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Écrit par Jean-Paul Brighelli

De quoi s’agit-il ? Des convives triés sur le volet, snobs au-delà des mots, et capables de payer 1500 $ pour une expérience gustative qu’on leur promet unique (et elle le sera), abordent au soir dans l’île où est bâti le restaurant du Chef. Critiques culinaires qui se croient compétents, acteur de films Z pour sous-développés, petit jeune homme fringant avide de montrer ses compétences, toute une faune qui est la mousse d’une société à bout de souffle : si j’ai un jour vu un film sur la décadence, c’est bien celui-là. L’île, de toute éternité, est le lieu d’enfermement où peuvent se passer des choses horribles — se rappeler celle du Docteur Moreau, ou celle du Comte Zaroff. Ajoutez que l’action se passe en quelques heures, et traite d’un sujet unique : Sophocle n’aurait pas désavoué une telle dramaturgie. Et évidemment, ça ne peut que finir mal.

Le repas est ce que vous aurait concocté Ferran Adrià à El Bulli, la panacée catalane, ou Rasmus Kofoed à Geranium, la gargote de Copenhague où s’extasie le Michelin (une étoile chasse l’autre, c’était précédemment René Redzepi, autre Danois officiant au Noma, qui détenait le pompon mondial). Cuisine moléculaire, usage inconsidéré de l’azote liquide, raffinements extrêmes censés susciter l’extase des palais blasés. Julian Slowik, le Chef du Hawthorne, est apparemment de la même étoffe.

Précisons que le nom du restaurant, Hawthorne, n’est pas choisi au hasard. L’Effet Hawthorne décrit « la situation dans laquelle les résultats d’une expérience ne sont pas dus aux facteurs expérimentaux, mais au fait que les sujets ont conscience de participer à une expérience dans laquelle ils sont testés ce qui se traduit généralement par une plus grande motivation ». Mais je n’exclus pas qu’il y ait en même temps une référence à Nathaniel Hawthorne, l’auteur de La Lettre écarlate, l’une des plus virulentes dénonciations du puritanisme américain. Parce qu’il y a, dans la violence sourde du film, l’écho d’une indignation : Qu’avez-vous fait de la cuisine que je vous avais apprise ? demande Dieu / Ralph Fiennes, qui claque dans ses mains avec un effet performatif digne de la Genèse. Ce n’est pas « que la lumière soit » mais « que le service suivant arrive ».

Et il arrive, il arrive…

Fiennes / Slowik est tellement le Créateur Omniscient qu’il a fait graver au laser, sur les fajitas censés envelopper des tacos new style, les secrets cachés de ces gens si bien habillés, si propres sur eux, et si noirs de péchés compliqués. À partir de là, l’extase surjouée de ces gastronomes pourrissants se changera en malaise, puis en terreur.

Le grand cuisinier n’est pas un abstracteur de quintessence, mais quelqu’un qui vous nourrit, qui vous fait chanter l’estomac et l’esprit, et dont l’ingrédient central n’est pas le poivre sansho ou le safran iranien, mais l’amour — comme l’explique la prostituée, la seule à conserver un peu de bon sens dans cette furia palatale.
Et comme le fait remarquer le Chef in fine, le snobisme, la recherche de la sensation ultime pour palais blasés, a amené une subversion de la libido sentiendi — le désir de goûter — en libido dominandi, la certitude qu’en participant à telle expérience culinaire ultime, on appartient de facto au clan des puissants et des heureux de ce monde. Ah oui ? On va vous faire voir…

Ce film brûle (c’est le cas de le dire) à la manière de la glace : sous la perfection technique rampe une morale sanglante. Le pâle et rare sourire qui flotte sur les lèvres émaciées de Ralph Fiennes laisse planer une menace aimable, qui se concrétisera peu à peu, favorisée par une construction qui fait semblant d’être linéaire — les « services » d’un dîner inouï — et qui est en fait spiralaire, chaque étape marquant une progression vers l’horreur de la Révélation et de l’Apocalypse. Parallèlement, les sourires convenus des convives s’effacent peu à peu, les aimables propos pleins de clichés gastronomiques se muent en cris désespérés, et comme dans les Évangiles, seule la prostituée sera sauvée. Les autres — et avec eux le cuisinier qu’ils ont entraîné dans des recherches stériles et déshonorantes — sera livré aux flammes, Dieu lui-même se consumera dans les flammes de l’enfer qu’ont concocté les hommes.

Plus qu’un film politique, c’est un film métaphysique. Une fable exemplaire sur le bonheur de vivre à travers le bonheur de manger. Quand, à la fin, Ana Taylor-Joy (vue dans The Witch, et dans The Northmandont j’ai chanté les louanges l’année dernière et qui est sublime ici, avec sa bouche peinte d’écureuil carnivore, moulée dans une robe sublime qui interdit le port de toute lingerie, même évanescente) mord dans un cheeseburger, on est content pour elle et surtout pour nous : il reste peut-être un espoir d’être sauvés, pendant que l’univers pourri de la Sodome culinaire s’abîme dans les flammes.

Jean-Paul Brighelli

[Source : blog.causeur.fr/bonnetdane]

Passada a sombria noite, tem lugar o sonho.

Por LEONARDO BOFF*

Vivemos nos últimos quase quatro anos sob um governo que não amava o povo e considerava o país como uma espécie de capitania hereditária familiar. Mas agora, segundo um cântico famoso de Camões n’Os Lusíadas, o novo tempo “traz serena claridade, esperança de porto e salvamento”. Por isso cabe esperar e sonhar. Eis alguns pontos de nossa positividade.

O povo brasileiro se habituou a “enfrentar a vida” e a conseguir tudo “na luta e na amarra”, quer dizer, superando dificuldades e com muito trabalho. Por que não iria “enfrentar” também o derradeiro desafio de fazer as mudanças necessárias, para criar relações mais igualitárias e acabar com a exclusão e a corrupção, refundando a nação?

O povo brasileiro ainda não acabou de nascer. O que herdamos foi a empresa-Brasil com uma elite escravagista e uma massa de destituídos. Mas do seio desta massa, nasceram lideranças e movimentos sociais com consciência e organização. Seu sonho? Reinventar o Brasil. O processo começou a partir de baixo e não há mais como detê-lo nem pelos sucessivos golpes sofridos como o de 1964 civil-militar e o de 2013 parlamentar-juridico-mediático e todo o descalabro da fase bolsonarista.

Apesar da pobreza, da marginalização e da perversa desigualdade social, os pobres sabiamente inventaram caminhos de sobrevivência. Para superar esta antirrealidade, o Estado e os políticos precisam escutar e valorizar o que o povo já sabe e inventou. Só então teremos superado a divisão elites-povo e seremos uma nação não mais cindida mas coesa.

O brasileiro tem um compromisso com a esperança. É a última que morre. Por isso, tem a certeza de que Deus escreve direito por linhas tortas. A esperança é o segredo de seu otimismo, que lhe permite relativizar os dramas, dançar seu carnaval, torcer por seu time de futebol e manter acesa a utopia de que a vida é bela e que amanhã pode ser melhor. A esperança nos remete ao “princípio-esperança” de Ernst Bloch que é mais que uma virtude; é uma pulsão vital que sempre nos faz suscitar novos sonhos, utopias e projeto de um mundo melhor.

O medo é inerente à vida porque “viver é perigoso” (Guimarães Rosa) e porque comporta riscos. Estes nos obrigam a mudar e reforçam a esperança. O que o povo mais quer, não as elites, é mudar para que a felicidade e o amor não sejam tão difíceis. Para isso precisa articular constantemente a indignação face às coisas ruins e a coragem para mudá-las. Se é verdade que somos o que amamos, então construiremos uma “pátria amada e idolatrada” que aprendemos a amar.

O oposto ao medo não é a coragem. É a fé de que as coisas podem ser diferentes e que, organizados, podemos avançar. O Brasil mostrou que não é apenas bom no carnaval e no futebol. Mas pode ser bom na resistência indígena, negra, na agricultura, na arquitetura, na música e na sua inesgotável alegria de viver.

O povo brasileiro é religioso e místico. Mais que pensar em Deus, ele sente Deus em seu cotidiano que se revela nas expressões: “graças a Deus”, “Deus lhe pague”, “fique com Deus”. Deus para ele não é um problema, mas a solução de seus problemas. Sente-se amparado por santos e santas e por bons espíritos como os orixás que ancoram sua vida no meio do sofrimento.

Uma das características da cultura brasileira é a jovialidade e o sentido de humor, que ajudam a aliviar as contradições sociais. Essa alegria jovial nasce da convicção de que a vida vale mais do que qualquer outra coisa. Por isso deve ser celebrada com festa e diante do fracasso, manter o humor que o relativiza e o torna suportável. O efeito é a leveza e o entusiasmo que tantos admiram em nós.

Há um casamento que ainda não foi feito no Brasil: entre o saber acadêmico e o saber popular. O saber popular é “um saber de experiências feito”, que nasce do sofrimento e dos mil jeitos de sobreviver com poucos recursos. O saber acadêmico nasce do estudo, bebendo de muitas fontes. Quando esses dois saberes se unirem teremos reinventado um outro Brasil. E seremos todos mais aptos para enfrentar os novos desafios.

O cuidado pertence à essência do humano e de toda a vida. Sem o cuidado adoecemos e morremos. Com cuidado, tudo é protegido e dura muito mais. O desafio hoje é entender a política como cuidado do Brasil, de sua gente, especialmente dos mais pobres e discriminados, da natureza, da Amazônia, da educação, da saúde, da justiça. Esse cuidado é a prova de que amamos o nosso pais.

Uma das marcas do povo brasileiro é sua capacidade de se relacionar com todo mundo, de somar, juntar, sincretizar e sintetizar. Por isso, em geral, ele não é intolerante nem dogmático. Ele gosta de conviver com o diferente. Estes valores são fundamentais para uma planetização de rosto humano. Estamos mostrando que ela é possível e a estamos construindo. Infelizmente nos últimos anos, especialmente nas eleições presidenciais de 2022, surgiu, contra a nossa tradição, uma onda de fake news, de ódio, discriminação, fanatismo, homofobia e desprezo pelos pobres (aporofobia, o lado sombrio da cordialidade, segundo Sérgio Buarque de Holanda) que nos mostram que somos, como todos os humanos, sapiens e demens e agora mais demens. Mas se trata sempre de uma doença e não da sanidade das religiões, igrejas e movimentos. Mas isso, seguramente, passará e predominará a convivência mais tolerante e apreciadora das diferenças.

O Brasil é a maior nação neolatina do mundo. Temos tudo para sermos também a maior civilização dos trópicos, não imperial, mas solidária com todas as nações, porque incorporou em si representantes de 60 povos diferentes que para aqui vieram. Nosso desafio é mostrar que o Brasil pode ser, de fato, uma pequena antecipação simbólica de um paraíso não totalmente perdido e sempre resgatável: a humanidade unida, una e diversa, sentados à mesa numa fraterna comensalidade, desfrutando dos bons frutos de nossa boníssima, grande, generosa Mãe Terra.

*Leonardo Boff, ecoteólogo, filósofo e escritor, é membro da Comissão Internacional da Carta da Terra. Autor, entre outros livros, de Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência (Vozes).

 

[Fonte: aterraeredonda.com.br]

Após o primeiro turno, uma maré de ódio invadiu as redes pedindo de golpe militar pra baixo. Mais que responder com um “orgulho nordestino”, melhor seria romper o amálgama de território e identidade para ver as contradições do NE real

Escrito por Berenice Bento

Morte aos nordestinos. Analfabetos. Malditos. Cabeças chatas. Mortos de fome. Com indignação sem surpresa, vi o ódio ser vomitado contra nordestinos/as nas redes sociais, logo após o fim do primeiro turno da eleição presidencial. Sem surpresa porque, ao longo de toda a minha vida, escutei os mesmos insultos. Alguns vezes, sem saber que eu mesmo sou paraíba, quem cometia o insulto pedia minha cumplicidade. Sem surpresa porque, em 2014, quando a Dilma venceu as eleições, parte do Sul e do Sudeste cuspiu o mesmo ódio que agora retorna potencializado.

Em algum momento da minha vida, decidi me tornar o que eles diziam: sou paraíba. Assumi o insulto como elemento identitário. Corrigiam-me: você não é paraíba, e sim paraibana. Não, eu sou paraíba. Esse truque na luta política aprendi com os ativismos transviades. Precisamos esvaziar o poder que eles/elas acham que têm em nos produzir medo e vergonha. No lugar da vergonha, o escárnio.

Em 2014, eu morava em Nova Iorque. Foi lá que decidi que precisava escrever sobre a minha infância e parte da minha adolescência no Rio de Janeiro e revisitar as humilhações pelas quais fui submetida. Ainda há muito para ser dito, mas é preciso coragem. O título do meu livro de crônicas assume a minha condição paraíba (Estrangeira: uma paraíba em Nova Iorque).

2022. Novamente sou tragada por lembranças da infância e das eleições de 2014. De um lado, ódio. Do outro, vídeos e textos que citam grandes nomes de artistas, músicos, políticos que são nordestinos. As mensagens terminam, geralmente, com “tenho orgulho de ser nordestino”. Acredito que essa estratégia de responder ao ódio com uma lista de grandes nomes e feitos não chega a arranhar o sólido edifício do ódio contra os “paraíbas” e os “baianos”. Ainda estamos acionando a mesma estratégia do agressor que se fundamenta no determinismo geográfico. Diga-me de onde vens, que te digo quem és, bem no espírito de Euclides da Cunha.

Não sabemos exatamente quando a aversão de setores do Sudeste e do Sul ao Nordeste começou. Essa genealogia ainda precisa ser feita. Ao ler os Anais do Congresso Nacional durante os debates que aconteceram em 1871 em torno da Lei do Ventre Livre (lei que definiu que os/as filhos/as das mulheres escravizadas nasceriam livres), as discussões avançavam para uma grande divisão: Sul escravagista versus Norte abolicionista. Naquele momento, era esse binarismo regional que funcionava. O resultado final da votação na Câmara dos Deputados parecia dar razão à divisão. Votaram a favor da proposta 61 parlamentares e contra 35 (27 do Sul/Sudeste; 7 do Norte e 1 do Centro-Oeste).

Esse selo de Norte abolicionista aprofundou-se com o avanço de movimentos abolicionistas e a promulgação de leis locais que libertaram pessoas escravizadas antes da lei geral de 13 de maio de 1888. Em 30 de agosto 1881, um grupo de jangadeiros responsáveis pelo embarque de mercadorias no porto da capital da província do Ceará recusou-se a transportar pessoas negras escravizadas que seriam levadas dali para outras províncias. Em 1º de janeiro de 1883, a Vila de Acarape (rebatizada de “Redenção”) alforriou os últimos escravizados. Outras abolições sucederam-se em cidades cearenses (Pacatuba, Itapagé, Aracoiaba, Baturité, Aquiraz, Icó e Maranguape) e em Fortaleza o mesmo se deu em 24 de maio de 1883.

Esses fatos históricos contribuem com a narrativa do Norte abolicionista e o Sul escravagista, principalmente quando o herdeiro político da Casa Grande, Bolsonaro, teve uma votação expressiva nessas regiões. Em compartida, também podemos associar a figura do Lula à dos jangadeiros do Ceará. Mas essas representações são enganosas. O que levou, de fato, os deputados nortistas a votarem a favor do projeto da Lei do Ventre Livre foi a escassa presença de pessoas escravizadas em seus estoques ou plantéis (como era nomeada a população negra escravizada).

Parte considerável fora vendida para os/as fazendeiros/as sulistas, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, que viviam o apogeu do cultivo do café. E celebrar a libertação das pessoas escravizadas é contribuir com a política de esquecimento. Os/as libertos/as foram abandonados pelo Estado. É como se ali estivesse acontecendo o grande ensaio geral do que viria a acontecer em 13 de maio de 1888 e que se caracterizou pelo abandono absoluto da população escravizada, que foi deixada para morrer.

A narrativa do Nordeste abolicionista deslocou-se dos fatos históricos, ganhou vida própria, autonomizou-se. Entre os inúmeros materiais que circularam na internet em defesa do orgulho nordestino, essa imagem foi recuperada. Pergunto-me até que ponto esse tipo de narrativa não poupa a pele dos senhores escravocratas nordestinos contemporâneos, encarnados em figuras de empresários (por exemplo, o dono da Riachuelo) e terminam por incluí-los nesse Nordeste “puro”. Eles seguem praticando todos os tipos de violência e desrespeito contra os/as trabalhadores/as.

Ainda que o ódio contra nordestinos/as aconteça nas microinterações cotidianas, há momentos em que ele aparece de corpo inteiro. No entanto, essas reiterações de ódio contrastam com imagens de mobilizações nacionais quando acontece algum tipo de catástrofe natural que atinge alguma cidade nordestina. Pode-se ver uma ampla mobilização para arrecadar água, comida, roupas. Embora possa parecer contraditório, os que agora gritam “burros, cabeças chatas, esfomeados” podem estar entre aqueles que doam para programas no espírito do “Nordeste Esperança” em época de catástrofes. Na condição de miserável, esfomeado te queremos.

Agora, estamos falando de coisa séria, de eleição. E aí esses comedores de calango querem cruzar a fronteira da cozinha para a sala? Quando a questão se desloca da caridade para a questão política, o cristão doador de migalhas transforma-se em um fascista convicto. E diante da eleição de um nordestino, eleito majoritariamente pelo povo nordestino, resta clamar por um golpe militar para devolver as coisas para o lugar certo. E esse desejo não pode ser identificado exclusivamente como o desejo de brasileiros/as do Sul e do Sudeste. Parte considerável da elite nordestina estaria na linha de frente desse projeto.

Para quebrar o mito da amálgama território e identidade (tenho orgulho de ser nordestino), é preciso trazermos outros elementos para a cena: classe social, gênero, religião, sexualidade, raça. Mas estamos em luta e, às vezes, acreditamos, devemos recorrer ao essencialismo geográfico como estratégia. Esse caminho, no entanto, apenas reforça que somos o que a terra define. Ou seja, para combater os preconceitos, acionamos o orgulho, mas esse mesmo orgulho termina por reforçar a noção do Nordeste como um todo homogêneo, indiferenciado, sem singularidade, enfim, sem rosto próprio.

 

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

Olivier Mannoni a passé des années à traduire «Mein Kampf». Il dresse le récit de ce calvaire dans un livre.

Adolf Hitler dans son bureau du Berghof à Obersalzberg, dans les Alpes bavaroises, en 1936. | Heinrich Hoffmann via Wikimedia Commons

Adolf Hitler dans son bureau du Berghof à Obersalzberg, dans les Alpes bavaroises, en 1936. | Heinrich Hoffmann via Wikimedia Commons

Écrit par Bérengère Viennot — édité par Sophie Gindensperger

Ce sont des singes qui ont poussé Olivier Mannoni dans le nazisme.

C’est alors qu’il attendait l’achèvement d’un ouvrage sur les babouins hamadryas, qui tardait à arriver, que ce traducteur se vit proposer par son éditeur de l’époque, Abel Gerschenfeld, un autre manuscrit à traduire en attendant. Ce livre portait sur les médecins et scientifiques nazis.

Depuis, s’il a d’autres domaines de travail (Freud, Kafka, pour ne citer qu’eux), il n’a plus jamais réussi à s’en extirper. De Goebbels à Rosenberg en passant par Himmler, Mannoni chemine depuis des dizaines d’années dans les couloirs de la mort brune du XXe siècle, en se colletant avec la source même du mal, l’instrument essentiel et originel sans lequel l’enfer du nazisme n’aurait pu voir le jour: sa langue.

L’objet incarnant le mal absolu

Olivier Mannoni est un traducteur qui ne dort pas. Sa première «grosse traduction», il l’a réalisée pendant la nuit, lors de son service militaire. Déjà, il s’agissait d’une histoire de juifs persécutés. Comment dormir quand on est chargé de transmettre le message de haine le plus diabolique du siècle écoulé, celui qui a fait des millions de victimes mais aussi transformé des milliers d’humains ordinaires en bourreaux?

Au bout de ce tunnel sans lumière, à force de traduire des génies du mal et des médiocres frustrés, «des hommes qui n’ont jamais admis que leurs manques d’intelligence, de brio ou de compétences aient fait obstacle à la réalisation de leurs rêves, et qui se rattrapent comme ils peuvent en organisant l’extermination de leur prochain», le traducteur a naturellement fini par se retrouver face au «golem», au texte ultime, celui que tout le monde connaît mais que pas grand monde n’a lu en dehors de la sphère des historiens, l’objet incarnant le mal absolu et que la journaliste Florence Aubenas qualifie de «grimoire nazi»Mein Kampf. Aurait-il pu y échapper? Était-il possible de ne pas être obligé de l’affronter, une fois arrivé au bout de ce chemin vaseux?

Travail monumental et essentiel, Historiciser le mal permet de remettre Mein Kampf à sa place et de le «re-hitlériser», comme le dit Florence Aubenas dans un portrait publié dans Le Monde, c’est-à-dire d’exposer un texte brut, «bourbeux, criblé de fautes et de répétitions, souvent illisible, doté d’une syntaxe hasardeuse et truffé de tournures obsessionnelles», selon son traducteur.

L’histoire d’un chemin de croix

Dans son essai Traduire Hitler, Mannoni prend la parole pour raconter les circonstances de la traduction et de la publication de ce livre pas comme les autres, et qui avant même son existence officielle fit l’objet de polémiques et de récupérations politiques. Il y évoque les controverses plus ou moins sensées qui ont entouré la parution, plusieurs années déjà avant sa date réelle, notamment le brûlot intitulé «Non! Pas “Mein Kampf” quand il y a déjà Le Pen!» éructé sur son blog en 2015 par un Jean-Luc Mélenchon en pleine campagne pour les élections régionales et avide d’attirer l’attention en pariant sur une indignation à peu de frais, et qui avait trouvé bon de s’opposer à la future sortie d’un livre dont de toute évidence il ne savait rien, puisqu’il l’accusait d’être le programme de la solution finale (alors qu’à aucun moment Hitler n’y fait allusion: «La Shoah n’est annoncée nulle part dans Mein Kampf, sans doute parce qu’en 1924 elle n’était simplement pas encore un projet», écrit Mannoni).

«Mon travail fut exténuant, moins pour son contenu qu’en raison de cette impression d’avancer dans un bourbier chaussé de semelles de plomb

                                                                             Olivier Mannoni, traducteur de Mein Kampf

Traduire Hitler est un journal de traduction, et c’est l’histoire d’un chemin de croix. À la suite du changement de l’équipe éditoriale de Fayard, une première version du texte, soit quelque 1.200 feuillets, qui avait demandé deux années de travail au traducteur, dut être reprise de A à Z pour restituer la nature brute du texte original. Or, traduire un personnage qui parle à la première personne, c’est être obligé d’entrer dans sa tête et de prendre une part active à ses réflexions. C’est le connaître assez pour deviner ses intentions stylistiques, pour appréhender ses mécanismes de pensée, bref, c’est devenir intime. Mais c’est aussi lutter pour ne pas qu’il envahisse votre psyché, votre vie, tout en étant contraint de poser vos bagages dans les recoins de son cerveau, à lui.

Au total, Mannoni a dû rester dix ans dans la tête d’Adolf Hitler. La charge émotionnelle de l’homme forcé à cohabiter (et à faire cohabiter sa famille: Mannoni raconte que son épouse a fini par retourner tous les livres où le nom de Hitler s’affiche pour ne plus le voir) avec un dictateur génocidaire est palpable.

Véritable viol de la langue

«J’entends ce bruit de succion de la pelle du traducteur plongée dans la glaise vaseuse, qu’on laisse égoutter après l’avoir soulevée et avant d’analyser la motte», se rappelle Olivier Mannoni en évoquant les longues heures de travail de ces dix années de calvaire traductionnel. Et pour cause: au-delà de la «pensée perverse» de l’auteur de Mein Kampf, le style lui-même a été une violence pour le traducteur. Car pour «bien» traduire Hitler, il a fallu bousculer toutes les règles de traduction qui veulent que l’on livre un texte lisible, fluide, parfois un peu lissé pour rendre compréhensible la pensée de l’auteur.

Or, avec Mein Kampf, l’indéniable violence des propos s’accompagne d’un véritable viol de la langue, que Mannoni s’est vu obligé de reproduire en français pour rester fidèle à la lettre. «Mon travail, qui allait à l’encontre de toutes les règles classiques de la traduction, fut exténuant, moins pour son contenu, que je connaissais bien, qu’en raison de cette impression d’avancer dans un bourbier chaussé de semelles de plomb», se rappelle-t-il.

Dix années de traduction et de recherches, un ouvrage scientifique essentiel: l’équipe éditoriale a livré avec Historiciser le mal un manuel du passé dont les pages restent pourtant toujours ouvertes. Les titres des différentes parties du livre de Mannoni, qui illustrent son cheminement dans son travail de traduction, résonnent comme un écho avec les événements sinistres auxquels Mein Kampf a abouti: «L’invasion», «Le flot brun», «La tempête», «Le bourbier», et enfin «Échos lugubres». Mais nulle part il n’est question de libération. Le point n’est pas tout à fait final, à aucun moment le livre de l’horreur ne se referme vraiment.

