Archives des articles tagués Eça de Queiroz

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, entregou esta sexta-feira a medalha de mérito cultural ao maestro e compositor António Victorino d’Almeida por “uma vida dedicada à música”.

Segundo uma nota do Ministério da Cultura a propósito da distinção, esta sexta-feira em Elvas, onde o compositor estreou o ciclo de canções para a Europa “Gaudeamus”, a medalha foi atribuída “em reconhecimento do inestimável trabalho de uma vida dedicada à música e ao seu ensino e divulgação, tanto a nível nacional como internacional, difundindo pelo mundo a arte e a cultura portuguesas, num percurso de mais de 60 anos“.

António Victorino d’Almeida nasceu em Lisboa, em 1940, tendo iniciado os estudos musicais com Marina Dewander Gabriel e mais tarde estudado piano com Fernando Leitão, composição com Artur Santos e Joly Braga Santos, e História da Música com Maria Augusta Barbosa, segundo a biografia disponível no Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa.

Depois de concluir o curso de piano no Conservatório Nacional, com 19 valores, conseguiu uma bolsa do Instituto da Alta Cultura para prosseguir estudos em Viena, “onde aperfeiçoou a sua técnica de concertista com Wladislav Kedra e Dieter Weber“.

Dedicou-se ao estudo da composição com Karl Schiske, tendo obtido o diploma final do Curso de Composição com a máxima classificação por distinção e unanimidade, o que lhe garantiu o prémio do Ministério da Cultura da Áustria por ter sido o melhor aluno finalista de cada ano”, segundo a mesma biografia, que salienta que Victorino d’Almeida obteve depois uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar música contemporânea, música eletrónica e direção de orquestra.

O Ministério da Cultura recorda que, “para além de pianista, compositor e maestro, Victorino d’Almeida é ainda autor da adaptação para teatro musicado da obra ‘A Relíquia’, de Eça de Queirós, entre outras bandas sonoras que compôs para o grupo A Barraca (como ‘O Inspetor Geral’, ‘D. Maria, A Louca’, e ‘Menino de Sua Avó’, entre outras), tendo ainda realizado o filme ‘A Culpa’”.

Distinguido na Áustria e em França, António Victorino d’Almeida recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, atribuída pelo presidente da República Jorge Sampaio, em 2005.

 

[Fonte: http://www.dnoticias.pt]

 

O escritor ferrolán subliña o «momento dulcísimo» que vive a literatura lusa

Por RAMÓN LOUREIRO

O escritor, profesor e ensaísta Vicente Araguas acaba de traducir ao castelán a luminosa poesía de 17 autoras portuguesas contemporáneas, todas elas nadas no período comprendido entre os anos 1955 e 1987. E o froito do seu traballo acaba de chegar ás librerías no volume titulado Sombras de porcelana brava, publicado en edición bilingüe pola editorial Vaso Roto. A antoloxía de Araguas inclúe versos de María Quintans, Ana Luisa Amaral, Rosa Oliveira, María do Rosario Pedreira, María Joãou Cantinho, Ana Marques Gastãou, Ana Paula Inacio, Renata Correia Botelho, Rita Taborda, Inés Fonseca, Filipa Leal, Claudia R. Sampaio, Catarina Nunes de Almeida, Andreia C. Faria, Beatriz Hierro Lopes, Tatiana Faia e Sara F. Costa.

Di Araguas que con este libro veu saldar a súa débeda de lector coa lingua e a literatura portuguesas. Unha débeda que se remonta xa ao tempo no que, tras «descubrir a Eça de Queiroz, rendeuse «namorado ante o poderío dunha lingua irmá», dun idioma intimamente unido ao galego.

Conforman, estas dezasete poetas -apunta Vicente no texto introdutorio da antoloxía-, o espello do «momento dulcísimo que vive a poesía lusa en xeral e, no relativo ás mulleres, en particular».

O reflexo, en fin, de algo que rolda estreitamente o ámbito do prodixio, posto que como anota o propio Araguas «non é fácil que ningún país, (e) menos considerando a poboación de Portugal, pouco menos de dez millóns de habitantes, guinde semellante balance, en calidade e cantidade poética».

