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Como país vizinho colocou ditadores no banco dos réus – e reconstruiu a memória coletiva. O exemplo de amor na política das Mães de Maio. Por que acertar contas com o passado é crucial para impedir novos ataques à democracia?

Escrito por Nora Merlin em entrevista a Rosângela Ribeiro Gil

Argentina, 1985, de Santiago Mitre, é um filme obrigatório diante dos tempos distópicos brasileiros. Mostra o que não fizemos em solo brasileiro. O luto coletivo (ainda) não vivido O nunca mais de fato e de direito que por construir. Um pedaço, grande aliás, que ainda falta na nossa democracia. Explica-se: é que em certa “bolha” digital, num misto de chororô e transe, exulta-se, numa adoração psicótica e alucinógena, a volta da intervenção militar de 1964. Precisamos entender como chegamos a isso – e como seguir daqui pra frente. O processo de justiça e reparação argentino – e como ele foi crucial para bloquear novas ameaças de golpismo, como as que o Brasil enfrenta – pode apontar algumas pistas para isso, então troquei impressões com a psicanalista e cientista política Nora Merlin, professora de universidades argentinas.

Afinal, o que calamos sobre o passado nos diz muito sobre o presente – e há uma sucessão de fatos que mostra que ainda não acertamos nossas contas com a história. Em 1979, o Brasil aprovou a lei de anistia, igualando civis perseguidos e militares envolvidos em crimes de sequestro, tortura e desaparecimento de vítimas. Ainda temos inúmeros logradouros e ruas com nomes de militares que integraram o regime de 1964. A nossa Comissão Nacional da Verdade (CNV) só conseguiu ser constituída em 2011, pela presidenta Dilma Rousseff – ou seja, 26 anos depois do fim da ditadura; 377 nomes entre os autores de graves violações aos direitos humanos foram apontados e a maioria deles não foi julgada, muito menos sentenciada. Reiteradamente, nosso presidente da República ainda em exercício elogia torturadores de 1964 e até de outros países, como Alfredo Stroessner, do Paraguai, e Augusto Pinochet, do Chile. E, neste mês, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), disse que o Brasil não poderia repetir o que fez a Argentina, que ficou presa na vingança, no ódio e olhava o passado pelo retrovisor.

Já a Argentina, como mostra o filme, colocou suas três primeiras juntas militares no banco dos réus: Jorge Videla, Emilio Massera, Roberto Viola, Armando Lambruschini, Orlando Agosti, Omar Graffigna, Leopoldo Galtieri, Jorge Anaya e Basilio Lami Dozo. O tribunal foi civil e não militar, em nove meses de julgamento, 530 horas de audiência, 839 testemunhas, 709 casos, seis juízes e dois promotores. A sentença, pronunciada em 9/12/1985, condenou Videla e Massera à prisão perpétua com destituição; Viola, a 17 anos de prisão; Lambruschini a 8 anos de prisão e Agosti a 4 anos e 6 meses de prisão, todos destituídos. Graffigna, Galtieri, Lami Dozo e Anaya foram absolvidos.

Isso só foi possível porque a sociedade argentina se organizou, se uniu e se mobilizou em diversas frentes de luta exigindo verdade, memória e justiça. Os argentinos entenderam que a sociedade não poderia prosseguir ou se reconstruir em cima de escombros, cadáveres, desaparecidos e roubos de crianças.

Ato simbólico “Proceda”, que foi a determinação do presidente Néstor Kirchner de retirar quadros de militares genocidas de Clube Militar.

Além disso, no país vizinho a vigília em defesa dos direitos humanos é constante. Em 24/3/2004, por exemplo, o então presidente Néstor Kirchner deu a ordem – que ficou conhecida como Proceda – para a retirada dos quadros dos ditadores Rafael Videla e Reynaldo Bignone da Escola Militar de El Palomar, proferindo: “Senhores integrantes do Colégio Militar da Nação e das Forças Armadas, senhores generais e oficiais superiores: nunca mais, nunca mais, nunca mais a ordem institucional na Argentina terá que ser subvertida. É o povo argentino pelo voto e a decisão do mesmo, quem decide o destino da Argentina; vamos definitivamente terminar com as mentes iluminadas e os salvadores messiânicos que apenas trazem dor e sangue aos argentinos.”

Como disse Julio César Strassera, o promotor principal no caso contra os crimes da ditadura que no cinema é vivido por Ricardo Darín: “Senhores juízes: quero renunciar expressamente a qualquer pretensão de originalidade para encerrar esta requisitória. Quero usar uma frase que não me pertence, porque pertence já a todo o povo argentino. Senhores juízes: nunca más!”.

O que significou o julgamento de 1985 para a Argentina?

Foi uma ação fundamental para a história da democracia argentina. Até aquele momento os militares terroristas, golpistas, da pior ditadura de todas da Argentina, que se constituiu no Terrorismo de Estado de 1976, pretendiam ser julgados pela justiça militar. Importante esclarecer que a Argentina, ao longo de sua história republicana, sofreu muitos golpes de Estado com períodos mais curtos. Mas, sem dúvida, o golpe de 1976 foi o pior porque foi diretamente um terrorismo de Estado, sanguinário. Todo esse genocídio cometido contra o povo argentino pelas Forças Armadas se deu para tornar possível a implantação do projeto econômico neoliberal.

O julgamento dos militares, em 1985, foi uma construção da sociedade civil argentina, representada pelos familiares dos desaparecidos, pelas Mães e Avós da Praça de Maio, pelos artistas, pela juventude. Todos pediam verdade, memória e justiça.

O então presidente Raúl Alfonsín, por decreto, determinou que a hierarquia da Junta Militar, composta pelas três armas das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica), seria julgada pela justiça civil. Foi um ato inédito e grandioso para a democracia. Foi um impacto enorme em toda a sociedade ver a justiça civil julgando, pela primeira vez, os militares terroristas. Posso dizer que o julgamento de 1985 significou um antes e um depois na história da democracia argentina, que foi refundada baseada na defesa intransigente dos direitos humanos.

O julgamento significou, além da punição aos culpados, a criação, pela via democrática e judicial, de um pacto simbólico que se pode resumir pelas palavras “Nunca mais”. Nunca mais ódio. Nunca mais Terrorismo de Estado.

Importante acentuar que o julgamento dos militares genocidas é um exemplo para o mundo em relação à política em defesa dos direitos humanos e contra o Terrorismo de Estado, considerando que o desaparecimento de crianças não é um crime que prescreve. Nenhum país teve essa consagração em defesa da memória, da verdade e da justiça. É um fato que continua inédito e único no mundo.

Um político, dentro de uma instituição do Estado de Direito na Argentina, poderia fazer apologia à ditadura, à tortura e elogio a qualquer torturador?

Esse ato político e jurídico sedimentou, nos argentinos, o dever de defender a vida e os direitos humanos de todos. Por isso, ninguém se atreve, nenhum político, jornalista, funcionário público, a fazer apologia à ditadura ou elogiar um torturador.

Todavia, estamos vendo crescer vozes do fascismo e da extrema-direita em todo o mundo. Por isso, vemos alguns atores sociais falando abertamente na necessidade de uma “mão dura”. Na Argentina, os que se atrevem a fazer isso são questionados pela sociedade de forma muito incisiva. Ou seja, temos um pacto simbólico ainda muito forte contra o discurso que atente contra os direitos humanos.

O julgamento acontece dois anos após o fim da ditadura militar na Argentina, em 1983. Antes, todavia, uma das primeiras medidas do presidente eleito Raúl Alfonsín foi a criação da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), em 15 de dezembro de 1983.

A criação da Conadep teve como objetivo investigar as violações aos direitos humanos. A comissão reuniu pessoas probas, ilustres, confiáveis e dignas da cultura, periodistas, teóricos, escritores, representantes religiosos. Pessoas eticamente indiscutíveis. Ela foi presidida pelo escritor Ernesto Sabato.

A comissão investigou, por quase 10 meses, os crimes dos militares. Ela percorreu todo o país, buscando testemunhos dos sobreviventes, dos familiares e também dos próprios repressores. A comissão também recebeu muitas denúncias sobre centros ilegais de detenção e tortura. Todo esse trabalho, com testemunhos e provas, foi usado também no julgamento de 1985.

O relatório da Conadep foi entregue ao presidente Alfonsín, em 20 de setembro de 1984, e recebeu o nome de “Nunca mais” [Nunca más], que o promotor Julio César Strassera cita em sua alegação final contra os militares. O “Nunca mais” é a refundação simbólica da nossa democracia. Nunca mais violações dos direitos humanos.

Qual a importância da recuperação da memória para uma sociedade? O quanto podemos debitar à falta dessa memória institucionalizada, vamos definir assim, ao rompimento entre passado e presente numa sociedade?

A investigação da Conadep só foi possível porque a sociedade argentina exigiu. Foram ações dos movimentos sociais e de direitos humanos, da Assembleia Permanente pelos Direitos Humanos, do movimento das Mães e das Avós da Praça de Maio, dos filhos buscando seus pais.

Para que haja memória é necessário elaborar um trauma coletivo. Na Argentina, ele se deu com o processo contra o Terrorismo Estado de 1976, quando todo tipo de violação aos direitos humanos foi levantado, provado e julgado.

Terrorismo que criou “os desaparecidos”, crime que surgiu no tempo de [Jorge Rafael] Videla, entre 1976 e 1981. Um crime terrível, porque não se está nem vivo nem morto. Depois toda a tortura realizada nos campos de concentração, que eram centros clandestinos, que havia em todo o país. Roubos de bebês e de filhos.

A memória é fundamental porque os direitos humanos não estão assegurados totalmente, é uma luta permanente, inclusive para as novas gerações. Na Argentina, todo 24 de março celebramos o Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça, para evitar a repetição desse evento traumático.

Graças aos julgamentos temos evitado qualquer ação violenta das Forças Armadas. Neste momento, as Forças Armadas não constituem um perigo para a democracia argentina e não são consideradas como inimigas do povo. Sem vingança, sem ódio e com justiça temos criado um vínculo institucional satisfatório com essas instituições, que compõem o Estado de Direito. Na pandemia, se colocaram a serviço da comunidade com algumas ações importantes, como distribuição de máscara facial, mantimentos e remédios. Mas isso só é possível porque ocorreu o julgamento civil.

Qual foi o papel das mulheres, reunidas no movimento “Mães da Praça de Maio” e das “Avós da Praça de Maio”?

As mães dos desaparecidos eram donas de casa sem formação política, mas elas se transformaram num verdadeiro agente político com a pergunta: onde está meu filho. Elas ajudaram a criar essas demandas por verdade, memória e justiça. Essas Mães e Avós se caracterizaram por terem incluído amor na luta política. Elas não saíram a disseminar o ódio ou a matar os militares. Elas davam e dão voltas ao redor da pirâmide da Praça de Maio, por isso é um sítio histórico de memória de todo o povo argentino. Todas as quintas-feiras até os dias de hoje elas dão volta ao redor da pirâmide pedindo a aparição, com vida, dos seus filhos. [Em 1987, o governo Raúl Alfonsín criou o Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), que guarda a informação genética das famílias que buscam seus parentes roubados.]

As avós também foram fundamentais nessa luta política que culminou com o julgamento de 1985. Elas pedem pela aparição e a busca de seus netos, que foram roubados e vendidos, em alguns casos, pelos militares.

Muitos netos foram recuperados com essas ações. Inclusive, é a partir da luta das avós que se criou o Dia Nacional do Direito à Identidade [celebrado em 22 de outubro]. Toda pessoa tem direito a conhecer a sua identidade.

Cada neto restituído é uma festa coletiva de toda a Argentina. É um pedaço da história do povo argentino que é recuperado.

As Mães e Avós geraram o que conhecemos como memória coletiva. Quer dizer, a dor que significou o desaparecimento de um filho e de um neto se tornou uma dor coletiva, uma dor socializada. [O trabalho do BNDG e das instituições ligadas a ele conseguiram resgatar, até hoje, 130 netos roubados durante a ditadura. Em junho de 2019, Matías Darroux Mijalchuk foi o último. Calcula-se que cerca de 500 bebês foram sequestrados pelos militares. Com informações do jornal Brasil de Fato, de 12 de junho de 2022]

Pelo menos em três ocasiões, tentou-se anular ou desqualificar o veredicto do julgamento: no próprio governo de Raúl Alfonsín, depois com Carlos Menem. Mais recentemente, em maio de 2017, no governo de Mauricio Macri, a Argentina mobilizou-se contra a sentença da Corte Suprema que apontava para a redução de penas e até para a libertação de centenas de militares condenados por crimes de lesa humanidade durante a última ditadura entre 1976 e 1983.

Em 1987, o presidente Raúl Alfonsín, pressionado, assina o decreto denominado “Obediência devida”, que significava impunidade a alguns membros das Forças Armadas que estavam subordinados aos seus superiores, por isso não eram puníveis por terem agido em virtude de obediência devida. Mas antes, em 1986, houve a chamada Lei de Ponto Final [23.492], que estabelecia a paralisação dos processos judiciários contra os autores das detenções ilegais, torturas e assassinatos que ocorreram na ditadura militar.

Esse retrocesso continuou com a presidência de Carlos Menem, que se dizia peronista, mas que, na realidade, trazia um projeto neoliberal. Foi a segunda onda neoliberal na Argentina, depois dos militares. Em 1989 e 1990, ele declara a anistia que são leis de impunidade, e liberou os criminosos condenados.

Em 2003, quando assume Néstor Kirchner – iniciando o período de 12 anos de kirchnerismo, entre as presidências de Néstor e os dois governos de Cristina Kirchner –, ele retoma ativamente a questão dos direitos humanos, retoma os julgamentos, reabre as investigações e revoga a anistia aos genocidas.

Néstor Kirchner pede perdão, em nome do Estado, ao povo argentino pelos trinta mil desaparecidos.

O que foi a Escola de Mecânica da Armada (Esma) durante a ditadura militar argentina, e o que é a Esma hoje para o povo argentino?

Esta escola de atividades militares foi transformada, no período do terrorismo de Estado, em centro clandestino de detenção, tortura e desaparecimento de pessoas. Graças ao governo de Néstor Kirchner o espaço se transforma num patrimônio de memória e direitos humanos. Nele, são realizadas atividades culturais diversas, como recitais, cinemas, mostras permanentes e itinerantes. Assim como se recupera a Esma, Néstor Kirchner recupera outros centros clandestinos de detenção e tortura e dá novas funções, principalmente as culturais.

Quais são os valores sociais, políticos e humanos que emergem na sociedade argentina com o julgamento de 1985?

O principal está na frase “Nunca mais”, também proferida na alegação final do promotor Strassera. Ela representa um pacto social. Ela tem um valor simbólico de refundação da democracia no país. Nunca mais, golpe de Estado. Nunca mais, terrorismo de Estado. Nunca mais fazer desaparecer um dissidente político.

No tempo atual, esse pacto precisa fazer frente ao discurso de ódio e do avanço do neofascismo. Há pouco tempo, vimos a tentativa de assassinato da maior líder popular da Argentina, a vice-presidente Cristina Kirchner, que já foi nossa presidente.

Como seguimos nos tempos atuais?

Hoje, são novos métodos de guerras políticas que desestabilizam governos, que tentam colonizar a população com discursos de ódio. Na sua essência, estão a favor da morte.

Creio que há de se trabalhar uma lei que regulamente as corporações de comunicação audiovisual e as empresas de tecnologia. E isso não é contrário à liberdade de expressão, porque liberdade de expressão não implica liberdade de ódio. A vida em sociedade requer um pacto social, em que todos renunciam.

Parece-me que o caminho para a desconstrução do discurso de ódio já foi criado e mostrado pelas Mães e Avós da Praça de Maio e que os feminismos nos ensinam, que é o amor político que articula as diferenças.

Há um ovo de serpente porque não se terminou de julgar os genocidas do terrorismo de 1976, porque temos uma justiça cúmplice do poder neoliberal, que vai encaminhando de forma muito lenta as causas e que precisa julgar grupos econômicos e da própria sociedade civil que colaboraram com o genocídio dos militares.

Esse grupo de poder que está concentrado nos meios de comunicação, no poder judiciário e nas corporações econômicas não deixa os governos populares da Argentina trabalharem. Há uma guerra judicial, como o lawfare, que atenta contra a democracia e que é cúmplice dos que não aceitam a política como pluralidade de vozes.

Por último, precisamos atentar-nos principalmente os povos da América Latina, para o poder paralelo que o Poder Judiciário vem projetando, no sentido de transformar-se num “braço” do neoliberalismo e de apoiar vozes contrárias ao Estado de direito, com forte inclinação ao golpismo.

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

“Es usted pariente, amiga o enemiga de los excomandantes procesados”, preguntó rutinariamente un viernes 19 de julio de 1985 el camarista León Arslanián: “Enemiga”, respondió María del Rosario Cerruti, secretaria de Madres de Plaza de Mayo. El camarista algo perplejo preguntó: “¿Usted considera que puede deponer con imparcialidad en este juicio?”. Y María del Rosario respondió: “Sí”.(1)

Escrito por Diego Sztulwark 

Apesar de la sensación de orfandad que circula en redes sociales y de los comentarios de tantxs amigxs, creo que Hebe de Bonafini no nos dejó en banda, sino que preparó las cosas debidamente como para que podamos continuar con la lucha de las Madres. La suya es la más conmovedora “gesta”, palabra (bien elegida por Osvaldo Bayer) que da cuenta del juego de engendramientos entre madres e hijxs, pero también entre hijxs y madres, y finalmente entre madres y pueblo. Unas madres de unos militantes revolucionarios derrotados durante los años setentas, solas ante el terror y el poder de los aviones, los sótanos y las armas. Unos pañuelos como marca distintiva de una lucha desarmada, ahí donde su hijxs simplemente desaparecían. Unas madres que se proponían lograr una escena de justicia siempre pospuesta, a la vez que cuidar la escena y el sentido que volvía comprensible y memorable la lucha de sus hijxs. Toda una enseñanza la de las Madres: ahí donde el terrorismo de Estado llevaba la clandestinidad represiva a su máxima expresión estatal, ellas tejían una contranarración dolorida y popular, con una enorme carga de desafío al poder. Allí donde la verdad del poder torturaba y mataba, la verdad de estas mujeres engendradoras/engendradas nacía del cuidado de los cuerpos. Una contraverdad que sería en poco tiempo la única capaz de animar un sentido en un país que se fue quedando son verdades de otro tipo.

Los miles y miles de jueves en la Plaza de Mayo mostraron algo más que empecinamiento. El ritual permitió iniciar a millares de personas en la tarea de zurcido de una modalidad inédita de la memoria, capaz de ligar rebeldías presentes y pasadas, y de hospedar el compendio de luchas sociales que nunca dejaron de ocurrir desde entonces en el país.

Las Madres fueron el hecho divino (divino: que da vida) del país contrarrevolucionario.

Ya bajo gobierno constitucional, las madres fueron la fuente ineludible y extrainstitucional de una democracia que se representaba a sí misma desde el parlamento y los tribunales. Sin ellas no hubiera habido juicios ni condenas. Y gracias a ellas, y al amplio colectivo que nos acogió a quienes las acompañamos, se hizo claro que la fuerza de su testimonio era mayor que el de la política institucionalmente concebida. Por eso, cuando la módica justicia del poder judicial -que carecía de capacidad para alzar su vista hacia las cúpulas -empresaria o eclesiástica- comenzó a descascararse en políticas de impunidad, la voz de las madres volvió a revelar -desde las calles y hacia todo el mundo- el principio de otra política. Si Alfonsín mandó a instruir a los fiscales, a legislar sobre la ley de Punto Final y luego sobre la Obediencia Debida, para “preservar la democracia”, y Menem indultó luego a las juntas militares para “pacificar” el país, desde las Madres y los demás organismos y militantes de agrupaciones sociales y políticas se articuló ese clamor inaudito capaz de enunciar, como gran pulmón popular, que la democracia sería solo la de los poderes asesinos sino se investigaba el genocidio a fondo. Tenía yo 15 años cuando ocurrió la rebelión de los militares carapintadas de Semana Santa de 1987. Es para mí un recuerdo iniciático. Estábamos en la Plaza de Mayo de los partidos políticos en defensa del gobierno constitucional cuando irrumpió un sonoro grupo de mujeres gritando “No rebeldes, no hay leales, los milicos son todos criminales”. Recordarme arrastrado por ellas, haber accedido de ese modo a la historia de mi país, tuvo un efecto de parteaguas. A partir de ahí, por años, la referencia principal de mis actividades pasó discretamente por la casa que ocupaban las Madres en la calle Irigoyen.

