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Professor e sindicalista do planalto andino de Cajamarca chega ao segundo turno. De retórica áspera, emergiu contra a violência no campo e nas grandes mobilizações pela educação em 2017 – e promete reverter duas décadas de neoliberalismo

O candidato presidencial do Peru Pedro Castillo monta a cavalo no fechamento de campanha, em 8 de abril.

O candidato presidencial do Peru Pedro Castillo monta a cavalo no fechamento de campanha, em 8 de abril.

Escrito por Inés Santaeulalia e Jacqueline Fowks

A mil quilômetros de Lima, montado em um cavalo e sob um chapéu de palha de aba larga, um professor de escola rural desafia o status quo peruano. Pedro Castillo segue de Chota (Cajamarca) ao Palácio do Governo como vencedor do primeiro turno das eleições presidenciais do Peru, realizadas no domingo. As elites da sociedade de Lima, berço do poder do país sul-americano e origem dos cinco últimos presidentes, acordaram na segunda-feira de ressaca eleitoral nocauteadas pela presença do mais incômodo de todos os candidatos ao seu ecossistema. O professor sindicalista de viés radical, que não liderou as pesquisas até a última semana, chega às portas da presidência com o lema “Já basta de pobres em um país rico”.

Pedro Castillo Terrones, de 51 anos, nasceu em Cajamarca, uma região andina das mais pobres do Peru. O professor, terceiro de uma família de nove irmãos, conseguiu em 1995 sua vaga como professor de ensino primário em uma escola de sua região, mas sempre teve pretensões políticas. Como líder regional do partido Peru Possível desde 2005, era um completo desconhecido no restante do país até 2017. Nesse ano, um enorme protesto de professores, que exigiam aumentos salariais pela instalação da avaliação periódica dos docentes, paralisou as aulas durante 75 dias em quase todo o Peru. Castillo colocou-se à frente das mobilizações e desde então mais ninguém voltaria a esquecer seu nome.

O professor navega sobre águas ideológicas complexas. “Tem uma retórica reivindicativa, um discurso basicamente radical, que pode se encaixar à esquerda e à direita”, diz o analista José Carlos Requena. Em seu ideário utiliza muitas vezes os exemplos do Equador e da Bolívia, mas também destaca a nacionalização do petróleo na Venezuela: “Frequentemente nos dizem que a nacionalização é ruim. Mas temos exemplos que desmentem essa teoria absurda”. Castillo promete nacionalizar o gás da Camisea, o projeto energético mais importante do país. Também quer aumentar o orçamento público em saúde e afirma que aumentará o da educação em até 10% ―atualmente está em 4% do PIB―. Os analistas e adversários consideram seus planos inviáveis.

Se conseguir levar a chave do Palácio do Governo promete revogar a Constituição de 1993 (promulgada durante o Governo de Alberto Fujimori) e ameaça fechar o Congresso se não o permitirem. A lista de propostas causa autêntico pânico nas elites peruanas, que sempre recusaram qualquer manifestação de esquerda. Em Lima, o voto conservador (grande parte dele ultraconservador) superou 50% no domingo, apoiado em um discurso que sempre relacionou a esquerda ao terrorismo do Sendero Luminoso, que causou milhares de mortes nos anos 80, e com o chavismo. Em Castillo veem refletido os dois lados.

O professor, desde a greve de 2017, é relacionado a grupos políticos formados por membros do Sendero Luminoso, em liberdade após cumprir condenação. Ele sempre se desvinculou, mas sua sombra o perseguiu até as urnas. O jornal Perú 21 alertou um dia antes da votação em uma manchete de página inteira em primeiro plano: “Cuidado, o Sendero Luminoso estará presente nestas eleições”. Uma capa que, de qualquer modo, não chegou aos seus eleitores, em sua maioria divididos entre o sul e as regiões mais pobres. No Peru, 20% da população vive na pobreza, de acordo com os últimos indicadores oficiais, ainda que se estime que a porcentagem tenha crescido durante a pandemia. Castillo foi ao segundo turno com 18% dos votos.

Apesar da enorme distância ideológica, o líder do Peru Livre compartilha uma parte de seu ideário com os políticos conservadores mais votados na capital, como Keiko Fujimori, Hernando de Soto e o candidato de extrema-direita Rafael López Aliaga. A agenda social, uma questão rara na política peruana, resume em uma emenda todos os avanços sociais que preocupam tão pouco da maioria dos arranha-céus de Lima ao grosso das montanhas andinas. Rejeição ao aborto, rejeição ao casamento homossexual, rejeição a incluir a igualdade de gênero no currículo escolar, rejeição à eutanásia.

Castillo promete lutar contra o poder estabelecido de seu passado como rondero, uma organização social criada em Chota na década de 70 por agricultores e camponeses para se defender do roubo de gado e da violência. O regime próprio dos ronderos, à margem da lei, inclui chicotadas e o escárnio público contra ladrões e malfeitores. Nas duas décadas em que o Peru sofreu a violência do Sendero Luminoso (1980-2000) a vigilância e força das rondas de Cajamarca deteve a entrada na região do terrorismo que semeava atentados e morte na maior parte dos Andes.

Restam dois meses ao segundo turno das presidenciais. Na espera da finalização da votação, tudo leva a crer que será a líder do fujimorismo a encarregada de representar um setor do Peru que não quer Castillo nem pintado de ouro. Ela também não cai no gosto da maioria. Keiko Fujimori é a candidata de maior rejeição entre os eleitores, mas em eleições tão fragmentadas, a porcentagem de fujimoristas acérrimos que ainda mantêm a levaram à segunda posição com apenas 14% dos votos.

As elites de Lima continuam procurando nesta segunda-feira no Twitter respostas a resultados que não entendem. Na escola 10465, no centro do povoado de Puña, na província de Chota, o professor de ensino primário às vezes leva seus alunos ao campo, levanta seu celular e caminham em silêncio procurando um ponto de internet para acessar o Google pela primeira vez.

 

[Foto: Aldair Mejía/EFE – fonte: http://www.elpais.com]

 

O escritor publica a terceira entrega das aventuras protagonizadas por Rufo Batalla

Escrito por ENRIQUE CLEMENTE

Eduardo Mendoza (Barcelona, 1943) publica Transbordo en Moscova (Seix Barral), que pecha a triloxía protagonizada por Rufo Batalla, tras O rei recibe e O negociado do yin e o yang. Coa súa habitual mestría narrativa e facendo gala desa mestura de humor, ironía e parodia tan propios do autor, narra as aventuras do peculiar xornalista reconvertido en axente secreto. Faille viaxar por Londres, Nova York, Viena e Moscova, co pano de fondo das grandes transformacións sociais e os acontecementos decisivos de finais do século XX, que culminaron coa caída do Muro de Berlín e a disolución da URSS. Esta terceira novela é, segundo o autor, máis autobiográfica, «porque o personaxe evoluciona cara á madurez e polo tanto vaise parecendo máis á persoa que está escribindo o libro». «Nas dúas primeiras evoco unha época de bohemia, aventuras, incertezas, fantasías e nesta falo de algo que coincide máis coa miña vida real, coa formación dunha familia e a aceptación de compromisos persoais», explica o gañador do Premio Cervantes. Mendoza asegura que Transbordo en Moscova é unha homenaxe ás novelas de espías, das que se declara un gran lector.

-¿Pódese dicir que Rufo Batalla é unha especie de «alter ego» seu? ¿Que ten del e da súa visión do mundo?

-O meu alter ego si, aínda que non eu. A parte anecdótica é inventada; as vivencias son as mesmas. E a miña visión do mundo, parecida. Eu son menos crítico, talvez porque son máis vello que Rufo.

-¿Como evolucionou Rufo Batalla desde as dúas primeiras novelas a esta, na que casa cunha moza da alta burguesía catalá?

-Concibín a triloxía como unha peza de música en tres tempos. Primeira mocidade, plenitude e madurez. Fixen que Rufo se fose adaptando aos compromisos da vida. Sen perder o compoñente fantasioso que arrastra desde a súa etapa formativa. Tamén niso parécese a min.

-¿Que papel xogan o humor e a ironía en gran parte da súa obra e en particular nesta triloxía?

-Nacín co humor incorporado, como o nariz. Está na raíz de toda a miña obra e, naturalmente, tamén nesta triloxía, aínda que aquí, salvo algunha excepción, prescindín da farsa. O humor é máis subterráneo.

-¿Cal é o proceso de escritura das súas novelas? ¿Ten claros a estrutura, os personaxes e a trama antes de pórse a escribir ou se van desenvolvendo segundo vai escribindo?

-Non me gusta ter nada claro. Parto dunha idea, que ás veces acabo refugando, e a partir de aí déixome levar pola lóxica dos acontecementos, aínda que sexan disparatados. Cada día penso no que vai suceder ese día. Ao final, está claro, poño un pouco de orde no caos.

-¿Como consegue unha prosa tan transparente, que parece que flúe soa?

-Eu se o que me custa. Corrixo bastante, reescribo a miúdo. Traballo rodeado de dicionarios. E non dou por boa unha oración se creo que podo facela máis clara, máis sinxela e máis informativa.

-Coincide a publicación de «Transbordo en Moscova», coa estrea teatral de «Se alguén me dixo». ¿Poderiamos dicir que esta obra é «un Mendoza» en estado puro?

-Creo que todo o que dou ao público, por escrito ou no escenario, son produtos con denominación de orixe. Que aparezan ao mesmo tempo novela e teatro é pura coincidencia, aínda que as dúas están escritas na mesma época. Os propósitos son moi distintos. A peza teatral escribina a petición de Patricia Jacas; a idea é miña, pero tratei de facer un traxe a medida. Non demasiado estreito. En teatro é importante deixar marxe aos intérpretes. Nunha novela, como dixen antes, hai que procurar dar un produto ben acabado.

-¿Cal é para vostede a súa mellor novela ou, mellor devandito, a que máis lle gusta e por que?

-Como adoita suceder, as novelas que máis me gustan son as que menos éxito tiveron. Sinto debilidade por Unha comedia lixeira e polo ano do diluvio. Non as volvín a ler. Nin esas nin ningunha outra, pero as recordo con cariño.

«O “procés” ensombreceu as nosas vidas cotiás»

Mendoza afirma que o procés «sementou a discordia».

-Vostede publicou no 2017 «Que está a pasar en Cataluña». ¿Que supuxo o «procés? ¿Gustaríalle escribir unha novela sobre este proceso?

-Non me propuxen escribir sobre a situación en Cataluña, salvo o que xa escribín, influído pola ignorancia que cría ver en quen observaban o procés desde fóra. Eu residía en Londres e alí cada cal deixaba voar a imaxinación cara a onde se lle antollaba. Quixen expor algúns elementos de xuízo e, de paso, tratar de entender eu mesmo o que sucedía. O procés foi, e en parte segue sendo, un feito doloroso para todos os cataláns, na medida en que sementou a discordia e ensombreceu as nosas vidas cotiás. Por todas estas razóns, téñoo demasiado preto como para convertelo en obxecto de ficción.

-¿Cre que Isabel Díaz Ayuso sería un bo personaxe dunha das súas novelas? ¿Que lle parece a presidenta de Madrid?

-Son un cidadán común e corrente. O pouco que sei é o que vexo nos medios de información. Non é un personaxe que me inspire admiración. Paréceme que pertence ao grupo maioritario dos políticos dedicados á estratexia e despreocupados dos problemas reais.

-¿Como lle influíu este ano de pandemia persoalmente e na súa obra literaria? ¿Que papel xogou a literatura e a cultura en xeral neste período?

-Pola miña idade e as miñas circunstancias, non sufrín especialmente co confinamento. Morreron persoas próximas e heime angustiado moito pola situación en xeral. Ao principio non me podía concentrar en nada. Logo, como todo o mundo, funme adaptando. Para o meu traballo, as condicións foron óptimas. Tranquilidade e regularidade de horarios. Non hei viaxado e hei aproveitado para ler dun modo máis sistemático, como todo o mundo. E tamén como todo o mundo, cumprín os propósitos a medias. Parece ser que nestes meses a lectura aumentou, aínda que non de forma rechamante. Eu son un lector empedernido, así que non batín marcas.

«Xa ninguén cre que unha ideoloxía vaia a resolver todos os problemas»

Para o autor do misterio da cripta enmeigada e Sen noticias de Gurb, «unha das cousas para as que serve a ficción, se é que serve para algo, que supoño que si, á parte do entretemento e o enriquecemento cultural, é para deixar constancia de como se viviron os momentos históricos por parte dos que foron testemuñas». Mendoza quería facelo respecto do que viviu, por exemplo os anos 70 e 80, «que para moitos son a infancia e para outros historia». Asegura que é unha época «que agora está moi sobre o tapete, estamos a reflexionar moito sobre aqueles anos, que foron de grandes cambios e moi rápidos». En España, engade, «produciuse unha transformación moi positiva, aínda que agora se faga a reflexión que se queira e que, por suposto, todo é susceptible de análise e contradición».

O presente condiciona o pasado

O escritor barcelonés lembra que se saía «dunha época cunha gran incerteza despois do franquismo e en moi pouco tempo solucionáronse moitos problemas, houbo moito acordo, unha coalición absoluta, a todos os niveis, para que o cambio fose pacífico e España púxose á cabeza dos países máis adiantados politicamente». Con todo, inmediatamente despois chegou a época de «a corrupción, o enriquecemento, o malgasto, a desorganización, os enfrontamentos internos, a atomización do país, e agora estamos vivindo a resaca desta segunda transformación que fai que vexamos a primeira parte desde o espello retrovisor; o presente condiciona o pasado e vaino transformando».

Á sombra do comunismo

«A miña xeración creceu á sombra da promesa do comunismo, que era a solución das inxustizas sociais, a igualdade entre todos os seres humanos, a solidariedade internacional, todo iso se derrubou e agora comunista vén ser un insulto parecido ao de fascista e contraposto a liberdade, cando antes era o oposto a capitalismo, a explotación, o sálvese quen poida», sinala. Explica que «o século XX viu desaparecer as grandes ideoloxías, as grandes ideas sobre como debía funcionar a sociedade». «Agora vivimos unha época en que non sabemos como funciona a sociedade, e xa ninguén cre que unha ideoloxía vaia a solucionar todos os problemas nin ningún problema. Volvémonos moi pragmáticos, salvo que están a rexurdir, por exemplo, os grandes movementos de carácter relixioso, que non dan solucións prácticas», advirte.

 

[Imaxe: TONIO ALBIR – fonte: http://www.lavozdegalicia.es]

Eduardo Mendoza, Barcelona

Transbordo en Moscú’ (Seix Barral) es la tercera entrega del personaje Rufo Batalla, en la que Eduardo Mendoza (Barcelona, 1943) nos traslada al año 2000, la época del crecimiento y pelotazo económico, y la de la masificación definitiva del turismo mundial.

Con este libro, termina la trilogía de Rufo Batalla, se acaba la aventura porque hacerlo en el último día del siglo XX cumplía mis objetivos”, explica el autor, que detalló que “la ficción sirve para dejar constancia de cómo se han vivido los momentos históricos por parte de los que han sido testigos, y me parecía importante dejar constancia de los años 70 y 80, un momento de grandes cambios y rápidos”. Mendoza aseguró que “en España, se produjo una transformación rápida y positiva, salíamos de una época incierta. Después hubo una segunda transformación, protagonizada por la corrupción, la atomización del país y la desorganización. Ahora estamos viviendo la resaca de esta segunda época, que hace que veamos la primera época por el espejo del retrovisor”.

Del argumento, afirmó que “esta tercera novela es bastante autobiográfica, con un personaje que se parece mucho a mí, resultado de la evolución del personaje hacia la madurez”. Mendoza recordó que “dos generaciones anteriores a la mía, crecieron a la sombra del fascismo, visto como promesa de salvación, y aquello acabó fatal, ahora fascista es el peor de los insultos”. Prosigue el narrador: “mi generación creció a la sombra del comunismo, que era la promesa de la solución a las desigualdades, todo eso se derrumbó, y comunista se ha convertido también en un insulto, contrapuesto a libertad”. El novelista contó que “el siglo XX vio desaparecer las grandes ideas sobre la sociedad, en cambio ahora ya no sabemos cómo funciona, nadie cree que una ideología pueda solucionar los problemas, de hecho, pensamos que no puede arreglar ningún problema. Surgen grandes movimientos de carácter religioso que mueven las fuerzas sociales. En el XX, las ideologías movían masas, pero fue un siglo de pérdida religiosa”.

El literato apuntó que “la Expo de Sevilla fue uno de los últimos coletazos de la voluntad de resumir el mundo entero y un intento de transformación de la ciudad. Paralelamente, en Barcelona, coinciden una serie de factores y la ciudad se transformó de manera extraordinaria, pasó de ser una ciudad normal a un referente mundial, una meca del turismo, es un fenómeno inesperado”, y asumió que “he disfrutado rememorando esos momentos, como si los contara a mis nietos”.

Los espías, en paro

Sobre los referentes de ‘Transbordo en Moscú’, Mendoza asintió que “la evolución personal conlleva una evolución literaria de mis gustos y aficiones. En mi entrega anterior, había un homenaje a las novelas de aventuras. En esta, hay un homenaje a la literatura de espías”. El autor confirmó que “soy un gran lector de novelas de espías, y lo soy angustiado porque es una literatura muy escasa. La época de los espías es corta y termina. En cambio, la novela de crímenes no se acabará nunca, porque siempre habrá alguien que maté a otro. Los espías se acabaron quedando en el paro. Por eso, hay pocos grandes escritores de novelas de espionaje”. 


NOTA DEL EDITOR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Las aventuras de Rufo Batalla parecen encaminarse al remansamiento cuando contrae matrimonio con una rica heredera, pero no consigue olvidar al príncipe Tukuulo y a su exquisita esposa. La agitada transición política española ha dado paso a una prosperidad económica que parece destinada a no tener fin. Mientras, la caída del muro de Berlín culmina un proceso de transformación que presagia el descalabro de la URSS, y de repente lo que parecía una locura, la conquista del reino de Livonia, se vuelve posible.

Siempre por razones ajenas a su voluntad, Rufo Batalla viaja a Londres, Nueva York, Viena y Moscú, y se enfrenta a situaciones insólitas, obligado a desempeñar papeles que nunca habría elegido. Pero cuando descubre que el servicio de inteligencia soviético anda tras el príncipe, Rufo se dará́ cuenta de que la vida familiar y la de agente secreto no son fáciles de compaginar

Asiste el lector a los fenómenos sociales de la etapa final del siglo XX a través de la mirada de un Rufo Batalla dividido entre una plácida existencia y su compromiso con el pretendiente a un trono de opereta. El nuevo siglo presagia cambios irreversibles, pero siempre quedarán algunas certezas: la fe en la razón, el arte y la prosa chispeante y aguda del gran narrador Eduardo Mendoza.

 

[Foto: Carles Domènec – fuente: http://www.revistabearn.com]

La Bund, attaché à la promotion et à la défense du yiddish et résolument antisioniste, a dû répondre après-guerre à la création de l’État d’Israël
Écrit par David FUKS
L’ouvrage de David Slucki The International Jewish Labor Bund after 1945 : Towards a global history (Rudgers University press, 2012) traite du Bund après la Seconde Guerre mondiale qui a décimé la civilisation ashkénaze, le judaïsme européen et fait disparaître le prolétariat juif auquel ce syndicat-parti s’adressait. Il est issu de sa thèse de doctorat en histoire soutenue à l’Université de Monach en Australie. Les travaux de cet universitaire australien d’abord assistant professor à l’Université de Monach puis au département d’études juives du College of Charleston en Caroline du sud, portent sur la culture yiddish envisagée sous l’angle politique et culturel. Il anime par ailleurs un site consacré à l’historiographie du Bund (« bundism.net ») qui dresse l’inventaire des parutions scientifiques ayant trait à ce parti et à son idéologie.