 

[Imaxe: CÉSAR TOIMIL – fonte: http://www.lavozdegalicia.es]

 

 

Comentário sobre o livro “O sensualismo alimentar em Portugal e no Brasil”, de Dante Costa

Adir Sodré, Cachos de seios [óleo sobre tela, 100 x 80 cm, 1980]

Escrito por DANIEL BRAZIL*

O sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) costuma encantar os leitores com seu texto fluente, saboroso, literário, onde subverte a ideia de que ensaios sociológicos devem ser pesados, acadêmicos, destituídos de qualquer concessão ao prazer. Casa Grande & Senzala, sua obra mais famosa, é cheia de descrições eróticas, engraçadas, musicais, apaixonadas. Freyre termina seu fabuloso ensaio falando de comida, e quase sentimos o cheiro das tapiocas, dos doces, dos tabuleiros das pretas quituteiras, dos “mocotós, vatapás, mingaus, pamonhas, canjicas, acaçás, abarás, arroz de coco, feijão de coco, angus, pão de ló de arroz, pão de ló de milho, rolete de cana, queimados, isto é, rebuçados, etc.”

Toda vez que arrumo as prateleiras e sopeso o alentado volume (uma edição comemorativa dos 80 anos do autor, de 1980, com poemas de Drummond, Bandeira e João Cabral, desenhos de Santa Rosa, Cícero Dias e Poty), releio alguns trechos, fruindo o delicioso estilo do pernambucano.

Há alguns anos ganhei de um amigo um opúsculo editado em 1952 pelo Ministério da Educação e Saúde do Brasil. O título: O sensualismo alimentar em Portugal e no Brasil. O autor, Dante Costa. Confesso que nunca tinha ouvido falar do escritor. Uma pequena pesquisa mostra que escreveu outros títulos relacionados à alimentação, além de livros de viagem e até um O Socialismo.

A tese de Costa é a de que os portugueses têm uma relação de amor com a comida, e os brasileiros, desdém. Lá pelas tantas cita Freyre, claro, mas seu método de pesquisa é baseado na literatura, não em andanças pelos tabuleiros das baianas. Começa por Camões, de onde pinça versos do canto IX dos Lusíadas:

Mil árvores estão ao céu subindo

Como pomos odoríferos e belos:

A laranjeira tem no fruto lindo

A cor que tinha Daphne nos cabelos.

Encontra-se no chão, que está caindo,

A cidreira c’os pesos amarelos;

Os formosos limões, ali cheirando

Estão virgíneas tetas imitando.”

E Camões também fala de “amoras, que o nome tem de amores” entre outras saliências que mostram a forte relação dos portugueses com a comida desde os primórdios da língua. Nosso Dante cita Fialho D’Almeida, Eça de Queiroz (“o caráter de uma raça pode ser deduzido simplesmente do seu método de assar a carne”) e Ramalho Ortigão (“torrentes de ovos de fio brotam de rochedos de nogada, cobertos de chalets de massa, sobre tanques de torrão de Alicante, em que se abeberam pombas de rebuçado e boizinhos de pão de ló com chavelhas de açúcar e entranhas de creme.”).

Para ele, escritor brasileiro só fala de fome, não de comida. “A pobreza mutila-lhe muito da alegria. Com as outras, vai-se a alegria de comer”. Segundo Dante Costa, as descrições de jantares e acepipes ”são raras na literatura, porque são raras na vida mediana do povo.” Citando uma conferência de Joaquim Ribeiro, diz que “a fome, no Brasil, começou com a civilização”.

O ensaio foi publicado em 1952. Dante escreveria isso hoje? Se vivesse numa grande cidade brasileira, provavelmente não, a menos que focasse sua análise nas populações mais periféricas. Mas se passeasse pelo sertão nordestino, comprovaria a validade de sua tese. O que não significa que nos rincões mais desprovidos de Portugal a miséria alimentar também não existisse. Afinal, Eça e seus colegas de ofício viviam na cidade, não nos campos. Onde o sexo é só reprodução, não há sensualidade. Onde o ato de comer é somente uma questão de sobrevivência, não há como ser uma refinada fonte de prazer.

Mas o ensaísta se depararia com um fenômeno impressionante, no Brasil contemporâneo: a postagem de fotos de comida nas redes sociais. Significaria uma nova postura do brasileiro em relação à comida? A relação sensual com a alimentação estaria dominada pelo aspecto visual, antes dos outros sentidos?