¿Qué es lo que hacía de las Madres algo tan extraordinario? Ellas impedían que el estado de derecho imperante se confundiera con la democracia. Negaban toda legitimidad a un Estado incapaz de revisar las estructuras derivadas del terrorismo de Estado. Y lo hacían a través de un procedimiento tan simple como contundente: afirmaban que hasta que el Estado argentino no explicase con claridad dónde estaban sus hijxs desaparecidxs, qué habían hecho con ellxs, no habría ley justa posible. ¿Qué pretendían con eso las Madres? Todo. Porque al exigir al Estado una verdad que este no podía -y aún no puede- ofrecerles, confrontaban una voluntad de verdad a una afectada por la mentira (al día de hoy, los reaccionarios dicen que los organismos manipulan la verdad al hablar de 30.000 desaparecidos, sin jamás reclamar al Estado que dé cuenta exacta de sus acciones y responsabilidades por el genocidio). Pero, además, porque al actuar como madres engendradas por sus hijos desaparecidos, orgullosas de sus luchas, impedía toda separación definitiva entre una idea reparatoria y otra revolucionaria de la justicia. Fue tan valiente y de tal fuerza moral su prédica y su activismo, que acabaron por producir, desde su reclamo, un tipo nuevo de politización, mezcla de memoria dolorida y restos de plebeyismo en un país destruido. Esa mezcla, poderosa y duradera, fue la que emergió el día 20 de diciembre de 2001, cuando miles y miles de personas nos vimos convocadxs al centro de la ciudad de Buenos Aires al ver por la televisión a las viejitas con pañuelo peleando contra la policía montada. Ese fue el último punto de inflexión moral de la Argentina, y de allí procede todo lo que se ha hecho estos años a fuerza de cuidar la fusión realizada entre la lucha por la memoria y las luchas populares.

El encuentro entre movimiento piquetero y Madres de Plaza de Mayo visibilizaba en 2001 otro país.

Hebe había declarado años atrás: “No quiero que comprendan nuestro dolor, quiero que comprendan nuestra lucha”. Esa comprensión fue la que alcanzó entonces una escala inusitada. Y es precisamente -paradojalmente- esa misma comprensión la que actuó como sistema de alerta para la reorganización de la derecha más reaccionaria. Consciente como nunca del peligro que para ella representaba ese tipo de sensibilización popular, comenzó el trabajo de destruir toda costura en que se sostuviese la conexión entre luchas comunitarias, demandas salariales e historicidad.

Lo que vino después lo recordamos bien. Por un lado la sorprendente articulación, antes inimaginable, entre organismos de derechos humanos y Estado, durante el gobierno de Néstor Kirchner y Cristina Fernández, bajo el cual se produjo la reapertura de los juicios. Pero también la perdurable comunicación entre la lucha de las Madres y las de los feminismos. Todos estos años hemos la hemos visto a Hebe tan agitadora como siempre A muchos, es cierto, por conocerla de antes, nos sorprendió verla pasar sin elaboración explicita de su vieja desconfianza a su nueva inclusión en la retórica peronista. Pero en Hebe la arbitrariedad y la justicia coexistieron siempre, la una como maravillosa condición de posibilidad de la otra. Mi impresión es que estas últimas décadas Hebe se dedicó a cumplir su tarea con más lucidez e intensidad que nunca: dejar un país en el cual las clases poseedoras y sus intelectuales no puedan recubrir de legitimidad moral los resortes de poder en los que confían. Si la fusión entre memoria y plebeyismo ha madurado entre nosotrxs, Hebe fue su principal artífice, la más grande subversiva, la agitadora más relevante de nuestro tiempo. Hebe nos enseñó a respirar en medio de la asfixia. En tiempos recientes, se complacía premiando a militantes, artistas e intelectuales con su pañuelo. Ahora la homenajeamos nosotrxs, sus hijos orgullosxs capaces de seguir el camino.

Notas:

1- Esta cita fue extraída del libro La historia de las Madres de Plaza de Mayo en dos tomos, del historiador Ulises Gorini. El principal valor de este libro (editado por la Biblioteca Nacional, gestión de Horacio González) es la sistematización de la documentación disponible para los años 1976/1986.

Buenos Aires, 21 de noviembre de 2022.

*Investigador y escritor. Estudió Ciencia Política en la Universidad de Buenos Aires. Es docente y coordina grupos de estudio sobre filosofía y política.

 

 

[Fuente: lateclaenerevista.com]

Escrito por Rubén Armendáriz – CLAE

El domingo 20 de noviembre falleció a los 93 años de edad Hebe de Bonafini, militante argentina por los derechos humanos, cofundadora el 30 de abril de 1977 de la asociación Madres de Plaza de Mayo, organización de madres de detenidos-desaparecidos durante la última dictadura cívico-militar que gobernó Argentina entre 1976 y 1983.

El gobierno decretó tres días de duelo en «homenaje a Hebe, su memoria y su lucha que estarán siempre presentes como guía en los momentos difíciles». El presidente Alberto Fernández despidió “con profundo dolor y respeto a Hebe de Bonafini, Madre de Plaza de Mayo y luchadora incansable por los derechos humanos».

«Queridísima Hebe, Madre de Plaza de Mayo, símbolo mundial de la lucha por los derechos humanos, orgullo de la Argentina. Dios te llamó el día de la Soberanía Nacional… no debe ser casualidad. Simplemente gracias y hasta siempre», escribió la vicepresidenta Cristina Fernández de Kirchner a modo de despedida.

La Asociación Madres de Plaza de Mayo anunció este domingo que las cenizas de su fallecida titular, Hebe de Bonafini, descansarán en la Plaza de Mayo por pedido de la propia dirigente.

En 1977, Hebe sufrió la desaparición de dos de sus hijos –Jorge Omar y Raúl Alfredo– y, un año más tarde, la de su nuera, María Elena Bugnone Cepeda, esposa de Jorge, secuestrados y asesinados por la dictadura cívico militar.

A menos de un año de la instauración de la sangrienta dictadura, las Madres, con sus pañuelos blancos, comenzaron a visitar las redacciones de las agencias noticiosas internacionales, tratando de que sus denuncias trascendieran la férrea censura local.

Madre e hija, la historia de la foto (de Adriana Lestido) símbolo de una resistencia.

En 1978, la Madres mostraron su ronda de todos los jueves en la Plaza de Mayo a la prensa internacional que llegó a la Argentina para cubrir el Mundial de Fútbol, mientras a unos cientos de metros del estadio de River Plata, en el centro de tortura, desaparición y muerte de la Escuela de Mecánica de la Armada se torturaba y asesinaba a sus hijos.

“Antes de que fuera secuestrado mi hijo, yo era una mujer del montón, un ama de casa más –declaró en 1982. Yo no sabía muchas cosas. No me interesaban. La cuestión económica, la situación política de mi país me eran totalmente ajenas, indiferentes. Pero desde que desapareció mi hijo, el amor que sentía por él, el afán por buscarlo hasta encontrarlo, por rogar, por pedir, por exigir que me lo entregaran”, decía, “el encuentro y el ansia compartida con otras madres que sentían igual anhelo que el mío, me han puesto en un mundo nuevo, me han hecho saber y valorar muchas cosas que no sabía y que antes no me interesaba saber. Ahora me voy dando cuenta de que todas esas cosas de las que mucha gente todavía no se preocupa son importantísimas, porque de ellas depende el destino de un país entero; la felicidad o la desgracia de muchísimas familias”, añadió.

«Nosotras vamos a seguir caminando y peleando como siempre. No va a haber punto final mientras haya compañeros militantes que acompañen en esta plaza a los pañuelos blancos. Cuando las madres no estén más, deben ser el reaseguro para que otros puedan caminar alguna vez en libertad».

Hebe ha sido y seguirá siendo por siempre, junto a otras voces de otras madres y abuelas, la conciencia de los silenciados, la palabra de los asesinados, la irreverencia de los que no se sometieron al poder ni aceptaron la irreversibilidad de la historia que se ofrecía como una política del olvido y la reconciliación.

El intelectual Ricardo Foster recordó que la voz de Hebe se levantó cuando la mayoría callaba. La inflexión intempestiva de su palabra, nacida del dolor, reivindicó la dignidad en un país atravesado por la mayor de las indignidades y por las diferentes formas de la complicidad.

Fue una voz destemplada e injuriosa como solo sabe amasarla el habla popular que no buscó eufemismos para golpear en el corazón de la injusticia y del terror, pero que tampoco se calló cuando, ya en democracia, muchos exigían cerrar los expedientes de la dictadura, añadió. Icono internacional de la lucha por los derechos humanos, deja tras de sí más de media vida dedicada a la búsqueda de dos de sus hijos, secuestrados por la dictadura militar en 1977.

Hasta el último día se la vio cada jueves frente a la Casa Rosada, para cumplir rigurosamente con las rondas que desde el 30 de abril de 1977 esas mujeres que plantaron cara a la dictadura siguen dando alrededor de la Pirámide de Mayo. Cuando emprendieron su lucha eran, en su mayoría, amas de casa que buscaban por todos los sitios posibles a sus hijos desaparecidos.

Cuando la policía les dijo que no podían quedarse allí y tenían que circular comenzaron a dar vueltas a la plaza. Hebe de Bonafini tenía 49 años y su vida volvía a empezar.

El 5 de octubre, Hebe participó de la inauguración de una muestra fotográfica dedicada a su vida, titulada Hebe de Bonafini, una madre rev/belada. Allí recordó que había tenido “una niñez alegre, donde uno aprendía a disfrutar de las pequeñas cosas en su infancia”. Allí pidió que se llevase a los niños a ver las fotos que la recordaban, para que mantuviesen encendida la llama de sus batallas.

Las Madres fundaron una universidad, bibliotecas, una radio y hasta una señal de televisión. Tuvo siempre el apoyo del kirchnerismo en su gesta por la trascendencia, mientras enfrentaba con dureza al gobierno neoliberal y negacionista de Mauricio Macri y ahora al de Alberto Fernández, al que consideraba un traidor a la causa del peronismo de izquierda representado por Kirchner.

Las Madres nunca abandonaron la lucha, y Bonafini siempre estuvo allí, al frente, fiel a las posiciones más duras. Cuando Argentina recuperó la democracia en 1983, las Madres se dividieron. Bonafini se aferró a la demanda de “aparición con vida” de sus hijos, mientras que un sector más moderado, que pasó a llamarse Madres Línea Fundadora, se avino a negociar pensiones oficiales con la resignación de que sus “desparecidos” ya no volverían.

Su fallecimiento trajo repercusiones internacionales. Los primeros en expresarse fueron los expresidentes Evo Morales, de Bolivia, y Rafael Correa, de Ecuador.  «Muy triste y consternado por la partida de la hermana Hebe de Bonfini, histórica, muy respetada y querida presidenta de Madres de Plaza de Mayo. Su lucha incansable contra las dictaduras por memoria, verdad y justicia, es un ejemplo….», escribió Morales. Correa, por su parte, señaló: «Gracias por tanto, Hebe heroica y querida. Por ti vamos a vencer».

El Punto Final de 1985

imagenEn enero de 1987, poco después de la aprobación de la Ley de Punto Final, Hebe escribió este texto para la revista Crisis, casi un manifiesto contra la democracia gris, esa que necesitaba aplacar la rebelión. Vale la pena recordarlo en momento en que un filme como “1985” quiere hacer creer a las nuevas generaciones que los héroes fueron dos fiscales nombrados por la dictadura, y no el pueblo que combatió y resistió tantos años de horror, con las Madres como ejemplo permanente:

«Las Madres, desde que asumió el radicalismo, le venimos anunciando al pueblo qué es lo que iba a pasar si nos quedábamos esperando lo que el gobierno prometía. Muchos afirmaron que las madres no entendíamos nada, que no sabíamos de política; que había que esperar y que le teníamos que firmar un cheque en blanco al presidente. Las Madres no quisimos firmar porque estábamos convencidas de que los represores iban a ser perdonados. A nuestros hijos se los llevaron por la complicidad de los partidos políticos; eso no lo tenemos que olvidar.

El doctor (Raúl) Alfonsín acaba de decir: «Me explico el dolor de los familiares, lo hago cabalmente, aunque desde luego no comparto el criterio de quienes tomados por ese dolor, quizás hayan asumido las mismas ideas de los pobres muchachos». Nuestros hijos no eran pobres muchachos.

No nos interesa que el doctor Alfonsín nos comprenda, nos interesa que respete a nuestros hijos, porque si él está en ese sillón es porque ellos dieron su juventud y su vida enfrentando a los asesinos. Nosotros somos los encargados de que así sea: las Madres, los compañeros militantes y los que siguen este camino de reivindicación de su lucha. El único pobre muchacho es el presidente, que está postrado ante los Estados Unidos.

También dijo el doctor Alfonsín que cuando se habla de amnistía se miente, pero el único que miente es él porque esta es una ley de amnistía descarada, por más vueltas que le den.

La Asociación Madres de Plaza de Mayo no ha ido a ver a ningún diputado ni a ningún senador. Más aún, por la radio, noches pasadas, yo he dicho que el senador Gass no merece ser padre del hijo que tuvo, porque ha tenido un hijo muy valiente que fue asesinado por la dictadura, luchando por construir un mundo mejor, cosa que no repite el senador.

El doctor Alfonsín afirmó en otro párrafo: «Paramos en el presente para que la justicia haga lo que tiene que hacer, hay que mirar hacia adelante, unirnos y abrazarnos…» La justicia que hay no sirve, porque es una justicia burguesa, hecha para los burgueses y por los burgueses. Nosotras estamos convencidas de que debemos mirar para adelante, claro que sí; por eso enfrentamos a la feroz dictadura y no abajo de la cama, como dijo el doctor Alfonsín impunemente.

La enfrentamos en plena Plaza de Mayo, donde a él nunca lo vi compartiendo las luchas y los peligros. Por eso queremos mirar para adelante junto con todos, con esos jóvenes a los que él está preparando como nuevas víctimas de la represión, acusándolos de ultras. Creo que el único ultra es él, ultraantidemocrático, pues no permite criticas ni disenso.

Habla de que quiere justicia y no el paredón. Ninguna de nosotras quiere el paredón, porque no hay mejor paredón que 30 años de prisión y a él le falta hombría para hacer que los genocidas paguen sus culpas debidamente, día a día.

45 años de la primera marcha de las Madres de Plaza de Mayo - Asociación Empleados de Comercio de RosarioEl nuevo verso de los radicales es preguntar si tenemos odio. Yo les pregunto a los que dicen que no hay que tener odio, si después de ver cómo fusilaban a nuestros hijos cobardemente, cómo los violaban y torturaban, cómo los asesinaban de rodillas y con los ojos vendado, si después de todo esto alguien puede no tener odio. Quien diga que no, es un falso y un hipócrita.

El doctor Alfonsín expresó finalmente todo lo que sentía desde el primer momento. Lo que prometió en su campaña electoral fue falso: fueron mentiras para ganar votos. Él está dispuesto a pagar todo el costo político necesario, de la misma manera que piensa pagar la deuda externa: postrado ante Norteamérica, comprometido con la política de dominación.

Por eso dice que va a pagar el costo, porque él ya se comprometió cuando hablaba del pacto militar-sindical: solo que se olvidó de agregar que era militar-sindical-radical el verdadero pacto. Por eso estamos ahora endeudados, con salarios de hambre, con cuerpos especiales preparados para reprimir y con leyes que entre gallos y medianoche otorgan la impunidad.

Nosotras vamos a seguir caminando y peleando como siempre. Igual que enfrentamos el documento final de la dictadura, que nos hizo movilizar con más fuerza, ahora lo haremos con la ley radical. No va a haber punto final mientras haya compañeros militantes que acompañen en esta plaza a los pañuelos blancos. Cuando las Madres no estén más, deben ser el reaseguro para que otros puedan caminar alguna vez en libertad, sobre todo con el proyecto que tenían nuestros hijos que era, precisamente, lo contrario de lo que dijo Alfonsin respecto a que negaban la dignidad del hombre.Argentina recuerda con un pañuelazo desde casa a las víctimas de la dictadura argentina | Sociedad | EL PAÍS

Nuestros hijos jamás lucharon por causas innobles ni por ambiciones personales: le enseñaron al país que es la solidaridad, la comprensión y el compartir todo lo que se tiene. En cambio, esto nunca se ve en los que nos gobiernan, que son los únicos que se aumentan los sueldos que tienen viviendas privilegiadas y siempre están listos para obtener las prebendas y los beneficios que les da el poder ejercido sin decencia. Justamente todo lo opuesto de lo que querían nuestros hijos, que siguen siendo el espejo que desnuda la prostitución de la casta gobernante.»

Periodista y politólogo, asociado al Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico (CLAE)

 

[Fuente: http://www.estrategia.la]

L’entrada de Qatar en el club dels països amb Mundial de futbol no significa la derrota dels valors occidentals, sinó el seu triomf

Estadi Al Wakrah de Qatar en construcció | Fotograma del vídeo oficial de Qatar 2022

Escrit per Joan Burdeus

Crític cultural. Filosofia, política, art i pantalles

 

L’entrada de Qatar en el club dels països amb Mundial de futbol no significa la derrota dels valors occidentals, sinó el seu triomf. Perquè si hi ha alguna cosa igual d’occidental que la democràcia i l’individualisme liberal, és el nacionalisme i la construcció d’un leviatan estatal que reguli i homogeneïtzi la vida dels ciutadans amb un sistema sofisticat de burocràcia i el monopoli de la violència que, evidentment, té una història de sang i terror darrere de cada bombolla de benestar. S’ho van inventar els francesos. Les societats medievals regides per la religió tenien i aspiraven a un control molt menor sobre el poble que els nostres estats moderns guiats per la raó. El genocidi i l’enginyeria social totalitària són tan occidentals com l’hora del te i la novena Simfonia.

La gràcia de Qatar és que la seva ascendència meteòrica és un mirall augmentat de la nostra. La Modernitat es propulsa quan una regió de l’Europa nord-occidental comença a cremar combustibles fòssils. La transformació cultural més gran de la història recent no s’explica sense el poder alquímic del carbó i del petroli, que fan saltar pels aires segles d’escassedat amb un superàvit d’energia infinit que només es pot qualificar de màgic. Les revolucions de les quals ens sentim orgullosos, el fil que va de les primeres lluites obreres a l’estat del benestar socialdemòcrata, són, en realitat, contrarevolucions per frenar els excessos del progrés exponencial que desencadena l’or negre. Els sindicats surten de l’horror de la fàbrica, els drets humans de l’horror de les bombes. El grau de benestar i llibertat a què aspirem són fills d’un canvi de règim energètic del qual encara depèn tot.

I és normal que avui ens angoixi veure aquesta energia infinita sense les respectives contrarevolucions. A la Xina, per exemple, podem contemplar un país que ha adoptat mètodes i tecnologies tan occidentals com ara el nacionalisme, el capitalisme, el feixisme i el comunisme, però, ai las, ni rastre de democràcia i llibertat. A Qatar passa exactament el mateix: l’oceà de petroli ens recorda que la natura té més poder que la cultura. I fa gràcia perquè tant una nació com l’altra s’escuden en especificitats culturals, sigui el confucianisme o l’Islam. Però també el nazisme o el franquisme feien anar la història o la religió catòlica per justificar els seus monstres. En canvi, a Llatinoamèrica ningú parla d’una predisposició asteca envers la democràcia, i resulta n’hi ha moltes i molt d’esquerres. El planeta sencer ha acceptat la Modernitat científica i burocràtica d’Occident, però les derives liberals o il·liberals estan distribuïdes de manera irregular i multifactorial.

I ara el problema és que l’abundància d’energia de la qual depèn tot està causant estralls en forma de canvi climàtic i, com en altres moments del passat, emergeixen contrarevolucions. La cosa és a les beceroles i hi ha infinites divisions internes, però el més estès és una barreja de decreixentisme en els hàbits de consum a través d’un canvi cultural i una certa fe en el progrés tecnològic. Al marge de les contradiccions dels verds ara mateix, tant ideològiques com pragmàtiques, és inevitable tornar a veure els somnis d’internacionalisme utòpic no acomplerts pels moviments socials del passat que rebroten en l’esperança que l’ecologisme sigui el cavall de Troia d’un sentiment d’igualtat i solidaritat globals que s’estengui per les classes mitjanes d’arreu del món. Qatar és un bon lloc per veure com tot això que anomenem Modernitat Occidental és poc més que el resultat d’un superàvit d’energia solar continguda en un líquid negre a les profunditats de la terra, i la lluita de la cultura per domesticar-la abans que ens destrueixi.

 

[Font: http://www.nuvol.com]

Vencer Bolsonaro foi o primeiro passo. Agora, é preciso entender a militarização da política e o pânico moral das igrejas neopentecostais, bases do retrocesso. E apontar saídas à gourmetização da vida, enquanto milhões amargam a fome

Escrito por Daniel M. Huertas

Todas as forças progressistas e democráticas deste país ficaram atônitas com o resultado geral do primeiro turno das eleições deste ano, com votações inimagináveis a candidatos que beiram a insanidade – ou, na melhor das hipóteses, a uma caricatura grotesca de algo amorfo. Em suma: um retrocesso de proporções inestimáveis. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no pleito de 30 de outubro amenizou o sentimento de frustração e temor em relação ao futuro do Brasil, mas é preciso reconhecer que este espectro sinistro conhecido como bolsonarismo plantou raízes e se tornou, por incrível que pareça, uma peça extremamente relevante no cenário político brasileiro.

Muito tem sido escrito sobre a ascensão desse fenômeno macabro, e minha contribuição parte do princípio de que a esquerda precisa reavaliar a sua compreensão sobre a realidade brasileira. Isso não significa necessariamente abortar velhos conceitos e metodologias. Afinal, as permanências perversas do constructo social brasileiro (como o racismo estrutural e o latifúndio, por exemplo) estão mais vivas do que nunca e os inimigos de sempre continuaram (e continuarão) à espreita, no aguardo de uma janela de oportunidade para a cooptação de partidários e implementação de uma agenda com ações extremamente reacionárias maximizadas pela velocidade e capilaridade das redes sociais. As tubulações de esgoto do tecido social deste país nunca estiveram tão entupidas.