Dans sa dernière partie, l’auteur s’inquiète en effet du sillage laissé par le monstre. Dans les propos d’un homme politique comme Éric Zemmour brandissant la menace fantasmée d’un «grand remplacement», dans la manipulation frénétique de la langue d’un Donald Trump conduisant à simplifier le langage au point de pousser ses partisans à ne plus être capables de penser par eux-mêmes et à se laisser aller à la violence la plus primitive, dans le lexique de l’extrême droite qui voue les «journalopes» à la vindicte de ses militants, visant ainsi la presse libre, un des piliers de la démocratie, dans la perversion du langage par des politiques avides de pouvoir et dont la dernière des préoccupations est la protection de l’État de droit, Mannoni, traducteur tourmenté, entrevoit encore aujourd’hui des mécanismes de confusion du langage qui ne lui sont que trop familiers.

Traduire Hitler

Olivier Mannoni

Paru le 13/10/2022

128 pages

Éditions Héloïse d’Ormesson

 

 

[Source : http://www.slate.fr]

En recourant à des actions spectaculaires qui suscitent l’indignation, comme l’ont fait les membres du groupe militant Just Stop Oil, les écologistes usent de l’attention comme les pétroliers des ressources naturelles.

Le 14 octobre, les deux activistes ont aspergé Les Tournesols de Van Gogh de soupe Heinz à la National Gallery de Londres. | Capture d'écran Just Stop Oil via YouTube

Le 14 octobre, les deux activistes ont aspergé Les Tournesols de Van Gogh de soupe Heinz à la National Gallery de Londres. | Capture d’écran Just Stop Oil via YouTube

Écrit par Christian Salmon — édité par Sophie Gindensperger 

Depuis que la nouvelle Première ministre britannique, Liz Truss, a laissé entendre que l’extraction de gaz par fracturation hydraulique pourrait être autorisée, les actes de désobéissance civile se multiplient en Grande-Bretagne. À l’avant-garde de la mobilisation, un groupe britannique, Just Stop Oil, qui milite pour l’arrêt immédiat de tout nouveau projet pétrolier, a programmé une action par jour pendant tout le mois d’octobre.

Ses formes d’intervention sont conçues pour attirer l’attention des médias et l’appétit des réseaux sociaux avec des images chocs, des vidéos transgressives ou simplement surprenantes: ils se collent à la route, arrêtent le trafic automobile ou prennent pour cible des infrastructures pétrolières. Leurs moyens d’action sont pacifiques et consistent le plus souvent à asperger leur cible de peinture orange et à se coller à divers supports en utilisant de la glu pour retarder une évacuation par la police qui les priverait du temps d’exposition nécessaire à leur médiatisation.

Dernière performance, dimanche dernier: ils ont interrompu la circulation sur Park Lane, au centre de Londres, pendant que l’un d’entre eux badigeonnait la vitrine d’une concession automobile Aston Martin. Mais leur cible ne se limite pas à l’industrie automobile ou à la filière des hydrocarbures. En mars, ils ont interrompu un match de football, l’un d’entre eux s’étant lié par le cou à la barre du cadre d’un but.

L’attention, la plus rare des ressources

Ce qu’ils visent, comme se doit de le faire tout acteur public, c’est l’attention, la plus rare des ressources dans un monde pavé d’écrans et inondé d’images. Capter l’attention, détourner le flux des images d’actualité.

Depuis le mois de juillet, ils ont déplacé leur champ d’action dans les musées. Le tableau La Charrette de foin, de l’Anglais John Constable, a fait les frais des performers de Just Stop Oil. Puis ce fut à La Cène de Léonard de Vinci à la Royal Academy of Arts de subir l’assaut du groupe écolo, deux activistes s’étant collés délicatement à son cadre. Vendredi 14 octobre, c’est le chef-d’œuvre de Van Gogh, Les Tournesolsqui a été pris pour cible.

L’image a fait le tour des réseaux sociaux. On y voit deux jeunes femmes jeter un liquide orange sur Les Tournesols de Van Gogh, l’une des images les plus célèbres du XIXe siècle, devenue une sorte de cliché visuel à force d’être reproduite à l’usage des salles d’attente des médecins, des boîtes à biscuits et des torchons de cuisine.

Avant même que les motivations des deux performeuses ne soient connues et que la polémique s’installe entre partisans (plutôt à gauche) et opposants (plutôt à droite) du jet de potage, l’image des tournesols dégoulinant de soupe a suscité une onde de choc sur les réseaux sociaux, où se mêlaient surprise, stupeur et réprobation.

Dernier refuge du sacré dans nos sociétés

Dans une vidéo diffusée sur le web, on pouvait voir deux performeuses âgées d’une vingtaine d’années, vêtues de t-shirts d’un blanc immaculé et ornés du logo de leur organisation, «JUST STOP OIL», brandir des boîtes de conserve de la marque Heinz, puis en asperger le contenu sur le tableau de Van Gogh avant de s’enduire les mains d’une glu hyper forte et s’immobiliser à genoux, mains collées au mur. On a par la suite appris qu’une vitre protégeait Les Tournesols et que l’œuvre n’avait pas été endommagée.

Si la performance pouvait évoquer par la projection de substances liquides une citation de l’action painting de Jackson Pollock, ou une réminiscence des sérigraphies de boîtes de conserve Campbell d’Andy Warhol, ce n’était apparemment pas la préoccupation des deux jeunes femmes dont le manifeste, proclamé avec un impayable sérieux aux pieds des tournesols flétris, exprimait des préoccupations plus prosaïques.

Leur geste s’efforçait de réconcilier la fin du mois et la fin du monde, comme dit le slogan. «À cause des prix du gaz qui flambent, des millions de familles britanniques ne vont pas pouvoir se permettre de faire chauffer une brique de soupe cet hiver. Seule la résistance civile peut nous permettre de sortir de cette crise –il est temps de se lever et de défendre ce qui est juste. Qu’est-ce qui a le plus de valeur, l’art ou la vie?» Sur la page Facebook de l’organisation, un post menaçait: «Continuez à nous donner du pétrole et du gaz et nous continuerons à vous donner de la soupe.»

L’agression contre Les Tournesols de Van Gogh, scénarisée dans ses moindres détails, déstabilisait notre dernière croyance profane en l’art. Elle s’attaquait au dernier refuge du sacré dans nos sociétés, celui que nous brandissons comme un bien de civilisation face aux iconoclastes en tous genres. Plus rien n’est donc sacré? Qui peut en vouloir à des innocents tournesols? En quoi Van Gogh mérite-t-il une telle offense posthume?

Deux figures de l’innocence

Si l’on en croit Alex de Koning, porte-parole du mouvement Just Stop Oil, ce tableau de Van Gogh n’a pas été choisi au hasard, et pas seulement pour sa capacité à faire du buzz, mais pour ce qu’il représente (dans tous les sens du terme).

Mais qu’est-ce qu’il représente? Risquons une explication.

Ces tournesols représentent beaucoup plus qu’une œuvre célébrée partout, une icône de la mondialisation. Ils incarnent aux yeux de l’homme désolé, plongé dans la solitude des villes, et qui a perdu tout lien avec l’expérience, une sorte de réconciliation des signes, d’entente entre l’art et la vie. C’est cette entente que contestait la performance des jeunes femmes. Elle visait à affirmer un ordre de valeurs supérieur à l’art, une urgence et des priorités qui s’imposaient au privilège que nos sociétés accordent à l’art.

Leur geste avait le sens non pas d’une banale profanation, mais d’une lutte entre la forme artistique, le chef-d’œuvre vieillissant, compromis par le marché de l’art (la valeur de ces Tournesols est estimée à plus de 84 millions de dollars), et l’innocence de la jeunesse.

Dans ce combat qui semblait sorti du roman de Gombrowicz Ferdydurke, on voyait s’opposer non pas deux idéologies, ni même deux conceptions de l’art, mais deux figures innocentes. Comment s’opposer à l’innocence des tournesols, sinon par une innocence supérieure, celle de la planète, celle de la jeune fille?

Le risque du cliché

Badigeonner de peinture un concessionnaire auto, fût-ce celui d’Aston Martin, ne surprend plus personne. On peut toujours provoquer un embouteillage vite résorbé. De même, un sitting à un carrefour indisposera quelques automobilistes. Et même l’attaque d’un terminal pétrolier, assez sensationnelle à sa façon, appartient à l’idée qu’on se fait d’une action écologique telle que Greenpeace nous y a habitués.

Tout cela est usé? Si l’on veut frapper l’opinion, sur le web des chaînes de commentaires scandalisés, il faut que la manifestation cause un effet de sidération, qu’elle soit moralement impossible à justifier. En s’attaquant à Van Gogh, vous êtes sûr de faire déferler une vague d’indignation.

Et c’est précisément cette indignation qui fait spectacle.

«Nous n’essayons pas de nous faire des amis ici, a déclaré au Guardian Alex de Koning après que la salle de la National Gallery a été vidée, nous essayons de faire changer les choses, et malheureusement c’est ainsi que le changement se produit.»

Est-ce si sûr? «Les attaques de Just Stop Oil contre l’art risquent de devenir un cliché», titrait le jour même le Guardian, dont la chroniqueuse Claire Armistead soulignait le risque de voir ces manifestations provoquer plus d’attention que d’action.

Car il y a un angle mort dans cette realpolitik à l’ère des réseaux sociaux. Ce type de performances médiatiques, destinées à capter les attentions, reproduit les mêmes mécanismes de dévoration que les écologistes dénoncent quand il s’agit de ressources naturelles. Il produit des pics d’attention qui se succèdent et se dévorent entre eux, puis sont absorbés et victimes d’accoutumance.

Ces buzz abusent de notre attention et participent d’une société de prédation économique, industrielle, culturelle, sexuelle, qui dévore les corps et leur milieu d’existence, mais aussi les esprits, les désirs et les imaginaires. Toutes ces formes de dévoration fusionnent sous nos yeux dans un univers social où la manipulation des pulsions a pris la place de l’échange des idées et des expériences.

«Ces manifestations sont géniales», commente quant à elle Margaret Klein Salamon, directrice exécutive du Climate Emergency Fund«Les gens viennent dans les musées pour regarder des peintures, mais nous avons besoin qu’ils regardent plutôt la réalité de l’urgence climatique.»

Don’t look art, en somme!

 

[Source : http://www.slate.fr]

Los “grandes relatos” que explicaban todo, desde el comportamiento de los Estados hasta la literatura, han desaparecido. El colapso de las historias interconectadas requiere de una nueva perspectiva sobre lo que nos une, desde Manila hasta Silicon Valley, y de ahí hasta Moscú, y es necesario que el periodismo se plantee nuevamente cuál es su misión, explica el autor británico-ucraniano Peter Pomerantsev.

Escrito por Peter Pomerantsev 

“Querido Peter: Llevo mucho tiempo esperando para escribirte, pero las últimas noticias han dejado en claro que permanecer en silencio es, simplemente, peligroso.

Mis antiguos colegas están en prisión. Durante muchos meses, a mis amigos y a mí nos ha resultado difícil llamar la atención de los medios de comunicación mundiales. Ahora ha ocurrido algo que ha capturado la atención de las principales agencias de noticias, pero me pregunto cuánto durará. ¿Hay alguna manera de mantener esta atención? Me siento como si todos aquí fuésemos rehenes. Y eso da miedo. Ahora todo, cualquier delito, se ha vuelto posible aquí”.

El verano pasado, recibí desde Bielorrusia este mensaje de un amigo, un par de días después de que el dictador de ese país, Alexander Lukashenko, utilizara un avión de combate MiG para el aterrizaje forzoso de un vuelo comercial internacional que estaba atravesando “su” espacio aéreo y detuviera a un periodista bielorruso y a su novia, que creían estar seguros viviendo en Lituania. Pocos días después, el periodista capturado, Roman Protasevich, apareció en la televisión estatal con marcas de tortura visibles y confesó su traición. La escena recordaba a los juicios espectáculo instigados por el estalinismo.

Hubo cierta indignación entre lo que nos gusta llamar la comunidad internacional; se utilizaron las palabras “secuestro” e incluso “acto terrorista”. Y después, como temía mi amigo, todo fue olvidado. Lukashenko se enfrentó a consecuencias leves, como la prohibición de que la aerolínea estatal bielorrusa volara a Europa. Su mensaje a cualquiera que se atreviera a oponerse a él era más potente: « Puedo hacer lo que quiera contigo, dondequiera que estés. »

Me costó responder a la petición de mi amigo. Para que un único acontecimiento sea recordado, debe estar sostenido por una historia mayor en la que pueda desembocar. Cualquiera que haya jugado a un juego de memoria sabe que se recuerdan cosas diversas al ponerlas en una secuencia en la que adquieren importancia como parte de un todo mayor. Del mismo modo, en los medios de comunicación y en la política, una escena solo tiene poder cuando forma parte de un relato más amplio.

Pero los escandalosos crímenes de Lukashenko no encajan dentro de una cadena de significados más grande. Y no se trata solo de Bielorrusia. De Birmania a Siria, de Yemen a Sri Lanka, tenemos más pruebas que nunca de crímenes de lesa humanidad: torturas, ataques químicos, bombardeos con barriles, violaciones, represión y detenciones arbitrarias. Pero a las pruebas se les dificulta captar la atención, por no hablar de suscitar consecuencias. Tenemos más oportunidades de publicar, no estamos limitados por la geografía, nuestra audiencia es potencialmente global. Sin embargo, la mayoría de las revelaciones y de las investigaciones no tienen eco. ¿Por qué?

Un relato conectado se rompe

El colapso de la Unión Soviética debería haber estimulado la introspección y animarnos a no excluir a nadie del relato de los derechos humanos contra la represión política. Y, por un momento en la década de 1990, esto parecía posible. Cuando la ola de democratización derrocó tanto a las dictaduras prosoviéticas como a las proestadounidenses en todo el mundo, cuando se creó el Tribunal Penal Internacional en La Haya en 1998, cuando las intervenciones humanitarias se llevaron a cabo con éxito desde los Balcanes occidentales hasta África oriental, parecía que la justicia se impartiría más equitativamente.

Pero entonces ocurrió algo diferente. En lugar de dejar entrar a más personajes en el relato de los derechos humanos, todo el entramado se derrumbó. Una situación en la que algunas víctimas recibían más atención que otras fue sustituida por una situación en la que ninguna víctima recibía atención de forma sostenida. Los horrores de la Segunda Guerra Mundial habían obligado al mundo a adoptar la Declaración de Derechos Humanos de la ONU, al menos en principio. Tras la Guerra Fría, las catástrofes en Srebrenica y Ruanda habían fomentado las intervenciones humanitarias y la “responsabilidad de proteger”.

En anteriores crímenes de lesa humanidad, la ignorancia siempre era una excusa. Desde Auschwitz hasta Srebrenica y Ruanda, los dirigentes podían alegar que desconocían los hechos, o que estos eran equívocos, o bien que los acontecimientos se habían desarrollado con tanta rapidez que resultó imposible actuar. Pero ahora tenemos acceso a medios de comunicación omniscientes que a menudo nos aportan pruebas abundantes e instantáneas que, sin embargo, resultan menos significativas que antes. El cuadro de los crímenes sigue siendo un desorden de imágenes rotas.

Esto parecía diferente en la Guerra Fría. En aquel entonces, parecía haber una conexión entre poner un freno a un único disidente soviético y una lucha geopolítica, institucional, moral, cultural e histórica más amplia. Los medios de comunicación, los libros y las películas de la época contaban las historias de discretos presos políticos y de abusos a los derechos humanos como parte de un relato más abarcativo dentro de la gran batalla de la libertad contra la dictadura, una batalla por el alma de la historia.


En anteriores crímenes de lesa humanidad, la ignorancia siempre era una excusa. Desde Auschwitz hasta Srebrenica y Ruanda, los dirigentes podían alegar que desconocían los hechos, o que estos eran equívocos, o bien que los acontecimientos se habían desarrollado con tanta rapidez que resultó imposible actuar


Y toda esta historia hacía que la gente en las democracias se sintiera mejor consigo misma y formara parte de una identidad: estamos del lado de la libertad frente a la tiranía. Había instituciones que apoyaban este mensaje y esta identidad. Los presos políticos se sentían menos vulnerables cuando sus detenciones eran anunciadas en la BBC o en Radio Free Europe, recogidas por Amnistía Internacional, anunciadas en la ONU y expuestas por los presidentes de Estados Unidos en cumbres bilaterales con los dirigentes soviéticos.

En conjunto, todos estos elementos mantenían viva la atención. Y que los propios pecados de Occidente, como el programa de asesinatos encubiertos de la CIA en la Guerra Fría y los golpes de Estado en la década de 1970, fueran revelados suponía la existencia de un marco mediante el cual captar la atención y la indignación del público occidental.

Existía lo que podríamos llamar un “gran relato” que informaba y envolvía todo, desde el comportamiento de los Estados hasta la literatura y el arte, pasando por el modo en que la gente se pensaba a sí misma. Estaba ligado a los ideales ilustrados de “progreso” y “liberación”, donde los hechos y las pruebas eran algo que debía respetarse, confirmarse o refutarse mediante argumentos racionales o pruebas verificables.

Incluso el régimen soviético se aferró a un lenguaje y una visión del mundo en los que los derechos – los derechos de los pueblos colonizados y de los económicamente oprimidos, principalmente – podían importar, al menos en teoría. Incluso firmaron compromisos en materia de derechos humanos, lo que permitió a los disidentes soviéticos exigir a los dirigentes del Kremlin que “obedecieran sus propias leyes”.

[Ilustración: Vladimir Kazanevsky | Cartoon Mouvement – léase la integralidad de este artículo en el siguiente enlace: http://www.voxeurop.eu]

La parution en français de son récit «Chelsea Girls», qu’il définit comme «un “Sur la route” lesbien», relève de l’événement.

Après avoir publié une vingtaine d'ouvrages, recueils de poésie et romans, Myles s'est imposé comme une figure majeure de la scène artistique LGBT+. | © Shae Detar

Après avoir publié une vingtaine d’ouvrages, recueils de poésie et romans, Myles s’est imposé comme une figure majeure de la scène artistique LGBT+.

Écrit par Jules Barbier — édité par Sophie Gindensperger 

Il a fallu attendre 2022 pour que paraisse enfin un ouvrage d’Eileen Myles en français. Un retard étonnant, tant la voix de ce poète et romancier est célébrée depuis plusieurs décennies outre-Atlantique. Il faut dire qu’après avoir publié une vingtaine d’ouvrages, recueils de poésie et romans confondus, Myles s’est imposé comme une figure majeure de la scène artistique LGBT+ [Eileen Myles utilise le pronom «they»].

Ce sont les Éditions du sous-sol qui proposent de découvrir son roman Chelsea Girls (1994) dans une traduction d’Héloïse Esquié. Une suite logique pour la maison d’édition, à qui l’on doit la traduction des ouvrages de Maggie Nelson«Une très bonne amie», précise Myles lors de notre rencontre dans son hôtel parisien.

Riche d’un parcours qui l’a vu naître en 1949 dans une famille ouvrière catholique de la banlieue de Boston et s’installer à New York en 1974, Myles profite donc d’un passage en France pour présenter son livre le plus admiré, le premier à être écrit en prose.

De Kerouac à Truffaut

Publié en 1994, Chelsea Girls est un récit fragmenté de vingt-huit textes, passant de l’enfance d’Eileen Myles à son existence bohémienne dans les bars de New York. Entre la défonce, l’alcool, la faim et le sexe, l’atmosphère licencieuse de Chelsea Girls fait immédiatement penser aux mythes fondateurs de la Beat Generation: Howl d’Allen Ginsberg et Sur la route de Jack Kerouac.

C’est, des propres aveux de Myles, l’envie d’écrire «un Sur la route lesbien», qui anime l’écriture de ce récit. Une écriture aussi inspirée par le cinéma de François Truffaut, et en particulier par le cycle Antoine Doinel, initié dès 1959 avec Les 400 coups. Le coup de force de Truffaut consiste à faire coexister des épisodes indépendants les uns des autres, une logique reprise dans Chelsea Girls, que Myles a mis quatorze ans à écrire, laissant souvent son manuscrit en jachère pendant de longs mois avant d’y ajouter de nouvelles histoires.

«Je ne sais pas à quoi servaient ces périodes d’attente, mais je sais que c’était la clé», explique Myles. Cet éloge de la patience s’inscrit dans le destin même du livre. Refusé par une quarantaine d’éditeurs, il finit par trouver preneur aux éditions Black Sparrow. Mais le succès n’est pas au rendez-vous. La clé, une fois encore, sera d’attendre. En 2015, Chelsea Girls est réédité. Et enfin acclamé.

Couverture de Chelsea Girls, roman de 1994 publié aux Éditions du sous-sol.

En expédition pour devenir poète

Cette apologie du temps long contraste fortement avec la frénésie qui habite le roman. Dans les hauteurs de Manhattan, Eileen Myles est en expédition pour devenir poète, une quête devenue raison de vivre. «Tout le but du livre est de devenir écrivain», acquiesce l’auteur. Voilà comment un banal récit d’errance se retourne en un intriguant récit d’aventure. Le tout, ramassé à hauteur de la rue. «La voix d’Eileen Myles est portée par ce qu’on appelle “street smart” en anglais, l’intelligence de la rue», remarque David Reckford, docteur en études anglophones et spécialiste des New York Poets, un groupe de poètes actif à partir des années 1950.

Son esprit débrouillard l’amène dans un lieu mythique de l’avant-garde new-yorkaise: le Chelsea Hotel. Situé dans le quartier de Chelsea, il a vu nombre d’artistes séjourner entre ses murs. Parmi eux, la chanteuse Patti Smith et le photographe Robert Mapplethorpe, deux icônes qui font une apparition remarquée dans le récit. Impossible d’ailleurs de ne pas penser à Just Kids à la lecture de Chelsea Girls.

La «New York School of Poets»

Pourtant, loin de ces références presque trop évidentes, c’est une autre figure qui est convoquée au Chelsea Hotel: le poète James Schuyler, dont Myles devient l’assistant à la fin des années 1970. Avec Frank O’Hara et John Ashbery, il est l’un des représentants de la New York School of Poets.

Associée aux peintres de l’action painting (Willem de Kooning, Jackson Pollock) et influencée par le surréalisme, leur poésie est imprégnée d’événements et d’objets de la vie ordinaire. «Les New York Poets utilisent le langage de la rue et les micro-expressions du quotidien», remarque David Reckford.

Privilégiant l’abstraction, leur école s’oppose à un autre courant en vogue à cette époque, la poésie «confessionnelle». Ce style, associé entre autres à Sylvia Plath et Robert Lowell, est marqué par le témoignage des propres expériences psychologiques du poète, souvent intenses et traumatiques.

Alors, quand Myles arrive à New York, deux voies sont ouvertes: «J’avais lu Sylvia Plath et tous ces poètes qui m’avaient appris qu’on pouvait écrire sur sa tragédie personnelle. Puis, quand je suis arrivé à New York, j’ai rencontré les New York Poets, des gens drôles et sophistiqués, qui ne faisaient en aucun cas ce genre de chose. Puisqu’il fallait bien choisir, j’ai emboîté le pas à l’école de New York, quitte à me retenir de raconter des choses trop personnelles pendant quelques années.»

L’écriture, un exercice du deuil

Finalement, Eileen Myles enfreint les règles et commence à relater des événements plus personnels et sexuellement explicites. Une façon de dire sa vie dans tout ce qui la compose et la construit. «I am always hungry & wanting to have sex. This is a fact», peut-on lire en tête du poème «Peanut Butter». Une façon d’ériger la libido au rang d’objet poétique. Une façon, aussi, de rappeler que le plaisir et la poésie portent en eux une même force d’émancipation, à la fois vitale et charnelle.

Mais l’écriture est également un exercice du deuil pour Myles, qui a vu son père mourir devant ses yeux à l’âge de 11 ans. Le traumatisme est ravivé à la mort de son pitbull Rosie, avec qui Myles partagea seize ans de vie commune. De cette disparition, Myles tirera Afterglow: A Dog Memoir (2017), étonnant roman qui surprend par sa faculté à délaisser le regard anthropocentré de l’humain sur l’animal et à laisser libre cours à une conscience animale, diffuse et plurielle.

L’exercice est périlleux parce que proprement stupéfiant. «Le délire est nécessaire dans l’écriture, mais le plus intéressant est de savoir comment le contenir et comment naviguer entre les différents états mentaux et physiques d’une personne», nous confie Myles, alors que la conversation dérive doucement vers Deleuze et le masochisme.

Candidat à la présidentielle américaine

Eileen Myles se plaît à complexifier le réel. Mais quand celui-ci devient intolérable, il faut intervenir. Contre les attaques du président George H. W. Bush dirigées vers les minorités sous couvert d’indignation contre le «politiquement correct», Myles se présente à l’élection présidentielle de 1992. Sa campagne électorale, pensée comme une longue performance artistique, est menée sur MTV et les campus universitaires.

