à pobreza internacionalmente reconhecido e de eficiência cientificamente comprovada, com sua substituição pelo Auxílio Brasil – programa ainda mais focalizado, esteve acompanhado do crescimento no número de pessoas em situação de pobreza e vulnerabilidade. A alimentação é um direito humano, é a garantia básica de dignidade, e é sob o atual governo que metade do povo brasileiro está vivendo sem esse direito.

Diante das notícias sinto o que não consigo nomear: o insuportável de ser mulher no Brasil. Não há garantia alguma de nossa integridade como seres humanos, não há segurança para as mulheres e seus filhos. Silvia Federici, historiadora italiana, argumenta que há “um estado de guerra permanente contra as mulheres” sustentado pela desvalorização da vida e trabalho, impulsionado pelo processo de globalização. A misoginia, o ódio às mulheres, atravessa as relações sociais e se manifesta também nas instituições políticas. Rita Segato, antropóloga argentina, aponta que vivemos “novas formas de guerra” nos modos atuais de violência que têm como alvo os corpos das mulheres e o que persiste é a dimensão colonial, um regime de apropriação que radicaliza a forma colonial da violência.

O Brasil que é insuportável para mulheres hoje descende do projeto de colonização através da apropriação, escravização, extermínio, violência, tortura e estupro. Projeto atualizado na ditadura e que tem diversos braços nos diferentes territórios, desde o encarceramento e genocídio da população negra, passando pela exploração de terras indígenas, assassinatos e violações dos povos originários, tradicionais e ativistas ambientais, até o agravamento da violência contra mulheres. Não creio que toda essa cadeia de violações seja ingênua ou casual, me parece um projeto de sociedade excludente que atualmente ganhou fôlego para ser executado, e consequentemente, nos executar.

Por mais que seja óbvio enxergar apenas a primeira camada de responsabilidade pela violência, ou seja, daquele que a pratica diretamente, é preciso escavar as dimensões invisíveis que a História revela. O século XXI parece não ter chegado para nós, vivemos num limbo temporal perverso, uma espécie de máquina do tempo que nos coloca diante das mesmas violências de nossas antepassadas. O temor me sobressalta, o que virá depois? Nos proibir de ir à escola, de possuir algo em nosso nome, condenar-nos à fogueira? Margaret Atwood, que escreveu “O Conto da Aia” e é conhecida por suas distopias a partir de fatos históricos, precisa ser uma obra de ficção e não um um prenúncio aterrorizante do que o Brasil vai se tornar.

[Fonte: http://www.estadao.com.br]

Luís de Freitas Branco (1890-1955) : Sonates pour violon n° 1 et n°2 ; Prélude pour violon et piano ;  Trio pour piano, violon et violoncelle.  Alessio Bidoli, violon ; Alain Meunier, violoncelle ;  Bruno Canino,  piano. 2022.-Texte de présentation en italien, anglais et russe. 75’58’. Sony Classical. LC 19439995992

Écrit par Patrice Lieberman

Né à Lisbonne dans une famille de la haute noblesse portugaise, frère aîné du chef d’orchestre Pedro de Freitas Branco (interprète très apprécié par Ravel dont il grava plusieurs œuvres), Luís de Freitas Branco fut le premier compositeur moderne du Portugal, pays longtemps en marge de l’évolution de la musique européenne. Formé d’abord dans sa ville natale (où il eut parmi ses maîtres le compositeur belge Désiré Pâque), il se perfectionna ensuite auprès de Humperdinck à Berlin et de Gabriel Grovlez à Paris.

Rentré à Lisbonne en 1916, il n’est pas exagéré de dire -comme l’affirmait en 1944 son élève, le compositeur et musicologue Fernando Lopes-Graça- qu’on lui doit à partir de 1910 l’introduction de la musique moderne (en l’occurrence celle de Debussy et Schoenberg) au Portugal et qu’il porta à lui tout seul la musique portugaise à un niveau de style et de technique proprement impensable auparavant. Le mépris qu’affichait Freitas Branco pour la dictature de Salazar lui valut de faire l’objet de nombreuses brimades et d’être écarté de la vie musicale officielle portugaise. Il fallut attendre la « révolution des œillets » de 1974 pour voir son oeuvre faire l’objet d’un regain d’intérêt au Portugal. On ne peut malheureusement pas dire que son nom ou sa musique soient familiers au-delà des frontières de son pays natal. Ce bel enregistrement vient donc à son heure pour nous permettre de découvrir un artiste de grand talent, injustement négligé.

L’œuvre de Freitas Branco -qui a abordé tous les genres sauf l’opéra- n’est pas particulièrement abondante, et ce qu’on trouve sur cette parution représente à peu près la moitié de sa production de musique de chambre, qui comporte également une sonate pour violoncelle et piano et un quatuor à cordes.

Très libre et original dans sa forme (il se compose de quatorze sections enchaînées), le Trio à clavier de 1908 frappe par son ton libre et rhapsodique, quelque part entre Franck et le premier Ravel. On y trouve une Marche centrale inattendue, tout à fait dans le style musique militaire. Si certaines sensuelles volutes mélodiques des cordes sont clairement post-franckistes, l’œuvre présente aussi des épisodes d’un lyrisme aisé et chantant que n’aurait pas renié Puccini. On y retrouve aussi d’inattendues similitudes avec la musique russe : des évocations de sonneries de cloches comme des épisodes rythmiquement bien marqués quelque part entre Tchaïkovski et Rachmaninov, et même des thèmes populaires à la Prokofiev, son exact contemporain. Freitas Branco aime aussi prendre l’auditeur à contre-pied par plusieurs fausses fins : on croit que la musique va s’arrêter, mais elle reprend de plus belle avant que l’oeuvre ne se clôture brusquement après un étonnant épisode répétitif.

Écrit en 1910, le bref et enchanteur Prélude de 1910-si debussyste avec ses gammes par tons entiers, sa couleur modale et ses lignes mélodiques langoureuses- sépare ici les deux sonates pour violon et piano de Freitas Branco. Voilà un beau morceau qui ferait un bis délicieux.

Imprégné d’un net parfum post-franckiste, le premier mouvement de la Première sonate (1908) fait parfois penser au Fauré des années 1880 avec ses volutes mélodiques langoureuses et son charme distingué, et on l’imagine aisément faire les délices des amateurs rassemblés dans un salon proustien. Énergique et bien rythmé, l’Allegretto giocoso qui suit est plus romantique. L’Adagio molto -élégant, fin, harmoniquement capiteux- a quelque chose qui rappelle Ysaye et une façon, si propre à la musique française, d’exprimer les sentiments avec une certaine retenue. Marqué Allegro con fuoco, le Finale débute sur une note de franchise héroïque et fait à nouveau admirer une écriture libre et rhapsodique aux harmonies sans cesse mouvantes, mais aussi de beaux moments de quiétude qui rappellent fortement la Sonate de Franck.

Composée vingt ans plus tard, la Deuxième sonate montre un compositeur en pleine possession de ses moyens et dont le style, libéré à présent de l’influence de Franck et de ses successeurs, a évolué vers davantage de modernité. Empreint de tristesse et de dignité, l’Allegretto introductif présente de belles tournures modales qui font penser par moments à Vaughan Williams. Le Molto vivace qui suit est un scherzo gai et vif, avec un stimulant jeu de questions-réponses. De structure tripartite A-B-A’, il comporte un Trio lyrique, bien français, où le violon fait entendre une mélodie capricieuse. L’Andantino évoque d’abord une procession où le piano avance en accords, avant d’en arriver à un récitatif passionné du violon en dialogue avec le piano puis de revenir à la procession du début qui se conclut sur une fin douce et sereine. L’oeuvre s’achève sur un Allegro d’une franchise et d’une intensité qui évoquent aussi bien Bartók que le Fauré tardif, mais aussi le lyrisme de Vaughan Williams.

Cette première discographique est magnifiquement défendue par des interprètes que séparent deux générations. Il y a d’abord le trentenaire Alessio Bidoli, violoniste à la technique sûre et au son clair, interprète à la fois sensible et d’une belle franchise et toujours soucieux de laisser parler la musique en premier. Il n’aurait pu être mieux entouré que par les étonnants octogénaires que sont le fin violoncelliste Alain Meunier et le si vif et alerte Bruno Canino, infatigable défenseur de la musique contemporaine mais aussi chambriste de premier plan.

On ajoutera que le plaisir que procure la découverte de cette remarquable musique dans de très belles interprétations est encore accru par une superbe prise de son et que le livret très soigné comporte -outre une intéressante présentation des oeuvres et la biographie des artistes- de belles photos de Lisbonne en noir et blanc.

Son 10 – Livret 10 – Répertoire 10 – Interprétation 10

 

[Source : http://www.crescendo-magazine.be]

La ganadora del Nobel de Literatura 2022 se describe a sí misma cómo “tránsfuga de clase”. La elección sobre quién y qué merece ser contado y recordado es uno de los trasfondos de su proyecto. Los márgenes, como muestra este ensayo, se vuelven cruciales en un ejercicio memorioso total.

Escrito por Diego Courchay

Annie Ernaux nunca llegó hasta Paris.

Lo deseó, en su adolescencia: mudarse a la ciudad luz capital, al escenario de incontables bildungsroman de escritores en ciernes. Llegar a la meca donde se fraguan las reputaciones literarias. Se quedó a las puertas, por decisión propia. “París, el gran sueño, del que ahora estoy a treinta kilómetros a vuelo de pájaro pero siempre fuera. Y ya no tengo ganas de entrar”, escribe en Le vrai lieu (El lugar verdadero, 2014).

Prefirió el margen, desde 1977. Ese año se mudó a la “ciudad nueva” de Cergy, una comuna suburbana recién creada. Aún reside en ese sitio efímero, de centros comerciales, de población diversa y desarraigada. Un lugar sin historia, sin la “potencia ancestral de un orden social”.

[Cergy] es una ciudad en permanente cambio, nunca definitiva. Debido a estos rápidos cambios, me parece que tiendo más a anotar lo que va a desaparecer, estos rostros, estos momentos. Porque, en el fondo, hasta que no escribo sobre algo, no existe. [El lugar verdadero]

Cergy es una elección que refleja la obra de Ernaux, escrita como quien mira por el retrovisor, para atisbar el momento que queda atrás; para capturar la esencia de su literatura: el instante en que ocurre el pasado. Aunque para ella nada es tan simple como un antes y después. Un pasado suplanta a otro, pero los ayeres se burlan de la cronología y se reacomodan a una distancia movediza.

Igual o más importante resulta para Ernaux lo que termina por ser sepultado, entre tanta capa sucesiva de tiempo. Se sitúa ahí donde inicia la pérdida, donde el ancla lanzada para sujetar lo que fue ya no encuentra dónde afirmarse. La fisura por donde se escurre lo que fuimos, hace poco o mucho, es el punto de partida de sus reconstrucciones literarias.

En Cergy empezó la escritura que ha definido a Ernaux desde fines de los años 1970. ¿Qué mejor punto de partida que esa página en blanco en el mapa urbano? Sin jerarquías rígidas, como no las hay en el material que conforma su obra memoriosa, donde lo íntimo es universal y lo universal ya fue íntimo. El discurso televisivo memorable cohabita con el anuncio en la televisión que lo precedió, con el insulto proferido al verlo, con el grafiti entrevisto antes de entrar y encender el televisor.

Porque Ernaux tiene predilección por el sedimento que dejó en nosotros lo fugaz, lo compartido alguna vez por todos sin darnos cuenta —el horario del noticiero, el envase de refresco, el tipo de cambio—, lo que un día cayó en desuso junto con todo lo que conllevaba —rituales, gestos, dichos. El “yo” se desliza en el “nosotros”, por la vía de la capa en apariencia más superficial del día a día. A todos estos fragmentos les atañe el peso de la emoción que suscitaron, no su valor histórico abstracto.

“He escrito que ‘la memoria es material’, quizás no lo sea para todos, pero para mí lo es hasta el extremo, devolviendo cosas vistas, escuchadas (el papel de las frases, a menudo aisladas, punzantes), gestos, escenas, con la mayor precisión. Estas constantes ‘epifanías’ son el material de mis libros, la ‘prueba’ también de la realidad”, apunta en L’écriture comme un couteau (La escritura como cuchillo, 2003).

Una realidad que concibe sin elipsis poéticas que filtren lo que la página retiene de la vida cotidiana. Así, Regarde les lumières mon amour (Mira las luces, amor mío, 2014), es el diario de sus visitas al supermercado, espacios invisibles poblados por mujeres que también lo son: “Me había preguntado por qué los supermercados nunca estaban presentes en las novelas que se publicaban. Cuánto tiempo requería una realidad para acceder a la dignidad literaria”.

Uno de sus antecesores sería el Georges Perec de Les choses (Las cosas, 1965), novela que cuenta la historia de una pareja a través de sus posesiones materiales, un retrato de la sociedad de consumo que también interpela a Ernaux. Somos la suma de lo que deseamos a plazos, a crédito, nuestras aspiraciones de cada quincena. En Ernaux, sin embargo, está en juego mucho más que un ejercicio de sociología literaria. Y no entra en juego, de hecho, la ficción.

Porque Ernaux, desde la mudanza a Cergy, ha circunscrito su escritura al material que le proporciona su vida. No solo la elegida, sino la que dejó atrás. Y aquí ese suburbio vuelve a cobrar una importancia vital:

A mediados de los años 1970, Cergy estaba en construcción, se levantaban edificios por todas partes, era una gigantesca obra llena de grúas que me recordaba a la posguerra en Normandía, a la ciudad de Yvetot, donde pasé toda mi juventud y cuyo centro había sido destruido. Debajo de esta ciudad que se estaba construyendo, era como si hubiera otra ciudad, la Yvetot devastada de 1945, las dos se deslizaban una sobre otra. [El lugar verdadero]

Annie Ernaux nació en 1940, en el norte de Francia, en una familia humilde, de obreros convertidos en dueños de una tienda de abarrotes. La asiduidad en los estudios la llevó a ser profesora, distanciándola no solo de aquella geografía sino de esa clase social, de su cultura popular, del habla misma de su origen. “Tránsfuga de clase” es un término que emplea para describirse.

Es otro elemento determinante en su escritura: la elección sobre quién y qué merece ser recordado y contado, los “nosotros” que ella se niega a reducir solamente al “yo”. Ese es el trasfondo de todo su proyecto. Y también por eso Cergy es fundamental. El espacio intermedio, entre lo que dejó atrás y la fuga, nunca culminada, hacia el futuro de la capital, hacia París.