Depende de que brasileiro estamos falando. Além dos casos clínicos de compulsão ou transtorno alimentar – e existem muitos na internet! –, há um ainda pouco estudado exibicionismo, que não oculta um sentimento de afirmação do nível social através da comida.

Quem era pobre e passou à condição de remediado ostenta isso através do novo cardápio: “Veja o que eu estou comendo agora!”. A classe média, sempre aspirante ao luxo dos abastados, não perde a chance de, quando pode “comer fora”, ostentar a comilança nas redes. É quase impossível ir a um restaurante em São Paulo e não ver alguém na mesa ao lado fotografando o prato pedido. Desnecessário dizer que os verdadeiramente ricos e os verdadeiramente pobres, por motivos bem diversos, não praticam esse tipo de perversão.

Com a pandemia, este comportamento passou para o ambiente doméstico. Os pratos continuam sendo exibidos ad nauseam, agora com o acréscimo do “eu que fiz”. No entanto, quase sempre se nota o retrogosto de “eu posso”, ou “eu tenho”. Com poucas e honrosas exceções, o que se percebe não é um amor pelo alimento, mas pelo status que este confere ao indivíduo.

Pode-se dizer que a proliferação de programas culinários na TV, aberta ou fechada, na última década, contribuiu para o surgimento dessa nova seita de adoradores de comida. Mas não podemos esquecer o que Dante Costa percebeu, lá na década de 1950: ainda somos um país de famintos, onde esse tipo de exibicionismo não deixa de carregar um incômodo tempero de classe.

 

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

 

[Fonte: http://www.aterraeredonda.com.br]

bernardo-couto-castillo

Escrito por Paulo Soriano 

Não são poucos os críticos literários que, do alto de suas cátedras de ouro e marfim, incrustadas de suntuosos diamantes, torcem os excelsos narizes, sempre empinados, com o desprezo que lhes é natural, ao gênero fantástico. Evitam Allan Pöe e tremem de repulsa à simples menção do nome “Lovecraft”. Afinal, não perdem tempo com quinquilharias abjetas, herança funesta de um alemão ensandecido chamado Hoffmann.

Théophile Gautier, um grande mestre da literatura fantástica, dizia, com razão, que não há gênero inferior, senão escritores inábeis. Apesar disto, não se perdoam escritores habilíssimos — como Balzac ou Eça — quando, estorvando inutilmente a genialidade que Deus lhes concedeu, compõem obras tão vis e decadentes quanto O Elixir da Longa Vida ou O Defunto.

Não duvido que muitos desses literatos impolutos, inexpugnáveis bastiões da arte pura e verdadeira, não raras vezes desçam do áureo pedestal e, furtivamente, obedecendo a uma compulsão insana — comparável à do assassino de que logo falarei —, devorem com avidez um romance de Júlio VerneConan Doyle ou Stephen King. Mas o fazem às escondidas, com o coração aos pulos, como uma criança temerosa de ser apanhada em plena travessura noturna.

Eu conheci um assim. Era um daqueles cuja erudição caberia muito bem na célebre tirada do Abade Prévost. Não seria necessário que um autor compreendesse aquilo que escrevera, pois o meu bom crítico literário se encarregaria, prontamente, de explicar-lhe o que estava escrito.

Talvez por simples descuido, ou pela confiança de que nada lhe sucederia, o afamado professor, que raras vezes aparecia no Shopping Iguatemi, mantinha aberto, sobre a mesa, um volume de contos de Ray Bradbury e parecia lê-lo com bastante gosto.

Ao me ver, tomou um susto daqueles.

— Quem quer bem criticar, tem de ler de tudo. Do divino ao medíocre — disse-me ele, olhando com desprezo o livro que tinha na mão, como a se desculpar — ou justificar-se — por se dar à sôfrega leitura de uma quinquilharia abjeta (esta expressão, que volto a empregar, não é minha; devo-a ao impoluto crítico de que cuidamos, já falecido).

Aproveitei a breve ida do crítico ao toalete para dar no livro uma espiadela indiscreta, da qual não me arrependo. Afinal, o exemplar de “Uma Sombra Passou por aqui” (“The Illustrated Man”) fora negligentemente deixado, semiaberto, sobre a mesa. Verifiquei que a brochura, de tão amarrotada — faltava-lhe um naco da contracapa — já havia sido lida e compulsada repetidas vezes. Vi, também, que várias páginas estavam sublinhadas e rabiscadas. No rodapé, liam-se referências elogiosas, escritas a lápis e caneta, a uma ou outra passagem “surpreendente!” ou “brilhante!”.

