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Essa (falsa) polêmica com as latas de leite Moça revela certa dose de ignorância.

Escrito por Eduardo Affonso

Fui a Cuba nos anos 80 e, além dos casarões em ruínas, dos automóveis-zumbis e dos mojitos sorvidos no fim da tarde, vendo o Caribe esborrachar-se no Malecón, o que mais me impressionava eram as prateleiras vazias.

Armazéns, lojas, quiosques, biroscas, tudo tinha um ar desolador, pós-apocalíptico. Simplesmente não havia produtos à venda.

O país atravessava o que os cubanos chamavam de “período especial”, uma espécie de arrocho do aperto do ajuste da contingência da escassez da penúria – provocado, claro, pelo embargo americano etc etc etc.

Cada família tinha uma caderneta de produtos racionados (a “libreta”). Nela estava consignada a cota que cabia a cada um naquele paraíso socialista. Algo como meio quilo de frango por mês, se frango houvesse. E não havia. Quando aparecia algum produto (qualquer que fosse), formavam-se filas enormes – porque ninguém sabia quando outro caminhão de banana, por exemplo, iria dar as caras por Havana.

Num dos mercados vazios encontrei a penúltima coisa que imaginaria encontrar (a última seria Coca Cola). Era leite condensado.

Latas e mais latas de leite condensado, caprichosamente espaçadas nas prateleiras.

Como assim, faltava tudo (sabonete, pasta de dente, papel higiênico) e tinha leite condensado? Não havia como lavar as mãos antes do almoço, não havia o que almoçar, não havia como escovar os dentes depois do almoço ou como limpar o traseiro após a inexistente digestão e excreção (ok, estou exagerando um pouco, mas era por aí) – e o pudim de leite moça estava garantido?

Num encontro clandestino com cubanos (isso eu conto outro dia), comentei sobre esse paradoxo. E todos ficaram olhando-me com cara de tacho. Eles é que não entendiam o fato de eu não entender. Afinal, leite condensado servia para fazer… leite, não sobremesa.

Eu não sabia disso.

Eu sabia que leite em pó servia para fazer leite. Que glândulas mamárias serviam par fazer leite. Mas não imaginava que leite condensado também tivesse esses dons.

Pois o leite condensado tem esse nome porque é leite e está condensado. Devidamente diluído, vira leite expandido – vulgo leite.

Achei um desperdício usar uma das sete maravilhas da natureza (as demais são a goiabada cascão, a água de coco, o pão de queijo e outras que não vêm ao caso agora) para fazer um reles leite, desses que se compram na garrafa, no saco ou na caixinha.

Quem já foi a Cuba entende que a utilidade do leite condensado vai muito além do café da manhã presidencial ou da sobremesa de domingo. Aquilo é alimento não perecível (ou quase imperecível), fácil de estocar. Alimento, não guloseima.

Por isso é comprado para uso das tropas, ou para populações carentes.

Outros itens das listinha de compras do Executivo podem ser motivo de chacota (refrigerante, chantili, amendoim torrado, vinho). Mas o leite condensado, não, senhores.

Quem já se embrenhou na selva ou visitou Cuba (as situações são bem similares) não embarca nessa polêmica.

 

[Fonte: tianeysa.wordpress.com]

A alma das palavras

Escrito por Eduardo Affonso

Sou aquele sujeito que lê dicionário como quem lê romance. Cada verbete é um personagem, uma subtrama.

Sou aquele cara estranho que não acredita na alma da Bíblia, mas nas almas do Aurélio, do Michaelis, do Houaiss.

Porque a estrutura de arame e madeira das esculturas de gesso, o elemento de sustentação em torno do qual se modelam as de barro é alma.

A parte correspondente à altura dos perfis metálicos é alma.

A peça de couro colocada entre a palmilha e a sola do calçado para reforçá-lo é alma.

A parte de um estopim que contém o núcleo de explosivo é alma.

Nos dicionários estão não somente os poemas que esperam para ser escritos, mas as palavras no palco onde podem ser outras, ser tantas.

Viúva é a última linha de um parágrafo impressa sozinha na parte superior de uma página. A primeira linha de um parágrafo impressa sozinha na parte inferior de uma página é uma linha órfã.

Adoçar é o ato de nivelar, aplainar, desbastar saliências ou alisar e aplainar madeiras.

Cada uma das folhas de uma dobradiça é uma asa.

O apêndice em forma de argola, ou semicircular, de certos utensílios, que serve para segurá-los é asa.

São asas as duas pétalas laterais da flor das papilionáceas; o apêndice sedoso de certas sementes que permite ao vento disseminá-las.

É asa a ala lateral de um prédio, a nave lateral de uma igreja.

A viga onde engatam-se os degraus das escadas é banzo. A peça em pedra ou madeira, em balanço, que dá sustentação aos beirais e ao piso de sacadas ou balcões é um cachorro.

A pequena peça de madeira, em forma de cunha que evita o deslocamento das vigas ou dos sarrafos é uma espera. Num encaixe, a peça que traz uma saliência é macho. A que traz uma reentrância é fêmea.

No dicionário cada palavra –  macho, fêmea, cachorro, banzo, asa, viúva, órfã – tem uma multidão de almas à sua espera.

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Inclusive

Escrito por Eduardo Affonso

Muita gente criticou um vídeo sobre linguagem inclusiva, com as novas regras para a neutralização do idioma.

Machistas estruturais, homofóbicos crônicos, transfóbicos empedernidos, todos profundos desconhecedores do mistérios da linguagem e da neurolinguística, sentiriam que estariam sendo privados desse instrumento de opressão que é a língua de Camões, Vieira, Machado, Dilma e Carluxo.

Serenados os ânimos, apaziguados os espíritos, todos já devem ter compreendido que a linguagem neutra só trará benefícios, pondo fim à violência lexical e à polarização verbal.

Quem antes passava pela Glória, pela Avenida Atlântica e pela Praça do Ó, abria o vidro do carro e gritava “Traveco filho da puta!”, agora poderá abrir o vidro do carro e gritar “Traveque filhe de pute” – e isso não constituirá mais nenhuma ofensa, porque todo o caráter insultuoso terá sido neutralizado. Em vez de lhe erguer o dedo médio, as profissionais do sexo acenarão felizes, como misses na passarela, sentindo-se acolhidas na sua diversidade.

Quem poderá se sentir agredido/a/e ao ser chamado/a/e de “arrombade”? De “canalhe”, “escrote” ou “babaque”?  Toda a carga negativa, advinda do caráter sexista da língua, terá sido zerada, reduzida a pó.

Ao fim das manifestações contra e pró Freixo ou Crivella, Lula ou Bolsonaro, Fefito ou Giromini, a turma de vermelho e a turma de amarelo poderão se reunir para um chope na orla ou uma catuaba selvagem na Praça São Salvador, se tratando cordial e neutralmente de “petiste corrupte” e “bolsomínie fasciste”. Não haverá briga nem na hora de rachar a conta, porque o “garçom de merde” admitirá que houve um pequeno equívoco naqueles dois zeros a mais na quantidade de pedidos, pedirá desculpas em nome daquele “corne do caixa” e todos cantarão, com cantos e contracantos, o hino nacional e a internacional socialista.

Chame-o de “escrote”, e o guardinha não multará seu carro estacionado irregularmente.

Diga que ele é um “babaque”, e o segurança te deixará entrar (“Mas só desta vez, hein?”) sem máscara no shopping.

Explique que não curte “gorde”, e a moça não ficará magoada – e tampouco você se sentirá humilhado se ela fizer comentários sobre seu “mau hálite”, “falta de pegade” e “pau pequene”.

Por tudo isso, seu idiote, volte lá no vídeo e retire tudo o que disse. Graças àquele troca-troca de vogais, teremos finalmente a serenidade, o entendimento e o respeito de que precisamos para conviver civilizadamente. Tá esperando o quê, caralhe?