Bundisme, sionisme et antisionisme

Le Bund polonais se dissout le 16 janvier 1949 lors du Congrès de Wroclaw. Ses représentants appellent leurs membres à rejoindre le parti communiste polonais. Pour autant, l’activité du Bund a perduré dans une vingtaine de pays d’Europe, aux États-Unis, au Canada, dans certains États d’Amérique latine, en Australie mais également en Israël.
Slucki qualifie d’« étrange mission » la transformation du Bund polonais en un mouvement transnational présent dans une douzaine de pays. De fait, sa perspective est double : le Comité de coordination mondial du Bund, d’une part, et les ramifications locales de l’organisation (en Europe de l’Est, en France, aux États-Unis, en Australie et en Israël), d’autre part. Cette mutation est également idéologique. Car de minoritaire, le sionisme devient après-guerre l’option politique dominante ce qui conduit le Bund à réviser profondément sa conception de la « nation juive » (Klal Israël). Ce processus difficile produit non seulement de violentes controverses mais remet profondément en question le socle idéologique du parti.
Dans son introduction, Slucki revient sur l’historiographie du Bund après-guerre. Il reproche notamment aux historiens Daniel Blatman et Yosef Gorny d’ignorer les ramifications locales du Bund et d’expliquer sa disparition par celle du yiddish et son incapacité à remettre en question ses présupposés doctrinaux. L’étude de Slucki vient nuancer ce constat. Au-delà, il n’existait aucune étude d’ensemble de l’évolution du Bund après-guerre. La plupart des ouvrages sur le Bund et le mouvement ouvrier juif concluent son histoire avec l’invasion de la Pologne comme ceux de Nathan Weinstock et Henri Minczeles, à s’en tenir aux auteurs francophones. Daniel Blatman dans son ouvrage Notre liberté et la vôtre retrace l’histoire du Bund jusqu’en 1949, année de la dissolution du Bund polonais qui serait aussi une « tombée de rideau ». Pourtant, avec la disparition du centre polonais, le mouvement s’est mué en une organisation mondiale dont les branches réunies en un Comité de coordination mondial tiennent congrès dans tel ou tel pays — Comité de coordination et non organisation mondiale sur le modèle sioniste. Les rapports de l’organisation avec le sionisme et Israël — non synonymes pour le Bund — sont une autre zone aveugle de l’historiographie que Slucki contribue à éclairer en se basant sur les résolutions prises par les branches locales du Bund, les tribunes et articles parus dans ses organes de presse de 1944 à la fin des années 1950.
Slucki décrit minutieusement les étapes qui ont conduit le Bund à « reconsidérer sa position ». Plutôt qu’un revirement radical, ce sont en fait des inflexions successives, des infléchissements qui se sont heurtés à des résistances internes d’une part, et ont divisé profondément le mouvement d’autre part. Au-delà, il interroge la postérité de l’antisionisme d’un point de vue juif dans ce nouveau contexte. Daniel Blatman écrit que les dirigeants du Bund « espéraient qu’en unifiant toutes les forces socialistes juives et refusant de considérer le sionisme comme la seule réponse possible au problème juif, ils pourraient éviter, au moins en partie, la disparition du Bund »  .
David Slucki entreprend une archéologie de ce nouveau combat devenu, pour la majeure partie du monde juif, résolument à contretemps.
C’est l’adjectif « complexe » qui, sous sa plume, qualifie le plus souvent les relations entre le Bund et Israël. Ces relations sont marquées par une « tension » permanente entre la doykayt (« hereness », i.e. lutte sur place ou vie en diaspora parmi les nations) et la reconnaissance de la place d’Israël au sein du monde juif. C’est in situ, en Israël, que cette tension a été la plus vive. Le Bund en Israël présente la situation la plus « complexe » sinon paradoxale puisque antisioniste et hostile à l’État au sein duquel il est implanté. L’impact de cette expérience singulière aurait été « considérable » dans le débat qui agite en permanence le Bund sur la question du sionisme.
Si la querelle entre les deux idéologies est ancienne, le contexte de l’après-guerre renverse le rapport de force jusque là favorable au bundisme et provoque sa division sur l’attitude à adopter face au sionisme. Une activité militante sur le sol israélien contribue à infléchir son antisionisme traditionnel. 
Bundisme et sionisme sont deux idéologies nées en Europe la même année, en 1897, qui incarnent de manière concurrente et différente l’idée d’un renouveau national juif dans la société moderne avec pour point de convergence l’idée de « nation juive » entendue comme la communauté de destin de tous les Juifs religieux ou non en Israël ou en diaspora.
L’ « algemeyner yidisher arbeter bund in Lite, Poyln un Rusland » (Union Générale des Travailleurs Juifs de Lituanie, de Pologne et de Russie) communément appelée « Bund », était le principal parti des travailleurs juifs dans l’Empire Russe puis en Pologne jusqu’à la Seconde Guerre mondiale. Son idéologie a progressivement intégré la notion d’autonomie nationale-culturelle  empruntée aux austro-marxistes Otto Bauer et Karl Renner. Il s’agit d’une conception « nationalitaire » dissociant nation et territoire. En conséquence, le Bund aspirait à participer à la Deuxième Internationale en tant que membre de la délégation russe et rejetait toutes les solutions extraterritoriales proposées par les autres partis ouvriers notamment sionistes et sejmistes.
Lors de la révolution de 1905, trois fractions se forment à partir de l’Organisation sioniste (Z.O.) : les Sionistes Socialistes, le Parti Socialiste-Sioniste (SERP) dont les membres sont appelés « sejmistes » et le parti ouvrier social-démocrate juif « Poale Sion » (Les travailleurs de Sion). Ceux-ci se concentrent sur les revendications territoriales. Ber Borochov souhaitait un changement de condition radicale des conditions de production dans la vie juive qu’il conditionnait à l’obtention d’un territoire propre où les Juifs pouraient prendre en charge l’appareil productif de manière normale et autonome. L’émigration devait se concentrer en Palestine. Cette région se prêtait mieux à une autonomie territoriale et politique car différente en tout point des pays traditionnels d’émigration.
En 1901, le 4e Congrès du Bund débouche sur une condamnation de principe très ferme de l’idéologie sioniste. Le sionisme est présenté comme un adversaire nationaliste dont le but est de détourner les travailleurs juifs de la lutte des classes, d’une part, et de les isoler des travailleurs non-juifs, d’autre part. Cette idéologie conduirait en réalité une politique « bourgeoise » sous le masque du socialisme. Il est, par conséquent, le pire ennemi du prolétariat juif organisé. Au sionisme, le Bund oppose un « patriotisme de la Galout ». Par ailleurs, le Bund redoutait les difficultés qui devaient surgir en Palestine : « ceux qui devraient être expropriés ne se laisseraient sans doute pas faire les bras croisés » prédisait le bundiste Balakan en 1905. De leur côté, les sionistes reprochaient aux bundistes de réduire la question nationale à une question culturelle et, surtout, linguistique. Pour Ber Borochov, le Bund ne s’en tenait qu’aux conséquences et non aux causes de l’oppression.
Le Bund et les différents courants sionistes de gauche s’opposent constamment jusqu’à la Seconde Guerre mondiale. Le conflit qui n’est pas seulement doctrinal, prend part dans la rue où il s’agit d’emporter l’adhésion de millions de Juifs. Il en est de même entre les deux guerres. Si le succès politique des sionistes est incontestable (ils disposent de 32 députés au parlement de Varsovie sur 47 députés juifs), leur division croissante (entre laïques et religieux, gauche et droite) permet au Bund de conserver une hégémonie politique. Les premières années de la Seconde Guerre mondiale n’ont d’ailleurs pas contribué à assouplir les positions respectives ni remédier à l’antagonisme, bien au contraire. 
Nouveau contexte d’après-guerre et renversement des rapports de force 
Sans disparaître, le modèle diasporique compose désormais avec un foyer juif en Palestine puis Israël dont la population croit rapidement avec l’afflux de réfugiés, personnes déplacées (Displaced Persons) en provenance d’Europe centrale et orientale. En outre, la popularité du sionisme grandit jusqu’à s’imposer désormais à beaucoup comme une solution sinon une évidence. Lyvik Hodes, militant et journaliste devenu le principal théoricien de la jeunesse bundiste, distingue quatre mouvements : le bundisme et le sionisme, tous deux séculiers et issus de la modernité, puis l’orthodoxie et l’assimilation. Il admet que le bundisme est le seul des quatre à ne pas rencontrer le succès tandis que le sionisme connaît désormais le plus fort engouement.
Au sortir de la guerre, le Bund hérite de décennies d’opposition radicale au sionisme, et cette position reste partagée par la plupart de ses membres. L’attachement des bundistes au socialisme et à la doykayt n’a pas faibli tout comme l’antisionisme. Mais ce conflit devient purement intellectuel et trouve essentiellement à s’exprimer dans la presse, à l’exception notable d’Israël où se développe dans les années 1950 une communauté yiddishophone qui milite également sur le terrain.
Peu avant la victoire des alliés, une polémique virulente entre bundistes et sionistes éclate dans les colonnes de Yiddish kempfer, l’organe des sionistes socialistes new-yorkais. Le Bund est attaqué sur trois fronts : il est invité à reconnaître la réalisation de l’idéal socialiste en Palestine ainsi que son échec à apporter une solution rationnelle au particularisme juif et à contrer la position sioniste selon laquelle une nation ne peut exister sans un territoire propre sur lequel se concentrer.
La réponse d’Emanuel Nowogrodski, secrétaire de la représentation américaine du Bund polonais en exil, repose sur une distinction entre la communauté juive, celle installée en Palestine par exemple, et le sionisme comme idéologie. Cette distinction, ou plutôt disjonction, ne cessera d’être affirmée par les instances du Bund dans les années suivantes et à compter de la proclamation de l’État hébreu.
Les critiques du sionisme trouvent pleinement à s’exprimer après-guerre notamment dans Unzer Tsayt sous la plume de Hodes. David Slucki le qualifie d’ailleurs de porte-parole officieux du mouvement sur la question du sionisme. Il rédige une série d’articles sur l’importance de la doykayt et de la diaspora dans la « résurrection » du monde juif.
La tâche que le Bund s’assigne est de changer les conditions de vie de l’humanité au sein de laquelle vivent les Juifs en considérant que l’existence diasporique et les échanges avec leur entourage ont représenté une richesse. Hodes estime que la création d’un État en Palestine n’a pas besoin de se fonder sur la doctrine sioniste. Et si tel était le cas, cela aurait pour effet mécanique d’affaiblir la culture juive et la diaspora d’une part, et de conduire à une guerre perpétuelle avec les voisins arabes, d’autre part. Hodes affiche tout autant son scepticisme sur l’engouement des Juifs de diaspora plutôt enclins, selon lui, à émigrer aux États-Unis. En 1947, il stigmatise au 22e Congrès du Bund le « désespoir » exploité par le sionisme et ses promesses de « rédemption ».
Le Bund à New York adopte une résolution, confirmée à la fin de 1948, condamnant le plan de partition. Préférence est donnée à un État binational ou une solution fédérative garantissant une égalité de droits entre Juifs et arabes. La même année, Emanuel Sherer propose tantôt d’approfondir la solution fédérative qui favoriserait une autonomie territoriale et culturelle tantôt de considérer qu’il n’entre pas dans les attributions du Bund de reconnaître Israël.
D’autres arguments d’ordre géostratégique sont avancés par la suite : la crainte d’une « guerre perpétuelle » certes, mais aussi celle de voir le sort des Juifs suspendu au droit de veto de l’URSS qui gagnerait dans la région une influence qu’elle n’avait pas. La prétention des sionistes de bâtir un État juif « quelqu’en soit le prix » est l’argument mobilisé en dernière analyse. 
Des militants divisés, des positions désormais nuancées 
Le débat s’intensifie et, si la position officielle ne varie pas lorsque la création de l’Etat d’Israël est proclamée en mai 1948, la deuxième conférence du Bund à New York cette même année fait apparaître une minorité à la fois anti-sioniste et pro-israélienne. Un compromis précaire est trouvé qui repose sur une volonté de rapprochement entre le Bund et les Juifs israéliens tout en rejetant l’agenda sioniste.
La question divise les rangs du Bund. Ainsi, Pinchas Schwarz, militant de longue date et secrétaire exécutif du YIVO (Institute for Jewish Research), invite le Bund à réviser sa position à l’égard du sionisme. La « question clé » est moins la reconnaissance d’un État, fait désormais accompli, que la nature des liens avec Israël. En fait, le Bund craint que le rejet de l’État juif ne l’isole auprès de la diaspora. Cet État apparaît même au fil des débats comme un moyen de remédier à la question des personnes déplacées.
La priorité est d’apporter une solution pratique au Yichuv non de réactiver le conflit d’avant-guerre compte tenu de l’absence de forces progressistes dans le monde arabe. La question immédiate est celle des relations à entretenir avec le Yichuv. La question se pose avec une particulière acuité car la promotion de l’hébreu se réalise au dépend du yiddish considéré comme la langue du juif diasporique (goles yid) dégénéré aux points de vue spirituel, national et moral.
Libmann Hersch, démographe spécialisé dans les migrations juives, qui dirige la tendance minoritaire, accepte l’État juif même s’il est « construit sur un volcan » et « entouré d’une mer d’hostilité » à condition qu’il repose sur des principes démocratiques et le règne de la Justice. Ses positions s’expriment à travers deux articles importants. « Notre dispute historique avec le sionisme » examine l’inflexion de cette querelle au regard de la Shoah. Il condamne l’exclusivisme du sionisme qui n’accepte de destin que « là-bas » dans la négation de la diaspora et soutient que la condition juive peut exister à la fois « ici » et « là-bas ». Ce clivage révèle, selon lui, deux conceptions du judaïsme. L’une fondée sur le « peuple », celle du Bund, l’autre sur « la terre », celle du sionisme. En somme, le conflit opposerait la théorie du « peuple-monde », car les Juifs sont un peuple « exilitique » selon Sherer, à celle du peuple-État, « Eretz Ysroel » versus « Folk Israël ». En conséquence, Hersch propose de reconnaître la légitimité du sionisme s’il renonce à nier la diaspora. Car toute amputation de la diaspora heurte le corps du peuple juif dans son entier selon Hersch. En tout état de cause, le Bund ne devrait pas, selon lui, se proclamer ennemi d’Israël.
La conférence de 1955 se heurte encore à la difficulté de dissocier l’État juif du sionisme. Elle débouche sur la consécration de la notion de « peuple-monde » et la condamnation de la création d’Israël. Surtout, alors que 6% des Juifs vivent en Israël, celui-ci menace de s’ériger en porte-parole du judaïsme mondial. Le « totalitarisme hébraïque » qui régnerait sur le Yichuv est dénoncé de plus fort. Pour Y.Y. Trunk, qui réaffirme le principe de la doykayt, le centre de gravité du monde juif se déplacera vers les États-Unis.
Le problème des réfugiés palestiniens se superpose avec celui des personnes déplacées pressés par l’agence juive de rejoindre Israël, les réfractaires étant qualifiés de « traîtres ». Pinchas Schwartz avance même que les Israéliens seraient devenus « oppresseurs » car guidés par une conception étroite de leur sécurité. Mais l’impasse des relations entre Israël et ses voisins arabes fragilise la doctrine de l’État binationale proposée au mieux par le Bund y compris après la création d’Israël. 
Un nœud gordien : être juif antisioniste en Israël 
Un autre élément de complication tient au développement du Bund en Israël. Des dizaines de bundistes ont gagné le Yichuv dans les premières années de la guerre longeant la mer Caspienne comme soldats de l’armée polonaises parmi lesquels Hershl Himmerlfarb représentant du Bund au Conseil de Varsovie avant-guerre. Leur situation est toutefois précaire, temporaire et ils se perçoivent comme des réfugiés en attente de regagner leur pays dès que possible. Clandestin jusqu’en 1951, le Bund israélien occupe une position minoritaire et contestataire, celui d’un « ennemi intérieur », qui s’exprime via son journal Lebns-Fragn (« Questions de vie »). Ce bimensuel en yiddish est publié à compter de mai 1951. Isachar Artuski en est le fondateur et Ben-Zion Tsalevitsh le directeur de la publication. Il fait le lien entre activisme politique et culturel, ce qui est une constante du Bund. Le nombre de ses lecteurs est évalué à 2000 en 1959. C’est le domicile du militant Itke Tsalevich sur Basel Street à Tel Aviv qui de facto sert de local. Il devient une véritable bibliothèque yiddish et un centre d’où sont expédiés des colis pour les militants prisonniers des camps soviétiques.
Comment dépasser le paradoxe de la présence bundiste en Israël ? Le Bund doit-il rejoindre la Histadrut, principal syndicat de travailleurs israéliens ? Comment doit-il affronter la relégation et l’interdiction du yiddish ? Telles sont les questions qui se posent à la Conférence de mai 1952 lors de laquelle le parti réaffirme son opposition au sionisme décrit comme une promesse rédemption trompeuse d’une part, et sa volonté d’un État démocratique bâtit sur les principes d’égalité et de justice sociale, d’autre part.
Considérés et se considérants comme hérétiques en Israël, les bundistes essaient toutefois de prendre part à l’édification du projet national. Cet état de fait contribue à modifier la perception du Comité mondial du Bund sur la situation en Israël. La disjonction État juif/sionisme est une ligne constante qui peut conduire un bundiste argentin, Pinie Wald, à soutenir que l’existence de l’État juif n’est pas la réalisation du sionisme. L’implantation du Bund favorise les visites de dirigeants, militants, et développent leurs affinités. Ceux-ci constatent de visu les réalisations du jeune État et, tout en continuant à rejeter le « sionisme », révisent quelque peu leur jugement. Ainsi, en 1947, Libmann Hersch rapporte de fortes impressions de sa visite notamment des réalisations des kibbutzniks ou du développement de l’Université hébraïque de Jérusalem. Il en est de même du leader bundiste Emmanuel Patt qui, en 1954, se dit impressionné par la vitalité de l’identité juive et du socialisme dans la jeunesse. La distribution de Lebsn-Fragn dans le monde entier (New York, Melbourne, Mexico etc.) favorise l’infléchissement de sa position.
À la deuxième Conférence de 1954, les circonstances conduisent à l’apparition d’une tendance minoritaire qui estime que l’opposition au sionisme a vécu, et que les énergies doivent se concentrer sur des tâches prioritaires. La fin de la querelle contre le sionisme apparaît comme la condition de la préservation de l’État. Cette situation objective interroge sa base idéologique. La position « dedans dehors » des bundistes israéliens n’apparaît plus tenable pour certains, conscients d’être partie intégrante de cet État et soucieux de son bien être. Leur position singulière est « non-sioniste » plutôt qu’antisioniste d’autant que la situation du yiddish s’améliore avec l’arrivée de réfugiés yiddishophones. Artuski la qualifie de « favorable » même si la création d’une chaire à l’Université hébraïque de Jérusalem en 1959 suscite une certaine méfiance de l’organisation.
Le combat devient essentiellement culturel à mesure que l’organisation s’enracine : une classe de yiddish est ouverte à Tel-Aviv puis à Haïfa et Beer-Shev’a. Le gouvernement s’était opposé à la parution de Lebns-Fragn qui grâce à l’obstination d’Artuski paraît légalement. Lors des élections de 1959, le Bund se présente sous sa propre bannière et souhaite attirer l’attention sur son programme qui repose sur trois piliers : l’égalité entre tous les citoyens, le renforcement des liens culturels avec la diaspora, une feuille de route pour des négociation en vue de la paix. Le succès est faible mais des soupçons de fraude entachent le scrutin.  Dans le même temps, des membres rejoignent les autres partis par pragmatisme.
Si les années 1950 marquent l’apogée du Bund en Israël, celui-ci se résume à une poignée d’activistes énergiques au premier rang desquels Artuski. Son journal qui paraît sans interruption jusqu’en 2014, est sa plus grande réalisation et réussite. Cela a été rendu possible grâce à la théorie selon laquelle la doykayt est possible et souhaitable même dans un État juif.
Lors de la Conférence mondiale de 1955 à Montréal, le Bund admet pour la première fois qu’Israël peut jouer un « rôle positif » dans la vie juive. Ce rapprochement est lent et graduel. Toute une palette de positions s’expriment. L’historien Jacob Sholem Hertz incarne une voie médiane et pragmatique selon laquelle Israël doit être jugée en fonction de ses actes et non d’un point de vue théorique. Les résolutions de la Conférence condamnent toutefois la prétention du sionisme à faire d’Israël le foyer de tout le peuple juif, appelle à l’égalité des droits, une « paix juste » avec les Arabes, car c’est une « question de vie ou de mort » pour les Israéliens, et encourage le respect et le développement du yiddish.
L’étude de Slucki qui s’achève au mitan des années 1950 permet de constater que la position du Bund n’a pas été figée, monolithique mais a évolué en tenant compte des circonstances. Elle témoigne d’une méfiance à l’égard de la solution étatique renforcée par la découverte de l’ampleur du génocide. C’est une raison importante, encore largement ignorée, de la prévention du Bund à l’égard du sionisme. 
Curieusement, l’ouvrage n’aborde pas les dernières années du Bund en Israël qui tient son 7e Congrès en 1985 lors duquel l’attachement au « bien être d’Israël » est réaffirmé. Ce faisant, il laisse un sentiment d’inachevé. Quelques représentants de la jeune génération israélienne se sont récemment intéressés à ces outsiders devenus objet d’une curiosité et d’un intérêt qui n’est pas sans lien avec la nostalgie du yiddishland et la quête des racines. Ainsi, dans Bunda’im (« Les Bundistes »)un documentaire réalisé en 2013, le réalisateur israélien Eran Torbiner est allé à la rencontre de vieux militants du Bund qui ont poursuivi leur combat politique en Israël.
Il aurait été certainement pertinent d’interroger la postérité de l’antisionisme juif en Israël et le legs de la doctrine bundiste. Pour Yosef Gorny, il consiste essentiellement dans la lutte contre l’assimilation et l’opposition au « colonialisme sioniste » (sic). D’autant plus que le bundisme est souvent mobilisé dans la critique contemporaine du sionisme, parfois aussi de manière décontextualisée et instrumentale. Dans quelle mesure l’ « Israeli Socialist Organisation » connue sous le nom de son organe de presse « Matzpen » (« La boussole ») fondée en 1962 peut-elle se rattacher à cette tradition ? Dans les années 1960, et singulièrement après la Guerre des Six Jours alors que le Bund proclame son attachement à l’existence et à la sécurité d’Israël, le Matzpen allie un radicalisme de gauche (communistes expulsé du Maki, trotskistes et anarchistes) à un antisionisme théorique et pratique. À compter de cette période, ses revendications portent essentiellement sur la reconnaissance du « droit au retour » des Arabes et à l’autodétermination fondée sur le postulat de l’essence colonialiste et impérialiste du sionisme. Cette critique du sionisme peut-elle revendiquer l’héritage bundiste ? S’en réclamait-elle explicitement d’ailleurs ? Il y aurait certainement matière à dresser une généalogie précise pour mesurer la portée exacte de l’héritage bundiste.
 
Titre du livre : The International Jewish Labor Bund after 1945. Toward a global history
Auteur : David Slucki
Éditeur : Rutgers University Press
Date de publication : 25/10/16
N° ISBN : 9780813551685
 

[Source : www.nonfiction.fr]

Un excelente grupo de conferencistas para un gran tema: « El Bund, ideología y permanencia » con Tamara Gleason, Rebeca Mareyna, Maia y Daniel Ajzen.

Origen del movimiento y su evolución.

[Fuente: http://www.diariojudio.com]

Il faut déboulonner le « New York Times »

Pour le quotidien américain, « les institutions françaises devraient prêter plus d’attention à l’histoire de l’esclavage du pays, au lieu d’honorer une icône de la suprématie blanche ».


Le journal américain qui a la prétention de se considérer comme LE quotidien de référence, est surtout devenu l’organe officiel de l’intolérance des prétendus progressistes de l’idéologie victimaire « woke ».

Sacrés Français!

Ne tirant aucune leçon des démissions l’an passé de son rédacteur en chef de la rubrique d’opinions James Bennet et de sa journaliste vedette Bari Weiss, le petit télégraphiste de la pensée unique qu’est devenu le New York Times ne ménage particulièrement pas ses efforts pour s’attaquer à la France et aux Français, ces « mauvais élèves de l’Empire du Bien », comme l’écrivait Philippe Muray.

Les « éveillés » du New York Times, adeptes des purges par l’effacement et le bannissement (la cancel culture) s’en prennent cette fois dans l’édition du 18 mars à Napoléon Bonaparte qui ne serait pas « un héros à célébrer ».

Aucune nuance ni mise en perspective historique

Ressassant l’argument du rétablissement de l’esclavagisme dans les colonies en 1802 (oubliant au passage le contexte historique de cette décision, les regrets de l’Empereur et l’abolition de la traite négrière pendant les Cent jours en 1815), Napoléon est considéré comme « le plus grand des tyrans, une icône de la suprématie blanche »… Sans aucune nuance ni mise en perspective, l’auteure de la tribune oublie la leçon de Marc Bloch sur le rôle de l’Histoire: comprendre et ne pas juger car « à force de juger, on finit presque fatalement, par perdre jusqu’au goût d’expliquer ».

Pire, elle fantasme l’organisation par l’État français (notamment à l’école) d’une ignorance officielle des sujets qui fâchent concernant Napoléon. C’est bien sûr faux, puisque le rétablissement de l’esclavagisme n’a jamais été nié en France et la polémique vient d’ailleurs et surtout depuis quelques années de certains Français eux-mêmes, adeptes de la repentance et du rejet de tout ce qui symbolise et doit représenter pourtant  – en bloc – avec ses lumières et ses ombres, notre histoire nationale.

Les éditorialistes américains sont à l’ouest

Si malheureusement certains Français dénigrent notre passé, comment font-ils pour ne pas être révoltés par les attaques subies par notre pays suite à la décapitation de Samuel Paty devant le collège où il enseignait, après avoir été menacé pour avoir montré les caricatures de Charlie Hebdo dans le cadre d’un cours sur la liberté d’expression ?

L’annonce des mesures contre le séparatisme islamiste par Emmanuel Macron a conduit l’automne dernier à un déchaînement de la presse anglo-saxonne : pour le Financial Times  « la guerre de Macron contre le séparatisme islamiste ne fait qu’accroître les divisions en France »; Politico titre sur « la laïcité, dangereuse religion française »; pour le Washington Post: « au lieu de s’attaquer au racisme systémique, la France veut réformer l’Islam »; et enfin le New York Times pose la question « la France alimente-t-elle le terrorisme en essayant de l’éradiquer ? ».

Pour cette presse, c’est donc un peu notre faute si nous sommes visés par des attaques terroristes et si un professeur d’Histoire se fait décapiter… Ce qui fait dire au président français dans sa réponse au New York Times« Quand je vois, dans ce contexte, de nombreux journaux qui je pense viennent de pays qui partagent nos valeurs, qui écrivent dans un pays qui est l’enfant naturel des Lumières et de la Révolution française, et qui légitiment ces violences, qui disent que le cœur du problème, c’est que la France est raciste et islamophobe, je dis : les fondamentaux sont perdus ».

Mais que peut-on espérer d’une presse libérale américaine qui n’est plus du tout « Charlie »? Le New York Times a d’ailleurs décidé fort peu courageusement il y a quelques années de supprimer toutes les caricatures dessinées de ses pages pour éviter de froisser les sensibilités…

Il est peut-être temps de déboulonner la statue du New York Times ?

Suprémacistes

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[Illustration : Pacific Press/SIPA – numéro de reportage : 01003059_00001 – source : http://www.causeur.fr]

En una entrevista con Télam, el narrador de « El monstruo de la memoria » asume los desafíos de acompañar las visitas de estudiantes, soldados y políticos de Israel para reflexionar sobre qué es la memoria y cómo se gestiona.

El autor corre el manto del relato oficial y enfrenta las dudas que atraviesan al agente de la memoria.

El autor corre el manto del relato oficial y enfrenta las dudas que atraviesan al agente de la memoria.

Publicado por Ana Clara Pérez Cotten

Con la excusa de una carta dirigida al director del instituto israelí encargado de la preservación de la memoria del Holocausto, el narrador de « El monstruo de la memoria », la tercera novela del abogado y escritor israelí Yishai Sarid (1965) recrea sus días como historiador y guía de los campos de concentración en Polonia, y asume los desafíos de acompañar las visitas de estudiantes, soldados y políticos de Israel para reflexionar sobre qué es la memoria y cómo se gestiona.

« La gente tiene una suerte de fascinación por las atrocidades y el horror. Las víctimas ya no pueden hablar y entonces no podemos escuchar sus historias. Las conocemos justo en la última y terrible estación de sus vidas », sostiene el autor en una entrevista con Télam y defiende una línea poco edulcorada sobre cómo revisitar la historia.

« Odio y maldad. También economía. Economía, odio y maldad, eso es lo que aquí pasó. Era la primera vez que me permitía apartarme del guion fijado para ellos, el que siguen todos los guías, así que me temblaba la voz. Aquí fue borrado el espejismo llamado hombre », le asegura el protagonista, representante de la memoria, a un grupo de jóvenes durante una visita a Auschwitz.

Con un registro claro y económico en artificios, el autor corre el manto del relato oficial y enfrenta las dudas, la bronca y ciertas desilusiones que atraviesan al agente de la memoria.

Sarid, hijo del fallecido diputado de izquierda y ministro Yossi Sarid, es crítico con la cultura oficial de la memoria israelí y se vale de un guía en los recorridos por los campos de exterminio nazis para plantear las grandes cuestiones. ¿Hasta qué punto este tipo de ejercicio de la memoria o los actos solemnes no convierten a los campos en monumentos que sacralizan la última parada, la de la muerte?

Cómo luce Auschwitz en la actualidad.

Cómo luce Auschwitz en la actualidad.

-Sarid, la novela tiene un trabajo de investigación muy detallado. ¿Cómo encaró el proceso?

Durante años leí mucho sobre el Holocausto, cientos de libros: de historia, memorias, novelas, escritos teológicos, historias sobre los tratados entre las naciones, vi muchos documentales y me reuní con sobrevivientes. Durante mucho tiempo quise escribir sobre el Holocausto y me dediqué a buscar el ángulo y la voz adecuados para hacerlo. Después, hice un viaje de dos semanas a Polonia y visité varios campos de exterminio. Ese viaje fue muy duro emocionalmente, pero cuando regresé a casa, ya sabía lo que tenía que escribir.

-El personaje principal por momentos está desconcertado porque asegura que sabemos más de la vida y la lógica de los asesinos que de las víctimas. ¿Por qué cree que pasa eso?

La gente tiene una suerte de fascinación por las atrocidades y el horror. Las víctimas [los muertos] no pueden hablar y entonces no podemos escuchar sus historias. Las conocemos justo en la última y terrible estación de sus vidas, donde fueron asesinadas. De algún modo, reconstruimos el proceso de exterminio en la literatura, en el cine y en la historia una y otra vez, pero no aprendemos sobre la vida de esas personas. Hablamos de los seis millones, pero no los vemos como individuos; cada uno de ellos es único y precioso.

-Durante una de las visitas a los campos de concentración, el protagonista trata con un director de escuela que encabeza una suerte de arenga y que tiene un mensaje muy contundente para sus alumnos, un grupo de jóvenes de una escuela de Israel: « Nosotros ganamos ». ¿Cuáles cree que son los riesgos históricos de las interpretaciones en términos de ganadores y perdedores?

No hubo victoria en el Holocausto. Fue lo más terrible que le sucedió al pueblo judío y a la humanidad, y la herida estará abierta para siempre. Por supuesto, es muy bueno que el pueblo judío haya sobrevivido y que se haya creado Israel, pero está mal presentarlo como una victoria. Simplemente, disminuye el significado del Holocausto.

« La gente tiene una suerte de fascinación por las atrocidades y el horror. Las víctimas ya no pueden hablar y entonces no podemos escuchar sus historias. Las conocemos justo en la última y terrible estación de sus vidas »

-El protagonista cuestiona cierta banalización del Holocausto (por ejemplo, quienes diseñan videojuegos) y también a quienes reproducen el odio (uno de los alumnos propone, durante una visita, « hacer lo mismo con los árabes ») ¿Cómo se puede lidiar con « el monstruo de la memoria » para no repetir el error?

Debemos enseñar las lecciones del Holocausto. Cómo defender la democracia y los derechos humanos, la idea de que debemos luchar contra el antisemitismo y el racismo. También es importante educar a los jóvenes para resistir a los poderosos y fuerzas que dan órdenes equivocadas. Y contar las historias de aquellos que hicieron justicia en todas las naciones y de quienes arriesgaron sus vidas para salvar a otros.

-¿Por qué eligió que el narrador usara la palabra « alemanes » y no « nazis »?

-Porque no hay distinción entre alemanes y nazis con respecto a la guerra y el Holocausto. Usar la expresión « nazis » implica saltearse la culpa de Alemania, y eso es histórica y moralmente incorrecto.

-¿Por qué le interesó abordar la figura de los Kapos, aquellas víctimas que se volvieron victimarios?