Le es deudora toda una franja de la literatura francesa actual, la de otros tránsfugas del margen que vivieron y aprendieron para contar su “traición”, y escribir las historias de quienes nunca figuran en la Historia. Desde Didier Eribon con Retour à Reims (Regreso a Reims, 2010), regreso al hogar de un sociólogo homosexual para el funeral de su padre obrero; Édouard Louis con En finir avec Eddy Bellegueule (Para acabar con Eddy Bellegueule, 2014), autobiografía del suplicio de ser diferente en un medio machista y marginal; Nicolas Mathieu en Leurs enfants après eux (Sus hijos después de ellos, 2018), novela de adolescencia en una zona postindustrial. Este último escribe sobre su descubrimiento de Ernaux a los veinte años:

Sus libros eran políticos, en la medida en que articulaban, de una manera inédita para mí, la intimidad y la historia, la economía y el cuerpo, lo social y lo sexual, lo personal y lo colectivo, la memoria y el orden mundial, los sentimientos de la infancia y la guerra de clases.

A la obra de Ernaux se le ha llamado epistemología personal.

Cuenta libro a libro la pérdida de su virginidad, un aborto, la historia del padre, de la madre, un amor tóxico. Temas tabú, vivencias de mujeres que son secretos a voces convenientes. A todos los une un tono común, cuya razón de ser es la verdad.

“No quería hacer algo que primero fuera bello, sino real, y la escritura era ese trabajo de sacar a la luz la realidad: la del ambiente obrero de la infancia, la de la aculturación que es también una ruptura con el mundo de origen, la de la sexualidad femenina.” [La escritura como cuchillo]

Ella misma ha calificado su obra de “autosociobiográfica”.

Empezó a serlo a partir de Cergy. Ahí escribió todos sus libros salvo los dos primeros. Un parteaguas. Si antes de Cergy escribió novelas, con su tercer libro inicia el giro hacia la autobiografía. El punto de inflexión definitivo es, en 1983, La place (El lugar), su cuarto libro. El primero “autosociobiográfico”:

Luego viene otra forma, que apareció con El lugar, que podría calificarse de “relato autobiográfico” porque se descarta toda ficcionalización de los hechos y, salvo error de memoria, estos son verídicos en todos sus detalles. Al fin el ‘yo’ del texto y el nombre en la portada del libro se refieren a la misma persona. […]

Pero no me satisface el término ‘relato autobiográfico’ porque es insuficiente. Subraya un aspecto ciertamente fundamental, una postura de escritura y de lectura radicalmente opuesta a la del novelista, pero no dice nada sobre el objetivo del texto, su construcción. Y lo más grave aún es que impone una imagen reductora: “el autor habla de sí mismo”. Sin embargo [mis obras] son menos autobiográficas que autosociobiográficas. [La escritura como cuchillo]

Tras mudarse a Cergy abandona la ficción. A partir de ahí empieza por esbozar su infancia, a sus padres, abriendo paso a esa otra obra que escribe hasta la fecha: la que reconstruye minuciosamente y sin miramientos, sin cultura alta ni baja, sin rehuir lo supuestamente pedestre o lo indecible.

En El lugar cuenta la historia de su padre:

Recientemente, he sabido que la novela es imposible. Para dar cuenta de una vida sometida a la necesidad, no tengo derecho a ponerme primero del lado del arte, ni a intentar hacer algo emocionante o conmovedor. Recogeré las palabras, los gestos, los gustos de mi padre, los hechos significativos de su vida, todos los signos objetivos de una existencia que yo también compartí. Ninguna poesía de la memoria, ninguna burla jubilosa.

Más tarde, en La escritura como cuchillo, agrega:

Al término de esa reflexión, llegué a esto: la única manera justa de evocar una vida, aparentemente insignificante, como la de mi padre, de no traicionar (a él, y al mundo del que vengo, que sigue existiendo, el de los dominados), era reconstituir la realidad de esta vida a través de hechos precisos, de las palabras escuchadas.

A partir de ahí Ernaux escribe como solo sabe hacerle Ernaux, en fondo y forma. Como lo ha hecho durante 45 años.

“En comparación con la forma de la novela de mis inicios, tengo la impresión de una inmensa y, naturalmente, terrible libertad. Un horizonte se despejó al tiempo que rechazaba la ficción, todas las posibilidades de la forma se abrieron.” [La escritura como cuchillo]

En 2008 llega la que quizás es la culminación de ese proyecto: Les années (Los años). Es el libro de una vida, de lo que describe como el deseo de una vida entera de escribir la vida de una mujer. “Incluso cuando estaba escribiendo otros libros, ese estaba ahí, alrededor. A su manera, los ha irrigado a todos”.

El tiempo permite la búsqueda de la forma. En 1985, escribe la primera línea del prólogo: “Desaparecerán todas las imágenes…”.

La novela se publica 23 años después. Es revelador el título que alguna vez pensó darle: Novela total.

Ella quisiera reunir esas múltiples imágenes de sí misma, separadas y desordenadas, e hilarlas con un relato, el de su existencia, desde su nacimiento durante la Segunda Guerra Mundial hasta el día de hoy. Una existencia singular, pero fundida en el movimiento de una generación. […] Cómo representar a la vez el paso del tiempo histórico, el cambio de las cosas, de las ideas, de las costumbres y la vez la intimidad de esta mujer, hacer coincidir ese fresco de 45 años de historia y la búsqueda de un ‘yo’ fuera de la Historia, el de esos momentos como suspendidos, en los que hacía poesía a los veinte años. [Los años]

La impresión que debería dejar ese libro al leerse: “un flujo de luz y sombra sobre rostros”.

Así ocurre al leerlo. La página actúa como un proyector apuntado hacía el rostro del lector, en el que el tiempo descrito parpadea en blanco y negro, luego accede al tecnicolor, pasa de la película en 8mm a la precisión digital.

Lo que desfila: la aniquilación de todos los humildes y anodinos detalles cotidianos que damos por sentados, esos componentes que dan densidad a la vida pero irán desapareciendo en la estela del tiempo sin que nadie se percate.

las imágenes reales o imaginarias, aquellas que nos siguen hasta en el sueño
las imágenes de instantes bañados en un luz que pertenece solo a ellos

Todas se desvanecerán de un solo golpe como lo hicieron los millones de imágenes que estaban tras la frente de los abuelos muertos hace medio siglo, de los padres, muertos también.1 [Los años]

Pasan, cual fantasmas, los refranes populares que el presente ha transformado en arameo; los gestos de oficios que la modernidad volvió caducos; las imágenes de publicidades victimas del vértigo de su origen y la multiplicación del consumo.

las expresiones caídas en desuso, que un día volvemos a escuchar de casualidad, súbitamente valiosas cual objetos perdidos y reencontrados, que nos hacen preguntarnos cómo llegaron hasta ahí. [Los años]

Transcurre el largo compendio de toda la banalidad indisociable de nosotros mismos. Esa que Ernaux nos recuerda, colinda con lo que consideramos esencial, los seres queridos y momentos viscerales, y que son como bordados sobre esa vasta tela cotidiana y colectiva de aparentes naderías, que Ernaux va enhebrando, hasta hacer posible que nos conmueva la pérdida retrospectiva de lo que en su momento pudo parecer banal y vulgar.

Hasta cobrar conciencia de que nada es banal o vulgar, porque nada lo es para Ernaux, la escala es obsoleta, o ella buscar abolirla como quiere abolir esa distancia que existe en ella, entre su pasado y presente, entre su origen y devenir.

Se anularan súbitamente las miles de palabras que sirvieron para nombrar las cosas, los rostros de las personas, los actos y las emociones, que ordenaron el mundo, hicieron latir el corazón y mojar el sexo.

los slogans, los grafitis en los paredes de las calles y de los baños, los poemas y las historias cochinas, los títulos (Los años)

Y entre todo ese flujo incesante aflora la ironía esencial del lenguaje, como un imán que tanto atrae esa memoria, la salva del olvido como no pudieron hacerlo quienes no aprendieron a usar el lenguaje; que tanto la repele, porque el lenguaje está ausente de la memoria, de su clase social, no acepta el corsé de una sintaxis exquisita. Queda la esperanza de esa acumulación sin ornamentos, recitada como una plegaria, por la salvación de una memoria colectiva, y la imposible tarea de no excluir a nada ni nadie.

El tiempo que dura la lectura de Los años —como ocurre con los textos que culminan una visión de la escritura— interiorizamos la forma de su “frase” y de su lógica narrativa: la síntesis:

Todo se borrará en una segundo. Se eliminará el diccionario acumulado de la cuna al lecho final. Será el silencio sin palabras para decirlo. De la boca abierta no saldrá nada […]. En la sobremesa de una fiesta no seremos más que un nombre, cada vez menos un rostro, hasta desaparecer en la masa anónima de una generación lejana. [Los años]

Esa síntesis nos devuelve a dónde estuvimos cuando ocurrió la Historia, con h mayúscula, a su asimetría con la historia personal; a los cuerpos y sueños perdidos en los abismos entre ambas; a los tejidos sociales disueltos, las versiones diluidas de una misma; a los mundos que dejamos atrás.

Terminada la proyección y cerrado el libro, se ha dilatado el sentido de cuánto se perderá cuando nos unamos al cortejo del olvido y por siempre desaparecerán todas las imágenes… salvo si han sido escritas. Salvo si alguien las lee.

Leer Los años, leer a Ernaux, es admirar la simetría recompensada entre la obra y la vida cuando, al cabo de los libros, el camino al premio de Estocolmo no pasó por Paris, sino por Cergy.

Diego Courchay
Escritor y periodista. Terminó la maestría en Periodismo por la Universidad de Columbia.


1 En el flujo memorioso de Los años, Ernaux alterna una acumulación “sin amarres”, que obvia la puntuación, con remansos reflexivos, donde el texto recobra sus señas tradicionales.

 

[Fuente: http://www.nexos.com.mx]

 

Olivier Dahan est aux manettes de «Simone, le voyage du siècle», consacré à la magistrate et femme d’État, avec pour fil conducteur son parcours de rescapée de la Shoah. Avec nous, il revient sur la manière dont il a choisi de représenter ces événements.

Elsa Zylberstein a sollicité Olivier Dahan pour réaliser ce film sur la vie de Simone Veil, qu'elle incarne à l'écran. | Capture d'écran Warner Bros. France via YouTube 

Elsa Zylberstein a sollicité Olivier Dahan pour réaliser ce film sur la vie de Simone Veil, qu’elle incarne à l’écran. | Capture d’écran Warner Bros. France via YouTube

Écrit par Anaïs Bordages — édité par Sophie Gindensperger

Après La Môme et Grace de MonacoSimone, le voyage du siècle, en salles le 12 octobre, vient conclure la trilogie de biopics féminins réalisés par Olivier Dahan –cette fois-ci sur Simone Veil, décédée en 2017.

Mais ceux qui s’attendent à voir un récit historique détaillé sur la création de la loi Veil (qui a dépénalisé le recours à l’avortement) seront déçus. C’est avec son discours mémorable à l’Assemblée nationale, en 1974, que s’ouvre le film; puis, le combat politique le plus célèbre de l’ancienne ministre de la Santé est rapidement évacué. Pour raconter la vie de cette figure française mythique et panthéonisée, Olivier Dahan a choisi un autre fil conducteur: la déportation de Simone Veil, et son expérience dans les camps.

Rencontré quelques semaines avant la sortie, le cinéaste décrit son film comme «un portrait en mouvement». De l’enfance de Simone Veil sur la Côte d’Azur à l’écriture de ses mémoires, le film nous transporte en effet d’une période à l’autre, à travers divers moments marquants de la vie et la carrière de la magistrate. En Allemagne, dans les prisons algériennes, au Parlement européen ou dans un hôpital auprès d’un patient séropositif, ce «voyage du siècle» un peu cahoteux tente en deux heures vingt de faire la somme de tous les combats de Simone Veil –au risque de s’éparpiller, avec des allers-retours incessants qui empêchent les scènes de respirer.

Alors que le film progresse, ces courts fragments dans le désordre chronologique sont entrecoupés de passages de plus en plus longs et détaillés qui racontent la déportation de Simone Veil, sa sœur et sa mère. Parmi ces séquences, de longues scènes dans les wagons à bestiaux, l’arrivée de nuit à Auschwitz, la violence dans les dortoirs et dans les camps, ou encore l’agonie finale d’Yvonne, la mère de Simone, incarnée par Élodie Bouchez.

Représentation de la Shoah

Faire un biopic sur Simone Veil sans raconter son expérience de déportée aurait été incongru, alors que la femme d’État a tant lutté pour que son récit et celui des autres survivants soient entendus. «Ce début de vie conditionne tous ses choix, dans l’Europe, dans ce qu’elle fait pour les femmes, et pour toujours de se battre pour la dignité des êtres», explique Elsa Zylberstein, qui incarne Simone Veil à l’âge adulte –malgré les prothèses, devenues malheureusement incontournables dans tout biopic conventionnel, son interprétation et celle de Rebecca Marder (qui joue Simone dans sa jeunesse) constituent le salut principal du film.

C’est l’actrice qui, après plusieurs rencontres avec Simone Veil, a sollicité Olivier Dahan pour réaliser «un grand film» sur sa vie. Pour elle, la question de la mémoire n’est pas celle qui s’est posée en premier, «mais fatalement, c’est intrinsèque au sujet». Quant à Olivier Dahan, lui-même descendant de déportés, il s’agit pour lui d’une évidence: «C’est un film sur la Shoah. […] Ce qui m’intéressait, que j’avais peu vu dans les films, c’est le silence imposé par l’État français une fois que les déportés reviennent. Ce contre quoi Simone Veil va lutter en premier: elle a envie de parler, et on lui refuse ce droit de parole, à elle comme à tous les autres d’ailleurs.»

Mise en scène excessive

Si la Shoah devait forcément être évoquée, les choix dans Simone interpellent. Que peut-on et doit-on montrer de la Shoah au cinéma? Pourquoi reconstituer avec tant de détails les atrocités des camps? S’attarder si longuement sur le visage amaigri et agonisant d’Élodie Bouchez dans le rôle d’Yvonne Steinmetz? Le débat existe depuis longtemps, et ressurgit notamment à chaque fois qu’une fiction s’empare du sujet.