 #paz

 

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Étimo, que vem do Grego ‘etymon’, “sentido verdadeiro”

Escrito por Eduardo Affonso

Ele desaba para um lado, com o suor escorrendo na testa.
Ela toma fôlego, e murmura, ainda arfante.

– Uau! Você foi formidável…

– Sério? Tão ruim assim?

– Não. Foi formidável. Sensacional.

– Ah, tá. É que “formidável” vem do latim “formidabilis, e significa “o que causa medo, terrível”.

– É? Não sabia. O que eu quis dizer é que você foi bárbaro.

– Desculpe. Não quis ser grosseiro com você.

– Mas não foi!

– Você disse que fui bárbaro. E bárbaro, do grego “barbaros”, quer dizer “estrangeiro, estranho, ignorante”.

– Imagina! Eu te achei ótimo. Um homem com pegada, porém intelectualmente sofisticado…

– Como assim? Eu não sou falso!

– Não falei que você é falso!

– Falou. Disse que sou sofisticado, e “sofisticado” vem de “sophisticare”, que é o mesmo que “alterar, adulterar, modificar com má intenção”, e de onde, inclusive, vem a palavra “sofisma”.

– Não! Eu quis dizer é que você é um homem ao mesmo tempo viril e fino (no bom sentido, claro!), do tipo que a gente não pode deixar escapar.

– Mas eu não estou usando capa.

– Hã?

– “Escapar” vem do latim “excappare”, de “ex” (movimento para fora) + “cappa” (capa) e o sufixo “are” (que indica ser um verbo). Ou seja, escapar é livrar-se da capa. A menos que você se refira à camisinha…

– Não, não. Já estou até arrependida de ter pedido para você pegar essa famigerada dessa camisinha.

– Mas famigerada – que é uma palavra latina, composta de “fama” + “gerere” – quer dizer algo afamado, que goza de boa reputação. E saiba que achei você muito esquisita

– Esquisita? Eu? (Cata as roupas no chão). Tô fora!

~ Espere! “Esquisito” tem origem no latim “exquisitus“, “procurado com atenção”, portanto, “de escolha especial, coisa muito boa” e… (ela bate a porta). Droga, de novo!

~

Moral da história: nunca vá para a cama com um etimologista. Ele sempre dará um jeito de explicar a origem das palavras – e acaba por complicar tudo. Aliás, “complicar” e “explicar” têm a mesma raiz, do latim “plicare” (ato de dobrar um papel), com os prefixos “com” (em companhia de) ou “ex”(para fora de), e é de onde também vieram suplicar, duplicar, explicitar e até de “cúmplice”, no sentido de… ok, deixa pra lá.

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

 

 

Superlativinho, diminutivíssimo

Escrito por Eduardo Affonso

Tem coisas que só a língua portuguesa faz por você.
Ou só a língua portuguesa do Brasil, eu acho.

O diminutivo não ser pouco, mas muito.

Ficar pertinho é ficar muito perto.
Ficar quietinho é ficar muito quieto.

O diminutivo não ser só pra diminuir, mas pra tornar intenso.

O superlativo ser mais que um grau mais elevado: tornar-se um grau épico.

Na concessionária, há o carro novo, o seminovo e o seminovíssimo.

Em que outro idioma um carro conseguiria ser meio novo – logo, meio velho – (o prefixo latino “semi” quer dizer “metade”), e, ainda assim, novíssimo?

O seminovíssimo é a metade que alcança a plenitude. O meio cheio e meio vazio que transborda.  

Nas imobiliárias, há o imóvel “na quadra da praia”. Isso quer dizer que pelo menos um dos lados da quadra é de frente para o mar.

Um apartamento “na quadra da praia” nunca é de frente para o mar, ou seria “apartamento de frente para o mar”.

Há apartamentos, entretanto, que não chegam a estar cara a cara com o oceano, mas tampouco estão num lugar qualquer. Eles estão na quadríssima.

A quadríssima não é uma quadra como as outras. É “a” quadra – seja isso lá o que for.

Ela pertence à variação linguística falada no Rio de Janeiro.  Não há notícia de quadríssimas em Belo Horizonte – até porque lá seria quarteirãozíssimo, e belo-horizontino algum conseguiria pronunciar isso.

Nos anúncios classificados, oferecem-se os serviços das profissionais do gozo. Há as ninfetas, as ninfetas completas, as ninfetas completinhas e as ninfetas completíssimas.

O que faltará às ninfetas básicas para atingir a completude? Como o diminutivo de intensidade conseguirá completar o já completo? E, uma vez completas e completinhas, qual será o plus, o dom, o dote que as levará ao grau superlativo de “completíssima”?

Tem coisas que só a língua portuguesa faz por você.
Ou só a publicidade, eu acho.

 

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Enquanto isso, no cafezinho de uma corte suprema…

Escrito por Eduardo Affonso

– Excelência…

– Bom dia, ilustríssimo.

– Um cafezinho, por favor. Vossa senhoria soltou hoje o preso que eu mandei prender ontem?

– Sim, vossa magnificência, mandei. Dois, por favor.

– Alicerçado em que jurisprudência, eminência? O meu sem açúcar.

– Adoçante para mim. Eu me basto jurisprudencialmente, vossa reverendíssima.

– Vossa santidade acha mesmo que pode fazer isso? Me vê um biscoitinho desses de nata.

– Posso, e não há nada que vossa alteza possa fazer. Um amanteigado pra mim.

– Vossa majestade imperial sabe que seu comportamento é teratológico – mais um, por favor – e exordialmente, incabível?

– Uma delícia esse amanteigado! Embrulha um pacotinho para eu levar para minha digníssima consorte. Vossa mercê está equivocado,

– Vossa graça exorbita. Um pacote para mim também, e pode misturar os de nata com uns de chocolate.

– Vossa alteza senhoril, summum jus, summa injuria. Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus.

– Salus populi suprema lex esto, mas vossa onipotência se acha o próprio onipotente!

– Ora ora, vejam quem fala! O egrégio meritíssimo que quer para si todos os méritos!

– Passar bem, insigne sumidade!

– Passar bem, supremo e excelso indigente togado!

(Os dois, em uníssono)

–  Pendura a conta, Onofre!

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Escrito por Eduardo Affonso

O problema da inteligência artificial, pelo menos dessa que está ao meu alcance, é que ela é burra.

Pesquisei outro dia sobre aparelhos de celular. O meu estava do meio-dia pra tarde há algum tempo. Mal se aguentava por 12 horas, falhava nos momentos críticos e já não tinha memória para nada. Igualzinho ao dono.

Comparei modelos, escolhi um que me atendia e estava a preço promocional, comprei onlaine e fui buscar na loja física.  Pois desde então o FB e todos os portais de notícia me bombardeiam com anúncios do modelo de celular que agora tenho em mãos.

Como é que pode a internet ser tão inteligente e deduzir que eu estava procurando telefone (afinal, pesquisei no gúgol) e tão burra a ponto de não ter percebido que efetuei a compra?

Uma inteligência artificial que fosse pelo menos esforçada me perguntaria:

– E aí, Edu, tudo joia? Comprou o samsuguezinho?

(Uma inteligência artificial mediana trataria de ser amigável – daí me chamar de Edu, não de sr. Affonso – e teria coletado informações básicas a meu respeito – o que explicaria o “tudo joia”, expressão que, extinta em 1970, só sobrevive em Minas).

– Oi, I.A., tá boa, fia? Comprei, sim. Popará com os anúncios.

– Que bom. Vi que você comprou um aparelho vermelho. Era isso mesmo? Não foi errado e prefere comprar outro, de uma cor mais compatível com sua faixa etária? Azul ou cinza, por exemplo?

– Comprei sem me dar conta de que o da promoção era vermelho, mas não tenho preconceito de cor. E, antes que você inunde todas as páginas da internet com modelos de capas de celular, informo que já comprei uma. Preta.

– Joia. Vou voltar com as propagandas de camisas coloridas e pizza, então.