Alors que les fortunés Bill Clinton, Ross Perot et George H. W. Bush se chamaillent le titre de président des États-Unis, Myles envisage la possibilité d’un candidat femme, gay, artiste, gagnant moins de 50.000 dollars par an –une explication donnée à Jezebel. Dans un poème bouleversant, «I Want A President», son amie Zoe Leonard lui rendra un vibrant hommage.

Pour son prochain livre, Myles nous indique s’intéresser au génome humain. Une curiosité à toute épreuve et une épreuve de la curiosité: voici les traces d’une écriture vivante et engagée. Comme un souffle.

[Photo : Shae Detar – source : http://www.slate.fr]

As agressões – quase sempre de um segmento de evangélicos – contra os terreiros das religiões de matriz africana

A nova batalha de Xangô

Oterreiro de candomblé Ilê Asé Oyá L’adê Inan, em Alagoinhas, cidade a cerca de 120 km de Salvador, é consagrado a Oyá, uma das divindades das religiões de matriz africana, senhora dos ventos e da tempestade. Quem comanda o local desde a sua fundação, há treze anos, é a ialorixá (mãe de santo) Roselina Barbosa, de 63 anos. Conhecida como Mãe Rosa, ela mora no terreiro em uma casa confortável, onde criou seus três filhos, todos formados em artes cênicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Além de cuidar de sua casa e do terreiro, dirigindo os ritos de sua religião, ela atende, na condição de mãe grande, as pessoas que buscam ajuda espiritual naquele ambiente calmo e bucólico.

Em seu jardim repleto de plantas, algumas têm função sagrada, como a espada-de-oyá (também chamada espada-de-santa-bárbara), as folhas de Oxum (o boldo, a camomila, a erva-cidreira) e o acocô de Xangô. O cuidado com a vida vegetal e a natureza é um fundamento da crença de Mãe Rosa, como ensina um verso para Ossain, o orixá das matas que promove a cura por meio de plantas tidas como sagradas: “Sem folha, sem orixá.”

A vida e o trabalho tranquilos de Mãe Rosa são, no entanto, apenas uma parte de sua história. Quando sai às ruas de Alagoinhas, ela se depara frequentemente com alguma hostilidade. Em suas idas à feira da cidade, às sextas-feiras, dia em que se veste inteiramente de branco como manda a sua religião, ela já cansou de ouvir frases provocativas como “Jesus te ama” e “Está amarrado em nome de Jesus” – esta última usada por alguns evangélicos para dizer que o Diabo não pode agir, pois está preso. Coisa parecida ocorre quando Mãe Rosa vai ao supermercado, à clínica médica, à padaria, à farmácia e a outros locais. O assédio também atinge sua primogênita, Fernanda Júlia Barbosa, de 42 anos, que desde a adolescência é apontada como “filha da macumbeira”. No terreiro, ela é chamada de Onisajé (“divindade que sabe aguardar”) e é mãe pequena, a segunda na hierarquia, autorizada a conduzir as liturgias na ausência da mãe grande.

Mãe Rosa conta que, certa vez, levou duas seguidoras a um ribeirão para lavar seus cabelos na água corrente e passar um ebó, ritual de limpeza espiritual que naquele dia ela fez com uma mistura de milho branco cozido. “Coloquei o pé na água. Peguei as duas e comecei a pedir a bênção a Oxum, a senhora dona das águas. Nisso, ouvi um ‘tinnn’ dentro d’água, bem pertinho do meu pé. Por pouco não pegou em mim”, recorda. Era o disparo de uma arma de fogo feito por um grupo de jovens. Ela se aproximou do grupo para saber o que pretendiam com aquilo. Os jovens chamaram a oferenda dela de “porcaria”.

Em outra ocasião, quando caminhava na rua em companhia de sacerdotes e sacerdotisas do candomblé, uma mulher postou-se à sua frente, segurando um pedaço de pau, e ameaçou abertamente: “Aqui vocês não passam. Está amarrado. Sai Satanás.” Mãe Rosa tentou argumentar, mas lhe disseram que ela estava vestida “com roupas do Demo”. A ialorixá usava um cafetã com estampas étnicas e, no pescoço, trazia os fios de contas ou guias – colares consagrados aos orixás que conferem energia e proteção aos filhos de santo. A mulher seguiu falando que o deus dela acabaria com aquela “raça de Satanás”.

O dia 28 de maio de 2019 foi o pior de todos. Às 23h40, Mãe Rosa e sua irmã Mariza Barbosa, de 62 anos, começaram a ouvir gritos no portão de entrada do terreiro. Imaginaram que fosse uma briga, mas logo perceberam que o vozerio era de gente hostil. “Ouvi um monte de vozes. Eles batiam os pés no chão, batiam as mãos na Bíblia, batiam, batiam, e diziam: ‘Sai Satanás’, ‘Nós vamos lhe derrubar’”, descreve Mãe Rosa. Atônitas, as duas mulheres ficaram com medo de sair da casa. “Pela quantidade de pisadas e vozes, tinha mais de vinte pessoas. Comecei a passar mal de ver a violência lá fora. Se eu abrisse a porta, podiam fazer algo comigo e com minha irmã”, ela diz. O bailarino e filho de santo Ivan Bina, que mora perto dali, registrou em um vídeo os agressores, que ficaram na frente do terreiro por intermináveis 25 minutos. Ele enviou as imagens para os filhos de Mãe Rosa e outros frequentadores do terreiro, que vieram logo em socorro. Mas, ao chegarem lá, os agressores já tinham ido embora.

As pessoas que atacaram o Ilê Asé Oyá L’adê Inan não esperavam a repercussão causada pela violência nem a mobilização da sociedade em defesa do terreiro. O Ministério Público e a polícia passaram a investigar o caso, e Mãe Rosa recebeu apoio de diferentes líderes religiosos, inclusive pastores evangélicos. Em 30 de julho de 2019, foi feito um ato de desagravo a ela na Assembleia Legislativa da Bahia. Com o tempo, porém, a repercussão arrefeceu e, passados mais de três anos, a Polícia Civil ainda não chegou à conclusão alguma sobre o que houve. “Na verdade, a polícia não investigou. A polícia quis apaziguar”, diz Luiz Fernando Júlio Barbosa, de 38 anos, filho do meio de Mãe Rosa, também iniciado no candomblé, no qual é chamado de Legbarinan (“o poder do fogo”). Sua irmã mais nova, Fabíola Júlia Barbosa, de 35 anos, é Nansurê (“a mãe que abençoa os filhos”), uma das damas dos orixás que zelam pelo terreiro.

A cidade de Alagoinhas tem 153 mil habitantes. De acordo com o Censo de 2010, 53% da população é formada por católicos, 22% por evangélicos e apenas 0,58% seguem religiões de matriz africana. Em 2004, quando Mãe Rosa e seus três filhos se mudaram para o bairro Ferro Aço, onde fica o terreiro, existia ali somente uma igreja evangélica. Em 2021, havia nove templos de diferentes denominações evangélicas num raio de 500 metros em torno do Ilê Asé Oyá L’adê Inan (que significa “casa de força de Oyá, cuja coroa é de fogo”, na tradução do iorubá feita por Mãe Rosa).

Ialorixá há trinta anos, Mãe Rosa é uma pessoa serena, bem diferente do que se poderia esperar de uma filha da senhora das tempestades, Oyá, também chamada de Iansã – uma divindade que adora o vermelho, o marrom e o rosa clarinho. Numa tarde ensolarada de outubro, enquanto conversava com a piauí em uma rua do bairro Ferro Aço, ela avistou restos de uma fogueira e, em meio às cinzas, um vaso de comigo-ninguém-pode que sobreviveu às chamas. Apanhou e levou para o terreiro.

 

Por causa de Oyá, o rei Xangô e o guerreiro Ogum entraram em disputa. Eles lutaram para saber quem seria digno do amor da mais poderosa guerreira africana. Xangô venceu e partiu com ela para Oyó, a capital do império iorubá (na Nigéria), onde se tornou o quarto soberano da cidade, fazendo de Oyá sua rainha e inaugurando uma dinastia. Depois de sua morte, Xangô passou a ser cultuado como orixá da justiça. Hoje, no Brasil, ele enfrenta uma nova batalha: contra a intolerância religiosa.

Os povos africanos, entre eles os iorubás, lançaram aqui bases do candomblé, religião que se mostrou essencial para manter a unidade entre os escravizados no país, ao longo de mais de trezentos anos. No início do século XX, elementos do candomblé se somaram a aspectos do catolicismo, de crenças indígenas e do kardecismo para fundar a umbanda. Quando a liberdade religiosa foi contemplada na Constituição de 1946, os credos de matriz africana, embora contassem com a proteção da lei, em maior ou menor grau continuaram a ser alvo de perseguição. Nos últimos anos, o número de agressões aumentou – assustadoramente.

Em 2021, houve 581 denúncias de ataques à liberdade religiosa, segundo a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, ligada ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos – um aumento de 140% em relação a 2020, quando ocorreram 242. Na contabilidade das vítimas de agressão no ano passado, a umbanda aparece em primeiro lugar, com 65 denúncias, seguida do candomblé, com 58. O estado do Rio de Janeiro liderava o número de denúncias no ano (138), seguido por São Paulo (109), Minas Gerais (52), Bahia (50) e Rio Grande do Sul (45). Do total de denúncias, 115 agressões foram atribuídas a evangélicos, 54 a católicos e 27 a praticantes das próprias religiões afro-brasileiras. As agressões foram cometidas mais por homens (311 denúncias) do que por mulheres (217), e mais por pessoas brancas (200) do que pardas (133) ou pretas (66).

Os dados referentes a 2020 e 2021 foram consultados pela piauí em 8 de dezembro do ano passado no site do ministério. Depois dessa data, algumas informações, como a indicação das religiões das vítimas e dos suspeitos, foram retiradas da página. Em nota à revista, a pasta disse que isso foi feito pela área técnica da Ouvidoria de Direitos Humanos para “otimizar o tempo e a qualidade do atendimento por parte da central de atendimento”. E completou: “Essas informações só serão coletadas quando tiverem relação com o motivo ou agravamento da violação.” Até março deste ano, o ministério foi comandado pela advogada Damares Alves, que é evangélica.

Em São Paulo, os casos triplicaram em cinco anos. Os boletins de ocorrência com denúncias de intolerância religiosa passaram de 5 214, em 2016, para 15 296, em 2021, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública. No estado do Rio de Janeiro, em 2021 foram registradas 47 denúncias de agressão e intolerância, sendo que 43 das denúncias foram feitas por religiões de matriz africana, 3 por judeus e 1 por católico, de acordo com o Observatório de Liberdade Religiosa. Em Salvador, o Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela recebeu 37 denúncias no ano passado. Neste ano, apenas até 31 de maio passado, haviam sido feitas 29. Desde a criação do centro, há nove anos, os números têm crescido.

Em Belo Horizonte, o Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab) recebe diariamente denúncias de intolerância contra as religiões afro-brasileiras. “Vivemos uma conjuntura em nosso país que facilita o ódio, o preconceito acirrado. É como se houvesse autorização implícita para que as pessoas pudessem despejar o ódio contra as religiões e as tradições de matriz africana”, diz Célia Gonçalves Souza, coordenadora nacional do Cenarab e defensora aguerrida dos povos de terreiro. Ela se refere ao racismo e ao contexto político criado por um governo de extrema-direita. Na sua avaliação, embora o princípio de laicidade esteja expresso na Constituição, o Estado não tem garantido a isonomia entre todas as religiões.

Souza enfrenta na própria pele o racismo e já perdeu a conta das vezes em que foi xingada por usar roupas que fazem referência aos cultos africanos. “A gente vive situações de racismo religioso todos os dias, como o olhar assustado das pessoas quando nos veem com nossas roupas. Lembro que, certa vez, eu estava usando uma camisa de terreiro, de orixá, e alguém gritou na rua: ‘Olha o Capeta.’”

Pesquisadores da intolerância religiosa no Brasil dizem que o aumento dos ataques também está relacionado à expansão dos evangélicos no país. “A partir dos anos 1970, com o crescimento dos neopentecostais, essa prática de perseguir o candomblé e a umbanda sai das mãos do Estado e passa a ser uma campanha sistemática na sociedade, de demonização das religiões de matriz africana, feita principalmente por segmentos religiosos que dispunham de canais de tevê”, diz o historiador Ivanir dos Santos, babalaô que é interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Rio de Janeiro (OAB/RJ). O historiador ressalta que, com as perseguições, também aumentou a reação das pessoas ligadas ao candomblé e à umbanda, que passaram a recorrer à Justiça para se defender. “Hoje há uma ameaça enorme à democracia, às liberdades e ao Estado laico, mas não estamos mais calados.”

Em 1970, os evangélicos representavam 5,2% da população brasileira. Em 2000, passaram a 15,4%. Em 2010, chegaram a 22,2%, ou 42,3 milhões de pessoas, de acordo com o Censo. Nesse mesmo ano, os seguidores das religiões afro-brasileiras – sobretudo o candomblé, a umbanda e o tambor de mina –, representavam 0,6% da população (ou 1,2 milhão de pessoas). Estima-se que, em 2032, o número de evangélicos chegue a 39,8%, superando pela primeira vez os católicos, que hoje são 61% da população e cairiam para 38,6%.

No livro Intolerância Religiosa, o linguista e babalorixá Sidnei Barreto Nogueira desenvolve a tese de que a repulsão aos cultos africanos está relacionada não apenas ao crescimento da população evangélica, mas também ao desmonte do mito da democracia racial brasileira por pesquisadores e líderes do movimento negro. “Temos desvendado as discussões no Brasil sobre racismo, e em alguma medida desfeito o mito da democracia racial. Os racistas estão incomodados, e contra-atacam”, diz ele.

Nogueira traça dois perfis de pessoas que cometem os crimes de intolerância religiosa. Um deles é o das pessoas vulneráveis e com baixa escolaridade que têm na religião o único lugar de prestígio, de exercício de poder e de visibilidade – um grupo inclinado ao fanatismo. O outro é formado por lideranças políticas e religiosas que buscam eleitores e seguidores recorrendo à “colheita de likes” como estratégia de autopublicidade. “Odiar é um imperativo, a bola da vez para conseguir likes”, diz Nogueira. O pesquisador ressalta que não apenas pessoas brancas cometem atos de intolerância religiosa. “Até as pessoas pretas acabam criando um personagem cristão para si, para vender seus produtos. Isso alimenta o mercado da intolerância religiosa, da perseguição.”

“Há uma guerra cultural no país, que muito em breve se tornará conflito religioso em função do racismo religioso”, diz o advogado Hédio Silva Junior, um dos principais defensores das religiões de matriz africana nos tribunais. Ele também é ex-secretário da Justiça e da Cidadania do estado de São Paulo e fundador do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras, que presta assessoria às vítimas da intolerância religiosa. Para o advogado, “os seguidores dessas religiões estão sujeitos diariamente a todo tipo de ultraje, aviltamento, violência moral e física”. Mas o advogado acredita que o motivo das agressões “não é acabar com a macumba”, porque “seus detratores perderiam um dos alvos principais de seu proselitismo”. O objetivo é aumentar o próprio rebanho hostilizando os seguidores de religiões afro-brasileiras.

Silva Junior fez a defesa das pessoas de axé de imolarem animais em oferenda aos orixás. A ação contra o abate de animais partiu do Ministério Público do estado do Rio Grande do Sul, em 2004, e catorze anos depois chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em 9 de agosto de 2018, o advogado defendeu no STF que o questionamento da prática das oferendas estava relacionado ao racismo: “Não vejo instituição jurídica entrar com medida judicial para evitar a chacina de jovens negros, mortos como cães na periferia, mas a galinha da macumba… Parece que a vida da galinha da macumba vale mais do que a vida de milhares de jovens negros.” O STF acatou os argumentos do advogado quanto à dimensão racista da ação.

No mesmo ano em que o advogado apresentou essa defesa histórica, um grupo de vândalos despejou 100 kg de sal na Pedra de Xangô, em Cajazeiras 10, bairro de Salvador, três dias antes do réveillon. Local sagrado para as religiões de matriz africana, a Pedra de Xangô é um rochedo com dois blocos, cercado por vegetação, que representa a morada do senhor da justiça para as pessoas de axé. Ali, acontecem rituais e festas do povo de santo. O ataque com sal – produto que na crendice popular espanta maus espíritos – levou a comunidade a pedir ao Ministério Público do estado da Bahia que apurasse o motivo da depredação do espaço. Como forma de coibir os ataques, o MP propôs a criação do Parque Pedra de Xangô, que foi inaugurado em maio passado.

 

Os povos de terreiro procuram organizar-se para responder ao aumento da intolerância religiosa. Entre 2 e 5 do mês passado, o II Ègbé – Parte de Nós – 2º Encontro Nacional de Povos de Terreiro reuniu em Belo Horizonte cerca de quatrocentas lideranças negras com o objetivo de honrar seus ancestrais, rezar e unir forças para enfrentar as agressões. Ègbés são divindades às quais o povo iorubá apelava para afastar tudo que obstruía sua vida. “Nós não queremos um Estado que reze, mas exigimos um Estado que nos permita rezar”, disse Célia Gonçalves Souza, do Cenarab, entidade que organizou o encontro.

O ex-presidente Lula foi convidado, mas não compareceu – mandou apenas uma mensagem. A ialorixá maranhense Jô Brandão reclamou: “Nós, povos de terreiro, queríamos ver Lula aqui. Sabe por quê? Quando ele foi atacado, quando foi preso, nós rezamos, fizemos ebó. E não é possível que se coloque numa balança que o voto do crente é mais importante do que o do macumbeiro.”

Uma das conclusões do Ègbé – Parte de Nós é que a violência contra os povos de terreiro se ampliou no governo Bolsonaro e está relacionada ao enfraquecimento da democracia no país. A ex-ministra Nilma Lino Gomes, que ocupou a pasta das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos no governo Dilma Rousseff, defendeu que as lideranças dos terreiros ocupem espaços políticos para enfrentar a crescente influência do fundamentalismo religioso nas casas do Legislativo brasileiro, tanto em âmbito local quanto federal. Ela disse à piauí que os ataques atuais são manifestações de racismo e defendeu a judicialização dos casos de agressão. “O agravamento da intolerância religiosa no Brasil já extrapolou e virou violência racial. A Justiça precisa resolvê-los. Não adianta ficarem como casos isolados que só inspiram indignação, acompanhada por inércia. Nossa luta é pela desnaturalização da violência religiosa”, disse. “Nós estamos em guerra. É a guerra que nós queremos vencer pela paz, pela tolerância e pelo amor, e não pelo ódio e pela violência.”

O antropólogo brasileiro-congolês Kabengele Munanga também defendeu a intervenção do Estado para evitar as agressões ao povo dos terreiros. “Não vejo possibilidade de convivência pacífica. Por isso, é preciso que o Estado intervenha. Cada um com sua religião, cada um com sua vida. As de matriz africana não estão criticando nenhuma religião.” O advogado Hédio Silva Junior, que compareceu ao Ègbé, lembrou que os seguidores da umbanda e do candomblé não são os únicos a sofrer discriminação. Há os adventistas, criticados porque guardam o sábado e não o domingo como dia sagrado, as testemunhas de Jeová, que enfrentam problemas com preceitos religiosos que vão contra a ciência (como a interdição da transfusão de sangue), e mesmo os ateus. Para o advogado, entretanto, o discurso de ódio racial propriamente dito tem um alvo único: as religiões afro-brasileiras.

Silva Junior enfatizou que ocorre hoje no Brasil uma tentativa de apagamento da cultura negra. Ele deu como exemplo a atitude de segmentos evangélicos de apropriar-se do acarajé, uma comida de orixás, transformando-o em “acarajé de Jesus”. “O discurso do ódio é direcionado a todo o patrimônio civilizatório africano que marca a sociedade brasileira, e nós somos uma sociedade racializada, africanizada”, disse. “Ser macumbeiro no Brasil é em si um ato de resistência, de revolução, é uma opção pelo enfrentamento e pela dor, à humilhação.”

O Ègbé – Parte de Nós aconteceu no Sesc Venda Nova, misto de clube e hotel com 462 mil metros de vegetação, a cerca de 16 km do centro de Belo Horizonte. A abertura teve a execução do Hino Nacional, compassado pelo toque de atabaques e interpretado pelo cantor carioca Igbonan Antônio Rocha dos Santos Filho, de 62 anos, um militante dos movimentos negro e gay com poderosa voz de barítono. Ele fez sua iniciação no candomblé há quarenta anos e tornou-se Omo Igbonan, “o filho da quentura”. Depois de um processo judicial de retificação de registro, em 2021 incorporou Igbonan como prenome.

Para cantar o hino, Igbonan Rocha vestiu bata e calça verdes com detalhes dourados, trazidas por um amigo da cidade nigeriana de Ibadan e que saem do seu guarda-roupa somente em ocasiões especiais. A escolha da cor, parecida com a da bandeira brasileira, foi para o cantor um gesto político. “Temos que nos apropriar dos nossos símbolos. A bandeira é do povo brasileiro. A gente não está aqui para brigar, mas para que a Constituição seja respeitada”, afirmou.

Muitos convidados vestiam branco na noite de abertura. Mulheres trajavam saias de renda richelieu, turbantes, braceletes e colares dourados. Os homens capricharam nas rendas africanas e nos paramentos na cabeça. Na tradição afro-brasileira, qualquer cerimônia começa com o pedido de licença a Exu, o senhor da comunicação, que, portanto, foi saudado por todos. Como o início dos trabalhos caiu em uma quinta-feira, dia da semana dedicado a Oxóssi, o senhor das florestas também foi aclamado.

Com um vestido de renda branca e detalhes dourados, Célia Souza, do Cenarab, soprou em cada um dos presentes a pemba de Oxalá, um pozinho branco de alfazema, canela e noz-moscada de aroma adocicado, para purificar o corpo. A fim de garantir proteção, foi dado a todos os presentes a guia de Oxalá, um colar de contas brancas. “O peso que nós carregamos é o peso dessa conta. Ela é linda e maravilhosa, e nós a amamos, mas sabemos o peso que é ser macumbeiro neste país”, disse Souza, na primeira mesa de debates.

O Ègbé foi uma oportunidade para antigos amigos se reverem e confraternizarem, após a longa separação causada pela Covid. A ex-ministra Nilma Lino Gomes encontrou-se, depois de três anos, com Kabengele Munanga, que foi seu orientador no doutorado em antropologia social na Universidade de São Paulo (USP). O advogado Silva Junior dançou animadamente com a ialorixá Jô Brandão e com o babalorixá Sidnei Nogueira.

Vítimas da violência deram depoimentos no encontro em Belo Horizonte. Uma pessoa de Campo dos Goytacazes, no Rio de Janeiro (que pediu para não ser identificada na reportagem por medo de represálias), emocionou-se ao contar sobre o medo que sentiu quando traficantes a botaram para correr da comunidade. Ela não teve tempo nem mesmo de recolher os itens sagrados do terreiro de umbanda pelo qual zelava.

A agressão partiu de um traficante, sobrinho de um pastor, e foi antecedida por avisos dados por terceiros. Primeiro, o traficante exigiu que o terreiro não tocasse atabaque. Em seguida, que ninguém usasse roupas de santo. Depois que os recados cessaram, homens invadiram o local e o destruíram. Não restou uma parede sequer da casa. “Quando o tráfico chega, ele não te pede: ele te manda sair e não tem como entrar na Justiça para recobrar o direito de um bem que você perdeu. Nesse momento, é ter sabedoria, ir embora e não olhar para trás”, disse a pessoa à piauí. “Minha dor maior foi não ter podido levar minhas histórias e heranças. Só sobraram as minhas memórias.”

Xangô é o orixá consagrado no terreiro Ilê Axé Icimimó Aganju Didè (em português, “casa forte de Xangô onde se faz o bem”), no povoado de Terra Vermelha, em Cachoeira, cidade a 120 km de Salvador. O local é vizinho de outros terreiros de candomblé (o Loba’Nekun e o Asepò Erán Opé Olùwa – Terreiro Viva Deus), todos eles declarados patrimônio cultural imaterial da Bahia em 2014.

Quem dirige o terreiro dedicado a Xangô é o babalaxé (ou babalorixá) Antônio dos Santos Silva, o Pai Duda de Candola, de 42 anos, que decidiu buscar apoio das autoridades para proteger o local, depois de ter sido alvo de três ataques – em 27 de fevereiro de 2019, em 9 de junho de 2020 e em 8 de julho de 2021. As investidas contra o terreiro o levaram a recorrer ao Ministério Público, que, em março de 2019, expediu uma recomendação para que o local fosse protegido pela Polícia Militar e ajuizou em fevereiro deste ano uma ação civil pública contra os supostos agressores. Em 13 de maio de 2020, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) fez o tombamento provisório e emergencial do terreiro, que aguarda o tombamento definitivo, ainda em processo.