Da mesma folha de papel onde acabara de prolatar uma sentença condenatória de adultério, um ilibado juiz — conta-nos Montaigne — extraiu um pedaço para enviar um bilhetinho indecoroso à esposa de um colega magistrado.

À conduta de meu crítico literário e à postura do juiz de Montaigne corresponde apenas um nome: hipocrisia.

Há quem, não satisfeito em sacrificar aquilo que realmente ama, esforça-se em elogiar o que abomina. E o faz, com renúncia aos ditames de sua própria natureza e aos apelos de seu coração, por puro medo de uma censura intelectual.

A um crítico literário intolerante nada é mais pavoroso do que uma reprimenda de um par seu, sobretudo se vinda de uma deidade na arte de criticar. No universo da crítica elevada e circunspecta, em cujos meandros não é dado ao pobre mortal penetrar, mantém-se, sempre viva, hachurada no espectro ideológico, uma faixa à qual convergem e se consolidam os pensamentos uniformes. Diante desse fóssil sacrossanto, desse formidável bezerro de ouro puro, todos devem curvar-se num humilde gesto de absoluta submissão. Lá, no Olimpo, voos altos e rasantes, que transbordem a faixa espectral, jamais são tolerados, e uma nota dissonante pode significar uma proscrição eterna. Sacrificam-se, pois, os tão íntimos e espontâneos pensamentos e se tolhem as tão frescas impressões pessoais em prol de uma uniformidade artificialmente forjada em sucessivas camadas homogêneas de ferro glacial, insistentemente martelado, malhado e amolgado, até que a farsa ecoe tão autêntica e maravilhosa quanto a mais cristalina verdade interior.

Não foi à toa, sobretudo no século XX, que o apelo à autoridade (magister dixit), paulatina e pacientemente convertido no triunfante apelo à popularidade (vox populis, vox dei), erigiu à categoria de gênio pintores que definitivamente não sabiam pintar e escritores que mal sabiam escrever. E eles estão tão nus quanto o rei de Hans Christian Andersen. Basta olhar ou ler. Mas… quem se atreve a dizê-lo? A elevação da mediocridade a patamares tão sublimes produziu, em seu rastro, o colateral efeito de mergulhar numa penumbra profunda, num ostracismo do qual é quase impossível escapar, os que, de fato, sabiam destramente pintar ou escrever. E esta é a verdadeira tragédia, o subproduto hediondo da hipocrisia.

Frisei o advérbio “quase” — este portador de glórias ou infortúnios, conforme o verbo que modifica e a expectativa de quem o emprega — por uma boa razão.

Não se resgatam talentos sepultados com a mesma facilidade com que se lhes são exumados os ossos ressequidos. Mas, ainda assim, o imponderável acontece.

Tratado com insolente desprezo pelos críticos literários de sua época, Bernardo Couto Castillo (1878 – 1901) teria permanecido na obscuridade sem fim se não fosse um tardio resgate impulsionado por escritores de gerações posteriores. Sim, escritores, seus iguais. A estes seguiram-se — nessa ordem — pesquisadores, editores e, finalmente, críticos modernos. Somente em tempos recentes, o enfant terrible logrou merecer estudos à altura de seu tão precoce quanto imenso talento. Antes disto, distinguiam-no não pela arte crua e visceral — então considerada imperfeita, rude e imatura —, mas por sua breve vida de estroinices e transgressões desenfreadas.

Sinto-me honrado por ser um dos primeiros — senão o primeiro — tradutor de Couto Castillo ao português. E o que traduzi dou com imenso prazer ao público galego.

Mergulhando magistral e profundamente na mente doentia de um homicida — um protótipo de um serial killer da moderna literatura de suspense —, o jovem Bernardo, seguindo as sendas do horror psicológico de Allan Poe, desbravou, no breve conto “Assassino?”, como um visionário, o caminho por onde, nos séculos XX e XXI, transitariam autores de magníficos thrillers, a exemplo de Robert BlochThomas Harris e Tess Gerritsen:

ASSASSINO?