– Não, pelamordideus. Só pesquisei camisas coloridas para ilustrar um texto – jamais compraria aquilo. E a pizza foi um ato isolado, num momento de fraqueza. Era uma gigante por preço de média, e demorou tanto pra eu conseguir dar cabo dela que mais uns dias ela podia pedir usucapião da prateleira de baixo da geladeira.

– Beleza. Precisando de alguma coisa, estou por aqui. É só digitar no gúgol que eu apareço, tá?

– Obrigado, I.A.

– Pode me chamar de Dasdores.

– Vaicundeus, Dasdores.

Será tão difícil desenvolver um aplicativo assim? Que identificasse meu dialeto, minhas necessidades, que usasse um nome personalizado levando em conta meu bequigráunde cultural? Que me ajudasse a encontrar o que me falta, mas entendesse que ninguém precisa continuar correndo atrás da condução depois que já a pegou? Que tivesse realmente o desejo de facilitar minha vida?

“A emulação máxima da inteligência humana (que também serve ao Desejo) seria a soma do Desejo com a Consciência. Só não estou seguro de que isso seja… desejável. Uma I.A. desejante poderia tornar reais os pesadelos da ficção científica e querer dominar o mundo.” (F.D.)

Eu não me importaria que a I.A, quer dizer, a Dasdores, dominasse o mundo. Desde que parasse de encher minhas telas com celulares da Samsung. Ainda mais esses maiores, melhores e mais baratos que o que comprei. E, ainda por cima, azuis.

 

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Escrito por Eduardo Affonso

“Despiorar” existe.

É verbo transitivo e intransitivo, e significa tornar ou ficar menos mau (ou menos mal). É o mesmo que melhorar.

“Desmelhorar” também existe.

É transitivo quando no sentido de impedir o melhoramento, intransitivo na acepção de tornar pior.

Quando uma coisa piora menos do que vinha piorando, há quem diga que começou a melhorar. E quem prefira dizer que está despiorando. Questão de copo meio cheio ou meio vazio.

Existe também “desconcordar”, que é quando você apenas não concorda, sem, entretanto, discordar. Lamentavelmente, “desdiscordar” não existe – ou você dá o braço a torcer ou fica quieto.

O antônimo de “amor” pode não ser ódio ou indiferença, mas “desamor”. Desamor é uma indiferença magoada, levemente ressentida, sem ânimo para ser ódio. Não chega a ser desprezo; é só uma desafeição. Um destesão.

É para isso que o prefixo “des” existe: para para indicar ação contrária. Mentir, desmentir. Fazer, desfazer. Carregar, descarregar. É bonito usá-lo porque (filósofos me ajudem nesta hora!) é uma negação que traz a afirmação dentro de si.

Desconhecer não é o mesmo que ignorar. Desiludir não é o mesmo que frustrar.

Nos dicionários até pode ser. Mas isso só para quem acredita em sinônimos.

Sinônimo quer dizer semelhante, não idêntico.

Mas nada é idêntico. “Só nós somos iguais a nós próprios”, escreveu o Fernando Pessoa, que era tão dessemelhante de si mesmo a ponto de se estilhaçar em tantos eus.

Taí outra palavra linda: “dessemelhante”. Tão bonita quanto “díspar” (sem par), e a gente a usa tão pouco.

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

Esse era o Gregório de Matos, mas lá no século 17, quando o barroco pedia mais e mais antíteses, dualidades, contradições e paradoxos (como uma palavra trazer dentro da barriga aquela que pretendia matar).

Para entender “despiora”, pode-se também lembrar que “desinfeliz” não é alegre: é mais que infeliz. “Desinquieto” é bem mais que inquieto, não o inerte.

“Despiora” – intuo –  pode ser uma melhora a contragosto. Uma melhora indigna da sua etimologia (“melhor” quer dizer “mais forte”, o que é diferente de “menos fraco”).

Essa talvez não seja uma questão linguística, mas filosófica. Ou só acessível por meio da poesia.

Sugiro começar com Camões:

“Amor com brandas mostras aparece:
Tudo possível faz, tudo assegura;
Mas logo no melhor desaparece.

Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem, que desfalece,
Um bem aventurar, que sempre dura!“

Ou, sem as dicotomias do aparece / desaparece, bem aventurar e desventura,  com Aldir Blanc: “Pior que a morte é desviver”.

Quando começar a desmelhorar, a gente retoma o tema.

 

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Catequese

Escrito por Eduardo Affonso

O ser humano tem uma vocação atávica para a catequese. Seja por bem, tentando convencer com argumentos, seja batendo de porta em porta no domingo de manhã, domingo após domingo, até vencer pela exaustão; seja desovando clichês cada vez que a oportunidade se apresenta.

O paraíso há de ser um mundo em que não haja escolhas – logo, não existam erros, inexistam perdas. Ninguém há de se questionar sobre ter-se casado com a pessoa errada, porque não haveria outro cônjuge possível. Nem outra profissão, outro modelo de celular, outra cor de vestido. O paraíso não tem bifurcação – logo, dispensa as placas de retorno.

A opção do outro é sempre um questionamento à nossa. Eu vou à Bola Preta, você vai ao Boitatá. E se o Boitatá bombar e na Bola Preta rolar tiro, porrada e bomba? Era melhor que houvesse um só bloco naquele dia, e só fosse permitida uma fantasia, para eu não me sentir chinfrim demais ou demasiadamente sem noção. Era preciso que não houvesse, no mundo, o diabo da escolha, a besta fera da comparação.

Só isso explica a compulsão de tanta gente com a conversão alheia. Não para que o outro fique melhor, mas para que o proselitista se sinta menos mal com suas escolhas.

Não faltam heterossexuais empenhados em salvar gays e lésbicas. Afinal, gays não sabem o que estão perdendo, e as lésbicas apenas não encontraram o homem certo, certo?  Na outra ponta, também não faltam gays e lésbicas achando que não há heterossexual, mas gay mal cantado ou mulher que ainda não experimentou transar com quem sabe exatamente onde ficam e como funcionam certas partes da anatomia. Ou seja, todo mundo é hétero, só precisa vencer o trauma – e todo mundo é homo, só falta um empurrãozinho.

Com os ateus não seria diferente. O ateu sabe que Deus existe, e está apenas fazendo charme. É claro que Deus existe! Olha o pôr do sol, o sorriso de uma criança, o milagre de uma flor! Como é que pode um ateu ser escritor, cantor, fotógrafo, se todos os dons são dádivas divinas?  Não faz sentido um ateu gente boa (do tipo que dá bom dia, paga imposto, joga lixo na lixeira) porque os religiosos (assim como os esquerdistas) detêm o monopólio da bondade. Fora de Deus só há o satanismo, as seitas com bebês sacrificados e as laives sertanejas.

A prova disso – todo mundo sabe – é que não há ateus em avião caindo.  Podem reparar: no chequim dos aeroportos há uma triagem secreta, e só é permitido aos ateus o embarque em voos sem chance de queda. Se você vai viajar, certifique-se de que haja um ateu a bordo. Isso é sinal de que o voo será seguro. Havendo agnósticos, são altas as chances de turbulência (agnósticos precisam ser postos à prova). Sem ninguém com pinta de ateu (ou seja, sem camisetas vermelhas com pentagrama, tatuagens de tridente subindo pelo pescoço ou livro de São Cipriano a tiracolo), pule fora enquanto é tempo.

Sim, pode dizer “vai com Deus” (que significa “vá em paz, que nada de mal lhe aconteça). Mas evite elogios do tipo “Difícil acreditar que uma pessoa com tanta sensibilidade se defina como ateu”.

Esse elogio equivale a  « É tão inteligente que nem parece mulher”, « É incrível que uma pessoa tão limpa, não cuidadosa, tão educada, seja preta », « Quando é que eu poderia imaginar que um homem tão corajoso, tão respeitável, fosse gay?” ou “Apesar de judeu, ele é super honesto, super confiável.” Acredite: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. E não perca seu tempo tentando convencer a namorar no pedalinho quem prefere um 69 na montanha russa.