Dans sa célèbre critique du film Kap​​ò de Gillo Pontecorvo, en 1961, Jacques Rivette estimait que le fait même de mettre en scène l’expérience des camps, et dans ce cas précis la mort de l’héroïne, avec des procédés classiques du cinéma, était immoral: «Le réalisme absolu, ou ce qui peut en tenir lieu au cinéma, est ici impossible; toute tentative dans cette direction est nécessairement inachevée (“donc immorale”), tout essai de reconstitution ou de maquillage dérisoire et grotesque, toute approche traditionnelle du “spectacle” relève du voyeurisme et de la pornographie.»

La reconstitution, c’est le choix qu’a fait Olivier Dahan, qui reconnaît s’être interrogé: «Qu’on se pose la question, et je me suis posé la question, c’est normal, affirme Olivier Dahan. La question c’est pas “est-ce qu’on peut ou pas faire un film là-dessus”, c’est comment faire le film. […] C’est quelque chose qui demande de la réflexion, et de l’intuition. La justesse et l’honnêteté avec laquelle ça doit être fait va forcément à l’encontre de quelque chose de très spectaculaire ou de trop graphique, donc j’ai essayé de tenir à distance le truc.»

«J’ai eu envie d’impacter le spectateur en le mettant dans une sorte d’apnée pour essayer de rendre compte de ce que les déportés qui sont revenus ont pu décrire de l’arrivée aux camps.»

Olivier Dahan, réalisateur

Pourtant, certaines scènes de Simone laissent peu de place à la suggestion ou à la pudeur. L’horreur des camps est mise en scène de manière graphique et parfois excessive, comme dans ce passage interminable sur la tonte et le tatouage des déportées: avec des gros plans sur leur crâne et un montage vif, anxiogène, les femmes se succèdent sous les coups de ciseaux.

Quand on l’interroge sur sa réflexion, le cinéaste développe: «Je voulais mettre mal à l’aise le spectateur avec pas mal de scènes en fait, c’était mon intention. Sur l’arrivée au camp par exemple. Il n’était pas question de mettre à l’aise, d’ailleurs, l’inverse aurait été saugrenu. Disons que j’ai eu envie d’impacter physiquement le spectateur en le mettant dans une sorte d’apnée, que ce soit avec les images et avec les sons, pour essayer, vaguement, de rendre compte de ce que les déportés qui sont revenus ont pu décrire de l’arrivée aux camps.»

Transmission

Pour Elsa Zylberstein, dont la famille a été cachée par des justes pendant la guerre, la transmission est clairement un des objectifs du film. L’actrice, qui a côtoyé Marceline Loridan-Ivens, Ginette Kolinka ou Paul Schaffer, estime que comme Simone Veil, «ce sont des gens obsédés par la transmission, pour ne pas qu’on oublie. Et peut-être qu’inconsciemment, quand j’ai parlé [à Simone] du film, je me suis dit: elle a dû comprendre que c’était aussi pour ça, pour que ça n’arrive plus.»

Olivier Dahan explique aussi que sa volonté était de recréer des images destinées à un jeune public encore inéduqué sur la Shoah et ses représentations cinématographiques. «Je ne montre pas tout des camps: je montre l’arrivée, la marche de la mort, des choses qu’on n’a pas forcément vues depuis longtemps. Et même s’il y a de grands films qui ont été faits sur le sujet, Shoah de Claude Lanzmann en tête bien entendu, je me suis dit qu’aujourd’hui en 2022, il n’y avait pas beaucoup de gamins de 15 ans qui avaient l’occasion de voir Shoah, ni même Le Pianiste, ni même La Liste de Schindler et d’autres films encore. J’avais l’intention de faire un film accessible, donc je me suis octroyé le droit de répéter un peu les choses.»

[Source : http://www.slate.fr]

Hace 45 años murió uno de los personajes más influyentes de la historia de la comedia, que junto a sus hermanos se rió de la vida burguesa y del héroe viril clásico 

Groucho Marx en 'Sopa de ganso' (1933)

Groucho Marx en ‘Sopa de ganso’ (1933)

Escrito por Juan Sardá

Escoger la mejor película de los hermanos Marx es como jugar a una lotería infalible, da igual con qué número juegues, lo más probable es que aciertes. Quizá la más redonda sea Una noche en la ópera (1935), en la que esa secuencia del camarote a rebosar en el barco se ha convertido en una expresión universal para decir que un lugar está abarrotado.

Otro momento mítico del filme, en el que se revela el aspecto kafkiano que siempre tuvo su obra, es ese en el que Groucho lee un contrato y dice aquello de “la parte contratante de la primera parte”, que sigue siendo la mejor parodia de la burocracia y las trampas del lenguaje legalista.

Oportunista, canalla, caradura, deslenguado, grosero… Groucho Marx provoca una risa liberadora porque en realidad nos representa. Perfeccionó su personaje hasta lo sublime pero no lo inventó él. La tradición judía, en la que el humor, muchas veces negro, es fundamental, creó al schlemiel, arquetipo contrario al héroe.

El schlemiel es el tipo que mete la pata en una reunión social, el que derrama una taza de café hirviendo sobre su amada en la primera cita y el “cobarde” que no quiere ir a la guerra no porque sea pacifista sino porque, sencillamente, tiene miedo. No solo eso, en una sociedad hipercapitalista como la estadounidense, encarnan una y otra vez la dignidad del loser.

Junto a sus hermanos, el inolvidable Harpo, el payaso mudo y poeta, y Chico, el tipo rudo y un poco elemental de las calles de Nueva York, construyó algunas de las mejores comedias de todos los tiempos. Comenzaron en el teatro, curtiéndose en las duras tablas de Broadway, y sus primeras películas, Los cuatro cocos (1929) y El conflicto de los Marx (1930) adaptaban aquellos primeros éxitos. Conjugan la fuerza del slapstick, el gag basado en el humor físico, con el ingenio que también forma parte de la tradición hebrea, ese pueblo que superó todos los exilios y pogromos convirtiendo el sarcasmo en una catarsis.

Los años 30 en estado de gracia

En los años 30 firman sus mejores películas. Sopa de ganso (1933) es una obra maestra, una brutal sátira contra el auge del totalitarismo en la que se revelan como unos visionarios. Una vez más, el oportunismo en apariencia cínico de Groucho resulta mucho más humano y, en último término, moral, que la exaltación nacionalista y la integridad entendida como fanatismo de la épica militarista.

La construcción del héroe se impone como un ideal que refleja lo mejor del ser humano pero también de un molde que hoy llamaríamos “masculinidad tóxica”. Frente a esos machos alfa que conducen a la humanidad a las mayores catástrofes, la falta de pretensiones, la asunción de su propia debilidad y cobardía, el rechazo frontal a cualquier ideología que no admite discusión y la parodia de lo épico convierten a Groucho en un personaje redentor que salva a los hombres de la obligación de tener que serlo.

“Si no le gustan mis principios tengo otros”, reza la frase más famosa de Groucho Marx (Nueva York, 1890-Los Angeles, 1977), convirtiendo al schlemiel en obra de arte. Se definió a sí mismo como un “amante sarnoso” en sus memorias y dijo aquello de “nunca formaría parte de un club que me aceptara como miembro”. Frente a la obligación de no derramar una lágrima y ser siempre perfecto, él exaltaba lo que verdaderamente nos hace humanos.

Después de Sopa de ganso, otra obra maestra ya mencionada, Una noche en la ópera, donde perfeccionan su talento para el enredo. En Un día en las carreras (1937) Groucho se dedica, una vez más, a tomarle el pelo a una vieja millonaria, esa Margaret Dumont que encajaba las mayores groserías con cara de palo. Inolvidable esa última secuencia, revolucionaria, en la que los hermanos huyen de la vida burguesa de los blancos ricos para terminar cantando y bailando con sus sirvientes afroamericanos.

Apología de la bohemia

Frente al aparente cinismo de Groucho, en las películas de los hermanos siempre aparece una encantadora pareja de jóvenes que simbolizan la pureza de la vida. Son siempre profundamente románticos. Ahí esta ese joven dramaturgo de El hotel de los líos (1938), representante de una especie de pureza artística al que los hermanos ayudarán demostrando su buen corazón. El mundo del dinero, al que una y otra vez satirizan en la millonaria de Dumont, se encarna en un magnate del teatro. Cargadas de humanismo, frente al capitalismo rampante, los Marx siempre contraponen la importancia de los sentimientos.

Otra película fundamental es Los hermanos Marx en el Oeste (1940), con esa famosa secuencia del tren que no puede frenar en la que gritan aquello de “¡más madera, es la guerra!”, que forma parte del lenguaje popular. Los Marx vuelven a dar vida al mito bohemio y anarquista que forma parte de su esencia. Nunca tienen domicilio ni trabajo fijo, alérgicos a las convenciones de la vida burguesa. En este caso, deberán enfrentarse a una codiciosa compañía de ferrocarril en su eterno conflicto con el mundo del dinero.

Con Tienda de locos (1941) culminan su etapa de esplendor. Una vez más, los métodos poco ortodoxos de Groucho se ponen al servicio de una buena causa como los intereses de una joven y encantadora cantante de ópera. Aún rodarían dos películas más como Los hermanos Marx, Una noche en Casablanca (1946), en la que parodian la famosa Casablanca de Bogart en su incesante destrucción del héroe viril clásico, y Amor en conserva (1949), ambientada en ese mundo del espectáculo que tanto amaron. Nunca quisieron ser más que cómicos y en esa falta de pretensiones, sus maravillosas películas encuentran absoluta grandeza.

[Fuente: http://www.elespanol.com]

O fotógrafo documentalista posou tamén o seu obxectivo en Galicia a mediados do século XX

Escolares vixiados por unha monxa no Obradoiro (1947-1958) e retrato de Nicolás Muller co seu can. Nicolás Muller | Ana Muller

Escrito por MONTSE GARCÍA

Nicolás Muller (Orosháza, Hungría, 1913-Andrín, Asturias, 2000) sempre quixo ser fotógrafo. Aos 13 anos regaláronlle a súa primeira cámara e, aínda que se licenciou en Dereito e Ciencias Políticas, tamén aproveitou ese tempo de estudante para percorrer o seu país natal xunto a un grupo de intelectuais retratando o estado semifeudal no que vivía a súa poboación. Xa desde aí demostrou que non se limitaba a apertar o botón do obturador. «Sempre tivo unha mirada comprometida. […] Desde os seus primeiros traballos el ocupábase das persoas, do traballo, das penurias que sufrían… El facíao desde unha mirada poética, desde o esforzo e o respecto cara a esas persoas que aínda en andrajos tiñan unha dignidade enorme. Ese foi o interese da súa vida», explica a súa filla Ana Muller tras achegarse ao Gaiás para ver a vintena de imaxes do fotógrafo húngaro que durante os últimos meses formaron parte da exposición colectiva Vía dá Prata. Aires do Sur, que este domingo pecha as súas portas na Cidade da Cultura tras recibir máis de 15.000 visitas.

Plaza de abastos compostelana (1947-1958) y lavanderas en aguas termales en Ourense (1947-1958).

Praza de abastos compostelá (1947-1958) e lavandeiras en augas termais en Ourense (1947-1958). Nicolás Muller

Esa mirada comprometida foi moito máis alá da súa Hungría natal e acabouno convertendo nun dos referentes da fotografía documental. Nicolás Muller —que proviña dunha familia xudía librepensadora— abandonou o seu país con 25 anos tras intuír o horror que chegaba ao escoitar os discursos de Hitler. Cunha maleta na que gardaba esas fotos que tomara en Hungría, recalou en París, onde contactou con intelectuais da época, como Picasso. Alí traballou para publicacións de tinguidura esquerdista.

Enviárono a Portugal para fotografar a Salazar, pero non puido e tomou imaxes que a aquel réxime ditatorial non interesaba que se visen, así que acabou sendo encarcerado. Foi liberado nuns días. Con París ocupado, o seu destino foi Tánxer, onde estivo oito anos. Aí entrou en contacto coa comunidade española e acabou fincándose en 1947 en España, onde viviu ata o final dos seus días, e percorreuna co seu cámara para realizar as fotografías que lle encargaban para distintas publicacións, pero tamén «as imaxes que realmente lle interesaban a el».

Sacerdote en los campos de Benavente (1950-1967) y puente sobre el Miño en Ourense (1950-1957).

Sacerdote nos campos de Benavente (1950-1967) e ponte sobre o Miño en Ourense (1950-1957). Nicolás Muller

Son esas fotografías as que espertan o (crecente) interese actual e nas que as persoas son as protagonistas, como as lavandeiras de Ourense ou as placeras do mercado de Santiago. «Sempre que se publicaba un libro, quedaba tan decepcionado que despois facía unha exposición coas fotos como el as quería», explica Ana Muller.

«Servirá para saber como eramos e como se facían fotos»

As fotografías que tomou ao longo de catro décadas Nicolás Muller, un dos grandes documentalistas do século XX, forman parte agora do Arquivo Rexional da Comunidade de Madrid. «É o retrato de España e doutros moitos lugares de Europa», subliña Ana Muller, tamén fotógrafa, que traballa para visibilizar ese legado que «servirá para saber como eramos, como viviamos e como se facían as fotos hai 60 ou 80 anos», afirma. Respecto ao modo en que tomaba as imaxes, explica que o seu pai realizaba moi poucas tomas. Por exemplo, da icónica do cura paseando polos campos de Benavente, unicamente había esa.

Se algo resalta Ana Muller de Nicolás é «a mirada especial, empática e humanista que tiña cara ás persoas. Gustáballe retratar xente —nenos, especialmente—, costumes e tradicións. Fixo un traballo etnográfico moi interesante». Ademais, lembra que acompañou ao seu pai nalgunha viaxe a Galicia. «A el o norte encantáballe. Namorounos Santiago», rememora.

 

[Fonte: http://www.lavozdegalicia.es]

Organizações repudiam “ato macabro e cobarde” contra diretor do Centro para a Democracia e Desenvolvimento e presidente da Rede Moçambicana de Defensores dos Direitos Humanos, e denunciam “fechamento do espaço cívico e tentativas de bloqueio às atividades” das ONG.

Foto publicada na página de Facebook pessoal de Adriano Nuvunga

Esta terça-feira foi divulgada uma Nota de Repúdio e Denúncia à Ameaça à Vida do Ativista Adriano Nuvunga(link is external) subscrita por cinquenta e cinco organizações não governamentais (ONG), entre as quais figuram, nomeadamente, o Centro para a Democracia e Desenvolvimento(link is external)IESE- Instituto de Estudos Sociais e Económicos(link is external)Observatório do Meio Rural (OMR)(link is external)Rede Moçambicana de Defensores dos Direitos Humanos(link is external)JOINT – Liga de ONG’s em Moçambique(link is external)Kuendeleya(link is external)Muleide(link is external)União Nacional de Camponeses(link is external) ou Fórum Nacional de Rádios Comunitárias(link is external).