-Los judíos fueron víctimas del Holocausto. Estábamos indefensos e impotentes y casi nadie nos ayudó. Pero ahora somos independientes y fuertes en Israel, no podemos seguir viéndonos como víctimas eternas. Debemos mirar también nuestras acciones y juzgarnos a nosotros mismos de acuerdo con las normas morales que juzgamos a los demás. Desafortunadamente, el racismo y el nacionalismo existen en Israel, y eso es algo terrible contra lo que que debemos luchar y resistir.

-Libros, videojuegos y películas. ¿Cuál es el riesgo de hacer ficción con el Holocausto?

-No me gustan las historias inventadas sobre el holocausto porque hay 6 millones de historias reales que contar. Los hechos históricos correctos son muy importantes y no deberíamos jugar con ellos. Por tanto, la parte ficticia de mi novela forma parte del presente y los detalles de lo ocurrido en los campos son absolutamente correctos. Al mismo tiempo, el arte debe ocuparse del Holocausto para transmitir el impacto de la tragedia y el horror.

-En la Argentina, la desaparición de personas durante la última dictadura militar y el posterior juicio a los responsables abrió una serie de corrientes e interpretaciones sobre el rol de la memoria en la sociedad. ¿Cree que hay alguna cuestión alrededor de la idea de memoria que pueda estar más allá de las fronteras?

La memoria no es algo constante. Es un fenómeno humano influenciado por muchos factores. Está abierto a la manipulación por parte de políticos, militares, clérigos y otros grupos, que intentan torcer la memoria para servir a sus intereses. Al final, hay una regla simple que debemos enseñar a nuestros hijos y practicar en nuestras vidas: respetar a otras personas y tratarlas con dignidad y no permitir que ninguna nación, religión o ideología supere eso.

 

[Fuente: http://www.telam.com.ar]

Una conversación con una de las últimas críticas musicales de Bulgaria

Ekaterina Docheva, decrescendo.net

Cuando recibí la invitación para sentarme en el diván del Lorca con Marco, Martina y Joe, mi primer deseo fue presentar a Katya Docheva, una magnífica crítica musical, tan llena de hermosas historias. Con un estilo inconfundible, nos permite conocer casi medio siglo de pasado socialista del que tan dolorosamente nos hemos separado y, al mismo tiempo, dibuja un presente marcado por tres décadas de transición democrática inconclusa.

Conocí por primera vez a Ekaterina Docheva en el Palacio Nacional de la Cultura durante un concierto al que esperaba asistir desde hacía años. En aquel momento mi marido trabajaba como redactor en el periódico Kultura y recibió una invitación para el recital de mi admirada Angela Gheorghio, la cual seguía manteniendo una impresionante forma vocal, resultado de la reputada escuela rumana en la que se formó. Cuando me cedió su entrada, mi marido me comentó que estaría en el concierto junto a Katya Docheva, tal y como familiarmente era conocida. Maravillosa coincidencia que acabara compartiendo aquella experiencia con una reconocida crítica musical a la que admiraba.

Desde hace tiempo seguía su columna semanal y siempre mostré un gran respeto por su afilada pluma, tan implacable y diferente del resto de los análisis de Kultura. Cuando llegué a mi asiento me encontré a la derecha una dama de pelo corto, estilosa y descuidada, que, con sus primeras palabras y una mirada elegante de intelectual, enseguida me conquistó.

De esta manera comenzó nuestra amistad, que más adelante se fue transformando en encuentros más frecuentes, con fascinantes paseos matutinos por el parque, conversaciones sobre música y mucho más. Katya es una lectora incansable que, además de seguir la actualidad musical, se interesa por cine, el teatro, la literatura, la poesía y un sinfín de artistas e historias, tanto búlgaras como europeas.

¿Cómo acabó siendo “la guerrera solitaria” en el campo de los críticos musicales en Bulgaria?

Antes de nada, me gustaría decir que se trata de una definición no del todo precisa, ya que hasta hoy en día, junto a mí hay otras personas, sobre todo señoras, que se dedican a la crítica. Es cierto que hemos quedado pocas personas, y puede que mi trabajo sea más visible, porque escribía cada semana textos de crítica en el periódico Kultura. Pero en las páginas de este periódico reflejaban noticias de la vida musical y operística con más frecuencia personas como Natalia Ilieva y Boyanka Arnaudova. Como redactora del periódico lograba atraer a veces a personas de buena pluma como los compositores Dragomir Yosifov o Mihail Goleminov. Pero sucedían rara vez. Mire, antes de los cambios políticos en Bulgaria, durante el socialismo, ante todas las limitaciones que había por entonces, había una tribuna de crítica musical. Casi todos los periódicos y diarios tenían una página dedicada a la cultura que ofrecía también reseñas de arte. Había críticos buenos y valientes. Una tribuna de crítica bastante seria hasta 1990 era la revista Bulgarska muzika, que era el órgano de la Unión de Compositores. La misma unión acabaría cerrándola, lo cual traería consigo un gran daño a la posibilidad de que se siguiera la vida musical en Bulgaria. La revista tenía una extensión de 100 páginas y cubría los eventos musicales más interesantes del país. Así que el territorio existía y el territorio mismo exigía que hubiera gente dedicada. Después del 10 de noviembre de 1989 estas ediciones se clausuraron. Quedó solamente el periódico Kultura que, junto a su continuación, seguiría existiendo hasta final de 2019. Muchos críticos musicales se rindieron porque el mundo del dinero empezó a vengarse. De repente, salieron a la luz demasiadas dependencias y empezó a resultar incómodo escribir sobre crítica actual de compositores y artistas. Bulgaria es un país pequeño y, como decimos nosotros irónicamente, en él todos somos familiares, o amigos, o compañeros. Y más aún en el sector musical. No habría manera de que no hubiera conflicto de intereses, que no tuvieran lugar pequeñas pero eficaces venganzas. Por ello, seguramente, la mayoría de las plumas se orientaron hacia el trabajo científico, hacia los medios electrónicos, y fueron abandonando la esfera de la crítica actual. El año pasado tomé la decisión de hacer este blog sobre crítica y escribir para mi propio placer.

¿Cuál crees que es el futuro de la música clásica en Bulgaria?

No pretendo sonar muy pesimista, pero yo creo que esta esfera musical, tan importante y fundamental en el desarrollo del hombre, no tiene futuro en nuestro país. Resultó que nuestra tradición en relación a la música clásica está bastante relegada. Hoy día ella apenas es respetada por instituciones que se dedican a financiar las artes, y por ella solo se interesa una pequeña parte de la sociedad. Algo que no debería sorprendernos, teniendo en cuenta que en la educación primaria y secundaria toda la formación relacionada con la música clásica está absolutamente recortada y reducida. Mi amargo balance después de décadas en este oficio es que toda la cultura sinfónica de Bulgaria ha sido deus ex machina —rebajada—. La sociedad, el pueblo se emociona de otro tipo de música. La red de orquestas sinfónicas, teatros de ópera y coros fue creada después de 1944. Por, entre otros, el gran papel compositor y director Georgi Dimitrov. Como pedagogo, él “creó” a fantásticos directores corales como Vasil Arnaoudov, Georgi Robev, Zahari Mednikarov, Metodi Grigorov, Hristo Arishtirov… son bastantes.

Se sabe que Bulgaria era un país de coros, además de un país con muchas orquestas sinfónicas. Ellas también fueron creadas por personalidades —desde Konstantin Iliev, Dobrin Petkov, Ruslan Raychev—… Estas personas tuvieron conciencia de músico para lanzar fuerzas, para formar a la población con un repertorio desconocido, de hacer tradición. Había también conciertos educativos, conciertos por la televisión, los músicos y el Estado trabajaban para acercar al ciudadano búlgaro a las salas de conciertos. Y en gran medida esto se logró: ahora me doy cuenta de que por ello el aislamiento en el que vivíamos también contribuyó. No había muchas tentaciones, no había medios para obtener todo tipo de información. Los conciertos y los espectáculos de ópera eran una parte importante de las necesidades culturales del búlgaro medio.

Pero también en los años después de la caída del régimen la voluntad libre del pueblo dio a luz al pop folk, y el público demostró que lo anterior nunca lo habría alcanzado. Es un hecho que la frenética alegría de poder comprar tus cosas favoritas ha desplazado la idea de que la cultura común, además de material, debe poseer un individuo. En treinta años, un gran porcentaje de la población búlgara me ha transmitido que no está interesada en esto. Así que para la música clásica en Bulgaria el mercado (expresándome en lengua actual) se redujo al mínimo. Por ejemplo, para Sofía, una ciudad de dos millones de habitantes en su área metropolitana, donde los centros comerciales están llenos, el público de un concierto de música clásica está entre 1000 y 1500 personas como mucho.

Nosotros somos un país rural y por mucho que nuestros pueblos se vacíen y aumenten los habitantes de las ciudades, la gente sigue alimentada de otra cosa. A ellos les encanta alegrarse o llorar por la música, pero no añadirle emoción y sentido mientras la escuchan. Y mucho menos estar interesado en los usos de la música, además de como fondo para una de sus experiencias. A la gente le gusta el folclore, la música pop, y muchos de ellos se emocionan por el pop folk. Durante los últimos 10 años vengo escuchando que el pop folk se ha ido desvaneciendo. Pero yo no lo tengo nada claro. Lo que se ha desvanecido es la música clásica.

Las atrocidades que se cometen contra los instrumentalistas búlgaros, aquellos que tocan durante horas todos los días desde niños, a cambio de un salario mísero, con su escasa paga, los expulsan de Bulgaria. Abandonan el país y empiezan a trabajar en el extranjero. Y aquí la falta de músicos es cada vez más evidente. Las orquestas fueron recortadas, pronto empezarán a cerrarlas, directamente. El repertorio es también muy reducido, ya que la mayor parte de las orquestas estatales se convirtieron en orquestas tipo “simfonieta”, es decir, de máximo 40 miembros. En este tipo de agrupaciones no pueden tocar nada que sea de después del siglo XVIII, excepto algunas composiciones de cámara de épocas más tardías. Y el público en estas ciudades, mientras existe, suele escuchar Haydn, Mozart, Beethoven. ¡En el siglo veintiuno!

Hace poco vi un documental sobre el director Kent Nagano. Él tuvo algún problema con el público en Montreal, donde fue director general durante mucho tiempo. Observó que solo gente mayor acudía a los conciertos. Entonces se propuso llevar a la gente joven y consiguió hacerlo durante varios años. Empezó por las guarderías. ¡Lo logró! Pero allí es otra sociedad. No rechazan la música clásica como algo aburrido, elitista… En Alemania, por ejemplo, un gran porcentaje de la gente simplemente no pueden imaginarse la vida sin esta cultura musical. Después de la guerra, los alemanes vivían en la miseria, pero nunca venderían su piano, y en cada casa había uno. Igual que lo que aquí ocurrió hace tiempo: ¡un trabajador de un centro cultural destrozó un piano porque era ya muy viejo! ¿Este hecho qué os dice? Esta es la realidad. No tengo ninguna sensación de que las cosas vayan a ir a mejor.

¿Qué te hace seguir escribiendo?

Mi determinación por no rendirme.

¿Esta es tu manera de dedicarte a la música?

Me encanta la música. Es mi salvación. Me ha salvado en muchas ocasiones. De la depresión en 1990, cuando me di cuenta de que sin mis ocupaciones la vida puede seguir en Bulgaria, es decir, que soy totalmente innecesaria. Pero no me rendí. Por supuesto que durante este tiempo he trabajado en otras cosas. La crítica nunca ha sido una fuente principal de ingresos como para vivir escribiendo reseñas. Pero yo sigo, insistiendo…

Sí, a veces observo cosas que me devuelven la esperanza. Fui a un concierto de Maksim Vengerov con la filarmónica de Sofía y el director Nayden Todorov. Tocaron el primer concierto de Shostakóvich. En mi opinión, es el heredero de David Óistraj, el primero que interpretó la obra. El concierto es muy trágico, fue compuesto cuando salió el decreto de 1948, con el que se ven afectados todos los célebres compositores rusos de la época: Shostakóvich, Prokofiev, Khachaturian, Myaskovsky. A Shostakóvich lo despidieron cuando trabajaba de profesor. Él compuso esta pieza de concierto y no permitió que se interpretara hasta siete u ocho años después. Stalin tuvo que morir, y entonces pudo interpretarse.

Esta insinuación de Vengerov fue real para mí, auténtica, rompió, difundió la música y la hizo aún más influyente. El director Nayden Todorov había hecho muy bien el trabajo con la filarmónica. Allí había una audiencia real. La “Sala Bulgaria” estaba llena y entonces tenía una sensación ya muy olvidada. No se oía ni un aliento entre la audiencia. Era tal el silencio en la sala… Es cierto que lo que salía del escenario era algo muy fuerte. Tanto es así que sientes dolor físico, ganas de llorar. Y dado que el clima es tan especial ahora para muchas personas, para todas las personas, de alguna manera fue excepcional. Y luego escuché a la audiencia, escuché que todavía hay esperanza en este público, pero eran unas 500 personas. Sí, en cada ciudad aún no han muerto 500-1000 personas, para quienes esta música es importante. Y, dicho esto, no me considero muy pesimista, pero desafortunadamente una persona realista y tranquila.

El director Plamen Djurov, con quien hablamos también sobre este asunto, dijo una vez algo muy preciso: “No pudimos transmitir a los jóvenes la carga que nuestros maestros nos legaron”. Los músicos no se unieron después de los años 90. Se dividen aún más.

Los compositores de la vieja generación Vesselin Stoyanov, Marin Goleminov, Pancho Vladigerov, Lyubomir Pipkov, Filip Kutev fueron pilares serios y mantuvieron la autoridad de la música. Aunque a muchos de ellos les resultaba difícil llevarse bien. No recuerdo haber visto ninguna amistad entre estas personas, pero mantuvieron la autoridad de la música.

Después de la caída del régimen, a principios de la década de 1990, la Unión de Compositores Búlgaros se dividió en dos. La mitad quería que todo se vendiera. Se presentó una demanda. Aquí no había ya ni partidos ni gobierno. Aquí había algo un tanto retrógrado, una gran dosis de gente filistea, y por supuesto, la ideología del dinero. A una parte de los miembros de la Unión de Compositores Búlgaros la llamamos compositores, a la otra, suscriptores. La masa de gente incompetente o medianamente calificada cerró la revista Bulgarska muzika. Este fue un crimen contra la cultura musical búlgara. Fue entonces cuando abandoné la Unión de Compositores. Esta grieta expulsó de Bulgaria a personas muy capaces como Bozhidar Spasov, Alexander Kandov; se fueron por esto. Este fue el momento en que el dicho “El violinista su casa no mantiene” volvió a cobrar relevancia en nuestro país.

¿No crees que este es un problema global? Incluso los países ricos reconocen que es muy difícil trasladar la música clásica al futuro, porque el espíritu y el mundo en el que esta música nació desaparece y el mundo moderno, la cultura y la economía, no le dejan espacio. No obstante, se están haciendo esfuerzos colosales. El único arte en el que el pasado domina radicalmente el presente es la música clásica. Ni en las bellas artes ni en el teatro existe un dominio tan drástico del pasado sobre el presente.

Muchos países se enfrentan a este problema. Por ejemplo, en EEUU solo hay orquestas privadas. Se desconoce cuál será su futuro. Hay patrocinadores que financian las orquestas. La Metropolitan Opera es de propiedad totalmente privada. La orquesta de Washington, la filarmónica de Nueva York…

Pero nosotros estamos en Europa. Es cierto que cuando decimos música clásica mucha gente entiende que se trata de la música hasta mediados del siglo XX. Y estoy hablando de la música clásica como un concepto más amplio. El tema de la música contemporánea en nuestro país es bastante diferente al de otros países. No digo que la música contemporánea llene los estadios allí, pero todo es cuestión de algún tipo de práctica educacional e inclusión. ¡Curiosidad! No puedes involucrar a alguien para que escuche incluso a Schnittke cuando estudia música hasta el octavo grado y cuando además no le llegan ni siquiera más de diez compositores distintos. Luego, el entorno en sí: no puedes escuchar obras de tres estrofas y un estribillo durante todo el día y luego acercarte a una sinfonía de 30 o 40 minutos de duración. Se debe desarrollar la paciencia, la imaginación del oído, se debe mostrar la belleza al joven para descubrir la mina de este tipo de música.

¿Qué hay de la música de los compositores búlgaros que merezca ser transferida al futuro, salvada, con la esperanza de que alguien más en algún lugar pueda escucharla? Aquí está el siglo XX detrás de nosotros, tenemos bastante distancia.

Hay muchas obras de este tipo. El hecho de que no se hayan vuelto legítimas para la música europea se debe al carácter cerrado de Bulgaria y al hecho de que es un país pequeño. Además, la distribución de música requiere fondos que el Estado se niega a dar. Lo que escribieron compositores como Konstantin Iliev, Ivan Spasov, Lazar Nikolov, Vasil Kazandjiev, Simeon Pironkov es realmente significativo. También hay cosas de Lyubomir Pipkov que no me gustaría perderme en ningún caso. ¡Bueno, Dimitar Nenov! Los cuartetos de Marin Goleminov tienen un valor absoluto. Era joven, tenía unos 33 o 34 años y pasé una semana entera en Sliven; tuvieron lugar los Días del Arte del Cuarteto. Los cuartetos de Goleminov tocaban en cada uno de los conciertos junto a los cuartetos de Bartok. Quedaban tan uniformes uno al lado del otro que para mí fue un momento inolvidable de total alegría. También Dimitar Tapkov, un hombre excepcional, además de compositor. O Georgi Minchev… hay suficientes obras búlgaras de compositores de mi generación: Emil Tabakov, Stefan Dragostinov, Alexander Kandov, Plamen Djurov, Bozhidar Spasov, una generación de compositores muy capaz. Desafortunadamente, todavía no son lo suficientemente conocidos. Varias obras de Tabakov se reproducen por todo el mundo, también de Dragostinov, pero en general, la música búlgara apenas se interpreta en Bulgaria actualmente. Entonces, por qué deberíamos pretender que se escuchara fuera. ¿Qué pasará con la próxima generación? Aquí están Georgi Arnaudov, Dragomir Yosifov, Petar Kerkelov…

Tengo la suerte de haber pasado mi vida con estas personas, pero también acepto con calma la idea de que soy unа outsider total. No pretendo hacer tragedia de esto, he aceptado que a los ojos de mucha gente soy alguien marginal. Debo parecer lo mismo a los ojos de mi hija. Dejó este mundo tras veintiséis años de trabajo con el violín y ahora trabaja en los Estados Unidos. Es una muy buena persona, pero se dio cuenta de que no tiene futuro con el violín. Hizo un esfuerzo inhumano por encontrar otro camino y vivir más segura. Sí, sigue escuchando música, pero no ha tocado el violín durante al menos diez años.

¿Crees que su destino refleja la situación de los músicos en Bulgaria? ¿No es solo una elección personal?

Hay muchos niños que estudian música, luego se van y nunca regresan a Bulgaria. Y no solo por los humillantes salarios. La cuestión es también por el entorno en el que vives. Tienes que sentirte valorado por ser músico. El ridículo comentario de “Está bien, tocas, pero a qué te dedicas” no puede volver otra vez a ser relevante y actual; esto no se debe al capitalismo, se debe a la mentalidad.

¿Cómo llegaste a la música?

Mi segundo padre era contrabajista y tocaba en la pequeña orquesta de la radio. Más adelante comenzó a componer partituras. Fue el mejor copista de notas de Bulgaria. Eso podría ser perfecto. Así conoció a mi madre. Por la misma razón, todos los músicos de Sofía vinieron a nuestra casa.

Tocaba el acordeón desde muy joven, ya que mis dos tíos también lo tocaban. Mi madre era de las que pensaban que los niños deben estar muy ocupados para que no le vengan malos pensamientos a la cabeza. Empecé a tocar a los cinco años. Tenía un acordeón Hohner con teclas de nácar. Tuve grandes profesores en la escuela de música. A los doce años les dije a mis padres que quería crear música y que este era mi sueño. Se me daba bien, pero no pude llegar a ser tan buena con el piano. En 1967 me aceptaron en la facultad. Tenía 17 años y era la persona más feliz del mundo.

¿Cómo escucha música un crítico?

Cuando era joven, solía mirar y estudiar partituras. Estaba constantemente estudiando obras, leyendo sobre ellas, escuchando diferentes interpretaciones… Inevitablemente, comienzas a volverte más crítico, más exigente, a buscar lo desafiante, lo diferente, a huir de los tópicos.

¿Qué es lo que más valoras en la interpretación?

La forma. No solo la forma, pero es muy importante. Cuando un buen intérprete comienza, sabe muy bien cómo construir toda la obra para que sea una forma completa y perfecta.

¿Es posible que un músico que no sea perfecto componga muy buena música?

Ha habido casos. Incluso cuando escuchas a artistas muy jóvenes que no dominan completamente el instrumento, puedes sentir la personalidad, la individualidad. Muestran que este texto tiene algún sentido. Esto es lo más importante.

Te manejas perfectamente con varias lenguas europeas, algo que seguramente te ha ayudado a superar diversas barreras en estos años.

Respecto a las lenguas, ocurrió de la siguiente manera: mi madre y mi padre biológicos se graduaron en un colegio alemán. Empecé a estudiar francés en clases particulares, a los dos o tres años de edad. Más adelante, a los seis años, me apunté a clases de alemán. Continué con el alemán durante mucho tiempo y estuve estudiándolo con una profesora nativa que me enseñó a pensar en alemán. De mayor, estudié inglés en la Alianza, y en México aprendí español. El tercer año de mi estancia en México estuve enseñando en la Modern American School.

¿Cuáles son tus preferencias musicales?

De los compositores clásicos, aquellos que son los favoritos de los amantes de la música, para mí no hay una nota incorrecta escrita por Johannes Brahms. Hay un poder emocional latente y muy fuerte en él. Especialmente sus ciclos de piano. Hay tanto anhelo allí, tanta energía… De sus sinfonías, la segunda es la que más me gusta escuchar.

De compositores más modernos: Charles Ives – lo tiene todo, es una vanguardia absoluta. Arvo Pärt y Alfred Schnittke. De la escuela alemana: Helmut Lachenmann, Paul-Heinz Dittrich, con quien fuimos cercanos, Jörg Widmann. Y Friedrich Goldmann. También tengo una larga amistad con la compositora coreana Unsuk Chin, que vive en Berlín. Ahora es muy famosa, pero cuando la conocí en Copenhague en 1996, estaba presentando sus primeros trabajos y todavía no era tan famosa. Por último, pero no menos importante, cabe mencionar a Gia Cancelli, a quien también tuve la suerte de conocer. Luigi Nono, Luciano Berio, György Ligeti, György Kurtag, mi amigo de Argentina Alejandro-Iglesias Rossi. ¡Hay tantos, este mundo es inmenso!

Entrevista realizada por Christina Vassileva en febrero de 2021 en Sofía, Bulgaria.

Christina Vassileva vive y trabaja en Sofía (Bulgaria). Es poeta, cantante de cámara y solista en el trío Affettuoso, con el que realizan diferentes conciertos de piezas clásicas barrocas. Christina firmó el Manifiesto de la Nueva Poesía Social en 2016. Poeta y traductora de inglés. Publicó sus primeros poemas y traducciones en Literaturen vestnik y en la revista Nueva Poesía Social (Нова социална поезия).

[Fuente:  http://www.fronterad.com]

Por dois métodos distintos, startups tentam imitar o sabor de um hambúrguer sem submeter animais a massacres. Mas reproduzem latifúndios, venenos, patentes, transgênicos e monocultura – tudo o que marca o agronegócio e o capitalismo…

 

Escrito por Soledad Barruti

Um disco redondo, decorado com coisas e selado entre dois pães, o hambúrguer nunca foi uma moda, e muito menos passageira. Decolou como o capitalismo, com a força consumista dos anos 1950, e hoje, ainda que cada vez nos reste menos mundo, não há lugar no mundo onde não se possa comer. Viver sem hambúrgueres? Nada. Com o colapso no horizonte, investimentos milionários e publicidade cruelty free, a carne moída se reinventa entre tubos de ensaio e plantas cozidas com inteligência artificial.

– “Não se preocupe com minha comida, mamãe, já pedi um Rappi”.

O assunto teve início poucos dias depois de ser declarado o confinamento preventivo e obrigatório em razão da Covid-19, enquanto meu filho começava a frequentar seu último ano de ensino médio. Primeiro, foi uma proposta tímida e espaçada. Não saberia dizer quando se instalou como uma norma, mas, em algum momento da quarentena, a cada dois ou três dias tocava a campainha de casa algum garoto de bicicleta carregando a mochila térmica de onde saía uma sacola de papel-madeira manchada de óleo.

Nesses meses eternos de insônia e aulas via Zoom, a comida de rápida entrega foi para Benjamín o que era para muitos: respiro, espaço de fuga, estímulo de dopamina para elevar os centros nevrálgicos do prazer que a pandemia destruiu. Meu filho pediu em um ano mais de 100 hambúrgueres e chegou, assim, à média coletiva nacional (que ainda continua em franco crescimento).

Dois medalhões de carne de 150 gramas, cheddar líquido, quatro fatias de bacon, crispy de cebola, batatas fritas, molho barbecue.

Dois medalhões de carne de 250 gramas, duas fatias de bacon, duas fatias de cheddar, cebola roxa, pepinos agridoces, ketchup e mostarda, batatas fritas.

Medalhão 350 gramas, queijo cheddar, macarrão farfalle, crispy de bacon e batatas.

Quatro medalhões, queijo cheddar, pepinos, alface roxa, pão brioche untado em manteiga.

“Hambúrgueres caseiros”, define ele, convencido, assim como tantos outros, de que existe um salto quântico entre a comida de estabelecimentos como McDonald’s e aqueles onde a carne é amassada por um humano do outro lado da vitrine, os pães têm gosto de pão e o alface não parece ser de plástico.

“Hambúrgueres Gourmet”, “de autor”, “fast good”, celebram chefs famosos que sabem que a proposta de carne moída, massa redonda decorada com coisas e selada entre dois pães nunca foi uma moda (muito menos passageira). Declarados cancerígenos como o plutônio e o cigarro pela OMS em 2015, os hambúrgueres são, desde os anos 1950, ponta de lança de um sistema econômico avassalador, símbolo e sintoma puros. Um modo de ser e de vincular-se, um modo de desejar e de pensar, uma ideologia consumida e encarnada inclusive por quem detesta as ideologias: um poderoso ato político e agrícola.