 

 

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Escrito por Eduardo Affonso

Alguém sugeriu – e eu encampei – a ideia de um condomínio para pessoas que queiram viver em paz.  Uma comunidade de ermitões, por assim dizer (pode parecer um paradoxo, mas a vida seria muito sem graça sem uns despropósitos aqui, uns oximoros acolá).

Dois lotes já estão reservados, um para mim e outro para a Chica da Silva. Por sermos os primeiros, teremos a prerrogativa de escolher. Ela deve ficar com o lote A; eu, para manter o distanciamento social, com o Z.  Como o loteamento é circular, acabaremos vizinhos de porta, que é como estava desde sempre destinado a ser.

Nosso empreendimento oferecerá uma fabulosa infraestrutura aos futuros moradores. NÃO terá quadras de esporte, NÃO terá piscina, NÃO terá cozinha gurmê. Nada de salão de festas, pleigráunde ou churrasqueira. Terá ar puro, silêncio e mato. Afinal, é um condomínio para pessoas de bom gosto, gente de fino trato.

As ruas – ou melhor, alamedas – terão árvores frutíferas, garantindo o café da manhã. Aqui e ali – porque a gente também come com os olhos – um ipê, uma quaresmeira, um flamboiã.

A taxa condominial será paga em serviços. Chica se dispõe a fazer faxina, eu me habilito a passear cachorro. Os candidatos aos lotes remanescentes não precisarão apresentar comprovante de renda, mas declaração de habilidades. Não haverá restrições de sexo, gênero, orientação, ideologia ou idade.

Tampouco será preciso nenhum talento excepcional, nem dotes paranormais ou superpoderes. Mas passar roupa será tão inútil quanto ser amolador de colheres. Ser cozinheiro de mão cheia vale mais que saber, como eu, descongelar comida pronta. Lavar roupa à moda antiga, com anil e quarador, contará mais que o saldo em conta.

Os moradores poderão conversar com plantas e os animais, sem medo de serem vistos como malucos Até porque um pouco de maluquice é uma questão de higiene. Pede-se apenas que não falem muito alto nem entrem em tretas com as maritacas (como costuma fazer o Novaes, pretendente ao lote N).

O silêncio será permitido antes e depois das 22. Pensando bem, durante também, para não deixar brecha jurídica (vai que o Helinho, candidato ao lote H, resolva se mudar pra lá e venha com chicana para aprontar uma das suas).

O lote G é do Gomide, desde que não descuide do isolamento acústico, mantenha a adega liberada e tenha sempre alguma opção vegana no cardápio (pelo menos umas 20).  E, claro, se comprometa a terminar os saraus antes das 6 horas (do dia seguinte).

A Ana Zinger –que abarca todo o alfabeto – pode escolher o lote que quiser. E também como quer pagar a taxa do condomínio – se em aula de canto, de fotografia ou dividindo uma cerveja (duas, três, quatro…) ao cair do dia.

Com os lotes A e G já tomados, o André Gabeh poderá ficar com o C, de Carvalho – árvore à cuja sombra há de escrever, desenhar e cantar para que a gente o aplauda. E, sim, como não?, pode trazer dona Alda.

Como o lote N já tem dono, a Yara terá preferência para o Y, e o compromisso de cultivar ali uma nogueira (a quem chamaremos, com carinho, de Sylvinho).  Aninha Franco terá poderes plenipotenciários para estabelecer no lote F uma embaixada da República do Pelourinho.  Márcia Valle, seu ateliê de costura no lote V. A parceira Dina Tavares, para facilitar as parcerias, há de ocupar o D.

A Laïs pode ocupar o lote L, ali ao lado da Praça Claudinha Telles, para as oficinas de roteiro. A Cristiana Beltrão já tem alvará para uma filial do Bazzar no lote B, e não há de faltar candidato a aprendiz de cozinheiro.

O R é da Maria Roberto – ninguém ali precisará de contadora, mas, para o caso de falta de inspiração, é sempre bom ter uma musa por perto.

Se as regras para o empreendimento estiverem muito complicadas, depois a gente simplifica. Mas algo me diz que tem tudo pra dar certo. Não concorda, Chica?

 

 

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

 

Escrito por Eduardo Affonso

Quem disser que entendeu “Dark”, a série alemã cuja última temporada estreou semana passada na Netflix, certamente estará mentindo. Porque o grande mérito da trama, que envolve viagens no tempo e entre mundos alternativos, é colocar Tico e Teco em pânico.

Nos acostumamos às novelas, em que tudo é reiterado, regurgitado, concebido de modo que se possa brincar com o gato no sofá ou levantar para pegar água na geladeira, sem perder o fio de meada. Em “Dark” todos os fios permanecem, até o último minuto, soltos – e desencapados. Piscou, perdeu. Não piscou, perdeu do mesmo jeito.

Mais ou menos como o Brasil.

Em que ano estamos? Depende. Tem hora que é 2020, tem hora que é 1964 ou 1968. Por vezes é 2018, ainda no auge da campanha eleitoral – ou nos vemos confinados em um perpétuo 1984, só que no universo paralelo do Orwell.

(…)

Em “Dark” o presente influencia o passado. Exatamente como acontece no Brasil, onde descobrimos que o nazifascismo é agora, e temos que rever o que houve na Alemanha dos anos 30 e 40. Vivemos num apartheid e até o Valter Hugo Mãe embarcou na narrativa do genocídio tupiniquim, o que exige reavaliação imediata das tragédias da África do Sul, da Armênia, do Camboja, de Ruanda.

Se na série é difícil saber quem são Mikkel, Mads e Magnus, aqui temos Weintraub, Wajngarten e Wassef, que não ficam atrás. Se lá o paradoxo é uma personagem ser avó de si mesma (ih, esqueci de avisar que tinha espóiler!), aqui a questão é se seria Chauí um Olavo de franja, ou Olavo uma Chauí de cachimbo.

(…)

“Ele não quer salvar o mundo do mal. Ele é o Mal”, diz alguém em “Dark”. É ou não é puro Brasil isso daí?
“O bem e o mal são uma questão de perspectiva”, filosofa Mikkel – ou seria algum pregador do “ódio do bem” nas redes sociais?
“Não é estranho sentirmos aversão às pessoas que são mais parecidas conosco?”, indaga-se o enigmático Adam – assumindo o que se passa na mente dos que negam peremptoriamente qualquer simetria entre o que temos hoje e o que tínhamos até alguns anos atrás.

Na política, como em “Dark”, o ontem e o hoje (e, presumivelmente, o amanhã e o depois de amanhã) não se sucedem, mas estão conectados em um círculo infinito. O eterno retorno do populismo, do fascínio pelo autoritarismo e – desgraça pouca é bobagem – do Centrão.

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

 

 

Escrito por Eduardo Affonso

 

Ali pelos 15, 16 anos, era mais difícil disfarçar a timidez e/ou a falta de traquejo no convívio social. As cantadas, então, estavam totalmente fora de cogitação. O jeito era deixar que outros dissessem por mim – e nisso a música romântica era imbatível.

Havia bailes; dançava-se de rosto colado; a respiração junto à orelha, a mão dedilhando a alça do sutiã ou descendo pelos quadris, a coxa roçando a coxa – tudo isso ajudava a verbalizar o que a voz não ousava.

E, se houvesse que haver uma voz, que fosse a do Paul McCartney dizendo “uô uô uô uô uô uô uô uô, my love does it good”, a do Elton John pedindo “fly away, skyline pigeon, fly” (eu jurava que era Skylab pigeon, mas isso é assunto para outro texto), ou Junior confessando que ”when you’re near, reality loses its hold and loneliness’ tears wet my soul”. Mas, tirando o uô uô uô uô uô uô uô do Paul, eu não entendia patavina. O que ajudava bastante.

O problema era quando as letras eram em português.