Na missiva, as ONG explicam que, na madrugada de segunda-feira, 15 de agosto, “indivíduos desconhecidos atiraram para o quintal da residência de Adriano Nuvunga, dois projéteis, posteriormente identificados por agentes do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), como sendo munições de arma de guerra do tipo AK 47”. Acresce que esses projéteis continham uma mensagem que só foi possível decifrar parcialmente: “Cuidado Nuvunga”.

Os subscritores da nota de repúdio e denúncia consideram que este foi um “ato macabro e cobarde” e expressam a sua total solidariedade para com o diretor do Centro para a Democracia e Desenvolvimento e presidente da Rede Moçambicana de Defensores dos Direitos Humanos, bem com a sua família.

Os 55 coletivos destacam ainda que este ato “ocorre em contexto de cada vez mais fechamento do espaço cívico e tentativas de bloqueio às atividades de organizações da sociedade civil”. E lembram que as organizações sociais são “instituições criadas à luz da Constituição da República de Moçambique e as atividades dos seus membros estão plenamente cobertas pela lei, devendo, por isso, operar em ambiente de paz e sob a proteção dos competentes órgãos do Estado”.

Garantindo que não se calarão contra atos “cobardes de ameaças ao exercício de liberdades, direitos e garantias constitucionais dos cidadãos, mesmo que com encenações de recurso a armas de fogo”, as ONG exigem “que a investigação do caso seja célere e os seus resultados identifiquem os seus autores para a sua responsabilização criminal”.

A Rede de Defensores dos Direitos Humanos da África Austral (Southern Africa Human Rights Defenders Network(link is external)) também já veio condenar veementemente a série de ameaças ao professor Nuvunga e exorta as autoridades moçambicanas “a reafirmar o compromisso de Moçambique na promoção e proteção dos direitos humanos e em particular, a proteção dos defensores dos direitos humanos contra ameaças, ataques ou outras formas de represálias”.

Numa declaração conjunta da sociedade civil da África Austral é igualmente reivindicada a realização de “investigações imediatas, completas e imparciais sobre todas as ameaças que foram feitas contra o professor Nuvunga, com o objetivo de levar os responsáveis à justiça” e a adoção de medidas para “garantir que os funcionários do governo ou outras figuras públicas se abstenham de fazer declarações que estigmatizem o trabalho legítimo dos defensores dos direitos humanos em Moçambique”.

« Uma ameaça velada que visa limitar o nosso trabalho »

Em declarações à agência Lusa, Adriano Nuvunga, que é também professor de Ciências Políticas na Universidade Eduardo Mondlane, falou sobre a ameaça à sua integridade física:

« Isto para nós é uma ameaça velada que visa limitar o nosso trabalho, um trabalho que visa precisamente alargar o acesso à justiça para que as pessoas vítimas da corrupção e impunidade possam ter o mínimo de dignidade. Portanto, com todas essas ameaças, o que posso dizer é que a luta continua », garantiu o ativista moçambicano.

Em 2020, Adriano Nuvunga foi alvo de uma ameaça de bomba em sua casa. Apesar dos apelos da  Amnistia Internacional para que fosse conduzida uma investigação rigorosa, até hoje não é conhecido qualquer desfecho.

Perseguições contra ativistas e jornalistas são recorrentes

As perseguições contra ativistas e jornalistas em Moçambique têm vindo a ser reiteradamente denunciadas pelas organizações da sociedade civil moçambicana, mas também por inúmeras ONG internacionais e, inclusive, por líderes religiosos.

A situação degradou-se com o estalar da insurgência em Cabo Delgado e com a investigação ao escândalo das dívidas ocultas.

Vários ativistas e investigadores têm defendido que uma das causas da instabilidade no norte de Moçambique é, exatamente, a pobreza e a ausência de espaços de participação democrática, sem que as populações, as organizações da sociedade civil, os investigadores sejam auscultado sobre os problemas do país e sobre a resolução desses mesmos problemas.

O próprio Banco Mundial, que admite que a sua política em Moçambique falhou, é perentório ao afirmar que a insurgência em Cabo Delgado está relacionada com a exclusão política, económica e social sentida na província. Mas o governo de Maputo, secundado pelo então ministro português Augusto Santos Silva(link is external)nega-se a admitir esta realidade, empenhando-se em suspender direitos e liberdades.

 

 

[Fonte: http://www.esquerda.net]

A ulls d’un profà pot semblar una extravagància, però la bicicleta està pensada perquè l’usuari se l’hagi de posar entre les cames per fer-la funcionar.

Escrit per Ricard Sayeras Quera

Per aprendre a anar en bicicleta, cal, primer de tot, que se’n procuri una. Descobrirà que és una màquina singular que té dues rodes disposades en línia recta, una al davant de l’altra. L’artefacte també inclou un seient, un manillar i unes curioses plataformes giratòries, situades a banda i banda, que s’anomenen pedals. Alguns models també incorporen un giny petit i rodó que quan s’acciona amb el dit gros de la mà emet un soroll molt característic.

A ulls d’un profà pot semblar una extravagància, però la bicicleta està pensada perquè l’usuari se l’hagi de posar entre les cames per fer-la funcionar. Aquesta postura original afavoreix que el binomi persona-màquina assoleixi un elevat grau d’eficàcia. Tanmateix, l’esmentada positura ha motivat que les ments malaltisses dels detractors de l’invent hagin volgut veure en aquesta posició malintencionades analogies concupiscents. Ignori’ls.

Quan tingui la bici, busqui un espai exterior on exercitar-se. És preferible que triï una zona planera i sense obstacles a prop. S’assegui al selló i recolzi els dos peus a terra. Agafi el manillar amb les dues mans i amb fermesa. Si els artells li queden blancs, afluixi un xic. No cal que escanyi al manillar. Concentri la mirada en un punt llunyà a davant seu. Mentre manté un peu a terra, amb l’altre pressioni el pedal del mateix costat. Notarà que l’aparell avança fent una suau sotragada. No s’espanti. Aprofiti l’embranzida i repeteixi l’operació amb el peu que encara estava en contacte amb el sol. Si no se’n va de trompis, continuï fent pressió de forma alternativa als pedals. Ara un, ara un altre. Al principi li costarà rodar en línia recta. Perseveri. És qüestió de temps.

En el cas que vulgui aturar l’andròmina, serà necessari que premi les palanques que trobarà a banda i banda del manillar. Són els frens. Apliqui una pressió a les manetes proporcional a la urgència que tingui per parar.

La paradoxa de la bicicleta és que per mantenir l’equilibri, s’ha de moure sempre endavant. Sense aturar-se. I, a més a més, per no perdre l’estabilitat, el fòtil ha de viatjar de pressa. Com la vida moderna.

En el cas que es desequilibri o que quedi estès al mig del camí tan llarg com és, no s’amoïni. Recuperi la dignitat, torni a la posició inicial i repeteixi l’operació els cops que facin falta. Quan agafi el ritme viurà un moment màgic, únic a la seva vida i que ja no oblidarà mai més. Experimentarà una sensació corporal molt agradable i especial mentre es desplaça. L’aire li acaronarà el rostre, els ulls li brillaran i els llavis, de manera inconscient, li dibuixaran un somriure alegre. Se’n diu llibertat. Vigili. Aquesta presa de consciència pot ser determinant en la seva vida. Ja mai més res no tornarà a ser com abans perquè aquesta experiència quedarà gravada a la seva memòria com els deu manaments ho van ser a les taules de la llei. Milions d’individus d’arreu del món ja l’han viscut aquest efecte, des de la invenció de la bicicleta. La immensa majoria, frisosos, han buscat qualsevol excusa per tornar a assolir l’estat de delectança que proporciona el pedaleig. Imbuïts per l’èxtasi, alguns ciclistes han fet proeses tals com fer la volta al món, escalar les muntanyes més altes, o circular entre cotxes per anar a treballar.

Es pot dispensar la bicicleta a partir dels dos anys de vida. Els estudis científics conclouen que com més jove sigui l’administrat, més potents i duradors són els efectes. La dosis màxima que pot tolerar cadascú ja li faran saber les cames. I compti que no s’escaparà pas de patir mal al cul.

 

[Font: http://www.nuvol.com]

Por Paulo Portugal

‘A Nossa Terra, o Nosso Altar’, o documentário sobre a destruição do Bairro do Aleixo, estreia esta semana no Porto (Trindade) e Coimbra (Casa do Cinema).

Não é todos os dias que um jovem cineasta e produtor vê um filme seu chegar às salas. Não as salas de casa lá de casa, mas verdadeiras ‘salas’ – as de cinema. Muito menos, um documentário. Pois, no caso do André Guiomar, a coisa fez-se. Ou seja, A Nossa Terra, o Nosso Altar, o filme-documento, produzido pela portuense Olhar de Ulisses, em coprodução com a Cimbalino Filmes, sobre a demolição inevitável do Aleixo, um bairro considerado perigoso e mandado demolir por Rui Rio, e a demolição interior que provocou nos seus condóminos. É esse processo, de forte perturbação social, que Guiomar acompanhou, e que terá as portas abertas em duas salas: uma o Cinema Trindade, no Porto, e a outra na Casa do Cinema, em Coimbra. Infelizmente, não em Lisboa, que, como confirma André Guiomar, “se pôs imediatamente de fora”.

A nossa conversa (via email) propiciou-se, não só pelos méritos próprios do filme, mas também pelo trabalho (de realização e produção) de André Guiomar, que ainda recentemente teve duas curtas exibidas da secção competitiva do Curtas Vila do Conde:  Saturno, em correalização com Luís Costa, em que o desespero dilacerado de um casal (o não actor ‘Caveirinha’ e Ana Moreira) comunica até com o dos inquilinos do Aleixo; além disso, o seu trabalho de produção em Aos Dezasseis, de Carlos Lobo, vencedor do prémio de realização, já depois de ter presente no passado festival de Berlim.

Zé da Bina olha com esperança o futuro no Aleixo.

Imagino que para qualquer realizador, o dia em que um filme estreia em sala seja marcante. Mesmo quando é, como no caso do A Nossa Terra, o Nosso Altar, um filme com data de 2020, embora já bastante viajado em diversos festivais e com vários prémios. Ainda assim, a estreia em sala será sempre uma vitória, certo?

Sim, será um dia de várias vitórias, mas com algumas derrotas pelo meio. As vitórias são sobretudo relacionadas com a chegada finalmente ao formato de exibição para o qual trabalhamos tantos anos: a projecção em sala. E por haver uma distribuidora (a Nitrato, de Américo Santos) que acredita no filme, naquilo que ele representa e no alcance que ele pode ter.

Fica o sabor da meia derrota quanto ao número de salas disponíveis para exibir um documentário português, passado no Porto. Quero com isto dizer que Lisboa se pôs imediatamente de fora. E isso será sempre um sinal menos bom. Mas, no final, quem decide o que quer ver é o público (aquele que consegue chegar às salas) numa altura em que os cinemas têm tantas dificuldades em tirar pessoas de casa, quando estas têm centenas de opções na sua televisão ou computador. Vamos ver como corre.

Como foi o ponto de partida para este projecto que acabou por ser a tua primeira longa? Sendo que teve uma longa interrupção (em que várias coisas aconteceram)?

O ponto de partida surgiu de uma participação minha e da Cimbalino Filmes no filme Bicicleta, do Luís Vieira Campos. Os filmes são sempre portas abertas para a vida das pessoas e o trabalho que o Luís já tinha feito com a comunidade era espantoso e de muito valor. Quando pude conhecer o bairro por dentro, achei que havia uma urgência muito grande em documentar aqueles últimos meses (em 2013 tinham sido demolidas duas das cinco torres do bairro e estavam programadas serem demolidas as restantes 3 num par de meses). Vendo a dor daquelas pessoas em ver o Aleixo com quase quatro décadas a desaparecer, o seu sentido de comunidade e ligação profunda a um lugar, as suas características e maneiras de ser que faziam daquele terreno um lugar único, decidi começar de imediato a filmar e a Cimbalino Filmes entrou no projecto sem hesitação nem entraves. Naquela altura, a ânsia era filmar tudo, todos os lugares, todas as pessoas, sem termos tempo para pensar demasiado na narrativa de imediato porque tínhamos de ganhar a confiança e amizade das várias famílias que íamos documentando. Precisávamos filmar e continuar a filmar.

A Nossa Terra, O Nosso Altar

Mas, seis meses depois, fomos filmar a passagem de ano de 2013 para 2014 e reuni com a equipa pouco depois. Percebemos que tínhamos de parar e aguardar, tal como os habitantes, pelas cartas de despejo que faltavam para as famílias que ainda habitavam o bairro. O processo de demolição tinha claramente entrado numa fase de suspensão, tal como aquela comunidade. E, por isso, viramos as nossas vidas profissionais para outros percursos. Eu cheguei a estar três anos e meio em Moçambique com muitos outros projectos, mas sempre atento, à espera de uma notícia ou de um telefonema para me avisar que uma carta tinha chegado.

Curiosamente, quando decidi regressar a Portugal, em 2019, foi quando começaram a sair notícias de que as restantes torres do Bairro do Aleixo iriam ser destruídas. Assim, seis anos depois, começaram a chegar as cartas e nós estávamos lá, preparados para continuar o filme, um filme diferente, com pessoas ainda mais cansadas e sem forças, num bairro que já não parecia o mesmo de 2013.

Recentemente, exibiste a tua nova curta, Saturno, no Curtas Vila do Conde, onde se percebe uma vez mais a atenção dada às personagens, ao seu espaço, neste caso, o espaço de ficção. Consideras que é ainda um trabalho de exploração das potencialidades da imagem e do teu próprio olhar?

A minha formação vem principalmente da imagem, uma área onde muitas vezes trabalho. Por isso, mesmo não sendo director de fotografia deste projecto, é sempre uma preocupação prioritária para mim. Este projecto foi especial porque foi uma correalização com o Luís Costa, realizador que também tem uma marca muito forte no seu cinema na linguagem visual. Mas entregamos a responsabilidade principal da imagem às pessoas em que mais confiamos: o Miguel da Santa e o Tiago Carvalho. E a forma visual do filme nasceu com muita naturalidade, pelas referências que partilhamos mas sobretudo pela experiência que temos todos em conjunto.

Sente-se até uma ligação entre a dor destes personagens e a dos do Aleixo.