O segundo ataque, de 9 de junho de 2020, parece aquela sequência do filme Bacurau em que um grupo de facínoras estrangeiros vigia com drones uma comunidade no interior de Pernambuco, antes de invadi-la. Quando chegava de moto ao terreiro, Pai Duda avistou um drone sobrevoando a área. Pouco depois, chegaram caminhonetes com cerca de quarenta homens, todos “fortemente armados”, segundo o caseiro Antônio de Freitas Cerqueira, que testemunhou o ataque.

Pai Duda se escondeu no mato, de onde viu os homens iniciarem a destruição, inclusive dos assentamentos – onde é depositado o axé (a energia dos orixás), o que torna aquela parte da terra um local sagrado. “Mexeram no terreiro do dono da justiça, Xangô. Atacaram os pontos sagrados, derrubaram as cercas que protegiam toda área, as folhas, os animais. Quebraram todos os assentamentos”, descreve o sacerdote.

Apesar de temer os homens armados, o babalaxé foi conversar com eles, tendo como única proteção os fios de conta de Xangô. “Eu pedi que não mexessem nessa casinha de barro, o barracão principal do terreiro, que tinha valor para a sociedade, para a humanidade, pelo serviço prestado. Não bulam, não. Mas eles ousadamente quebraram toda a cerca e os assentamentos ancestrais nossos”, conta.

Em outubro do ano passado, quando a piauí visitou o terreiro, uma árvore ainda estava envolta por um laço de fita de tecido, simbolizando as vestes de Exu, e no entorno dela permaneciam os rastros do ataque, como o alguidar de barro quebrado, garrafas espalhadas e as ferramentas da divindade destruídas. “É como se eles estivessem acabando com o nosso pai, avô, bisavô. Eu nasci neste terreiro, nesta terra, e estou aqui até hoje. É um ataque à ancestralidade, à religião”, diz Pai Duda.

A investida mais recente, de julho do ano passado, ocorreu quando era feita uma obrigação para Obaluaiê, o orixá da cura. Homens armados se aproximaram, e os filhos do terreiro deixaram o barracão às pressas, com medo de que fosse incendiado. Todas as agressões ocorreram à luz do dia e foram fotografadas pelos filhos de santo. As imagens estão anexadas no processo de investigação que corre em segredo de Justiça.

Pai Duda relaciona as agressões à intolerância religiosa, porque seus alvos foram os assentamentos para Exu, que na visão não maniqueísta das religiões afro-brasileiras tem o atributo de “abrir os caminhos”. Por ser um orixá sagaz e libertário, que impulsiona as energias para o prazer, o amor, a mudança e a vida em geral, Exu foi tomado pelos cristãos desde o início da colonização europeia da África com uma entidade imoral, que praticava o mal, como o Diabo (que inexiste nas religiões de matriz africana). No último Carnaval, a escolha desse orixá como tema da Escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio – vencedora da disputa carioca – gerou várias manifestações de repulsa da parte de evangélicos, com palavras agressivas dirigidas contra a divindade.

(Em julho do ano passado, causou furor e foi motivo de celebração nas redes sociais a narração de Gustavo Villani, do Sportv, quando o atacante Paulinho marcou gol na vitória do Brasil contra a Alemanha, na estreia nos Jogos Olímpicos de Tóquio. “Goooooooooool… pra Exu aplaudir!”, disse Villani. Paulinho é do candomblé e já havia dito: “Rezo todos os dias para que Exu ilumine o Brasil e os nossos caminhos.” Na comemoração, o jogador simulou o gesto de lançar a flecha em referência a Oxóssi, senhor das florestas, um caçador com arco e flecha.)

Fora a hipótese de Pai Duda para as agressões, pesa ainda a suspeita de que elas estejam relacionadas a uma disputa por terras. A área é reivindicada tanto pelo terreiro quanto pelo Grupo Penha, indústria de papel e celulose. A empresa disse à piauí ter firmado em 7 de março de 2019 um acordo extrajudicial com o Ministério Público da Bahia para que o terreiro usufruísse de uma parte do terreno, mas que a instituição religiosa desrespeitou a demarcação.

O MP não confirmou o acordo e afirmou ter expedido, naquele mesmo ano, uma recomendação aos funcionários da empresa para que eles se abstivessem de entrar no imóvel, em especial se “munidos de ferramentas, maquinário, veículos, ou qualquer outro instrumento que venha a alterar, extrair, queimar, mutilar, modificar qualquer bem, local, recurso natural ou cultural, da fauna, flora ou hídrico”. No documento, os promotores dizem que o terreiro possui provas de propriedade do imóvel. Em fevereiro de 2022, o promotor Ernesto Cabral de Medeiros entrou com uma ação civil pública pedindo à Justiça que proíba a entrada dos funcionários no terreiro. Ele afirma que o Grupo Penha destruiu “objetos e sítios tidos como sagrados pela comunidade de santo e inerentes ao exercício das atividades do terreiro”.

A empresa refuta a acusação de intolerância religiosa. “Toda e qualquer acusação de parte contrária, em face do Grupo Penha, relativa à intolerância religiosa é rechaçada veementemente por nós por não representar a verdade dos fatos que estão em discussão judicial”, declarou, em nota enviada à piauí. A Polícia Civil não revela detalhes sobre as apurações alegando que a divulgação pode interferir no andamento das investigações.

No fim do século XVII, havia em Cachoeira – cidade onde fica o terreiro de Pai Duda – cerca de duzentos engenhos, que tinham em média trezentos escravizados cada um. Esse município localizado às margens do rio Paraguaçu foi um dos mais importantes para a economia colonial, por sua atividade agrícola (sobretudo açúcar e fumo) e por seu porto, que permitia tanto o avanço de expedições rumo ao sertão como o escoamento da produção do interior da Bahia com destino a Salvador.

A presença negra, bem como a indígena, deixou marcas fortes na cidade, como se constata nos traços físicos e na religiosidade da população. “Onde quer que você vá, encontra um ebó ou uma cruz”, diz Davi Rodrigues, ex-secretário municipal de Cultura e Turismo. Hoje, no município de cerca de 33 mil habitantes, 51% da população é católica, 21% é evangélica, e 4,3%, seguidora de religiões de matriz africana, segundo o Censo de 2010.

Bárbara Cristina Silva dos Santos, de 24 anos, foi criada no candomblé e é mãe pequena do terreiro Ilê Axé Ogum Megegê e Oxóssi Guerreiro, situado no bairro Pitanga. Indamaiá dos Santos Moreira, de 42 anos, nasceu em uma família de umbandistas, mas, há catorze anos, “aceitou Jesus”, como ela diz, tornando-se membro da Igreja Batista Betel, de Cachoeira. As duas são amigas há três anos, respeitam a crença uma da outra e, quando a piauí as encontrou, elas conversavam descontraídas em um restaurante às margens do rio Paraguaçu.

Santos foi iniciada no candomblé ainda menina e enfrentou forte bullying na escola, por causa das roupas brancas, do cabelo raspado e do “pano de cabeça” que precisava usar. “Olha a menina do Diabo”, diziam alguns de seus colegas. Ela ressalta que as pessoas a associavam ao Diabo devido ao culto a Exu nas religiões de matriz africana. “Mas Exu não é o Coisa-Ruim. É um orixá que faz coisas para o bem e para o mal. Se você pedir o bem, ele vai fazer o bem. Se você pedir o mal, ele vai fazer o mal.”

Moreira, que virou evangélica, mora com a mãe, que é ialorixá (mãe de santo) e lhe deu o prenome Indamaiá em homenagem a uma entidade indígena da umbanda. Ela reconhece que muitos evangélicos discriminam os seguidores de religiões de matriz africana, mas acredita que o inverso também é verdade, mesmo que em menor proporção. “Cada um de nós tem que passar o amor e acolher. Assim como sou acolhida por Bárbara, minha amiga, que me acolhe muito, me ouve”, diz. Ela acredita que Cachoeira, que já foi reconhecida como um dos berços do candomblé, hoje é uma cidade evangélica.

Na infância, as duas viveram bem próximas de terreiros de candomblé, mas isso é hoje motivo para que as famílias percam a guarda de seus filhos. Uma reportagem publicada pelo site The Intercept Brasil em 2 de maio passado indicou que tem aumentado em vários estados do país o número de pedidos de suspensão ou perda do poder familiar sobre crianças e adolescentes que estão em contato com as religiões de matriz africana. Segundo a reportagem, o advogado Hédio Silva Junior havia atuado em um único caso desse tipo até 2019. A partir daquele ano, já atuou em três casos, “além de outros três de que tomou conhecimento por parte de colegas”. A advogada Patricia Zapponi, que foi vice-presidente da Comissão de Liberdade Religiosa da OAB do Distrito Federal, disse ao The Intercept Brasil que “dentro do direito de família, não se tinha tanta ocorrência com relação à religião. Hoje, você já vê contendas gigantes postuladas em cima disso”.

 

Engenho Velho da Federação é conhecido por ser o bairro de Salvador onde se encontra o maior número de terreiros de candomblé. São dezenove, de acordo com informações da Fundação Gregório de Mattos, órgão vinculado à prefeitura. A Bahia é o quarto estado com maior número de seguidores de religiões de matriz africana, depois do Rio Grande do Sul, em primeiro lugar, do Rio de Janeiro e de São Paulo.

O mais antigo terreiro com registro na Bahia é o Ilê Axé Iyá Nassô Oká (“casa da Mãe Nassô Oká”), também chamado de Casa Branca do Engenho Velho, fundado em 1830 e tombado duplamente: pelo patrimônio histórico de Salvador, em 1982, e pelo Iphan, em 1986. Ocupa uma área de 6,8 mil m2 que é também um espaço de preservação cultural e paisagística de Salvador. Em vista da quantidade de árvores e plantas, parece um jardim botânico.

Gersonice Azevedo Brandão, conhecida como Ekedy Sinhá, de 75 anos, guarda ali o legado de Iyá Nassô Oká, segundo ela uma rainha nigeriana que veio para o Brasil e foi uma das três sacerdotisas que fundaram o terreiro. Tudo ali é sagrado, da terra onde se pisa às edificações, além das árvores, que são as moradas dos orixás e não podem ser cortadas sem que se peça autorização a eles. Apesar disso, esse espaço considerado “a mãe de todos os terreiros de Salvador”, enfrenta desde o século XIX a intolerância religiosa, que se ampliou nos últimos tempos. Ekedy Sinhá conta que há alguns anos um grupo de evangélicos invadiu a Praça de Oxum, que faz parte do terreiro. Os agressores jogaram sal na praça, atiraram pedras no telhado de cerâmica, de estilo colonial, e disseram que o local daria uma “boa casa de oração”. Ela respondeu que ali já era “uma casa de oração, onde os filhos rezam cantando, dançando e comendo, na vida e na morte”.

“A intolerância religiosa está maior. Já houve antes, mas a gente justificava como sendo por falta de conhecimento, pela ignorância sobre o que é a religião do outro. Mas hoje não se admite mais, em pleno século XXI, que as pessoas não saibam que é preciso respeitar o outro e sua fé”, diz Ekedy Sinhá. A despeito dos ataques que sofreu ao longo de quase dois séculos, o terreiro permanece firme, “por causa da sabedoria dos mais velhos e da paixão dos mais jovens que seguem na tradição”, segundo ela. Para garantir que o Terreiro Casa Branca do Engenho Velho se mantenha como um território de axé, as lideranças buscam estratégias tanto no plano espiritual como no material, cogitando até abrir processos jurídicos.

Logo na entrada do terreiro, vê-se o Barco de Oxum, pintado de branco e azul, uma referência aos navios que trouxeram os ancestrais da África ao Brasil. Subindo por uma escada, alcança-se o barracão central, a Casa de Xangô, onde são realizadas as cerimônias públicas. O espaçoso terreno também abriga as casas de Exu, Ogum, Oxóssi, Obaluaiê e Nanã e, perto da casa de axé, as moradias de nove famílias quilombolas.

Os membros mais jovens dessas famílias nem sempre seguem a crença dos pais e, no último ano, integrantes de uma delas se tornaram evangélicos. Essa diferença de religiosidade provocou uma situação delicada no terreiro. Para Ekedy Sinhá, o desconforto não é ter que conviver com pessoas de outras religiões, mas com aquelas que não respeitam a sua.

No Terreiro Casa Branca, a piauí foi convidada a assistir à celebração do Amalá de Xangô, um rito de fortalecimento espiritual dos filhos de santo, em que se serve o amalá, o prato preferido do rei de Oyó. É preparado com quiabo, pó de camarão e azeite de dendê. A refeição do orixá se completa com o acaçá – outra iguaria ritual, feita de milho branco, que fica de molho de um dia para o outro, é moído e envolto em folhas de bananeira.

A festa estava marcada para as 19 horas, e o pesquisador Fernando Batista dos Santos, doutorando em cultura e sociedade na Universidade Federal da Bahia, alertou que ninguém se deveria atrasar: todos precisavam estar no terreiro antes da chegada de Nancy de Souza e Silva, ou Cici de Oxalá, do terreiro Ilê Axé Opô Aganju. Batista é amigo e escudeiro de Mãe Cici, que é também guardiã da Fundação Pierre Verger, responsável por zelar pelo acervo do fotógrafo e etnólogo francês que estudou e retratou o candomblé, adotando-o também como sua religião.

Na entrada do barracão, o Barco de Oxum recebeu máscaras geledés – da cultura iorubá – em ladrilho. Foram enviadas por Manny Vega, artista norte-americano de origem porto-riquenha e filho de Oxóssi, iniciado por Mãe Menininha do Gantois, a mais famosa ialorixá da história do candomblé no Brasil. O piso de pedra do barracão estava coberto por folhas de acocô, que indicam prosperidade.

Cheguei pontualmente e pude sentar-me logo atrás das autoridades da religião e ao lado dos ogãs, que tocam os tambores – todos nós em frente à gigante Coroa de Xangô, feita de madeira e pedraria, disposta sobre os pilares do trono do orixá, um tablado no centro da sala. Perto da coroa fica a cadeira da mãe de santo da casa, Neuza de Xangô Aganju.

A percussão dos ogãs marca cada momento litúrgico e o ritmo da cerimônia, durante a qual não há fala alguma. As mulheres vestem saias rodadas, a maior parte delas branca. Algumas dançam no círculo que se forma em volta do trono de Xangô. As filhas do orixá saúdam a imagem e trazem o amalá, que é apresentado às esposas de Xangô – Oyá ou Iansã, Iemanjá, Obá e Oxum – antes de ser colocado aos pés do orixá.

Casa Branca é um terreiro matriarcal, onde somente as mulheres podem conduzir a liturgia. O momento mais esperado da noite é a chegada de Xangô, manifestado em Mãe Neuza, que se tornou líder da casa em dezembro de 2020. Naquela noite, saboreei o prato generosamente servido, cantei, rezei e agradeci a Xangô pelo banquete.

[Fonte: piaui.folha.uol.com.br]

No currículo de medicina, há muito espaço para a onipotência dos “doutores” e objetificação dos pacientes – e quase nenhum para a formação ética. É preciso resgatar o sentido intersubjetivo do cuidado, inclusive dos mais vulneráveis

Escrito por Fran Alavina

Desde que veio à tona o caso abominável de estupro da parturiente, mais uma vez se demonstra que não há lugar seguro para as mulheres em uma sociedade que se orgulha da sordidez de seu machismo – nos últimos tempos, despudoradamente celebrado.

Neste notório e asqueroso caso, há também de se levantar uma outra questão além do crime penalmente tipificado e das implicações de uma sociedade constituída, desde sua origem, na cultura do abuso das mulheres: trata-se da formação dos nossos futuros médicos. Aqui, ouço o espanto revoltado de uma senhora que na padaria, ao meu lado, tomava conhecimento do caso: “como pode né moço, um rapaz que estudou tanto para ser médico, fazer uma barbaridade dessas”. Eu completei: “a senhora tem razão, ele estudou, fez um juramento ético…”. A frase daquela mulher me soou, na verdade ainda soa nos meus ouvidos. Sua indignação e espanto nos impõe um problema: se os estudos também não servem mais à formação ética, para que servem? Como anda a formação daqueles que em algum momento terão nossas vidas nas mãos?

Sendo professor, e ministrando uma disciplina de Filosofia e Ética na Medicina em um dos cursos de medicina da universidade na qual trabalho, escrevo não apenas enojado com o caso ocorrido no Rio de Janeiro, mas para refletirmos juntos – eu e você, leitores/leitoras – sobre os rumos, ou melhor os descaminhos éticos que a educação como coisa pública tomou nos últimos tempos. E no caso da formação médica não é pouca coisa: é a vida das mulheres, são as nossas vidas.

Percebam que não é mais raro, nos deparamos com casos de médicos, especialmente jovens, que expõem a vida dos pacientes nas suas redes sociais. Fazendo comentários depreciativos sobre aqueles a quem deveriam direcionar um outro olhar. E isto ocorre, particularmente, quando estão atendendo pelo SUS, distantes da glamourização que esperam que a profissão lhes dê como prêmio por todo o esforço/sofrimento pelo qual passaram até poder vestir o jaleco branco permanentemente. Glamorização que me faz ver, em número crescente, o sofrimento psíquico que há entre os/as estudantes que não possuem corpos da beleza padrão. Passa-se a exigir deles que a primeira e melhor referência que possam oferecer de sua profissão sejam seus próprios corpos: confundindo corpo saudável com corpo de beleza padrão.

A objetificação, que impede qualquer relação ética, já começa na alienação com seus próprios corpos. Se o princípio é o da exposição de si mesmo, por que teriam freios éticos em expor os outros? Se não há relação ética consigo mesmo, tampouco pode haver relação ética com os outros.

De fato, sobre os jovens médicos está o manto do status social com que a profissão lhes reveste. É quase uma aura mítica, já transmitida nos primeiros anos da faculdade. Introjetam a ideia socialmente difusa de que, como estudaram muito pela vaga, estão em outro patamar meritório, mesmo em relação a outros cursos universitários tão concorridos quanto medicina. Essa diferenciação aniquila pesadamente a ideia de responsabilidade da ação individual como reflexo da ação do grupo. Daí, como já ouvimos no caso do nojento estupro, se cair no mito da mera culpabilização individual. De fato, nem todos os médicos são estupradores, porém a pergunta que deve ser feita é: por que chegam a existir essas aberrações éticas profissionais? Em nenhum momento de sua formação algo de seu comportamento desprezível foi notado? Reparem, os casos se davam durante o exercício profissional, de modo que aquele sujeito não fazia nenhuma mínima diferenciação ética/moral do seu trabalho em relação ao ato conscientemente abjeto que praticava. Ele praticou seus estupros nos locais de trabalho. O que tomamos conhecimento não acusa apenas ele mesmo, mas as falhas e erros do processo formativo profissional.

 Falhas que, postas em um combo, juntam-se à falta de acompanhamento e atenção psicopedagógicos, pois os estudantes variam do registro do status social da profissão para o seu extremo oposto: o medo e as tensões provocadas pelo não cumprimento daquilo que é prometido como “prêmio” natural. Não são raros os casos de depressão, colapso nervoso e ideações suicidas. Muito disso é provocado pelo peso que as famílias lhes impõem, quando na verdade queriam estar fazendo outro curso.

Acrescente-se também o uso da expressão distintiva “doutor”, que herdamos desde a colônia, expressando-se na relação vertical, nunca horizontal, com os pacientes. Quem de nós já não ouviu: “o médico mal olhou na minha cara…!” Mas como poderiam olhar? Com efeito, lhes é ensinado que há uma doença em alguém e não que irão encontrar em seus consultórios-hospitais-clínicas alguém em processo de adoecimento. Não é o paciente que tem uma doença, mas a doença que tem um paciente. Há desde o começo uma despersonalização dos pacientes que ficam reduzidos à passiva materialidade orgânica de seus corpos. Donde inexistir um princípio ético basilar: só há relação ética entre sujeitos ativos; quando um deles já é tomado como inapto por princípio, é considerado pura passividade, estamos no campo das relações de objetificação. Não pode haver relação ética com o que consideramos, ou com alguém que alocamos na posição de objeto.

Ora, como se a Medicina fosse um saber que não estivesse fundamentalmente calcado nas relações intersubjetivas: o médico está lidando com outra pessoa. Há a sempre tão falada relação de confiança médico-paciente. Contudo, como isso é ensinado aos futuros médicos? Diz-se a eles que a relação de confiança não se dá por puro reconhecimento público do seu saber? Que a conclusão do curso superior por si só não me fará confiar, mas é durante o processo que essa confiança será instaurada?

Os estudantes sempre se espantam quando concluem, durante nossas aulas, que não podemos considerar a Medicina como uma simples ciência exata, como se estivéssemos lidando com entes numéricos abstratos. É preciso lhes dizer o óbvio: “vocês vão lidar com pessoas e não com objetos, ou com definições abstratas de doenças e suas causas”. Não são apenas quantificações, doses, gotas e comprimidos: são homens e mulheres que têm histórias de vida próprias, com as quais vocês vão se encontrar e em cujas vidas vão interferir.

É preciso lhes dizer e ensinar que a relação médico-paciente não é uma relação de mando e obediência, mas de esclarecimento, muitas vezes no sentido mais pueril do termo. Essa relação impositiva de mando/tutela com os pacientes, também se dá nos locais de trabalho em relação ao quadro de enfermagem, não por mero acaso formado majoritariamente por mulheres. Ora, foram justamente as enfermeiras que desconfiaram e trouxeram à luz aquela abjeção.

Quem de nós já não recebeu um olhar de reprovação, quando depois de não entendermos a explicação médica, ousamos dizer: “mas, doutor…?”. Há um senso comum entre os estudantes, arraigado durante os anos de faculdade, de que seus futuros pacientes são como que inaptos a falar de suas doenças e sempre que podem mentem para se livrarem do tratamento. Daí, o médico deter não só a palavra final, mas toda a atividade discursiva: ao paciente cabe apenas responder. O médico possui o saber, portanto é o detentor da verdade. Quase nunca, porém, lhes é ensinado que o paciente também detém certo conhecimento, mesmo que espontâneo, sobre seu próprio corpo; e, que, portanto, também possui um discurso de verdade.

Quando lhe falamos que tal não ocorria nas concepções greco-romanas antigas da prática médica, nas quais há o reconhecimento do paciente como artífice – junto com o médico – da sua cura, eles também desconhecem, pois nos currículos pouco, ou nenhum espaço lhes é reservado ao conhecimento da história do saber que se dispuseram, ou foram empurrados a abraçar. Uma vez que não conhecem a história de seu próprio saber, pensam que o que pode mudar são as técnicas e instrumentos, e que a medicina como saber é hoje o que será amanhã: não se podendo apreender com o passado. Aferrados à lenda de que o mais importante são os conhecimentos instrumentais e práticos do saber, não percebem que são retirados do campo da ciência para o da mera técnica.

Quanto maior o primado da tecnificação, maior o afastamento do horizonte ético. Acaso não é o estuprador médico do ponto de vista da técnica um bom profissional? Não agia com destreza técnica, tanto que premeditadamente dopava mais que o necessário as suas vítimas? Não é suficiente ensinar apenas a ser profissionalmente bom, quando se lida diretamente com vidas.

As questões que levantamos, qualquer um de nós pode constatar não apenas ao longo da vida – nas internações hospitalares e atendimentos clínicos –, mas também consultando a grade curricular dos nossos cursos de Medicina: quer públicos, quer particulares. O aspecto ético-formativo está restrito a uma ou duas disciplinas, no máximo. Ademais, quem o fizer constatará também que a Medicina é um saber academicamente autocentrado: se relacionando pouco com os outros saberes que lhe são próximos, herdando a falsa ilusão de que, por sua importância, basta-se a si mesmo. Por ser autocentrado, tem pouca capacidade de reconhecer suas lacunas, e quando instado pela realidade a apontar suas limitações fecha-se ainda mais em si mesmo. Como se fosse suficiente prestar contas apenas no interior dos conselhos da categoria e não em instâncias sociais mais amplas.

A se continuar ensinando apenas a clinicar, casos repugnantes como o que vimos serão fabricados e sempre remetidos ao caráter dos praticantes, nunca às falhas de sua formação ética no sentido mais amplo. É preciso repensar e pôr em prática uma formação com outro horizonte de sentidos. Em primeiro lugar, com a participação daqueles que estão diretamente implicados: os/as estudantes. Outras modalidades curriculares, outros modelos de ensino e aprendizagem médicos. Com efeito, não podem fazer discussões éticas e pensar suas próprias trajetórias de formação se a técnica excessiva asfixia qualquer capacidade reflexiva. Uma outra medicina pode e tem que ser possível. Há de se ensinar não apenas o que é ética, mas a serem éticos. Ainda mais para extirpar as violências para com os corpos mais vulneráveis: os corpos das mulheres.