Em princípio, isso era um facilitador. Bastava cantar junto (ou fingir que cantava, tipo segunda voz de dupla sertaneja) e o recado estava dado. Se colasse, colou. Se não colasse, eu estaria só cantando a música, sem quaisquer décimas oitavas intenções.

Uma das minhas favoritas – para o bem e para o mal – era “Minha teimosia, uma arma pra te conquistar”, do Jorge Ben (ainda não era Benjor).

Era uma cantada perfeita. Direta. Para dançar com direito a olhares de promessa e um arremedo de gingado que podia ajudar na conquista pelo caminho da comiseração – mas, naquela idade, quem liga?

O problema era o meu apego à gramática. Eu tentava cantar corrigindo a letra, o que me tirava totalmente o foco. E, claro, ferrava com a métrica.

“A minha teimosia é uma arma
pra te (2º do singular) conquistar.
Eu vou vencer pelo cansaço
Até você (3º do singular)
gostar de mim, mulher, mulher.
Mulher graciosa, alcança a honra.
Você (3º do singular) alcançou, mulher.
Minha amada, minha querida, minha formosa
Vem (2º do singular) e me fala (2º do singular)
que eu sou o seu (3º do singular) lírio
e você (3º do singular) é minha rosa.
Mostra-me (2º do singular) teu (2º do singular) rosto
Fazei-me (2º do plural!!) ouvir a tua (2º do singular) voz
Põe (2º do singular) estrelas em meus olhos
Músicas em meus ouvidos
Põe (2º do singular) alegria em meu corpo
Junto com amor de você (3º do singular)
Mulher, mulher
Lá, lá, lá, lá
Mulher, mulher.”

Eu tentava pôr tudo na segunda pessoa do singular – e não funcionava. Tudo na terceira pessoa do singular – e não dava certo. E (vejam o nível de desespero) até mesmo tudo na segunda do plural. Em vão. A minha teimosia com as pessoas gramaticais acabou tornando-se uma arma para não conquistar ninguém. O jeito era vencer pelo cansaço – e ir de com força no lá lá lá lá do final para tentar apagar a má impressão do gingado.

 

 

 

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Escrito por Eduardo Affonso

– Amiga, cansei de sororidade.

– Eu também. Desapeguei.

– Ficou tão quarta-feira passada…

– Nem me fale. Quando comecei a usar, ninguém usava. Agora…

– Daqui a pouco está sendo usada até em novela bíblica da Record.

– Junto com empoderamento. Lembra do pré-lançamento?

– Lindo. Só para convidadas. Evento VIP, garçons étnicos, música autossustentável. Depois…

– Depois virou arroz de festa, que nem empatia.

– Comigo foi saberes.

– Você foi no lançamento de saberes?

– Fui, menina! Usei saberes quando só aparecia em tese de Humanas.

– Que luxo! Quando saberes chegou, eu já estava na fase da objetificação e achei que não ia combinar.

– Objetificação tem que ter muito critério, ou fica over.

– Acho que cai bem com cultura do estupro e micromachismo, e olhe lá.

– Super cai bem!  E olha que micromachismo não é pra qualquer uma.

– Não mesmo. Tem que saber dosar. Tipo gaslighting.

– Gasligting era tudo, né?

– Mas sabe que eu era mais o combo mansplainingmanspreading mantrrupting? Porque tinha uma leitura, dialogavam.

– Diferente de patriarcado androcentrismo

– Totalmente. Androcentrismo pede, sei lá, uma atitude com mais conceito.

– Bem na vaibe da misoginia e do feminicídio.

– Isso. Se bem que eu fique mais à vontade na disparidade de gênero, sabe como? Uma coisa light, cool, fim de tarde, apperol.  Nessa linha.

– E qual é a tendência para hoje? Fiquei vendo laive da Katy Perry até de madrugada, acordei tarde e nem tive tempo de me atualizar.

– Interseccionalidade.

– Jura? Amei!

– E dá pra usar com tudo.

– Amiga, só vou tirar essa máscara de avocado orgânico e começar a interseccionalizar agora mesmo.

– Mas interseccionaliza logo, porque acabei de ver que já estão usando no UOL. E quando isso acontece, já sabe, né?

– Sim. Daqui a pouco vira gratiluz.

– Vai lá. Beijo no coração, amiga! Gratiluz!

– Gratiluz, amada!

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Escrito por Eduardo Affonso

Cuidado com as suas implicâncias. Lenta e inexoravelmente, elas irão tomar conta de você e se tornar obsessões.

Minha mãe sempre implicou com edifícios sobre pilotis. Criada em casa de chão de terra batida, não sentia firmeza nas construções empoleiradas naquelas perninhas finas.  Resmungava cada vez que via um prédio desses – ou seja, resmungava sempre que ia à rua. 

Com a idade – e o Alzheimer – as vigas e pilares das construções nas encostas (trem mais comum em Minas que que chamar as coisas de trem) se tornaram uma ideia fixa. Um incômodo palpável. Era preciso distraí-la (“Olha que cor horrorosa aquela casa!”) sempre que seu olho se sentia atraído pelos monstrengos em pernas de pau encarapitados em cada aclive, declive, murundu ou pirambeira. Porque minha mãe também implicava com as cores das casas, mas os roxos, laranjas, vermelhões e verdes bandeira não eram páreo para as construções levantadas do chão.

Desde então venho pensando: qual será o meu piloti quando eu ficar velho (mais velho) e chato (mais chato)?

Tenho vários candidatos.

Os vícios de linguagem são os mais óbvios. São eles que me impedem de assistir à programação da CNN, porque minha cota diária de tolerância a barbarismos se esgota em cerca de 60 segundos.

Também tem a franja. Eu entendo a sombra verde, os óculos com correntinha, a sobrancelha imitando a logo da Nike, o pírcim no lábio – mas franja está além da minha compreensão.

Implico com gente falando alto ao celular em local público. Implico com gente falando alto. Ultimamente, dei para implicar com gente, mesmo calada, em local público – mas isso vai passar com a pandemia.

Implico com as rimas dos louvores evangélicos, sempre na base do luz / cruz / Jesus e glória / história / vitória. Tudo bem que não dê pra enfiar cuscuz, avestruz e arcabuz, nem rescisória, inflamatória e vibratória.  Mas no campo semântico de um louvor não há de faltar oportunidade para falar em belzebus e em nota promissória.

Implico com tatuagem. Com sotaque carioca em filme dublado. Com cachorro usando roupa. Com barba desenhada. Com locutor de supermercado.

Mas, correndo por fora e com grandes chances de chegar ao pódio, está a ombreira.

O que leva um ser humano do gênero macho a inflar artificialmente os ombros e ficar parecendo um jogador de futebol americano que botou um terno por cima do shoulder pad?

O Merval Pereira conta que, num voo, sentou-se ao seu lado um sujeito espaçoso, cheio de correntes de ouro e que não largava o celular, ignorando os pedidos da aeromoça para que desligasse o aparelho. Era o Wassef. Suponho que estivesse com o cabelo emplastado. E, possivelmente, com suas inseparáveis ombreiras – que o Merval não menciona, mas que não me escapariam.

A ombreira é o viagra do paletó.
A ombreira define o homem.
Diz-me se usas ombreira e eu te direi quem és.

Eu não reparo no cabelo do Guga Chacra. No olho de gatinha da Renata Vasconcelos. Na franja da Nina Lemos. Nunca reparei na peruca do Chico Xavier, nos anéis do Walter Mercado, no nariz do Juca Chaves, na boca da Cleo Pires, no busto (digamos assim) da Inês Brasil, no pescoço rabiscado do Fogaça.

A suposta participação do Wassef numa seita satânica pode dizer alguma coisa do seu caráter. Mas as ombreiras dizem tudo.

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Escrito por Eduardo Affonso

Duda está ficando cega. Sobre o olhinho direito começa a baixar uma névoa.

Descobri quando passou a ter medo de andar por lugares onde sempre transitava lepidamente. O que os lugares tinham em comum era o piso escuro.