Esse novo contexto invoca novas análises e reflexões, que devem estar correlacionadas com as profundas mudanças que têm impactado o território brasileiro desde o fim da ditadura militar e o início da chamada Nova República. E, para além da questão meramente nacional, edificá-las de forma mais realística e eficiente com o movimento do mundo que foi aberto com o declínio da bipolaridade da Guerra Fria, do qual emanou um poderoso turbocapitalismo globalizado. A questão é complexa, obviamente, e pede uma análise multidimensional que não se esgota em um livro, muito menos em um artigo. Procurei organizar o meu ponto de vista em temáticas que considero altamente relevantes para que uma espécie de “ajuste fino” no plano das ideias seja alçado à condição de reflexão mais geral dos rumos do Brasil, ajudando de alguma forma nas estratégias que serão utilizadas pelas forças progressistas de agora em diante.

A militarização da política

Desde o advento da República, a política brasileira sempre reservou algum grau de militarização, mas em raras ocasiões havia ultrapassado o sentido estrito do termo. Ou seja, a militarização da política, em maior ou menor escala, de acordo com o contexto, ficara geralmente restrita à participação direta e indireta das Forças Armadas – e o golpe de 1964, como sabemos, foi o ápice desse processo. Mas, infelizmente, o fenômeno ganhou amplitude inédita com a entrada significativa no jogo das forças policiais civis e militares e com uma parcela considerável da sociedade civil que explicitamente defende políticas armamentistas.

Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada em 31 de agosto último, 30% dos entrevistados disseram acreditar que as leis que facilitam compra, porte e uso de armas aumentaram a segurança das pessoas, e o mesmo percentual gostaria de ter uma arma para se defender1. Cabe lembrar, ainda, que o número de unidades em nome de colecionador, atirador desportivo e caçador (CAC) aumentou de 350,7 mil, em 2018, para pouco mais de um milhão, em 2022, após a publicação dos decretos do governo Bolsonaro flexibilizando as normas para compra, porte e uso de armas pela população civil2.

O sociólogo José Vicente Tavares dos Santos, estudioso das pautas ligadas à segurança pública, já havia observado, no âmbito das greves policiais de 2012, na Bahia, a constituição de um “fenômeno social”. Ele lembrou que uma lei de 1967, editada em plena ditadura, transformou as polícias militares em órgãos auxiliares das Forças Armadas e militarizou o ensino policial. Ou seja, não houve a devida adequação das PMs ao trabalho em uma sociedade democrática, já que “faltam noções de direitos humanos, de investigação criminal, algo básico mas incrivelmente precário no Brasil”3, além da ausência de conteúdo correlato a mediação de conflitos.

A própria integração das Forças Armadas ao país depois de 21 anos (1964-85) de mandos, desmandos e atrocidades também se mostrou bastante frágil. A criação do Ministério da Defesa em 2000, durante o governo FHC, parecia ser um antídoto, mas novas crises apareceram na relação entre civis e militares no terreno político. Em 2004, a demissão do então ministro José Viegas ocorreu em meio à insatisfação de militares diante da anunciada abertura dos arquivos da ditadura. Cabe lembrar que a Comissão Nacional da Verdade, proposta no Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), no segundo mandato do governo Lula, também não foi bem recebida por vários setores da caserna. O caso do general Maynard Marques de Santa Rosa, que a chamou de “comissão da calúnia” e acabou sendo exonerado, ganhou as manchetes em 2010. “Os três comandantes militares reagiram contrariamente às cláusulas que propunham rever abusos contra os direitos humanos durante a ditadura e colocaram seus cargos à disposição”, lembrou a cientista política Maria Celina d’Araujo4.

A proposição da revisão da Lei de Anistia – que acabou sendo barrada pelo Superior Tribunal Federal (STF) por 7 votos a 2 — foi outro evento com ressonância extremamente negativa no seio das Forças, sobretudo com as declarações públicas de apoio do então ministro da Justiça, o petista Tarso Genro. E, na sociedade civil, os defensores do golpe de 1964 e de uma nova quartelada em pleno século XXI assombram o país, de forma recorrente desde as eleições de 2018, com demonstrações de efeito. Para completar, o antropólogo Celso Castro, especialista do universo militar, admite que existe um déficit de conhecimento sobre o cotidiano da caserna, “daí compreender-se pouco o funcionamento dessas instituições”5.

D’Araujo clama por uma reflexão sobre o papel das forças de defesa perante o povo e o Estado brasileiros, assunto que “nunca mobilizou os partidos, nunca deu votos”, além do desinteresse generalizado do Congresso sobre a questão. Mas, ao que parece, o bolsonarismo conseguiu encontrar aí uma brecha valiosa para a sua estratégia de poder, de certa forma interditando qualquer debate sobre a pauta sugerida por D’Araujo. É fato a adesão de setores e agentes das forças de segurança ao bolsonarismo – a participação de militares em cargos de confiança ao longo do governo Bolsonaro é espantosa –, mas muito ainda permanece sob uma cortina de fumaça quanto ao real potencial de ativismo político da categoria, sobretudo em relação aos policiais civis e militares.

A articulação política das igrejas evangélicas neopentecostais

A pesquisadora francesa Marion Aubrée talvez tenha sido uma das primeiras intelectuais a se debruçar sobre o fenômeno do expressivo crescimento dos movimentos evangélicos tidos como neopentecostais no Brasil. Um projeto que remonta ao final dos anos 1980, ainda em estágio inicial, encabeçado pela Igreja Universal do Reino de Deus com a sua missão global de evangelização a partir de um país do Terceiro Mundo. Segundo ela, esses movimentos “se adaptam bem à busca de uma devoção emocional pelo povo brasileiro às suas aspirações de uma relação direta com Deus”, na qual o transe corporal (ou a explosão do corpo, como define Aubrée), pouco compreendido ou rejeitado, foi substituído pela “transverbal”, ou “a linguagem dos anjos que, quando praticada, inibe as expressões corporais”6.

Mesmo assim, a articulação midiática dos cultos e atividades na tela da tevê – apenas para ficar no exemplo mais emblemático, a tradicional TV Record, fundada em 1953, foi comprada pelo bispo e empresário Edir Macedo em 1989 – levou a um ajuste, tolerando a maquiagem e roupas menos convencionais e deixando o corpo mais livre. Como afirma Aubrée, “voltou a ser brasileiro”. Desse modo, “sensibilizou setores ponderáveis das classes mais modestas da população”, além de acolher, continua ela, “parte dos vitimados pelo êxodo rural e pela marginalização urbana e ajudando-os a reconstruir suas identidades perdidas em tantas vicissitudes”.

O resultado é que, integrados ao movimento, os indivíduos “redescobrem a autoestima, o senso da dignidade”, atendendo, assim, ao “preceito-chave da ética individualista predominante no mundo atual – (…) que o homem tem que ser forte, equilibrado espiritual e moralmente para encontrar seu lugar ao sol”. Soma-se a isso a introdução pragmática da Teologia da Prosperidade nas comunidades evangélicas, alavancada por cursos de alfabetização, aprendizado de profissões, oferta de empregos e possibilidade de desenvolver carreira eclesiástica, “buscando meios para as pessoas progredirem na vida”.

Como bem disse o historiador Leandro Karnal, a “capilaridade notável” de “milhares de pequenas igrejas nas periferias das cidades” elevou o mundo evangélico a um “poderoso dínamo para as almas e para as urnas”7. Na sua análise, como tendência geral os evangélicos “valorizam pontos como críticas ao casamento homoafetivo”, embora o tom médio do eleitorado brasileiro “é muito conservador e isso antecede a presença evangélica no Parlamento”. Para Karnal, “evangélicos não criam, apenas reforçam um reacionarismo difuso”, e acreditar que votam em quem pastores e bispos mandam seria uma ideia que “subestima a capacidade crítica dos evangélicos e omite a mudança na composição social do grupo”. Naquele contexto, em 2014, Karnal analisou a questão como um controle até desejável pelas lideranças religiosas, mas que “não existe como dado absoluto”. Entretanto, deixou o debate em aberto, pois a temática estaria em “ebulição intensa”.

Mas os fatos recentes mostram que neste campo foi aberta outra brecha bastante utilizada pelo bolsonarismo: uma aliança tácita e explícita entre os exploradores da fé alheia e os falsos defensores dos valores de Deus e da família que envolve interesses de ambos os lados e muito dinheiro. E o dado absoluto agora está aí: o resultado foi o reforço da chamada bancada evangélica no Congresso – dos 177 candidatos a deputado federal, 109 foram eleitos, taxa superior a 60%. Ademais, alguns novatos ligados às igrejas evangélicas foram campeões de voto em seus respectivos estados. Nikolas Ferreira (PL-MG), o deputado mais votado do Brasil, com cerca de 1,492 milhão de votos, integra a Comunidade Evangélica Graça e Paz. O ex-procurador Deltan Dallagnol (Podemos-PR), conhecido por ter sido um dos cabeças da famigerada Operação Lava Jato, é da Igreja Batista do Bacacheri, em Curitiba, e com alguma frequência realiza palestras e pregações nos púlpitos evangélicos.

Filipe Barros (PL-PR), da Igreja Presbiteriana Central de Londrina, Silas Câmara (Republicamos-AM), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Paulo Freira Costa (PL-SP) e Cezinha Madureira (PSD-SP) são outros exemplos, todos da Assembleia de Deus, que mantém o seu domínio sobre a Frente Parlamentar Evangélica, que tem na “pauta dos costumes” a sua trincheira de valores conservadores contrários à esquerda. “Vai ter um grupo mais coeso agora, porque os novos deputados eleitos são evangélicos e é gente mais aguerrida. Isso vai ficar muito bom para a bancada”, declarou o deputado Gilberto Nascimento (PSC-SP), um dos principais articuladores do movimento e reeleito para o seu quarto mandato8. Por outro lado, os evangélicos de esquerda continuam sendo minoria.

O ex-ministro do STF, Cezar Peluso, já havia declarado que a Corte, provocada a deliberar sobre direitos considerados lesivos à sociedade pelas forças conservadoras (aborto, células-tronco, fetos anencéfalos, direitos dos homoafetivos), “reforça o caráter laico do ordenamento jurídico, (…) ao ponto de enfrentar as resistências religiosas em nome da laicidade do Estado”9. Na campanha para o segundo turno, Lula teve que lançar, estrategicamente, uma carta aos evangélicos que afirma a liberdade de culto e a posição contrária ao aborto. Ao mesmo tempo, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, lota igrejas neopentecostais Brasil afora ao lado da senadora eleita Damares Alves (Republicanos-DF), conhecida por inflar a pauta conservadora de costumes.

O diretor do Observatório Evangélico, Vinicius do Valle, enxerga um ambiente bastante violento no universo das igrejas, com “consequências sérias, dentro e fora dos templos”10. O desejo de aniquilamento da diferença, “mesmo entre aqueles que comungam da mesma fé”, foi incrustado nas igrejas pelo bolsonarismo, formando uma legião de (pseudo) religiosos que passou a disseminar a ideia de que o Partido dos Trabalhadores (PT), “amigo de ditaduras sanguinárias, fecharia igrejas, obrigaria as crianças a usar banheiros unissex, liberaria o aborto e ameaçaria a integridade das famílias”.

Valle explica que as pautas morais e religiosas, situadas “no terreno das crenças e das paixões, e menos conectadas à materialidade”, são “mais suscetíveis à dinâmica do marketing político agressivo e das fake news”. E o “bom marketing político”, como nos mostra a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, “é aquele que vai de encontro à imaginação política que já existe” e, portanto, “o bom candidato é aquele que sabe dialogar com esse imaginário da sociedade”11. Eis aqui, portanto, uma questão que precisa ser mais bem estudada, compreendida e enfrentada.

A força do dinheiro e do consumo

Uma enxurrada de números mostra o quadro sombrio para boa parte da população brasileira. Em 2021, 62,93 milhões de pessoas (ou 29,62% do total) viviam com renda domiciliar per capita de até US$ 5,50 por dia – ou seja, abaixo da linha da pobreza, segundo parâmetro internacional adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU). No mesmo ano, o rendimento médio mensal per capita registrou o menor valor desde o início da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 201212. Tecnicamente, de cada quatro brasileiros um está sob a linha de pobreza.

Não é exagero admitir, entretanto, que as condições materiais do povo brasileiro melhoraram, em níveis gerais, a partir dos anos 1990. Não pretendo aqui discutir as causas desse fenômeno – obviamente que as políticas sociais reorganizadas, azeitadas e vitaminadas com o PT no poder o explicam em parte –, e nem mesmo fechar os olhos para as mazelas crônicas e estruturais, mas o Brasil não é a Índia e nem a África, sem qualquer sentido pejorativo ou discriminatório sobre essas duas partes do mundo. Quero dizer com isso que a força do dinheiro e do consumo aterrissou com peso no Brasil a partir daquele contexto, mesmo que em escalas e condições diferenciadas. Com o neoliberalismo irresponsável e a abertura indiscriminada ao mundo globalizado, o país foi inserido numa posição amplamente disputada pelo capital internacional, já que passou a figurar entre os dez principais mercados consumidores mundiais de quase todos os bens de consumo, sejam eles duráveis, semiduráveis ou não duráveis.

Gradativamente houve uma multiplicação de shoppings centers nas grandes cidades, inclusive nas periferias, chegando anos depois a várias cidades de porte médio do interior do país. O efeito-demonstração causado pelo consumismo – e tudo o que ele carrega, como a criação inesgotável de desejos materiais, a ideia de felicidade, a busca por status e afirmação social e altas dosagens de entretenimento entorpecente – atingiu em cheio a todos os extratos da sociedade, sobretudo os mais baixos, que até então apenas de forma marginal faziam parte do mercado consumidor e, na sua estrutura psíquica e cultural, não tinham no consumo um valor em si de grande relevância para o seu cotidiano. Em suma, o dinheiro transformou-se no grande mediador das relações sociais em praticamente todas as porções do território e em todas as classes sociais.

O próprio governo Lula proporcionou um crescimento vertiginoso dessa dinâmica com as correlatas políticas de expansão do crédito público e aumento real do salário mínimo acima da inflação, incrementando o poder aquisitivo de grandes parcelas da população. Mas junto com o dinheiro e o consumo vêm o individualismo, a ganância e a ambição, um pacote completo embalado por milhares de peças publicitárias e pela ideia fortemente difundida da meritocracia e do empreendedorismo, diametralmente oposta aos valores humanistas de alteridade e solidariedade. O progresso material se sobrepõe a tudo e a todos e a busca pela “gourmetização da vida” é, agora, o modus operandi e o objetivo geral a ser alcançado por uma expressiva parcela da sociedade. Completa-se, assim, a atomização do indivíduo, presente nas periferias e nos bairros de classe média, nas capitais e no interior, no litoral e nos confins da Amazônia.

Como bem disse Karnal, “viver imune aos apelos do consumo é complexo para o adulto e quase intransponível para o jovem”13. O geógrafo Milton Santos vai além. Em sua análise sobre a globalização (que prefere denominar de “globaritarismo”, a aliança entre a tirania do dinheiro e da informação), o consumo é “o grande fundamentalismo do nosso tempo, porque alcança e envolve toda gente”. É um grande emoliente, “produtor ou encorajador de imobilismos”, ou “um veículo de narcisismos, por meio dos seus estímulos estéticos, morais, sociais”. E completa: “Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão.”14

Mesmo que em camadas, nuances, formas e situações diferenciadas o brasileiro entrou (ou foi empurrado) com força na dinâmica do turbocapitalismo globalizado, na qual a espiral do consumismo é um de seus principais traços, e o medo da perda das condições materiais, mesmo que reduzidas se comparadas aos extratos mais elevados da sociedade, aparece como elemento paralisante e reacionário. A questão da segurança pública ajuda a reforçar esse último aspecto com narrativas e imagens veiculadas incessantemente por programas de televisão sensacionalistas e a escassez, em outros tempos um forte elemento a favor das revoluções sociais, hoje parece estar mais inclinada ao reacionarismo.

Talvez a essência do brasileiro tenha-se tornado mais individualista e menos espontânea, cada vez mais enquadrada no “reino do cálculo e da competitividade”, amparado por um discurso único do mundo no qual as formas de relações econômicas implacáveis não aceitam discussão e exigem obediência imediata, como nos ensina Milton Santos15. Assim, a competitividade como norma acaba justificando os “individualismos arrebatadores e possessivos” na vida econômica, na ordem política, na ordem do território e na ordem social e individual. É o “dinheiro em estado puro”, explica o autor, em que dinheiro e consumo são tidos como reguladores da vida individual, cujo “objetivo é a necessidade, real ou imaginada, de buscar mais dinheiro”16.

Desde o último quartel do século XX, já há toda uma geração criada na frente da televisão, submetida a milhares de peças publicitárias por ano e seduzida pela expansão em grande escala da variedade de bens de consumo. Uma geração inteira receptora de enlatados estadunidenses em volume absurdo, na tevê, no cinema, nas rádios e nas antigas videolocadoras, fortalecendo o chamado american way of life na mente de grande parte da juventude brasileira de então. Uma geração inteira induzida ao convencimento da grandiosidade do papel dos Estados Unidos no mundo. Uma geração inteira com alto grau de despolitização, cujos ideais revolucionários pretéritos deixaram de ser atraentes.

Esses valores forjaram (e continuam forjando) a estrutura emocional, psíquica e cultural de parcela considerável das classes altas e médias das grandes e médias cidades brasileiras, frequentadoras assíduas da Disneylândia (desde criancinha) e dos inúmeros voos semanais para Miami e outros lugares dos Estados Unidos e da Europa. O pior é que esse fenômeno está gerando capilaridade entre as camadas mais pobres e se propaga pelo celular, na velocidade e ferocidade da internet e das redes sociais.

Por uma reforma agrária nos marcos do século XXI

É escancarada a rejeição dos agentes do agronegócio a Lula e ao PT. No primeiro turno, o candidato à reeleição venceu em 77 dos 100 municípios mais ricos do agronegócio, que juntos equivalem a 5,3 milhões de votos e concentram 34,3% do Valor Bruto da Produção Agrícola (VBP) nacional em 2021, índice medido pelo IBGE. A votação de Bolsonaro chegou a 74,84% em Canarana (MT), contra 21,80% de Lula. Em 22 municípios, o candidato do Partido Liberal (PL) recebeu mais de dois terços dos votos. Dos dez primeiros, sete são do Mato Grosso (Sorriso, Sapezal, Campo Novo dos Parecis, Diamantino, Nova Ubiratã, Nova Mutum e Querência), dois, da Bahia (São Desidério e Formosa do Rio Preto) e um, de Goiás (Rio Verde)17.

Segundo José Carlos Hausknecht, sócio-diretor da consultoria MB Agro, o forte apoio do setor já era esperado, “principalmente dos produtores, o que envolve as famílias e influencia nas cidades também”. Ele explica que os produtores “se sentem perseguidos, ameaçados com invasões do MST e atacados como responsáveis pelo desmatamento, pelo latifúndio improdutivo e pelo uso de defensivos”, e ao mesmo tempo nutrem o reconhecimento de um setor “que dá sustentação à economia e contribui com a balança comercial”18.

Seria muito ingenuidade imaginar que juntamente com esse fluxo produtivo e comercial, sobretudo em tempos muito favoráveis do ponto de vista cambial, não emergiria uma classe política potente e influente, que foi sendo construída gradativamente desde que a expansão da fronteira agrícola chegou aos confins do Centro-Oeste e à franja meridional da Amazônia, a partir da década de 1970. Como bem explicou o antropólogo Caio Pompeu, o agro não é pop, é político, e a partir do processo desencadeado para estabelecer o golpe contra a presidente Dilma Rousseff, em 2016, “nucleações dominantes do campo do agronegócio alcançaram protagonismo na agenda do Estado brasileiro” e o PT era considerado pelos líderes do agronegócio “como seu principal inimigo político”19.

Para além da questão política, sabemos que o agro não tem nada de pop, pois se trata de uma atividade com várias contradições e conflitos agudos nos temas que envolvem as questões agrária (condições de vida do trabalhador do campo e concentração fundiária), agrícola (latifúndio improdutivo), ambiental (desmatamento e outras práticas predatórias), indígena (violência e desrespeito para com as populações ancestrais) e trabalhista (trabalho escravo). E, nessa pauta, um dos elementos mais sensíveis diz respeito à reforma agrária — conceito temido pelas classes dominantes desde meados dos anos 1950, quando do advento das Ligas Camponeses no Nordeste.

Muitos autores advogam a tese de que o anúncio das Reformas de Base durante o governo João Goulart (1961-64) – da qual a reforma agrária era um dos pilares — foi a gota d’água para a deflagração do golpe militar de 1964, em um contexto caracterizado pela Guerra Fria. Do ponto de vista estrutural, o poder no Brasil guarda íntima correlação com a propriedade da terra, e uma mudança radical implicaria na eliminação do latifúndio e da especulação fundiária (a terra como reserva de valor).

Mas a temática da reforma agrária, a meu ver, precisa estar mais relacionada à realidade brasileira do século XXI, e não da segunda metade do século anterior. O país foi submetido a um enorme processo de urbanização, acompanhado de alterações demográficas igualmente substanciais, e grande parte dos problemas sociais também se deslocou para as cidades – déficit habitacional, ausência de saneamento básico, serviços insuficientes de saúde e educação, precariedade do transporte público, desemprego, etc.