O filme Saturno é inteiramente baseado na narrativa pessoal do Caveirinha e em aspectos, trejeitos e histórias que fomos ouvindo e aprendendo durante a estadia prolongada no Bairro do Aleixo. Sendo o Caveirinha um não actor, seria uma grande responsabilidade colocar-lhe nos ombros todo o peso de um protagonista. Por isso, decidimos contrabalançá-lo com a Ana Moreira, que sabíamos ser exímia não só no que faz como actriz como numa relação de entreajuda com uma pessoa como o Caveirinha. E o que tivemos foi realmente uma dupla magnífica, que nos deu sempre mais do que aquilo que nós conseguíamos pedir, e que inclusive acabaram por moldar de tal forma os seus personagens que aquilo que no argumento era um casal distante, com opiniões diferentes no que fazer para enterrar com dignidade o seu filho, acaba por se tornar um casal cheio de empatia e entendimentos silenciosos no meio daquela dor agonizante.

Parece-me, olhando o teu cinema, que existe algo de muito particular entre a câmara e as personagens que escolhes filmar. Há uma relação muito próxima, e ao longo de vários filmes: sejam os habitantes do Aleixo (personagens muito fortes), Pele de Luz ou até as personagens de Saturno, a tua nova curta. Qual é o ponto de vista do lado do realizador? Há também um lado de identidade?

Não me considerando propriamente uma pessoa com um grande nível criativo no imediato, agrada-me ter tempo e muitas histórias à minha disposição para poder trabalhá-las. Para isso, tivemos de optar por ter uma equipa o mais pequena possível (eu como realizador e câmara, o Dinis no som e a Mafalda na produção). Assim, conseguimos filmar muito mais tempo, e conseguimos “encaixar-nos” em qualquer espaço, interior ou exterior, e sobretudo construirmos fortes relações com as pessoas. A comunidade está a atravessar provavelmente um dos momentos mais difíceis das suas vidas e nós estamos ali, a fazer-lhes companhia nessa altura com uma câmara, um tripé e um microfone. Isto ganha-se, é preciso muito tempo e cumplicidade. A escolha da equipa é essencial para isto. Muito mais do que o talento técnico, aqui interessava o encaixe humano, a relação emocional com a comunidade, o respeito por aquilo que filmamos. Estávamos todos em sintonia e só assim conseguíamos regressar e continuamente estarmos presentes nas vidas e rotinas. Através dessa proximidade, começas a desenvolver uma grande confiança e a relação começa a ser de uma grande entrega e dádiva por parte deles. Isso resulta em momentos de intimidade únicos e valiosos. Da minha parte como realizador, só assim consigo conceber que através da exposição que aquelas pessoas estão sujeitas através da minha câmara, do som e das decisões que fizer na montagem, que haja uma justiça e dignidade na representação que estamos a fazer.

André Guiomar

E aqui temos uma entrada mais no terreno da ficção. Foi algo natural?

Tendo eu mais experiência no documentário do que na ficção, o Saturno não deixa de ser uma exploração pessoal de uma linguagem ficcional onde ainda estou num processo de descoberta. Mas em termos de mensagem e de olhar, acho que o percurso que tenho feito segue no mesmo sentido.

Sente-se que estás preparado para voos ainda mais altos, já como um nome consagrado dos cineastas da tua geração. Sei que estás a filmar outro documentário. 

Considero os voos que tenho voado já bastante altos, ou pelo menos tenho de os encarar assim. Mas estou sempre pronto a sair de uma zona “confortável” e de subir mais um degrau, esse será sempre o objectivo e a única forma de manter tanto entusiasmo e motivação.

Estou a meio da produção da minha próxima longa documental, projecto que também já dura há uns anos (desta vez interrompido pela pandemia que nos fez regressar à pressa no último voo em Março de 2020). Será a minha segunda longa documental, que me parece um formato que me serve melhor no tempo que preciso para construir as personagens e a relação do espectador com o próprio ritmo dos meus filmes. A base para a história é completamente louca, mas tal como nos meus outros projectos, normalmente a fase de filmagem é aquela que mais me define o caminho final que vou acabar por seguir. Conto terminar a fase de rodagem ainda este ano, mas veremos. A consagração será sempre um resultado natural do nível do trabalho que desenvolvemos e do alcance que os projectos conseguem ter. No final, trabalhamos sempre para podermos ter o privilégio de poder mostrar o filme e de podermos continuar a realizar ideias que nos vão surgindo ninguém sabe bem de onde.

Por fim, parece-me que o cinema português vem atingido uma maturidade cada vez maior, apesar das dificuldades e dos poucos apoios. És otimista em relação a este momento?

Em relação ao cinema português, visto da ótica de um realizador, sim e acho que todos temos de estar satisfeitos e otimistas com muito do reconhecimento alcançado para a quantidade de produção que temos. A quantidade de artistas e técnicos que temos com a qualidade que temos é meio surreal, como é que isso é possível com tão pouca escala de trabalho. E aqui também me refiro ao nível de artistas de outras artes como a literatura, a música, a pintura, o teatro.

Já como recente Produtor que sou, não sei se posso dizer o mesmo porque ainda hoje me pergunto como sobrevivem as produtoras de cinema em Portugal com a falta de escala e quase inexistência na distribuição internacional. É algo que temos de reflectir, se com uma grande globalização e possibilidade de alcance de várias plataformas temos também de repensar a nossa estratégia de alcance.

 

[Fonte: http://www.insider.pt]

En su 50 aniversario, los escritores Alicia Giménez Bartlett, Lorenzo Silva, Rosa Ribas y Carlos Zanón recuerdan la importancia del detective creado por Manuel Vázquez Montalbán en la evolución del género negro en España

Eusebio Poncela interpreta al mítico detective creado por Manuel Vázquez Montalbán en la serie 'Las aventuras de Pepe Carvalho', dirigida por Adolfo Aristarain

Eusebio Poncela interpreta al mítico detective creado por Manuel Vázquez Montalbán en la serie ‘Las aventuras de Pepe Carvalho’, dirigida por Adolfo Aristarain

Escrito por Marta Ailouti

Años 60, poco antes de que se produzca uno de los asesinatos más célebres de la historia del siglo XX, un superagente de la CIA de origen gallego, exmiembro del partido comunista español, se convierte en guardaespaldas del presidente de los Estados Unidos, John F. Kennedy. Su nombre, claro está, es Pepe Carvalho.

Aunque aún le queda para convertirse en uno de los mejores exponentes de nuestra novela negra, aquellos inicios, hace medio siglo, plantarán la semilla de lo que se convertirá en toda una saga e inmortalizará a su autor, Manuel Vázquez Montalbán, como uno de los nombres del pabellón mundial de los maestros del género noir.

“Me pondré a escribir novelas como Simenon y me compraré un castillo en Suiza”, cuenta Miqui Otero en el prólogo de la edición especial de Yo maté a Kennedy que contestó el escritor a su suegro cuando este le habló de la última adquisición del creador del icónico comisario Maigret. Reeditada ahora por Planeta para celebrar su aniversario, aquel fue el debut de un Pepe Carvalho aún por perfilar, en cuanto a lo que para muchos se convirtió un par de años después en su bautizo oficial, Tatuaje (1974).

Bien es cierto que aquel personaje no cocinaba, aunque ya manifestaba cierta debilidad por la gastronomía, y tampoco quemaba libros, aunque sí los apilaba —“para hacer construcciones arquitectónicas”—. Tampoco usaba muchos de los códigos de la novela negra. Aunque, por otro lado, indudablemente lo hacía cuando afirmaba en la ficción: “Yo tengo una pistola sobaquera, la tendré siempre. Dispararé hasta el último cartucho contra cada cerdo que busque amparo en la podrida dignidad colectiva de la especie”.

Como un ajuste de cuentas con la España tardofranquista, “para Vázquez Montalbán —escribe Pierre Lemaitre en Diccionario apasionado de la novela negra (Salamandra)—, la literatura era un arma de combate: contra el franquismo, cuyos calabozos conoció, y contra la amnesia colectiva de los tiempos posdictatoriales”.

Un pionero en la novela negra española

“Fue un auténtico pionero —afirma hoy Alicia Giménez Bartlett—. Introdujo la modernidad en el país un tanto a la americana: detective privado, entorno urbano….”. Y es que, aunque ya había precedentes “de fuste”, explica Lorenzo Silva, “como el Plinio de Francisco García Pavón o el detective Selva de Emilia Pardo Bazán —cuya trascendencia solo recientemente hemos podido apreciar en toda su dimensión con la publicación de su novela inédita e inconclusa—, Vázquez Montalbán acertó a hacer una apuesta decidida por el género policial como molde narrativo y artefacto literario, inserto en el marco de la novela social contemporánea. Lo hizo con modernidad, originalidad, desparpajo y una gracia innegable. Su talento para la observación y el detalle y su voluntad de estilo redondearon la faena”.

Su apuesta sirvió, además, para revalorizar un género que, durante mucho tiempo, se pensó como mero pasatiempo. “Él era un intelectual respetado y quiso jugar y experimentar con la cultura popular, con la novela de género, el puro entretenimiento, lo que ha sido siempre una aberración para según quién », reflexiona Carlos Zanón.

Pero también fue subversivo a la hora de enfocar el género policial, ya que dio la vuelta al tópico en muchos aspectos —lo local, la gastronomía, la copla, el Barça—, haciendo de cada Carvalho un anuario de la sociedad española. Y creó a Carvalho, personaje icónico sin el cual ni Andrea Camilleri, ni Petros Márkaris, ni Donna Leon, ni Jean-Claude Izzo hubieran escrito igual”.

Referente para muchos de nuestros escritores posteriores, añade Rosa Ribas, Vázquez Montalbán, además, “ayudó a sacar al género de la marginalidad de las formas literarias consideradas menores, al mostrar el gran potencial crítico del que es capaz. Porque, con mayor o menor fortuna, se atrevió a jugar con los parámetros del noir, mostrando que no hay formas ortodoxas, sino una gran libertad de movimientos”. En ese sentido, comparte que el escritor le influyó “mucho más en cuanto a que daba valor y peso literario a un género considerado menor por muchos”, lo que para ella “y otros seguramente, supuso un estímulo para adoptarlo”.

Un mundo irreal donde cabía de todo

Escrita cuando apenas había cumplido los 30 años, tras títulos como Manifiesto subnormal y Crónica sentimental de EspañaYo maté a Kennedy, cuenta Otero en el prólogo, “caería tras su lanzamiento en las cajas de saldo de El Corte Inglés, pero acabaría por ser una de sus obras más traducidas y de culto”. El propio Vázquez Montalbán, la describió como una novela reflejo de “un mundo irreal que venía de la empanada mental que vivíamos”. Un vodevil donde cabía de todo: “poemas, textos de vanguardia, influencia del cómic y del cine… Era un maregmánum que reflejaba la descomposición de la novela que creíamos que estábamos viviendo”.

En ese contexto, « Pepe fue decisivo en la popularidad de las novelas », tercia Giménez Bartlett. Era un personaje original, cortado con un patrón tradicional del género, pero muy autóctono. Sus andanzas y amores solo hubieran podido suceder en España. Era un antihéroe que se recordará. Su talante crítico y su amor a la buena cocina lo hacen singular”, apuesta la autora de Petra Delicado. Se trata, pues, de una especie de “Frankestein incomprensible e imposible”, según Zanon, que supo calar en el sentir general. “Carvalho genera unanimidad en un país donde aún se discute si Messi era mejor que Ronaldo o si tampoco hay para tanto con Benito Pérez Galdós o La plaça del diamant. Es emblemático. Su sentido del humor, su alergia a las banderas, su desilusión lejos de una mesa puesta”.

Con una producción de casi 20 novelas, además de numerosos relatos, como en cualquier serie “su nivel es desigual —reflexiona Silva sobre la totalidad de la obra— pero el promedio es más que notable y el conjunto adquiere perfiles de gran obra. Puede que tenga novelas más poderosas en sí mismas, por ejemplo Galíndez, una de las mejores aproximaciones literarias de la literatura del siglo XX a la figura del titular del poder absoluto; pero la suma de las novelas de Carvalho es tal vez su obra más relevante. De ellas destacaría su amenidad, su vocación crítica y testimonial y su aliento poético. Del personaje, su carisma”.

Coincide con este análisis Ribas, quien lamenta que “muchas veces las obras de género, más populares, devoran el resto de la producción de un escritor. Pero algunas de sus otras obras merecerían mayor atenciónGalíndez o la Autobiografía del General Franco (recién recuperada por Navona), aunque esta necesitaría un índice onomástico al final, ya que presupone que en el lector un conocimiento de la época que dificulta la lectura”.

De las obras de Carvalho, la autora de Un asunto demasiado familiar o Los buenos hijos, valora “el retrato de una Barcelona cambiante, de sus diferentes barrios, de tipos de gente propios de ese tiempo”. Aunque si bien destaca del personaje “su actitud, su estar de vuelta” y la gente de la que se rodea, “son muy buenos secundarios”, confiesa que lo de la cocina le gusta menos, “pero eso es algo muy personal”.

Para Zanón, por su parte, hubo “una relación ciclotímica” en la serie. “Está la trilogía hard boiled clásica —Los maresTatuajeLa soledad…— o cuando le importaba algo mucho, como por ejemplo Quinteto de Buenos Aires, novelas divertidas —para él, para un público que esperaba dosis Carvalho—, coyunturales y periodísticas —argumenta—. En todo momento hay una voluntad de retrato sentimental y sociológico de su país, creo, del mundo del que viene y del que está llegando. Una melancolía irremediable, casi morbosa”.

Pepe Carvalho, hoy

Reflejo de la España posfranquista, las circunstancias del país hoy han cambiado, lo que no impide que, como tercia Giménez Barlett, leyéndolo podamos “recordar y aprender”. “Algunas de las novelas han envejecido mal porque eran circunstanciales, estaban muy ligadas al momento y bastantes de las referencias resultan incomprensibles o irrelevantes, fuera del interés documental”, desarrolla Ribas, para quien títulos como Los mares del sur, en cambio, siguen siendo actuales y “buenas lecturas”.

En cualquier caso, su valor es incuestionable. “Es posible que al perder las referencias directas algunas de ellas, o algunos pasajes, no sean tan sugestivos para el lector de hoy como para el de entonces. Pero el lector curioso que se esfuerce por buscar esas referencias se encontrará con un valioso fresco de la sociedad española de fines del siglo XX y principios del XXI —recuerda Silva—. Tal vez no comparta algunos de sus juicios y apreciaciones, pero no podrá sino inclinarse ante la sagacidad, la honestidad y la compasión del retrato de la España de aquellos años”.