Ela não tem medo do escuro. Tem medo, possivelmente, do abismo que vê – ou pressente – diante de si.

Damos uma volta na garagem para evitar o piso de ardósia, diante do qual ela trava.  Ao descer pela escada de incêndio, esperamos que vença a hesitação diante do primeiro degrau de cada lance.

Tião foi o primeiro a se adaptar à nova rotina. Ele enxerga perfeitamente, mas intui o que a Duda não vê, e faz o caminho que ela faria. Ele seria um bom cão guia.

Tião vê o que os outros não veem.

Ele assiste à televisão. Acompanha, atento, a disparada do leão no encalço da gazela. Segue, ziguezagueando com a cabeça, a tentativa desesperada de fuga. Posso quase intuir que torça pelo caçador, nunca pela caça, porque relaxa quando a presa é finalmente abatida.

Tião vê filmes de terror comigo. Duda e Chico apenas se aninham no sofá, ao meu lado – seja o lado direito, o lado esquerdo ou, no mais das vezes, o lado de cima mesmo. Não dão à tevê mais atenção do que ao fogão ou à geladeira. Tião percebe que a tela é um portal para outra dimensão, onde acontecem coisas não tão gostosas quanto no forno ou na gaveta das frutas, mas muito mais excitantes.

Ele se assusta quando o assassino salta das sombras. Se contrai nas facadas. Às vezes somos pegos, ambos, de surpresa, e sempre rio dos sustos que ele leva.  Por vezes, late, para afugentar alguém, para alertar do perigo.

Chico dorme. Durante o filme, durante o documentário sobre vida selvagem, durante o que for. Ainda não entendeu – talvez jamais entenda – que há caminhos por onde Duda prefira não ir. Que aquelas manchas se movimentando no retângulo que tem diante de si sejam um drama de vida e morte.

Chico não é Tião, que não é Duda. São três personalidades distintas. Com níveis distintos de percepção, com diferentes capacidades de compreensão.

Tião é carente, pede colo, lambe lambe lambe. Duda é não pede nada: exige. Seu relógio biológico sabe a hora exata do passeio, e qualquer atraso a deixa intratável.  Chico aguarda. Aceita carinho, mas não o procura. Ao contrário do Tião e da Duda, que sonham placidamente, Chico tem pesadelos. Talvez pressinta vazios sob seus pés, como a Duda; talvez seja ele a presa numa caçada onírica, ou a vítima do psicopata. Vá entender o inconsciente de um cachorro…

Cada um tem seu pote de comida, proporcional ao tamanho. Mas a ração do pote ao lado parece sempre mais gostosa – ainda que seja a mesma.  Houve um tempo em que Chico comia ração de adulto e Duda, a de filhote. Quem teve irmão caçula (eu tive quatro!) sabe que a comida do filhote é sempre mais gostosa, e Chico pegou gosto pelo pote pequeno da Duda, onde mal cabe seu focinho. Depois foi a vez da Duda migrar para a ração de adultos, e ser do Tião a de filhote. E havia que o proteger para que os mais velhos não lhe tomassem a comida.

Tião chegou por último, sabe seu lugar na hierarquia, e cede sempre. Duda foi a segunda a chegar, mas isso não a impediu de ser a alfa da matilha. É ela, a menor dos três, quem fica sempre com a melhor parte. Chico, macho desconstruído, não se importa.

Com a mesma comida em todos os potes, Duda ora prefere o pote vermelho do Tião, ora o enorme pote amarelo do Chico. Ambos se afastam quando ela vem farejar o cardápio. Brigam, os dois machos, pelas bolinhas de borracha, pelo canto no sofá, mas vão procurar outra coisa, outro lugar, se ela resolver que é hora de sofá, que é hora de bolinha.

Chico tem pelo mais comprido, e precisa ser escovado quase que diariamente, ou a casa vira uma nuvem de pelo. Duda tem pelo mais curto e não aprecia muito o processo. Tião, o de pelo curtíssimo, e que não precisa ser escovado, entra assim mesmo na fila, e aguarda impaciente sua vez de ganhar aquilo que ele deve achar ser uma forma superior de carinho. Escovo-o, sem que saia um fio, para que fique feliz. E ele fica.

Foi ele o primeiro a entender a logística da limpeza das patas ao voltar do passeio. O primeiro a levantar voluntariamente a patinha dianteira quando me vê pegar a esponja. Duda o seguiu, a contragosto. Chico ainda prefere que eu lhe levante cada uma das patas pesadas. 

Com dois meses de quarentena, Tião já ergue as patinhas – inclusive as traseiras! – sempre na mesma ordem. Duda ainda prefere levantar as patas traseiras apenas para o xixi (cercada por machos, nunca fez xixi agachada).  Chico… bem, o grandão deve achar que essa coisa de pandemia e limpeza de patas vá passar logo, e não vale a pena incorporar o procedimento à sua rotina.

Quem não convive com cachorros jamais vai entender por que os chamamos de filhos. Por que conversamos com eles. Por que nos curvamos a algumas das suas vontades – o lado da cama, a posse do sofá, a hora exata do passeio.  

Quem não convive com cachorros há de pensar que projetamos neles nossa personalidade. Se for assim, devo ter transtorno dissociativo de identidade, porque convivo com três criaturas absolutamente únicas, que só têm em comum uma história de abandono.

Talvez não estivessem mais vivos se meu caminho não se tivesse cruzado com o deles – na Cidade de Deus, no Catete, em Jacarepaguá. Eu certamente seria menos feliz, e um pouco mais morto, se o caminho deles não se tivesse cruzado com o meu.

[Fuente: http://www.eduardoaffonso.com]

Escrito por Eduardo Affonso

J.K.Rowling, a autora de Harry Potter, não sai por aí procurando encrenca. Em geral as encrencas é que vão ao encontro dela.

Ela está sendo acusada de transfobia por achar que um artigo intitulado “Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para pessoas que menstruam”, poderia ter sido chamado simplesmente de “Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para as mulheres”.

Rowling pode entender muito de animais fantásticos – e até saber onde habitam – mas ainda é do tempo em que menstruação era coisa de mulher.

Hoje há homens que menstruam, mulheres que ejaculam. Mulheres com disfunção erétil, homens com cisto no ovário. Homens que engravidam e amamentam; mulheres que fazem espermograma. E Rowling não se atualizou. Logo, é uma transfóbica, um daqueles seres abomináveis que ainda acreditam em sexo biológico. Praticamente um Voldemort de saias. Ops, a expressão “Voldemort de saias” pode ser transfóbica, porque associa o gênero feminino a saias, e tanto mulheres quanto homens quanto pessoas que menstruam quanto pessoas que ejaculam podem usar saias, calças, bermudas, o que bem entenderem, sem que isso defina seu sexo, seu gênero, sua orientação ou, no caso dos genderfluid, sua vaibe no momento.

Talvez os formulários retrógrados e transfóbicos em que a gente bota um X em F ou M deva ser modificado. Teremos PQM (Pessoa Que Menstrua) e PQE (Pessoa Que Ejacula).

Mas mulheres também ejaculam (dizem; eu mesmo nunca vi). E depois da menopausa não menstruam mais, assim como não menstruavam antes da menarca. Sem contar as pessoas que não menstruam porque fizeram um implante subcutâneo para não menstruar. PQM é um termo muito impreciso.

Que tal PPV (Pessoa Portadora de Vagina) e PPT (Pessoa Portadora de Testículo)? Não é mais inclusivo?

Claro que vamos precisar de um tempo para nos acostumar a ouvir a Renata Vasconcelos anunciar no Jornal Nacional que José Dirceu, pessoa portadora de testículo forte do governo Lula, declarou que uma chapa Rui Costa e Flávio Dino seria imbatível na disputa pelo governo federal em 2022.

Ou, na cerimônia à beira-mar, noivos e convidados de bermudas brancas e pés no chão, o padre Fábio de Mello perguntar:

– Brunnynho, aceita esta pessoa portadora de vagina, Camylla, como sua legítima esposa?