Entretanto, não se trata de uma bandeira ultrapassada, pois a própria Constituição Federal prevê a desapropriação de terras que não cumprem a sua função social para serem destinadas à reforma agrária. Mas fica aqui a reflexão: será que o instrumento da reforma agrária seria eficaz, no momento atual, para resolver os problemas estruturais brasileiros? Por isso a necessidade de repensar o modelo de reforma agrária para o Brasil de hoje, sem deixar de criticar o que deve ser criticado. Afinal, como disse Eduardo Galeano, “a soberania começa pela boca” e, para quem dispõe de um mínimo de humanismo, é um absurdo ter fome no país aclamado como o “celeiro do mundo”.

É possível superar o ódio e a barbárie?

Agora caiu a máscara. Sem metáforas. Sem cortes. Sem o mito da tão propalada “democracia racial”. Ficou explícita a aversão que as forças conservadoras e reacionárias replicam em torno da figura do negro, indígena, pardo, favelado e suburbano, tida como de segunda categoria que atravanca o progresso do país — e, mais ainda, breca o desejo latente da “europeização” da sociedade brasileira. Sempre foi assim, é verdade, mas, nos marcos civilizatórios do atual contexto do mundo, deveria ser algo inadmissível. Uma “ralé eternizada”, na visão do sociólogo Jessé Souza, colocada como o “nosso maior conflito social”20. Um processo gradativo, perverso e crescente de naturalização da desigualdade social no Brasil e de tentativa de criminalização de qualquer tipo de movimento e/ou organização social daqueles que estão na base inferior da sociedade brasileira.

E, convenhamos, o núcleo duro do bolsonarismo está cheio de gente que pensa assim. São contra o fato de que o Brasil é um país mestiço e muito diverso em todos os aspectos. São contra a ideia de que empregadas domésticas devem ter salário digno e direitos trabalhistas. São contra a ideia de que pobres devem ter acesso às universidades públicas pelo sistema de cotas. Nunca aceitaram e não aceitam a ideia de um nordestino, metalúrgico e sindicalista ter sido presidente da República em duas ocasiões – e agora pela terceira vez.

Obviamente que o Brasil é muito mais complexo e diverso do que esse panorama e muitos aspectos colocados ao longo do texto são de conhecimento das forças progressistas. Entretanto, alguns elementos merecem uma compreensão mais profunda, muitos não foram sequer mencionados (o crescimento da extrema-direita em várias partes do mundo, por exemplo) e com outros ainda não sabemos ao certo como lidar, seja no plano intelectual, seja no plano político. Apesar de tudo, o Bolsonaristão foi derrotado e a esquerda está viva.


Referências citadas:

1. RAMOS, Pedro. Maioria rejeita uso de armas, afirma pesquisa Genial/Quaest,in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A9, 1º set. 2022.

2. Os dados, publicados pelo jornal O Estado de S. Paulo (Metrópole/A15, 06 out. 2022), são dos Serviços de Fiscalização de Produtos Controlados (SFPC).

3. CRUZ, Christian Carvalho. Mais uma para ficar na história, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 12 fev. 2012.

4. D’ARAUJO, Maria Celina. Demissão anunciada, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J3, 07 ago. 2011.

5. GREENHALGH, Laura e MARSIGLIA, Ivan. Brios e vacilos nas fileiras, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 14 fev. 2010.

6. SABÓIA, Napoleão. Estudiosa francesa analisa a fé dos brasileiros, in jornal O Estado de S. Paulo, Caderno2/D7, 08 jun. 2003.

7. KARNAL, Leandro. Rebanho não tão uniforme, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/E3, 07 set. 2014.

8. WETERMAN, Daniel. Campeões de voto reforçam bancada evangélica no Congresso,in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A21, 08 out. 2022.

9. GREENHALGH, Laura. Oceano processual, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 15 maio 2011.

10. VALLE, Vinicius do. Violência política toma conta de igrejas, in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A11, 20 out. 2022.

11. TAVARES, Flávia e MARSIGLIA, Ivan. Por trás da máscara, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 19 out. 2008.

12. AMORIM, Daniela e NEDER, Vinicius. Renda do brasileiro tem queda recorde, in jornal O Estado de S. Paulo, Economia&Negócios/B1, 11 jun. 2022.

13. KARNAL, Leandro. Compro e vivo, in jornal O Estado de S. Paulo, Cultura&Comportamento/C12, 09 out. 2022.

14-16. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do discurso único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2001, p.49 e p.56.

17-18. DUARTE, Isadora. Bolsonaro domina votação em 77 dos 100 municípios mais ricos do agronegócio, in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A10, 12 out. 2022.

19. POMPEIA, Caio. Formação política do agronegócio. São Paulo: Elefante, 2021, p.299.

20. SOUZA, Jessé. A ralé eternizada, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 06 jul. 2008.

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

O evangélico que foi às urnas em 2022 ocupa o lugar de um Outro ao qual o país historicamente negou o direito de expressar um projeto de nação. Mas os laços entre religião e política têm raízes profundas entre nós – e temos de encarar esse fato

Escrito por Rodrigo Toniol (*)

As eleições de 2018 e 2022 nos deram momentos de revelação do Brasil e explicitação das imagens que o país produz sobre si mesmo. Em tom geral de surpresa, a nação se confronta com o espelho. E como um narciso desencantado, parece ter saído do transe de uma autoimagem equivocada — do gigante que acordou, entre tantas outras. Agora, como há quatro anos, ao final do pleito das eleições para presidente, o Brasil passa por um estado de vertigem e se encontra diante de si mesmo. Não é uma experiência simples. Como o psicanalista francês Jean Laplanche argumenta, quando desencantado, Narciso pode alternar o objeto de seu delírio e deixar de ver seu Eu belo e passar a olhar o Outro detestável.

Ao longo dos últimos anos, em vertigem, a opinião pública sobre o debate político nacional parece ter identificado o seu Outro: os evangélicos. Como um narciso desencantado, nega que esse Outro seja constitutivo de si e o acusa de responsável pela deformação de sua imagem, antes supostamente bela. Basta que o leitor atente para uma das principais lições exaustivamente repetidas após os fracassos eleitorais das frentes progressistas: “É preciso conversar com eles [os evangélicos]”. Mas, ora, quem éramos antes? E éramos tão belos assim? A constituição dos evangélicos como o Outro da nação passou a ser um tema incontornável e, para compreender o jogo de imagens que sustenta muitas leituras políticas atuais, é preciso retroceder na história e identificar as formas pelas quais os evangélicos, tão numerosos quanto diversos, se tornaram exóticos ao país.

Antes, éramos católicos. Como mostram os dados dos últimos censos, até 2010, éramos um país com 64,6% de pessoas autodeclaradas católicas. A hegemonia da Igreja Católica no Brasil ao longo do século XX não é e não pode ser encarada como um simples dado demográfico. É, antes, resultado de um projeto político de sufocamento da expressão da diversidade religiosa. Na primeira metade do século passado, início da nossa República, a ação repressiva e constitucional contra os cultos mediúnicos no Brasil, fossem eles espíritas ou afro-brasileiros, é um capítulo de um longo histórico de perseguição. Outro, menos difundido, foram as posições e as ações que intelectuais e autoridades civis ou religiosas, como o cardeal Sebastião Leme da Silveira Cintra (1882-1942), que atuou como arcebispo do Rio de Janeiro de 1930 a 1942, tomaram para desacreditar e perseguir os minoritários grupos evangélicos. Na primeira metade do século XX, cristãos não católicos que habitavam o território nacional eram sobretudo estrangeiros, e seus descendentes, identificados com o que chamamos hoje de “protestantismo histórico” — calvinistas, metodistas, batistas, presbiterianos e anglicanos.

Foi a partir da década de 1950 que o universo evangélico brasileiro se diversificou internamente. Surgiram no país e foram importadas novas denominações, tais como a Igreja O Brasil para Cristo (1956), brasileira, e a Igreja do Evangelho Quadrangular, criada nos Estados Unidos e fundada por aqui em 1951. A partir de então, essa diversidade interna aos cristãos não católicos se adensou ainda mais, com dezenas de novas denominações made in Brazil, como: Igreja de Nova Vida (1960), a Igreja Pentecostal Deus é Amor (1962), Igreja Universal do Reino de Deus (1977), Igreja Internacional da Graça de Deus (1980), Igreja Apostólica Renascer em Cristo (1986) e Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (1992). Ainda que litúrgica e teologicamente diversas entre si, essas igrejas têm como traço comum a forte adesão e apelo às classes populares. Muitos dos seus templos estão localizados em bairros periféricos das grandes cidades. Diante desses dados, se faz necessário perguntar: não seriam os evangélicos uma nova forma de fazer referência ao Outro da nação, antes pensado em termos distintos? Falar de identidade evangélica em referência ao indesejável não remeteria à dificuldade de reconhecer que a disciplina se disseminou entre pessoas pobres pelos bancos das igrejas protestantes e evangélicas, e não pelos sindicatos e partidos? Aposto que sim, mas isso não é tudo.

Em um texto de 1987, intitulado As bases de uma nova direita,[1] o sociólogo Flávio Pierucci analisou 150 entrevistas feitas com apoiadores de Jânio Quadros e de Paulo Maluf, em São Paulo. O autor pretendia compreender uma constelação de ideias e valores políticos de direita no cenário posterior à ditadura militar. Nessas entrevistas, chama atenção a pouca presença de evangélicos em meio ao campo da direita paulista. Naquele momento, os religiosos inimigos da direita eram os católicos da Teologia da Libertação, aqueles que lutaram contra o governo militar. Na sua classificação da extrema-direita e da direita fundamentalista, Pierucci, profética e um tanto hiperbolicamente,[2] fez dois comentários sobre os evangélicos e suas afinidades eletivas:

[…] É que sua [a do moralismo] penetração na massa é enormemente facilitada por sua dupla e vantajosa aliança: com a extrema-direita da mídia policial e com a extrema-direita evangélica, esta igualmente midiática (linhagens estas da extrema-direita que também se fazem representar no parlamento) […]. Este novo espaço sociocultural para a extrema-direita, representado por denominações cristãs fundamentalistas, converge no seu anticlericalismo específico com o outro, o anticlericalismo de caserna e delegacia, para acusar a arquidiocese de São Paulo de pactuar com os delinquentes através da política dos direitos humanos.

Lembremos que o texto de Pierucci data do fim dos anos de 1980. Naquele momento, o autor já equacionava os evangélicos com a direita e ressaltava seu amplo uso dos meios de comunicação. O que haveria, então, de específico aos evangélicos do início do século XXI? Esse é o cerne da questão. Em si, os evangélicos não são uma novidade na política nacional. O que mudou foi a forma pela qual alguns de seus líderes religiosos passaram a fazer política, mobilizando instâncias político-partidárias como caminho para seus ideais de nação.

Para compreender as estratégias políticas dos evangélicos, façamos uma analogia. Estamos diante de uma relação de forças como aquela que o historiador francês Jean-Pierre Vernant atribui aos deuses gregos: as dinâmicas do Olimpo envolvem um jogo que mobiliza não somente muitos jogadores, mas também, e talvez sobretudo, vários tabuleiros. No tabuleiro que denomino de salvação, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é quem tem atuado de modo mais sistemático. Por salvação, é importante que atentemos para as promessas de outra vida no presente e de novos futuros que a IURD oferece. Não é pouca coisa. Até o início da década de 1980, a Universal se definia pelo princípio, então muito difundido, segundo o qual “os crentes não participam de política”. Na década seguinte, este lema foi substituído pelo mote “irmão vota em irmão”. Em 1989, o bispo Macedo, líder da IURD, comprou a Rede Record e, por meio dela, ampliou sua capilaridade e sua estrutura midiática.

Desde então, a política não apenas é encarada como espaço de atuação cristã, como também é trazida para o interior do templo. E assim, a promessa de salvação encontra um terreno importante. Um dos tabuleiros mais relevantes jogados pelos políticos-religiosos do universo evangélico brasileiro sobrepõe a teologia da salvação à teologia do domínio. Na guerra espiritual travada contra as tentações mundanas e demoníacas, encontrar e circunscrever espaços seguros para os irmãos se faz mais do que necessário. A busca por essa Terra Prometida se concretizou em dois templos-domínios que merecem destaque: em 1999, foi fundado o Templo da Glória do Novo Israel, popularmente conhecida como Catedral da Universal, no bairro de Del Castilho, Zona Norte do Rio de Janeiro; e, em 2014, o Templo de Salomão, no Brás, em São Paulo.

A Catedral da Universal conta com nada menos do que um Muro das Lamentações, nos moldes do muro de Jerusalém. Com proporções monumentais e erguido com pedras trazidas diretamente de Israel[3] — afinal, as materialidades carregam a sacralidade —, o Templo de Salomão concretiza uma nova etapa da teologia neopentecostal e seu projeto de territorialização do sagrado. O que importa reter aqui é a opção pela reconstrução do Templo de Salomão: a Universal apelou a um rei e não a um profeta, entre tantas figuras relevantes do Antigo Testamento. Olhar com mais cuidado para Salomão ajuda a entender as reconfigurações do ativismo político evangélico. Mais do que isso, o templo, tal qual nos domínios de Salomão, é o lugar a partir do qual se pensa e se faz a política.

Levando em consideração a centralidade de Salomão nas estratégias espirituais e políticas da IURD, talvez possamos levantar a hipótese da emergência de um novo tipo de messianismo. Vale lembrar que os movimentos messiânicos e suas desconfianças da separação entre religião e Estado tiveram importância popular e política desde o início de nossa vida republicana. Lembremo-nos de Canudos, na Bahia (1896-1897), e de Contestado (1912-1916), no Paraná e em Santa Catarina. Estaria a política brasileira deixando de ser sebastianista e passando a ser salomônica? Seria essa a confrontação por trás da vertigem contemporânea de uma nação que se pensou católica por tanto tempo e se descobre agora evangélica?

Se esse for o caso, continuará sendo o interior do templo o espaço para se debater e fazer política. Para lidar com isso, será preciso assumir que este suposto Outro não é um agente exógeno, mas, sim, parte daqueles que estão dispostos a colocar em seus termos um projeto de nação.[4]

NOTAS

[1]. Flávio Pierucci, As bases da nova direita. Em: Novos Estudos Cebrap. São Paulo, no19, v.3 (dezembro de 1987); p. 26-45. Disponível em: novosestudos.com.br/produto/edicao-19. As aspas desse artigo aqui reproduzidas foram adequadas ao acordo ortográfico mais recente.

[2]. Agradeço a interlocução com Ronaldo de Almeida, de quem empresto algumas das formulações que basearam este texto.

[3]. Desde abril de 2018 tenho elaborado sobre essa aproximação entre o neopentecostalismo, a política brasileira e o judaísmo. Além de outros autores que já haviam insistido sobre isso ainda na década de 1990, mais recentemente o historiador Michel Gherman (UFRJ) e a antropóloga Misha Klein (Universidade de Oklahoma, EUA) também têm-se dedicado ao assunto.

[4]. Agradeço à Marcella Araujo pela interlocução e contribuições para elaboração deste texto.

______

*Rodrigo Toniol é professor adjunto do Departamento de Antropologia Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Unicamp.

 

[Fonte: outraspalavras.net]

Ananda Marques, mestra em Ciência Política pela UFPI

A semana seguinte é sempre pior que a atual há algum tempo no Brasil, o sem limites do sofrimento encontra cada vez mais espaço para corroer aqueles que sobreviveram aos últimos anos. E para as mulheres brasileiras, para as mulheres negras, para as mulheres pobres, para as mulheres mães, para as mulheres com deficiência, lgbt, indígenas e ativistas, para aquelas que ocupam esse lugar de coragem e risco tem sido ainda mais dolorido. Num intervalo de poucos dias, três vídeos circularam tanto na imprensa como nas redes sociais escancarando a insegurança na qual vivemos; não há garantia alguma de nossas vidas e direitos no Brasil em 2022.

Na cena que chocou o país, uma juíza tortura psicologicamente uma criança de 11 anos vítima de abuso sexual, cuja mãe buscou o sistema de saúde para acesso à interrupção da gravidez, como é previsto no Código Penal desde 1940. Depois da negativa do hospital, procurou o sistema de justiça, o que elas encontraram foi mais violência. Dois dias depois da matéria que denunciou o ocorrido, a juíza foi removida do caso porque, coincidentemente, estava em processo de promoção. O caso lembra a história de Cícera Fernandes de Oliveira, que em 1980 buscou o mesmo direito para a filha de 12 anos, estuprada pelo padrasto e que teve de levar a gestação a termo por falha do Estado brasileiro. Quarenta anos depois, retrocedemos.

Antes mesmo de que as notícias sobre a juíza de Santa Catarina esfriassem, outro vídeo nos horrorizou: a procuradora do município de Registro, no interior de São Paulo, foi espancada pelo colega de trabalho e toda a agressão, filmada. Ao desferir golpes, chutes e tapas contra a mulher, ele a xingava com termos machistas. A imagem da procuradora com o rosto ensanguentado estampou jornais. Três dias depois, o agressor foi levado para um hospital psiquiátrico.

Como o país não nos permite descansar entre uma tragédia e outra, logo depois ganhou repercussão um vídeo do RJTV no qual uma senhora acompanhada de seu neto chora ao ser entrevistada, conta à repórter – também emocionada – que no domingo anterior sua família não tinha absolutamente nada para comer, perdeu o marido e uma filha no último ano e estava na fila do projeto municipal que distribui refeições porque passava fome. Pergunto-me como ela perdeu o marido e a filha, se foi para a Covid. No Brasil de quem sobreviveu à pandemia, o prêmio é a fome? Mais de 33 milhões de brasileiros estão na mesma situação e mais da metade da população vive algum nível de insegurança alimentar em 2022.

O que essas três cenas têm em comum? Abuso sexual e revitimização são violências. Agressão física e psicológica são violências. Fome e violação de direitos básicos, como alimentação, são violências. As três histórias que ganharam visibilidade essa semana têm como alvo mulheres e crianças, vítimas não apenas de seus agressores diretos, mas também, dos sistemas de saúde, justiça e assistência social que falharam com elas, com todas nós. Vítimas de um modo de governar que promove a morte.

Uma criança abusada não ter acesso a um atendimento humanizado e a um direito previsto há décadas não é uma situação excepcional. A juíza, apesar dos requintes de crueldade da audiência, não é a única. Há pelo menos uma década conservadores, fundamentalistas e a extrema-direita têm travado uma cruzada ideológica que se deslocou da sociedade civil para as instituições. Nesse processo, promoveram pânico moral, ataque sistemático aos direitos humanos e, uma vez com acesso ao poder, implementaram um processo de desmonte de políticas públicas que garantiam o mínimo. Apenas para ilustrar, em maio deste ano o Ministério da Saúde publicou a nova caderneta da gestante, estimulando práticas que são notadamente reconhecidas como violência obstétrica. Os retrocessos na política de saúde, criada em 1984 como Política de Atenção Integral à Saúde da Mulher, são significativos, e a cada caso de falha na assistência à saúde, o quadro se agrava.

Da mesma forma, o governo de extrema-direita que hoje está no poder vem desmontando as políticas de direitos das mulheres e minorias, não apenas através da criação de programas ineficientes e encerrando ações historicamente reconhecidas como efetivas, mas também, devido à paralisia na gestão. Levantamento da revista Gênero e Número revela que apenas 56,5% dos recursos disponíveis para as mulheres foram efetivamente gastos até novembro passado pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, apesar do aumento de verbas destinadas à pasta.

Política pública não é apenas o que o Estado faz, é também o que deixa de fazer. A cultura de violência é reforçada quando não há políticas públicas eficientes de promoção da paz e em defesa das mulheres e crianças. O agressor da procuradora de Registro é o responsável direto pela violência, no entanto, a ausência de políticas de prevenção à violência contra mulheres e o incentivo ao machismo e à misoginia promovido pelo presidente e seus apoiadores têm peso no cenário de insegurança que vivemos.

E por fim, o aumento da pobreza e da fome no Brasil, que violenta de forma ainda mais grave mulheres e crianças, é responsabilidade também do governo federal. O fim do Bolsa Família, programa de combate à pobreza internacionalmente reconhecido e de eficiência cientificamente comprovada, com sua substituição pelo Auxílio Brasil – programa ainda mais focalizado, esteve acompanhado do crescimento no número de pessoas em situação de pobreza e vulnerabilidade. A alimentação é um direito humano, é a garantia básica de dignidade, e é sob o atual governo que metade do povo brasileiro está vivendo sem esse direito.

Diante das notícias sinto o que não consigo nomear: o insuportável de ser mulher no Brasil. Não há garantia alguma de nossa integridade como seres humanos, não há segurança para as mulheres e seus filhos. Silvia Federici, historiadora italiana, argumenta que há “um estado de guerra permanente contra as mulheres” sustentado pela desvalorização da vida e trabalho, impulsionado pelo processo de globalização. A misoginia, o ódio às mulheres, atravessa as relações sociais e se manifesta também nas instituições políticas. Rita Segato, antropóloga argentina, aponta que vivemos “novas formas de guerra” nos modos atuais de violência que têm como alvo os corpos das mulheres e o que persiste é a dimensão colonial, um regime de apropriação que radicaliza a forma colonial da violência.