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]
Escrito por
Los peligros de la moralidad. Por qué la moral es una amenaza para las sociedades del siglo XXI
Pablo Malo Ocejo
Deusto, Grupo Planeta, 2021

Hace más de medio siglo, el filósofo José Luis López Aranguren se lamentaba de la desmoralización que invadía la sociedad española como resultado de la neutralización política de una ciudadanía, cómplice con el poder, que solo aspira al aumento de los ingresos y del bienestar1. En conversación con Javier Muguerza2, Aranguren insistía: «En una época de crisis como la nuestra, los contenidos de la moral pueden tornarse cuestionables, pero lo que nada ni nadie nos puede arrebatar, si no queremos dejárnosla arrebatar, es la actitud moral».

Una afirmación de esta naturaleza, referida tanto al intelectual como al ciudadano de a pie, puede parecer intemporal y plenamente justificada. No son infrecuentes las llamadas a un rearme moral de la sociedad, ni resulta extraña la apelación a la justicia y el bien como motivación última de la acción política. ¿Qué otra cosa mejor podríamos pedir a la ciudadanía y a la clase política que mantener vivo su compromiso moral? ¿No es, acaso, este compromiso un bien en sí mismo?

Sin embargo, ciertos fenómenos políticos y sociales ocurridos estos últimos años como consecuencia del avance de los populismos, las guerras culturales, la caza de brujas, el terrorismo de motivación religiosa o los nacionalismos agresivos han devuelto protagonismo a un viejo problema filosófico: la compleja relación entre moralidad, legitimidad y legalidad, o dicho de otro modo, al papel que las creencias morales deben tener en el ámbito de la actividad política e institucional, especialmente en las sociedades democráticas. Y es que hay buenas razones para pensar que el desiderátum del viejo filósofo español puede llegar a constituir un grave problema para las sociedades democráticas y que lo más sensato sería alejar la moral de la vida política y la convivencia social. ¿Por qué?

El psiquiatra español Pablo Malo ha publicado recientemente (Deusto, 2021) un ensayo que lleva por título Los peligros de la moralidad. En esta obra, el doctor Malo, psiquiatra en ejercicio en el Servicio de Salud del País Vasco-Osakidetza, analiza el carácter ambivalente y problemático de nuestra mente moral y diagnostica una peligrosa hipermoralización que exacerba los extremismos, polariza las diferencias políticas y culturales y contamina las luchas identitarias con el tono épico y agónico de la pugna entre el bien y el mal. El libro pone el foco con valentía en un campo de análisis polémico de gran interés y actualidad, sintetizando una abundante e interesante bibliografía sobre el tema.

El primer paso para manejar los efectos perversos de una visión moralista y moralizante de la vida social y política pasa por adquirir una buena comprensión de la moralidad. Y ello solo es posible, en opinión del autor, situando la moral en el marco de una visión naturalista, inspirada en la psicología evolucionista, lejos de las convenciones filosóficas o religiosas y de todo dogmatismo. En particular, hay una idea que debe ser abandonada urgentemente: no existen ni el bien ni el mal puros y, en consecuencia, no existen personas ni actos puramente buenos o malos. No hay mayor ni más urgente reto que explicar cómo ciertas personas cuyos valores consideramos moralmente buenos pueden llegar a cometer actos que nos parecen atroces, sin que ello sea percibido como una contradicción moral, como ocurre en la intimidad moral de la mente del terrorista o del votante radical de ciertas ideologías extremas. El autor del libro conoce de primera mano los paradójicos efectos que el terrorismo nacionalista de ETA causó en la sociedad vasca y sus contradicciones morales.

Atentado de ETA en la T4, en 2006.

En los primeros cuatro capítulos del libro, el autor define ese marco conceptual evolucionista con el que intenta dar cuenta del significado de la moralidad. Una vez desplegadas estas herramientas conceptuales, Malo procede a hacer una interpretación de ciertos fenómenos políticos y sociales que, como ya dijimos, resultan del mayor interés para la vida democrática. Así, en el capítulo cinco, el autor trata sobre la indignación moral y de un nuevo vehículo para expresarla, las redes sociales, convertidas en unos particulares tribunales de justicia popular. El capítulo seis aborda el fenómeno de la hipermoralización que impregna de significación moral -con lo que ello comporta- muchos fenómenos antaño carentes de ella. En el capítulo siete, el autor repasa los problemas que la moralidad supone en dos aspectos fundamentales. Por una parte, el peligro de llevarnos a la violencia moralista, la violencia más frecuente, grave y masiva a lo largo de la historia. Por otra, el peligro que la moralidad encierra para el buen funcionamiento de dos instituciones básicas de nuestras sociedades: la democracia y la ciencia. El libro se cierra con un capítulo final de conclusiones y perspectivas de futuro.

No podemos abordar todos y cada uno de los asuntos tratados en el texto, por lo que comentaremos solo aquellos que nos parecen más relevantes, al tiempo que emplazamos al lector a completar la lectura de una obra sin duda muy recomendable.

Un marco naturalista para entender la mente moral

La moralidad consiste, según el autor, en la capacidad singular de los seres humanos de distinguir el bien del mal. La mente moral no se encuentra comprometida a priori con un contenido moral concreto (tal cosa es buena o mala), algo que depende de las condiciones culturales que alimentan el aprendizaje individual y, en consecuencia, varía en el espacio y en el tiempo. Sin embargo, sí existen ciertas disposiciones morales que configuran la gramática profunda de nuestra mente moral y son decisivas en su análisis. En opinión del doctor Malo, la psicología evolucionista nos provee de un marco conceptual iluminador capaz de esclarecer estas paradojas, aunque no las haga desaparecer. De acuerdo con este marco conceptual, la moralidad se presenta antes que nada como una adaptación biológica surgida en nuestra especie por selección natural. Como toda adaptación, sirve al interés reproductivo del individuo. No debemos olvidar su origen, si queremos evitar falsas suposiciones acerca de sus contenidos o de su naturaleza. La moral es contingente, como cualquier otro producto evolutivo. Nada hay necesario en ella.

Siguiendo las directrices elaboradas en las últimas décadas por biólogos y psicólogos evolucionistas, Malo estima que la evolución de la mente moral está ligada al desarrollo de ciertas presiones de selección en favor del altruismo y la cooperación. Ese proceso evolutivo ha tenido tres grandes hitos: la conducta altruista, explicada como resultado del esfuerzo por salvaguardar el acervo genético compartido entre parientes consanguíneos (selección de parientes); la cooperación directa para beneficio mutuo, que permite la cooperación entre individuos en contextos de interacciones repetidas en grupos pequeños, de manera que el dilema entre cooperar o dejar de hacerlo se mantiene en equilibrio gracias a que de cada individuo puede castigar al compañero egoísta negándole la ayuda en la siguiente interacción; y la reciprocidad indirecta, que es aquella en la que la recompensa o pago por un favor que realiza un individuo le será devuelto por parte de una tercera persona o de la sociedad en su conjunto. Esta última modalidad ha permitido crear sociedades cohesionadas formadas por grandes grupos de individuos que no solo no están emparentados genéticamente, sino que ni siquiera se conocen.

El éxito de la cooperación para beneficio mutuo y de la reciprocidad indirecta se ha producido, como recuerda el autor, gracias a ciertos mecanismos inscritos en lo más profundo de la mente moral de todo ser humano. El prestigio y la reputación, de una parte, y el castigo y el ostracismo, de otra, son las herramientas niveladoras que permiten contener, dentro de un orden, la proliferación de conductas egoístas. La pérdida de la reputación por haber cometido un acto inmoral o haber denegado ayuda cuando existía un compromiso es algo muy grave que puede llevar al suicidio o al homicidio. El rechazo y la condena social tienen un terrible impacto psicológico en el ser humano; la condena al ostracismo es una especie de muerte social y la ruptura del sentido de conexión y pertenencia es uno de los factores de riesgo ampliamente aceptados para el suicidio.

Protestas por la muerte de George Floyd, 2020

Para conseguir este difícil equilibrio evolutivo fue necesaria la circulación abundante de información sobre la calidad y fiabilidad morales de las personas mediante el cotilleo y la cháchara, que tanto hacen disfrutar al ser humano. Esa información, que construye o destruye la reputación y el prestigio del potencial cooperante, resultó y resulta determinante en las interacciones sociales para el éxito o el fracaso de los intereses y alianzas de los individuos. Pero nuestra mente moral, además, se consolidó ligada a un sesgo fuertemente tribal marcado por la decisiva oposición entre un «nosotros» y un «ellos». Nuestra psicología tribal nos permite identificarnos y coordinarnos con los miembros de nuestro grupo, facilitando la satisfacción de nuestras necesidades. Tendemos a preferir y a favorecer a los miembros de nuestro grupo frente a los miembros de otros grupos.

Los miembros del mismo grupo poseen normas de conducta similares que facilitan el éxito de la cooperación. Además, están sujetos a que su comportamiento puede afectar a su reputación y ser objeto de castigo. La cooperación, cuando no se posee información de primera mano sobre los individuos con los que se interacciona, necesita la identificación de los miembros en los que se puede confiar, es decir, los del endogrupo. Esta identificación quedó en manos de un conjunto de signos o marcadores de pertenencia muy variados: ropa, pintura, tatuajes, lengua, rasgos físicos, costumbres alimenticias, prácticas rituales, etc.

Otros marcadores menos evidentes, pero no menos importantes, en opinión de ciertos psicólogos evolucionistas como John Tooby, son las creencias o la ideología. Las ideas y creencias no son solo una cuestión personal, nos abren las puertas de la pertenencia al grupo y señalan también esa identidad hacia el exterior. Malo se adhiere a esta interpretación, pues permite dar sentido al asombroso, diverso y exuberante mundo de las creencias y prácticas culturales, incluso a las más absurdas y arbitrarias. La comunicación de verdades funcionales, de verdades neutras, de hechos claros y comprobados puede no servir como señal diferencial. Por el contrario, unas creencias exageradas, inusuales, por ejemplo, creencias sobrenaturales o altamente improbables (alarmismos, conspiraciones y muchas otras creencias que circulan para estupor de muchos) no se mantendrían si no es como expresión de una identidad.

Sea esta u otra la explicación correcta, el tribalismo característicamente humano ha impuesto severos límites a la interacción con los otros y a su evaluación moral. Por ejemplo, la división Ellos/Nosotros limita el alcance de la tan traída empatía, que muestra grandes limitaciones para atravesar las barreras de nuestro círculo social, exige lealtades inquebrantables, impone el dominio de la lealtad por encima de la honestidad y moviliza todo tipo de coaliciones que tienen la función de ampliar el poder de los individuos ofreciéndoles más poder frente a los otros. Este es un hecho de extraordinaria importancia: los límites de nuestras normas morales llegan hasta los límites de nuestro grupo, es decir, no aplicamos las mismas normas morales a los miembros de nuestro grupo que a los individuos que no pertenecen a nuestro grupo.

La mente moral en el mundo moderno

Moralización

La historia de occidente durante los dos últimos siglos puede interpretarse, al menos parcialmente, como un proceso de secularización y amoralización, legado de la Ilustración. La amoralización sería el proceso por el que ciertos objetos o conductas salen del campo de la moral. Por ejemplo, durante el último medio siglo hemos presenciado cómo ciertas conductas como la masturbación, el sexo prematrimonial o las relaciones homosexuales se liberaban de su significación moral negativa -al menos parcialmente y no en todas partes por igual-. Este fenómeno ha traído indudables avances para la convivencia en sociedades cada vez más plurales, una tendencia que parece frenarse en los últimos tiempos.

La moralización, por el contrario, es el proceso por el que una actividad que previamente se consideraba fuera del campo moral entra dentro de él. No se conocen bien los factores que desatan este proceso, pero así ha ocurrido en las últimas décadas con el consumo de carne -criticado desde posiciones conservacionistas-, con el consumo de tabaco -cuestionado por su impacto sobre la salud individual y colectiva- o con el cuidado de los animales -desde posiciones animalistas-. Y, más recientemente, durante la pandemia, en el enfrentamiento con los denominados antivacunas. En el ámbito político, por su parte, la pugna entre partidos también ha rebasado los límites de los programas políticos y las medidas económicas, para adentrarse en el ámbito de la moral, hasta convertir a los grupos políticos en tribus morales enfrentadas que ven al oponente como un Otro inferior y que incentivan relaciones de exclusión que rompen amistades y familias.

En todo caso, la cuestión de fondo es que, cuando algo entra en el campo moral, se convierte en un debe y pone en alerta a los individuos frente a la conducta de los otros. Si algo tiene carácter moral, se puede y se debe recriminar, no basta solo con disentir, y reclama una regulación social promoviendo un movimiento general de las instituciones y de los medios de comunicación en esa dirección, para garantizar ese «deber ser». La moralización desata entonces los resortes de la mente moral, excitando las reacciones emocionales, los tribalismos y los dogmatismos que dificultan cualquier negociación entre partes. Incluso la violencia puede ser contemplada como medio legítimo.

Victimismo

Un fenómeno análogo al anterior ha ocurrido con el desarrollo de una hipersensibilidad ante los agravios, tal y como refiere Malo. Los conceptos de trauma y víctima han sufrido una ampliación semántica. En un principio, el concepto de trauma hacía referencia a heridas físicas (trauma procede de la palabra griega para «herida»). Su causa era un suceso externo y sus efectos eran orgánicos, aunque se podían manifestar con síntomas psicológicos. Sin embargo, el suceso traumático ha ampliado su extensión, ya no necesita ser una amenaza a la vida, ni estar fuera del rango de la experiencia humana normal, no tiene por qué crear malestar en casi cualquier persona. Solo es necesario que la persona lo viva como perjudicial. Bajo esta definición, el concepto no solo se ha hecho mucho más amplio, sino más subjetivo, abierto a múltiples sensibilidades nacidas de experiencias y conductas negativas, por acción u omisión. Como consecuencia se identifican más tipos de experiencias como perjudiciales y a más tipos de personas como perjudicadas, como víctimas que necesitan cuidado y protección.

Este nuevo marco, más sensible y receptivo, que amplía el espacio del sufrimiento, desencadena, sin embargo, ciertos efectos perversos. Si bien las víctimas se definen por su sufrimiento, vulnerabilidad e inocencia, se disminuye su capacidad para salir de su situación por sus propios medios, es decir, crea dependencia, al tiempo que aumenta el encasillamiento de los villanos morales, los abusadores como únicos agentes morales. Los ejemplos traídos por el autor proceden mayoritariamente de las sociedades norteamericana y británica. Y su contexto más inmediato es el de las universidades y la vida académica. En este mundo sensible, intelectualizado y proactivo se ha instalado, por ejemplo, el concepto de microagresión. Derald Wing Sue define las microagresiones como «las breves y cotidianas indignidades verbales, conductuales y ambientales, intencionadas o no intencionadas, que comunican una actitud hostil, negativa o despectiva en temas raciales, de género u orientación sexual, e insultos leves religiosos contra individuos o grupos». Entre nosotros, este concepto ha adoptado típicamente la forma de micromachismos, un tipo específico de microagresión.

Bradley Campbell y Jason Manning, cuya obra sirve de guía a Pablo Malo, han desarrollado una teoría acerca del victimismo3. Distinguen estos autores entre dos tipos de cultura convencionales: la cultura del honor y la cultura de la dignidad. En la primera, es la reputación lo que hace que alguien sea honorable o no, y uno debe responder agresivamente a los insultos, las agresiones y los desafíos, porque si no lo hace pierde el honor. En la segunda, se considera que, en vez de honor, las personas tienen dignidad, que es inherente a ellas, por lo que no puede ser alienada por otros, ni tiene que ser demostrada. La dignidad existe independientemente de lo que otros piensen, por lo que la reputación social es menos relevante.

Nuestra cultura actual, según Campbell y Manning, está adquiriendo una forma híbrida con elementos de ambas culturas. Por una parte, la creciente sensibilidad ciudadana es más propia de la cultura del honor, muy sensible a la ofensa, pero, por otra, los individuos no responden personalmente, buscando directamente la reparación de su honor, sino procurando el respaldo de terceras partes, como exige el recurso a las instituciones que protegen los derechos dentro de la cultura de la dignidad. Esto último sería impensable en una cultura del honor. Dos aspectos distinguen esta nueva cultura híbrida del victimismo. Por una parte, las ofensas que desencadenan protestas son, en muchos casos, cuestiones menores que podrían interpretarse como asuntos relativos a las buenas formas, imputables a la mala educación o la ignorancia, asuntos reprobables en el plano puramente personal. Por otra, el individuo o colectivo que se siente ofendido recurre a las redes sociales para hacer público su problema y movilizar rápidamente la opinión pública en su favor y contra el agresor -sin mediación institucional-.

Cancelación y redes sociales

Otro fenómeno ligado a la creciente indignación moral es la llamada «cultura de la cancelación» o, dicho de otro modo, de la censura, silenciamiento u ostracismo. Ya sabemos la importancia que la reputación tiene para la vida social en nuestra especie y cómo nuestra mente ha evolucionado para utilizarla como indicador de confiabilidad. Otro tanto ocurre con la función del castigo y el ostracismo como penalización dirigida contra individuos que rompen las reglas y convenciones sociales -malas compañías para una mente cooperativa-. La expresión «cancelación» nació para referirse a la suspensión de conferencias de ciertos académicos o intelectuales en las universidades estadounidenses, porque un sector de los estudiantes no los consideraba moralmente adecuados. La cancelación se produce utilizando las redes sociales o también convocando manifestaciones in situ con el objetivo de boicotear el acto. Numerosas personas han sido objeto de cancelación en el ámbito intelectual, académico, literario o político, aunque también han sufrido este castigo personas anónimas que publican fotos, textos o reflexiones en cualquier medio. Una vez más, las redes sociales se convierten en el medio preferido para airear esta indignación moral.

Aunque algunos defensores del fenómeno han argüido que la cancelación es solo una forma de crítica, hay razones para pensar que detrás de ella hay algo más. Malo, siguiendo a Jonathan Rauch, identifica algunas señales inequívocas de que la cancelación desborda la crítica lícita para ir más allá: la cancelación busca el castigo más que la corrección de un error, pretende silenciar a su objetivo eliminando la disidencia; no utiliza la persuasión, sino la fuerza y el miedo; no dialoga con el individuo ni discute sus ideas, sino que estigmatiza a la persona con argumentos ad hominem u otros recursos no veraces, al tiempo que promueve el exhibicionismo moral de quienes realizan la crítica. Como señala el autor, la cuestión de fondo, lo verdaderamente preocupante, es que lo que estas cancelaciones buscan no es otra cosa que crear un régimen de miedo en el que la gente tema dar su opinión y en el que ciertas ideas no puedan ser cuestionadas.

Una nueva religión secular: la teoría de la Justicia Social Crítica

Es indudable que las últimas décadas han visto crecer la polarización política. Como resume el propio Malo, estamos en un momento histórico en el que el liberalismo y la modernidad que se encuentra en el corazón de la civilización occidental están amenazados. La amenaza procede de dos tipos de fuerzas, una revolucionaria y otra reaccionaria. Por un lado, están proliferando movimientos de extrema derecha que buscan dictadores que defiendan los valores occidentales tradicionales. Por otro lado, en la extrema izquierda, los cruzados progresistas sociales actúan como paladines del progreso moral sin los cuales la democracia estaría vacía.

Pero la atención del autor se dirige particularmente hacia una forma de ideología social autoritaria alimentada intelectualmente por el pensamiento posmoderno. Siguiendo la interpretación de Helen Pluckrose y James Lindsay en su obra Cynical Theories, Malo identifica el origen de la denominada teoría de la Justicia Social Crítica como un derivado de las ideas posmodernas. La posmodernidad echó a andar hace cinco décadas como crítica contra el legado ilustrado y positivista. Su discurso se estructuró en dos vectores: como crítica epistemológica, defendiendo el relativismo cultural, la disolución de la verdad y el escepticismo gnoseológico, y como crítica política, desvelando las relaciones entre conocimiento y poder. En los años noventa, el discurso posmoderno tomó una orientación hacia el activismo político y social, algo menos etéreo y abstracto. En esta época, el discurso posmoderno alumbró un conjunto de teorías como la teoría queer, la teoría poscolonial, la teoría crítica de la raza y la interseccionalidad, el feminismo y los estudios de género, los estudios sobre discapacidades y obesidad y otros.

Estas nuevas teorías, englobadas en la Justicia Social Crítica, mantienen una doble filiación. Por una parte, beben del posmodernismo al rebasar el marco reivindicativo de la lucha por los derechos civiles de las minorías -formalmente alcanzados- característico de la democracia liberal, un marco insuficiente por sus vínculos con el statu quo, es decir, con un sistema político en el que los derechos tienen una realidad más formal que sustantiva y en el que predominan los intereses de la clase política típicamente heterosexual, patriarcal y blanca. Pero, por otra parte, al estilo de la vieja Teoría Crítica frankfurtiana, necesitan ir más allá del escepticismo posmoderno, nihilista, para poner en marcha una verdadera transformación social y moral del mundo. Dicho de otro modo, el nuevo marco teórico de la Justicia Social Crítica rebasa el ámbito descriptivo para adentrarse en lo normativo, en lo moral. El resultado final es un «posmodernismo aplicado», como lo llaman Pluckrose y Lindsay, que abandona el escepticismo para considerar que la opresión sobre ciertos grupos basada en su identidad, aunque esta sea una construcción social, es real y tiene consecuencias objetivamente negativas que se deben combatir, luchando contra el modelo dominante.

Malo hace suya la interpretación de Pluckrose y Lindsay según la cual el modelo liberal democrático ha sido puesto en jaque por esta nueva teoría crítica. La defensa de los derechos de las minorías raciales o de la mujer no dejan de ser ajustes menores dentro del propio sistema de desigualdades que consagra el liberalismo, meros apaños, y es el propio modelo el que se cuestiona. Este cambio se ha iniciado en el mundo anglosajón (Estados Unidos, Canadá, Reino Unido y Australia) y todavía no ha afectado en el mismo grado a España y a los países de lengua hispana, aunque es sensato pensar que también llegará hasta nosotros. Hasta cierto punto, algunas de las políticas de igualdad en España, los conflictos internos del feminismo o ciertas reivindicaciones sociales de la izquierda más radical reproducen los mensajes de la Justicia Social Crítica -especialmente en cuestiones de género y en la defensa de las minorías-.

La Justicia Social Crítica también ha tomado la denominación «wokismo», del término inglés «woke», despertar, que hace referencia a la necesidad de tomar conciencia de la injusticia que soportan determinados colectivos. El wokismo tiene algunos rasgos comunes con una actitud religiosa y Malo hace suya la interpretación del historiador Tom Holland y otros intelectuales como James Lindsay, Mike Nayna, Jonathan Haidt, Andrew Sullivan o John McWorther, al contemplar la Justicia Social Crítica como una nueva religión secular de izquierdas. Jonathan Haidt, por ejemplo, afirma que, en cada universidad, algunos verdaderos creyentes han reorientado su vida alrededor de una lucha contra el mal, y Andrew Sullivan se pregunta si la interseccionalidad, que es el concepto que une todas las ramas de la Justicia Social Crítica, es una nueva religión.

Malo sigue a Holland cuando interpreta el movimiento #MeToo, el #BlackLivesMatters, y, más genéricamente, el wokismo, como manifestaciones de la matriz de pensamiento y acción cristianas4. La lectura de Holland, que Malo asume, ve en la Justicia Social Crítica la reproducción de una vieja polémica, la que enfrentó a Pelagio con Agustín de Hipona acerca del valor de las acciones personales en la salvación. Mientras que Agustín despreciaba el valor de las acciones individuales para salvar el alma, algo que depende finalmente de la Gracia divina como consecuencia del pecado original, Pelagio consideraba esencial la virtud personal y la transformación moral del mundo. En opinión de Holland, la izquierda estaría en la posición de Pelagio, la de exigir a los demás un cambio de actitud, en actitud punitiva y reclamando para sí la pureza moral. La izquierda radical actúa como si se encontrara en posesión de la verdad moral y ello confiere superioridad a su discurso y justifica su actitud punitiva. La vida se presenta como un enfrentamiento entre el bien y el mal, entre discursos dominantes -el del hombre blanco heterosexual, chivo expiatorio y culpable genérico de todos los males- y discursos e identidades excluidas, un mundo de relaciones de poder cuyo balance debe ser corregido. Aunque este marco de pensamiento sea compartido por una minoría (Malo, citando a otros autores, estima que puede suponer un 10% de la opinión pública norteamericana), su posicionamiento moralizante y su agresividad disuade a la ciudadanía de un enfrentamiento directo pues nadie desea ser identificado como miembro del bando opresor.

Pablo Malo es pesimista y duro en su juicio sobre el alcance y la evolución de este fenómeno. El papel realizado anteriormente por la religión ha sido asumido ahora por la Justicia Social Crítica, que representa un movimiento con los valores éticos y morales cristianos, pero sin Dios. El resultado, como señala el autor, es la caza de brujas es implacable y cruel, y no sirve de nada pedir perdón. El culpable debe ser aniquilado, silenciado, excomulgado, condenado al ostracismo, sin importar que, en muchos casos, estos linchamientos hayan acabado en suicidios. No se puede descartar que también los tibios, los que no sancionan, terminen siendo objeto de descalificación.