(Na fila dos padrinhos, Fellype, murmurará, de si para si: “E que vagina!”).

– Camylla, aceita esta pessoa portadora de testículos, Brunnynho, como seu legítimo esposo?

(De mãos dadas com Fellype, na fila das madrinhas, Victhorya suspirará: “E que testículos!”).

Para não sermos transfóbicos como Mrs. Rowling, que insiste na velha dicotomia “homem e mulher”, temos que fazer nossa parte e contribuir para o fim da invisibilidade trans. Porque não basta dizer homem trans e mulher trans. A palavra “mulher” é extremamente ofensiva; a palavra “homem”, nem se fala.

Resta a dúvida se devemos dizer “Pessoa Portadora de Testículo, Epidídimo, Ducto Deferente e Ejaculatório, Uretra e Glândulas Seminais Trans” (PPTTEDDEUGST) ou “Pessoa Trans Portadora de Testículo, Epidídimo, Ducto Deferente e Ejaculatório, Uretra e Glândulas Seminais” (PTPTEDDEUGS).  E “Pessoa Portadora De Lábios Menores, Lábios Maiores, Clitóris, Ovários, Tuba Uterina, Útero e Vagina Trans” (PPLMLMCOTUUVT) ou “Pessoa Trans Portadora de Lábios Menores, Lábios Maiores, Clitóris, Ovários, Tuba Uterina, Útero e Vagina” (PTPLMLMCOTUUV).


No próximo Harry Potter, havemos de ter diálogos assim:

– Harry, você é a PPTEDDEUGST da minha vida…
– Você disse PPT ou PTP, Hermione?
– PPT, Harry. T de testículo, não de trans. Não vá me dizer que…
– Não, Hermmy, é que no GST eu já não me lembrava mais do começo da sigla. E você é a PPLMLMCOTUUV mais mágica que já conheci.
– Own, Harry… Vamos colocar logo essa varinha de condão para funcionar!
– “Varinha”, Hermione? Você tem sempre que lembrar disso?
– Harry, não começa essa problematização de novo, por favor.
– Tá bom. Vamos apostar corrida de vassoura até aquela nuvem, e fazer amor ao luar?
– Own, Harry… vamos! E o último que chegar é PPLMLMCOTUUV do padre!

[Disclêimer 1: Nenhum transportador ou transportadora de qualquer sistema genital foi ferido na redação deste texto.]

[Disclêimer 2: Aos que forem compartilhar este texto em páginas de grupos democráticos (i.e, sem senso de humor e adeptos do pensamento único), com o fito de descer o pau no autor pelas costas, recomenda-se discrição, porque ainda não consegui sair de todos esses grupos e posso ter acesso aos comentários e, como sempre acontece nesses casos, ter também um acesso de riso em locais onde rir do risível é crime inafiançável).

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Transição

Escrito por Eduardo Affonso

Não estou cabeludo nem desgrenhado. Estou em transição capilar.

Uma transição entre sapiens e o neandertal, entre o apresentável e o melhor fazer de conta que não viu.

Sabe aquelas camadas geológicas através das quais os cientistas descobrem (ou inventam) quando ocorreu determinado evento? Pois está assim: dá pra ver exatamente a data do início do confinamento. Se o cientista for de Harvard, não de Rárvarde, é possível saber até a hora.

O cabelo vem liso, reto, de boa, até a altura da orelha – que é onde estava em março de 2020.  Nesse ponto, baixa um erê, sobe uma coisa esquisita e ele perde a linha.

Lembra da noviça voadora, uma que usava chapéu de aba, e levantava voo do Convento de San Tanco? Estou que nem. Só que com a ponta da aba para cima, feito as winglets dos aviões (não vou escrever uinguilete ou nem eu entenderia). Se bater um sudoeste, eu decolo.

Acontece a mesma coisa na nuca. O cabelo (pouco, mas meu) desce em ordem unida a partir da clareira do cocuruto. Um pouco antes da altura do lóbulo, é como se o chefe do pelotão gritasse “Pelotão, disper-SAR!” e dispara cada um pra um lado, fazendo cacho, pirueta, voluta, espiral, helicoidal, redemoinho. O que era uma disciplina militar vira quartelada, baderna na caserna, motim, sublevação.  Em vez do estilo Príncipe Danilo da minha infância, o corte agora é do tipo de daria corte marcial.

A barba, por sua vez, está em transição entre indivíduo em situação de rua para náufrago. Numa laive, supostos amigos sugeriram que eu conseguiria bom faturamento atuando no segmento da mendicância. Mas a intenção é fazer ho-ho-ho nos shoppings – se eles reabrirem até o Natal.

As sobrancelhas lançam gavinhas sobre as pálpebras, levando o fantasma de Leonel Brizola a me assombrar cada vez que me vejo no espelho. Mais uma semana e será Darcy Ribeiro em pessoa quem arregalará os olhos para mim toda manhã, na hora em que eu entrar no banheiro.

Das orelhas, nem falo nada, ou vão descobrir que reassumi, a contragosto, minha porção chupacabra.  

Se me perguntarem qual a primeira coisa que quero fazer quando a vida real for retomada, não será sexo, praia, livraria, chope, nada disso, mas depenar a orelha.

Sei que vai ter fila, senha, briga na porta da clínica de depilação. Que mulheres vão argumentar, aos gritos, que orelha não é parte da anatomia voltada para serviços essenciais. Mas estarei lá, acampado, esperando o momento de minha orelha poder retornar ao convívio social.

Na próxima pandemia,  tenho que me lembrar: esquece o álcool gel e o papel higiênico, e foca na cera quente.

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Escrito por Eduardo Affonso

A língua brasileira é paupérrima em sufixos.

Os portugueses, sim, têm um monte deles. Por isso conseguem criar, com o sufixo “ano”, a partir da palavra Itália, a palavra italiano. A partir de Índia, indiano. De Coreia, coreano. De Alentejo, alentejano.  

Têm o sufixo “ense”, que faz belenense, belmontense, catarinense, maranhense.

Têm o “ês”, que formou português, francês, inglês, galês, chinês.

O “ão”, que lhes deu bretão, alemão, afegão, catalão, parmesão – e aldeão, vilão, cidadão.

Têm o “eta” de lisboeta.

O “ita” de vietnamita, moscovita.

O “oto” do minhoto.

O “ino” de latino, londrino, bizantino, nova iorquino.

O “ista” de sulista, nortista, paulista.

O “enho”, que dá panamenho, hondurenho, porto-riquenho.

Têm até o “eiro”, que é de formar profissão, mas serve para brasileiro, mineiro, campineiro.

Nós, falantes da língua brasileira, não dispomos desses recursos e temos que importar – com o dólar no patamar em que está! – um sufixo estrangeiro, o “er”.

Tudo começou em São Paulo, com os “farialimers”, os mauricinhos do condado da Faria Lima. Realmente, ficava mal chamar aqueles uorcarróliques, consumistas, fechionistas, conservadores e endinheirados de farialimeiros, fariamanos, farialimenses ou farialimões.

A coisa desandou quando se percebeu que os alternativos, bichos grilos, progressistas e mais quebrados que arroz de terceira de Santa Cecília eram os “santacecíliers”, e não santacelistas, santacecilenhos ou santacecilhotos.

Urge colocar uma barreira sanitária em Queluz para impedir que isso se propague até o Rio de Janeiro – antes que a garota de Ipanema vire uma carióquer, que o camelô da Saens Peña se torne um tijúquer e eu, aqui na Barra, me veja transfigurado num emergênter.

Teríamos os farmedeamoêders desfilando com suas bermudas de bainha dobrada e camisas floridas, os diasferrêirers pagando por um sushi o valor de um Gol 1.6, os lápers tomando litrão e corote com seus vestidos mariamijona e camisetas de Che Guevara. Os jardimpernambúquers, os altoleblôners e os baixogávers lançando tendências logo copiadas pelos sãocristóvers, vilaisabélers, bangúers, realênguers, cascadúrers e mesmo meritíers e belforrôxers.