Silvestre Abad, assassino, contava a seus amigos algumas de suas proezas. Seus olhos injetados assumiam diversas expressões, de acordo com a narrativa. Eis o que ele, com voz agitada, dizia:

— Somente uma vez, uma única vez, senti prazer em matar. E aconteceu tão rápido, tão brevemente, que às vezes acho que foi um sonho.

Eu era, então, muito jovem e nunca havia matado. Há dias que eu vagava em busca de trabalho, mendigando um pedaço de pão, arrastando-me, molhado de chuva, tostado pelo Sol, morto de fadiga e trazendo na alma uma destas raivas que inspiram tentações de destroçar tudo quanto se vê e esfaquear todos quanto passam. Caminhava pensando em toda negrura de minha sorte, no miserável que eu era. Feio, de uma fealdade horripilante. Desde menino, os homens apontavam para mim, rindo, e, para assustar as crianças, ameaçavam-nas com a minha presença. Uma mulher? Ignoro o que possa ser. Nem por dinheiro me quiseram. Eu lhes causo asco, provoco-lhes repugnância e, em todos os lugares, as mulheres me rechaçam.

Naquele dia, já era tarde. O campo se estendia ao meu redor: grande, imenso, cheio de árvores, de plantas e de espigas, exuberante de vida, proclamando a abundância e a riqueza. E eu morria de fome.

Não recordo o que aconteceu depois, nem para onde fui. Sim, creio que andei muito e parei, muito cansado, em uma rua da vila onde todos dormiam. Era uma rua estreita, silenciosa e iluminada pelo lampião pendente de um fio. Eu me sentia cansado, muito cansado e com fome. Aproximei-me do lampião, esperando o primeiro transeunte para assassiná-lo, para roubá-lo e comer alguma coisa.

Ninguém passava. Tudo estava em silêncio e eu não tinha forças para dar um passo. Apoiado na parede, contemplava a chama movediça do lampião e, para mim mesmo, murmurava maldições. Os outros tinham casa, comida boa, calor nas noites frias. Tinham família, esposa, filhos. Eu não comia há três dias, não tinha no mundo mãe, irmãos ou amigos. Ao entrar nos lugarejos, os cães se lançavam contra mim para morder-me e as crianças fugiam quando me viam. A mim faltava-me tudo, eu nunca conhecera um prazer, e minhas mãos nunca tinham tocado um objeto bonito.

Chegou a mim, não sei de onde, uma música que se escutava com recolhimento, tal como eu ouvia, quando era menino, durante o pouco tempo em que tive mãe, o órgão da igreja quando se elevava a hóstia. Eu escutava, escutava deliciado… Pensem: deve ser tão lindo ter nas noites uma mulher que faça música, enquanto se descansa numa boa poltrona ao abrigo do frio! E eu continuava escutando e pensava em mil coisas, esquecendo a fome e os desejos criminosos.

Uma porta se abriu. Vi avançar um pequeno vulto que, quando se aproximou de mim, nele reconheci uma menininha. Levava nas mãos um cesto e avançava lentamente, sem medo e, inocentemente, sem qualquer noção do perigo.

A luz do lampião incidia sobre o seu pequeno, muito branco, muito suave e muito fino pescoço. Eu nunca tivera em minhas mãos um destes pequerruchos que fazem a delícia dos outros, dos afortunados, dos bem-aventurados deste mundo.

Meus pés me conduziram a ela instintivamente. Virei o rosto para a criança e quis sorrir; mas, quando eu sorrio, o que resulta é um gesto que mais ainda repugnante torna a minha fealdade. Compreendi isto, mas, apesar de meus esforços, não consegui afastar-me. Sentia o desejo de tocá-la, de sentir o contato de seus bracinhos, de tê-la em minhas mãos por um momento, como se fosse minha. Levantei-a em meus braços. Ela quis gritar, mas o espanto impediu o seu grito. Trouxe-a para perto do lampião. Como era linda! Como era branca, branca como a luz, como as flores. Tinha os cabelos dourados e deixava adivinhar um sorriso, como dever ser o dos anjos. Em seu terror, era bela, e seus olhos grandes, muito abertos, miravam-me assustados. Depois, levei-a aos meus lábios, mas as pontas crispadas e sujas de minhas barbas machucaram o seu rosto. Então, ela gritou, enquanto golpeava o meu ventre com seus pés.