Os hambúrgueres somos nós: comedores vorazes dessa combinação perfeita de gorduras (carne, queijos, bacon, batatas, temperos) com sal (que aguça as papilas gustativas fazendo exaltar os sabores) e açúcar (que se infiltra através da carne dourada, dos caramelizados, do ketchup, dos pães). Uma combinação que nos torna viciados e nos destrói. Somos comensais que engolem e digerem combos para um, mesmo que sem identidade, que dão a mesma ordem que recebem: imediatismo, homogeneização, nenhum questionamento, nem sequer hoje que estamos a um triz do colapso coletivo.

Uma vaca pesa cerca de 500 quilos. Tirando seu couro, boa parte de sua gordura, seus órgãos e ossos, restam em torno de 150 quilos de carne para o corte. São entre 4 mil e 600 hambúrgueres, dependendo se o produtor é o McDonald’s ou uma dessas novas generosas hamburguerias que servem peças de 250 gramas. São necessárias muitas vacas – bilhões são engordadas por ano – para um capricho global carnista comandado pelos Estados Unidos, onde são comidos 50 bilhões de hambúrgueres por ano. Um novo gosto mundial que, caso deixemos, espera-se que cresça 75% até 2050.

Deixando de lado a vida e a morte violenta desses ruminantes, os danos colaterais desse gosto pontual incluem florestas destruídas e derrubadas, e terrenos úmidos incendiados para que cresça aquilo que as vacas comerão: pastos ou grãos regados com veneno. Muitos gases de efeito estufa: tantos que se as vacas formassem um país seriam o terceiro emissor do mundo. Toneladas de água potável: 15 mil litros por quilo de carne. Solos desertos. Pragas como esta que nos mantêm presos dentro de casa, zoonoses que saem como maldição apocalíptica quando a natureza fica destruída e outros males provocados pelo uso absurdo de antibióticos por essa indústria. Migrações forçadas de comunidades inteiras que não podem viver sem florestas, água ou solos e partem já doentes às periferias da vida urbana. Uma trilha de morte com tantas plantas e animais no currículo que tem um nome que parece o de um lançamento de HollywoodA Sexta Extinção.

Um drama tão grave e próximo que coloca em dúvida a possibilidade de saúde e vida adulta de meu próprio filho. Mas ele, adolescente, não está pensando dessa forma, e muito menos em pandemia. Tampouco pensam assim muitos que deixaram de comer carne. Nem para essa direção se orientam as forças da ciência ou daqueles que têm o poder que poderia transformar tudo.

Um mundo sem hambúrgueres?

Nada disso.

De Bill Gates a Jeff Bezos, do Silicon Valley a Harvard, da ONU à organização animalista PETA, todos parecem estar trabalhando pela mesma missão: o futuro será com eles ou não será.

• • •

Então, aqui estou, uma terça-feira às 9 da manhã, dentro do coração de um laboratório. Visto três roupas brancas de diferentes espessuras, sobrepostas e fechadas para cobrir meu corpo inteiro até formar uma capa hermética. Uso uma máscara N95 que aperta minha cara como uma focinheira, óculos de plástico que ficam embaçados com a máscara, embora a respiração seja tão difícil que a visão é o de menos. Também um par de luvas de látex longas, uma touca que prende o cabelo e uma roupa de mergulho de tecido que fecha por cima. Minha imagem é um cartão postal que parece ter sido fotografado nos primeiros dias de Covid em Wuhan.

Vestir tudo isso significou passar por três salas fechadas a vácuo com diferença de pressão para evitar a circulação de ar. Uma força que volta para as portas pesadas e um pouco também para o corpo. Além disso, aprender movimentos precisos para passar de uma sala a outra, vestir cada macacão em banquinhos de transição e tocar apenas o que for imprescindível. Dar um passo em falso, deixar um fio de cabelo solto, um fragmento de pele sem tampar ou uma partícula que saia do meu corpo poderia ser fatal. Não para mim nem para os dois cientistas que me guiam – a bióloga Laura Correa e o bioquímico Diego Dominici – e sim para a carne em formação que agora tenho à minha frente: pequenos anéis esbranquiçados e gelatinosos boiando em um líquido violeta e fechados em uma caixa Petri (um recipiente de cristal usado em laboratórios para preservar a esterilidade).

O que vejo, dizem, é o futuro próximo. Carne (quase) sem corpos, desmatamentos ou matanças. Células que formam tecidos que podem ser misturados entre si e adicionados com coisas até se tornarem parecidos à carne moída.

“Coma carne, não animais”, dizia um folder na mesa de entrada deste lugar chamado Craveri, um laboratório que visitei para tentar compreender do que se trata essa proposta mais provocativa (ambiciosa? delirante?) da ciência para uma humanidade que caminha rumo ao abismo, mas que não quer alterar o cardápio.

O laboratório fica em uma rua tranquila do bairro de Caballito, na cidade de Buenos Aires, e há 25 anos se dedica à engenharia de tecidos: cultivos in vitro para tratar doenças humanas. Se você precisa de um transplante de epitélio corneano, cartilagem ou pele, é aqui onde podem colher uma amostra e fabricar o pedacinho que falta. E, em pouco tempo, se tudo correr bem, pode ser aqui também o local onde as hamburguerias virão abastecer-se de carne.

Laura Correa é bióloga e dirige a área de bioengenharia do laboratório que agora, focado nesse projeto, é chamado de BIFE. Uma mulher de 43 anos, vegetariana desde os 15, loquaz e simpática. Diego Dominici, seu companheiro de equipe, é dois anos mais novo, também não come carne porque não come nada que não se animaria a obter por seus próprios meios e está convencido de que para sair do atoleiro apocalíptico é preciso ativar a imaginação, aventurar-se. Laura, Diego e uma pequena equipe de oito pessoas compartilham há cinco anos a mesma jornada: este universo intenso da carne cultivada; esta sala de ar imaculado sem janelas nem cheiros, com luzes brancas, uma pequena bancada, microscópios, duas geladeiras e duas máquinas para reproduzir as condições que as células necessitam para formarem um músculo. Ou seja, um lugar ocupado por máquinas que substituem um corpo: o de um novilho vivo do qual foram extraídos as amostras.

– As biópsias são feitas em um campo de gado em Tandil (província de Buenos Aires) –, diz Diego mostrando-me um tubo de ensaio com um cubo de carne escura dentro.

– Como são extraídas?

– Utilizamos um novilhinho para o qual tudo isso é muito pouco traumático. Ele é sedado para que possa ser deitado e em uma incisão bem pequena os veterinários tiram a amostra, suturam-no, e ele continua com sua vida normal.

– Posso vê-lo?

– Claro –, diz ele, abrindo um caderno de notas escritas à mão, uma espécie de diário do projeto, e três fotos do novilho em questão.

É um animal preto, “macho castrado raça cruzamento Aberdeen Angus de um ano”. Ele está de pé e amarrado por uma corda, depois tombado e meio rígido, com quatro campos cirúrgicos marcados sobre o lombo. Daí serão coletadas as amostras: pedaços de animal “do tamanho de um Halls”, diz Diego.

– Esta amostra que coletaram aqui é um pouco maior. Com a metade disso já seria suficiente, diz, voltando ao tubo, e penso nos veterinários aprendendo a escolher um animal saudável que não irá ao matadouro para lhe cortar pedacinhos que acabarão reproduzindo carne.

Antes de virar "carne", as células são preservadas em um espaço isolado, a temperatura e ar controlados

Antes de virar “carne”, as células são preservadas em um espaço isolado, a temperatura e ar controlados

Em cada biópsia, Diego busca extrair as células, posicioná-las em uma estrutura determinada, nutri-las e guiá-las para que continuem fazendo o que acreditam que fazem: reparar uma lesão no corpo do qual eram parte. Assim, as células trabalham nas placas de Petri como se estivessem fechando uma ferida: multiplicam-se, agrupam-se, dividem-se, desenham linhas, constroem fibras e, de repente, voilà: carne.

Parece simples, mas não é.

As células são frágeis e exigentes. Reproduzem-se rapidamente, mas não tanto quanto uma bactéria, por isso toda a instalação estéril desse laboratório que, entre outras coisas, custa milhões. Uma vez isoladas, as células são alojadas em um biorreator; uma caixa de metal que oferece as condições de vida necessárias. “Aqui há sempre 37 graus, uma porcentagem de dióxido de carbono de 5 por cento e umidade saturada”, diz Diego, abrindo a porta do sofisticado aparato de metal onde vivem milhares de células distribuídas em seis caixas Petri com forma de garrafa amassada.

As células não são visíveis sem microscópio, mas lá estão, submersas no líquido vermelho que as contém e transporta. O alimento que lhes proporciona o que um corpo animal necessita é sangue: soro fetal bovino extraído nos frigoríficos cada vez que – supostamente sem querer nem saber, porque supostamente está proibido – matam uma vaca prenha. Então, extraem o feto “acidental”, que devem checar que esteja morto e, com uma punção cardíaca, extraem desse corpo a maior quantidade de sangue possível. Esse sangue é filtrado e industrializado com glicose, proteínas, vitaminas, oligoelementos, hormônios e fatores de crescimento. O produto – soro fetal – é vendido por mais de 100 dólares por litro para uma quantidade enorme de propósitos: vacinas, reativos, cosmética e, agora, também – um círculo perfeito – a indústria da carne.

Embora existam pesquisas para evitar o uso de soro fetal bovino (“nossa intenção é começar a testar formulações que o substituam”, diz Laura) e outras para pular a parte das biópsias em novilhos castrados, a carne de cultivo não seduz tanto por causa de seus ingredientes originais, mas sim com o tempo e o espaço. Tirar a carne da natureza e transferi-la a um laboratório para seu crescimento artificial, asseguram quem a promove, deixaria milhões de animais em paz e permitiria devolver às florestas seu lugar e conter o aquecimento global.

A chave está na graça natural da biologia: sua persistência. As células saudáveis têm a capacidade de se dividir exponencialmente até envelhecerem e, então, deixarem de se reproduzir. A tarefa dos cientistas consiste em acompanhá-las durante esse caminho, guiá-las, nutri-las e separá-las para que o processo comece novamente. Se a tecnologia os acompanhasse, poderia dar muita carne.

– Seis mil hambúrgueres a partir de apenas uma amostra –, diz Diego, abrindo seus grandes olhos negros como um menino esperançoso.

– Tudo isso?

– Claro. Nós temos o conhecimento científico para isso – soma-se Laura, com tamanha segurança que convence –. O que nos falta é desenvolvimento tecnológico para o executar.

Mais biorreatores. Ou seja, mais espaço e energia. Tanta energia que alguns estudos comparativos discordam de que a carne de cultivo possa significar menos emissão de gases de efeito estufa. E, por fim, mais dinheiro, o que resulta em outro vício de época: o patenteamento de técnicas e serviços e a privatização, nesse caso da carne, por duas empresas no mundo (talvez somente uma). Uma versão superior à agricultura sem agricultores pensada atualmente pelo agronegócio transgênico: um sistema alimentar ciborgue.

Mas o certo é que, embora esse outro mundo seja possível, para que a carne cultivada tenha sucesso ainda falta muito: sozinhas, as máquinas que tenho à minha frente não conseguem fazer mais do que dois medalhões. Nem estas nem as máquinas ativas que existem hoje em todo o planeta. “Se considerarmos toda a capacidade biofarmacêutica do mundo trabalhando a todo vapor, daria para alimentar somente a capital da Argentina”, diz Diego, sem perder o brilho onírico, apesar de estar dizendo três milhões de pessoas em um mundo que amanhã vai chegar a nove bilhões.

O vermelho é o que parece: sangue. As células se alimentam de soro fetal bovino.

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O primeiro hambúrguer de carne cultivada foi anunciado em 2013 pelo professor de fisiologia vascular Mark Post, da Universidade de Maastricht, Holanda. Custou 300 mil dólares, foi cozinhado pelo chef Richard McGeown e provado pelo pesquisador Josh Schonwald e pela crítica gastronômica Hanni Rützler. “Falta-lhe suculência e gordura, mas a consistência é perfeita. Tem gosto de carne”, disse Rützler. O evento foi celebrado por ativistas reconhecidos no mundo do veganismo como Paul Shapiro, fundador da organização Compaixão acima do Assassinato (Compassion over Killing), que depois escreveria um livro no qual apresenta a carne cultivada como a tão ansiada libertação animal. Clean Meat foi publicado em 2019, e o prólogo foi escrito por outro vegano célebre, o historiador Iuval Harari.

Alguns anos antes, em 2008, a organização animalista PETA oferecia um milhão de dólares ao grupo de cientistas que fosse capaz de desenvolver algo parecido à carne cultivada. Hoje, existem 40 pesquisas formais em curso, com investidores como Sergey Brin, um dos fundadores do Google; Richard Branson, CEO do conglomerado Virgin; e os gigantes da carne Tyson Foods e Smithfields. São realizados congressos anuais onde se apresentam testes com cangurus, ratos e peixes, porque pode-se cultivar qualquer coisa que tenha células. Há carne feita de células extraídas de penas e de embriões. Há, também, planos para desenvolver um cultivo-mãe que possa durar para sempre a partir de células cancerígenas que, ao contrário das células saudáveis, têm a capacidade de se imortalizarem.

– Essas linhas de investigação que nos distanciam cada vez mais do animal são muito interessantes – diz Laura –. “Não para o mercado, mas, por exemplo, para a exploração espacial, para onde não poderiam ir com um animal vivo para recolher amostras, mas sim com um cultivo imortalizado”. Escuto-a e, embora entenda as palavras, chego a um ponto em que não consigo imaginar esse futuro nem dimensionar esse presente estranhíssimo no qual já existe uma carne cultivada que pode ser comprada: frango.

Em dezembro de 2020, um restaurante em Cingapura – o primeiro país a considerar seguro e apto para o consumo humano o desenvolvimento de frango cultivado – começou a oferecer nuggets saídos integralmente de um laboratório.

– Por que são sempre elaborados?

– Porque desenvolver um bife é mais complexo – explica Laura–. Nas salsichas, nuggets e hambúrgueres, os saborizantes têm um efeito primordial. Por isso, como primeira estratégia funcionam muito bem.

– Vocês os comeriam? – pergunto aos cientistas.

– Acho que não é essa a pergunta – responde Diego –. A carne cultivada não é proposta como uma alternativa para aqueles que já não comemos carne. O que ela busca é diminuir seu consumo entre aqueles que querem continuar a comê-la. Essa é a mudança real.

O pesquisador tem consciência de que ainda existem muitos obstáculos a serem superados para que isso ocorra, mas também vive satisfeito por trabalhar nisso. Suas missões primordiais agora são encontrar substitutos para o sangue e as estruturas que guiam as células, desenvolver mais tecidos – “A carne tem tecido muscular, adiposo, conectivo, nervoso, vascular: todos contribuem para o sabor, a textura, a consistência. Se quisermos emular a carne, temos de poder cultivar todos esses” – e conseguir fazer uma boa receita que seduza os comensais.

– Este ano tudo atrasou por causa da pandemia, mas eu já fiz alguns testes culinários – diz Diego –. Fui até a cozinha, pedi ao cozinheiro um pouco de azeite e condimentos para ver como se comportava: se diminuía de tamanho, se mudava de cor, de consistência…

– E?

– Não pude comer porque você não pode comer seu próprio experimento, mas cheirava a rotisseria.

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– Você comeria hambúrguer de carne cultivada? –, pergunto ao meu filho.

– Se for gostoso, why not?

– Se fosse estranho para você comer algo que cresce em um laboratório.

– Não tenho nem ideia de onde cresce o queijo cheddar.

Ele tem razão. Faz um tempo que ninguém sabe de onde vem nada, faz tempo que isso pouco importa.

A indústria explica suas criações com publicidade, o Estado autoriza e uma gama de especialistas dá seu aval intencionalmente ou por omissão. Além disso, um bom combo de hambúrguer funciona para inibir qualquer impulso de indagação: somente ao se pensar nele são ativadas intensamente no cérebro as zonas de recompensa que levam do desejo ao ‘eu gosto disso’ e do ‘eu gosto disso’ ao ‘quero mais’. Uma cascata de reações químicas tão reconfortantes que nos torna dependentes. O restante é feito por essa modernidade com seus animais que não valem nada, suas matas destruídas, seus Rappi a granel: suprimindo os obstáculos que vão do quero ao posso e formando milhões de paladares com gordura, açúcar e artifício, acostumando-os a prazeres instantâneos aos quais depois não é fácil renunciar.

Nesse contexto, surgem as propostas que consistem em investir cérebros e fortunas para desenvolver tecnologias que sirvam para mudar a origem sem perder o objeto de desejo.

Enquanto a ideia de carne sem animais ainda tem de esperar e resolver alguns dilemas éticos, econômicos e técnicos, a inteligência artificial já se tornou vegana. Ela demonstra isso ao cozinhar medalhões com ingredientes vindos de plantas para o Burger King e outros estabelecimentos onde meu filho também compra.

Segundo a consultoria Nielsen, apenas nos Estados Unidos esse tipo de produtos aumentou 42% entre 2016 e 2019, enquanto as carnes, apenas 1%. Na América Latina, essa moda começou tímida com leites de sementes, mas, nos últimos anos, uma média de 10% da população de nossos países se tornou vegana. O processo se acelerou tanto que em 2021 uma companhia de alimentos chilena plant based tem cotação em Wall Street: NotCo.

– Eu gostaria de que você conhecesse a experiência porque uma coisa é falar e outra experimentá-las –, sugeriu-me do outro lado do Zoom Mauricio Alonso, a referência argentina da transnacional chilena. Um homem de 39 anos, de fala pausada, que há um mês foi pai pela segunda vez e há três anos deixava seu cargo de executivo na Danone para se aventurar nessa empresa que o fez pensar como nunca em plantas até tornar-se 95% vegetariano.

– Você quer que eu faça um pedido pelo Rappi?  – pergunto a ele, que lista os restaurantes de Buenos Aires que vendem seus hambúrgueres.

Então decido fazer algo que nunca faço: pedir sem perguntar nem investigar muito, sem ler a lista de ingredientes do que vou comer.

– Você sabe que não gosto de comida vegana – me avisou logo Benjamín, que já está um pouco acostumado a ser parte de meus experimentos e seus fracassos. Entramos em um acordo: a dele será convencional e a minha de carne vegetal, queijo de amêndoas e maionese vegana com batatas.

Um garoto agitado em uma bicicleta tira de sua mochila a sacola de papel que traz as duas caixas. Fechados em papel alumínio e com as batatas fritas inclusas, um hambúrguer é de carne e o outro vegano, mas parecem iguais: recheados, gigantes, deliciosos.

Nesta parte devo contar que adoro comer carne. Gosto de todos os cortes e, sobretudo, de uma costela bem suculenta. O hambúrguer não é meu prato favorito, mas me declaro não imune a seu poder de sedução: quando há um à minha frente, fico com água na boca. Se há muito tempo evito tanto hambúrguer quanto churrasco é porque estou muito bem informada. Vi os campos, estive nos currais, senti a dor desses animais, senti o cheiro de medo e de merda. Gosto de carne, mas não consigo mais comer. A proposta da NotCo? Que a tecnologia me dê o que a natureza não pode mais me dar.

Meu hambúrguer tem tanto cheiro de carne quanto o de Benjamín, embora o aspecto do meu seja diferente: mais integral, mais laranja, mais sólido. Peço a ele que prove primeiro o vegano. Dá uma mordida gigante, depois mais outra, e, enfim, seu veredito: “Olha, prefiro o de carne, mas se você me convidar para comer em um restaurante vegano e me der isso, vou feliz.”

Minha vez de provar. É macio e consistente como a carne; tem o efeito grelha e a gordura e o sumo de um hambúrguer mais complexo por causa dos temperos, do pão, do queijo que sai pelas bordas, essa combinação imbatível agridoce com gordura.

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Água, proteína texturizada de ervilha, óleo de coco, óleo de girassol alto oleico, fibra de bambu, proteína isolada de ervilha, sal, proteína isolada de arroz, cacau alcalino em pó, proteína isolada de chia, espinafre em pó, aromatizantes, metilcelulose, corante vermelho beterraba; óleo de girassol, água, amido, vinagre, açúcar, sal, farinha de grão-de-bico, suco de limão concentrado, mostarda, alho em pó, pimenta branca, aromatizantes naturais, goma xantana, ácido cítrico e etileno diamina tetra acetato.

Vinte e nove ingredientes sem contar os do pão, do queijo de amêndoas e das batatas fritas que acompanham, ingredientes que desconheço porque lamentavelmente os estabelecimentos de comida não incluem lista de ingredientes. Meu hambúrguer ultraprocessado sem carne e minha maionese ultraprocessada sem ovos são um quebra-cabeças de substâncias derivadas de plantas. (Com a exceção do muito polêmico antioxidante etileno diamina tetra acetato que é adicionado à maionese e que é obtido através da síntese do formaldeído, etilenodiamina e cianureto de sódio; uma substância que deveria incluir uma lista de contraindicações pelo menos para crianças ou gestantes).

Receitas que eu jamais conseguiria replicar em minha cozinha e cujos efeitos em meu organismo não conheço bem, porque nenhum alimento pode ser comparado com alguma de suas partes isoladas. Quem as desenvolveu foi Giuseppe: um algoritmo que deve seu nome a Giuseppe Arcimboldo, o pintor milanês que criava rostos através da junção entre plantas e frutas. Inteligência artificial para imitar sabores concretos que nossa civilização não quer deixar para trás.

Giuseppe, o algoritmo, tem um arquivo de centenas de plantas que analisa não de acordo com suas qualidades culinárias, e sim molecularmente, buscando aquelas substâncias que possam emular texturas, aromas, cores e sabores da carne (ou da maionese, do leite, do peixe). Decodifica ervilhas, repolho, chia, mas o resultado disso não são necessariamente alimentos, e sim estímulos que combinados entre si podem atuar sobre nossa percepção com a eficácia de nos convencer de que comemos algo que na realidade não é.

“A comida é DNA, RNA, carboidratos, proteínas, gorduras. Entre espécies há mais semelhanças do que diferenças, mas o que dá a diferença e faz a identidade do alimento é o desafio a ser vencido: busca-se fazer que diante da substituição o cérebro não note as diferenças”, diz um de seus criadores, Pablo Zamora, em um capítulo da série digital A Era da IA, produzida pelo Google e apresentada por Robert Downey Jr.

A primeira empresa a mostrar isso foi a Impossible Foods, que começou a estudar a carne até descobrir a heme, a molécula que lhe dá sabor. Uma molécula que curiosamente não é exclusiva da carne, mas também está presente em todas as criaturas do planeta. Com essa descoberta, lançou em 2011 a primeira dessas criações, o Impossible Burguer. Um medalhão ultraprocessado que sangra soja, leghemoglobina de soja transgênica e outros 20 ingredientes misturados em um laboratório.

A carne vegetal desses tempos é preparada por softwares patenteados e com receitas de inteligência artificial.

A NotCo chegou alguns anos mais tarde por meio de três rapazes chilenos de 20 e tantos anos que estudavam em algumas das universidades mais famosas dos Estados Unidos (Berkeley, Stanford e Harvard). Pablo Zamora, Matías Muchnik e Karim Pichara; um geneticista, um especialista em finanças e um engenheiro. “Como é possível que entre tantos avanços existentes no campo da exploração espacial nossa comida continue sendo igual?”, perguntavam-se enquanto sonhavam com sua startup – empreendimento promissor e tecnológico – que não esperou muito para ver chegar o investimento: 30 milhões de dólares de Jeff Bezos, o fundador da gigante mundial Amazon.

“Eu nunca havia refletido sobre essas coisas, mas fazem todo o sentido: alimentar uma vaca por dois anos para matar e comer é um absurdo e um desperdício de dinheiro”, me diz Mauricio, o argentino da NotCo, do outro lado do Zoom. “O futuro está aqui”, diz também, enquanto me explica que a missão da NotCo é crescer, posicionar-se e ensinar.

“92% de quem consome nossos produtos não são veganos nem vegetarianos”, dizem também na NotCo enquanto atravessam a grande porta que abrem juntamente com companhias como Sweet Earth, da Nestlé, ou Pure Farm Land, do produtor de carnes Smithfields. Porque a indústria Plant Based, como gosta de se chamar, não chegou para rivalizar com a indústria de carnes, mas sim somar-se – usar seus investimentos, plantas processadoras, canais de distribuição, gôndolas de supermercados e restaurantes.

“Viemos para transformar a indústria por dentro”, resume Mauricio.

Uma aposta que ainda não foi comprovada. Na realidade, quanto maiores essas marcas se tornam, mais propensas se mostram a fazer o contrário: mudar seus princípios para se encaixarem nesse mercado de gigantes. O Impossible Burguer começou utilizando fontes de produção orgânica e alguns anos depois se tornava promotor dos organismos geneticamente modificados, porque dizem: “Precisamos substituir 10 ^ 12 libras de produtos animais para cumprirmos nossa missão. 10 ^ 11 libras não salvarão o mundo. Ser uma empresa alimentícia de sucesso não é suficiente. Nem mesmo ser a empresa de alimentos mais bem-sucedida da história é suficiente. Precisamos crescer exponencialmente, duplicando a escala a cada ano durante os próximos 15 anos. Isso significa não apenas aumentar a escala de nosso impacto e nosso negócio todos os anos, mas sim escalar cada vez mais rápido a cada ano. O que parece ser grande agora em cinco ou mesmo dez anos será visto como minúsculo.”

Produzir muito uma coisa só – vaca, soja ou ervilha – e ultraprocessá-la leva inevitavelmente a forçar a natureza, que são os animais, as plantas, nós. Todos os problemas que nos encurralam surgem desse paradigma de simplificar, homogeneizar e industrializar o campo e a alimentação: as monoculturas tóxicas, as fazendas industriais, as mudanças climáticas, o empobrecimento rural e a superpopulação urbana. E, por fim, o boom de coisas comestíveis feitas sempre da mesma coisa e maquiadas para que pareçam outra, os “alimentos” que nos adoecem.

NotCo, a startup chilena, tem investimentos milionários, e se espera que este ano abra o capital em Wall Street.