O Brasil que é insuportável para mulheres hoje descende do projeto de colonização através da apropriação, escravização, extermínio, violência, tortura e estupro. Projeto atualizado na ditadura e que tem diversos braços nos diferentes territórios, desde o encarceramento e genocídio da população negra, passando pela exploração de terras indígenas, assassinatos e violações dos povos originários, tradicionais e ativistas ambientais, até o agravamento da violência contra mulheres. Não creio que toda essa cadeia de violações seja ingênua ou casual, me parece um projeto de sociedade excludente que atualmente ganhou fôlego para ser executado, e consequentemente, nos executar.

Por mais que seja óbvio enxergar apenas a primeira camada de responsabilidade pela violência, ou seja, daquele que a pratica diretamente, é preciso escavar as dimensões invisíveis que a História revela. O século XXI parece não ter chegado para nós, vivemos num limbo temporal perverso, uma espécie de máquina do tempo que nos coloca diante das mesmas violências de nossas antepassadas. O temor me sobressalta, o que virá depois? Nos proibir de ir à escola, de possuir algo em nosso nome, condenar-nos à fogueira? Margaret Atwood, que escreveu “O Conto da Aia” e é conhecida por suas distopias a partir de fatos históricos, precisa ser uma obra de ficção e não um um prenúncio aterrorizante do que o Brasil vai se tornar.

[Fonte: http://www.estadao.com.br]

Hace diez años, la Unión Europea recibió el Premio Nobel de la Paz. Este premio, ideado como una forma de recompensar el apoyo a la desmilitarización, resulta aún más desacertado hoy, cuando varios de sus miembros participan en conflictos exteriores y cuando militariza cada vez más sus fronteras armando a los guardias de Frontex.

Escrito por Francesca Spinelli

Cuando firmó su testamento el 27 de noviembre de 1895, Alfred Nobel seguro que pensó que la idea de dejar gran parte de su fortuna a personas meritorias pero extranjeras disgustaría a muchos. No solo horrorizó a una parte de su familia, sino también a Óscar II, el monarca sueco que reinaba entonces, que calificó sus ideas de absurdas y antipatrióticas.

Tras una larga batalla judicial, los opositores tuvieron que desistir. Se instituyeron los cinco Premios Nobel, entre ellos el de la Paz, que debía concederse a la persona que hubiera hecho más “por la fraternidad entre las naciones, por la abolición o la reducción de los ejércitos profesionales y por el establecimiento y la promoción de asambleas por la paz”.

Sin embargo, tras esta primera victoria, se traicionaron las últimas voluntades de Nobel. Según el abogado noruego Fredrik S. Heffermehl, cofundador del sitio web The Nobel Peace Prize Watch, entre 1946 y 2008, más de la mitad de los Premios Nobel de la Paz se han concedido “ilegalmente”, es decir, infringiendo las disposiciones del testamento. Tal y como explica en una entrevista de 2014, el premio no estaba inicialmente destinado a fomentar “‘la paz’ en general, sino a los activistas cuyo objetivo fuera poner fin al militarismo”.

La Unión Europea recibía este premio hace justo diez años, el 12 de octubre 2012, “por haber contribuido a la paz, a la reconciliación, a la democracia y a los derechos humanos en Europa” y ya entonces no faltaron las polémicas. La ausencia de conflicto entre Estados europeos, denunciada por muchos, no significaba que la UE se mantuviera al margen de la guerra. Varios Gobiernos de la UE habían y han participado efectivamente en conflictos de la OTAN o han exportado armas.

Y todos han apoyado el recurso a la fuerza contra lo que se consideraba entonces y sigue considerándose como una invasión peligrosa: la llegada de hombres, mujeres, jóvenes y niños que quieren llegar al territorio de la UE para refugiarse en él, para encontrar trabajo, reunirse con sus familias, estudiar y, en muchas ocasiones, por todas estas razones combinadas.

Los primeros agentes armados de Europa

En 2012, Frontex, la agencia europea encargada de coordinar y apoyar a los Estados miembros en la vigilancia de las fronteras exteriores de la UE, llevaba operativa siete años. Esta agencia, poco conocida entre el público general, ya tenía una mala reputación por su opacidad, la ausencia de mecanismos de control sobre su trabajo y su función a la hora de reforzar la criminalización de la migración. Además, aunque todos los funcionarios de la agencia con sede en Varsovia son civiles, los Estados miembros son los que envían al personal sobre el terreno (agentes, guardacostas y guardas fronterizos).

En 2019, un acontecimiento confirmó que la UE no debería haber recibido el Premio Nobel de la Paz. Con la reforma del reglamento de la agencia Frontex adoptada ese año, la UE inició un nuevo capítulo de su historia: Frontex dejó de ser un órgano civil para convertirse en un cuerpo armado. Efectivamente, los funcionarios de la agencia europea son los primeros en la historia del personal de las instituciones europeas en estar autorizados a llevar armas y, aunque se trata de un motivo de orgullo para la agencia, este cambio sigue siendo extremadamente preocupante.

De aquí a 2027, el contingente permanente de Frontex debería incluir a 10 000 personas, de las cuales 3000 serían funcionarios europeos (considerados de categoría 1 del personal de Frontex) y 7000 “agentes enviados por los Estados miembros de la UE”. En mayo de 2022, como indica un documento del Consejo de la UE publicado por Statewatch, la agencia había contratado a 835 agentes de categoría 1 que, hasta ahora, debido a un obstáculo jurídico imprevisto, parecen disponer únicamente de armas prestadas.

Desde 2016, año en el que se llevó a cabo una reforma anterior de su reglamento, Frontex puede adquirir “material técnico”. Para la agencia, “esta categoría también incluía armas de fuego”, explica el investigador Matthias Monroy, autor del blog “Security architectures in the EU” (Arquitecturas de seguridad en la UE). Pero la interpretación de Frontex era errónea y la Comisión tuvo que intervenir para precisar en qué condiciones podían adquirirse, transportarse y almacenarse armas.

Mientras tanto, Frontex firmó un acuerdo con Grecia y Lituania para garantizar entregas de armas, sin interrumpir sus “intercambios con la industria” y celebrando, en octubre de 2021, un contrato de 3,76 millones de euros con la empresa austriaca Glock para el suministro de “pistolas semiautomáticas, municiones y accesorios”.

Disponemos de gran parte de esta información únicamente porque hemos sabido plantear las preguntas idóneas”, observa Monroy, haciendo referencia en concreto a las preguntas parlamentarias planteadas por el eurodiputado Özlem Demirel (Grupo de la Izquierda en el Parlamento Europeo, GUE/NGL, izquierda), que comenta: “Observamos la misma tendencia en la política de defensa europea, con el proyecto de creación de un ejército europeoNo se trata de una fuerza permanente que se vaya a crear mañana, pero debemos criticar los avances que van en esa dirección. La militarización de la Unión Europea ya ha comenzado con la militarización de las fronteras.”


A partir de ahora, pueden ser desplegados funcionarios europeos armados en el interior y el exterior del territorio de la UE, para “proteger las fronteras europeas”


Y esta militarización se extiende desde hace tiempo bastante más allá de las fronteras de la UE. Desde 2019, Frontex puede también llegar a acuerdos de cooperación con países terceros no limítrofes con el territorio de la UE, lo que concede una inmunidad reforzada a sus agentes (la investigadora Martina Previatello publicó un análisis detallado de este tipo de acuerdos).

A partir de ahora, pueden ser desplegados funcionarios europeos armados en el interior y el exterior del territorio de la UE, para “proteger las fronteras europeas”, recurriendo a la fuerza para detener, interceptar, rechazar o repatriar a los potenciales demandantes de asilo, culpables de haber intentado llegar a la UE de manera “irregular”, que es la única manera de la que disponen.

¿A quién deben rendir cuentas estos agentes? Únicamente a su superior, el director ejecutivo de Frontex, que goza de una autonomía absoluta. Este último, como observa Monroy, “puede ser destituido por el consejo de administración de Frontex”, que incluye a representantes de la Comisión y de los Estados miembros, “pero en el plano operativo, nadie puede decir a Frontex lo que debe hacer”. Por otro lado, el propio consejo de administración aprobó, en enero de 2021, la creación de un comité sobre el recurso a la fuerza de los agentes de categoría 1, un comité que no solo es únicamente consultivo, sino que además debería estar formado por personas elegidas por el propio director ejecutivo de Frontex.

El problema principal es el control democrático”, destaca Monroy, que recuerda que con el Tratado de Lisboa, las agencias, como el resto de las instituciones europeas, adquirieron más poderes y más autonomía: “Pero, cuando se tomó la decisión, nadie se imaginaba que, diez años después de la entrada en vigor del tratado, Frontex estaría armadaAhora ya no hay vuelta atrás posible. La Unión Europea decidió tomar esa dirección y Frontex ha abierto la vía”.

En 1893, Alfred Nobel escribía a su amiga Bertha Von Suttner, escritora austriaca y pacifista: “Quisiera utilizar parte de mi fortuna para crear un premio que se concediera cada cinco años, pongamos que unas seis veces. Porque si en treinta años no hemos logrado reformar el sistema actual, volveremos a caer inevitablemente en la barbarie. El premio deberá concederse al hombre o a la mujer que haya hecho que Europa avance más hacia la idea de una pacificación general.”

Alfred Nobel murió en 1896 y Bertha von Suttner, en 1914. Europa se hundió en la barbarie mucho antes de lo que había previsto Nobel y volvió a sumergirse en ella durante la Segunda Guerra Mundial. Es cierto que el proyecto europeo surgió del deseo de garantizar la paz en el continente. Pero, ¿a qué precio?

En su libro Eurafrica: the untold history of european integration and colonialism (Bloomsbury, 2014), los historiadores Peo Hansen y Stefan Jonsson vuelven a examinar el “pasado que Europa ha olvidado”, esta dimensión colonialista del proyecto europeo que explica en gran parte la brutalidad con la que la UE se niega desde hace decenios a abrirse a toda una parte del mundo.

La UE no se merecía el Premio Nobel de la Paz en 2012 y lo merece aún menos ahora que ha empezado a armar a una parte de su personal para apartar a civiles a los que debería acoger.

La organización belga Agir pour la paix y la campaña internacional Abolish Frontex han anunciado una « ceremonia de destitución » del Premio Nobel de la UE para diciembre en Bruselas. Alfred y Bertha sin duda habrían apreciado este gesto.


El informe de la OLAF o cómo Frontex ocultó devoluciones ilegales

En un informe confidencial publicado por la plataforma FragDenStaat, Der Spiegel y Lighthouse Reports, la Oficina Europea de Lucha contra el Fraude (OLAF) acusa a algunos ejecutivos de Frontex de « falta grave » por no informar sobre devoluciones ilegales de migrantes por parte de guardas fronterizos griegos. El informe provocó, entre otras cosas, la dimisión de Fabrice Leggeri, exdirector de la agencia, y confirma lo que han denunciado desde hace tiempo varias ONG.

Según el informe, Frontex ocultó algunos casos de posibles violaciones de los derechos humanos a los funcionarios responsables de los derechos fundamentales. Además, suspendió algunas operaciones de vigilancia aérea para evitar registrar actividades ilegales, cofinanció unidades griegas que llevaron a cabo las devoluciones y engañó a las autoridades encargadas de supervisar a la agencia.

[Fuente: http://www.voxeurop.eu]

Los “grandes relatos” que explicaban todo, desde el comportamiento de los Estados hasta la literatura, han desaparecido. El colapso de las historias interconectadas requiere de una nueva perspectiva sobre lo que nos une, desde Manila hasta Silicon Valley, y de ahí hasta Moscú, y es necesario que el periodismo se plantee nuevamente cuál es su misión, explica el autor británico-ucraniano Peter Pomerantsev.

Escrito por Peter Pomerantsev 

“Querido Peter: Llevo mucho tiempo esperando para escribirte, pero las últimas noticias han dejado en claro que permanecer en silencio es, simplemente, peligroso.

Mis antiguos colegas están en prisión. Durante muchos meses, a mis amigos y a mí nos ha resultado difícil llamar la atención de los medios de comunicación mundiales. Ahora ha ocurrido algo que ha capturado la atención de las principales agencias de noticias, pero me pregunto cuánto durará. ¿Hay alguna manera de mantener esta atención? Me siento como si todos aquí fuésemos rehenes. Y eso da miedo. Ahora todo, cualquier delito, se ha vuelto posible aquí”.

El verano pasado, recibí desde Bielorrusia este mensaje de un amigo, un par de días después de que el dictador de ese país, Alexander Lukashenko, utilizara un avión de combate MiG para el aterrizaje forzoso de un vuelo comercial internacional que estaba atravesando “su” espacio aéreo y detuviera a un periodista bielorruso y a su novia, que creían estar seguros viviendo en Lituania. Pocos días después, el periodista capturado, Roman Protasevich, apareció en la televisión estatal con marcas de tortura visibles y confesó su traición. La escena recordaba a los juicios espectáculo instigados por el estalinismo.

Hubo cierta indignación entre lo que nos gusta llamar la comunidad internacional; se utilizaron las palabras “secuestro” e incluso “acto terrorista”. Y después, como temía mi amigo, todo fue olvidado. Lukashenko se enfrentó a consecuencias leves, como la prohibición de que la aerolínea estatal bielorrusa volara a Europa. Su mensaje a cualquiera que se atreviera a oponerse a él era más potente: « Puedo hacer lo que quiera contigo, dondequiera que estés. »

Me costó responder a la petición de mi amigo. Para que un único acontecimiento sea recordado, debe estar sostenido por una historia mayor en la que pueda desembocar. Cualquiera que haya jugado a un juego de memoria sabe que se recuerdan cosas diversas al ponerlas en una secuencia en la que adquieren importancia como parte de un todo mayor. Del mismo modo, en los medios de comunicación y en la política, una escena solo tiene poder cuando forma parte de un relato más amplio.

Pero los escandalosos crímenes de Lukashenko no encajan dentro de una cadena de significados más grande. Y no se trata solo de Bielorrusia. De Birmania a Siria, de Yemen a Sri Lanka, tenemos más pruebas que nunca de crímenes de lesa humanidad: torturas, ataques químicos, bombardeos con barriles, violaciones, represión y detenciones arbitrarias. Pero a las pruebas se les dificulta captar la atención, por no hablar de suscitar consecuencias. Tenemos más oportunidades de publicar, no estamos limitados por la geografía, nuestra audiencia es potencialmente global. Sin embargo, la mayoría de las revelaciones y de las investigaciones no tienen eco. ¿Por qué?

Un relato conectado se rompe

El colapso de la Unión Soviética debería haber estimulado la introspección y animarnos a no excluir a nadie del relato de los derechos humanos contra la represión política. Y, por un momento en la década de 1990, esto parecía posible. Cuando la ola de democratización derrocó tanto a las dictaduras prosoviéticas como a las proestadounidenses en todo el mundo, cuando se creó el Tribunal Penal Internacional en La Haya en 1998, cuando las intervenciones humanitarias se llevaron a cabo con éxito desde los Balcanes occidentales hasta África oriental, parecía que la justicia se impartiría más equitativamente.

Pero entonces ocurrió algo diferente. En lugar de dejar entrar a más personajes en el relato de los derechos humanos, todo el entramado se derrumbó. Una situación en la que algunas víctimas recibían más atención que otras fue sustituida por una situación en la que ninguna víctima recibía atención de forma sostenida. Los horrores de la Segunda Guerra Mundial habían obligado al mundo a adoptar la Declaración de Derechos Humanos de la ONU, al menos en principio. Tras la Guerra Fría, las catástrofes en Srebrenica y Ruanda habían fomentado las intervenciones humanitarias y la “responsabilidad de proteger”.

En anteriores crímenes de lesa humanidad, la ignorancia siempre era una excusa. Desde Auschwitz hasta Srebrenica y Ruanda, los dirigentes podían alegar que desconocían los hechos, o que estos eran equívocos, o bien que los acontecimientos se habían desarrollado con tanta rapidez que resultó imposible actuar. Pero ahora tenemos acceso a medios de comunicación omniscientes que a menudo nos aportan pruebas abundantes e instantáneas que, sin embargo, resultan menos significativas que antes. El cuadro de los crímenes sigue siendo un desorden de imágenes rotas.

Esto parecía diferente en la Guerra Fría. En aquel entonces, parecía haber una conexión entre poner un freno a un único disidente soviético y una lucha geopolítica, institucional, moral, cultural e histórica más amplia. Los medios de comunicación, los libros y las películas de la época contaban las historias de discretos presos políticos y de abusos a los derechos humanos como parte de un relato más abarcativo dentro de la gran batalla de la libertad contra la dictadura, una batalla por el alma de la historia.


En anteriores crímenes de lesa humanidad, la ignorancia siempre era una excusa. Desde Auschwitz hasta Srebrenica y Ruanda, los dirigentes podían alegar que desconocían los hechos, o que estos eran equívocos, o bien que los acontecimientos se habían desarrollado con tanta rapidez que resultó imposible actuar


Y toda esta historia hacía que la gente en las democracias se sintiera mejor consigo misma y formara parte de una identidad: estamos del lado de la libertad frente a la tiranía. Había instituciones que apoyaban este mensaje y esta identidad. Los presos políticos se sentían menos vulnerables cuando sus detenciones eran anunciadas en la BBC o en Radio Free Europe, recogidas por Amnistía Internacional, anunciadas en la ONU y expuestas por los presidentes de Estados Unidos en cumbres bilaterales con los dirigentes soviéticos.

En conjunto, todos estos elementos mantenían viva la atención. Y que los propios pecados de Occidente, como el programa de asesinatos encubiertos de la CIA en la Guerra Fría y los golpes de Estado en la década de 1970, fueran revelados suponía la existencia de un marco mediante el cual captar la atención y la indignación del público occidental.

Existía lo que podríamos llamar un “gran relato” que informaba y envolvía todo, desde el comportamiento de los Estados hasta la literatura y el arte, pasando por el modo en que la gente se pensaba a sí misma. Estaba ligado a los ideales ilustrados de “progreso” y “liberación”, donde los hechos y las pruebas eran algo que debía respetarse, confirmarse o refutarse mediante argumentos racionales o pruebas verificables.

Incluso el régimen soviético se aferró a un lenguaje y una visión del mundo en los que los derechos – los derechos de los pueblos colonizados y de los económicamente oprimidos, principalmente – podían importar, al menos en teoría. Incluso firmaron compromisos en materia de derechos humanos, lo que permitió a los disidentes soviéticos exigir a los dirigentes del Kremlin que “obedecieran sus propias leyes”.

[Ilustración: Vladimir Kazanevsky | Cartoon Mouvement – léase la integralidad de este artículo en el siguiente enlace: http://www.voxeurop.eu]

“Hace muy bien entonces Gabriel Boric en cuestionar al Estado de Israel por su carácter colonial, lo que no tiene nada que ver con ser antisemita, como plantea de manera infundada la Comunidad Judía de Chile”.

Escrito por Andrés Kogan Valderrama

A propósito de que el presidente Gabriel Boric decidiera no recibir al embajador de Israel en Chile, para la entrega de sus cartas credenciales, luego del asesinato de un menor de edad palestino, resultan bastante injustas las críticas que ha tenido que recibir por parte de algunos sectores.

Lo planteo ya que rápidamente fue tildado de antisemita por parte de la Comunidad Judía de Chile (1); y también de judeofóbico, por algunos personajes públicos, como es el caso del abogado Ricardo Israel (2).

De ahí que me parezca profundamente difamatorio, que apelen a un juicio de esa índole tan grave, a alguien que jamás ha sostenido un discurso de odio contra el pueblo judío ni ningún otro, sino muy por el contrario, ha defendido de manera irrestricta los derechos humanos en distintos lugares en el mundo.

Es cosa de revisar un poco las distintas críticas que ha realizado Gabriel Boric a diferentes Estados en el mundo, no solo al Estado de Israel por violaciones a los derechos humanos, como son los casos de Colombia, Cuba, Venezuela, Nicaragua, Rusia, Estados Unidos, Irán, China y Chile, como lo hizo nuevamente en su discurso en la Sesión Plenaria de la Asamblea General de la ONU (3).

Es cosa de revisar un poco las distintas críticas que ha realizado Gabriel Boric a diferentes Estados en el mundo, no solo al Estado de Israel por violaciones a los derechos humanos, como son los casos de Colombia, Cuba, Venezuela, Nicaragua, Rusia, Estados Unidos, Irán, China y Chile, como lo hizo nuevamente en su discurso en la Sesión Plenaria de la Asamblea General de la ONU (3).

Por lo mismo, la comunidad judía de Chile podrá estar en desacuerdo con la crítica de Boric al Estado de Israel, por su carácter colonial y racista contra el pueblo palestino, la cual muchas y muchos compartimos, pero de ahí a tildarlo de antisemita me parece un despropósito.

Lo digo ya que se banaliza el concepto de antisemitismo y se le vacía de contenido, lo que no hace otra cosa que ofender la memoria de millones de judíos que a lo largo de la historia han sido discriminados, humillados, perseguidos y asesinados por el solo hecho de ser judíos.

Además, a modo de comprensión del concepto, si bien el antijudaísmo tiene raíces históricas que vienen desde los inicios de la cristiandad y la idea de que los judíos traicionaron a Cristo, el antisemitismo moderno, originado en Europa en el siglo XIX, tiene ciertas características especiales, ante la formación de los Estados-nación modernos.