Eu ia deixá-la, deixá-la, ficando triste como nunca!

Jamais poderia acariciar uma criança. Ia deixá-la, mas a luz do lampião incidiu em cheio sobre o seu pescoço macio e fino. Experimentei, então, o afã de estreitá-la, de tocá-la e sentir mais uma vez o contato de sua suavíssima pele. Desde então, tenho sentido muitos desejos, mil vezes tenho querido apoderar-me de alguma coisa; mas nunca a tentação foi tão forte, tão imperiosa, tão irresistível quanto naquele dia. Não conseguindo dominar-me, cedi e a acariciei, sentindo um estranho prazer ao passar, várias vezes, minha mão áspera e calosa por seu pescoço liso como uma luva. Ela estava muda de pavor. Seus olhinhos se abriam cada vez mais, cresciam, e me olhavam aterrorizados. Mas eu não podia, era-me impossível decidir por deixá-la, então continuava a passar minha mão sobre a sua pele. Depois, apertei um pouco, não procurando machucar, mas apenas experimentar em meus dedos a morna maciez que nunca havia sentido. Apertava e afrouxava, sentindo um inefável prazer.

A música cessou. Ouvi o ruído de uma porta se abrindo e tive medo — ou melhor, senti ter que deixar a menininha. Aquele pequeno pescoço branco! Aquela suavidade sob meus dedos. Aquele prazer! Ter de deixá-los para fugir, para continuar a caminhada, o mendigar e nada receber… Mas, ao mesmo tempo, continuava apertando, continuava apertando, continuava apertando a pele e sentindo contra o meu peito os arrebatados golpes de seu coração… Os passos se aproximavam. Estavam prestes a surpreender-me, a me encarcerarem para sempre em uma prisão sem que eu pudesse voltar a sentir aquele gozo! Minha mão não mais se recrearia ao contato de um corpo suave e macio.

Continuei a pressionar com ansiedade, querendo, ao comprimir pela última vez, obter toda a delícia que pudesse sentir apertando… Senti seus músculos, uma calosidade e, como os passos já estavam muito perto de mim, apertei com todas as minhas forças, desejando sentir sua última palpitação, seu último estremecimento, desejando arrancar-lhe tantos outros tremores de que dela poderia desfrutar, enquanto nunca, nunca poderia sequer acariciá-la.

E senti este último estremecimento. Senti que o frêmito percorreu todo o seu corpo, ao passo em que o seu coração parava de bater. O pescoço parecia um trapo. Esfriou… Uma mão me agarrou. Mas eu, com um golpe seco, a repeli, desvencilhando-me para lançar fora a menina e fugir.

Ainda hoje sinto prazer quando sonho e creio que estou a apertar, a comprimir-afrouxar. Esta foi a única delícia de minha vida! Quando vejo uma criança, sinto o impulso de arrojar-me sobre ela e de roubá-la para levá-la sempre comigo; e apertar o seu pescoço, afundar nele os meus dedos. Sim — continuou, enquanto levava um copo aos lábios — , foi uma grande delícia… Apertar! Afundar os dedos! Sentir aquela maciez estremecer. Agitar-se em estremecimentos tão pequenos como o corpo imóvel e os dedos apertando sempre, sempre!

Por volta dos 18 anos, Couto Castillo publicou seu único livro de contos, Asfódelos. É nele que se engasta a narrativa que acabamos de ler. Aproximadamente outras 60 saíram em revistas e jornais mexicanos. É uma obra extensa para um escritor que, como um bom decadentista e amante dos paraísos artificiais, era dado aos excessos dos narcóticos e do álcool, e que morreu solitário, mal saído da adolescência, num manicômio da Cidade do México.

Contava apenas 22 anos de idade.

[Fonte: http://www.pgl.gal]

 

 

La literatura catalana és la convidada a la 21a edició del Correntes d’Escritas, festival literari que se celebra a Póvoa de Barzim (Portugal) del 15 al 23 de febrer. Històricament centrat en la literatura portuguesa i castellana, enguany ha decidit fer un pas més enllà i programar un focus de literatura catalana, en una participació coordinada per l’Institut Ramon Llull. En parlem amb Luís Diamantino, vice-president de la Câmara Municipal da Póvoa de Varzim i un dels responsables de l’esdeveniment.