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Esta é uma história longuíssima ainda com final em aberto e algumas ideias soltas, penso enquanto coloco no forno dois hambúrgueres de grão-de-bico que uns amigos me deram de presente. Eles aproveitaram a crise pandêmica para montar um empreendimento de hambúrguer vegano elaborado em casa com ingredientes agroecológicos comprados de produtores familiares. Embora não tenha nada a ver com a experiência de se comer um hambúrguer de carne, são deliciosos e certamente gostarei mais do que o ultraprocessado que comi na noite anterior. Além disso, poderei dividi-los com minha filha de quase três anos que ainda não experimentou nenhum comestível ultraprocessado e, portanto, é uma menina que desfruta da comida com um prazer sem dilemas, honesto, simples e concreto.

O que é comer? Que função esse ato tem para além da nutrição e do sabor que nos ganha pelo nariz?

Comer é conectar e vincular-se com um território, suas plantas, seus animais, as pessoas, sua história. Uma história que pode ser de crueldade e extinção em massa com matadouros ou experimentos milionários, ou algo muito diferente: uma história de reconexão.

Quando a pandemia começava, entrevistei a cientista e líder ambiental Vandana Shiva. Falamos do mundo por vir, da necessidade de reparação, de como isso poderia acontecer. Falamos também desses hambúrgueres impossíveis.

“O que é impossible burguer? – me perguntou Vandana Shiva – Um hambúrguer artificial criado em um laboratório com plantas vindas de monoculturas tóxicas, ou seja, tratadas com violência, que para sua produção violentam camponeses, borboletas, abelhas e animais que obviamente não vivem mais no entorno desses cultivos. Esse hambúrguer de soja que parece carne sangrenta é uma mentira. E existe algo que se chama verdade: não é possível anunciar uma ideia de alimentação não violenta partindo desses alimentos, dessa relação mentirosa com a terra e com o próprio corpo.

“Eu diria a quem anuncia isso como a salvação que acorde: a alimentação baseada em plantas que crescem com toda essa violência não produz nada melhor. Comam uma cenoura e reconheçam isso como alimento: conheçam de onde vem, como foi produzida, deem à planta a dignidade que merece. Não a deixem ser material para experimentos, manipulação e controle. Talvez quem come essas invenções acredite que chegou a algo melhor, mas somente porque permanece cego a todo o horror, que decidiu não ver. E, assim, como um dependente de heroína, será levado desse sistema para outro nível mais tenebroso e difícil de sair, com um custo altíssimo para a terra em sua totalidade e para si mesmo.”

Estamos à beira da extinção em massa por causa da imposição de um sabor absoluto – vamos chamá-lo de hambúrguer; ou melhor, chamemos de capitalismo – que não pode conviver com outros. São sempre os mesmos que se apossam e comem o mundo: o agronegócio de vacas e soja ou Bill Gates, Jeff Bezos e até Leonardo DiCaprio e laboratórios onde quem tem o conhecimento para cultivar a terra, guardar as sementes ou cozinhar com comida de verdade só pode entrar como funcionário de limpeza.

Poucas coisas são mais fascinantes do que essa missão chamada futuro. No entanto, até agora ela tem resultado em caras apostas que, em sua melhor versão, a evidência projeta como paliativos temporários para um planeta que está em pedacinhos. Alternativas tão fantasiosas como acreditar que nossa civilização pode continuar sendo parte desse destrutivo bacanal carnista. Comamos sobretudo plantas, mas diversas, frescas, colhidas e elaboradas por pessoas que tenham as culturas alimentares como guias. Esse plano, sustentado por milhões de agricultores há dez mil anos, mas descartado por ser pouco sofisticado por um poder apaixonado pelo Vale do Silício, é o que segue sustentando o melhor de nosso sistema alimentar: sua biodiversidade, seus sabores reais, essa conexão com a natureza que precisamos recuperar antes de que seja tarde demais.

A proposta dos hambúrgueres baseados em plantas não é derrotar a indústria da carne: é somar-se a ela.

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

Le Musée Marmottan Monet a présenté l’exposition « La toilette, naissance de l’intime« . Une centaine d’« œuvres – tableaux, sculptures, estampes, photographies, images animées (« chronophotographies ») – d’artistes  majeurs du XVe  siècle à nos jours, concernant les rites de la propreté, leurs espaces et leurs gestuelles ». Arte diffusera le 20 mars 2021 « L’hygiène à travers les âges » (Auf Leben und Tod – Meilensteine der Hygiene) de Claudia Spoden.

Publié par Véronique Chemla

« L’exposition La Toilette. Naissance de l’intime s’inscrit dans cette perspective. Une centaine d’œuvres – tenture, peintures, sculptures, photographies, gravures – décrivent une pratique nouvelle – la toilette – l’évolution de rituels corporels et l’apparition, à terme, d’un espace dédié. Un lieu se ferme, des gestes s’inventent, l’individu s’approprie un temps n’appartenant qu’à lui. Le parcours aborde également l’impact de ce thème nouveau sur les arts, à la fin du XIXe siècle, avec notamment la naissance du nu moderne. Le XXe siècle marque un tournant. Le thème de la toilette offre aux avant-gardes l’occasion de rendre compte, par des formes déstructurées, de souffrances intimes et collectives. Il questionne la société de consommation. Le XXIe siècle s’interroge sur la collusion de notions telles qu’intimité et exhibition », écrit Patrick de Carolis, directeur du musée Marmottan Monet.
Pour la première fois, une exposition aborde ce sujet : l’intimité, la toilette.
L’exposition débute par des gravures de Dürer, de Primatice, de peintures de l’École de Fontainebleau, dont un Clouet, Femme à la puce de Georges de La Tour, un ensemble surprenant de François Boucher, révélant « l’invention de gestes et de lieux spécifiques de toilette dans l’Europe d’Ancien Régime ».

Élément de la tenture des Épisodes de la vie seigneuriale, au XVIe siècle, une tapisserie du musée de Cluny, représente « un bain somptueux : des domestiques s’empressent auprès de la baigneuse, une nature luxuriante entoure la cuve de pierre, les instruments de musique, les parfums, les couleurs évoquent l’alerte des sens. Le bain serait plénitude, plaisir, l’occasion de représenter le nu aussi, un corps fin et délié triomphant dans un décor sublimé. Cette image est particulière, quasi irréelle dans sa perfection : aucun cadre quotidien n’y est indiqué, aucun geste d’ablution ou d’entretien. Elle rejoint une tradition : celle qui, vers 1500, représente des femmes au bain, au milieu d’une nature prolifique associant fontaines et ciels, liquides et fleurs, linges et chairs, et campant des corps hiératiques, affirmés en majesté. C’est le nu, à vrai dire, qui est ici célébré, l’idéal des formes, leur achèvement, et moins la gestuelle toute prosaïque de l’ablution. Le bain n’est que prétexte. La scène gagne en idéalité ce qu’elle perd en réalité, le recours fréquent aux personnages de la Bible ou à ceux de la mythologie permet de s’affranchir des codes vestimentaires, tout en dévoilant ce que le quotidien peut cacher. Le peintre révèle le « dessous », celui des lignes « parfaites » offertes au regard du spectateur : démarche marquante dans une époque où le profane prend une importance plus considérable et où Vénus tend insensiblement à concurrencer la Vierge. D’où ces corps aux carnations laiteuses, délicates, aux formes magnifiées, dont les Suzanne au bain de Tintoret, au XVIe siècle, celle du Louvre ou celle du Kunsthistorisches Museum de Vienne, demeurent un exemple privilégié. Une manière de faire exister la beauté dans une Renaissance s’interrogeant comme jamais sur l’excellence physique. Une manière de faire exister la pudeur aussi, celle de Suzanne surprise par les vieillards, par exemple, ou celle Bethsabée au bain entrevue par David, symbolisant dans leurs expressions et leurs voilements toute la délicatesse attendue du féminin. La scène traditionnelle du bain vise ainsi le corps plus que la pratique, la beauté, la pudeur, plus que l’ablution ».

Puis, l’exposition évoque le XIXe siècle, période d’affirmation du « renouvellement en profondeur des outils et des modes de la propreté. L’apparition du cabinet de toilette, celle d’un usage plus diversifié et abondant de l’eau inspirent à Manet, à Berthe Morisot, à Degas, à Toulouse Lautrec et encore à d’autres artistes, et non des moindres, des scènes inédites de femmes se débarbouillant dans un tub ou une cuve de fortune. Les gestuelles sont bouleversées, l’espace est définitivement clos et livré à une totale intimité, une forme d’entretien entre soi et soi se lit dans ces œuvres, d’où se dégage une profonde impression d’intimité et de modernité ».
Le parcours s’achève par « l’image à la fois familière et déconcertante de salles de bains modernes et « fonctionnelles » qui sont aussi, avec Pierre Bonnard, des espaces où il est permis, à l’écart du regard des autres et du bruit de la ville, de s’abandonner et de rêver ».

Au lendemain de la Première Guerre mondiale, les efforts d’entrepreneuses comme Helena RubinsteinEstée Lauder ou Elisabeth Arden, achèvent d’imposer le concept de « maison de beauté » et de diffuser les premières « lignes » cosmétiques. Désormais, les bourgeoises se maquillent. Dix ans plus tard, la photographie publicitaire naissante vient soutenir les campagnes en faveur des « produits et soins de beauté ».

« Dans les années 1980, des émissions télévisées gomment la distinction entre vie privée et vie publique. Elles recueillent les confidences intimes de personnes, célèbres ou anonymes. Produits de beauté, eau minérale… Des produits variés montrent bébés et adultes nus, dans l’espace privé de la douche… »

« Aux alentours de l’an 2000, le rapport au corps, à la nudité omniprésente dans des affiches publicitaires, change de nouveau. La « relation à la mode et à la publicité se combine avec les progrès technologiques, suggère des expériences insolites et stimule des recherches nouvelles : ainsi chez Erwin Blumenfeld au lendemain de la Seconde Guerre mondiale, ou au seuil du XXIe siècle chez Bettina Rheims ».
« Un nouvel agencement des appartements abolit l’intimité par des espaces ouverts, d’où sont exclues cloisons ou portes, où l’espace s’avère éclaté en espaces dévolus à des activités différentes – cuisiner, lire -, et n’échappant pas au regard. La baignoire trône dans cet espace, bien visible de tous. »
Cependant, la douche la supplante souvent dans les logements aux surfaces étroites. Et le bidet tend à disparaître des salles de bains.
« La dame au bain »
Le 13 décembre 2015, Arte diffusa dans le cadre des Petits secrets des grands tableaux, « La dame au bain », 1571 – François Clouet, documentaire de Carlos Franklin. « Réalisé alors que les guerres de Religion déchirent la France », ce tableau « donne une image apaisée de l’époque et impose de durables et drastiques canons de beauté. Peintre officiel de Charles IX, François Clouet est considéré comme le maître français du portrait. En cette année 1571, il vient de mettre la touche finale à une toile aussi belle qu’énigmatique : assise dans sa baignoire, à demi-nue, figure une femme à la beauté diaphane ; derrière elle, une nourrice aux traits grossiers allaite un nourrisson ; au fond de la pièce s’active une servante. Peinture galante ? Portrait ? Scène de genre ? L’identité de la belle naïade demeure inconnue : s’agit-il de Diane de Poitiers ou de Marie Stuart ? Ou d’une autre maîtresse du roi ? » L’époque célèbre cette beauté charnelle inspirée par l’Antiquité, alors que l’Église adopte une position opposée.
« L’hygiène à travers les âges »

Arte diffusera le 20 mars 2021 « L’hygiène à travers les âges » (Auf Leben und Tod – Meilensteine der Hygiene) de Claudia Spoden.

« Les pratiques de l’hygiène accompagnent l’humanité depuis ses origines. Destinés à préserver des maladies, les soins du corps se sont imposés comme de véritables rituels sociaux, intimement liés aux conventions culturelles, aux connaissances scientifiques et aux idéologies politiques de chaque époque. »
« Des avancées également marquées par des périodes d’errements, entre superstitions et théories savantes hasardeuses, face à de terribles épidémies à l’origine incertaine. Ludique et informatif, ce documentaire retrace l’histoire de l’hygiène en Occident, depuis les thermes et réseaux d’égouts de l’Empire romain jusqu’aux révolutions hygiénistes de l’âge industriel, en passant par la parenthèse de l’âge baroque, où la peur des miasmes entraîna une véritable aversion pour l’eau… »

https://www.arte.tv/fr/videos/097496-000-A/l-hygiene-a-travers-les-ages/

 

« L’hygiène à travers les âges » de Claudia Spoden

Allemagne, 2021
Sur Arte le 20 mars 2021 à 22 h 30
Disponible du 19/03/2021 au 17/06/2021
Visuels :
© Wikimedia Commons
© bpk
Jusqu’au 5 juillet 2015
Au Musée Marmottan Monet
2, rue Louis-Boilly. 75016 Paris – France
Téléphone : +33 (0)1 44 96 50 33
Du mardi au dimanche de 10 h à 18 h

Visuels

Affiche
Eugène Lomont
Jeune femme à sa toilette
1898
Huile sur toile
54 x 65 cm
Beauvais, Musée départemental de l’Oise
© RMN Grand Palais / Thierry OllivierNicolas Régnier
Vanité ou Jeune femme à sa toilette
Circa 1626
Huile sur toile
130 x 105,5 cm
Lyon, Musée des Beaux-Arts
© 2014. DeAgostini Picture Library/Scala, Florence

Georges de La Tour
La Femme à la puce
1638
Huile sur toile
121 x 89 cm
Nancy, Musée Lorrain
© RMN-Grand Palais / Philippe Bernard

Pays-Bas du Sud
Le Bain, tenture de la vie seigneuriale
Vers 1500
Laine et soie
285 x 285 cm
Paris, musée de Cluny – Musée national du Moyen Age
© RMN Grand Palais (musée de Cluny – musée national du Moyen-Âge) / Franck Raux

« La dame au bain », 1571 – François Clouet
© Les Poissons Volants

Pierre Bonnard
Nu au tub
1903
Huile sur toile
44 x 50 cm
Toulouse, Fondation Bernberg
© RMN-Grand Palais / Mathieu Rabeau – ADAGP, Paris 2015

Fernand Léger
Les femmes à la toilette
1920
Huile sur toile
92,3 x 73,3 cm
Suisse, Collection Nahmad
© Suisse, Collection Nahmad / Raphaël BARITHEL
ADAGP

Erwin Blumenfeld
Etude pour une photographie publicitaire
1948
Dye transfer
51 x 41,5 cm
Signé en bas à droite
Paris, Centre Pompidou, Musée national d’art moderne – Centre de création industrielle, achat en 1986
© Pompidou, MNAM-CCI, Dist. RMN-Grand Palais / Christian Bahier / Philippe Migeat (RMN)

Bettina Rheims
Karen Mulder portant un très petit soutien-gorge Chanel, janvier 1996, Paris
1996
C-print
120 x 120 cm
Signé au dos sur le cartel
Paris, collection de l’artiste
© Bettina Rheims
copyright Studio Bettina Rheims

Les citations et les repères chronologiques proviennent du dossier de presse.
Cet article a été publié le 5 juillet 2015, puis le 13 décembre 2015.

 

 

[Source : http://www.veroniquechemla.info]

La polémique autour de cette œuvre le montre: instrumentaliser la traduction à des fins idéologiques, c’est moche.

La traduction d’un poème d’Amanda Gorman, lu lors de l’investiture de Joe Biden, a lancé une polémique.

Écrit par Bérengère Viennot 

Le monde de la pensée, le landerneau de la traduction, les réseaux sociaux bruissent d’une polémique sur la traduction du poème d’Amanda Gorman, la jeune poétesse intervenue lors de l’investiture du président Joe Biden et dont l’œuvre est en train d’être traduite dans le monde entier.

Selon la journaliste néerlandaise Janice Deul, qui a écrit un article fort médiatisé sur le sujet dans les colonnes du média de Volkskrant, c’est une mauvaise idée de confier la traduction d’un poème écrit par une jeune femme noire à une jeune personne non-binaire blanche. Ce serait mieux qu’une femme noire le fasse. Son article a fait grand bruit; la personne initialement désignée s’est désistée, et la maison d’édition a déclaré réfléchir à la composition d’une équipe de traduction qui serait plus appropriée.

Là-dessus, en Espagne, c’est la version catalane qui est mise sur la sellette. Le traducteur, Victor Obiols, après s’être vu confier la traduction du poème, a finalement été évincé par sa maison d’édition qui lui a affirmé chercher «un profil différent, celui d’une femme, jeune, activiste, et de préférence noire».

À quoi ressemble un traducteur?

On peut en déduire que cette journaliste et que ces maisons d’édition n’ont qu’une vague idée de ce à quoi ressemble un vrai traducteur ou une vraie traductrice. À l’instar de ces enlumineurs du Moyen Âge, qui se faisaient une idée abstraite des animaux exotiques qu’ils n’avaient jamais vus mais qu’ils dessinaient quand même en ne s’aidant que de la description qui leur avait été faite, les grandes lignes leur sont familières, mais le résultat est complètement à côté de la plaque.

Il existe plusieurs sortes de traducteurs. Certains sont spécialisés en traduction qu’on dit pragmatique –qui peut être juridique, technique, financière, médicale ou autre. D’autres le sont en traduction audiovisuelle. D’autre encore en traduction de presse. Et puis il y a la traduction littéraire, au cœur de la polémique actuelle. Et comme l’une des matières premières de la traduction, quelle que soit sa nature, ce sont les mots et leur manipulation rigoureuse, il est très important, avant de lancer un quelconque débat ou une réflexion sur la traduction poétique, de savoir de quoi on parle.

La traduction, d’abord un savoir-faire

La traduction littéraire est un métier particulier, pour lequel les compétences requises ne sont pas les mêmes que pour, par exemple, la traduction financière. Certes, on peut savoir faire les deux, comme un pâtissier peut savoir faire de la charcuterie, mais cela ne va pas de soi. Les matières premières sont les mêmes: un humain, un texte, deux langues. Les compétences sont différentes, et les techniques aussi. De même que vous ne confierez pas l’élaboration de la pièce montée de votre mariage à votre charcutier, vous ne demanderez pas à un traducteur médical de traduire Toni Morrison.

La traduction, d’abord un savoir-faire

La traduction littéraire est un métier particulier, pour lequel les compétences requises ne sont pas les mêmes que pour, par exemple, la traduction financière. Certes, on peut savoir faire les deux, comme un pâtissier peut savoir faire de la charcuterie, mais cela ne va pas de soi. Les matières premières sont les mêmes: un humain, un texte, deux langues. Les compétences sont différentes, et les techniques aussi. De même que vous ne confierez pas l’élaboration de la pièce montée de votre mariage à votre charcutier, vous ne demanderez pas à un traducteur médical de traduire Toni Morrison.

L’argument de la parfaite similarité ne tient pas car tous les traducteurs sont différents des auteurs qu’ils traduisent, même s’ils ont la même couleur, le même sexe et une histoire comparable. D’abord parce qu’ils ne parlent pas la même langue et n’ont pas grandi dans la même culture: ils ne voient donc pas la vie de la même manière. Même en ayant vécu des expériences similaires, ils n’auront pas éprouvé les mêmes sentiments, ressenti les mêmes joies ou les mêmes douleurs. Et aussi, simplement, parce qu’il n’y a rien de plus dissemblable que deux êtres humains, quelles que soient leurs expériences communes. Or, tout le talent du traducteur, c’est justement de passer outre cette différence et de se mettre dans la peau de l’auteur qu’il traduit, qui devient, l’espace d’une mission «son» auteur. C’est la magie, le talent, le travail et toute la difficulté de la traduction; c’est, avec le bonheur d’écrire, aussi ce qui en fait l’attrait.

Le traducteur entre dans la peau de l’autre, dans sa tête et dans ses mots, et abolit, autant que faire se peut, sa propre identité pour offrir à des lecteurs la pensée de l’Autre. La traduction, c’est l’exaltation, la célébration de l’altérité et de la différence. Dans son geste traductionnel, le traducteur dit au lecteur: regarde, l’autre qui parle et pense différemment de toi partage sa pensée et je suis la passerelle entre lui et toi. Je suis à la fois moi-même, concentré de mes compétences et de mon expérience, lui, car j’entre dans sa tête, et toi car je sais comment te parler pour que tu comprennes.

«Les traducteurs, c’est comme les éboueurs»

Par définition, par essence, traduire, c’est exposer la différence et prouver qu’elle n’est pas insurmontable. Or, prétendre qu’une traduction sera meilleure ou plus pertinente parce qu’elle aura été réalisée par une personne qui «ressemble» à l’auteur, c’est d’une part n’y comprendre absolument rien à l’art de la traduction, ce qui est en soi assez grave de la part d’un éditeur, mais d’autre part, surtout, c’est vouloir introduire un communautarisme, un combat, une haine de la différence, dans un domaine qui en était préservé. C’est instrumentaliser une pratique afin promouvoir une idéologie nauséabonde qui vise à diviser au maximum le plus de communautés possible et à tenter de convaincre que si nous sommes différents, nous ne pouvons pas communiquer. C’est moche.

En outre, c’est aussi nier l’individualité tant de l’autrice que de la traductrice, ce qui est clair dans le cas d’Amanda Gorman. Est-ce que toutes les femmes se ressemblent et se comprennent? Est-ce que tous les Noirs sont pareils et ont vécu la même chose? Même alors qu’ils ont vécu dans des pays différents, des cultures différentes, comme s’il existait un groupe homogène «noir» et un autre «femme» dont les éléments seraient interchangeables? Non, évidemment, une telle réduction des individus à leur nature et à rien d’autre est un geste effrayant, au fondement même du racisme.

Que le grand public n’ait pas, par instinct, de mouvement de rejet devant ce soufflet envoyé à la figure de tous les traducteurs, c’est compréhensible: profession invisible par excellence, la traduction est un petit monde relativement fermé qui se contente souvent d’exister sans qu’on n’en connaisse trop les rouages. Les traducteurs, c’est comme les éboueurs: il n’y a que quand quelque chose ne va pas qu’on se rappelle qu’ils existent. En revanche, que des éditeurs cèdent aux sirènes d’un mouvement communautariste pour ne pas déplaire à une minorité de radicaux qui trempent leur plume dans l’encre de la division et de la haine de l’autre pour écrire un avenir où la vie en communauté est condamnée à disparaître, voilà qui doit inquiéter.

Et c’est aux traducteurs, pour une fois, de se défaire de leur cape d’invisibilité et d’interpeller les lecteurs: il faut nous faire confiance. Nous connaissons notre métier et nos limites. Un bon traducteur n’acceptera jamais de traduire un texte qui lui semble inaccessible, ce qui arrive, bien entendu. N’écoutez pas ceux qui ne se sentent exister qu’en rejetant ceux qui ne leur ressemblent pas et se construisent une identité en divisant pour mieux régner et en alimentant le culte de l’entre-soi. Si nous décidons de jouer notre rôle de passeur, c’est que nous en sommes capables, parce que malgré les différences de sexe, de couleur et d’histoire, nous sommes humains et que rien d’humain ne nous est étranger.

[Photo : Win Mcnamee / Getty Images North Amercia / AFP – source : http://www.slate.fr]

Parlem amb Víctor Obiols, el poeta inicialment escollit per traduir Amanda Gorman.

Amanda Gorman

La poeta Amanda Gorman

Escrit per Gerard E. Mur

El poeta i traductor Víctor Obiols ha denunciat que l’agència literària de la poeta Amanda Gorman l’ha vetat com a traductor al català d’El turó que enfilem (Univers). En una entrevista a El Món a RAC1, Obiols ha explicat que des d’Univers van comunicar-li que l’editora nord-americana de Gorman creia que el seu perfil “no s’ajustava” al que buscaven per a la traducció de l’obra. “Potser es pensen que una traductora al català que sigui negra —segurament amb arrels a l’Àfrica Occidental i criada a Catalunya— tindrà molt més en comú amb una afroamericana de Los Angeles, model i llicenciada a Harvard”, ha escrit Obiols al seu perfil de Twitter. Després del veto, Univers ha confirmat que busca un nou traductor de l’obra. El llibre ja té fitxa al web de l’editorial.

L’editorial, dirigida per Ester Pujol, va anunciar el febrer passat, a través de les xarxes socials, que el 8 d’abril publicarà una edició bilingüe d’El turó que enfilem. La publicació inclourà un pròleg de la presentadora, comunicadora i actriu Oprah Winfrey. Després de la sortida d’Obiols, la voluntat —assegura Pujol— és mantenir la data de publicació. El turó que enfilem és el títol del poema (The Hill We Climb) que Gorman va recitar durant el jurament de Joe Biden i Kamala Harris el gener passat. Obiols, per cert, ja havia acabat i lliurat la traducció de la peça. Als Països Baixos, Marieke Lucas, el traductor no binari escollit inicialment, ha decidit abandonar la traducció després de veure l’enrenou que ha generat la seva elecció. L’agència literària de Gorman demana que, “preferiblement”, la traducció la signi una dona jove, negra i activista. La premsa internacional també s’ha fet ressò de la polèmica catalana. N’han parlat a La Presse o Digis Mak. Univers també va anunciar que durant la tardor vinent publicarà el primer poemari oficial de Gorman, que als Estats Units apareixerà al setembre amb el títol The Hill We Climb & Other Poems. L’edició castellana, de Lumen, la signa l’escriptora madrilenya Núria Barrios.

Obiols explica que Univers va proposar-li la traducció de Gorman fa cosa d’un mes. Ell va acceptar i, tot seguit, l’agència literària de la poeta va demanar el seu currículum. Van veure que és un professional competent i van donar l’aprovació. Obiols tradueix The Hill We Climb, lliura la feina i arriba el gir. No és el “perfil adequat”, diuen des de l’agència, que ja estava gestionant l’enrenou de la traducció neerlandesa. Univers —diu Obiols— pagarà la feina feta encara que no es publiqui. El traductor s’ha sentit “decebut”; ara, però, la decepció “ja gairebé ha passat”. “Els requeriments que ha de complir el perfil del traductor no invaliden la feina que he fet. Ja m’han dit que tot això no té res a veure amb la meva competència”, assegura. “La traducció, que em va quedar força bé, es quedarà al calaix”.

Sobre Gorman i la seva poesia, diu: “Em va semblar fantàstica quan la vaig veure a la investidura. Em va fer il·lusió que em truquessin per oferir-me la traducció. No és una poesia de la meva corda. És més aviat una poesia de performance. Té un to una mica pamfletari. Un to planer i popular. És poesia del poble. Per ser poesia de performance, però, té qualitat”. “Univers ha fet la campanya ja. I amb publicitat gratuïta. El merder farà que venguin els 5.000 exemplars previstos de la primera tirada”, afegeix. I continua: “El debat de fons l’ha de fer gent autoritzada. Analitzar un cas com aquest és molt delicat. L’equilibri de lluites i desigualtats, però, no es pot convertir en un desequilibri. Aquest cas és la ressaca d’altres coses, de greuges històrics”.