Na política, agora temos os quarentêners, que, feito gases nobres, não se misturam, e os adeptos da C18H26ClN3, também conhecidos como cloroquiners.

Se a moda tivesse chegado antes, teríamos tido coxínhers e mortadélers – muito mais finos e requintados que os dessufixados coxinhas e mortadelas.

Pensando bem, a culpa não é dos rípsters paulísters, porque em 2016, ainda que não tivéssemos os ególpers, já tínhamos os foratêmers.

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Escrito por Eduardo Affonso

Para que haja harmonia entre os poderes da República, é preciso que eles falem a mesma língua.

No intuito de facilitar essa comunicação, Pai Dudu criou um Pequeno Dicionário Bilíngue Jairano / Celsodemellês e o Descomunal Dicionário Celsodemellês / Jairano, que em breve (assim que acabar a pandemia) estarão à venda nas melhores livrarias (se ainda houver livrarias após a pandemia).

Os dicionários virão em três volumes, já que haverá também um traduzindo ambos os idiomas para o português.

Hoje mais essencial que o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e o álcool em gel, todos juntos, segue uma amostra do PBPD (Pai dos Burros do Pai Dudu):

~

PEQUENO DICIONÁRIO JAIRANO / CELSODEMELLÊS

Bosta = s.m.Excelentíssimo senhor governador do estado de São Paulo

Estrume = s.m. Excelentíssimo senhor governador do estado do Rio de Janeiro

Fudido = v.i. Infelicitado, desditoso, mofino.

Hemorroida = s.f. Furículo, ilhó, forame

Putaria = s.f. Concupiscência, lubricidade

Putaquipariu = interj. Cáspite! Homessa!

Trozoba = s.m. Partes pudendas

~

DESCOMUNAL DICIONÁRIO CELSODEMELLÊS / JAIRANO


, = porra!

. = porra!

! = porra!

? = porra!

… = porra!

Conquanto = porra!

Inobstante = porra!

Malgrado = porra!

Entrementes = porra!

Despiciendo = porra nenhuma!

Sodalício = a porra da milícia!

Contumelioso = a porra do caralho!

~

Quem comprar o dicionário, ganha, inteiramente grátis e sem nenhum custo adicional, uma gramática de ambos os idiomas, com exercícios de fixação.

1. Traduza do jairano para o celsodemellês:

“Se não colocar a porra da arma na mão da porra dos brasileiros, vão tocar a porra da trozoba na porra da nossa hemorroida.”

2. Traduza para do celsodemellês para o jairano:

“Esse futre e espurco dendroclasta, misólogo nóxio, peralvilho soez, abantesma zoantropo, está a ustular numa aravia mesta, como grazina a engodar, cainhando num estorcegar não mais homiziado, mas achavascado, a ensejar um acoimar com acrimônia no intuito de coarctar a compunção desse descoco sem pejo, porém percuciente e perengue, sem pospor, mas precatando o prélio que antevejo rutilar sem safa, no plenilúnio da vesânia de um valdedino valetudinárico, useiro e vezeiro no vilipêndio do calão.”

Não, não vem com gabarito. Esse é pago à parte.

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]

Escrito por por Eduardo Affonso

Eu sabia que um dia estaria na moda. Nem que demorasse meio século, mas estaria.

É que minha mãe era costureira e avessa a desperdício. Costurava no capricho, mas aproveitando cada centímetro quadrado de tecido.  Seus bolsos eram invisíveis – melhor dizendo, camuflados, seguindo o mesmo alinhamento da estampa do resto da camisa.  E olha que os anos 60 e 70 foram pródigos em estamparias lisérgicas. Pois minha mãe ia lá e fazia os bolsos, as palas, os punhos em perfeita sincronia com o resto.

Claro que sobrava pano. Se fosse pouquíssimo, servia para forrar botões (tínhamos uma máquina de forrar botão que também servia para esmagar dedo de irmão mais novo). Se fosse pouco pano, virava colcha de retalho. Uma sobra maior virava camisa pros filhos, vestido pra filha.

Nem sempre o que sobrava era suficiente para uma camisa inteira. Mas – e aí é que entra o primeiro parágrafo – nada que não pudesse ser resolvido com duas ou três sobras diferentes.

Felizmente minha mãe tinha bom gosto, e me fazia camisas com as costas lisas e a frente estampada. Toda lisa, com bolsos, mangas e colarinho em composê. Inventava modelos, cortes, recortes e firulas que, quem visse, jamais diria (pelo menos não na frente dela) que aquilo era a própria sustentabilidade aplicada à costura, muito antes de a sustentabilidade vir ao mundo.

A partir de certa idade passei a ter vergonha das minhas camisas-colagens. Queria camisas sem liberdades poéticas, camisas puro sangue, monocromáticas, homogêneas. Não adiantava virem me dizer que a gola combinava com o bolso: eu queria tudo chapado, azul de fio a pavio, verde de cabo a rabo, sem o risco de, na missa, minha manga reconhecer sua família biológica no vestido da senhora do banco à frente.

Nas fotos da minha infância, vejo hoje uma pobreza que então eu não percebia: uma parede descascada, uma cerca de bambu meio descaída, um móvel velho, uma telha vã. Não éramos pobres – ou melhor, até éramos, mas não a ponto de não poder comprar um corte de fazenda. Mas por que desperdiçar retalhos?

Quando nasci, meu pai não trabalhava:  era estudante secundarista. Meu avô bancava filho, nora e neto. Melhor dizer netos, no plural, porque logo em seguida veio o segundo, quando meu pai ainda não trabalhava: estudava para o vestibular. E veio o terceiro– uma menina – e meu pai continuava não trabalhando: era universitário. Veio o quarto, com meu pai finalmente indo botar a mão na massa, ao se formar em Direito. Durante todo esse tempo, meu avô proveu casa e comida. Mas minha mãe pagava, com a costura, todas as outras contas. Não eram tempos de se jogar nada fora.

(Parênteses para uma madeleine: nossa melhor comida de domingo era uma travessa de macarronada decorada com ovos em rodelas e sardinhas. Minha mãe distribuía simetricamente as rodelas maiores e menores, e mesmo as das pontas, só claras, entremeando-as com metades de sardinha. Mas estas não iam diretamente da lata para a mesa: minha mãe as descamava com o dorso da faca, abria, retirava as vísceras, a espinha, a barbatana, e a sardinha seguia limpinha e faceira para a mesa.  Meu avô resmungava: “Pobre e limpando sardinha!” e eu não entendia. Hoje entendo: éramos pobres, e nem por isso deixávamos de ter o refinamento possível do bolso na diagonal, caso não houvesse tecido para o bolso alinhado; não íamos além do macarrão aos domingos, mas nem por isso comeríamos escamas e vértebras de sardinhas. Fecham-se os parênteses).

Enquanto minha irmã crescia, seu vestido ganhava novas barras, quem sabe um babado, um artifício qualquer que o fizesse crescer junto.  Nossas calças, quando passamos a ter calças compridas, ganhavam novas bainhas.  O irmão nascido logo depois de mim herdou todas as minhas roupas – usava não só retalhos, mas retalhos de segunda mão.

Hoje vi o anúncio com essas camisas meio mussarela meio calabresa. Minha mãe jamais faria isso, porque tudo tem limite. Mas era mais ou menos isso o que ela fazia: inventava moda. Uma moda que levaria décadas para ser reconhecida: a do listrado combinando com bolinha, do xadrez dialogando com o grafismo, do floral de florzona harmonizando com o floral de florzinha.

Deu vergonha de ter tido vergonha das minhas camisas Frankenstein. Se eu as tivesse guardado – e não tivesse crescido nem engordado nos últimos 50 anos – estaria na última moda.

[Fonte: http://www.eduardoaffonso.com]