-Correntes d’Escritas va nèixer l’any 2000 a Povoa de Varzim, amb motiu del centenari de la mort de José Maria Eça de Queiroz, nascut a la ciutat.

Eça de Queiroz va ser un dels escriptors portuguesos més grans, traduït a moltes llengües. Quan vam crear l’esdeveniment, la idea inicial era la de promoure la lectura, i per això vam aprofitar les sinergies amb les escoles, la comunitat i les biblioteques del municipi. Sempre hem cregut que un poble que llegeix és un poble lluminós, amb un futur molt més feliç. Correntes d’Escritas va néixer per promoure la literatura portuguesa, però, també, per promoure culturalment la ciutat.

–El festival s’ha consolidat com un dels més importants de Portugal. S’imaginaven que arribarien a celebrar vint edicions?

De cap manera, ni ho podíem somiar! Amb el temps, la trobada d’escriptors de tradició ibèrica s’ha anat fent gran, però Póvoa de Varzim també organitza un festiva de música clàssica molt rellevant a nivell nacional, que ja ha traspassat els 40 anys d’existència.

–La ciutat entoma projectes de llarg recorregut, lluny de l’anècdota.

Tot el que fem ho fem amb vocació de perdurar [riu]. Correntes d’Escritas, com diu el president de la República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa –que ja ha vingut tres vegades al certamen–, és el més gran trobada d’escriptors que hi ha a Portugal. Una bona prova és que tothom vol tornar-hi: els escriptors, però també els lectors. En aquests vint anys hi han passat molts milers de lectors.

–El festival sempre ha valorat molt la participació dels lectors.

Sempre hem tingut clar que, en aquesta trobada, els lectors participen. Però, també, que tenen veu i poden participar i aportar coses. Els escriptors no van a les escoles, sinó que són les escoles les qui vénen a Correntes d’Escritas.

–És potser aquest factor el que explica l’èxit del festival? Hi assisteixen cada any milers de persones i, normalment, la literatura no congrega masses.

I fins i tot compren! [riu] Tenim lectors que venen del Brasil, de Madeira, etc., que es queden a la ciutat durant tota una setmana. Correntes d’Escritas és una gran oportunitat de lligar els autors amb els seus lectors. Per a nosaltres, tots són iguals i això explica, en part, l’èxit que tenim.

–Hi ha una gran complicitat entre organització i escriptors, però també entre els convidats i el municipi.

Póvoa de Varzim, que és una ciutat mitjana de Portugal, viu amb molta intensitat tota la programació, que és concebuda com una plataforma del llibre, en un sentit ampli. El llibre, mentre dura el festival, aquí agafa una dimensió única. Tenim molts traductors, molts editors, lectors i autors: tota una plèiade, un conjunt estructurat, per promoure el llibre.

–Creu que el festival pot créixer més o ja ha tocat sostre?

Volem seguir creixent, i bona prova d’això és que estem col·laborant amb Barcelona i amb l’Institut Ramon Llull. Volem estrènyer encara més aquests llaços, obrir nous camins i fer que la literatura catalana sigui protagonista d’aquesta trobada. Per a nosaltres, és motiu d’orgull estar relacionats amb Barcelona, un gran punt irradiador de cultura. Això només ens pot fer créixer i, des d’aquí, us ho vull agrair.

–A Portugal es coneix la literatura catalana?

No suficientment. Volem reforçar el coneixement de la literatura catalana i que la gent cada vegada la identifiqui més. I volem que aquesta presència al Correntes d’Escritas sigui una porta d’entrada.

–Al llarg d’aquests vint anys, pel festival hi han passat autors com Mia Couto, Ana Luísa Amaral, Luis Sepúlveda, Rui Zink o Lídia Jorge, entre molts d’altres. Quin és el moment més especial que recorda?

Hi ha molts moment màgics, al llarg dels anys. Alguns que commouen, sobretot quan veus tanta gent que assisteix a un acte literari. Hem arribat a omplir teatres amb 700 persones, per exemple. I també valoro molt que aquest festival dona una llibertat il·limitada, tothom pot dir el que pensa o sent. Només hi ha la limitació de la pròpia imaginació.

Una entrevista d’Esteve Plantada @eplantada

[Font: http://www.llull.cat]