“És una contradicció, però, que es rebutgin traductors blancs i massa grans quan ella va recitar durant el jurament de Biden, que és un president blanc i del Partit Demòcrata, que no és pas un partit de castristes o anarquistes. Pots fer el joc al president, però no pots tenir un traductor blanc. Jo, a més, també pertanyo a una minoria, una minoria lingüística. Tenim una llengua maltractada durant segles. Una cosa no té a veure amb l’altra, però si hem de parlar de causes, d’opressions, aquí en patim una”, sosté el poeta.

Obiols diu que queda “perplex” davant d’aquest tipus de “reaccions ideològiques que fan més mal que bé”. “La ideologia que defensen no queda ben parada. S’agafen a uns paràmetres dogmàtics que trobo primaris, sectaris. La discriminació positiva, de vegades, acaba sent negativa. Una cosa és equilibrar i una altra és desequilibrar-ho tot per l’altra banda. No els faria cap mal que jo signés la traducció de la poeta. És un tema molt complex, però. Jo m’he trobat en un foc creuat. Ningú posava en dubte que jo estigués capacitat per traduir. Soc, però, un home occidental, cristià i potser massa gran. I això és el que els afroamericans i altres comunitats han hagut de sentir durant dècades: “Potser saps fer-ho, però ets dona i ets negra”. És terrible”.

Obiols, que ha estat contactat per France Presse, la CNN o La Stampa, diu que “el canvi de traductor té una transcendència”. “No pas perquè sigui una traducció al català, sinó per tot el que hi ha al darrere. És una polèmica molt seriosa. Una polèmica vinculada a la discriminació de gènere i de raça. A Amèrica, els últims anys, els moviments discriminatoris han viscut un rebrot, atiats pel trumpisme, sobretot. El que ha passat amb la traducció forma part d’una acció política de gran abast, la de les causes afirmatives i la discriminació positiva, que als Estats Units existeix des de fa temps, des de la lluita pels Drets Civils dels anys seixanta, i crec que aquí, a Europa, no s’entén prou bé. Gorman va ser escollida com a figura simbòlica, per ser negra, dona i jove, en aquest ordre. I és respectable que vulguin allargar aquest simbolisme amb la traducció. No és un problema de traducció literària, és un problema de traducció cultural”.

El traductor mirarà de contactar amb Gorman per explicar-li el cas: “No sé fins a quin punt és conscient de tot aquest embolic. Tampoc crec que sigui una manipulació exclusiva de l’agència. No ho sé; m’estranyaria. M’agradaria poder-ho parlar amb ella directament”. “Defenso, evidentment, la idea que la traducció basteix ponts entre cultures, però hem d’entendre el fenomen globalment”, conclou el poeta, que abocarà l’enrenou en una cançó: “L’escriptora holandesa ha respost amb un poema; jo n’escriure una cançó. Serà la meva manera de protestar. Com deia, però, no vull ser llenya d’aquest foc. Tot es polaritza. Jo estic on he estat sempre. No crec que pugui fer declaracions autoritzades. No soc ni antropòleg ni sociòleg”.

Víctor Obiols és poeta, traductor (de Shakespeare o Wilde), músic i professor d’escriptura. Versos i contracantsD’un juny dur i Dret al miracle (Premi Carles Riba 2015) són els seus poemaris més destacats. Musicalment, Obiols és conegut com a Víctor Bocanegra. L’últim disc que ha editat és Poesies de Broadway (Quadrant Records). El poeta i traductor és autor de Núvol. Podeu llegir els seus articles en aquest enllaç.

[Font: http://www.nuvol.com]

Milan Kundera

Escrito por RAFAEL BALANZÁ

Extrañamente, no había leído todavía una de las obras tempranas de Milan Kundera: “El libro de la risa y el olvido”. Acabo de hacerlo con gran placer, creo que es una de sus mejores novelas. Podemos describirla, con toda justicia, como “novela de ideas”; esa clase de ficciones entreveradas de ensayo, generalmente en torno a una idea-eje (dos, en este caso) que inundan con un potente chorro de luz el escenario social en el que se desarrollan. Aquí se trata, principalmente, de la Checoslovaquia comunista, y los personajes que vemos en escena no son únicamente iluminados por fuera, sino que también podemos escudriñarlos hasta los huesos gracias al poderoso y humorístico aparato de rayos X que emplea el autor.

El libro de la risa y el olvido

Decía Lukács que dos sentimientos matizan toda gran novela: ironía y melancolía; en ambos ingredientes resulta pródiga la narrativa de Kundera. Esta clase de libros presentan, sin embargo, muchos inconvenientes: exigen una lectura morosa (la lentitud, precisamente, es otro de esos temas de los que se ha ocupado el novelista checo), obligan a reflexionar e impiden consultar el whatsapp o jugar a la play con el otro ojo y la otra mano. La única ventaja que se me ocurre es que vuelven al lector más inteligente, algo completamente superfluo en estos días en que el algoritmo se ocupa de todo.

En cierto momento, el narrador nos invita a reflexionar sobre la putrefacción –casi inmediata- de los nobles ideales que inspiraron al principio la deriva hacia el socialismo: “Las antiguas injusticias iban reparándose, las nuevas injusticias comenzaban a perpetrarse”, se nos informa en la página 90. Emulando a Kundera, sociólogo implacable en sus ficciones, me propongo analizar aquí la relación entre el declive de la literatura de ideas y la hipertrofia de la política en nuestro país.

Capítulo primero: lo malo

Lo malo –he hablado de esto otras veces- es que ya antes de la pandemia vivíamos en sociedades deprimidas, sin ilusiones de redención ni horizontes de trascendencia, espléndidamente escaneadas por Houellebecq, entre otros escritores. Occidente está perdiendo la hegemonía global, y las clases medias de Estados Unidos y Europa carecen de esperanza. Recordemos la frase lapidaria del autor francés: “Antes la vida consistía en la espera del reino, ahora consiste en la espera de la muerte”.

Este clima psicológico depresivo fue a peor con la crisis de 2008 y dio lugar al crecimiento de populismos de izquierda y derecha tanto en Estados Unidos como en Europa. Y por primera vez, las nuevas generaciones en estos países no albergan una esperanza razonable de gozar de mejores condiciones de vida que sus mayores; lo que, sumado a un patente declive moral y espiritual, las relega a un estado de frustración constante. La pandemia ha exacerbado estos problemas, disparando los niveles de ansiedad y la demanda de atención psiquiátrica.

Capítulo segundo: el error y la risa

En realidad, ni la crisis financiera de 2008 ni la pandemia y sus consecuencias económicas han destruido por completo el bienestar básico de las sociedades desarrolladas. En Europa la sanidad pública sigue siendo universal en prácticamente todos los países, y la protección social garantiza un mínimo nivel de ingresos y de atención a los necesitados; mientras que en Estados Unidos la economía se ha recuperado con vigor renovado en los últimos años. Lo que sucede es que el crecimiento ya no puede ser tan rápido como en los decenios anteriores. Las economías que crecen a ese ritmo son ahora las de los países emergentes, en todo caso. A consecuencia de esto, en Occidente hay una sensación general de estancamiento. Y las nuevas tecnologías aportan soluciones y alicientes casi en la misma medida que nuevos problemas: la comodidad del teletrabajo apenas compensa de las ansiedades vinculadas a esa misma circunstancia; la conexión permanente con familia y amigos no palia el sentimiento creciente de soledad asociado a las inciertas y lábiles relaciones digitales. Probablemente las condiciones materiales seguirían siendo suficientes para desarrollar un proyecto vital satisfactorio, si el marco cultural e institucional dotara de sentido a la experiencia de vivir y envejecer. Pero como se da un vacío emocional subyacente, las consecuencias de una economía continuamente amenazada y una vida profesional estresante, enfocada a una competencia sin límites claros ni en el espacio ni en el tiempo, son percibidas con mayor intensidad, lo que genera descontento y miedo. Entonces la ciudadanía busca las causas de su malestar, pero -como expliqué en mi anterior colaboración- lo hace (risiblemente) en el lugar equivocado: la política.

Capítulo tercero: la trampa y el olvido

Comprender la verdadera raíz de los problemas no sirve, claro, para solucionarlos instantáneamente, y tal vez ni siquiera para mitigarlos; sin embargo, sí evita, al menos, caer en la trampa de buscar la solución donde no la hay. En los populismos, por ejemplo. También me he referido a esto en entregas anteriores.

En otros tiempos, la literatura sirvió para iluminar la problemática situación del hombre en el mundo, pero este tipo de arte ha caído en el olvido; ahora, cada vez más, la narrativa audiovisual (cine, series de televisión) o escrita está enfocada al puro entretenimiento, lo que elimina su virtud “iluminadora”, exceptuando algún caso vestigial, como el del citado Houellebecq o el del veteranísimo Kundera.

Capítulo cuarto: el feedback perverso

Cuanta menos literatura o periodismo de calidad lee la gente, más estúpida se vuelve en relación con sus propios padecimientos; lo que lleva al aumento de las corrientes demagógicas. Dichas tendencias inundan las redes y afectan al periodismo, obligado a asumirlas e incorporarlas para satisfacer la demanda. También la literatura entra en el juego de la facilidad para ser competitiva.

Capítulo cinco: los beneficiarios

La crispación -fruto del error de interpretación que hemos señalado antes- beneficia a los “periodistas estrella” que participan en tertulias televisivas o radiofónicas auspiciadas por grupos mediáticos, los cuales toman el rentable camino de satisfacer la demanda social de contenidos políticos cada vez más estridentes. Un buen ejemplo de esto es el caso del grupo Planeta, que edita el diario La Razón y tiene intereses en La Sexta, una televisión de ideología opuesta. En realidad, a los inversores del grupo Planeta no les importa ni la morralla que venden como literatura –que no es peor, por otra parte, que la de otras editoriales supuestamente más literarias-, ni tampoco los contenidos políticos que suministran al público de una u otra orientación. Sencillamente, como camellos oportunistas, proporcionan cualquier clase de droga demandada y utilizan buenas marionetas para su guiñol: Wyomin, Inda, Marhuenda… No quiero decir con esto que las marionetas no sean sinceras cuando se enzarzan en disputas o debates (probablemente lo son), sino que los mercaderes del espectáculo las utilizan en su provecho. Beneficiarios de la situación son también, sin duda, los políticos profesionales, incluidos aquellos aparentes extremistas que ven incrementado su patrimonio y pueden, por ejemplo, adquirir propiedades de lujo en la sierra; además de asegurarse el porvenir como conferenciantes desproporcionadamente retribuidos.

Si la gente entendiera el escaso margen que existe en un país cuasi-intervenido y periférico como España para una acción de gobierno, sometida a directivas europeas y a dinámicas de mercado transnacionales, muchos dejarían de ir a votar o lo harían, venciendo su desidia, sin prestar atención a tertulias y análisis, lo que acabaría dejando el Estado en manos de tecnócratas constreñidos a políticas de centro o centro izquierda; cosa que en realidad ya sucede en el backstage, fuera de la luz pública. La cierto es que influye mucho más en nuestra vida lo que se decide en el gobierno chino o en nuestra comunidad vecinal (dos siniestras entidades) que lo que implica nuestro voto.

Capítulo sexto: una profecía

La actual crisis se superará pronto, pero las debacles medioambientales y de salud probablemente se sucederán en los próximos años. El consumo de política-espectáculo irá en aumento, lo que conducirá a mayores tensiones y crispación social, que será inmediatamente reciclada, empaquetada y revendida por los medios de comunicación. Es improbable que se dé una verdadera revolución si el entusiasmo (optimismo ilusorio) o la desesperación (hambre, sufrimiento físico) no rebasan ciertos límites, todavía lejanos. Cabe la posibilidad, sin embargo, de que la democracia liberal sea sustituida progresivamente por una dictadura democrática sustentada en las redes sociales y apoyada por expertos y demagogos, a sueldo de grandes corporaciones tecnológicas… Pero esto ya nos deja a las puertas de una futura novela de ciencia-política-ficción que escribiremos otro día y presentaremos, tal vez, en alguno de los programas del oracular y ubicuo Iker Jiménez.

 

[Fuente: http://www.todoliteratura.es]

El escritor y periodista tuvo la virtud de llevar el arrabal porteño al centro de la ciudad a través de sus crónicas y de hacer pública la disputa de los grupos literarios de Boedo y Florida desde las páginas del diario Crítica.

Nacido en el barrio de Once, el escritor pasó parte de su infancia caminando y leyendo entre los árboles de plaza Miserere.

Nacido en el barrio de Once, el escritor pasó parte de su infancia caminando y leyendo entre los árboles de plaza Miserere.

Escritor y renovador del estilo periodístico argentino, integrante de la bohemia porteña de su tiempo, Enrique González Tuñón tuvo la virtud de llevar el arrabal porteño al centro de la ciudad a través de sus crónicas y de hacer pública la disputa de los grupos literarios de Boedo y Florida desde las páginas del diario Crítica, en una Buenos Aires donde había nacido 120 años atrás, un 10 de marzo.

Creados en Argentina por influencia europea, los grupos de Florida y Boedo formaron parte de la escena literaria argentina de vanguardia y quedaron como emblema de las disputas ideológicas y estilísticas que subyacían en ambos sectores. Con una ideología más conservadora, pertenecían al primero Jorge Luis Borges, Victoria Ocampo y Leopoldo Marechal, entre otros, y tenían como centro de reunión la revista Martín Fierro. Mientras que el grupo de Boedo, integrado por Leónidas Barletta, Roberto Arlt, Álvaro Yunque y César Tiempo, representaba una obra relacionada a temáticas sociales, obreras y políticas desde una perspectiva socialista o de izquierda.

González Tuñón participó junto a su hermano, Raúl, de estos grupos, colaboró para las revistas Martín Fierro y Proa, y en 1924, adhirió al movimiento de Florida, colaborando en el legendario periódico Martín Fierro, en la revista Proa, de Ricardo Güiraldes. Allí publicó el escritor sus notables imágenes de « Brújula de Bolsillo », y en el periódico, sus epitafios fueron los más mordaces durante la guerrilla literaria.

Esas disputas, que se dirimían en las revistas que publicaban ambos grupos de artistas, fueron dadas a conocer por González Tuñón en columnas del diario Crítica, donde compartió horas de trabajo junto a Roberto Arlt.

En las páginas de ese diario, entre junio de 1925 y agosto de 1931, el escritor también dio cuenta de textos que luego reuniría en su primer libro y que se publicó bajo el nombre de « Tangos » (1926).

González Tuñón tomaba cada semana la letra de un tango como motivo inspirador y dando rienda suelta a su imaginación escribía un cuento acerca de la historia que encerraba la letra de un tango de popularidad en ese momento, que iba acompañado por una ilustración.

No obstante, su obra más lograda fue seguramente « Camas desde un peso » (1932), una pieza intergénero entre la novela y el cuento integrada por una serie de relatos, dostoievskiana y poética, galería de retratos del submundo miserable de Buenos Aires, donde cinco hombres de dudosa estampa comparten una habitación en un lugar llamado « El puchero misterioso ».

« El alma de las cosas inanimadas » (1927) y « La rueda del molino mal pintado » (1928) son algunas de las viñetas publicadas en diarios.

« Apología del hombre santo » (1930) es un homenaje a la memoria de Ricardo Güiraldes. « El Tirano » (1932), subtitulada « novela sudamericana de honestas costumbres y justas liberalidades », es una sátira a la dictadura de Uriburu. Sus últimos libros, recopilación de su trabajo periodístico son « Las sombras y la lombriz solitaria » (1933), serie de impactos periodísticos-literarios con predominio del expresionismo crítico; « El cielo está lejos » (1933) y « La calle de los sueños perdidos » (1941).

González Tuñón fue además guionista de cine (« Mañana me suicido », 1942; « Pasión imposible », 1943), escribió tangos (entre los que se cuenta « Pa’l cambalache », escrito junto a Rafael Rossi y grabado en 1929 por Carlos Gardel), piezas teatrales, sainetes y folletines.

Nacido en el barrio de Once, hoy Balvanera, el escritor pasó parte de su infancia caminando y leyendo entre los árboles de plaza Miserere, que en ese momento era « un verdadero parque, boscoso, denso » según recordaría luego de su muerte, su hermano Raúl, uno de los grandes poetas del vanguardismo argentino.

« Él tenía 10 años, me llevaba cuatro. Yo lo seguía y admiraba. Una vez, evocando aquella época, me confesó, desolado, que entonces yo lo fastidiaba. Puede ser, pero ya cuando ingrese tras él al diario Crítica -una etapa apasionante, un fenómeno periodístico extraordinario, algo decididamente no superado- parecíamos una sola persona, coincidíamos en todo. En adelante me estimuló, me ayudó, aun desde lejos y hasta su último aliento », evocó alguna vez.

Su hermano también recordaría que el escritor « leía ávida y desordenadamente » y « Citaba a menudo a Quevedo, el de El buscón, a Dickens, Chéjov, Bret Harte, Gorki, el Payró de El casamiento de Laucha, y a Ángel Ganivet, Lord Dunsany, Charles Louis Philippe, Rafael Barret, Katherine Mansfield, Zola ». Fue el primero en incorporar vocablos y dichos de la jerga pop lunfarda de los años 20 y no solo en las glosas de tangos, y lo definió como « el cronista magistral de la ciudad ».

« Enrique hizo muchas veces galas de sutil ironía, de ingenio agudo y en ciertos casos urticantes. Este hombre tan fino, tan flaco, tan bondadoso era implacable cuando se trataba de fustigar a un canalla o a un pacato hipócrita. Alternaba una efusiva cordialidad y su comunicante ternura con una gracia zumbona en las sobremesas, por momentos con rasgos de humor negro », señala Raúl González Tuñón.

« Estoy seguro de que un día, en el muro de la casa del barrio donde nacimos, mejor dicho, en la pared de un feo edificio sin historia que ahora se alza allí, sin el patio, sin el níspero, podrán leerse estas palabras grabadas en el bronce: «En este sitio estaba situada la casa de la infancia de Enrique González Tuñón, el más porteño de los cronistas de Buenos Aires. Partió a una zona desconocida el 9 de mayo de 1943. No era un general, no era un primer ministro, pero era un artista, era un poeta, tenía la llave de la calle» ».

 

[Fuente: http://www.telam.com.ar]

Se cumplen 200 años del Plan de Independencia de la América Septentrional, conocido como Plan de Iguala, redactado en esa ciudad guerrerense por Agustín de Iturbide. El autor de este artículo se suma a las conmemoraciones, y nos habla de la transcendencia de la música en el imaginario colectivo de la sociedad durante ese importante período de nuestra historia.

Escrito por Luis Díaz-Santana Garza

A Roger Bartra

El 4 de febrero de 1800, en la ciudad de Valladolid, Nueva España, el Real Colegio de Carmelitas celebró la visita general del obispo, quien fue acompañado por su provisor y deán, así como por otros señores de su cabildo. De igual manera, concurrió el intendente y procurador general de la ciudad, comenzando la solemnidad con una visita a la sacristía, “en la que se manifestaron muchos y exquisitos parlamentos”. A la par, un coro, con “variedad de instrumentos y el órgano”, entonaba el himno Te Deum Laudamus. Posteriormente, la orquesta de la catedral interpretó una “armoniosa sinfonía” y, “para admiración de los inteligentes”, una de las niñas colegialas “cantó una área [sic]”, y otra tocó un concierto en el fortepiano, “en el que acreditó tanto su instrucción en la música como su destreza en dicho instrumento”. Antes de concluir la jornada, se escucharon “otras varias composiciones que se cantaron y tocaron”. Así lo describía la Gazeta de México.

La crónica publicada en la Gazeta ilustra varios elementos destacables que podremos reconocer en la música del siglo XIX: en primer lugar, se nos presenta como la actividad social participativa por excelencia. En segundo término, debo subrayar la importante presencia femenina en la interpretación de música vocal e instrumental. Además, nos habla de las formas musicales en boga, y la convivencia entre obras eclesiásticas y música secular. Asimismo, da cuenta de la difusión del canto y de instrumentos antiguos como el órgano, pero también de los novedosos como el fortepiano, y los aparatos productores de sonido que conforman una orquesta, además del decoroso conocimiento musical de los asistentes y de los filarmónicos. Por si fuera poco, nos percatamos de la cercanía que existía entre la música y los poderes políticos y eclesiásticos. Partiendo de dicha crónica, este artículo pretende destacar el papel de la música en la sociedad mexicana durante el primer cuarto del siglo XIX, una sociedad que adoptó con optimismo la independencia y el Plan de Iguala.

Música, censura y clases sociales

Es indiscutible la jerarquía social de la música en las celebraciones religiosas y civiles, dejando claro que, desde la antigüedad y hasta nuestros días, “la creación conjunta de música sirvió para facilitar el comportamiento cooperativo al anunciar la voluntad personal de colaborar, y al crear estados emocionales compartidos que conducen a la pérdida de límites, la unión y unidad grupal”, como mencionó el arqueólogo Steven Mithen. En el ámbito aristocrático, al que se refiere la crónica inicial, la transmisión de saberes musicales estaba gobernada por la música impresa y los tratados copiados a mano: podríamos decir que era el ambiente “letrado” de la música.

La descripción de los métodos para la enseñanza de la música y de los manuscritos musicales decimonónicos ha sido tema central para algunos musicólogos en décadas recientes. Ciertos volúmenes incluyen piezas “populares”, como el caso del Jarave insurgente en el álbum de Mariana Vasques; pero estos cuadernos eran para uso personal y, como señalé en un artículo reciente, formaban “parte de una cultura a la que no todos tenían acceso”.1

El jarabe fue una de esas formas musicales menospreciadas y censuradas, como lo muestra la prohibición del 5 de octubre de 1802, cuando el Santo Oficio publicó un edicto, declarando que “en nuestros días se ha introducido otra especie de baile, llamado jarave gatuno, tan indecente, disoluto, torpe y provocativo que faltan expresiones para significar su malignidad”. La desaprobación de las músicas y danzas “indecentes” no era nueva, y abarcó “los jarabes, jaranas, fandangos y otras variantes”, que la historiadora de la danza, Maya Ramos, considera descendientes de “las seguidillas, fandangos y zapateados españoles, sin quedar exentos de influencia negra”.

Sin duda, la moral católica y los actores políticos jugaron un papel substancial en la prohibición de ciertas músicas y sus versos, pero, ¿cuál fue la influencia de las élites en la censura de las fiestas que celebraban las clases bajas? De entrada, como consecuencia de ser música vinculada con la insurgencia, considero que la carga ideológica del jarabe fue una de las causas de su condena. Aunque no todos los integrantes de las capas superiores de la sociedad estaban en contra de tales diversiones, como sugieren las fiestas de la aristocracia, donde “se solía llevar mulatos para que amenizaran la reunión bailando el sarao y otros bailes”.2

Y si las élites normalmente aprendían a tocar por medio de partituras, en las clases bajas predominaba el aprendizaje “lírico”. Con frecuencia se desdeña la música que se transmite por medio de la oralidad, sin embargo, también hay crónicas que acreditan “los afanes, estudios y fatigas” de individuos que practicaron su instrumento por años antes de poder obsequiar a la sociedad sus “frutos melodiosos”. Dichos músicos amenizaban los fandangos, tanto de menesterosos como de acaudalados, y muestran que los “salones burgueses” fueron mucho más numerosos de lo que originalmente se pensó, y que los músicos sirvieron como vasos comunicantes entre las tradiciones acústicas de las diversas capas de la sociedad.

El papel de las mujeres en la música

Como vimos al comienzo, el evento del Colegio de Carmelitas contó con la participación de diversas niñas que cantaron y tocaron instrumentos. Deducimos que las señoritas contaban con un digno nivel de conocimiento musical, declarado por la frase del redactor “para admiración de los inteligentes”. La música era una de las disciplinas más importantes en la educación femenina, aunque algunos escritores, como José Blanco, considerasen al canto más “como ejercicio, y no como arte,” que “satisface una vanidad pueril y mezquina”, reprobando que “la moda ha generalizado la enseñanza de la música en el bello sexo, y la moda proscribe enteramente su uso, pasado cierto periodo en que parece satisfecha toda la ambición de la mujer. Como si solo adquiriera gracias y talentos para cautivar al hombre”.3 Pero el mismo cronista recordaba a las jóvenes que “un día llegarán a ser madres, y podrán comunicar a sus hijos, sin el ministerio de un hombre extraño y mercenario, los elementos de las artes que cultivan”. El autor menciona que el estudio privado del canto o el piano en el hogar no solo tenía como finalidad “cautivar al hombre”, sino la ejecución ante familiares y amigos en el salón: a fin de cuentas, eran presentaciones públicas.

El historiador Antonio García Cubas anotó que “otras familias acuden a la tertulia con su contingente de apuestos galanes y hermosas jóvenes […] De esas jóvenes, las que se distinguen por sus progresos musicales, distraen a la concurrencia […] con brillantes fantasías de Thalberg o de Liszt ejecutadas en el piano”. La práctica del piano y las tertulias eran actos públicos, y es sobresaliente la ostensible gala de virtuosismo pianístico. Algo similar observó Meg Whalen cuando estudió las reuniones caseras en varias ciudades europeas, destacando que se difuminaban los límites de las clases sociales, y entre lo público y lo privado: “El salón es un fenómeno único. No es doméstico, tampoco está abierto a las masas. En el mejor de los casos, el salón es uno de los eventos específicos que debería llamarse ‘público’”. Consecuentemente, no es atinada la imagen que algunos musicólogos, como Jennifer Post, nos han transmitido de la mujer: practicando a solas en casa, y con un conocimiento tan elemental del arte musical que solamente se le podía considerar como simple amateur.4

Las aportaciones femeninas en los jardines de Euterpe durante este período del siglo XIX se manifiestan, además, por el hecho de que al menos tres de los manuscritos musicales más representativos que se conservan de tiempos de la guerra de independencia fueros recopilados por damas letradas: Guadalupe Mayner, Mariana Vasques y Merced Acebal.