Perspectivas de futuro

Pablo Malo deja para el final la respuesta a la pregunta que subyace a lo largo del libro: ¿qué podemos hacer frente a estos desafíos? El autor presenta un conjunto de medidas que «deben tomarse como lo que son, un torbellino de ideas y no como algo consolidado y firme». En síntesis, son las siguientes:
Un primer paso fundamental es darse cuenta de que la moralidad constituye un peligro, algo de lo que mucha gente no es consciente, pues solemos fijarnos en sus aspectos positivos (por ejemplo, la búsqueda de justicia) e ignorar su lado oscuro. Este peligro supone un problema extremadamente difícil de solucionar, ya que nuestra mente moral es parte de la naturaleza humana, evolucionada para facilitar la cooperación dentro de grupo y la competencia con otros grupos. Así, nuestro carácter tribal no es eliminable de la ecuación. Las soluciones, pues, deben ir en la línea de diseñar instituciones (diques de contención) que mantengan a raya los excesos de nuestra moralidad.

Malo recoge también algunas sugerencias interesantes, pero difíciles de articular. Por ejemplo, el denominado abolicionismo moral. Se trataría de hacernos ateos de la moralidad del mismo modo que nos hicimos ateos con respecto a la existencia de Dios. El objetivo sería reducir al máximo la moralización. En realidad, no se trata de abolir la moralidad, sino de domarla. Introducir racionalidad en los conflictos y extraer de ellos sus resonancias morales. Olvidar los planteamientos en términos de buenos o malos y buscar salidas negociadas. Al fin y al cabo, la biología nos enseña que la moralidad es un medio para un fin, no un fin en sí mismo. Lo esencial es la cooperación y podemos intentar conseguirla sin pasar por la moralidad.

En el ámbito político, «la idea esencial sería sacar la moralidad de la vida pública todo lo que podamos, dejarla para el ámbito de lo privado». Para ello es necesario crear instituciones que sujeten nuestros instintos morales. Por ejemplo, cambiando el diseño de las redes sociales, que actúan como potenciadores de lo peor de nosotros o rediseñando nuestras instituciones políticas y la forma en que se reparte el poder, para que se favorezca la cooperación y la colaboración y no el enfrentamiento. Otro punto con respecto a la política es que necesitamos despolitizar nuestras vidas y recuperar otras formas de realización personal como las relaciones de amistad, la familia y los seres queridos o la cultura, los espacios y la naturaleza. En el ámbito social, repite la misma idea: sacar la ideología y los contenidos morales de nuestra convivencia diaria. El adoctrinamiento debe quedar fuera del ámbito público. Todo lo que comenta sobre el mundo laboral se puede aplicar también a la escuela y al sistema educativo.

En este mismo sentido, Malo defiende la necesidad de fomentar el escepticismo en todos los niveles: «Hoy en día las narrativas se venden en paquetes y solo hay dos posiciones: comprar el paquete completo o rechazarlo». Por el contrario, deberíamos aplicar una suerte de regla como esta: «Nadie tiene la última palabra: tú puedes afirmar que una declaración está establecida como conocimiento solo si puede ser refutada, en principio, y solo en la medida en que aguanta los intentos de refutarla».

Algunas reflexiones complementarias desde una perspectiva evolucionista

El término moralidad abarca un amplio conjunto de fenómenos y rasgos de comportamiento humano que influyen en las interacciones sociales. Teniendo en cuenta esta complejidad resulta difícil elaborar una explicación evolutiva que dé cuenta de la moralidad. Darwin fue el primero en intentarlo y, desde él, ha habido otros muchos intentos. En los últimos 40 años ha ganado fuerza la tesis darwinista, que suscribe Malo, de que la moralidad tiene un origen adaptativo, promoviendo la evolución de un comportamiento cooperativo dentro de las sociedades humanas. Esta visión de la moralidad como un medio (una adaptación), para conseguir un fin (la cooperación), da cuenta de un rasgo decisivo de la moralidad: el hecho de que los juicios morales implican una intención expresiva y prescriptiva, una posición defendida filosóficamente por figuras como Hume, Stevenson o Hare. Un juicio moral no es nunca meramente descriptivo. Incluso las fórmulas más neutrales comunican un fondo imperativo.

Esta interpretación evolutiva deja sin explicar, en nuestra opinión, un rasgo de la moralidad igual de relevante que el anterior, y que Malo, siguiendo a Linda Skitka, también reconoce: la percepción de que, desde una perspectiva folk, lo bueno y lo malo se presentan a la conciencia individual como si estuvieran dotados de cierto tipo de objetividad y universalidad. Los individuos interactúan y aprenden en un mundo cultural convencional que incluye normas que les son presentadas con la misma exterioridad que caracteriza a las propiedades materiales del mundo físico, como si fuesen elementos del campo objetivo de los hechos. Esta percepción de nuestras creencias y prácticas de una manera compatible con una interpretación objetiva de la moralidad debe incluirse en una explicación naturalista que intente abarcar el comportamiento moral en sus aspectos esenciales.

Nosotros hemos sugerido que para ello es necesario completar este escenario evolutivo, considerando un aspecto importante de la arquitectura cognitiva humana que procede de nuestra evolución como organismos culturales. El secreto de nuestro éxito, por usar la expresión de Joseph Henrich, está en nuestra capacidad evolucionada para la transmisión y acumulación culturales, pues es la cultura, en su extraordinaria complejidad, la que nos ha permitido colonizar con éxito adaptativo el planeta entero. En esta visión coevolutiva de genes y cultura, que difiere en algunos aspectos relevantes de la que proponen los psicólogos evolucionistas, la transmisión cultural acumulativa necesitó sus propios mecanismos evolutivos, anteriores incluso al desarrollo de la cooperación genuinamente humana, y cuyos efectos sobre nuestra cognición se hacen visibles en nuestra mente moral5. Entre esos mecanismos, nosotros hemos destacado la capacidad de orientar el aprendizaje de los hijos, utilizando formas elementales de enseñanza mediante la aprobación o la desaprobación de su conducta. Esas formas básicas de enseñanza, a las que hemos denominado enseñanza assessor, permitieron a los padres transmitir a sus hijos la experiencia acumulada, tanto sobre los comportamientos que deben imitar como sobre los que deben evitar6. Hemos llamado psicología suadens (del latín suadeo: a valorar, aprobar o aconsejar) al conjunto de características cognitivas que han hecho posible la enseñanza assessor7.

La enseñanza assessor da pie a percibir lo que aprendemos, nuestras creencias adquiridas, de una manera que favorece una interpretación objetiva de la información transmitida. Cuando los padres corrigen el comportamiento de sus hijos, las orientaciones vienen provistas de un valor de veracidad y corrección que no puede reducirse a un criterio funcional. La selección natural nos ha hecho sensibles a las indicaciones sobre cómo debemos comportarnos por parte de las personas afectivamente más próximas -familia, amigos-, buscando su aprobación y tratando de evitar su rechazo. Como resultado, el aprendiz assessor percibe las emociones sociales de agrado o desagrado derivadas de la práctica de un comportamiento, como si fueran señales objetivas del valor intrínseco de los comportamientos: si se aprueba un comportamiento, entonces es bueno, si se desaprueba, entonces es malo.

De ahí, la inmediatez con la que el individuo percibe y experimenta sus prácticas, creencias, usos y tradiciones. Esta orientación emocional sobre qué aprender y cómo actuar es clave en la interiorización de valores y normas y, al tiempo, es responsable de que se mantengan muchas tradiciones, creencias y valores en las sociedades humanas, aunque carezcan, en muchos casos, de una justificación racional o empírica que avale su permanencia8.

El apoyo emocional que hace posible y eficiente el aprendizaje assessor ayuda a construir una imagen del mundo con una pretensión de objetividad que, sin embargo, está en el extremo opuesto de cualquier actitud ética que sea distanciada, reflexiva y crítica. En esa objetividad, la mente de cada individuo confunde la representación compartida del mundo (su mundo), con el mundo, y el conjunto empírico de preferencias y prácticas (sus valores), con los valores. De una manera casi inevitable, los individuos con una psicología suadens adoptan la disposición intelectual y moral de un creyente. Ese ha sido el precio que hubo que pagar por el desarrollo de nuestro sistema de aprendizaje cultural acumulativo. Esa percepción folk de la verdad de nuestros valores como algo objetivo dificulta enormemente el dialogo entre tradiciones culturales diferentes y produce desconfianza y recelo ante valores y conductas que exhiben los miembros de otros grupos.

Constatar esta situación no implica que los autores de este comentario ni la mayor parte de sus potenciales lectores, educados en una tradición ilustrada, tengamos que renunciar a nuestros valores democráticos, o a defender los principios de la Declaración Universal de los Derechos Humanos. Tampoco nos exige la búsqueda, siempre, de una solución intermedia, pactada, para satisfacer parcialmente valores que consideramos profundamente equivocados. Sin embargo, asumir que nuestras convicciones son fruto de un aprendizaje emocional, que podría haber sido otro, sí que nos obliga a no deshumanizar a nuestros oponentes por pensar de manera distinta.

La historia nos muestra que muchas personas inteligentes y honestas en sus convicciones han vivido (y viven) con naturalidad en sociedades xenófobas, machistas, homófobas y nada tolerantes con religiones distintas de la mayoritaria. Podemos utilizar la racionalidad para mostrar cuáles son los principios axiomáticos, las inconsistencias y los inconvenientes que detectamos en las tradiciones ajenas, aceptando que nuestros oponentes tienen derecho a hacer lo mismo con la nuestra. Por desgracia, solo una pequeña parte de las tradiciones que rigen una sociedad tiene contenido empírico y pueden ser refutadas en un sentido popperiano, como desea el autor. A nivel individual parecerá poca cosa, pero lo honesto, sabiendo lo que sabemos, es tenerlo en cuenta cuando interaccionamos con los demás.

A nivel colectivo, como también sugiere Malo, habría que potenciar instituciones que eviten la estigmatización del diferente y ordenen la interacción social y política dentro de los cauces del respeto y la racionalidad, caracterizando de manera explícita el marco axiomático valorativo del que partimos. O para expresarlo en términos psicobiológicos, el objetivo de nuestras políticas no es tanto la naturaleza humana, algo que para nuestros cálculos podemos considerar inalterable, cuanto la construcción de un ecosistema social robusto capaz de sujetar su lado más conflictivo.

1. Panea Márquez, J. M. (2015). «JL López Aranguren (1909-1996) y el problema de nuestro tiempo». Revista internacional de pensamiento político, 10, 273-289. 
2. Citado por Panea Márquez (2015), pág. 281. 
3. Véase el libro de Bradley Campbell y Jason Manning The Rise of Victimhood Culture, en el que elaboran la teoría acerca del victimismo que sigue el autor. 
4. Véase el libro de Tom Holland Dominion: The Making of the Western Mind. 
5. Castro, L., Castro-Nogueira, M. A., Villarroel, M., & Toro, M. A. (2021). Assessor teaching and the evolution of human morality. Biological Theory, 16, 5–15. https://doi.org/10.1007/s13752-020-00362-7. 
6. Castro, L., & Toro, M. A. (2004). The evolution of culture: From primate social learning to human culture. Proceedings of the National Academy of Sciences, USA, 101, 10235–10240. 
7. Castro L., Castro-Nogueira L., Castro-Nogueira, M.A., & Toro, M.A. (2010). Cultural transmission and social control of human behavior. Biology and Philosophy 25, 347-360. Y también Castro, L., Castro-Nogueira, M. A., Villarroel, M., & Toro, M. A. (2019). The role of assessor teaching in human culture. Biological Theory, 14, 112–121 
8. Para una versión detallada véase el libro de Laureano, Luis y Miguel Castro-Nogueira. ¿Quién teme a la naturaleza humana?, Tecnos 2016 (2ª edición). 
[Fuente: http://www.revistadelibros.com]

De la nobleza polaca, aunque « más mexicana que el mole », la autora, Premio Cervantes 2013 y cronista deslumbrante, examina con inteligencia el mundo; del feminismo a los estudiantes desaparecidos.

Poniatowska

Publicado por Laura Ventura
Después de que hubiese amamantado a su hijo recién nacido, a las 7 de la mañana, dejaba el bebé en la cuna al cuidado de su marido y salía a la calle a buscar testimonios. Del refugio de su hogar a la intemperie del horror; del calor de lo doméstico al frío de la incertidumbre; del instinto maternal a la experiencia que da el oficio. Era 1968, año clave para el movimiento estudiantil en todo el planeta, y en el DF mexicano una masacre, cuyo número de víctimas aún hoy se desconoce, ocurría en la Plaza de las Tres Culturas. Elena Poniatowska recogía voces anónimas en los hospitales, en las esquinas y en las cárceles, y las convertía en almas concretas, con nombre y apellido, piezas de un mosaico que construyó en La noche de Tlatelolco, uno de los textos más perfectos del llamado « nuevo periodismo ». « ¿Importa cómo me llamo? Póngame Juan », le decían a la reportera.
De aquella paleta de distintos matices y de ese mural coherente y poroso con el que construye su técnica a la deconstrucción de su vida en retazos y en instantáneas que su memoria rescata. Pasaron ya 46 años y aquel bebé, Felipe Haro, la mira con sus mismos ojos azules mientras ella encanta a desconocidos con sus relatos.
Hace algunos meses, la ganadora en 2013 del Premio Cervantes, máxima distinción para las letras en castellano, recibió un llamado de su amiga Paula Mónaco, periodista argentina, que la ponía al tanto de otro hecho atroz que involucraba estudiantes: los 43 normalistas de Ayotzinapa. « Vivos se los llevaron, vivos los queremos. Vamos a seguir indignados », dice con un tono cordial y sereno en la Universidad Complutense de Madrid, donde acaba de ser distinguida con el doctorado honoris causa. En esa aula elude halagos y agradece la oportunidad para referirse a sus compatriotas, a esos chavos. « No quiero hablar de masacre, no quiero usar esa palabra hasta que no se sepa la verdad. La desaparición es una nueva forma de tortura en mi país. »
Fiel a su estilo, la denuncia no se expone en forma de alarido, sino de arrullo. Su modo de confrontarse con el poder y de clamar justicia se manifiesta con una pluma exquisita, con la claridad y economía de expresión de quien domina la lengua, con el poder de hipnotizar auditorios con su cadencia, con la sabiduría de quien advierte que la masa está constituida por individualidades. En un reciente discurso en el Zócalo se tomó su tiempo para nombrar uno por uno a cada uno de estos estudiantes (« muchos de ellos tan chaparritos como yo ») con sus pasiones y sus sueños particulares.
« Pensábamos que con Tlatelolco ya era la última vez, pero no. Estamos aterrados con lo que sucedió. Ellos eran muchachos muy pobres que dormían en cartones. No tenían sitio donde poner sus cosas. Comían frijoles y arroz. Es incluso un crimen de racismo porque se trata de gente sin oportunidades, cuya única salida era ingresar en los normalistas [convertirse en maestro]. Los estudiantes están dispuestos a mantener vivo este reclamo. Lo que hicieron en Internet ha sido un ejemplo para la ciudadanía. Hay una acción espontánea que busca la verdad. ¿Quién nos cuida? No hay lazo entre los mexicanos y su gobierno. Cada uno que llega al poder lo usa como si fuese rancho de su propiedad », dice frente a un auditorio integrado por estudiantes españoles y por miembros de la prensa de habla hispana, todos ellos conocedores -y muchos también admiradores- de esta revolucionaria de la crónica.
¿Era consciente del texto que creaba cuando escribía La noche de Tlatelolco(1971)?
 
-A mí, por entonces, me dictaba la indignación. Tenía tal cantidad de material que demoré mucho; empecé a cortar las repeticiones y así nació. Mi marido [Guillermo Haro, fundador de la astronomía moderna en México, cuya biografía escribe Poniatowska en El universo o nada] me decía que no aguantaba escuchar todas esas voces.
-¿Considera que la no ficción debería considerarse un género literario en sí mismo?
 
-No. Pienso que todo el mundo, incluso los que dicen que escriben ficción, escriben su propia realidad. Carlos Fuentes escribió Cambio de piel, donde el personaje se separa de su mujer y como tiene gastritis anda con un frasco de leche rarísima. Esa novela la escribe en un momento en que se había separado de Rita Macedo. Hacía era un diario de su vida en ese momento.
-Usted dijo que las crónicas no deben dar respuestas.
 
-Sí. Ese fue mi intento, documentar sin dar respuestas. Además, soy muy insegura y todavía tengo mucho miedo de equivocarme, aunque hay que vencerlo. Pero también, cuando uno está muy seguro de sí mismo, mete la pata, se equivoca.
-¿Y tuvo alguna vez miedo del poder?
 
-Nunca, porque no personalizo tanto. No pienso que algo me puede pasar. Tengo una capacidad de inconsciencia inmensa desde niña.
-¿Es posible lograr la objetividad en un texto de no ficción, a pesar de que utilicen documentos y fuentes como estrategia para alcanzar verosimilitud?
 
-Nunca un texto es exactamente la realidad. Se construye. ¿Ves ese cuadro? [señala a un monarca con la banda de la familia Bordón]. Desde aquí veo una mano, pero tú ves la otra. El periodista puede ver cosas que el otro no ve o eso en lo que otro no se fijaría nunca. Son pareceres, todo depende del color con el que se mire algo.
-Y para usted la observación es fundamental.
 
-Sí. Mis preguntas parten siempre de ahí y de una gran ingenuidad. Cuando lo conocí a Diego Rivera no había visto sus murales, no sabía quién era. Me impresionaron sus dientes tan chiquitos en ese hombre tan grande y le pregunté si eran de leche: « Sí, para comerme polaquitas preguntonas », me dijo.
-¿Usted se considera periodista antes que escritora?
 
-Es que todo se lo debo al periodismo. Fue un aprendizaje de vida. Nunca podría haberme acercado a tanta gente y tener el privilegio de preguntar. La literatura exige tranquilidad, manos muy quietas, no las zozobras del periodismo, donde te das cuenta una vez publicada la historia de que podría estar mejor.
-Laura Restrepo escribió que usted « podría haber sido parte del boom« , pero que no se la incluyó por ser mujer y porque además estaba escribiendo un texto de « supervanguardia » cuando se producía la eclosión.
 
-Laura es una gran amiga y entiendo que ella señala que no hubo mujeres en el boom. Allí deberían haber estado Elena Garro, la primera mujer de Octavio Paz; Rosario Castellanos, porque para leer a Chiapas hay que leerla a ella, y María Luisa Puga. Yo no tendría por qué estar allí, por ser más joven además, si bien Vargas Llosa es parte del boom y tenemos casi la misma edad. Por entonces estaba en otra cosa.
-Esa otra cosa es Hasta no verte Jesús mío, la biografía de una mujer común, una lavandera.
 
-Sí. No pude poner su nombre verdadero. Iba los miércoles a verla y no me dejaba grabarla porque me decía que le robaba la luz. Por entonces mi grabador era una caja grandotota que necesitaba enchufarse.
-¿Se considera feminista?
 
-Sí. Somos muy olvidadas las mujeres. Nos sacan afuera. Esto no pasa solo en México, sino en América latina. Las mujeres que hacen algo son solteras o suicidadas, como Alfonsina Storni, Alejandra Pizarnik o Antonieta Rivas Mercado.
-Pero su caso es una excepción, formó una gran familia?
 
-Soy apenas una « pinche periodista ».
Así la llamaba su tía Guadalupe Amor para denostarla, celosa de su talento. Lupe era artista y había posado desnuda para Diego Rivera, pero era su sobrina quien estaba destinada a pasar a la historia por su osadía. « Sí, soy una pinche periodista, pero una periodista con suerte », retruca. Y, además, habría que agregar que es una periodista cuyos textos se estudian en las universidades.
Hace 82, hija de un príncipe, descendiente del último rey de Polonia, nacía en Francia Hélène Elizabeth Louise Amélie Paula Dolores Poniatowska Amor. « Mi origen polaco es relativo, está solo en el apellido. Soy más mexicana que el mole. » De esa infancia que califica como privilegiada y de una educación a la jeanette [el equivalente femenino de los boy scouts de la época], cuando su padre partió a la guerra, su madre regresó a su patria con sus dos hijas. « No lo vimos por muchos años a mi padre. Él vio Auschwitz y quedó dañado para siempre. »
De la racionalidad de la arquitectura francesa y la patisserie parisina a las ruinas prehispánicas y los sabores picantes, un nuevo mundo se abrió para la pequeña de 10 años. « En París nunca había visto gente descalza ni personas que se replegaran en las paredes a tu paso para no estorbar. Ese fue mi inicio, el interés por escribir sobre personas que nunca te van a leer, gente que no lee el periódico, cuyas vidas no son nada. » Ese poder de hacer visibles a los olvidados la condujo a bucear en personajes que no aparecen en los libros de historia, pero que fueron clave en la configuración de su país.
Sin el respaldo de una superficie sólida, en el reverso de hojas que contienen texto impreso, Poniatowska toma nota con una letra muy redonda. Sentada en la primera fila escucha con atención a un grupo de académicos que analiza su obra. Sin la monotonía de los renglones, con una diagramación más parecida a un cuadro sinóptico, escribe. Su secreto fue -y sigue siendo- saber escuchar a los demás. Una periodista se acerca a ella emocionada, le hace una pregunta y en lugar de dar espacio para una respuesta comienza a hacer gala de su erudición. Sus colegas se inquietan, pero la escritora la escucha azorada por esa verborragia que no respeta ninguna sintaxis. Gracias a esa paciencia y oído fino pudo « aprender el español en las calles con los gritos de los pregoneros » cuando llegó a México.
Esa abuela de diez nietos, diminuta y de contextura frágil, desterró de su boca el « había una vez » de los cuentos de hadas. Lo suyo no es la ficción. Hay un volcán de picardía en cada anécdota que la lleva a reproducir la frase perfecta de los encuentros más eclécticos que le ha tocado presenciar o protagonizar. Quizás uno de las más recientes sea la de su nieta menor con el rey Juan Carlos, en 2013, cuando toda su familia la acompañó a España para recibir la máxima distinción de las letras en castellano.
-¿Y tu corona?
 
-La tengo guardada en el bolsillo -respondió el monarca.
-¿Es bonito ser rey?
 
-A veces.
Y al relato polifónico le aporta sin moraleja un final. « Se ve que por entonces ya estaba pensando en dejarlo », resume.
No hay resentimiento en el discurso de Poniatowska. Es hábil para codearse con monarcas, analfabetos, sindicalistas, trabajadores y estudiantes, distintas generaciones y clases sociales. De un seno aristocrático, y con una educación que completó en los Estados Unidos, les dio voz a muchos librepensadores (y otros no tan anónimos) de izquierda.
-¿Tuvo enfrentamientos con su familia por sus ideas o textos?
 
-No. Mi madre era una mujer inteligente. A ella, por ejemplo, no le gustaba Tina Modotti [la autora escribió su biografía, Tinísima], la odiaba con toda su alma, porque le parecía horrible que una mujer posara desnuda en una azotea [hay una foto famosa donde se puede ver a la fotógrafa italiana], y porque era comunista. Mi mamá, en cambio, era muy religiosa, algo que la ayudó a aguantar la muerte de mi hermano menor, quien murió a los 21 años. Cuando me encontró que estaba haciendo un texto para una exposición de Tina me retó en perfecto francés, le parecía horrible que le dedicara tiempo a una mujer como esa. La ironía es que esa novela se la dediqué a mi madre.
-¿Le gustaría escribir su autobiografía?
 
-No sé si tenga tiempo. No es algo que se me antoje. A veces he escrito diarios y cuando los he encontrado y releído me he aburrido. De todos modos, creo que uno mete mucho de uno mismo en todo lo que escribe.
-Por ejemplo, hay algo de Leonora Carrington que se asemeja a su vida, tuvo una educación parecida a la de la pintora [Poniatowska escribió su biografía].
-Sí, fuimos el mismo tipo de niña, de esas a las que les enseñaban a tocar el piano y a montar a caballo, a amar el campo, la adoración por las verduras, las frutas y todo lo verde.
-Pero su vejez, con respecto a la de la pintora, es muy distinta.
 
-La vejez te aísla porque la gente te va abandonando.
-Algo que a usted no le ocurre.
 
-Es así. Pero por las dudas, toco madera (y lo hace).
Lleva un traje azul y sobre sus hombros un chal de reciente adquisición, aunque no flamante. Para protegerla del frío y como gesto de respeto, una desconocida con la que apenas había cruzado unas palabras se lo quitó y regaló la noche anterior. Esa mujer ahora regresa a la universidad con su marido y se emociona al ver a Poniatowska cubierta con aquel pañuelo.
« Es justo aclararle hoy a mi nieta que soy una evangelista después de Cristo, que pertenezco a México y a una vida nacional que se escribe todos los días y todos los días se borra porque las hojas de papel de un periódico duran un día. Se las lleva el viento, terminan en la basura o empolvadas en las hemerotecas », pronunciaba en su discurso de aceptación del Premio Cervantes. Pero Poniatowska no se pierde entre la tropa de narradores que escriben el presente y así se ubica como exponente de una estirpe, ajena a esa que posee con sus gotas de sangre noble. De aquel pasado que procuró convertirla en una elegante jinete en París habla de una imagen y de un idioma que la identifica mucho más: « la Sancho Panza femenina ». Es ella una de las herederas de la tradición de cronistas de las Indias que describieron los escenarios y habitantes de América latina, esta vez, sin que su pluma sirviera a ninguna corona o iglesia. Rebelde y temeraria, Poniatowska se niega a conformarse con el hecho de que la historia la escriben los que ganan. A quien están siendo derrotados, a ellos, rescata del olvido.
[Fuente: http://www.lanacion.com.ar]

Cientos de personas protestan este domingo en la céntrica plaza de Callao en Madrid contra « la masacre en Melilla », convocados por asociaciones de inmigrantes y antirracistas, en Madrid.