Manuel Vázquez Montalbán, creador del personaje Pepe Carvalho

Manuel Vázquez Montalbán, creador del personaje Pepe Carvalho

Y es que desde aquellos inicios con Yo maté a Kennedy hasta la adaptación que asumió el propio Zanón en 2019, Problemas de Identidad, donde resucitaba a Pepe Carvalho tras el fallecimiento de su autor en 2003, habían pasado 47 años. Aunque se reconoce deudor más de Juan MarséGonzález LedesmaEduardo Mendoza o Francisco Casavella que de Vázquez Montalbán, de aquel desafío, el experto en novela negra, además de poeta y novelista, sacó una experiencia que vivió como “un lujo, un privilegio, un peligro, un orgullo y un reto literario más que comercial. Lo disfruté mucho. Escribiéndolo y promocionándolo. El libro gustó mucho y por los motivos que yo quería: por cómo se había escrito, por lo personal y, al mismo tiempo, respetuoso, del texto », recuerda.

Colocado por Pierre Lemaitre en el Olimpo de los grandes personajes del género, como MarloweWallander y Maigret, nuestro Pepe Carvalho nada tiene que envidiar a los otros detectives canónicos. “Y es algo de lo que deberíamos estar orgulloso. No es fácil ni depende de uno crear un personaje icónico. Y sigue vivo. También su autor. Pensemos en otros autores de su generación que fueron populares y hoy nadie lee y sus libros están fuera de circulación. Fue un lujo tener a un escritor como Manuel Vázquez Montalbán y que optara por jugar con las novelas de quiosco y no los sesudos ensayos sobre eurocomunismo, Hegel y Adorno”, reconoce Zanón.

Influenciado por él, “en su apuesta por anteponer la mirada a la sociedad y a los individuos sobre las servidumbres del enigma o el culto a la violencia, en la necesidad de recurrir al humor, aunque el crimen siempre sea algo trágico, y en la exigencia de que el héroe tenga a la vez algo de anómalo y de corriente, de lugareño y de irremediablemente extranjero”, Silva, por su parte, reconoce y sube la apuesta de Lemaitre en cuanto al lugar que ocupa Carvalho en este curioso panteón literario: “Por encima de Wallander —que le debe mucho al Martin Beck de Sjöwall y Wahlöö—, cerca de Maigret y solo claramente por debajo de Marlowe, lo que no es ningún desdoro, porque no hubo, ni tal vez habrá, otro más grande”.

[Fuente: http://www.elespanol.com]

Adaptada á normativa actual e con melloras, tiráronse 4.000 exemplares da cuarta edición dunha tradución directa ao galego dende o hebreo, arameo e grego que levou máis de 15 anos completar

Escrito por TAMARA MONTERO

Foi unha tarde de 1972, nun local alugado polo padre Seixas en Vigo, onde abrollou un proxecto que vería a luz nada menos que 17 anos despois: unha tradución ao galego da Biblia dende os seus idiomas orixinais (hebreo, arameo e grego) que gañou o Premio Nacional de Traducción en 1990 e coa que se lle agasallou en 1989 ao papa Xoán Paulo II na súa visita a Compostela.

A lembranza de Francisco Domínguez, presidente da Sociedade e Estudos, Publicacións e Traballos (SEPT) daquela xuntanza en Vigo con Alfonso Zulueta, Xaime Isla, Domingo Fernández del Riego e Xosé Luís Fontenla Rodríguez mestúrase en San Martiño Pinario coas voces de crentes galegos que reclaman para si o máis obvio: a palabra de Deus en galego, xa sexa porque «sabe máis a pan da casa», ou porque «cando rezo en galego sáeme de dentro, de alá ao fondo», ou, tirando de versos, «porque si, porque me gusta, porque me peta». Pero sobre todo, porque «os galegos precisamos e merecemos escoitala no noso idioma».

Daquel esforzo colectivo de preto de vinte anos saíu unha Biblia en lingua galega que onte presentou a súa cuarta edición, adaptada á normativa actual, revisada e mellorada baixo a coordinación de Xosé Fernández Lago (que tamén se encargou no seu día da coordinación da tradución canda a Andrés Torres Queiruga). «A palabra de Deus é sempre viva e actual e o Señor quere que a recibamos na nosa lingua para que nos resulte máis viva, máis cordial e máis agarimosa», explicaba o coordinador da presente edición.

Foi o arcebispo de Santiago, Xulián Barrio, o que lembrou que unha das principais achegas do Concilio Vaticano II foi o mandato de usar as linguas vernáculas para estender e achegar a Biblia por todo o mundo. En 1965, coa aprobación do cardeal Quiroga Palacios, o padre Seixas oficiou, o 25 de xullo, a primeira misa en lingua galega, ofrendada a Rosalía de Castro.

«E por que non?», contestaba o conselleiro de Cultura á pregunta retórica de por que unha Biblia en lingua galega. Primeiro, porque ten demanda. A terceira edición esgotouse hai máis de cinco anos e desta cuarta tiráronse uns 4.000 exemplares. «Se houbera que poñer unha etiqueta de calidade á nosa Biblia —explicaba Francisco Domínguez— eu diría dignidade imprescindible, tradución rigorosa e linguaxe próxima á fala do pobo, que a fai moi adecuada para o labor pastoral. Galicia e a Igrexa deben sentirse orgullosas dela».

Segundo, porque unha parte do galeguismo histórico tiña profunda pegada católica. E logo, porque a Biblia non apela só a unhas crenzas. Apela a unha identidade colectiva, a un xeito de ver o mundo. A unha cultura compartida entre moitos países. Lembraba Román Rodríguez que a Biblia transcende a fe e a relixión para ser non só «clave de bóveda da civilización occidental» e un compendio que «fixa valores e comportamentos fundamentais» desa mesma civilización. Se cadra, por iso Gutenberg a escolleu para ser o primeiro libro impreso da historia, reflexionaba o conselleiro.

«No fondo falamos dun libro profundamente humano». Nel están reflectidas a derrota, a redención, a misericordia, o xúbilo, o engano, a esperanza… E Galicia. Tamén Galicia ten o seu espazo nas Escrituras, en concreto no primeiro Libro dos Macabeos, no que se fala das campañas romanas neste territorio e da reacción de Xudas Macabeo a esta situación, que agora se pode ler en lingua galega adaptada á normativa actual.

 

 

[Imaxe: PACO RODRÍGUEZ – fonte: http://www.lavozdegalicia.es]

Escrito por
Los peligros de la moralidad. Por qué la moral es una amenaza para las sociedades del siglo XXI
Pablo Malo Ocejo
Deusto, Grupo Planeta, 2021

Hace más de medio siglo, el filósofo José Luis López Aranguren se lamentaba de la desmoralización que invadía la sociedad española como resultado de la neutralización política de una ciudadanía, cómplice con el poder, que solo aspira al aumento de los ingresos y del bienestar1. En conversación con Javier Muguerza2, Aranguren insistía: «En una época de crisis como la nuestra, los contenidos de la moral pueden tornarse cuestionables, pero lo que nada ni nadie nos puede arrebatar, si no queremos dejárnosla arrebatar, es la actitud moral».

Una afirmación de esta naturaleza, referida tanto al intelectual como al ciudadano de a pie, puede parecer intemporal y plenamente justificada. No son infrecuentes las llamadas a un rearme moral de la sociedad, ni resulta extraña la apelación a la justicia y el bien como motivación última de la acción política. ¿Qué otra cosa mejor podríamos pedir a la ciudadanía y a la clase política que mantener vivo su compromiso moral? ¿No es, acaso, este compromiso un bien en sí mismo?

Sin embargo, ciertos fenómenos políticos y sociales ocurridos estos últimos años como consecuencia del avance de los populismos, las guerras culturales, la caza de brujas, el terrorismo de motivación religiosa o los nacionalismos agresivos han devuelto protagonismo a un viejo problema filosófico: la compleja relación entre moralidad, legitimidad y legalidad, o dicho de otro modo, al papel que las creencias morales deben tener en el ámbito de la actividad política e institucional, especialmente en las sociedades democráticas. Y es que hay buenas razones para pensar que el desiderátum del viejo filósofo español puede llegar a constituir un grave problema para las sociedades democráticas y que lo más sensato sería alejar la moral de la vida política y la convivencia social. ¿Por qué?

El psiquiatra español Pablo Malo ha publicado recientemente (Deusto, 2021) un ensayo que lleva por título Los peligros de la moralidad. En esta obra, el doctor Malo, psiquiatra en ejercicio en el Servicio de Salud del País Vasco-Osakidetza, analiza el carácter ambivalente y problemático de nuestra mente moral y diagnostica una peligrosa hipermoralización que exacerba los extremismos, polariza las diferencias políticas y culturales y contamina las luchas identitarias con el tono épico y agónico de la pugna entre el bien y el mal. El libro pone el foco con valentía en un campo de análisis polémico de gran interés y actualidad, sintetizando una abundante e interesante bibliografía sobre el tema.

El primer paso para manejar los efectos perversos de una visión moralista y moralizante de la vida social y política pasa por adquirir una buena comprensión de la moralidad. Y ello solo es posible, en opinión del autor, situando la moral en el marco de una visión naturalista, inspirada en la psicología evolucionista, lejos de las convenciones filosóficas o religiosas y de todo dogmatismo. En particular, hay una idea que debe ser abandonada urgentemente: no existen ni el bien ni el mal puros y, en consecuencia, no existen personas ni actos puramente buenos o malos. No hay mayor ni más urgente reto que explicar cómo ciertas personas cuyos valores consideramos moralmente buenos pueden llegar a cometer actos que nos parecen atroces, sin que ello sea percibido como una contradicción moral, como ocurre en la intimidad moral de la mente del terrorista o del votante radical de ciertas ideologías extremas. El autor del libro conoce de primera mano los paradójicos efectos que el terrorismo nacionalista de ETA causó en la sociedad vasca y sus contradicciones morales.

Atentado de ETA en la T4, en 2006.

En los primeros cuatro capítulos del libro, el autor define ese marco conceptual evolucionista con el que intenta dar cuenta del significado de la moralidad. Una vez desplegadas estas herramientas conceptuales, Malo procede a hacer una interpretación de ciertos fenómenos políticos y sociales que, como ya dijimos, resultan del mayor interés para la vida democrática. Así, en el capítulo cinco, el autor trata sobre la indignación moral y de un nuevo vehículo para expresarla, las redes sociales, convertidas en unos particulares tribunales de justicia popular. El capítulo seis aborda el fenómeno de la hipermoralización que impregna de significación moral -con lo que ello comporta- muchos fenómenos antaño carentes de ella. En el capítulo siete, el autor repasa los problemas que la moralidad supone en dos aspectos fundamentales. Por una parte, el peligro de llevarnos a la violencia moralista, la violencia más frecuente, grave y masiva a lo largo de la historia. Por otra, el peligro que la moralidad encierra para el buen funcionamiento de dos instituciones básicas de nuestras sociedades: la democracia y la ciencia. El libro se cierra con un capítulo final de conclusiones y perspectivas de futuro.

No podemos abordar todos y cada uno de los asuntos tratados en el texto, por lo que comentaremos solo aquellos que nos parecen más relevantes, al tiempo que emplazamos al lector a completar la lectura de una obra sin duda muy recomendable.

Un marco naturalista para entender la mente moral

La moralidad consiste, según el autor, en la capacidad singular de los seres humanos de distinguir el bien del mal. La mente moral no se encuentra comprometida a priori con un contenido moral concreto (tal cosa es buena o mala), algo que depende de las condiciones culturales que alimentan el aprendizaje individual y, en consecuencia, varía en el espacio y en el tiempo. Sin embargo, sí existen ciertas disposiciones morales que configuran la gramática profunda de nuestra mente moral y son decisivas en su análisis. En opinión del doctor Malo, la psicología evolucionista nos provee de un marco conceptual iluminador capaz de esclarecer estas paradojas, aunque no las haga desaparecer. De acuerdo con este marco conceptual, la moralidad se presenta antes que nada como una adaptación biológica surgida en nuestra especie por selección natural. Como toda adaptación, sirve al interés reproductivo del individuo. No debemos olvidar su origen, si queremos evitar falsas suposiciones acerca de sus contenidos o de su naturaleza. La moral es contingente, como cualquier otro producto evolutivo. Nada hay necesario en ella.

Siguiendo las directrices elaboradas en las últimas décadas por biólogos y psicólogos evolucionistas, Malo estima que la evolución de la mente moral está ligada al desarrollo de ciertas presiones de selección en favor del altruismo y la cooperación. Ese proceso evolutivo ha tenido tres grandes hitos: la conducta altruista, explicada como resultado del esfuerzo por salvaguardar el acervo genético compartido entre parientes consanguíneos (selección de parientes); la cooperación directa para beneficio mutuo, que permite la cooperación entre individuos en contextos de interacciones repetidas en grupos pequeños, de manera que el dilema entre cooperar o dejar de hacerlo se mantiene en equilibrio gracias a que de cada individuo puede castigar al compañero egoísta negándole la ayuda en la siguiente interacción; y la reciprocidad indirecta, que es aquella en la que la recompensa o pago por un favor que realiza un individuo le será devuelto por parte de una tercera persona o de la sociedad en su conjunto. Esta última modalidad ha permitido crear sociedades cohesionadas formadas por grandes grupos de individuos que no solo no están emparentados genéticamente, sino que ni siquiera se conocen.

El éxito de la cooperación para beneficio mutuo y de la reciprocidad indirecta se ha producido, como recuerda el autor, gracias a ciertos mecanismos inscritos en lo más profundo de la mente moral de todo ser humano. El prestigio y la reputación, de una parte, y el castigo y el ostracismo, de otra, son las herramientas niveladoras que permiten contener, dentro de un orden, la proliferación de conductas egoístas. La pérdida de la reputación por haber cometido un acto inmoral o haber denegado ayuda cuando existía un compromiso es algo muy grave que puede llevar al suicidio o al homicidio. El rechazo y la condena social tienen un terrible impacto psicológico en el ser humano; la condena al ostracismo es una especie de muerte social y la ruptura del sentido de conexión y pertenencia es uno de los factores de riesgo ampliamente aceptados para el suicidio.