En consecuencia, el rechazo a los judíos desde la época moderna no tiene que ver con un rechazo religioso propiamente tal, sino con un rechazo racista, que construyó la idea de que los judíos eran personas apátridas, impuras y no confiables, que ponían en peligro la soberanía nacional, al ser quienes desestabilizaban el orden existente, a través del control de la economía, los medios de información y el dinero, en beneficio propio.

Es cosa de revisar los discursos racistas y conspirativos de parte del zarismo en Rusia y del nacionalsocialismo en Alemania por ejemplo, en donde ambos responsabilizaban a los judíos de las crisis existentes, de todos los males y de querer controlar el mundo, como se puede ver fácilmente en Los Protocolos de los Sabios de Sion y en Mi Lucha de Adolf Hitler.

Lo paradójico de todo esto es que justamente desde ese nacionalismo homogeneizador y racista occidental, nacido en Europa en el siglo XIX, e impuesto al resto del mundo contra los judíos y otros pueblos, que surgió también un movimiento nacionalista judío, llamado sionismo, que luego del genocidio y horror del Holocausto, concretaría el nacimiento del Estado de Israel.

A partir de ahí en adelante, con la creación del Estado de Israel, se construyó desde la negación de un otro palestino, expulsando a cientos de miles de ellos de sus casas en 1948 (Nakba) y colonizando prácticamente todo el territorio, con la ocupación de 1967.

Es desde ese colonialismo israelí, que hasta el día de hoy no ha cesado y se ha profundizado incluso, a pesar de las innumerables violaciones al derecho internacional y condenas desde Naciones Unidas, como manifestó en reiteradas ocasiones la ex alta comisionada para los derechos humanos, Michelle Bachelet (4).

Con esto no se trata de que los judíos en el mundo no tengan derecho a tener un Estado y a vivir dentro de fronteras seguras, como ciertos discursos fundamentalistas islámicos lo plantean, pero eso no justifica el colonialismo de asentamientos y apartheid que se ha implantado en territorios palestinos.

Hace muy bien entonces Gabriel Boric en cuestionar al Estado de Israel por su carácter colonial, lo que no tiene nada que ver con ser antisemita, como plantea de manera infundada la comunidad judía de Chile, como también lo ha hecho el gobierno israelí, ante cualquier crítica política de este tipo de alguna persona.

Se podrá decir que ciertas críticas al Estado de Israel se mezclan con argumentos antisemitas de ciertos sectores de izquierda antisionistas, al referirse sobre un supuesto complot judío en Chile, como ha planteado el alcalde de la comuna de Recoleta, Daniel Jadue, en reiteradas ocasiones, pero Gabriel Boric jamás ha señalado su crítica de esa forma racista.

Para finalizar, como persona con apellido de origen judío e hijo de padre judío, me avergüenza mucho que se use el antisemitismo como argumento para descalificar cualquier crítica al Estado de Israel, ya que judíos y no judíos tenemos el deber de defender los derechos humanos y oponernos al racismo sea donde sea, como lo ha venido haciendo Gabriel Boric todos estos años.

1: https://www.t13.cl/noticia/politica/comunidad-judia-chile-impasse-pdte.-boric-corresponde-gobierno-pida-disculpas

2: https://www.infobae.com/america/opinion/2022/09/18/la-judeofobia-de-boric/

3: https://www.youtube.com/watch?v=LlrZR3qbp8Y&feature=youtu.be

 

[Fuente: http://www.lemondediplomatique.cl]

Incarcérée en 2016, Figen Yüksekdag fut l’une des figures du Parti démocratique des peuples (HDP), en tant qu’ancienne coprésidente. Mais Ankara n’apprécie rien de moins qu’un mouvement politique entretenant des liens — même distendus — avec le PKK, ou Parti des travailleurs du Kurdistan. Accusée de terrorisme, Figen Yüksekdag, elle aura bientôt purgé six années de détention.

ActuaLitté

Écrit par Nicolas Gary

Durant son séjour derrière les barreaux, Figen Yüksekdag, 48 ans, s’est décidée à écrire : un recueil de poèmes a vu le jour en 2020 Yıkılacak Duvarlar (Des murs à démolir). Avec Selahattin Demirtas, autre ex-coprésident du HDP, ils ont été reconnues coupables de « propagande pour le compte d’une organisation terroriste », avec 10 années d’emprisonnement à la clef. Plusieurs autres responsables du HDP — 28 précisément — sont également incarcérés avec elles.

Dans une décision rendue ce 8 septembre, le tribunal pénal d’Antalya a décidé d’interdire la publication de l’ouvrage sorti deux ans plus tôt. Tous les exemplaires en librairies ont été confisqués ou doivent être renvoyés : selon les actes d’accusation, la poétesse versait dans l’éloge du PKK à travers ses textes.

Le tribunal s’est en effet penché sur quelques extraits, pour en démontrer le caractère tendancieux. L’évocation de massacres en 2016 dans la ville de Cizre pointe par exemple les exactions de l’armée turque : le siège organisé aura en effet entraîné la mort de 288 personnes, dans des circonstances particulièrement glauques. Mais pour la justice, loin de mettre en cause les forces armées, cette allusion renforcerait la ferveur à l’égard du PKK — tout en cherchant à rallier sa cause, précise Rojinfo.

L’éditeur Ceylan, basé à Istanbul, a évidemment condamné cette décision, mais assuré dans un communiqué être tristement habitué à ces méthodes des autorités turques. « Aucun tribunal ne fera taire la voix des poèmes », assure-t-il. « Ceux qui ont conduit à cette décision, ceux qui l’ont signée, savent aussi que ces vers sont déjà parvenus au-delà des murs. […] Nous continuerons à publier de la poésie en toutes circonstances, les romans révolutionnaires en toutes circonstances. […]. Résistez à une obstination vivante… »

De son côté, le HDP a également dénoncé « la mentalité prohibitive du pouvoir, hostile à toute forme de beauté ». Le média Rudaw souligne qu’entre 2016 et 2021, 109 ouvrages ont ainsi été sanctionnés, tous liés à la culture kurde — dont 31 écrits en kurde.

En outre, la Haute Cour de Turquie avait statué, en avril dernier : aucun droit de l’homme n’avait été violé lors de l’arrestation de Figen Yüksekdağ. Sa demande de réviser le procès était « dénuée de tout fondement » a tranché la justice : elle n’avait donc ni été privée de ses droits ni mise en danger.

Son arrestation découle de manifestations survenues à Kobani (sud-est du pays), ville à majorité kurde, en 2014. Le HPD accusait le gouvernement, dans un exercice de répression, d’avoir engendré des morts. 108 personnalités politiques du parti ont été jugées dans le cadre du procès qu’a déclenché Ankara — justifiant son intervention au motif du terrorisme…

 

[Photo : Figen Yüksekdag – source : http://www.actualitte.com]

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Una reflexió lúcida i urgent sobre les diferents formes de violència que sacsegen el nostre món. Una crida que ens encoratja a actuar. Sobre el paper, la pau, la justícia i els drets humans són valors indiscutibles de les societats democràtiques. No obstant això, és realment així? Vivim en un món sacsejat per múltiples formes de violència: guerres, militarisme, fam, pobresa, masclisme, racisme, agressió al medi ambient. Quina lògica tergiversada porta els nostres líders a fer bandera de la voluntat de millorar la societat, quan al mateix temps permeten (o bé activen directament) mecanismes de mort i misèria?

Jordi Armadans és un dels experts en conflictes internacionals i activistes per la pau més respectats del nostre país. En aquest llibre breu i lúcid, carregat de les dades més recents, Armadans fa una lectura crítica i rabiosament actual de l’estat de la violència al món i ens urgeix a respondre amb coherència i responsabilitat per tornar a posar la vida de les persones al centre de les nostres prioritats.

Biografia de l’autor

Jordi Armadans Gil és politòleg i periodista. Analista i formador en qüestions de conflictes, pau i seguretat, ha treballat de director a la Fundació per la Pau i ha estat vinculat a diverses ONG, campanyes i moviments socials a favor de la cultura de pau, els drets humans, la solidaritat i la justícia global. Com a representant de la societat civil, ha participat en diversos processos diplomàtics sobre desarmament i control d’armes a les Nacions Unides.

Títol: Pau. El valor de la vida als nostres dies
Autor: Jordi Armadans
Editorial: Ara llibres
Pàgines: 156
ISBN: 978-8418928536

 

[Font: http://www.racocatala.cat]

Escrit per AGUSTÍ PONS

En el  llibre, Història dels avis que no vaig tenir (Llibres Anagrama) el seu autor, Ivan Jablonka, escriu: “La distinció entre les nostres històries de família i allò que voldríem anomenar la Història, amb la seva pomposa majúscula inicial, no té cap sentit. És exactament el mateix”. En efecte, cadascú de nosaltres viu la seva pròpia i intransferible història personal però, en siguem conscients o no, hi ha un fil conductor roig que ens uneix a la Gran Història, aquella que expliquen, o explicaven, els llibres de text; i ara, viquipèdia. La meva generació, per exemple, la dels nascuts els anys quaranta del segle passat, vam viure sota la presència de la Guerra Freda i aquest concepte, que ens semblava aliè a la nostra situació, va tenir, si ho mirem de prop, un impacte quotidià en les nostres vides.

Els avis de l’historiador francès Ivan Jablonka (1973) van morir a Auschwitz per la seva condició de jueus. Formaven part d’aquesta Gran Història que tenim assimilada en el nostre àmbit de coneixement d’una forma més o menys conscient o explícita. Els avis que Ivan Jablonka no va conèixer van ser dues més dels milions de víctimes de l’antisemitisme en l’Europa del segle XX. Però allò que fa diferent, i depriment, el llibre de Jablonka és que, gràcies a la reconstrucció de la vida dels seus avis, en adonem que l’Holocaust no va sortir del no res. La tragèdia de la familia Jablonka posa de manifest que l’Holocaust va ser l’exacerbació, fins a uns límits criminals que traspassen qualsevol imaginació possible, d’un fenomen, l’antisemitisme, que durant els decennis anteriors s’havia estès, amb major o menor virulència, per tota Europa. Els avis Jablonka van viure a Parczew, un petit poble de la Polònia repartida entre l’Imperi austro-hongarès, Rússia i Prússia. Formaven part de la comunitat jueva que  mantenia la seva pròpia llengua –l’ídix– i no cal dir que la seva pròpia estructura religiosa, familiar i, també, en molts casos, educativa.

Sobre ells queia el menyspreu, quan no la ira, dels catòlics no només per qüestions religioses –els jueus vistos com a deïcides—sinó perquè en un país, Polònia, sense existència legal, el catolicisme constituïa l’ancoratge del prohibit sentiment patriòtic. Els jueus de Parczew vivien legalment i socialment discriminats i això feia que la seva subsistència diària sovint fos precària quan no directament miserable. Ivan Jablonka reconstrueix la vida dels seus avis “in situ” i ho fa amb l’exactitud d’un bon historiador i la capacitat narrativa d’un bon escriptor. I a través dels trasllats de residència a que es veu obligada la família Jablonka per sortir de la misèria i de la persecució ens adonem que l’antisemitisme, legal i social, és present  no només a Polònia sinó també a Rússia, França i no cal dir que, finalment, a Alemanya. Tan sols aconsegueixen sobreviure amb unes mínimes condicions humanes aquells membres de la família Jablonka que emigren a Buenos Aires.

A mesura que avançava el segle XX, les mesures repressives contra els jueus anaven en augment fins arribar al sarcasme més cruel. A la França del cap de govern Daladier molts dels jueus que hi havien arribat des de Polònia o des d’altres països on eren perseguits –perquè pensaven que França era la terra dels drets humans– no aconseguien fàcilment la targeta de refugiat polític. Quan això succeïa, passaven a ser immigrants il·legals amb ordres de deportació si la policia els aturava pel carrer. Però, com se’ls podia deportar si els dirigents del seu país d’origen havien  aprovat una llei que prohibia precisament l’entrada de jueus?  Indocumentats, doncs, a París es veien obligats a portar una via subterrània, sense possibilitats d’obtenir cap contracte, malvivint del que ara en diríem economia submergida, instal·lats en pisos, o habitacions, d’acusada insalubritat. Quan els alemanys van entrar a París i van decidir començar les deportacions no van tenir gaire feina a trobar jueus: feia temps que la policia de la capital francesa tenia una llista, barri per barri, de les famílies jueves. L’avi que Ivan Jablomka no va conèixer s’havia apuntat a l’exèrcit francès en els mesos inicials de la Segona Guerra Mundial però ni això li va servir de refugi. Desmobilitzat després de la fulminant derrota de l’exèrcit francès res ni ningú no va evitar que ell i la seva dona fossin detinguts i duts a Auschwitz en una de les batudes massives que els nazis van efectuar. Però també és cert –i així ho recull el llibre—que no tots els francesos es van comportar de la mateixa manera. També hi va haver veïns, i organitzacions més o menys clandestines, que van aconseguir salvar alguns ciutadans jueus.

Per escriure aquest article he consultat l’entrada Daladier de la viquipèdia. S’explica amb detall la seva vida política; els seus encerts i els seus errors. De les lleis aprovades sota el seu mandat i que tant van perjudicar als jueus que havien trobat refugi a França no se’n diu res. Per al qui ha escrit l’entrada aquest no sembla un tema important. És un exemple més que l’antisemitisme es viu o que es continua volent fer creure que va ser flor d’un dia i d’un país.

 

[Font: http://www.dietariobert.cat]

Lo comitat dels dreches umans de l’ÒNU conclutz qu’aurián pas degut èsser suspenduts coma elegits abans d’èsser condemnats

Espanha a violat los dreches politics de membres del govèrn e del parlament de Catalonha après lo referendum d’independéncia de 2017, segon lo comitat dels dreches umans de l’ÒNU, que conclutz qu’aurián pas degut èsser suspenduts coma elegits abans d’èsser condemnats.

D’expèrts independents, que s’exprimisson pas al nom de l’ÒNU mas que son mandatats per ela, concluguèron dimècres passat a Genèva que las acusacions de rebellion contra los elegits catalans èran pas justificadas e que s’apiejavan pas sus de “motius rasonables e objectius” confòrmament a la lei.

Lo comitat aviá recebut una denóncia de l’èx-vicepresident catalan Oriol Junqueras e de tres ancians ministres que foguèron condemnats e encarcerats per lor participacion al referendum e a la declaracion d’independéncia del parlament en octòbre de 2017, abans d’èsser graciats l’an passat.

Lo rapòrt del comitat dels dreches umans de l’ÒNU jogarà en favor del recors que los presonièrs politics catalans an depausat a la Cort Europèa dels Dreches Umans.

 

[Sorsa: http://www.jornalet.com]

El intento de asesinato a la vicepresidenta Cristina Kirchner es el “acontecimiento de violencia política más previsible de la historia argentina”. Esto podía pasar, analiza Ezequiel Ipar, porque una red de ideología, medios y tecnologías de comunicación preparaba algo así. Decían: las palabras que apelan a la destrucción del adversario político no importan. Las palabras sí importan y hoy explican esta secuencia trágica.

Escrito por Ezequiel Ipar

A pesar de la consternación que genera el intento de asesinato de la vicepresidenta Cristina Fernández de Kirchner estamos ante la certeza de que se trata del acontecimiento de violencia política más previsible y explicable de la historia reciente. Esto que finalmente se materializa con brutalidad, que observamos en la crudeza registrada en la imagen del arma de fuego lanzada sobre una de las principales dirigentes del país, responde y se explica por un proceso social, político-ideológico y mediático muy claro y muy preciso. En la historia inmediata tenemos el hostigamiento y la persecución en el proceso judicial del fiscal reproducida por los medios de comunicación. Si a eso se le agregan las declaraciones desafortunadas de dirigentes políticos, los pedidos de pena de muerte, más la serie de acontecimientos que se vienen sucediendo solo en el último año, hay un primer registro que explica por sí solo esa fotografía trágica.

Luego, hay que reponer el circuito para alentar los discursos de odio contra los políticos que trazan las redes sociales, los medios de comunicación, influencers políticos y los movimientos de estetización de la violencia en las calles. En este caso es contra una determinada orientación pero en realidad es contra la vida política democrática en general. Esto emergió. Pasó por este circuito en donde se supone que las palabras no hacen nada y terminó en un hecho político gravísimo, comparable con acontecimientos como la violencia política que culminó con la toma del Capitolio en los Estados Unidos, la radicalización de grupos de derecha en Europa o las múltiples manifestaciones de violencia política en el Brasil de Bolsonaro. Esto podía pasar porque esa red de ideología, medios y tecnologías de comunicación estaban preparando, ni siquiera silenciosamente, este tipo de acontecimientos. El contexto político-ideológico marcado por una creciente intolerancia y el autoritarismo político merece de modo urgente nuestra atención.

El atentado se explica por la creciente intolerancia y autoritarismo político.

En el transcurso de este último año se acumularon declaraciones y posicionamientos que componen el sistema dentro del que hay que pensar este hecho: las declaraciones explícitas del magistrado Rosenkrantz mediante las que descalifica la doctrina de uno de los principales partidos políticos del país, la profundización del sesgo en la persecución y la condena que hace el sistema judicial contra funcionarios y exfuncionarios políticos (frente a los mismos hechos castiga sistemáticamente a unos y exculpa siempre a los otros), la desproporción entre los crímenes que se imputan y las penas que se proponen (con la pena de muerte siempre como acicate fundamental), la negación de la igualdad de las inteligencias para razonar públicamente, la normalización en los medios de comunicación de mensajes que abiertamente propician y justifican la desaparición de un partido político, la creciente estetización de la violencia en las redes sociales que discuten cuestiones políticas y, last but not least, las declaraciones de importantes dirigentes políticos, en algunos casos parlamentarios y líderes de fuerzas políticas, que plantean la disputa bajo la lógica antidemocrática del “ellos o nosotros”.

En todos estos casos se apela a una supuesta racionalidad de los pronunciamientos y las declaraciones públicas que justifican este tipo de destrucción masiva del adversario político, cuestión que no deja de generar efectos paradójicos en las identidades y las ideologías.

Este hecho es comparable con la violencia política que culminó con la toma del Capitolio en los Estados Unidos, la radicalización de grupos de derecha en Europa o las manifestaciones en el Brasil de Bolsonaro.

Estos pronunciamientos creen que siguen criterios elementales de racionalidad cuando llegan al punto de justificar la exclusión o directamente la violencia política. Racionalidad que aparece siempre como respuesta, como reacción defensiva frente a una amenaza: “como ellos son violentos no nos queda otra alternativa que no sea la violencia”, “como hacen demandas infinitas de imposible cumplimiento no nos queda más que excluirlos”, “como critican la verdad de nuestras ideas, solo podemos asumirlos como incapaces para pensar por sí mismos”.

La distancia entre lo que devuelve el espejo en el que los ciudadanos se reconocen y las prácticas sociales en las que efectivamente desarrollan su vida social es algo que afecta y fisura desde dentro a todas las posiciones ideológicas. Pero estamos frente a algo diferente cuando un juez de la corte suprema hace una proclama en la que se convoca al filósofo liberal Rawls para luego terminar condenando con retórica jurídica a la doctrina comprensiva de un partido por el mero hecho de que pretenda alojar derechos sociales dentro de la constitución de un Estado racional. Lo mismo vale para el supuesto liberalismo del legislador que vocifera como praxis política recomendada la consigna “ellos o nosotros”. También para los funcionarios que se apresuran a identificar la crítica pública de decisiones políticas o jurídicas con un acto de incitación a la violencia.

Las declaraciones que justifican este tipo de destrucción masiva del adversario político generan efectos paradójicos en las identidades y las ideologías.

Si se afirma que criticar en el espacio público las decisiones de un juez o de un funcionario es un acto de violencia y una irracionalidad política que el Estado tendría que sancionar, entonces lo que se propone es que todas las decisiones importantes del Estado, sobre todo las que tienen que resolver conflictos, deben tomarse dentro de un espacio cerrado y ser aceptadas en silencio. Pero ese modelo de gestión del capitalismo -porque en buena medida de eso trata la cuestión de fondo- no guarda relación con los principios de las democracias liberales. Más bien se parece al fundamento cotidiano de los Estados autoritarios y de los partidos políticos iliberales. Este es el juego de espejos invertidos en el que los partidos de derecha en Argentina sucumben y hoy les impide terminar de asumir su compromiso con una democracia pluralista basada en la protección de los derechos humanos.

Toda esta movilización de fantasías autoritarias no solo deteriora la calidad de la democracia sino que explican la secuencia trágica que vimos una y otra vez esta noche imposible de olvidar.

***

Esta nota fue publicada el 31 de agosto de 2022 y actualizada la noche del 01 de septiembre de 2022.

 

[Fuente: http://www.revistaanfibia.com]

Votação neste domingo será acirrada. Direita abusa das mentiras, difama Constituinte e explora pânico moral contra direitos de mulheres e indígenas. Governo morno de Boric é problema. Esquerda tenta superar letargia e resgatar “ventos rebeldes”

Escrito por Joana Salém Vasconcelos

A transformação política que o Chile tem vivido desde 2019 está hoje plasmada pelo texto da nova Constituição, que vai a plebiscito em 4 de setembro. A proposta foi redigida por uma Convenção Constitucional com vários ineditismos, entre eles uma maioria de deputados convencionales independentes (ativistas e intelectuais sem partido) e vindos de fora da política profissional, a paridade de gênero (única experiência do tipo no mundo) e a reserva de assentos para povos indígenas. Trata-se do processo constituinte mais democrático e participativo da história do país, que nunca havia experimentado nada parecido antes. Todas as constituições chilenas anteriores (do século XIX às de 1925 e de 1980) foram redigidas por pequenos comitês fechados ou cúpulas autoritárias centralizadas, compostas por poucos homens brancos (winkas, diriam os indígenas).