Escrito por Desirée Bela-Lobedde

El pasado 24 de junio se produjo otra tragedia en la valla de Melilla. Tras la intervención de las fuerzas y cuerpos de seguridad marroquíes, en territorio español, la operativa policial terminó en resultado de muerte para, por lo menos, treinta y siete personas negroafricanas que intentaban cruzar la valla, aunque después de la publicación de este artículo la cifra podría seguir aumentando, ya que otras muchas quedaron en estado de gravedad. La noticia ya se ha publicado en muchos medios de comunicación, como en este mismo diario (Público).

Hemos visto unas declaraciones del presidente del gobierno más progresista de la historia de España hablando de «presión migratoria»; hablando del Sahel y del África subsahariana como si fueran lo mismo —vergüenza torera le tendría que dar creer que el Sahel y la mal llamada África subsahariana son la misma cosa—. Hemos escuchado al señor Pedro Sánchez hablar de «integridad territorial». También le hemos escuchado defender la actuación de las fuerzas y cuerpos de seguridad marroquíes, y defender un acuerdo de migración entre los dos países que es causa de muerte para muchas personas africanas.

Como siempre y una vez más, hemos escuchado hablar de «asalto violento bien organizado y bien perpetrado», una expresión que redunda en la criminalización de las personas africanas con un objetivo estudiado y muy claro: justificar el uso de la violencia y la fuerza desmedida contra ellas.

Desde esa criminalización se habla de los niveles de violencia empleados por los migrantes, como si la violencia ejercida por ambas partes fuese equiparable. Los migrantes, porque no llegan a la categoría de personas. Quitarles la etiqueta de migrantes y hablar de personas sería humanizarles, y eso no interesa. Lo que interesa —a los gobiernos y a la mayoría de medios de comunicación, en favor de la alarma social y el miedo— es seguir relacionando a las personas migrantes negroafricanas con la criminalidad, con las avalanchas, con la amenaza a la integridad. Anclarlas a la categoría de migrantes perpetúa la deshumanización. Y la deshumanización garantiza la indiferencia.

Este es el mecanismo utilizado para que, cuando el público español vea en sus pantallas las imágenes de todas esas personas —insisto: personas; no migrantes— agonizando o ya inertes, mientras la policía sigue maltratando sus cuerpos, no haya alarma, no haya conmoción ni indignación. Que nadie sienta la rabia quemándole por dentro ante tanta violencia. De hecho, la audiencia española ya está insensibilizada: se ha promovido tanta la pornografía de la muerte de los cuerpos negros que, a fuerza de verlos sin vida, poca gente reacciona. Así nadie sale a la calle a pedir explicaciones de por qué se violan sistemáticamente los derechos humanos de estas personas. Personas, no migrantes; insisto.

El trabajo colectivo de deshumanización está bien logrado. No son personas; son migrantes. Vienen desde África a invadir, a amenazar los valores de esta Europa fortaleza que se construyó y progresó robando y expoliando sus tierras y esclavizando a sus habitantes. Son delincuentes, son bestias asalvajadas y violentas: la propaganda ya se ha encargado de retratarlas así, despersonalizándolas para justificar el trato violento y deshumanizado que se ejerce sobre ellas.

Son otra categoría de personas de menos valor. No son rubias con los ojos azules. No son católicas ni europeas. Por eso no merecen la movilización social ni la acogida inmediata. Por eso merecen la muerte y el trato indigno y vejatorio. Por eso no merecen vías seguras para migrar y llegar a Europa. Por eso no merecen medidas instantáneas para la regularización de su situación. Por eso merecen el genocidio invisible y la muerte.

El mecanismo criminalizador que utilizan el gobierno más progresista de España y los medios de comunicación para justificar las políticas migratorias de muerte funciona a la perfección. Las imágenes de este fin de semana, mostrando a la policía marroquí amontonando cuerpos negros y dejándolos agonizar hasta la muerte, ignorando el deber de socorro, han pasado inadvertidas para la mayoría del público español, que volvía su cabeza hacia Estados Unidos para mostrar su indignación y su rabia por la derogación del derecho al aborto. Ahí sí se han volcado las condolencias, la rabia y las muestras de apoyo.

De nuevo y como siempre, estamos ancladas a la jerarquía de las vidas de primera y las vidas de segunda. La mayoría silenciosa es capaz de hacer unos ejercicios de disociación increíbles. Nadie cuestiona que no haya nada de extraño ni de absurdo en mostrar apoyo por el control de los cuerpos que se lleva a cabo en los Estados Unidos de América, y a la vez mostrar absoluta indiferencia por el control de los cuerpos que lleva a cabo el gobierno de España en la frontera sur. Tal vez la diferencia está, como siempre, en que los cuerpos de la frontera sur son negros.

Parece que las vidas negras solo importan si son estadounidenses. El cuadradito negro y los hashtags no los merecen las vidas negras africanas. Este fin de semana en las redes sociales se han organizado concentraciones para expresar el rechazo a las políticas y a los acuerdos de migración y muerte de los gobiernos español y marroquí. No ha sido ninguna sorpresa ver que todas las personas escandalizadas que llevan varios días denunciando la pérdida de derechos humanos que implica la revocación de la sentencia de Roe contra Wade han hecho caso omiso a las veintisiete muertes en Melilla, como también hicieron ante la tragedia en la playa del Tarajal. Y así siempre.

De nuevo la deshumanización y la criminalización de estas personas hace que la persona promedio crea que algo de merecido hay. Compran los discursos propangandísticos y tramposos del «que vengan, pero que vengan de forma legal. Porque, claro, si no vienen de forma legal, es normal que les pase lo que les pasa», se anima a decir algún cuñao, y el resto de presentes asienten en silencio mostrando su conformidad con un discurso racista ampliamente aceptado. Parece que, quienes vienen de forma ilegal, no tienen derecho a la vida.

Se está produciendo un genocidio invisible ante nuestra mirada inatenta. En realidad no es un genocidio invisible; es un genocidio invisibilizado. Y la mayoría de la población mira hacia otro lado, guardando un silencio cómplice.

 

[Foto: EFE/David Fernández- fuente: http://www.publico.es]

 

Escrito por Halley Margon

Na madrugada da sexta-feira, 24 para 25 de junho, um grupo de umas tantas dezenas de refugiados tentou ultrapassar a barreira que impede sua entrada no paraíso: a cerca de Melilha, que no Marrocos separa a África da Espanha. A violenta repressão da polícia de fronteira deixou sobre o terreno um amontoado de corpos, não se sabe quantos feridos, e uma trintena de mortos. Nas palavras do editorial publicado pela revista Ctxt, as “imagens de feridos e detidos empilhados em um terreno baldio, cercados por policiais do país vizinho, que apenas se aproximam de seus corpos desarmados para lhes dar um golpe adicional, produzem um calafrio moral”.

Passados já quatro dias desde os eventos da sexta-feira e com todos os meios à disposição, até agora não se esclareceu quantos foram afinal os mortos, se 23, 28, 30 ou 37, tampouco como morreram. Parece não interessar. A medida da indignação está determinada não pelo número dos corpos que cobrem o chão, mas pela cor da pele e a origem dos cadáveres. Vejam as inúmeras fotografias disponíveis na internet e então perguntem-se sobre o tamanho do barulho produzido fossem aqueles mortos brancos ucranianos vítimas do carrasco Putin ao invés de pretos africanos que perderam a vida bem ali, num dos enclaves espanhóis no norte da África, a apenas 665 kms de Madri – a cidade que agora mesmo, entre 28 e 30 de junho, ironicamente está sediando a reunião de cúpula da OTAN.

A palavra crime até agora não foi vista nem aventada para referir-se ao ato ou a quem quer que seja. Ninguém foi acusado de crime contra a humanidade, crime de guerra, genocídio, matança indiscriminada – até porque aparentemente ali não há uma guerra. Trata-se apenas, nas palavras de um senhor negro numa concentração de protesto na capital espanhola, de “uma política de dissuasão, quantos mais pretos matam, menos virão”. Ao contrário, o atual presidente do Governo da Espanha e um dos paladinos da justiça humanitária europeia contra o bárbaro Vladimir Putin, Pedro Sánchez, elogiou publicamente a polícia marroquina pelo seu “extraordinário desempenho” e descreveu a operação como “bem resolvida”.

Pouco importa ao obsequioso Sánchez que a brutalidade das imagens traga inapelavelmente à memória algumas das fotografias dos campos nazistas. É preciso vê-las, ainda que nos provoque horror. Porque, sim, é o que aqueles corpos amontoados impudicamente no chão, uns sobre os outros, sem que possamos saber quem ainda possui vida, quem já não, nos obriga a recordar. Ao obsequioso Sánchez o que interessa agora é estender o tapete vermelho para receber a cúpula dos exércitos do bem e mostrar-se mais uma vez à disposição dos comandantes do show e ao diretor geral do espetáculo. Talvez valesse a pena tentar descrever o clima de euforia que toma conta dos anfitriões, mas há coisas mais graves no entorno. Quem sabe não seja suficiente repetir a manchete do El País no dia 28: Biden e Sánchez celebran su primera entrevista formal al amparo de la OTAN. Ufa! Afinal, após tantos desencontros e acenos à distância, o imperador abre sua agenda e concede uma hora inteira (sic) para receber o presidente que o recepciona.

Migrantes retidos pelas forças de segurança marroquinas junto à barreira de Melilha

História

Talvez nem todo mundo saiba, mas o território espanhol se estende até os dias atuais a esses dois pequenos enclaves situados no norte da África, Ceuta e Melilha. Os bons alunos de história no colegial se lembrarão de que a tomada de Ceuta por João, o Bastardo, rei de Portugal, em 1415, anunciou o que seria a exploração portuguesa da África. Menos de dois séculos depois, com a anexação de Portugal pela Espanha, em 1580, passou às mãos dos espanhóis. E em suas mãos permanece. Com pequenas diferenças, o mesmo se passa com Melilha. O que as torna importante no século XXI? É que são a Europa em plena África. A maneira mais fácil, portanto, de pisar em solo europeu. Não há necessidade de arriscar a vida em travessias clandestinas espremidos em barcaças precárias. Basta ultrapassar as barreiras (as vallas de Ceuta e Melilha) que foram instaladas ali para impedir sua passagem – como o Muro de Berlim, o da fronteira do México com os EUA ou o de Israel (Israeli West Bank Barrier).

A indecência da coisa (sempre há indecências adereçando esse encantando mundo próspero) está na discrepância das imagens que impregnam nossa memória recente: de um lado a dos ucranianos, milhares de ucranianos, mais de uma centena de milhar de ucranianos sendo recebidos na Espanha pelo Governo e por famílias solidárias em portos e nos aeroportos, com flores e brindes para as crianças, as mulheres, os idosos, e acalentadoras imagens cuidadosamente produzidas pelos telejornais (e esses refugiados de fato merecem essa solidariedade e essa recepção). E de outra parte, a dessas poucas centenas de pretos africanos que também refugiados das guerras intestinas que consomem seus países, e da miséria insanável e da fome que a exploração colonial lhes legou como herança, recebidos a pauladas e mortos não se sabe como (o Governo marroquino está sepultando-os em covas rasas sem providenciar a autópsia para sequer determinar a causa da morte), e tratados como bandos de alucinados selvagens pelos mesmos telejornais.

A indecência da coisa está também nessa outra declaração de Pedro Sánchez (o obsequioso Sánchez) na qual reconhece “o trabalho do governo do Marrocos em coordenação com as forças e órgãos de segurança do Estado de Espanha para tentar deter um assalto violento que precisamente o que fazia era questionar a nossa própria integridade territorial” (ainda bem que esse assalto violento contra a integridade territorial espanhola não vinha da parte dos exércitos russos).

A indecorosidade está também na própria realização dessa cúpula da organização militar do Atlântico Norte destinada a aumentar (significativamente) os gastos com armas e os orçamentos em geral dos seus exércitos (com pessoal, pesquisa bélica, instalações militares etc). Mas isso é investimento. Businnes. Uma espécie de “plano Marshall B” para alavancar a saída do buraco. Porque, como se sabe, desde muito, pelo menos desde a primeira grande guerra, e isso o sabe o império muito melhor que seus vassalos europeus, a guerra é um ótimo negócio, fomentador de lucros fabulosos e acelerador de inúmeras cadeias produtivas com altíssima concentração de capital. Muito melhor que perder tempo com refugiados africanos, com a miséria daquele subcontinente abandonado por deus e habitado apenas por pretos.

[Ilustração de Mihai Cauli a partir da foto da Association Marocaine des Droits Humains – fonte : http://www.terapiapolitica.com.br]

Mélenchon aurait-il un problème avec les Juifs ? Marc Knobel dresse la liste de quelques ambiguïtés du chef des Insoumis.

Écrit par Marc Knobel

Jean-Luc Mélenchon aurait-il un problème avec les Juifs ? Cette question peut paraître étonnante ou saugrenue et le simple fait de la poser, j’imagine, pourrait irriter ou agacer les dirigeants et les militants de la France insoumise. Pour autant, aucune question ne peut et ne doit être interdite. Surtout lorsqu’il s’agit d’observer le comportement, d’examiner les propos qui ont été tenus, les allusions, les déclarations quelquefois à l’emporte-pièce d’un homme qui joue un rôle si important dans notre vie politique et qui a concouru par ailleurs à l’élection présidentielle. Si cette question est posée et je la pose ici, c’est bien parce que certains propos tenus ont été déplacés ou maladroits, violents quelquefois. En tout cas, ces propos ont suscité de l’incompréhension, de l’inquiétude ou de la colère chez les Français de confession juive. A la rigueur, me direz-vous, peu importe, non ? Eh bien non, justement. Les Français de confession juive ne sont pas des observateurs si éloignés de la chose publique, des spectateurs asservis ou silencieux des choses qui se déroulent autour d’eux et de la manière surtout dont on parle d’eux. 

Pourquoi les Français de confession juive devraient-ils taire leur mal-être, leur questionnement, leur doute ? Pourquoi devraient-ils avaler autant de couleuvres, au moment même où mes coreligionnaires subissent cette peine, cette douleur ? Celle de l’antisémitisme. Cette frayeur, lorsque des enfants ont été assassinés parce que Juifs ou que des vieillards ont été défenestrés, parce que Juifs ? Ce dont les Français de confession juive ont intimement besoin, c’est de respect et de sécurité. Qu’on respecte ce qu’ils sont et qu’ils n’aient pas à raser les murs dans certaines banlieues de peur d’y perdre quelquefois la vie.

Je veux néanmoins rassurer mes lecteurs. On peut avoir un avis et le développer et critiquer les uns ou les autres. Pourquoi pas, après tout ? J’ai moi-même une opinion sur ce que sont les Français de confession juive, comment ils se sentent, ce qu’ils font, ne font pas, devraient faire. Par exemple, je n’aime pas l’enfermement, ce côté quelquefois ethnocentré, cette espèce de ghettoïsation et lorsque l’on oublie surtout que nous sommes porteurs de valeurs universelles. On ne vit pas exclusivement de l’entre soi. Cependant, je sais d’expérience que les Français de confession juive ne ressentent pas forcément les mêmes choses et ne les vivent pas forcément de la même manière. On peut avoir un avis, oui. On peut émettre des critiques, poser des questions. Mais, toujours le faire avec retenue et discernement.

Un autre point me tient à cœur. Je comprends bien cette difficulté et cette absurdité qu’il y a à catégoriser, à cataloguer. J’avais un professeur dans un cours à l’IEP qui prévenait ses étudiants que l’on ne peut parce que c’est commode traiter de fasciste n’importe qui, n’importe quel régime, n’importe quel homme politique. Les mots ont un sens. Par exemple, certains à gauche usent et abusent de l’expression… le gouvernement d’extrême droite en Israël. C’est être un peu à côté de la plaque. C’est une expression certes commode, mais qui ne correspond pas à la réalité. Dans un autre domaine, l’antisémitisme qui sévit aujourd’hui est suffisamment grave pour que l’on ne catégorise pas à l’excès et que l’on ne traite pas tout le monde ou n’importe qui d’antisémite.

Développons. Oui, on peut, on doit même critiquer les politiques qui sont menées au Moyen-Orient et à fortiori, en Israël, comme chez les palestiniens, d’ailleurs. Cela ne fait pas forcément de vous un antisémite. Certains de mes coreligionnaires ne seront pas d’accord avec moi, c’est leur droit. Je pense fermement que l’on peut critiquer une raison d’État, on peut et l’on doit sûrement s’élever lorsque des fautes sont commises. Et l’on doit toujours espérer que ce conflit interminable (le conflit israélo-palestinien) se résolve un jour. L’auteur de cet article est partisan de la création d’un État palestinien, parce que je ne vois pas qu’il puisse y avoir une autre solution à celle-ci. Mais, les Palestiniens doivent reconnaître aussi l’existence de l’État d’Israël et là, il y a du boulot.

Mais, les contempteurs d’Israël sont quelquefois animés par une haine inqualifiable. Il ne leur suffit pas seulement de critiquer une politique. C’est tout un pays et tout un peuple qu’ils marquent du sceau de l’infamie, qu’ils nazifient paradoxalement et jamais, jamais, Israël ne trouvera grâce à leurs yeux. Cette fixation/aversion/détestation d’Israël est un paradoxe. Dans aucun autre pays, les bonnes consciences aux géométries variables ne vouaient aux gémonies ou à la destruction totale tel ou tel autre pays, qu’Israël. Et la détestation d’Israël, telle qu’elle se répand au sein de la gauche française, me fait peur. Par exemple, Jean-Luc Mélenchon procède comme Jeremy Corbyn, l’un est peut-être même le mentor de l’autre. Ils ont là un épouvantail commode qu’ils vont pouvoir utiliser, secouer et blâmer jusqu’à plus soif, par conviction ou par opportunisme en politique. Sans forcer le trait, je dirai qu’il y a toujours des voix à conquérir/à attraper lorsque l’on dit forcément du mal d’Israël, tout au moins dans certains quartiers. Par ailleurs, l’indignation ne fait pas une politique surtout lorsque l’indignation est à géométrie variable. Alors, l’un (Mélenchon) comme l’autre (Corbyn) voient-ils en Israël, le diable réincarné ? Un pays dangereux et… inutile, au fond ? Comme si, si Israël devait disparaître, tous les problèmes de la région seraient automatiquement réglés. Plus d’Al Qaïda ? Plus de Daech ? Plus de despotes ou de bouchers au pouvoir ? Plus d’attentats ? Plus de corruptions et de corrupteurs ? Plus de guerres intestines entre chiites et sunnites ? Plus de misérables ? Etc. Quelle plaisanterie que voilà.

Au fond, ces excès portent préjudice aux causes qu’ils entendent servir. À la passion, il faut la raison. À la colère, il faut le sens des choses et la retenue.

Ont-ils à ce point peur des Juifs ? Peut-être ? Je sais que cette question dérange. Ont-ils à ce point le sommeil si léger parce qu’Israël existe et le sommeil si lourd lorsque Assad massacre son propre peuple ? Plutôt que de ressasser de vieilles colères, de fortes rancœurs et d’abuser de leur bonne conscience, qu’ils cherchent plutôt ce qui est et fait l’équilibre. On peut critiquer, on ne doit pas aboyer avec les chiens. Et, s’il faut critiquer, on ne vit pas dans un monde de bisounours où il faudrait épargner certains, plutôt que d’autres. Parlez-nous un peu de l’Iran, mes chers amis, que l’on vous entende enfin. Je tends l’oreille, voyez-vous. Parlez-moi de Cuba et du Venezuela ou de la Chine, je vous écoute.

Ceci étant dit et il était important que je l’écrive, parlons donc maintenant de notre sujet.

Corbyn et l’antisémitisme au Labour

C’est un tweet dont le philosophe Bernard-Henri Lévy a le secret. Il est à la fois percutant et incisif : « Jeremy #Corbin c’est l’antisémitisme dans le Labour. Quand #Obono et #DSimonet s’affichent avec lui, c’est Jaurès qu’on réassassine ; c’est Jules Guesde qui revient[2] ; la gauche républicaine a commencé avec Dreyfus- elle finirait dupée par la #Nupes et 1 #islamogauchisme fascisant?[3] ».

Mais, à quoi donc Bernard-Henri Lévy fait-il allusion ?

Expliquons. Le 3 juin 2022, Danielle Simonnet, candidate NUPES dans la 15ème circonscription de Paris (20ème arrondissement), se fend d’un tweet joyeux qu’elle illustre par trois photographies. Dans ce tweet, on peut lire que « Danièle Obono est venue avec une figure de la gauche européenne ce soir dans le 20e, symbole de notre combat commun pour la justice sociale et écologique par-delà les frontières. Nos combats sont “for the many not the few” ! Merci @jeremycorbyn de son soutien[4] ».

Dans les photos postées, on voit la députée Danielle Obono toute guillerette, ainsi que Danielle Simonnet et une autre femme faire le V de la victoire. Elles sont en compagnie de Jeremy Corbyn, l’ancien tenant de l’aile gauche du parti travailliste, tout sourire. On est somme toute entre copains[5].

Pour rappel, Corbyn avait été à la tête du Labour, mais il fut critiqué par la suite pour sa gestion des cas d’antisémitisme au sein du parti, ainsi que pour certains propos controversés[6]Le 29 octobre 2018, Jeremy Corbyn avait même été suspendu après la publication d’un rapport officiel dévastateur, qui épinglait les hésitations et la complaisance du parti dans sa lutte contre l’antisémitisme quand il le dirigeait, entre 2015 et 2018.

L’enquête avait été menée par un organisme indépendant, la Commission des droits de l’homme et de l’égalité (EHRC). Dans ses conclusions, la commission parle « d’années d’échec à lutter contre l’antisémitisme » sous la direction de M. Corbyn et de son « manque de leadership » dans ce domaine[7]. L’EHCR avait conclu à des défaillances « inexcusables » résultant d’un « manque de volonté de s’attaquer à l’antisémitisme ». Mais, quelques semaines plus tard, Corbyn fut réintégré pour d’obscures raisons politiciennes par le comité des différends du Comité national exécutif (NEC) du Labour, l’instance dirigeante du parti[8].

Revenons-en au tweet de Danielle Simonnet.

Dès publication du tweet, sa rivale socialiste, la députée sortante Lamia El Aaraje attaque aussitôt l’insoumise : « Les masques tombent : inviter et afficher le soutien de Jeremy Corbyn, écarté du Labour Party et du groupe pour complaisance avec l’antisémitisme en Angleterre, après 1000 plaintes enregistrées par ce parti, est une honte dont est fière Danielle Simonnet [9] ». D’autres socialistes reprennent cette critique, en pleine guerre des gauches dans ce 20ème arrondissement de Paris où Lamia El Aaraje maintient sa candidature, malgré l’accord à gauche derrière Jean-Luc Mélenchon[10].

Cette polémique passerait pour anecdotique si l’insoumis lui-même ne s’était exprimé en défendant Jeremy Corbyn.

Mélenchon, Jeremy Corbyn et l’obsession israélienne

Le 13 décembre 2019, sur son blog, Jean-Luc Mélenchon exprime son avis sur la défaite historique des travaillistes, aux élections législatives de 2019.

Il dit « ne pas être étonné du terrible revers électoral du parti travailliste de Jeremy Corbyn », qui devrait selon lui « servir de leçon ». Il énumère ensuite, les « leçons » de cet échec et écrit que « Corbyn a passé son temps à se faire insulter et tirer dans le dos par une poignée de députés blairistes. Au lieu de riposter, il a composé. Il a dû subir sans secours la grossière accusation d’antisémitisme à travers le grand rabbin d’Angleterre et les divers réseaux d’influence du Likoud (parti d’extrême-droite de Netanyahu en Israël). Au lieu de riposter, il a passé son temps à s’excuser et à donner des gages. Dans les deux cas, il a affiché une faiblesse qui a inquiété les secteurs populaires [11] ».

Ce propos suscite plusieurs observations.

1) Les Britanniques de confession juive qui, tout au long de leur vie, ont voté, adhéré, milité pour le Parti travailliste ont une conscience de gauche. Ils croient en des idéaux. Mais, depuis quelques années, certains ont vécu des situations difficiles. Ils ont été insultés ou menacés, uniquement parce qu’ils sont Juifs. D’ailleurs, près d’un millier de plaintes pour antisémitisme ont été déposées par des militants au sein du département chargé des plaintes et des conflits au Labour.