Lo descrito hasta aquí era parte de la vida cotidiana de las señoritas que integraban los estratos económicos medios y altos, aunque algunas damas de abolengo, y otras humildes, tuvieron colaboración relevante, no solo en la música, sino también en la guerra de independencia. En el archivo histórico del estado de Zacatecas, por ejemplo, hay una decena de averiguaciones contra mujeres acusadas de apoyar a la insurgencia. En particular, destaco la denuncia contra María Dolores Beltrán, quien se ganaba la vida en fandangos. Procesada en 1811, aceptó que anduvo con los insurgentes en Saltillo, pero se indultó para regresar a Zacatecas, sosteniendo que “lo único que podían imputarle era su participación en los fandangos, pues ella era lo que sabía hacer: bailar y cantar”. A pesar de que su acusador indicó que María Dolores le confesó que aborrecía a los “gachupines”, y que “nunca les vendería a ellos sus servicios”, fue puesta en libertad, confirmando que la autoridad aceptó su historia, seguramente porque una cantante y bailarina les pareció inofensiva. Por tanto, era habitual la participación de las mujeres en el espacio público, patrocinando artistas, cantando y tocando instrumentos en elegantes salones y en fiestas callejeras, y además muchas de ellas tuvieron la transcendental vocación de ser maestras de sus propios hijos.

Formas e instrumentos, poder, y capital cultural musical

En Rostros del nacionalismo en la música mexicana, Yolanda Moreno expuso que “el retraso técnico [de la música] del siglo XIX era el resultado inevitable de una tajante escisión cultural y las constantes crisis y convulsiones provocadas a partir de la independencia política de España”, y que después de la independencia “los nuevos compositores olvidaron una ortodoxa tradición de composición que se remontaba hasta los inicios de la colonia”. Pero debemos matizar tales afirmaciones, ya que otros investigadores han aclarado que no existió una “escisión cultural” entre la nueva nación y España; así lo muestran las formas populares como el jarabe y los corridos, herederos de músicas peninsulares. Asimismo, y al menos durante la primera mitad del siglo XIX, los “nuevos compositores” no olvidaron la “ortodoxa tradición” del virreinato, toda vez que, en tiempos de la independencia, continuaba de moda el embeleso por la música barroca, como lo corroboró Carlos Hinojosa, cuando examinó el tratado de Miguel Lopes Remacha: “La manera de interpretar la música en esa época, en la que se constata que los principios de ejecución barrocos estaban perfectamente vigentes”. Todavía en 1821 Lopez de Elizalde publicó en Guadalajara el Tratado de música y lecciones de clave, probando que, a pesar de la introducción del fortepiano, el clavecín estaba vivo en el año de nuestra independencia.

Recordemos también que nuestra narración inicial mencionaba el conocimiento musical en posesión de los filarmónicos, pero también del público. Dicha comprensión se puede constatar en multitud de editoriales de la época, como el del periódico El Sol, donde el “ciudadano Tanlan” criticaba la presencia escénica, y la técnica vocal, de varios cantantes que interpretaron “la ópera de la travesura”. Otra crónica de 1824 sobre El califa de Bagdad hace patente las nociones musicales de un redactor anónimo, cuando especificaba que el actor principal poseía un “canto tan armoniosamente gangoso y cerebral, y en el meneo tan garboso de sus telegráficos brazos […] parece asegurar el compás de su gaznate”. Además de comicidad, la nota pone de manifiesto otros temas relevantes: primero, el valor de la música en las relaciones internacionales, ya que la función se ofreció “en obsequio de la Legación Inglesa”; segundo, el gusto por la música europea en México, pues la obra era un “poema francés […] y su música también francesa”; tercero, que después de la independencia se olvidaron las viejas prohibiciones y, en los intermedios de la ópera, se presumían ante extranjeros las “danzas nacionales llamadas petenera, gato y jarave”; y cuarto, la relación entre música y poder, por el hecho de que “los obsequiados” y varios regidores asistieron al Coliseo, además del presidente del Congreso y el ministro Lucas Alamán.

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Durante el siglo XIX el espíritu nacionalista se expresó mediante la música: se compusieron canciones, marchas e himnos, ensalzando políticos y militares, tanto regionales como nacionales. Como mencionó el historiador Jean Meyer, “el mito de Iturbide, como execrable déspota, criminal asesino de patriotas, surgió de manera tardía, mucho después del fracaso de su efímero imperio, imperio ideado por Lorenzo de Zavala, la cabeza pensante de lo que llegaría a ser el “partido” liberal”.5 Por medio de la música el imperio fue inicialmente aceptado por la sociedad en su conjunto; se pudo publicar, por ejemplo, un extenso libro que reuniera la poesía “culta” y “popular” dedicada a Iturbide. Además, varios músicos “letrados” celebraron la independencia, entre ellos José Antonio Gómez, quien creó su Pieza histórica sobre la independencia de la nación mexicana para exaltar los esfuerzos del primer emperador mexicano.

Además de ser uno de los principales entretenimientos, la música fue mucho más que un adorno: fue motivo de unión social y promotora de sentimientos religiosos y patrióticos; sustento del poder y la subversión, usada políticamente para pacificar, y como símbolo identitario de las élites y también de insurgentes; en pocas palabras, la música fue la gran estructura retórica y la fuerza social colectiva que orquestó las acciones de todos los grupos sociales. Al respecto, Jacques Attali afirma en Ruidos: ensayo sobre la economía política de la música que “más que los colores y formas, son los sonidos y su distribución los que moldean a las sociedades. Con el ruido nace el desorden y su contrario: el mundo. Con la música nace el poder y su opuesto, la subversión”.

Por otro lado, los músicos fueron considerados inocuos, transitando libremente por diversas regiones y estratos de la sociedad, y su intervención en los fandangos modestos, pretenciosos u opulentos, les permitió pasar inadvertidos al momento de propagar noticias e ideas políticas. Y no me refiero a que los filarmónicos fueran murmuradores: aun la música instrumental que ejecutaban estaba cargada de ideología y significados, que los oyentes cuidadosos podían “leer”.

No en balde, el 24 de febrero de 1821, Iturbide reconoció la multiculturalidad de la nación que estaba creándose, al dirigirse a los “americanos”: “bajo cuyo nombre comprendo no solo a los nuestros en América, sino a los europeos, africanos, y asiáticos, que en ella inciden”, finalizando su redacción del Plan de independencia de la América septentrional con la frase “¡Viva la unión que hizo nuestra felicidad!” Como consta en el archivo de la defensa nacional, la música fue “herramienta para la creación o consolidación de una comunidad”, inseparable de los fastuosos rituales sociales por la coronación de Iturbide, luego de que una mayoría de diputados lo designó emperador constitucional. Solo un ejemplo, de entre los muchos ecos que resonaron en el nuevo reino: en Veracruz, el comandante general dispuso que “se hiciese salva triple de artillería con repique general de campanas. El pueblo […] ha manifestado su cordial y sincera adhesión a nuestros amados emperadores demostrando su júbilo y aplausos con músicas por las calles”. Como hemos visto, en la edificación y afirmación de esa unidad y felicidad nacional a la que aspiró el Plan de Iguala, los músicos y las músicas jugaron un papel fundamental.

Luis Díaz-Santana Garza
Miembro del Sistema Nacional de Investigadores, profesor de la Universidad Autónoma de Zacatecas. Ha publicado varios libros, como Historia de la música norteña mexicana, y coordinó La investigación musical en las regiones de México.


1 Díaz-Santana Garza, L. (2020). “La percepción de la guitarra en las ediciones mexicanas: Desde finales del virreinato al siglo de independencia”, en Diagonal: An Ibero-American Music Review, 5(2).

2 Ramos Smith, M. La danza en México durante la época colonial. México, CONACULTA/Alianza editorial mexicana, 1990, p. 43.

3 Blanco White, J. Gimnástica del bello sexo, o ensayos sobre la educación física de las jóvenes. Londres, R. Ackermann, 1827, p. 27.

4 Post, Jennifer C.“Erasing the Boundaries between Public and Private in Women’s Performance Traditions”, en Cecilia Reclaimed. Feminist Perspectives on Gender and Music, editado por Susan C. Cook y Judy S. Tsou, Urbana y Chicago, University of Illinois Press, 1994.

5 Meyer, Jean. “1521 y 1821: ¿Hemiplejía histórica?”, nexos, enero 2021, p. 46.

 

[Ilustración: Kathia Recio – fuente: http://www.nexos.com.mx]

L’écrivain et éditeur René de Ceccatty réagit à l’affaire de la traduction d’Amanda Gorman aux Pays-Bas en s’opposant à toute forme de critères idéologiques.

Rene de Ceccatty, traducteur, ecrivain, editeur au Seuil

René de Ceccatty, traducteur, écrivain, éditeur au Seuil

Propos recueillis par Valérie Marin La Meslée

Il est à la fois écrivain (Mes années japonaises, paru au Mercure de France en 2019), traducteur, de l’italien (Dante, Pasolini) et du japonais, et éditeur aux éditions du Seuil. Cette fois, il répond à nos questions au sujet de la polémique née aux Pays-Bas à propos de la traduction par Marieke Lucas Rijneveld – devenue l’an dernier, à 29 ans, la plus jeune lauréate du prix international Booker pour son premier roman (Qui sème le vent, traduit en français par Daniel Cunin aux éditions Buchet-Chastel) – du recueil d’Amanda Gorman – poétesse choisie par Joe Biden pour son investiture – à la demande de l’éditeur néerlandais Meulenhoff. Face au tollé qu’a suscité la nouvelle, et notamment l’article d’une journaliste et militante noire, Janice Deul, disant qu’une personne noire aurait dû être choisie pour ce faire, Marieke Lucas Rijneveld a renoncé et doit s’exprimer sur cette affaire sous la forme d’un poème à paraître cette fin de semaine.

Le Point : Quelle a été votre première réaction à cette polémique ?

René de Ceccatty : L’idée qu’il faille être noir pour traduire un Noir est terrifiante. Cette bienséance, ce politiquement correct qui envahit tous les domaines de la culture font perdre la tête aux gens ! Ni l’orientation sexuelle, ni l’origine de la personne, ni sa couleur de peau, ni son genre ne lui donnent une compétence ou une incompétence, c’est totalement absurde. Ce sont des critères d’ordre idéologique qui n’ont pas leur place dans la traduction.

Récemment s’est posée la question de traduire le poème de Derek Walcott « Omeros ». J’ai eu le sentiment que le traducteur devait avoir, certes, une connaissance du contexte antillais-américain, mais surtout être en mesure de trouver l’équivalent linguistique français des Antilles. À partir de là, je suis convaincu de la nécessité que le traducteur soit à l’aise, et très inventif, dans l’équivalent français du créole antillais américain. Est-il pour autant obligatoire que ce soit un Antillais métis qui traduise Walcott, lui-même antillais et métis ? Non. Certes, des poètes, qui connaissent bien la langue antillaise de Patrick Chamoiseau, ou de poètes haïtiens, pourraient, par leur approche de la langue créolisée, en sentir plus facilement les nuances. Mais il n’est pas question d’origine ou de couleur de peau. Un Blanc européen peut avoir cette connaissance livresque, culturelle, par affinité, ou pour avoir vécu dans le pays. Ce qui est fondamental dans la traduction, c’est l’apprentissage par des lectures. Est-ce que cela peut suffire, pour traduire un poète africain, d’être de son pays ou d’y avoir vécu ? Non, ce qui compte, au-delà de l’expérience de rites culturels, c’est la connaissance de la culture, la compétence et la sensibilité littéraire.

Dans quelle mesure l’argument d’une connaissance du « spokenword  », de la poésie orale des slameurs, peut être à considérer dans ce débat ?

L’oralité est un autre problème auquel j’ai moi-même été confronté en traduisant Pasolini. J’ai su reconnaître mes limites quand il s’est agi de retraduire des romans comme Ragazzi di vita (Les Ragazzi) ou Una vita violenta. Le langage de « banlieue » n’est pas du tout normé, et pose déjà un problème dans la restitution orale de l’italien. En français, la traduction dans un style argotique de la « série noire » était très artificielle (pour les premières traductions de ces deux romans). Pasolini n’en était pas satisfait. Mais quand on m’a proposé de les retraduire, j’ai reconnu que je n’y arrivais pas, je n’avais pas en moi l’équivalent français de cette oralité. Le traducteur doit avoir cette connaissance, sentir immédiatement en français, et sans doute par son expérience personnelle, l’équivalent de cette oralité.

On a justement argué, comme critère de traduction d’Amanda Gorman, de la communauté d’expérience vécue d’une Noire. Qu’en pensez-vous ?

Il est impossible d’avoir une expérience vécue analogue à celle de l’auteur que l’on traduit. Cela veut dire qu’un lecteur qui n’a jamais connu ce que l’auteur a connu ne comprendrait pas ce qu’il écrit ? À quoi sert un livre sinon à faire découvrir, partager, connaître une expérience que le lecteur n’a jamais eue ? Sinon on ne lirait que ce qu’on connaît ! Non. Un traducteur peut être un passeur supplémentaire dans ce processus s’il a les instruments suffisants en termes d’intellect, de technique. Quand on me propose une traduction, je me demande toujours si je suis prêt à me plonger dans cet univers qui n’est pas entièrement le mien. Ainsi, récemment, on m’a demandé de traduire un texte interlope, qui se passe à Rome. Mais j’ai refusé cette proposition parce que je n’arrivais pas à trouver cette langue-là, faite de beaucoup de citations de réseaux sociaux, de Twitter, d’Instagram, et pour moi qui n’y suis pas naturellement plongé, j’ai senti que ce serait artificiel. On se pose constamment la question : est-on prêt à passer quatre mois dans un univers qui ne vous est pas naturel ? Il faut trouver cet équilibre entre un univers nécessairement nouveau pour soi, mais dont on se sent un ambassadeur possible, c’est beaucoup une question d’intuition.

Pensez-vous que la traductrice choisie a trop facilement jeté l’éponge face aux attaques ?

Un traducteur est toujours angoissé, il se pose toujours des questions, alors, s’il sent une pression autour de lui, comment va-t-il résister au fait qu’on pense qu’il n’est pas la bonne personne pour ce faire ?

Certains critères manqueraient-ils au milieu de l’édition pour choisir un traducteur de textes issus de la diversité ?

J’ai toujours été sensible, en éditant des auteurs comme Patrick Chamoiseau ou en faisant des recensions de l’œuvre Édouard Glissant, à l’ouverture d’un catalogue et d’habitudes de lecture. Et les éditions du Seuil ont confié la direction de la collection poésie à Alain Mabanckou, dont les premiers textes parus sont ceux de poètes noirs, d’un poète haïtien de facture assez classique comme Louis-Philippe Dalembert aux textes d’un slameur comme Souleymane Diamanka. Faut-il pour autant parler de démagogie ? Comme du geste de Biden en choisissant Amanda Gorman ? Toutes les voix doivent s’exprimer, mais l’opportunisme venu de la bien-pensance de la diversité n’est pas une chose entièrement sincère. Que quelqu’un appartienne à une population déshéritée qui n’a pas eu voix au chapitre ne lui donne pas la compétence nécessaire pour parler au nom d’une communauté, ce n’est pas forcément la bonne personne. Un intellectuel parle souvent au nom des autres et pas toujours avec une parfaite compétence, mais, encore une fois, ce n’est pas l’origine qui peut le déterminer. Alors, que dirait-on de la légitimité d’un Claude Lévi-Strauss ou du cinéaste Jean Rouch ? De disciplines comme l’anthropologie ? L’ethnologie ? Dans mon travail d’éditeur, je découvre des personnalités et des expériences dont je n’avais pas connaissance jusque-là, mais que je suis capable de comprendre. Pour la traduction, c’est la même chose dans les limites que je disais tout à l’heure. La poésie réclame certainement des affinités particulièrement pointues, mais sûrement pas idéologiques.

Comment donner davantage de visibilité à ceux qui s’en sentent privés ?

Entrer dans le domaine des quotas est très dangereux en matière d’édition ou en matière intellectuelle tout court. Mes critères demeurent les mêmes, quel que soit l’écrivain, et pareillement pour la traduction : surtout ne pas prendre le risque de se soumettre à des critères qui relèvent de l’idéologie. En poésie, il se peut que le rapport naturel au slam ou au rap donne une compétence véritable, bien entendu. Et que cette affaire soit l’occasion pour un certain nombre qui se sentent écartés par une dite race blanche dominante de se poser la question, sans doute, mais il ne faut pas qu’elle soit la première question que l’on se pose, que cela devienne un argument politique et donc nécessairement simplificateur. Pour moi, forcer la note est toujours terrible. Comme dans le domaine de la sexualité : réduire la littérature homosexuelle à un lobby ? Seul un homosexuel comprendrait un livre écrit par un homosexuel ou parlant d’homosexualité ? On en arrive à une totale absurdité et à une ghettoïsation des sensibilités. La grande littérature ne souffre aucune détermination.

[Photo : Francesca Mantovani – source : http://www.lepoint.fr]

Els estrangers que sol·licitin la ciutadania espanyola continuaran estant obligats a saber castellà però català no

Els partits que formen l’actual govern espanyol han proclamat en diverses ocasions que defensen un model plurinacional i plurilingüístic per a l’Estat espanyol, però la realitat és que l’aprovació de normes lingüísticament discriminatòries no ha disminuït i, per tant, el castellà, per llei, continua sent l’única llengua obligatòria en molts àmbits diferents. De fet, la recerca feta per la Plataforma per la Llengua permet concloure que l’any 2020 es va tancar amb 135 normes discriminatòries, dues més que l’any 2019. D’aquestes, 61 són estatals, 72 europees i  2 de l’ONU. Durant el quart trimestre, a més, es van aprovar un total de 53 normes que reforçaven el castellà en territoris tradicionalment catalanoparlants, gairebé el doble que en els trimestres anteriors.

El supremacisme castellà parteix de la idea que l’idioma i la cultura de Castella tenen unes qualitats intrínseques i també històriques que els doten de la categoria de « comuns » de tots els ciutadans de l’Estat espanyol, amb independència de si aquest idioma i aquesta cultura són els propis i familiars dels ciutadans, i els autòctons i tradicionals del territori. Aquesta ideologia discriminatòria marca profundament la legislació, que tracta el ciutadà castellanoparlant com el model per defecte, neutre, de ciutadà espanyol, mentre que invisibilitza els altres grups etnolingüístics de l’Estat i tracta els seus membres com si fossin integrants del grup majoritari amb afegits de caràcter « diferencial ».

Aquest marc supremacista del reconeixement lingüístic inspira, per exemple, les normes que regulen l’adquisició de la ciutadania espanyola per part dels estrangers residents. El desembre de 2020, el govern del PSOE i Unidas Podemos va modificar una norma ja existent perquè es pogués sol·licitar per via telemàtica la ciutadania espanyola. Malgrat la modificació, el decret va mantenir l’obligatorietat d’examinar-se en castellà per obtenir la ciutadania. Concretament, aquest decret continua establint que com a prova de « la integració en la societat espanyola » (un requeriment establert pel Codi Civil) els sol·licitants han de demostrar « el coneixement bàsic de la llengua espanyola mitjançant l’aportació a l’Institut Cervantes dels certificats oficials dels nivells bàsic (A2), intermedi i avançat dels ensenyaments d’espanyol com a llengua estrangera ». Així doncs, el coneixement del castellà és tingut com un senyal « d’integració », amb independència de si aquesta llengua és la tradicional del lloc on resideixen els estrangers en qüestió i de si és majoritària entre els seus veïns.

També al desembre, l’executiu espanyol va aprovar un altre decret que regula la concessió directa de subvencions a entitats d’integració de la immigració, que establia com a objectiu del procés d’acollida la « enseñanza de español y, en su caso, de otras lenguas oficiales en el lugar donde se esté realizando el itinerario con el fin de procurar la inmersión lingüística ». La norma, doncs, condiciona els ajuts econòmics a l’ensenyament del castellà uniformement a tot l’Estat, com si aquesta llengua fos l’autòctona, tradicional i majoritària arreu, mentre que tractava els altres idiomes com a optatius o objecte d’especificacions posteriors per part de les comunitats autònomes.

Aquest model contrasta amb el d’Estats que protegeixen legalment la seva diversitat lingüística, com Bèlgica, que permet als sol·licitants de triar la llengua necessària per poder accedir a la ciutadania, o Suïssa, on la llengua obligatòria depèn del territori de residència dels sol·licitants.

Cinquanta-tres noves normes discriminatòries els darrers tres mesos de l’any

El darrer trimestre de l’any passat, les institucions espanyoles i europees van aprovar un total de cinquanta-tres normes que reforçaven el castellà en territoris tradicionalment catalanoparlants, el doble que als trimestres anteriors. Vint-i-dues les van aprovar directament les institucions generals de l’Estat espanyol i trenta-una les institucions europees. En el segon cas, es tracta d’una conseqüència directa de la negativa d’Espanya de fer oficial el català tant en el pla intern com en el comunitari i, per tant, són en última instància atribuïbles també a l’Estat.

Al marge de les dues normes reguladores de la « integració » dels immigrants, es poden destacar les següents novetats:

1.     La nova llei orgànica d’educació continua imposant l’ensenyament del castellà a tot el territori de l’Estat i limitant la possibilitat que les autoritats requereixin l’ensenyament obligatori de les altres llengües autòctones a aquells territoris on són oficials i on són la llengua autòctona i tradicional. A més, la norma preveu que a les comunitats autònomes amb llengües oficials pròpies es podran establir exempcions en l’aprenentatge i examinació en aquestes llengües, però del castellà no pas. Finalment, la llei orgànica també estableix que els centres han d’adoptar mesures compensatòries si els alumnes tenen mancances en castellà o, potestativament, en els altres idiomes oficials, com si el fet de no tenir prou nivell de castellà als territoris on aquesta és una llengua forana fos un problema motiu de « compensació ».

2.     Quatre resolucions de novembre i desembre de la Direcció General de Salut Pública i de la Direcció de l’Agència Estatal de Seguretat Aèria imposen que els viatgers mostrin documents acreditatius que no estan contagiats de la Covid-19 redactats en castellà o en altres llengües específiques, però en cap cas no preveuen que puguin fer-ho en català.

3.     Una decisió del Comitè Europeu de les Regions relativa a l’accés del públic als documents de la institució estableix que les sol·licituds d’accés a un document particular s’hauran d’enviar a la Secretaria General del Comitè, de manera escrita, en una de les llengües oficials de la Unió Europea, entre les quals hi ha el castellà, però no pas el català.

4.     Un reial decret que regula les comunicacions comercials de les activitats de joc estableix que operadors hauran d’habilitar un servei telefònic en castellà d’atenció al client per donar informació i assistència quant a la seguretat en el joc i els comportaments de risc.

5.     L’ordre ministerial que aprova les bases reguladores per a la concessió del premi « Francisco Tomás y Valiente », que atorguen el Tribunal Constitucional espanyol i el Centre d’Estudis Polítics i Constitucionals, estableix que les obres candidates poden ser escrites « en cualquiera de las lenguas oficiales españolas », però si no estan escrites en castellà han d’anar acompanyades d’una traducció a aquesta llengua. Això encareix i desincentiva la redacció i presentació d’obres en català.

[Font: elaboració pròpia mitjançant la recerca al BOE – publicació: http://www.racocatala.cat]

Escrito por Rafael de Mesquita Diehl, graduado, mestre e doutor em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Em uma cerimônia solene no ano de 1939, o general Francisco Franco de Bahamonde (1892-1975)[1], líder da facção vitoriosa na Guerra Civil Espanhola, entrou na Igreja de Santa Bárbara de Madri onde depositou sua espada diante do altar. Estava trajando a farda militar sobre uma camisa azul e cobria a cabeça com uma boina vermelha, representando as três principais forças por trás do levante do 18 de julho de 1936 que havia dado início àquela longa contenda fratricida: o Exército, a Falange e os Requetés.[2] A entrega da espada possuía um simbolismo muito claro: demonstra o agradecimento de Franco a Deus pela vitória naquilo que ele considerava como uma cruzada[3] contra o comunismo e o ateísmo da II República Espanhola (proclamada no ano de 1931).

O general Franco entrega sua espada a altar da Igreja de Santa Bárbara em Madrid em 1939.

A propaganda franquista, contudo, mascarava um irônico e curioso detalhe, que poderia ser visto em outros aparições do “Generalíssimo” (título ostentado por Franco como chefe supremo das Forças Armadas): a presença da vistosa “Guarda Moura” com seus turbantes e capas brancas, formada por soldados muçulmanos marroquinos! Não só ao lado da “Cruzada” franquista, mas também ao lado da II República houve combatentes muçulmanos. Tal dado, contudo, é frequentemente esquecido pelo fato de a complexa Guerra Civil Espanhola ser mostrada com um dualismo simplista de “católicos versus comunistas” (visão de alguns grupos de direita) ou de “democratas versus fascistas” (visão de alguns grupos de esquerda). Considerada pelos historiadores como um confronto entre a “velha” e a “nova” Espanha ou um ensaio dos conflitos entre as ideologias que se enfrentaram na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Guerra Civil Espanhola foi um fenômeno histórico de muitos contrastes, nos quais diferentes grupos e interesses se aliavam buscando derrotar um inimigo em comum.

Cartaz de propaganda do Bando Nacional durante a Guerra Civil Espanhola: a Guerra de Franco é comparada a uma Cruzada e à Espanha é atribuída a providencial função de ser orientadora espiritual do mundo.

Para entender a Guerra Civil Espanhola em sua complexidade, bem como a participação dos muçulmanos nesse conflito, é necessário retrocedermos ao final do século XIX. No ano de 1898, a Espanha (que no século XVI havia possuído colônias nas Américas, África e Oceano Pacífico) perdera suas duas últimas relevantes colônias, Cuba e Filipinas, para os Estados Unidos da América. Tal fenômeno havia sido um choque para a geração daquele tempo, já que as colônias, sustentadas pelo poderio militar, eram um motivo de orgulho para a Espanha. Sem as colônias, a Espanha era apenas um país majoritariamente agrário adentrando atrasada no cenário de uma Europa ocidental em franca expansão do que foi depois chamado de 2ª Revolução Industrial (iniciada na segunda metade do século XIX). O século XIX também é o século do nacionalismo. É verdade que já havia certos “sentimentos nacionais” antes do século XIX, mas é neste século que algumas ideologias políticas europeias começaram a sustentar a necessidade de uma identificação entre a Nação (identidade de um povo, de uma cultura) com o Estado (poder político centralizado em uma estrutura impessoal e burocrática).[4]

Se é verdade que a industrialização estava em alta na virada do século XIX para o século XX, também é verdade que a busca por colônias estava na ordem do dia entre as potências ocidentais do período. O governo espanhol, portanto, apostava em investir em um protetorado[5] no Marrocos como forma de reviver as glórias militares do passado. Apesar de já possuir domínios sobre alguns territórios litorâneos do norte da África desde o século XVI, a Espanha formou seu protetorado no Marrocos através de um tratado firmado com a França (que já possuía uma colônia na região) no ano de 1912 que reconhecia como protetorado espanhol os territórios de Rife e Jebala. Contudo, houve resistência da população local, especialmente de algumas tribos berberes que lideraram ataques contra os assentamentos coloniais na região do Rife. Durante os anos de 1920 a 1927 houve a Guerra do Rife, na qual a Espanha buscou consolidar seu domínio na região eliminando a resistência das tribos berberes.