O “plebiscito de saída” do atual processo constituinte pode aprovar ou rechaçar o texto, que é herdeiro do novo-constitucionalismo latino-americano, incorporando a plurinacionalidade, os direitos da natureza, a economia solidária, as agendas feminista e ecológica, bem como os direitos sociais e do trabalho, em uma perspectiva social-democrata. Este plebiscito é, portanto, o clímax de um tortuoso caminho de reinvenção do país para superar sua crise multidimensional (econômica, política, social, cultural, simbólica, identitária e até territorial), consequência de um modelo de sociedade neoliberal, gerida por um Estado subsidiário, arquitetado pela ditadura de Pinochet e perpetuado pelo pacto de transição.

Atualmente, porém, para surpresa dos analistas, pesquisas indicam vitória do rechaço (entre 45% a 58% das intenções, a depender da pesquisa) contra a aprovação do novo texto (que varia de 32% a 42%). Surpresa porque esse resultado contraria o fluxo histórico dos últimos três anos (ou talvez dos últimos quinze), marcados por crescentes mobilizações multitudinárias por direitos sociais, que culminaram com o esgotamento e colapso tardio da Constituição pinochetista de 1980 e seu legado ditatorial.

Especialistas e políticos pelo Apruebo questionam as pesquisas que dão vitória ao Rechazo por falhas metodológicas e erros persistentes de resultado das pesquisas anteriores, como por exemplo as que indicavam a vitória de José Antônio Kast no pleito que elegeu Gabriel Boric presidente do Chile em dezembro de 2021. Alguns dizem que as pesquisas não correspondem ao clima das campanhas de rua e das conversas de porta em porta, muito mais favoráveis ao novo texto. Apontam que a metodologia por telefone em horário comercial exclui os mais pobres (que não têm telefone ou exercem tarefas laborais que os impedem de atender durante o trabalho), gerando um enviesamento amplificador do peso das classes médias no resultado. Tal enviesamento é ainda mais relevante em uma votação obrigatória, a primeira depois de uma década de pleitos facultativos, em que os setores ausentes nas pesquisas serão ainda mais massivos na urna.

O resultado do plebiscito, portanto, é muito mais incerto do que parece. A vitória do rechaço representaria a contramão de tudo o que o povo chileno demonstrou nos últimos três anos, nas ruas (as múltiplas revoltas do estallido social) e nas urnas (plebiscito de entrada em 2020, eleições constituintes e eleições presidenciais em 2021). Representaria uma guinada brusca em relação ao caminho escolhido soberanamente pelas maiorias do país e reiterado em muitos momentos históricos recentes. Não é impossível, mas sim contraditório com os sinais da vontade popular dos últimos anos.

Por outro lado, é fato que o rechaço ampliou sua popularidade e as forças da transformação perderam espaço na fotografia atual da batalha por hegemonia. E por que isso ocorreu?

Desde a posse de Boric, está em curso uma forte e sistemática campanha de deslegitimação da nova Constituição, organizada por setores poderosos das classes dominantes e seus conglomerados de imprensa. Com a derrota de Kast, deslegitimar a Convenção foi a principal, senão a única, estratégia política da direita contra o itinerário aberto pela revolta social de 2019. Impossibilitados de disputar a Convenção por dentro, as direitas, que não obtiveram o terço necessário de convencionales para obstruir as agendas das esquerdas na nova carta, só puderam correr por fora e destruir o processo pela deslegitimação. Não só parte da grande imprensa, historicamente atrelada às famílias mais ricas do Chile, está engajada nessa campanha, como também os dispositivos de redes sociais de Kast e seus apoiadores, os dois partidos de direita tradicionais (RN e UDI) e os novos (Evopoli e Republicano), grandes empresas e think thanks direitistas.

Mas isso não seria suficiente para inverter os ventos mudancistas, não fosse a crise de legitimidade do governo de Boric perante sua própria base social, que o elegeu para ver mudanças muito mais rápidas, profundas e assertivas. Contra essas expectativas, Boric mostrou ser um líder de centro, e não da “nova esquerda” que orientou sua militância quando estudante e seu primeiro mandato como deputado. A fragilidade do governo Boric se deve à reprodução das políticas da direita e da Concertación referentes a temas caros e inegociáveis para os movimentos populares. Entre os exemplos mais agudos estão a política de Estado de emergência e militarização do Sul do Chile em repressão aos povos indígenas (continuadas do governo Piñera, sem interrupção); a demora em apresentar uma reforma tributária que financie seu programa de direitos sociais, tornando-o a cada dia mais desacreditado; a ausência de uma reforma da previdência desprivatizante e a posição contrária ao “quinto retiro” das contas de pensão, favorecendo as AFP e contradizendo-se aos discursos que os mesmos Boric, Vallejo e Jackson faziam no Congresso em favor dos retiros anteriores há menos de dois anos; a pífia e ornamental reforma da instituição policial (carabineros) que frustrou amplas expectativas de progresso na pauta de direitos humanos; para não falar da política econômica de estabilização neoliberal que não se diferencia em nada dos governos dos últimos 30 anos.

Sendo assim, o rechaço navega nas águas da crise de Boric, crise gerada por sua própria guinada ao centro neoliberal, com piscadelas à esquerda cada vez menos críveis.

O texto da nova Constituição, esse sim, tem elementos inovadores de um “novo progressismo” latino-americano, que para o Chile representa um renascer das cinzas da Constituição pinochetista. Se por um lado não devemos desprezar o aspecto revolucionário do giro histórico chileno, de vanguarda do neoliberalismo à vanguarda da transformação social latino-americana, tampouco nos devemos deslumbrar com o texto, que só poderá ser aplicado em sua integralidade com muitas lutas árduas, que derrubem fortalezas econômicas, de classe, território e poder capitalista/patriarcal.

São três principais linhas de ataque das direitas à nova Constituição, num turbilhão de fake news, pânico moral e desinformação, cozinhados no caldo ideológico conservador com nuances ora extremistas, ora tecnocráticas.

Primeiro: a mentira de que a plurinacionalidade significaria a quebra da pátria, a divisão do país em diferentes países, o fim da chilenidade. O episódio desastrado da ministra Izkia Siches na Araucanía, na primeira semana de governo Boric, serviu perfeitamente a esse propósito. Afinal, diz a direita, como uma chefe de Estado é proibida de circular em território nacional? Para a campanha de desinformação e fake news, a plurinacionalidade impediria que chilenos circulassem no território nacional, agora controlado por outros povos, ameaçando o patriotismo chileno.

Segundo: o pânico moral em torno dos direitos sexuais e reprodutivos estabelecidos na nova Constituição, bem como os direitos à diversidade sexual, medidas transversais que, no novo texto, perpassam o Estado em sua estrutura, do sistema judicial e educacional às polícias e FFAA. Como aqui, lá a direita ganha espaço com as distorções engendradas pela histeria contra a chamada “ideologia de gênero”. O conservadorismo popular e os tabus religiosos em matéria de direitos reprodutivos, inclusive o direito ao aborto definido na nova carta, alimenta a agenda direitista do rechaço.

E terceiro: a direita afirma, como num velho disco riscado, que a nova Constituição gerará caos e anarquia, enfraquecendo o Estado nacional, porque propõe a descentralização dos poderes, o fortalecimento das regiões, províncias e comunas com orçamento e autonomias, sem falar do fomento à participação comunitária na formulação e deliberação das políticas públicas. A bandeira da descentralização que marcou a agenda dos convencionales é convertida, pela direita, em desintegração da unidade nacional, fragilização do Estado e consequente insegurança. Sem contar que este pacote viria junto com a desmilitarização das polícias.

Afinal, o que ocorrerá no dia seguinte ao 4 de setembro? Ganhando o Apruebo, haverá uma enorme catarse democrática contra o legado de Pinochet, um clímax transformador que representa um verdadeiro ajuste de contas com o golpe de 1973. Ao mesmo tempo, a aplicação da nova Constituição será lenta e demanda muitas leis e regulamentações, que serão disputadas palmo a palmo. A aplicação integral e profunda do texto requer mobilização popular constante e implica em perda de muitos privilégios e poderes das classes dominantes.

O oficialismo, porém, já pactuou o “aprovar para reformar”, e aspectos mais transformadores do texto dificilmente serão declinados a uma política de mudança profunda. Os pactos entre a coligação de Boric e os partidos da Concertación é cada vez mais orgânico e mostra que as verdadeiras novas esquerdas, mais uma vez, disputarão por fora, nas ruas, a contrapelo do governo que ela mesma elegeu.

E se ganha o Rechazo? Será um trauma profundo para o país, que se mobilizou intensa e consistentemente nos últimos anos para construir esse texto. Nesse caso, a situação é muito mais incerta. O presidente Boric defendeu publicamente que, em caso de vitória do rechaço, uma nova eleição para deputados constituintes e uma nova convenção devem ser convocadas. Parte da direita, porém, defende um novo plebiscito para definir se haverá ou não nova carta e recuperar a chance de reformar a de 1980 pelo Congresso, onde ainda tem enorme poder. Seria traumático como cair da escada de costas. Qual o destino do texto da nova Constituição, qual o mecanismo de mudança constitucional e o que ocorrerá com a atual carta da ditadura, tudo isso ficaria em aberto e em estado de incerteza, com o gosto amargo de retrocesso histórico.

São essas, basicamente, as peças no tabuleiro até 4 de setembro.

 

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

Estudiantes, feministas, campesinas, tortas y maricas, indígenas, ambientalistas, escritoras, activistas por los derechos humanos y por la legalización del cannabis: los movimientos sociales reivindican a Gabriela Mistral como líder indiscutida y transversal. En 2022, a este amor se le suman más razones, es que México abrió los archivos que documentan la participación de la poeta chilena en la transformación de la educación de su país, en plena revolución. En octubre serán entregados al gobierno de Boric como gesto para consolidar la idea común sobre el rol del progresismo y el contenido de las futuridades de América Latina.

Escrito por Carla Ulloa Inostroza

Arte: Juan Fuji

—Usted es bienvenida a saturar este ambiente con los dones de su noble espíritu.

Es 21 de julio de 1922. Lucila Godoy Alcayaga llega en tren a la Ciudad de México. Tiene 33 años, es maestra autodidacta, escribe poesía pero su obra es inédita. En su paso reciente por los puertos de Valparaíso, El Callao, La Habana y Veracruz fue recibida con honores. Su anfitrión en la capital es José Vasconcelos. El viaje es seguido por la prensa latinoamericana. Es todo un acontecimiento, incluso cien años después.

La sociedad mexicana acarrea el trauma de una dictadura; Porfirio Díaz es historia y la Revolución Mexicana despliega políticas nuevas. Por eso el gobierno del general Álvaro Obregón escoge para sus filas a uno de los revolucionarios más carismáticos e inteligentes. Por hábil, apasionado y agitador de escritores, José Vasconcelos es nombrado rector de la Universidad Nacional y recibe una misión soñada: alfabetizar México con bibliotecas que sean el epicentro de la cultura, y con uno de los presupuestos más altos destinados a educación en toda la historia de América Latina. Cuando el escritor llega al cargo, existen 70 bibliotecas. En dos años funda más de dos mil, despliega estrategias para democratizar el acceso a la lectura y a la escritura. Lo hace en una alianza viva y lúdica, de la mano de maestras, poetas y artistas que recorren todo el país.

Vasconcelos pone patas para arriba a la educación pública; la vuelve masiva, accesible, aspiracional. Esta revolución los revoluciona a todxs. Es una llave también para Lucila Godoy Alcayaga: mientras la autora chilena acompaña, protagoniza y derrama en este proceso también ella se transforma. De Lucila nace Gabriela Mistral, la mujer pública, con fuerza para decir discursos y dirigir proyectos, la primera persona en América Latina en obtener el Nobel de Literatura. Su emergencia está marcada por el talento pero también por la oportunidad. Es hija y hermana de maestras, amiga de personas con bibliotecas, nacida en una sociedad en la que las mujeres fundan periódicos y luchan por los derechos de las niñas, Mistral tiene diferentes estímulos, como crecer escuchando los cuentos que le leen en su casa, en voz alta. Autodidacta, apasionada, autoexigente: en aquellos años, cuando la vocación se hacía materia, contó, comía poco, leía mucho y vivía cansada.

Este viaje le imprime optimismo, le da confianza y, sobre todo, la llave de su cuarto propio. No todo es poesía en su carrera. No solo el permiso la habilita a profundizar en su talento. México le da seguridad económica: un pago estable por cuenta de la Secretaría de Educación Pública. Cuadro cultural, aliada política, escritora y maestra: la forma en la que durante veintiún meses ejerce estos cuatro roles al mismo tiempo son claves para que su carrera salte de escala. Se vuelve tan visible como para recibir un Nobel.

Esta revolución los revoluciona a todxs. Allí nace Gabriela Mistral, la mujer pública, con fuerza para decir discursos y dirigir proyectos, la primera persona en América Latina en obtener el Nobel de Literatura.

José Vasconcelos está enterado de la escena literaria continental. Bilingüe y lector de revistas, sabe identificar a sus pares, no solo en el amor por la literatura sino en la capacidad  de usar las palabras para conducir a acciones políticas que transformen la realidad. Cuando escuchó su nombre ni lo dudó: Gabriela Mistral también dedicaba su vida al mismo cometido y en Chile, un país tan conservador. Los une la poesía, la ideología y la religión: los dos son cristianos.

Vasconcelos transforma la pedagogía mexicana. Crea bibliotecas de diferentes tipos de funcionamiento: ambulantes, grandes o pequeñas, siempre rodeadas de música, conciertos, murales, obras plásticas, danza y cantos infantiles. El objetivo es alfabetizar a millones de personas, cuidar también la educación espiritual y artística. Convocan a maestros misioneros que renuevan las aulas y las hacen dignas de un mundo mejor. México se había desangrado por décadas, había poco que perder y mucho por imaginar.

“He recorrido con los trenes trepidantes o con el paso lento de mi caballo de sierra, México, el territorio trágico y suave a la vez, donde un pueblo parecido al nipón vive en cada día la cordialidad y la muerte. Y esta mirada mía, recogedora de cuarenta panoramas, me lleva al corazón una oleada de sangre calurosa. Gracias a México, por el regalo que me hizo de su niñez blanca: gracias a las aldeas indias donde viví segura y contenta; gracias al hospedaje, no mercenario, de las austeras casas coloniales, donde fui recibida como hija; gracias a la luz de la meseta, que me dio salud y dicha; a las huertas de Michoacán y de Oaxaca, por sus frutos cuya dulzura va todavía en mi garganta; gracias al paisaje, línea por línea y al cielo que, como en un cuento oriental, pudiera llamarse “siete suavidades”. Pero gracias, sobre todo, por estas cosas profundas: viví con mi norma y mi verdad en esta tierra y no se me impuso otra norma; enseñando tuve siempre el señorío de mí misma; dije con gozo mi coincidencia con el ambiente, muchas veces, pero dije otras mi diversidad. Dios libre a México de nueva angustia.”

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La revolución política cumple el sueño de los poetas. Vasconcelos tiene entre sus tareas urgentes publicar textos con lecturas situadas de la realidad social nacional. Primero conecta con Mistral a través de los impresos. La chilena ya colaboraba en la Revista El Maestro, el proyecto de Vasconcelos como rector de la Universidad Nacional.

Gabriela Mistral ama México, también, por lo que este país la desafía:

“México no es cosa para quedarse por la vida. Es una tembladera política”. 

Es una de las pocas mujeres tratadas con respeto por Vasconcelos; educada en el Chile central, sabe cómo lidiar con la supremacía de los hombres de las letras.

Para conmemorar el centenario de los viajes de Mistral a México, el gobierno de López Obrador puso en marcha la recuperación de los archivos históricos relacionados con este intercambio. Los 400 documentos serán un regalo al gobierno de Chile, una forma de fortalecer la articulación de los gobiernos progresistas de ambos países y su apuestas por las políticas transformadoras.

Durante su estadía en el país de la revolución publica dos libros: Desolación, en 1922, su primer poemario editado en Nueva York, y Lecturas para mujeres, en 1923, una antología que le encarga la Secretaría de Educación. Termina Ternura, su segundo poemario, de 1924, y adelanta Motivos de San Francisco (póstumo, 1965). Colabora en la antología Lecturas clásicas para niños, en 1924; la versión poética de La Cenicienta anticipa un tópico que da pie a la versificación de otros clásicos. Reúne también textos traducidos al español para un público infantil. En Lecturas para mujeres, Mistral expresa su anhelo de contar con más clásicos escritos en español para mujeres:

“Yo desearía que, en arte como en todo, pudiésemos bastarnos con materiales propios: nos sustentásemos, como quien dice, con sangre de nuestras mismas venas, pero la indigencia, que nos hace vestirnos con telas extranjeras, nos hace también nutrirnos espiritualmente con el sentimiento de las obras de arte extrañas”.

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¿Por qué en México y Chile se recuerda esta revolución cultural cien años después?

En 2022, para conmemorar el aniversario, decenas de investigadores de los 32 estados de México pusieron manos a la obra de la Dirección General de Memoria Histórica y el Archivo General de la Nación. Recuperaron los archivos públicos relacionados con la vida y obra de Gabriela Mistral. Y esta recopilación será un regalo del Gobierno de México al Gobierno de Chile. Tiene una particularidad: documenta el recorrido y el aporte de la autora en las primeras décadas del siglo XX. Hasta ese momento, solo se había estudiado su vida y obra a partir de 1945, cuando recibe el Nobel. Estos 400 documentos, el regalo, no revolucionan su biografía ni su obra de la autora -como lo hizo el legado entregado por Doris Atkinson a Chile en 2007 cuando se “comprobó” el lesbianismo de Mistral- pero sí profundiza la rearticulación de los gobiernos progresistas de ambos países y sus ideas en torno al latinoamericanismo. Fundamentan por qué Gabriela Mistral sigue siendo la persona chilena más conocida en México, por qué el país tiene cientos de escuelas nombradas en su honor, cuál es el símbolo que le permite seguir jugando un rol en las relaciones bilaterales de ambos países.

“Tengo en mi espíritu un hemisferio mexicano, donde cada cosa de ustedes, mala o buena, repercute en zozobra o en alegría […] México es para mí el pedazo de mundo donde vi hacer el reparto de suelo, de la herramienta, del libro y del pan escolar. Eso no se olvida, aunque se viva mucho, y eso lava el resto, de errores y miserias humanísimos […] Yo soy una voz de México metida en garganta extranjera” 

México vive el sexenio de la “Cuarta Transformación”, concepto creado por el gobierno de Andrés Manuel López Obrador para diferenciarse de la etapa previa de los partidos derechistas PRI y PAN y de su vínculo con Estados Unidos. Uno de los pilares de la 4T es la amistad entre estos países. Por eso la figura de Mistral es casi un pretexto de lujo para saludar a Chile en su próximo Octubre, cuando esa tierra se apruebe o rechace la primera constitución democrática, iniciando la transición a un Estado plurinacional, intercultural, regional, ecológico constituido como República solidaria, inclusiva y paritaria.

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Cuando Lucía Godoy llegó por primera vez a México, las universidades de América Latina estaban convulsionadas por la efervescencia de sus organizaciones estudiantiles. Ya había ocurrido la Reforma Universitaria en Córdoba, Argentina.

Mistral agitaba ese proceso. En julio de 1922 envió un mensaje a la Federación de Estudiantes en México:

“La aproximación hacia el pueblo, de parte de los estudiantes, ha sido muy discutida. ¿Es un mal el que los jóvenes universitarios se hagan dirigentes obreros? Yo no solo acepto esta colaboración, sino que la alabo cálidamente. Todo lo que arranque al estudiante del ambiente libresco, todo lo que lleve a mezclarse en la vida, a sentir su aliento quemante sobre la faz, me parece inmenso bien. Miro con tanta irritación la enseñanza en su aspecto de rito frío, que me regocija hasta la raíz del alma ver a los jóvenes salirse de esa máquina muerta para ir a la acción, que, hasta cuando es errada, enriquece la experiencia […] Chile no es, como México, un país de grandes recursos y no puede multiplicar, como lo hace vuestro Gobierno, sus escuelas en la extensión que requiere nuestro analfabetismo sudamericano todavía vergonzoso […] 

Mientras Gabriela vivía en México, en 1923, la Universidad de Chile le otorgó el título de profesora por “gracia”. Como hija de la clase trabajadora y campesina tuvo como única maestra a su hermana Emelina. Como muchas mujeres pobres se había desempeñado como profesora, primero en escuelas rurales y luego como docente y directora de liceos de niñas en La Serena, Antofagasta, Punta Arenas, Temuco y Santiago. Estos trabajos le enseñaron a identificar organizaciones y líderes estudiantiles comprometidos con la justicia social.

Cien años después, Chile es conducido por líderes estudiantiles. Los sueños de Gabriela Mistral se siguen cumpliendo.