Protestas por la muerte de George Floyd, 2020

Para conseguir este difícil equilibrio evolutivo fue necesaria la circulación abundante de información sobre la calidad y fiabilidad morales de las personas mediante el cotilleo y la cháchara, que tanto hacen disfrutar al ser humano. Esa información, que construye o destruye la reputación y el prestigio del potencial cooperante, resultó y resulta determinante en las interacciones sociales para el éxito o el fracaso de los intereses y alianzas de los individuos. Pero nuestra mente moral, además, se consolidó ligada a un sesgo fuertemente tribal marcado por la decisiva oposición entre un «nosotros» y un «ellos». Nuestra psicología tribal nos permite identificarnos y coordinarnos con los miembros de nuestro grupo, facilitando la satisfacción de nuestras necesidades. Tendemos a preferir y a favorecer a los miembros de nuestro grupo frente a los miembros de otros grupos.

Los miembros del mismo grupo poseen normas de conducta similares que facilitan el éxito de la cooperación. Además, están sujetos a que su comportamiento puede afectar a su reputación y ser objeto de castigo. La cooperación, cuando no se posee información de primera mano sobre los individuos con los que se interacciona, necesita la identificación de los miembros en los que se puede confiar, es decir, los del endogrupo. Esta identificación quedó en manos de un conjunto de signos o marcadores de pertenencia muy variados: ropa, pintura, tatuajes, lengua, rasgos físicos, costumbres alimenticias, prácticas rituales, etc.

Otros marcadores menos evidentes, pero no menos importantes, en opinión de ciertos psicólogos evolucionistas como John Tooby, son las creencias o la ideología. Las ideas y creencias no son solo una cuestión personal, nos abren las puertas de la pertenencia al grupo y señalan también esa identidad hacia el exterior. Malo se adhiere a esta interpretación, pues permite dar sentido al asombroso, diverso y exuberante mundo de las creencias y prácticas culturales, incluso a las más absurdas y arbitrarias. La comunicación de verdades funcionales, de verdades neutras, de hechos claros y comprobados puede no servir como señal diferencial. Por el contrario, unas creencias exageradas, inusuales, por ejemplo, creencias sobrenaturales o altamente improbables (alarmismos, conspiraciones y muchas otras creencias que circulan para estupor de muchos) no se mantendrían si no es como expresión de una identidad.

Sea esta u otra la explicación correcta, el tribalismo característicamente humano ha impuesto severos límites a la interacción con los otros y a su evaluación moral. Por ejemplo, la división Ellos/Nosotros limita el alcance de la tan traída empatía, que muestra grandes limitaciones para atravesar las barreras de nuestro círculo social, exige lealtades inquebrantables, impone el dominio de la lealtad por encima de la honestidad y moviliza todo tipo de coaliciones que tienen la función de ampliar el poder de los individuos ofreciéndoles más poder frente a los otros. Este es un hecho de extraordinaria importancia: los límites de nuestras normas morales llegan hasta los límites de nuestro grupo, es decir, no aplicamos las mismas normas morales a los miembros de nuestro grupo que a los individuos que no pertenecen a nuestro grupo.

La mente moral en el mundo moderno

Moralización

La historia de occidente durante los dos últimos siglos puede interpretarse, al menos parcialmente, como un proceso de secularización y amoralización, legado de la Ilustración. La amoralización sería el proceso por el que ciertos objetos o conductas salen del campo de la moral. Por ejemplo, durante el último medio siglo hemos presenciado cómo ciertas conductas como la masturbación, el sexo prematrimonial o las relaciones homosexuales se liberaban de su significación moral negativa -al menos parcialmente y no en todas partes por igual-. Este fenómeno ha traído indudables avances para la convivencia en sociedades cada vez más plurales, una tendencia que parece frenarse en los últimos tiempos.

La moralización, por el contrario, es el proceso por el que una actividad que previamente se consideraba fuera del campo moral entra dentro de él. No se conocen bien los factores que desatan este proceso, pero así ha ocurrido en las últimas décadas con el consumo de carne -criticado desde posiciones conservacionistas-, con el consumo de tabaco -cuestionado por su impacto sobre la salud individual y colectiva- o con el cuidado de los animales -desde posiciones animalistas-. Y, más recientemente, durante la pandemia, en el enfrentamiento con los denominados antivacunas. En el ámbito político, por su parte, la pugna entre partidos también ha rebasado los límites de los programas políticos y las medidas económicas, para adentrarse en el ámbito de la moral, hasta convertir a los grupos políticos en tribus morales enfrentadas que ven al oponente como un Otro inferior y que incentivan relaciones de exclusión que rompen amistades y familias.

En todo caso, la cuestión de fondo es que, cuando algo entra en el campo moral, se convierte en un debe y pone en alerta a los individuos frente a la conducta de los otros. Si algo tiene carácter moral, se puede y se debe recriminar, no basta solo con disentir, y reclama una regulación social promoviendo un movimiento general de las instituciones y de los medios de comunicación en esa dirección, para garantizar ese «deber ser». La moralización desata entonces los resortes de la mente moral, excitando las reacciones emocionales, los tribalismos y los dogmatismos que dificultan cualquier negociación entre partes. Incluso la violencia puede ser contemplada como medio legítimo.

Victimismo

Un fenómeno análogo al anterior ha ocurrido con el desarrollo de una hipersensibilidad ante los agravios, tal y como refiere Malo. Los conceptos de trauma y víctima han sufrido una ampliación semántica. En un principio, el concepto de trauma hacía referencia a heridas físicas (trauma procede de la palabra griega para «herida»). Su causa era un suceso externo y sus efectos eran orgánicos, aunque se podían manifestar con síntomas psicológicos. Sin embargo, el suceso traumático ha ampliado su extensión, ya no necesita ser una amenaza a la vida, ni estar fuera del rango de la experiencia humana normal, no tiene por qué crear malestar en casi cualquier persona. Solo es necesario que la persona lo viva como perjudicial. Bajo esta definición, el concepto no solo se ha hecho mucho más amplio, sino más subjetivo, abierto a múltiples sensibilidades nacidas de experiencias y conductas negativas, por acción u omisión. Como consecuencia se identifican más tipos de experiencias como perjudiciales y a más tipos de personas como perjudicadas, como víctimas que necesitan cuidado y protección.

Este nuevo marco, más sensible y receptivo, que amplía el espacio del sufrimiento, desencadena, sin embargo, ciertos efectos perversos. Si bien las víctimas se definen por su sufrimiento, vulnerabilidad e inocencia, se disminuye su capacidad para salir de su situación por sus propios medios, es decir, crea dependencia, al tiempo que aumenta el encasillamiento de los villanos morales, los abusadores como únicos agentes morales. Los ejemplos traídos por el autor proceden mayoritariamente de las sociedades norteamericana y británica. Y su contexto más inmediato es el de las universidades y la vida académica. En este mundo sensible, intelectualizado y proactivo se ha instalado, por ejemplo, el concepto de microagresión. Derald Wing Sue define las microagresiones como «las breves y cotidianas indignidades verbales, conductuales y ambientales, intencionadas o no intencionadas, que comunican una actitud hostil, negativa o despectiva en temas raciales, de género u orientación sexual, e insultos leves religiosos contra individuos o grupos». Entre nosotros, este concepto ha adoptado típicamente la forma de micromachismos, un tipo específico de microagresión.

Bradley Campbell y Jason Manning, cuya obra sirve de guía a Pablo Malo, han desarrollado una teoría acerca del victimismo3. Distinguen estos autores entre dos tipos de cultura convencionales: la cultura del honor y la cultura de la dignidad. En la primera, es la reputación lo que hace que alguien sea honorable o no, y uno debe responder agresivamente a los insultos, las agresiones y los desafíos, porque si no lo hace pierde el honor. En la segunda, se considera que, en vez de honor, las personas tienen dignidad, que es inherente a ellas, por lo que no puede ser alienada por otros, ni tiene que ser demostrada. La dignidad existe independientemente de lo que otros piensen, por lo que la reputación social es menos relevante.

Nuestra cultura actual, según Campbell y Manning, está adquiriendo una forma híbrida con elementos de ambas culturas. Por una parte, la creciente sensibilidad ciudadana es más propia de la cultura del honor, muy sensible a la ofensa, pero, por otra, los individuos no responden personalmente, buscando directamente la reparación de su honor, sino procurando el respaldo de terceras partes, como exige el recurso a las instituciones que protegen los derechos dentro de la cultura de la dignidad. Esto último sería impensable en una cultura del honor. Dos aspectos distinguen esta nueva cultura híbrida del victimismo. Por una parte, las ofensas que desencadenan protestas son, en muchos casos, cuestiones menores que podrían interpretarse como asuntos relativos a las buenas formas, imputables a la mala educación o la ignorancia, asuntos reprobables en el plano puramente personal. Por otra, el individuo o colectivo que se siente ofendido recurre a las redes sociales para hacer público su problema y movilizar rápidamente la opinión pública en su favor y contra el agresor -sin mediación institucional-.

Cancelación y redes sociales

Otro fenómeno ligado a la creciente indignación moral es la llamada «cultura de la cancelación» o, dicho de otro modo, de la censura, silenciamiento u ostracismo. Ya sabemos la importancia que la reputación tiene para la vida social en nuestra especie y cómo nuestra mente ha evolucionado para utilizarla como indicador de confiabilidad. Otro tanto ocurre con la función del castigo y el ostracismo como penalización dirigida contra individuos que rompen las reglas y convenciones sociales -malas compañías para una mente cooperativa-. La expresión «cancelación» nació para referirse a la suspensión de conferencias de ciertos académicos o intelectuales en las universidades estadounidenses, porque un sector de los estudiantes no los consideraba moralmente adecuados. La cancelación se produce utilizando las redes sociales o también convocando manifestaciones in situ con el objetivo de boicotear el acto. Numerosas personas han sido objeto de cancelación en el ámbito intelectual, académico, literario o político, aunque también han sufrido este castigo personas anónimas que publican fotos, textos o reflexiones en cualquier medio. Una vez más, las redes sociales se convierten en el medio preferido para airear esta indignación moral.

Aunque algunos defensores del fenómeno han argüido que la cancelación es solo una forma de crítica, hay razones para pensar que detrás de ella hay algo más. Malo, siguiendo a Jonathan Rauch, identifica algunas señales inequívocas de que la cancelación desborda la crítica lícita para ir más allá: la cancelación busca el castigo más que la corrección de un error, pretende silenciar a su objetivo eliminando la disidencia; no utiliza la persuasión, sino la fuerza y el miedo; no dialoga con el individuo ni discute sus ideas, sino que estigmatiza a la persona con argumentos ad hominem u otros recursos no veraces, al tiempo que promueve el exhibicionismo moral de quienes realizan la crítica. Como señala el autor, la cuestión de fondo, lo verdaderamente preocupante, es que lo que estas cancelaciones buscan no es otra cosa que crear un régimen de miedo en el que la gente tema dar su opinión y en el que ciertas ideas no puedan ser cuestionadas.

Una nueva religión secular: la teoría de la Justicia Social Crítica

Es indudable que las últimas décadas han visto crecer la polarización política. Como resume el propio Malo, estamos en un momento histórico en el que el liberalismo y la modernidad que se encuentra en el corazón de la civilización occidental están amenazados. La amenaza procede de dos tipos de fuerzas, una revolucionaria y otra reaccionaria. Por un lado, están proliferando movimientos de extrema derecha que buscan dictadores que defiendan los valores occidentales tradicionales. Por otro lado, en la extrema izquierda, los cruzados progresistas sociales actúan como paladines del progreso moral sin los cuales la democracia estaría vacía.

Pero la atención del autor se dirige particularmente hacia una forma de ideología social autoritaria alimentada intelectualmente por el pensamiento posmoderno. Siguiendo la interpretación de Helen Pluckrose y James Lindsay en su obra Cynical Theories, Malo identifica el origen de la denominada teoría de la Justicia Social Crítica como un derivado de las ideas posmodernas. La posmodernidad echó a andar hace cinco décadas como crítica contra el legado ilustrado y positivista. Su discurso se estructuró en dos vectores: como crítica epistemológica, defendiendo el relativismo cultural, la disolución de la verdad y el escepticismo gnoseológico, y como crítica política, desvelando las relaciones entre conocimiento y poder. En los años noventa, el discurso posmoderno tomó una orientación hacia el activismo político y social, algo menos etéreo y abstracto. En esta época, el discurso posmoderno alumbró un conjunto de teorías como la teoría queer, la teoría poscolonial, la teoría crítica de la raza y la interseccionalidad, el feminismo y los estudios de género, los estudios sobre discapacidades y obesidad y otros.

Estas nuevas teorías, englobadas en la Justicia Social Crítica, mantienen una doble filiación. Por una parte, beben del posmodernismo al rebasar el marco reivindicativo de la lucha por los derechos civiles de las minorías -formalmente alcanzados- característico de la democracia liberal, un marco insuficiente por sus vínculos con el statu quo, es decir, con un sistema político en el que los derechos tienen una realidad más formal que sustantiva y en el que predominan los intereses de la clase política típicamente heterosexual, patriarcal y blanca. Pero, por otra parte, al estilo de la vieja Teoría Crítica frankfurtiana, necesitan ir más allá del escepticismo posmoderno, nihilista, para poner en marcha una verdadera transformación social y moral del mundo. Dicho de otro modo, el nuevo marco teórico de la Justicia Social Crítica rebasa el ámbito descriptivo para adentrarse en lo normativo, en lo moral. El resultado final es un «posmodernismo aplicado», como lo llaman Pluckrose y Lindsay, que abandona el escepticismo para considerar que la opresión sobre ciertos grupos basada en su identidad, aunque esta sea una construcción social, es real y tiene consecuencias objetivamente negativas que se deben combatir, luchando contra el modelo dominante.

Malo hace suya la interpretación de Pluckrose y Lindsay según la cual el modelo liberal democrático ha sido puesto en jaque por esta nueva teoría crítica. La defensa de los derechos de las minorías raciales o de la mujer no dejan de ser ajustes menores dentro del propio sistema de desigualdades que consagra el liberalismo, meros apaños, y es el propio modelo el que se cuestiona. Este cambio se ha iniciado en el mundo anglosajón (Estados Unidos, Canadá, Reino Unido y Australia) y todavía no ha afectado en el mismo grado a España y a los países de lengua hispana, aunque es sensato pensar que también llegará hasta nosotros. Hasta cierto punto, algunas de las políticas de igualdad en España, los conflictos internos del feminismo o ciertas reivindicaciones sociales de la izquierda más radical reproducen los mensajes de la Justicia Social Crítica -especialmente en cuestiones de género y en la defensa de las minorías-.