Mapa do protetorado espanhol no Marrocos

Foi durante essa guerra que se formaram os oficiais e soldados espanhóis ditos “africanistas”, que cresceram em prestígio militar e viam com maus olhos a política conduzida por civis e parlamentos. Foram também formadas tropas coloniais com soldados da população local, o que era comum no colonialismo, como os Regulares Marroquíes (soldados de infantaria) e os Tiradores de Ifni (soldados de infantaria leve). Ambas as tropas eram utilizadas na guerra como vanguarda, iniciando os ataques nos combates. A maioria dos membros de ambas unidades militares eram recrutados em Ceuta e Melilla. Usavam uniformes parecidos: fardas em tons beges e na cabeça um fez vermelho ou um turbante branco.[6]

Soldados dos Regulares Marroquinos. Note que, além da diferença de alguns usarem o turbante branco enquanto outros usam o Fez vermelho na cabeça, há também uma diversidade de feições e tons de pele, o que mostra a variedade étnica e genética dos muçulmanos marroquinos.

Entre 1923 e 1930 o rei Afonso XIII delegou o governo ao general Primo de Rivera, que governou na prática como um ditador. Apesar do apoio dos grandes proprietários de terra, das forças armadas e de setores da Igreja Católica que se mostravam preocupados com o crescimento de movimentos socialistas e anarquistas entre as classes populares, o regime repressivo de Primo de Rivera declinou o prestígio da monarquia. Com a vitória dos candidatos republicanos na maior parte do país durante as eleições municipais de 1931, o rei e sua família partiram para o exílio, o que culminou na proclamação da II República espanhola em 14 de abril de 1931.

A II República era um regime semipresidencialista, com o presidente da República exercendo a chefia de Estado e compartilhando as funções de chefe de Governo com o presidente do Conselho de Ministros. As forças que haviam proclamado a República eram diversas: nelas havia republicanos moderados, liberais, republicanos radicais (com teor mais laicista), nacionalistas bascos e catalães, socialistas e comunistas. Além disso, havia expressivos grupos anarquistas e anarcossindicalistas especialmente na região da Catalunha, uma das zonas mais industrializadas do país. A Constituição de 1931 prometia amplas reformas sociais e buscava a separação entre Igreja e Estado. Tal separação, contudo, revelou-se radical com a expulsão de algumas ordens religiosas, fechamento de conventos e escolas católicas em prol do estabelecimento de um ensino público de caráter laico. Houve também maiores concessões de autonomia à Catalunha e ao Países Basco, o que gerava preocupação nos setores militares que defendiam um nacionalismo espanhol de tipo mais unitário.

Como reação às novas políticas da República, a oposição ao regime buscou organizar-se também, formando em 1933 a CEDA – Confederación Española de Derechas Autónomas (coalização de partidos católicos de direita) e a Falange (movimento nacional-sindicalista com inspiração no Fascismo italiano). Mas o regime republicano também revelava fissuras internas, especialmente quanto ao caráter e ao ritmo das reformas sociais. Em 1934 o governo utilizou-se da Legião estrangeira espanhola para esmagar uma revolta dos mineradores de Astúrias, influenciados por ideais socialistas e anarquistas. Encabeçando o sufocamento ao levante estava o general Francisco Franco, um dos oficiais da Legião.

Os conflitos políticos cresciam durante a II República, com enfrentamentos nas ruas entre grupos falangistas, socialistas e anarquistas (que adquiriam, cada vez mais, caráteres paramilitares). O governo não atacava igrejas e conventos, mas também não buscava conter esses incidentes de perseguição religiosa. Para conter o que viam como uma ascensão do fascismo (lembremos que em 1933 Hitler havia chegado ao poder na Alemanha e que Mussolini já controlava o governo italiano desde 1922) vários partidos de orientação socialista e comunista, republicanos de esquerda e o sindicato anarquista CNT (Confederação Nacional do Trabalho) uniram-se na Frente Popular para as eleições de janeiro de 1936, na qual saíram vitoriosos, tendo formado um governo de coalizão, do qual não participaram os anarquistas e alguns socialistas independentes.

A direita espanhola via com preocupação o crescimento dos grupos comunistas, socialistas e anarquistas. Muitos oficiais militares de tendências direitistas (que haviam sido estrategicamente movidos pelo governo para postos distantes) já conspiravam buscando uma forma de derrubar o governo, embora o general Franco (em cargo nas Ilhas Canárias) ainda hesitasse envolver-se na conspiração. Não obstante, o clima de antagonismo e violência política continuava a subir. Em 12 de julho de 1936 grupos de direita assassinaram o tenente socialista da Guarda de Assalto, José del Castillo Sáenz de Tejada, fato que foi vingado no dia seguinte quando socialistas mataram o jurista e deputado José Calvo Sotelo, líder das direitas nas Cortes (parlamento espanhol). Tal fato foi considerado como pretexto para os conspiradores colocarem em prática seu plano.

Em 17 de julho inicia-se a sublevação de militares e falangistas no protetorado do Marrocos e no dia seguinte o levante estoura na península com a adesão das milícias carlistas. Contudo, o golpe de Estado em Madri fracassa e na Catalunha as milícias anarquistas se impõem aos sublevados. A falta de êxito na tomada de poder em regiões importantes do país fez com que o golpe se transformasse em uma guerra civil. De um lado havia os autores do levante e seus apoiadores, que se denominaram Bando Nacional, composto por monarquistas afonsinos e monarquistas carlistas, falangistas, membros da CEDA, entre outros. Juntaram-se à defesa do governo no Bando Republicano nacionalistas bascos e catalães, republicanos moderados e radicais, socialistas, comunistas, anarcossindicalistas, anarquistas, liberais e democratas.

Milicianos anarquistas se armando para enfrentar o levante militar em Barcelona, 18 de julho de 1936.

Do ponto de vista militar também havia um impasse: embora muitos generais e militares tivessem participado do alzamiento junto às milícias falangistas e carlistas, muitos setores do exército e a maior parte da marinha e da força aérea permaneceram em uma postura legalista de apoio ao governo vigente. O Bando Nacional contava com o Exército de África para pender o peso da balança ao seu favor, já que os legionários e os soldados marroquinos possuíam melhor treinamento e experiência militar por conta da Guerra do Rife. Franco se havia colocado à frente das tropas africanas após o início do levante na península. Com o Estreito de Gilbraltar bloqueado pela marinha espanhola, Franco buscou a ajuda militar da Alemanha, que enviou aviões que transportaram legionários e soldados marroquinos para a Espanha entre os meses de julho e outubro.

Tropas regulares marroquinas em Tetuão aguardando o embarque em um avião de guerra alemão. 1936.

Os muçulmanos recrutados no Marrocos constituíam uma população de árabes, berberes e descendentes dos muçulmanos expulsos da Península Ibérica nos séculos XV, XVI e XVII. Isso é evidenciado pelas fotografias dos soldados, nos quais frequentemente podemos notar uma variedade de feições faciais e tons de pele.

Ilustrações dos tipos de uniformes usados pelos regulares marroquinos.

O maior número de muçulmanos que combateram na Guerra Civil Espanhola se encontrava no Bando Nacional e eram alistados nos Regulares Marroquíes e nos Tiradores de Ifni. O que teria levado esses muçulmanos a combaterem ao lado de uma liderança que dizia lutar uma Cruzada[i] em defesa da Espanha católica contra um governo comunista? Como em muitos outros grupos que tomaram parte nesse conflito, não há uma resposta única sobre os motivos e circunstâncias que levaram esses moros a unirem-se ao alzamiento contra a II República. O primeiro grupo que podemos citar são os dos muçulmanos marroquinos que já pertenciam às tropas coloniais de maneira profissional, integrados à hierarquia. Ao outro grupo pertenciam principalmente pessoas de origem pobre de aldeias ou áreas rurais submetidos a um regime de vínculo pessoal com os chefes locais.  Muitos testemunhos, memórias e estudos historiográficos apontavam como motivações comuns para o alistamento: fugir da fome e da pobreza (com a garantia de soldo e provisões diárias); o sentimento de ligação com o território peninsular (no caso de famílias descendentes de muçulmanos outrora expulsos da Europa) e também motivações religiosas instrumentalizadas pelas lideranças de Franco (como a propaganda anticomunista associando a II República ao regime ateu soviético ou promessas de auxílio financeiro do futuro governo franquista para peregrinações à Meca a alguns soldados).

Os motivos acima elencados são, sem dúvida, bastante subjetivos. Explicam casos particulares, mas não uma adesão tão grande quanto a obtida pelos sublevados, ainda mais levando em conta a existência de movimentos nacionalistas que viam o colonizador espanhol como o verdadeiro inimigo a ser combatido. Ademais, havia a fidelidade pessoal dos aldeões aos chefes tribais e locais. Seria então possível encontrarmos um elemento comum que tenha favorecido uma grande adesão de recrutas ao alistamento (que, aliás, durou praticamente toda a guerra)?

Adnan Mechbal, professor da Universidade de Angers, aponta uma explicação geopolítica para a improvável grande adesão de marroquinos ao exército colonizador para combater em uma causa nacionalista espanhola. O militar espanhol africanista Juan Luis Beigbeder y Atienza (1888-1957) possuía bom conhecimento da língua árabe e vínculos com lideranças marroquinas locais. Beidbeder utilizou-se da falta de comprometimento do governo republicano com as reivindicações dos nacionalistas marroquinos (que esperavam um estatuto de autonomia como havia sido concedido à Catalunha) e de seus contatos com a Alemanha nazista (que defendia um discurso pró-árabe e anticolonialista) para fazer tais líderes crerem que a República estava comprometida com os interesses geopolíticos da Grã-Bretanha e França, que se beneficiavam do colonialismo na posição estratégica do Marrocos e do Estreito de Gibraltar.

O militar espanhol Juan Luis Beigbeder em trajes civis

Beigbeder também se utilizou do medo da influência do comunismo ateísta da União Soviética sobre a República para dissuadir os nacionalistas marroquinos do alinhamento com os legalistas. O militar espanhol também conseguiu convencer as demais autoridades militares do protetorado a manterem o principal líder nacionalista marroquino, Abdelkhalek Torres (1910-1970) – que havia liderado movimentos contra as autoridades coloniais bem como negociado com os republicanos –, em prisão domiciliar, ao invés da aplicação de penas mais severas. No mesmo ano foi inclusive concedido a Torres formar um partido nacionalista marroquino, dessa vez com elementos de inspiração falangistas e fascistas.

O líder nacionalista e político marroquino Abdelkhalek Torres

Por outro lado, os dois intentos de adesão dos marroquinos por militantes de esquerda não lograram apoio do governo republicano, em parte pela descrença no sucesso de tal operação e em outro lado pela pressão britânica e francesa que se interessava em preservar o status colonialista na região do norte africano. Além das diferentes cisões nos movimentos de esquerda e nacionalistas marroquinos espanhóis, não há indícios de que, às vésperas do levante de 17 de julho de 1936, houvesse alguma organização coordenada entre os marroquinos do protetorado espanhol e os marroquinos do protetorado francês.

O jalifa Muley Hassán el Mehdi em Madri, em uma fotografia de 1942.

Embora o Jalifa[7] Muley el Hassán ben el Mehdi (reinou de 1925 a 1956) tivesse aderido diretamente à política de alistamento dos espanhóis sublevados do protetorado, o sultão[8] Mohammed V (reinou de 1923 a 1957 como sultão e de 1957 a 1961 como rei do Marrocos) não apoiou explicitamente o alistamento, embora ele, seu séquito e as lideranças marroquinas locais tenham facilitado a conscrição de seus súditos nas fileiras do Bando Nacional. Como o levante contra a II República se constituía, a priori, como uma rebeldia perante a ordem geopolítica internacional, era prudente ao sultão manter a neutralidade para assegurar o status quo de seu governo. Quando membros do governo republicano apontaram a ilegalidade do recrutamento, o general Franco[9] habilmente acusou a República de estar em conluio com a França conspirando contra a soberania do sultão, apresentando-se assim com a imagem de um defensor da autonomia do Marrocos.

O sultão Mohammed V do Marrocos em fotografia de 1934

Outro trunfo usado pela propaganda do bando franquista foi a de uma associação do passado comum entre Espanha e Marrocos pela história de Al-Andalus e a necessidade de cooperação dos dois credos, cristão e muçulmano, na luta contra um governo que, de acordo com eles, buscaria a abolição de todas as igrejas e mesquitas da Espanha e seus territórios.

As tropas marroquinas continuaram sendo recrutadas e transladadas à península durante os anos seguintes da Guerra Civil Espanhola e participaram da maior parte dos combates importantes e da tomada das posições mais estratégicas. A presença desses muçulmanos no Bando Nacional marcou o imaginário dos combatentes do Bando Republicano, como na célebre canção ¡Ay Carmela!, que em um de seus versos dizia “Luchamos contra los moros,/rumba la rumba la rumba la./Luchamos contra los moros,/rumba la rumba la rumba la/mercenarios y fascistas,/¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!/mercenarios y fascistas,/¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!” Os números de muçulmanos marroquinos participantes ao longo de toda a guerra ainda permanecem um assunto de muita divergência entre os estudiosos, com cifras mais céticas oscilando entre 75.000 e 80.000 homens.

Apesar de serem muito mais recordados, os moros de Franco não foram os únicos muçulmanos combatentes no trágico conflito espanhol. Muçulmanos de diferentes origens (marroquinos desertores, argelinos, iraquianos, sírios, egípcios, árabes, palestinos, franceses, libaneses) uniram-se, por diferentes motivações e circunstâncias, às fileiras do Bando Republicano. Os números desses participantes, contudo, são bastante modestos comparados aos do Bando Nacional, contabilizando aqueles apenas entre 760 a 1.000 pessoas. O contexto dos muçulmanos republicanos foi distinto do caso dos marroquinos nacionais: não houve um programa de recrutamento massivo por parte da II República em uma região específica. Isso explica-se por dois motivos: a) a falta de mando efetivo do governo republicano sobre alguma colônia (dado que o protetorado marroquino, única colônia restante, se havia juntado ao levante); b) o apoio tímido dos aliados da República no cenário internacional.

Embora reconhecessem como legítimo governo espanhol a II República, França e Grã-Bretanha não estavam dispostas a enviar suas forças armadas para o conflito, pois o encontro destas tropas com a Legion Condor de Hitler e o Corpo Truppe Volontarie de Mussolini enviadas em apoio aos nacionais poderia expandir a guerra para além das fronteiras espanholas. A política de Josef Stálin à frente da União Soviética através da Internacional Socialista (órgão que, em tese, reunia todos os partidos e organizações socialistas e comunistas mas que, na prática, era uma forma de Moscou controlar os referidos partidos e suas formas de atuação nos países capitalistas) na época consistia em concentrar o desenvolvimento do sistema socialista na própria URSS, enquanto incentivava nos outros países a formação de frentes antifascistas através de alianças dos socialistas e comunistas com grupos de outras orientações políticas.

Diferentemente do Bando Nacional que unificou seus exércitos e milícias sob a liderança suprema de Francisco Franco, o Bando Republicano permitiu a formação de diferentes milícias com suas próprias regras, estruturas de comando e agendas políticas. Em Barcelona, por exemplo, as milícias anarquistas exerciam de facto o controle da cidade no lugar das autoridades oficiais. A propaganda republicana, especialmente de órgãos anarquistas e socialistas, buscava arregimentar os muçulmanos com chamadas de rádio e panfletos dirigidos em árabe à França e a outros países do norte africano e do mundo árabe, apresentando o fascismo como inimigo de todos os homens e opressor dos muçulmanos, ressaltando a necessidade dos seguidores do islã se juntarem à luta dos oprimidos.

Bandeira das Brigadas Internacionais

A entrada de muçulmanos de diferentes países no Bando Republicano se inseriu no contexto das Brigadas Internacionales, órgão militar criado para arregimentar voluntários de todos os países que desejassem combater pela República contra os nacionais. É importante frisar que nem todos os brigadistas eram socialistas ou comunistas, mas de diferentes correntes políticas que se viam ameaçados com a ascensão dos regimes fascistas e seus aliados pela Europa. Nesse sentido, é importante observar que a composição e motivação desses muçulmanos brigadistas eram muito mais diversas: intelectuais, militantes políticos, operários, desertores, camponeses… e é possível que muitos fossem muçulmanos apenas nominalmente ou com uma interpretação muito flexibilizada disso, nos casos de indivíduos ligados a movimentos socialistas, anarquistas ou nacionalistas. Dentre esses combatentes destaca-se o militante comunista palestino Muhammad Najati Sidqi (1905-1979), que tentou sem sucesso conseguir a adesão dos marroquinos de Franco à causa republicana. Em muitos ambientes republicanos via-se com desconfiança o exercício da liderança por muçulmanos ou a sua organização massiva, influenciados pelo contexto da sublevação no Marrocos. O que é certo é que o maior número de muçulmanos alistados no lado republicano era de origem argelina.

O militante comunista palestino Muhammad Najati Sidqi

A Guerra Civil Espanhola foi oficialmente encerrada com um discurso de Franco em 1º de abril de 1939, quando as tropas nacionais haviam tomado os últimos redutos de resistência (Madri havia sido tomada em 28 de março daquele ano). Sobre a finalidade dos combatentes de ambos os lados, além das inúmeras baixas, os destinos foram diversos… Alguns regulares marroquinos passaram a integrar a Guarda Moura e outras guardas relacionadas ao governo franquista (o que talvez nos revele algo sobre as tensões internos que permaneceram entre os diferentes grupos militares, falangistas, carlistas e monarquistas após a vitória de Franco). Outros voltaram para o Marrocos, onde grande parte dos contingentes foram desmilitarizados, voltando à vida ordinária. Com relação aos muçulmanos republicanos, com o encerramento das Brigadas Internacionais pelo governo em 1938, muitos acabaram caindo em mãos do inimigo como prisioneiros (com destino incerto), outros tentaram atravessar a fronteira francesa, mas não eram recebidos com a mesma facilidade que os “camaradas” europeus. Alguns de maior destaque voltaram a seus países onde continuaram sua militância política, geralmente associada a um tipo de nacionalismo árabe de tendências de esquerda.

Membros da XV Brigada Internacional às margens do rio Ebro em janeiro de 1938. Nessa unidade participaram alguns argelinos.

Propaganda republicana de 1936 mostra um regular marroquino abraçando um soldado republicano.

Há, por fim, um outro elemento a ser considerado: tanto no imaginário nacional quanto republicano: o “mouro” foi frequentemente associado à crueldade e às atrocidades de saques, assassinatos sumários, torturas e estupros que foram cometidos após muitas tomadas de território pelas tropas franquistas. Há aqui de separar a objetividade histórica das subjetividades das memórias individuais. É compreensível que os espanhóis comuns, acostumados a ver os mouros como elemento estranho e opositor na história forjada pelo nacionalismo e marcados pelo impacto das guerras e conflitos do Marrocos colonial, ficassem mais marcados pela lembrança de muçulmanos realizando atrocidades que os marcaram por toda a vida. Isso foi usado como arma psicológica por ambos os bandos… pelos nacionais, para incutir terror no inimigo; pelos republicanos, para aumentar o desprezo e ódio pelos “fascistas”. Nota-se aqui o predomínio da típica mentalidade etnocêntrica e orientalista do colonialismo ocidental: sempre associando o Oriente ao exótico, ao sensual, ao selvagem…

Propaganda republicana associando o mouro à violência contra mulheres e crianças.

Não há evidências históricas, contudo, de que as atrocidades cometidas estejam associadas em maior grau aos combatentes muçulmanos. Um dos primeiros elementos a se ter em mente quando analisamos a Guerra Civil Espanhola é precisamente não a ver sob um prisma maniqueísta/dualista ou com vendas ideológicas. Esse conflito teve altos índices de crueldades e arbitrariedades de ambos os lados (talvez com a diferença de que no Bando Nacional elas aconteciam sob certa direção de seus comandantes, enquanto no Bando Republicano eram mais consequência da falta de controle do governo sobre as diferentes milícias e organizações que lutavam ao seu lado): grevistas ou simpatizantes de lutas trabalhistas eram sumariamente executados por militares pelo delito de serem rojos (“vermelhos”, comunistas); sacerdotes e religiosos eram torturados e fuzilados por serem considerados “fascistas”… Estamos falando de um conflito de elevadas polarizações em que o que unia cada um dos bandos era muito mais o desejo de eliminar um inimigo em comum do que um programa de ideias bem delineadas, embora o discurso e a propaganda tratassem sempre de sacralizar a causa. Em muitas regiões, especialmente nos pueblos (povoados, vilarejos, aldeias), o território era constantemente tomado e retomado por um bando ou outro: juntavam-se às rivalidades ideológicas as rixas pessoais, colocando literalmente vizinhos contra vizinhos e até mesmo uma família contra si mesma!

General Miguel Cabanellas passando em revista uma tropa de regulares marroquinos no início da guerra em 1936.

O estudo da participação dos muçulmanos na Guerra Civil Espanhola é mais um exemplo histórico de como é difícil julgarmos a História em bloco ou analisar uma crença ou corrente de pensamento pelos atos isolados de alguns de seus membros.

Franco discursando em um palanque vigiado por dois membros da Guarda Moura.

 

Notas:

1: Por tratar-se de um tema ligado à história de um país ocidental, utilizaremos a datação cristã ao longo do texto, bem como nos referiremos a algumas periodizações comuns à historiografia ocidental.

2: Os Requetés, que se distinguiam por suas boinas vermelhas, eram as milícias do movimento monarquista carlista, que defendia a legitimidade dos descendentes de Carlos Maria de Bourbon, príncipe das Astúrias, em contraposição aos da rainha Isabel II, uma disputa iniciada em 1830 após a morte de Fernando VII. Também defendiam um modelo de monarquia tradicional com maior influência da Igreja Católica em oposição ao modelo de monarquia parlamentarista e liberal.

3: Mesmo no caso da Igreja Católica não se pode dizer que a adesão ao lado de Franco tenha sido incondicional. Embora o Episcopado espanhol tenha apoiado o alzamiento nacional (nome que os sublevados deram ao movimento militar iniciado para derrubar a II República), houve críticas de membros da hierarquia eclesiástica aos fuzilamentos sumários conduzidos pelos sublevados ou mesmo a desilusão e abandono do movimento por parte de intelectuais católicos como o escritos George Bernanos ou o filósofo Jacques Maritain. Também havia o caso particular do País Basco, local onde a República não havia atuado de forma anticlerical e, portanto, contava com a adesão do clero e fiéis católicos locais. A Sé Apostólica reconheceu o novo governo formado por Franco, mas houve tensões entre a Igreja e o governo franquista mesmo após o término da guerra, sobretudo sob o pontificado de Paulo VI (1963-1978). O forte partidarismo adotado por muitos setores do clero e laicato católico na Espanha já mesmo antes da II República pode ter sido um dos motivos pela qual o sacerdote espanhol Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975) insistia fortemente no caráter apolítico e apartidário do Opus Dei, instituição católica que fundara em 1928 e que já contava com membros em algumas localidades da Espanha por ocasião do início do conflito em 1936. Para tanto, vide FERNÁNDEZ GARCÍA, 1985; GARAY, 2017; GARCÍA-VILLOSLADA, 1979; GARRIGUES, 2016; MEER 2003; RAIFORD, 2014; RILLA, 2020; RUTGERS, 1984; VÁZQUEZ DE PRADA, 2004.

4: Até o início da chamada “racionalização administrativa” (que buscava padronizar as leis e instituições em todos os territórios da Coroa) promovida pelos monarcas espanhóis da dinastia Bourbon no século XVIII, a “Espanha” era um conjunto de diferentes reinos (Castela e Leão, Galícia, Navarra, Aragão, Granada, etc) com seus ordenamentos jurídicos e costumes distintos unidos apenas sob um mesmo rei cristão. Assim, o cristianismo e a Igreja Católica apareciam como um elemento constitutivo da identidade dos espanhóis.

5: O regime de protetorado foi adotado em vários contextos do colonialismo das potências ocidentais a partir do século XIX. Nele se mantinha uma autoridade local nominalmente autônoma com guarnições militares coloniais que ocupava locais estratégicos e exercia algumas funções administrativas ou coercitivas a título de “proteção”.

6: Não confundir essas tropas de soldados locais com a Legião estranjera espanhola, tropa de elite inspirada na Legião estrangeira francesa, que aceitava estrangeiros de outros países europeus em suas fileiras.

7: É importante esclarecer que a construção do ideal de Cruzada se delineia após o início do conflito. Também Franco não era líder inconteste dos sublevados no início do levante.

8: Jalifa, corruptela espanhola da palavra árabe Khalifah (Califa) era o título utilizado pelo governante marroquino sediado na cidade de Tetuão, que representava o sultão do Marrocos frente às autoridades espanholas do protetorado.

9: O sultão do Marrocos era nominalmente o chefe de Estado do Marrocos sediado na cidade de Rabat, sob controle do protetorado francês. Como era natural nos protetorados, esse chefe de Estado deveria estar alinhado aos interesses da potência colonial europeia para conservar suas prerrogativas.

10: É somente no mês de outubro de 1936 que Franco se torna o único e inconteste líder do Bando Nacional. A partir desse momento, buscará construir uma forte imagem de culto à sua personalidade, o que pode ser exemplificado em sua apropriação do discurso católico (defendido especialmente pelos carlistas e antigos membros da CEDA) e da fusão, sob seu comando de duas milícias bastante opostas: os requetés carlistas e os camisas-azuis falangistas. A execução de José Antônio Primo de Rivera (fundador da Falange) pelos milicianos de esquerda em novembro de 1936 foi duplamente conveniente para a liderança unitária de Franco: eliminava um potencial concorrente e ao mesmo tempo dava um mártir para ser usado como símbolo de inspiração para o movimento dos sublevados. Para tanto, vide GARCÍA-HEVIA, 2009; GIMÉNEZ MARTÍNEZ, 2015; MORENO ALMENDRAL, 2014.

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[Fonte: http://www.historiaislamica.com.br]