Cien años después, Chile es conducido por líderes estudiantiles. Los sueños de Gabriela Mistral se siguen cumpliendo. Y es que con la donación del año 2007 comenzó a aparecer el relato de una escritora revolucionaria, atractiva para los jóvenes y los movimientos sociales ávidos. En ese año, la sobrina de la albacea de Gabriela Mistral donó todos los documentos que estaban en Estados Unidos. Un año antes moría Doris Dana, pareja de la poeta, quien durante 50 años resguardó los documentos que se referían a su orientación sexual. Lo habían pactado: después de su muerte iban a dar a conocer al mundo que eran lesbianas. Antes, ¿para qué? Querían vivir en paz.

La apertura de esos archivos -cedidos a Chile durante el gobierno de Michelle Bachelet- y en particular de las cartas de amor y las experiencias disidentes que se leen entre líneas, reactiva el interés en Gabriela Mistral. Justo en 2006, además, es la gran movilización estudiantil de los pingüinos, la primera gran protesta social en democracia.

Hoy, que a los reclamos estudiantiles se les sumaron los feministas -y tantos otros-, Gabriela Mistral está en todas partes. Es la referente disidente.

Está para las personas que quieren legalizar el cannabis -para aliviar el dolor del cáncer, Mistral consumía-, está para las mujeres que luchan en contra del lesbofeminicidio, para las campesinas pobres, para las indigenistas, para las escritoras, para el colectivo queer, para el ecologismo, el veganismo, la astronomía: es una referente transversal. También se la reconoce porque conoció a mucha gente importante que luego defendió los derechos humanos -como el juez Juan Salvador Guzmán Tapia, el único que juzgó a Pinochet-.

La genealogía de los movimientos de lucha en Chile la adoptan de manera definitiva dentro de sus referentes indiscutibles. Neruda es discutible, Neruda está cancelado. Allende es indiscutible, Mistral también: hoy es mucho más querida y conocida por los diferentes pueblos de Chile que hace 20 años.

Este proceso de reactualización de los usos de la memoria en torno a Gabriela Mistral fue apoyado por un boom editorial. El estreno del documental Locas mujeres, de la cineasta María Elena Wood, ofrece imágenes, audios y huellas nunca antes vistas.

Recuperar su figura es habilitar todas sus dimensiones. Es rescatar los significados de las prácticas y los discursos. Es abrazar sus estrategias para intervenir en un entorno patriarcal homosocial muchas veces adverso a su presencia y a la de las escritoras en general.

 

[Fuente: http://www.revistaanfibia.com]

La periodista Alba Sidera, corresponsal d’El Punt Avui, va instal·lar-se a Roma l’any 2007 i va especialitzar-se en els moviments d’extrema dreta. El resultat de la seva investigació és el llibre Feixisme persistent. Radiografia de la Itàlia de Matteo Salvini (Edicions Saldonar), que va publicar l’any passat. Segons explica Sidera, el país transalpí és un bon mirall per anticipar els esdeveniments polítics que poden tenir lloc a l’Estat espanyol i serveix d’exemple “per saber tot el que no s’ha de fer” quan els mitjans aborden informativament els discursos d’odi. Amb ella parlem de periodisme, de les esquerres, d’ultres i d’antifeixisme.

Escrit per Laura Aznar

Fa uns 15 anys que vius a Roma i allà has investigat l’extrema dreta italiana, fins al punt que vas publicar el llibre Feixisme persistent, on radiografiaves la Itàlia de Matteo Salvini.

Tot i que em movia en ambients antifeixistes i de gent d’esquerres, a Itàlia he acabat trobant-me molta gent que es definia com a feixista; una cosa que no m’havia passat mai a Catalunya. Aquí hi ha una normalització del terme. Això em va fer trencar amb l’imaginari que els feixistes són els del cap rapat i les formes de fer agressives. Doncs no. De fet, amb alguns d’ells fins i tot compartia interessos i gustos musicals. A la gent li agrada molt parlar de política amb desconeguts, i em trobava amb situacions molts surrealistes a la consulta del dentista o al supermercat, de persones que, amb tota la naturalitat, em parlaven del feixisme. El llibre sorgeix d’intentar entendre per què passa això, com s’ha blanquejat aquesta ideologia, quins còmplices ha tingut i quins paral·lelismes existeixen amb l’Estat espanyol. D’Itàlia sempre es diu que anem uns quants anys al davant. I és cert.

Fa la sensació que, a l’Estat espanyol, autoidentificar-se com a feixista segueix sent un tabú, que hi ha poca gent que ho faci. És així o això comença a canviar?

Aquesta és una de les diferències més grans. Jo he estat infiltrada en grups feixistes a Itàlia i em comentaven que els sorprenia molt que, a l’Estat espanyol, es fes servir el concepte feixista com un insult. Això té moltes explicacions possibles; una de les més clares és que, a Espanya, el franquisme no va ser vençut. Hi va haver una continuïtat amb la Transició i als feixistes no els ha calgut reivindicar-se. L’extrema dreta ha estat inserida en els partits majoritaris, dins l’aparell judicial, el policial… En canvi, a Itàlia, hi ha l’èpica de la derrota: el feixisme va perdre i tots els partits que s’hi oposaven, des de la democràcia cristiana fins als comunistes, van fer una Constitució pensada perquè no pogués sortir cap altre partit feixista. Com saps, la cosa no ha funcionat. I, en aquest sentit, Berlusconi representa un punt d’inflexió.

Com va ser l’experiència d’estar infiltrada en grups feixistes a Itàlia?

He decidit no donar-ne gaires detalls mentre visqui aquí per motius de seguretat. Et puc dir que he estat en reunions amb gent de la Lega i que he conegut espais on participaven militants de Forza Nuova i de CasaPound, que s’organitzaven com a grups de suport veïnal amb l’objectiu de reconduir debats cap a posicions racistes. S’han aprofitat de l’antigitanisme, que aquí és brutal i molt transversal. M’hi vaig trobar i vaig voler investigar-los.

Per què dius que Berlusconi representa un punt d’inflexió?

Ell arriba al poder al principi dels noranta amb dues crosses: els vots de la Lega Nord i els vots d’Alleanza Nazionale, que va anar canviant de nom però que era un partit feixista. Això va ser un escàndol. Els polítics actuals són fruit del berlusconisme, d’una manera de fer populista. Dic que Berlusconi representa un punt d’inflexió perquè va ser el primer a blanquejar el feixisme quan va dir que Mussolini també havia fet coses bones. Ell és qui normalitza aquest discurs, i ara veiem que es reprodueix als principals programes de tele i de ràdio italians: hi ha personatges com Alessandra Mussolini, neta del dictador, que hi va per defensar el seu avi, o partits d’extrema dreta com Forza Nuova que surten a les tertúlies a explicar la seva ideologia amb total tranquil·litat.

“L’extrema dreta està vivint el seu Maig del 68, el seu moment d’or”

Això també ha passat a l’Estat espanyol.

Sí. Quan es produeix la irrupció de Vox, els seus discursos es comencen a normalitzar amb l’ajuda d’alguns mitjans. Fins al punt que ara tenim joves que diuen “jo soc fatxa, i què passa?”. El feixisme ha aconseguit que hi hagi gent que el percebi com una cosa contracultural, antiestablishment. La camama que expliquen, que ells van en contra del que és políticament correcte, forma part d’una estratègia que despleguen a escala mundial. L’extrema dreta està vivint el seu Maig del 68, el seu moment d’or.

Per tant, una de les estratègies de l’extrema dreta està sent justament la de ressignificar el terme fatxa per interpel·lar grups amplis de població i, particularment, els joves?

S’han apropiat del concepte per treure-li el seu sentit i vendre’l com una cosa guai. El tema és que hi ha molta gent que caricaturitza l’extrema dreta i pensa que, darrere dels seus discursos, hi ha quatre analfabets. És un error garrafal. Hi ha molts intel·lectuals que han estudiat com penetrar entre els joves, i això explica que siguin tan hàbils a l’hora de fer servir les xarxes socials, per exemple. Difonen el seu discurs a través de mems, d’imatgeria, i els funciona. Han sabut pintar aquesta nova onada reaccionària que estem vivint amb el vernís d’una certa modernor, dient “nosaltres no formem part de la casta“, explicant-se com una reacció en contra del poder establert i la “ideologia dominant”. Això connecta molt amb l’esperit de rebel·lia dels joves. Per això és necessari desmuntar-ho.

Com?

Cal posar en evidència que el que diuen és mentida, que el poder està al costat de l’extrema dreta i que les conquestes que s’han aconseguit en matèria de drets humans no són producte d’una ideologia imperant. Que han costat molt i que són coses molt fràgils –ho estem veient amb l’avortament, per exemple. Estem parlant de drets pels quals s’ha de lluitar cada dia.

“Mentre l’esquerra perdia el temps teoritzant, l’extrema dreta anava a fer mítings a les fàbriques”

Quines són les causes d’aquest moment d’or que està vivint l’extrema dreta?

És fruit de diferents factors. D’una banda, hi ha hagut un seguit de crisis econòmiques que han estat el caldo de cultiu ideal perquè la classe treballadora es trobi en una situació de vulnerabilitat. A això, suma-hi la crisi de la socialdemocràcia, que fa que molta gent d’esquerres es quedi òrfena de representació política. I, a més, en l’àmbit teòric, l’extrema dreta recull ara els fruits de la feina feta durant tots els anys previs. Les bases, les van posar els seus intel·lectuals, que van ser capaços de veure que els calia canviar l’estratègia: es van adonar que les idees d’esquerres eren molt més atractives que les idees clàssiques de la dreta, sobretot per als joves, i les van posar al servei de la seva ideologia. També van ser conscients que l’important era penetrar en com més espais de la societat millor, fent que, de mica en mica, l’imaginari col·lectiu es vagi desplaçant cap a la dreta.

Però, si són idees d’esquerres, com és que no han estat justament els partits d’esquerres els que han tingut èxit a l’hora d’interpel·lar l’electorat quan les han fet servir?

L’esquerra ha estat molt endogàmica i ha perdut el temps fent discurs teòric sobre quina era la millor manera de procedir, a la vegada que descuidava l’aplicació pràctica. Mentrestant, l’extrema dreta ha anat a fer mítings a la sortida de les fàbriques. Això, si parlem de l’esquerra real. Si parlem de la socialdemocràcia, hem vist que, quan ha arribat al poder, també ha aplicat retallades i li ha facilitat la feina al feixisme perquè vengui el discurs que “aquests són els que es dobleguen davant la troica“. Això no exclou, evidentment, que, quan la ultradreta mana, es desmantella el sistema sanitari, puja la corrupció i es legisla a favor del gran capital i en contra de les dones o del col·lectiu LGTBI. És clar. Però també és cert que una part de l’electorat ha quedat òrfena quan ha vist que l’esquerra ha governat d’esquena a la classe treballadora. I l’extrema dreta ho ha aprofitat.

Si Ayuso fos un home, no se li hauria dit ‘boja’; se li hauria dit ‘atrevida’”

Parlem d’Isabel Díaz Ayuso. La seva victòria electoral s’explica, entre altres coses, perquè va saber connectar amb els joves i amb un gruix ampli de les classes populars. Quines tecles va tocar?

El primer factor que explica la seva popularitat és que no tenia gaire competència. Hi havia un buit i ella l’ha ocupat. Els seus ideòlegs han volgut crear un personatge carismàtic, molt a l’estil de Salvini, a qui venen com una persona propera i espontània. És fals; en realitat, tot està molt ben estudiat. El gran mèrit d’Ayuso és que va interpel·lar persones de diferents espectres ideològics perquè es presentava com una política outsider, com un producte nou que anava en contra de les elits. Tanmateix, lògicament, totes les seves polítiques són neoliberals i estan totalment alineades amb els interessos del poder.

L’emmarcaries dins l’extrema dreta?

Ayuso és una petita Berlusconi: fa servir les tàctiques que ja havia utilitzat ell abans. El seu eslògan “Comunismo o libertad” recorda molt el que va utilitzar Berlusconi quan va arribar al poder dient que hi havia una “amenaça comunista”, que no existia llavors ni existeix ara, malgrat que l’extrema dreta el segueixi referenciant. Ayuso i els seus estrategs han estat molt hàbils a l’hora de copiar coses que ja estaven inventades. Jo no crec que sigui una política d’extrema dreta; crec que fa populisme de dretes i que blanqueja l’extrema dreta. I l’onada reaccionària que recorre tot el món li juga a favor. S’està aprofitant del context per fer declaracions que fa alguns anys no s’haurien acceptat, però ara els consensos socials estan canviant.

Com analitzes el tractament mediàtic que se n’ha fet? Des d’alguns mitjans diguem-ne “progres” s’ha presentat Ayuso com un titella en mans dels seus assessors, com una boja o com una tonta.

En absolut ha estat la forma més intel·ligent de confrontar-la, i aquí hi ha molt de masclisme darrere. Quan va començar a adquirir popularitat, hi havia analistes que se’n reien, dient “Mira quines parides diu!”. Però estava tot molt ben pensat. Es va brandar la figura de la dona boja, quan no s’hauria fet aquest relat si Ayuso fos un home; se li hauria dit atrevit. Tot això també representa un dels errors clàssics de l’esquerra: la superioritat moral, el fet de menysprear l’enemic i pensar que només algú molt ignorant pot votar un polític populista de dretes o un d’extrema dreta.

I ara et faig la pregunta del milió: com s’hauria de cobrir l’extrema dreta des del periodisme? A l’Estat espanyol i a Catalunya, ja hi ha una força d’extrema dreta que té representació parlamentària. Què cal fer?

Aquesta és la pregunta, i crec que no hi ha una resposta única. Tanmateix, l’exemple d’Itàlia ens pot servir per saber què no s’ha de fer. Penso que, a Espanya, no se’ls hauria d’haver donat veu quan encara no eren al Parlament, i, ara que hi són i no podem ignorar-los, la clau és contextualitzar sempre i no difondre les barbaritats que diuen. Això vol dir no fer titulars dels seus discursos d’odi i no convertir els mitjans en una corretja de transmissió de les seves idees. A Catalunya, Vox va voler vincular la immigració dels temporers de Lleida amb la inseguretat, i recordo que aquest titular va circular. Si la qüestió es vol abordar periodísticament, com a mínim se li ha de donar la volta i explicar que Vox utilitza l’arribada de temporers per difondre el seu missatge racista.

Però fins i tot donar-li la volta implica situar el tema, i, en conseqüència, que els marcs de l’extrema dreta acabin penetrant en els mitjans de comunicació.

Certament. Això directament no hauria d’haver estat notícia. Quan tries un tema, ja estàs fent ideologia. De totes maneres, a vegades és molt fàcil fer aquest discurs des d’un mitjà que et dona total llibertat per decidir quines peces treballes i quin enfocament hi dones. Jo soc partidària de parlar de l’extrema dreta, i als llocs on he treballat i treballo sempre ho he reivindicat. Quan vaig començar a parlar de la Lega, no es deia –encara no es diu ara!– que era un partit d’extrema dreta i xenòfob. La qüestió, per mi, era explicar-ho en aquests termes. Cal dir les coses pel seu nom. I, sobretot, no comprar els seus marcs. L’exemple clàssic és el del debat sobre si la immigració és bona o dolenta.

“A l’extrema dreta li va molt bé que el periodisme tingui la necessitat de fer titulars cridaners”

Què vols dir?

Doncs que no es pot fer un debat sobre això. Només en la definició del debat, l’extrema dreta ja hi ha guanyat. I tant és que tu com a periodista defensis que sí que és bona o que hi hagi tertulians que també ho facin. Els drets humans són el límit. El feixisme, se l’ha de redirigir cap a discursos que el deixin al descobert. Jo penso que no se li ha de donar espai; però, si entrevistes als seus representants, ja sigui perquè tenen representació o perquè els teus caps t’hi obliguen, has d’estar molt ben preparada, tenir dades per desmuntar tots els seus discursos. I confrontar-los amb els temes que ells no volen tocar. On se senten forts? Quan parlen d’immigració, de seguretat, d’unitat de la pàtria, d’”ideologia de gènere”… és una tònica a escala mundial. Doncs pregunta-li per les pensions, per la sanitat, pels desnonaments, o per la pobresa energètica. No diuen que són part de la classe treballadora? Doncs, a la pràctica, què voldrien fer? Aquí, el relat se’ls desfà.

Salvant les distàncies, en algunes tertúlies a Catalunya i, en particular, a l’Estat espanyol, s’ha situat diverses vegades el debat al voltant dels drets del col·lectiu trans. Això passa en mitjans que no necessàriament compren els marcs de l’extrema dreta. És un exemple del que ara apuntaves?

Totalment. Això explica com ha evolucionat el feminisme, o, millor dit, com hi ha hagut feministes que no han volgut evolucionar. I això ha fet que coincidissin amb l’extrema dreta.

“La societat s’ha dretanitzat, i ara hi ha debats que fins fa poc no s’haurien permès”

Que fins i tot ha instrumentalitzat les postures de les feministes contràries a la llei trans. Al Congrés dels Diputats, Macarena Olona, de Vox, agraïa “les veus crítiques femenines” com les de Lucía Etxebarria, Paula Fraga o Lidia Falcón, que s’hi han oposat fèrriament.

Exactament. La societat s’ha dretanitzat, i ara hi ha debats que fins fa poc no s’haurien permès. Però no només a les tertúlies i no només en relació amb aquest tema. Si tu dediques la meitat d’un informatiu als robatoris o als okupes, contribueixes a generar una sensació d’inseguretat que és irreal. I en això els mitjans de comunicació hi tenen molta responsabilitat.

La precarietat del sector i la guerra pel clic també expliquen com s’informa de l’extrema dreta i com alguns mitjans tracten aquests actors?

Absolutament, aquesta és la base. Hi ha una crisi en el periodisme marcada per una precarietat absoluta. S’ha generat un matrimoni perfecte, perquè a l’extrema dreta li ha anat molt bé que el periodisme es trobi en la necessitat de fer titulars cada vegada més cridaners. Jo divideixo els mitjans en tres grups, depenent de com informen de l’extrema dreta: hi ha els que li compren el discurs perquè ideològicament hi estan d’acord; els que el difonen acríticament perquè pretenen ser neutrals o perquè això els dona clics, i un tercer grup, que són els que han fet una reflexió al voltant de l’extrema dreta i que treballen amb la voluntat de no engegantir-la. I em preocupen especialment els del segon grup.

Perquè no es pot ser neutre davant del feixisme.

Les idees d’odi no es poden tenir en compte, i aquí vaig al periodista i polític socialista italià, Giacomo Matteotti. Quan els feixistes van guanyar les eleccions, ell va documentar totes les atrocitats que cometien els seus esquadrons i denunciava que els mitjans no ho estiguessin difonent, perquè el feixisme sempre va de bracet del poder. Fa 100 anys que Matteotti va dir que el feixisme no és una opinió, sinó un crim, i que voler dialogar-hi era un error, perquè aquesta gent intenta dinamitar la democràcia des de dins. Des d’un punt de vista liberal, se’l va intentar contrarestar, amb la idea que cal ser tolerants, que se’ls ha de respectar. Total, l’any 1924, un esquadró feixista el va assassinar. El que Matteotti plantejava a principis del segle passat no forma part del passat; és superactual. L’historiador Carles Viñas diu que el feixisme “és la formulació de l’odi en doctrina política”, perquè implica violència, implica atemptar contra els drets humans. Llavors, costa d’entendre que hi hagi gent, fins i tot intel·lectuals que, des del progressisme, considerin que també se li ha de donar veu.

“Hi ha molt poca cultura antifeixista a les redaccions”

Per tant, aquesta suposada neutralitat, de facto, acaba legitimant l’extrema dreta?

Sí. S’han naturalitzat aquests discursos i s’ha banalitzat el feixisme. I això no només té a veure amb la precarietat del periodisme, sinó també amb la poca cultura antifeixista que hi ha a les redaccions.

Tal com explica Miquel Ramos al seu darrer llibre Antifascistas (Capitán Swing), a l’Estat espanyol, aquesta banalització es dona en paral·lel a un altre fenomen, que és l’estigmatització i la caricaturització de l’antifeixisme.

Aquí no queda gens clara una premissa bàsica: que ser demòcrata necessàriament vol dir ser antifeixista. Això no ho tenen clar representants de partits que es consideren d’esquerres, i moltes vegades parlen en termes d’extrems: “ni feixisme, ni comunisme”, “ni Vox, ni Podem”, “ni Vox, ni la CUP”, “ni Vox, ni Bildu”. Aquesta equiparació és molt greu. A Itàlia, la situació és substancialment diferent, en el sentit que la teoria és molt correcta i el cap d’Estat es defineix com a antifeixista; però, a la pràctica, hi ha formacions democràtiques que segueixen pactant amb el feixisme. Tanmateix, l’estereotip del jove encaputxat que crema un contenidor, tan típic a l’Estat espanyol, aquí no es reprodueix.

“Ser demòcrata necessàriament vol dir ser antifeixista”

Més enllà de les diferències que ubiques entre el feixisme espanyol i l’italià, quines són les similituds? Tenen un substrat comú?

Les estratègies que segueix l’extrema dreta a tot arreu tenen punts en comú –el racisme, la xenofòbia, la lluita contra la “ideologia de gènere”, etc.–, però també connecten amb el marc d’acció de la nova dreta populista, que intenta fer-se seus conceptes propis de la classe treballadora, fer veure que confronta les elits i situar un enemic, que poden ser els gitanos, els migrants o els catalans, depenent de cada context. Cada partit adequa els seus principis a l’entorn. Però el substrat és comú.

 

[Foto: ALBA SIDERA – font: http://www.elcritic.cat]