La Justicia Social Crítica también ha tomado la denominación «wokismo», del término inglés «woke», despertar, que hace referencia a la necesidad de tomar conciencia de la injusticia que soportan determinados colectivos. El wokismo tiene algunos rasgos comunes con una actitud religiosa y Malo hace suya la interpretación del historiador Tom Holland y otros intelectuales como James Lindsay, Mike Nayna, Jonathan Haidt, Andrew Sullivan o John McWorther, al contemplar la Justicia Social Crítica como una nueva religión secular de izquierdas. Jonathan Haidt, por ejemplo, afirma que, en cada universidad, algunos verdaderos creyentes han reorientado su vida alrededor de una lucha contra el mal, y Andrew Sullivan se pregunta si la interseccionalidad, que es el concepto que une todas las ramas de la Justicia Social Crítica, es una nueva religión.

Malo sigue a Holland cuando interpreta el movimiento #MeToo, el #BlackLivesMatters, y, más genéricamente, el wokismo, como manifestaciones de la matriz de pensamiento y acción cristianas4. La lectura de Holland, que Malo asume, ve en la Justicia Social Crítica la reproducción de una vieja polémica, la que enfrentó a Pelagio con Agustín de Hipona acerca del valor de las acciones personales en la salvación. Mientras que Agustín despreciaba el valor de las acciones individuales para salvar el alma, algo que depende finalmente de la Gracia divina como consecuencia del pecado original, Pelagio consideraba esencial la virtud personal y la transformación moral del mundo. En opinión de Holland, la izquierda estaría en la posición de Pelagio, la de exigir a los demás un cambio de actitud, en actitud punitiva y reclamando para sí la pureza moral. La izquierda radical actúa como si se encontrara en posesión de la verdad moral y ello confiere superioridad a su discurso y justifica su actitud punitiva. La vida se presenta como un enfrentamiento entre el bien y el mal, entre discursos dominantes -el del hombre blanco heterosexual, chivo expiatorio y culpable genérico de todos los males- y discursos e identidades excluidas, un mundo de relaciones de poder cuyo balance debe ser corregido. Aunque este marco de pensamiento sea compartido por una minoría (Malo, citando a otros autores, estima que puede suponer un 10% de la opinión pública norteamericana), su posicionamiento moralizante y su agresividad disuade a la ciudadanía de un enfrentamiento directo pues nadie desea ser identificado como miembro del bando opresor.

Pablo Malo es pesimista y duro en su juicio sobre el alcance y la evolución de este fenómeno. El papel realizado anteriormente por la religión ha sido asumido ahora por la Justicia Social Crítica, que representa un movimiento con los valores éticos y morales cristianos, pero sin Dios. El resultado, como señala el autor, es la caza de brujas es implacable y cruel, y no sirve de nada pedir perdón. El culpable debe ser aniquilado, silenciado, excomulgado, condenado al ostracismo, sin importar que, en muchos casos, estos linchamientos hayan acabado en suicidios. No se puede descartar que también los tibios, los que no sancionan, terminen siendo objeto de descalificación.

Perspectivas de futuro

Pablo Malo deja para el final la respuesta a la pregunta que subyace a lo largo del libro: ¿qué podemos hacer frente a estos desafíos? El autor presenta un conjunto de medidas que «deben tomarse como lo que son, un torbellino de ideas y no como algo consolidado y firme». En síntesis, son las siguientes:
Un primer paso fundamental es darse cuenta de que la moralidad constituye un peligro, algo de lo que mucha gente no es consciente, pues solemos fijarnos en sus aspectos positivos (por ejemplo, la búsqueda de justicia) e ignorar su lado oscuro. Este peligro supone un problema extremadamente difícil de solucionar, ya que nuestra mente moral es parte de la naturaleza humana, evolucionada para facilitar la cooperación dentro de grupo y la competencia con otros grupos. Así, nuestro carácter tribal no es eliminable de la ecuación. Las soluciones, pues, deben ir en la línea de diseñar instituciones (diques de contención) que mantengan a raya los excesos de nuestra moralidad.

Malo recoge también algunas sugerencias interesantes, pero difíciles de articular. Por ejemplo, el denominado abolicionismo moral. Se trataría de hacernos ateos de la moralidad del mismo modo que nos hicimos ateos con respecto a la existencia de Dios. El objetivo sería reducir al máximo la moralización. En realidad, no se trata de abolir la moralidad, sino de domarla. Introducir racionalidad en los conflictos y extraer de ellos sus resonancias morales. Olvidar los planteamientos en términos de buenos o malos y buscar salidas negociadas. Al fin y al cabo, la biología nos enseña que la moralidad es un medio para un fin, no un fin en sí mismo. Lo esencial es la cooperación y podemos intentar conseguirla sin pasar por la moralidad.

En el ámbito político, «la idea esencial sería sacar la moralidad de la vida pública todo lo que podamos, dejarla para el ámbito de lo privado». Para ello es necesario crear instituciones que sujeten nuestros instintos morales. Por ejemplo, cambiando el diseño de las redes sociales, que actúan como potenciadores de lo peor de nosotros o rediseñando nuestras instituciones políticas y la forma en que se reparte el poder, para que se favorezca la cooperación y la colaboración y no el enfrentamiento. Otro punto con respecto a la política es que necesitamos despolitizar nuestras vidas y recuperar otras formas de realización personal como las relaciones de amistad, la familia y los seres queridos o la cultura, los espacios y la naturaleza. En el ámbito social, repite la misma idea: sacar la ideología y los contenidos morales de nuestra convivencia diaria. El adoctrinamiento debe quedar fuera del ámbito público. Todo lo que comenta sobre el mundo laboral se puede aplicar también a la escuela y al sistema educativo.

En este mismo sentido, Malo defiende la necesidad de fomentar el escepticismo en todos los niveles: «Hoy en día las narrativas se venden en paquetes y solo hay dos posiciones: comprar el paquete completo o rechazarlo». Por el contrario, deberíamos aplicar una suerte de regla como esta: «Nadie tiene la última palabra: tú puedes afirmar que una declaración está establecida como conocimiento solo si puede ser refutada, en principio, y solo en la medida en que aguanta los intentos de refutarla».

Algunas reflexiones complementarias desde una perspectiva evolucionista

El término moralidad abarca un amplio conjunto de fenómenos y rasgos de comportamiento humano que influyen en las interacciones sociales. Teniendo en cuenta esta complejidad resulta difícil elaborar una explicación evolutiva que dé cuenta de la moralidad. Darwin fue el primero en intentarlo y, desde él, ha habido otros muchos intentos. En los últimos 40 años ha ganado fuerza la tesis darwinista, que suscribe Malo, de que la moralidad tiene un origen adaptativo, promoviendo la evolución de un comportamiento cooperativo dentro de las sociedades humanas. Esta visión de la moralidad como un medio (una adaptación), para conseguir un fin (la cooperación), da cuenta de un rasgo decisivo de la moralidad: el hecho de que los juicios morales implican una intención expresiva y prescriptiva, una posición defendida filosóficamente por figuras como Hume, Stevenson o Hare. Un juicio moral no es nunca meramente descriptivo. Incluso las fórmulas más neutrales comunican un fondo imperativo.

Esta interpretación evolutiva deja sin explicar, en nuestra opinión, un rasgo de la moralidad igual de relevante que el anterior, y que Malo, siguiendo a Linda Skitka, también reconoce: la percepción de que, desde una perspectiva folk, lo bueno y lo malo se presentan a la conciencia individual como si estuvieran dotados de cierto tipo de objetividad y universalidad. Los individuos interactúan y aprenden en un mundo cultural convencional que incluye normas que les son presentadas con la misma exterioridad que caracteriza a las propiedades materiales del mundo físico, como si fuesen elementos del campo objetivo de los hechos. Esta percepción de nuestras creencias y prácticas de una manera compatible con una interpretación objetiva de la moralidad debe incluirse en una explicación naturalista que intente abarcar el comportamiento moral en sus aspectos esenciales.

Nosotros hemos sugerido que para ello es necesario completar este escenario evolutivo, considerando un aspecto importante de la arquitectura cognitiva humana que procede de nuestra evolución como organismos culturales. El secreto de nuestro éxito, por usar la expresión de Joseph Henrich, está en nuestra capacidad evolucionada para la transmisión y acumulación culturales, pues es la cultura, en su extraordinaria complejidad, la que nos ha permitido colonizar con éxito adaptativo el planeta entero. En esta visión coevolutiva de genes y cultura, que difiere en algunos aspectos relevantes de la que proponen los psicólogos evolucionistas, la transmisión cultural acumulativa necesitó sus propios mecanismos evolutivos, anteriores incluso al desarrollo de la cooperación genuinamente humana, y cuyos efectos sobre nuestra cognición se hacen visibles en nuestra mente moral5. Entre esos mecanismos, nosotros hemos destacado la capacidad de orientar el aprendizaje de los hijos, utilizando formas elementales de enseñanza mediante la aprobación o la desaprobación de su conducta. Esas formas básicas de enseñanza, a las que hemos denominado enseñanza assessor, permitieron a los padres transmitir a sus hijos la experiencia acumulada, tanto sobre los comportamientos que deben imitar como sobre los que deben evitar6. Hemos llamado psicología suadens (del latín suadeo: a valorar, aprobar o aconsejar) al conjunto de características cognitivas que han hecho posible la enseñanza assessor7.

La enseñanza assessor da pie a percibir lo que aprendemos, nuestras creencias adquiridas, de una manera que favorece una interpretación objetiva de la información transmitida. Cuando los padres corrigen el comportamiento de sus hijos, las orientaciones vienen provistas de un valor de veracidad y corrección que no puede reducirse a un criterio funcional. La selección natural nos ha hecho sensibles a las indicaciones sobre cómo debemos comportarnos por parte de las personas afectivamente más próximas -familia, amigos-, buscando su aprobación y tratando de evitar su rechazo. Como resultado, el aprendiz assessor percibe las emociones sociales de agrado o desagrado derivadas de la práctica de un comportamiento, como si fueran señales objetivas del valor intrínseco de los comportamientos: si se aprueba un comportamiento, entonces es bueno, si se desaprueba, entonces es malo.

De ahí, la inmediatez con la que el individuo percibe y experimenta sus prácticas, creencias, usos y tradiciones. Esta orientación emocional sobre qué aprender y cómo actuar es clave en la interiorización de valores y normas y, al tiempo, es responsable de que se mantengan muchas tradiciones, creencias y valores en las sociedades humanas, aunque carezcan, en muchos casos, de una justificación racional o empírica que avale su permanencia8.

El apoyo emocional que hace posible y eficiente el aprendizaje assessor ayuda a construir una imagen del mundo con una pretensión de objetividad que, sin embargo, está en el extremo opuesto de cualquier actitud ética que sea distanciada, reflexiva y crítica. En esa objetividad, la mente de cada individuo confunde la representación compartida del mundo (su mundo), con el mundo, y el conjunto empírico de preferencias y prácticas (sus valores), con los valores. De una manera casi inevitable, los individuos con una psicología suadens adoptan la disposición intelectual y moral de un creyente. Ese ha sido el precio que hubo que pagar por el desarrollo de nuestro sistema de aprendizaje cultural acumulativo. Esa percepción folk de la verdad de nuestros valores como algo objetivo dificulta enormemente el dialogo entre tradiciones culturales diferentes y produce desconfianza y recelo ante valores y conductas que exhiben los miembros de otros grupos.

Constatar esta situación no implica que los autores de este comentario ni la mayor parte de sus potenciales lectores, educados en una tradición ilustrada, tengamos que renunciar a nuestros valores democráticos, o a defender los principios de la Declaración Universal de los Derechos Humanos. Tampoco nos exige la búsqueda, siempre, de una solución intermedia, pactada, para satisfacer parcialmente valores que consideramos profundamente equivocados. Sin embargo, asumir que nuestras convicciones son fruto de un aprendizaje emocional, que podría haber sido otro, sí que nos obliga a no deshumanizar a nuestros oponentes por pensar de manera distinta.

La historia nos muestra que muchas personas inteligentes y honestas en sus convicciones han vivido (y viven) con naturalidad en sociedades xenófobas, machistas, homófobas y nada tolerantes con religiones distintas de la mayoritaria. Podemos utilizar la racionalidad para mostrar cuáles son los principios axiomáticos, las inconsistencias y los inconvenientes que detectamos en las tradiciones ajenas, aceptando que nuestros oponentes tienen derecho a hacer lo mismo con la nuestra. Por desgracia, solo una pequeña parte de las tradiciones que rigen una sociedad tiene contenido empírico y pueden ser refutadas en un sentido popperiano, como desea el autor. A nivel individual parecerá poca cosa, pero lo honesto, sabiendo lo que sabemos, es tenerlo en cuenta cuando interaccionamos con los demás.

A nivel colectivo, como también sugiere Malo, habría que potenciar instituciones que eviten la estigmatización del diferente y ordenen la interacción social y política dentro de los cauces del respeto y la racionalidad, caracterizando de manera explícita el marco axiomático valorativo del que partimos. O para expresarlo en términos psicobiológicos, el objetivo de nuestras políticas no es tanto la naturaleza humana, algo que para nuestros cálculos podemos considerar inalterable, cuanto la construcción de un ecosistema social robusto capaz de sujetar su lado más conflictivo.

1. Panea Márquez, J. M. (2015). «JL López Aranguren (1909-1996) y el problema de nuestro tiempo». Revista internacional de pensamiento político, 10, 273-289. 
2. Citado por Panea Márquez (2015), pág. 281. 
3. Véase el libro de Bradley Campbell y Jason Manning The Rise of Victimhood Culture, en el que elaboran la teoría acerca del victimismo que sigue el autor. 
4. Véase el libro de Tom Holland Dominion: The Making of the Western Mind. 
5. Castro, L., Castro-Nogueira, M. A., Villarroel, M., & Toro, M. A. (2021). Assessor teaching and the evolution of human morality. Biological Theory, 16, 5–15. https://doi.org/10.1007/s13752-020-00362-7. 
6. Castro, L., & Toro, M. A. (2004). The evolution of culture: From primate social learning to human culture. Proceedings of the National Academy of Sciences, USA, 101, 10235–10240. 
7. Castro L., Castro-Nogueira L., Castro-Nogueira, M.A., & Toro, M.A. (2010). Cultural transmission and social control of human behavior. Biology and Philosophy 25, 347-360. Y también Castro, L., Castro-Nogueira, M. A., Villarroel, M., & Toro, M. A. (2019). The role of assessor teaching in human culture. Biological Theory, 14, 112–121 
8. Para una versión detallada véase el libro de Laureano, Luis y Miguel Castro-Nogueira. ¿Quién teme a la naturaleza humana?, Tecnos 2016 (2ª edición). 
[Fuente: http://www.revistadelibros.com]