2) Ce n’est pas parce que les militants de confession juive du Labour seraient les porte-parole du Likoud en Israël (qui est un parti de droite) qu’ils ont été ainsi malmenés. Il faut une sacrée dose de culot pour distiller ainsi le doute et l’erreur. Les militants de confession juive du Labour n’ont pas attendu les prétendues consignes ou le rappel à l’ordre du grand rabbin du Royaume-Uni. Certes, Ephraïm Mirvis n’a pas mâché ses mots : « La manière dont la direction [du Labour] a traité le racisme anti-juif est incompatible avec les valeurs britanniques dont nous sommes si fiers – celles de dignité et respect pour tous », a écrit le grand rabbin dans le Times (25 novembre 2019). Mais, n’était-il pas dans son rôle de le dire ?

3)  L’article a été publié le 25 novembre 2019, seulement. Et quand bien même ? Les militants du Labour peuvent se forger leur propre opinion sans avoir à attendre que le grand rabbin exprime la sienne. Là encore, c’est insulter leur intelligence, c’est insulter leur militantisme (de gauche). Par contre, le fait que Jean-Luc Mélenchon pointe du doigt justement le grand rabbin nous intrigue. Car l’accusation est peut-être paramétrée. En tout cas, elle est posée et elle fait tache.

4) Ce n’est pas non plus de la faute des Juifs de ce pays si Jeremy Corbyn a perdu les élections, en 2019. La population juive est estimée à 300.000 personnes sur 55,98 millions d’habitants en 2018. C’est peu. Mais, Jean-Luc Mélenchon semble leur attribuer un pouvoir exponentiel qu’ils n’ont pas. Pareillement pour le Likoud en Israël. Mélenchon pense-t-il réellement que le Premier ministre israélien de l’époque pouvait influer sur quelque 40 millions d’électeurs britanniques ? Seuls les complotistes voient chaque jour en chaque chose le poids des sionistes, d’Israël et des Juifs.

5) Si Jeremy Corbyn perd les élections, il le doit à lui-même. Il le doit à ses déficiences, ses incohérences, son incompétence et au fait que le Labour est rouillé de l’intérieur, il prend l’eau. La question essentielle en Angleterre a été celle du Brexit. Et non, celle de l’antisémitisme au Labour, même s’il est dénoncé par la presse, par des associations et, il est vrai, par les conservateurs britanniques. Mais, pour ces derniers, c’est de bonne guerre, n’est-ce pas ? Les indécisions de Jeremy Corbyn par rapport à ce sujet, expliquent sa défaite. Le Labour est un parti vieillissant d’une gauche à bout de souffle comme le sont aujourd’hui de nombreuses gauches, partout ailleurs dans le monde. Serait-ce aussi de la faute d’Israël et/ou des Juifs ?

« Ici c’est la Seine, ce n’est pas le Jourdain » 

Depuis quelques années, l’Insoumis froisse, tantôt en déplorant les dérives d’un certain communautarisme (plutôt qu’un autre), tantôt en diabolisant Israël. Ces réparties et ces attaques sont souvent catégoriques, agressives, rapides, nerveuses, violentes.

Prenons deux exemples qui nous paraissent significatifs.

17 décembre 2017, sur Europe 1. 
Jean-Luc Mélenchon déclare que « tous les Français, quelles que soient leur religion ou leur culture, doivent épouser le point de vue de la patrie sur ce sujet (ndlr, le conflit israélo-palestinien) ». « La condition pour que l’on vive bien en France, c’est de ne pas importer les conflits qui arrivent de l’extérieur. Ici c’est la Seine, ce n’est pas le Jourdain. On n’a aucune raison de se taper dessus pour une histoire qui est déjà assez embrouillée comme ça. Evidemment que ça vaut pour tout le monde », déclare-t-il. La comparaison est douteuse, elle est même blessante. Pourquoi parle-t-il du Jourdain ? Et quid des musulmans ou de Français et/ou d’immigrés provenant du Maghreb qui défendent la cause palestinienne ou s’identifient à elle ? Aurait-il utilisé une comparaison aussi déplacée, les renvoyant à Alger ?

24 août 2014 à l’université d’été du Parti de Gauche, à Grenoble. 
Jean-Luc Mélenchon chauffe la salle, le tribun est en pleine forme. Tous les sujets sont évoqués. Mais, à la trentième minute, il se met à parler de politique étrangère. Et, comme à son habitude, deux seuls pays ont la vedette, les États-Unis d’abord et Israël, ensuite. Pourtant, les sujets ne manquent pas. Pourtant, il eût été possible de parler de différents conflits, de différents pays, de s’en prendre à tel ou tel gouvernement ou politique, de désigner la Corée du Nord, la Chine, le Pakistan… Eh bien, non.

Il commence donc par prévenir que cela va mal se finir en Europe[12]. « Parce que le risque de guerre généralisée en Europe existe du fait de l’irresponsabilité habituelle de la politique agressive des États-Unis qui ont étendu l’OTAN et son armada jusqu’aux frontières de la Russie et s’étonnent que celle-ci ne se laisse pas faire, provoquant une escalade que l’on avait pas connu du temps de l’URSS … Faut-il être stupide pour aller soutenir un gouvernement dans lequel il y a des nazis, c’est une aberration. Non, ce n’est pas la politique de la France de faire ça[13] ».  Il enfonce le clou : « Nous sommes contre les néonazis dans les gouvernements[14] ». Étrange coïncidence, car justement, à Moscou, Poutine affirme combattre les néonazis en Ukraine.

Il en vient tout de suite après à parler de Gaza[15] et à s’indigner du sort tragique dont les gazaouis sont les victimes. Il pointe du doigt les responsabilités israéliennes, on le sent en colère et il est ému. Mais, curieusement, il n’a pas un mot, pas une phrase cependant pour condamner le Hamas qui dirige et domine cette bande de terre. Le Hamas n’existe pas ? Les exactions et les crimes perpétrés par le Hamas ne méritent pas une virgule ? 

Puis, il dit alors que les valeurs de la France « sont que nous sommes toujours du côté du faible et de l’humilié parce que nos valeurs, c’est liberté, égalité et fraternité. Pas la paix aux uns, la guerre aux autres. Nous ne croyons pas aux peuples supérieurs aux autres[16] ».

Cette phrase choque. Elle fait probablement référence à une déclaration du général de Gaulle. Interrogé le 27 novembre 1967 sur la situation au Proche-Orient. Le président vint alors à déclarer que beaucoup se demandaient si « les Juifs, jusqu’alors dispersés, mais qui étaient restés ce qu’ils avaient été de tout temps, c’est-à-dire un peuple d’élite, sûr de lui-même et dominateur. » En son temps, cette déclaration eut un fort retentissement au sein de la société israélienne, des Juifs de France et aussi des nombreux politiciens ou sympathisants de la cause de l’État hébreu. Parmi ces réactions on peut noter un dessin de Tim dans Le Monde du 3-4 décembre 1967, représentant un déporté juif, décharné, portant l’étoile jaune, avec la main dans sa chemise à la manière de Napoléon, et le sous-titre « Sûr de lui-même et dominateur. »

Puis, Jean-Luc Mélenchon poursuit son discours : « Si nous avons quelque chose à dénoncer c’est ceux de nos compatriotes qui ont crû, bien inspirés, d’aller manifester devant l’ambassade d’un pays étranger ou d’aller servir sous ses couleurs les armes à la main. Si nous avons quelque chose à dénoncer c’est cela. La France a le devoir de militer pour la paix. Elle doit s’engager de toute sa force pour la paix. Nous ne baisserons pas les yeux ».

Jean-Luc Mélenchon fait ici allusion à une manifestation de solidarité qui venait de se tenir à Paris. Elle avait été organisée par différentes institutions juives, pour soutenir Israël qui, depuis 7 ans, était bombardé presque quotidiennement par les missiles du Hamas. Manifestation où, soit dit en passant, une minute de silence pour les victimes palestiniennes et israéliennes avait été observée. Ajoutons cette précision donnée par le journaliste Frédéric Haziza : « Quant aux soldats franco-israéliens. Ils ne s’enrôlent au sein de Tsahal qu’après avoir acquis la nationalité israélienne et non pas, comme d’autres, avec l’objectif d’aller combattre au nom du jihad dans un pays étranger, éventuellement contre l’armée française, pour revenir ensuite en France commettre d’autres crimes[17] ».

Dernier point. Lors de son allocution, Jean-Luc Mélenchon affirme que les manifestants anti-israéliens ont su « se tenir digne et incarner mieux que personne les valeurs fondatrices de la République française ». En effet, face au conflit israélo-palestinien, chacun éprouve de l’empathie pour telle ou telle cause et des manifestations ont lieu. Mais elles sont, le plus souvent, organisées par les militants ou les sympathisants de la cause propalestinienne. Si la majorité d’entre elles ne provoque pas de trouble, la tension est cependant presque toujours palpable dans les cortèges (cris, hurlements…), depuis l’année 2000. Dans ces manifestations, les slogans les plus outranciers sont scandés. Mais il y a aussi ces cris de « Mort aux Juifs », des étoiles de David identifiées sur les banderoles à la croix gammée et ces maquettes de roquettes Qassam brandies par les militants cagoulés[18].

Or, en cet été brûlant de l’année 2014, la violence antisémite était bien présente et elle s’exprimait et s’exerçait tant à Paris, qu’à Sarcelles. Mélenchon le sait. Pourquoi ne dénonce-t-il pas ses violences inadmissibles ?

Prenons quelques exemples.

  • Dans la nuit du vendredi 11 au samedi 12 juillet 2014, un cocktail Molotov est lancé contre la synagogue d’Aulnay-sous-Bois, en Seine-Saint-Denis.
  • Le 13 juillet 2014, à Paris, rue de la Roquette. Une centaine de jeunes, portant pour beaucoup les couleurs du Hamas ou le drapeau palestinien, tente d’attaquer et d’investir la synagogue qui se trouve dans cette rue, avec une violence inouïe, mais ils ont été repoussés par les CRS présents sur place.
  • Le 19 juillet, malgré l’interdiction, des centaines de personnes se rassemblent à Barbès, très encadrées par les forces de l’ordre. Peu avant 16 heures, la manifestation commence à dégénérer, faisant fuir une partie des militants. D’autres ont lancé des projectiles sur les forces de l’ordre, qui ont répliqué avec des gaz lacrymogènes. En fin de journée, une vingtaine de manifestants, certains portent le drapeau palestinien sur les épaules, jettent encore sur les forces mobiles de grosses pierres récupérées sur un chantier. D’autres cassent un trottoir pour récupérer des pavés. Selon une source policière, 38 personnes sont interpellées pour jets de projectiles, violences contre les forces de l’ordre et outrage. Dix-sept policiers et gendarmes sont blessés. Plus tard, 19 personnes sont placées en garde à vue. Elles sont soupçonnées de violences aggravées (en réunion ou avec arme) sur personne dépositaire de l’autorité publique, outrages, rébellion, dégradations aggravées ou encore participation à un attroupement.
  • Que dire également des violences qui ont ravagé la ville de Sarcelles ? Voitures incendiées, mobilier urbain saccagé, magasins pillés. La situation dégénère aux abords de la synagogue de l’avenue Paul Valéry. Des cocktails Molotov et des fumigènes ont été lancés en direction du lieu de culte protégé par les policiers[19].

Jésus, la croix et ses propres compatriotes

15 Juillet 2020. Mélenchon est sur le plateau de BFMTV. Alors que la journaliste Apolline De Malherbe lui demande si « les forces de l’ordre devaient être comme Jésus sur la croix et ne pas répliquer » lors de manifestations, la réponse du chef des Insoumis est particulièrement cinglante : « Je ne sais pas si Jésus était sur la croix, je sais qui l’y a mis, paraît-il. Ce sont ses propres compatriotes ».

Une phrase distillée comme du venin, qui va provoquer une intense émotion. Pourquoi Jean-Luc Mélenchon dont nous savons qu’il est un homme instruit et un intellectuel se permet-il de prononcer une phrase aussi dénuée de sens et assassine que celle-ci ? C’est la vieille rengaine du déicide, que voilà. Une vieille folie qui a été colportée par les intégristes et l’extrême droite, généralement. À quoi joue-t-il donc, là ?

Dès qu’elle en a connaissance, l’Amitié Judéo-Chrétienne de France se fend d’un communiqué de presse. « Faut-il rappeler à M. Mélenchon que, comme le rapportent les évangiles, les juifs alors sous occupation romaine n’avaient pas le droit de condamner quelqu’un à mort, cette décision étant réservée au seul gouverneur romain  (cf Jean, 18, 30) ? Et que de pareils propos contredisent les mêmes évangiles, où il est précisé que ce sont des notables et des chefs du peuple qui ont souhaité cette condamnation, et non tous les juifs, ni même tous les habitants de Jérusalem, comme l’affirme M. Mélenchon en dénonçant « les compatriotes de Jésus » ? Cette thèse ancienne de la responsabilité du peuple juif dans la mort de Jésus, rejetée depuis des décennies par tous les historiens et exégètes et condamnée par l’ensemble des Églises, a donné naissance, on le sait, à un antijudaïsme mortifère et à un antisémitisme dont l’aboutissement fut la Shoah. Il est bien triste qu’un homme politique, leader d’un parti important de notre république, soit si mal informé et continue à répéter de semblables accusations[20] ».

Conclusion provisoire

Ce sont là quelques exemples, nous aurions pu en donner d’autres. Ce sont là quelques ambiguïtés, ce sont là quelques mots inutiles, ce sont là quelques ignorances, ce sont là quelques fautes, ce sont là quelques bassesses. Jean-Luc Mélenchon s’étonne qu’il y ait une telle incompréhension entre les Français de confession juive et lui-même. Je m’étonne qu’il s’en étonne. On ne récolte que ce que l’on sème. Probablement, Jean-Luc Mélenchon pense-t-il que la politique c’est comme un punching ball. On peut tout se permettre et taper jusqu’à plus soif au nom de quelques convictions.

Par exemple de proclamer dans un tweet incendiaire que « la police tue », sans savoir au fond et sans attendre qu’une enquête ait lieu et de généraliser ainsi et à l’excès, pour discréditer toute une profession et les policiers, qui sont malmenés, par ailleurs. Par exemple de proclamer que « nous sommes contre les néo-nazis dans les gouvernements  », en devenant ce faisant comme un perroquet de Vladimir Poutine. Où sont d’ailleurs les néonazis? Par exemple de dire que ce sont « ces propres compatriotes » qui ont mis Jésus sur la croix.

il y a cette agressivité, cette impulsivité, cette férocité, pour ne pas dire, cette brutalité. Mélenchon est une sorte de cocotte-minute, prête à exploser et toute en ébullition. Il me donne l’impression qu’il ne peut se contenir et parce qu’il ne peut se contenir, il en devient sa propre caricature. Comme le disait avec justesse Bernard-Henri Lévy : « Cet homme, parti pour incarner le meilleur de l’esprit républicain, a décidé de se mettre à son compte et de devenir, ce faisant, le premier dans la décrépitude de son art politique[21] ».

Et, dans le domaine de l’antisémitisme, qu’il fasse amende honorable. Dans ce domaine, il n’est plus qu’une vilaine caricature blessante et humiliante.


Marc Knobel est historien, il a publié en 2012, l’Internet de la haine (Berg International, 184 pages). Il publie chez Hermann en 2021, Cyberhaine. Propagande, antisémitisme sur Internet.


[2] Pendant longtemps, Jules Guesde a croisé le fer à de nombreuses reprises contre Jean Jaurès, notamment sur la caractérisation de la République. Il a été hostile à la défense du capitaine Alfred Dreyfus, là où Jean Jaurès a été un ardent dreyfusard. Voir à ce sujet Jean-Numa Ducange, Jules Guesde, anti Jaurès ?, Armand Colin, 2017.

[3] https://twitter.com/BHL/status/1533692656672509953

[4] https://twitter.com/Simonnet2/status/1532813879775985665

[5] Voir l’excellent décryptage de cette rencontre dans Le Canard enchaîné du 8 juin 2022, « Avoir un bon copain ».

[6] En 2009, par exemple, dans un discours qu’il prononce devant l’association Stop the war coalition, Jeremy Corbyn décrit les membres du Hamas, le groupe islamiste qui contrôle Gaza et ceux du Hezbollah, la milice chiite libanaise soutenue par l’Iran, comme des « amis ». Des mots qu’il regrettera par la suite. Lors d’une conférence organisée à Doha en 2012, il assiste à une conférence avec Khaled Mashal, alors chef du Hamas. Husam Badran, le chef de l’aile militaire du Hamas, participe également à cette conférence. Dans son édition du 23 mars 2018, le Daily Mail exhume des photos datant de 2014, où Jeremy Corbyn se recueille devant les tombes des auteurs du massacre de 11 athlètes israéliens, en septembre 1972, lors des Jeux olympiques de Munich. Corbyn y dépose notamment une gerbe de fleurs. Lors de la polémique, il s’était défendu en déclarant qu’il avait plutôt rendu hommage aux 47 Palestiniens tués lors de l’attaque aérienne israélienne sur la base de l’Organisation de libération de la Palestine (OLP) en 1985, à Hammam Chatt. Dans une publication sur Facebook en 2012 et au nom de la liberté d’expression, Corbyn offre son soutien à l’artiste de rue Mear One, basé à Los Angeles, dont une peinture murale avait défrayé la chronique. La peinture murale, qui a ensuite été effacée, montrait plusieurs banquiers apparemment juifs jouant à un jeu de Monopoly, leur table reposant sur le dos nu et courbé de plusieurs travailleurs.

[7] Eric Albert, « Royaume-Uni : le « jour de honte » du Labour après un rapport sévère sur l’antisémitisme au sein du parti », Le Monde, 30 octobre 2020.

[8] Le Monde, « Jeremy Corbyn, ancien chef du Labour, réintégré à son parti après l’affaire du rapport sur l’antisémitisme », 18 novembre 2020.

[9] https://twitter.com/lamiaela/status/1533037371050102784?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1533037371050102784%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.huffingtonpost.fr%2Fentry%2Flegislatives-deux-candidates-lfi-critiquees-pour-safficher-avec-jeremy-corbyn_fr_629bad86e4b05fe694f5186c

[10] AFP, « Législatives: deux candidates LFI critiquées pour s’afficher avec Jeremy Corbyn », 4 juin 2022.

[11] https://melenchon.fr/2019/12/13/corbyn-la-synthese-mene-au-desastre/

[12] http://www.jean-luc-melenchon.fr/2014/08/24/2017-sera-une-insurrection/ A partir de la 32ème minute.

[13]Soulignons qu’en 2014, Jean-Luc Mélenchon parle plusieurs fois des « nazis » ou des « néonazis » qui auraient « une influence » au sein du pouvoir ukrainien ». Voir à ce sujet Marc Knobel, « Mélenchon et ses complaisances vénézuéliennes, cubaines, chinoises et russes », La règle du jeu, 17 mars 2022.

[14] http://www.jean-luc-melenchon.fr/2014/08/24/2017-sera-une-insurrection/ 33mn 30.

[15] Idem, à la 34ème minute.

[16] Voir à ce sujet François Heilbronn, « Mélenchon, les Juifs et le ‘peuple supérieur’ », La Règle du Jeu, 16 avril 2017

[17] Frédéric Haziza, « De discours en discours, Mélenchon n’en finit pas de surfer sur la vague du populisme », L’Obs, 26 août 2014.

[18] Voir à ce sujet Marc Knobel, « En 2009 et 2014, lorsque les manifestations propalestiniennes ont dégénéré », La Règle du jeu, 14 mai 2021.

[19] Voir à ce sujet :https://www.huffingtonpost.fr/marc-knobel/violence-manifestations-pro-palestiniennes_b_5602485.html
https://www.huffingtonpost.fr/marc-knobel/antisemitisme-en-frace_b_5676361.html
https://www.huffingtonpost.fr/marc-knobel/les-juifs-de-france-ne-vous-en-deplaise_b_5729446.html

[20] https://eglise.catholique.fr/espace-presse/communiques-de-presse/communiques-de-presse-conference-des-eveques-de-france/502327-lamitie-judeo-chretienne-de-france-deplore-propos-tenus-m-melenchon/

[21] Bernard-Henri Lévy, « Qu’est-ce qui fait courir Jean-Luc Mélenchon ? », Le Point, 29 mars 2017.

 

[Source : http://www.laregledujeu.org]

Cette brutalité est-elle une stratégie, un marqueur idéologique ou l’homme est-il ainsi ?

Jean-Luc Mélenchon, le 15 février 2017, à Valence.

Jean-Luc Mélenchon, le 15 février 2017, à Valence.

Écrit par Marc Knobel

Le tribun sait agiter le chiffon rouge, sa voix porte haut et fort. Il a cette puissance et cette force. Ses gestes brassent l’air, les mots sont ciblés et secouent son auditoire et les électeurs. Il a ce charisme et cet élan militant qui suscitent l’admiration de ses troupes. Il est le chef incontesté et ils sont des milliers à venir s’agglutiner dans les places et les rues pour l’écouter parler, dénoncer, éructer. Ils savent que le tribun sait parer toutes les attaques, qu’il sait s’enivrer de toutes les polémiques et qu’il peut lancer quelques charges dont il a le secret. À lui tout seul, il est un spectacle, mais aussi celui de la brutalité sans nom. Car le tribun est habité par cette sorte de brutalité qui défraie la chronique et interpelle les commentateurs politiques et les journalistes. Il est un boxeur et dans l’arène politique, il cogne. C’est ce dont nous choisissons d’analyser ici, avec quelques exemples qui nous paraissent significatifs.

Mélenchon veut-il semer le doute et se diaboliser ?

Ce sont là quelques recettes, de vieilles habitudes et elles valent le détour.

En mars 2013, Jean-Luc Mélenchon fait une étrange sortie. Lors du 3ème congrès du Parti de gauche qui se tient à Bordeaux, il lance que Pierre Moscovici, alors ministre de l’Économie, est un « petit intelligent qui a fait l’ENA, qui a un comportement de quelqu’un qui ne pense plus en français, qui pense dans la langue de la finance internationale ». Cette attaque ad hominem est courte certes, mais elle est extrêmement violente. Mélenchon vise nommément quelqu’un précisément (et personne d’autre) dont il pense être le représentant de l’européisme en France. Mais, justement, pourquoi lui et pas un autre ?

Aussitôt dit, aussitôt fait, la polémique éclate. Choqué, Harlem Désir demande immédiatement au coprésident du Parti de gauche de « retirer » ses accusations « inacceptables » et ce « vocabulaire des années 30[1] » Dans la foulée, Pierre Moscovici, blessé, réagit. Jean-Luc Mélenchon « est en train, par détestation de la social-démocratie, par détestation du parti socialiste, de franchir certaines bornes ». « Il y a des choses auxquelles on ne touche pas », dit le ministre lors d’une émission sur Canal+, avant d’ajouter, le ton grave : « Chacun a son histoire. Moi j’ai la mienne. Je suis d’une famille où mes quatre grands-parents étaient étrangers. Mon père a été déporté. Et cette famille, elle a choisi la France. Je suis Français par tous mes pores. Je défends la France. Je ne raisonne pas finance internationale[2] ». La réponse est aussi fulgurante que cinglante.

« J’ignorais quelle était la religion de Pierre Moscovici et je n’ai pas l’intention d’en tenir compte dans l’avenir, pas davantage que dans le passé », se défend Jean-Luc Mélenchon, lors du meeting de clôture du congrès. Qui peut raisonnablement le croire ? « Mais si un jour, parce qu’il est juif », Pierre Moscovici était menacé, « il nous trouverait tous, comme un seul corps, pour le défendre », ajoute-t-il habilement sous les applaudissements de la salle. Une formule rapide et à l’emporte-pièce qui ne mange pas de pain. Puis, Mélenchon déclare quelques minutes plus tard aux journalistes que « Harlem Désir instrumentalise l’antisémitisme et de façon insupportable. » Il n’empêche, les réactions se succèdent, notamment celles de plusieurs ministres, Manuel Valls, Arnaud Montebourg ou Nicole Bricq condamnant successivement les déclarations de Mélenchon. Pour la ministre de l’Environnement, Cécile Duflot (EELV) le coprésident du PG « n’est pas antisémite » mais « il flirte avec le dérapage à chaque instant, notamment sur les questions de nationalisme ».

Cécile Duflot voit juste, Mélenchon flirte avec le dérapage à chaque instant, c’est même une constante chez lui.

Plus c’est gros, plus cela heurte, plus cela passe. Le buzz, faire du buzz, voilà une des armes de notre insoumis. Justement, lors de son échange avec les journalistes, quand on l’interrogeait sur l’écart qui sépare encore le Front de gauche de celui de Marine Le Pen et du RN, Mélenchon a cette réponse caractérisée et assumée, « le vent souffle dans nos voiles tant que vous la dédiabolisez, et que vous me diabolisez… ». Alors ? Jean-Luc Mélenchon fait parler de lui, provoque le scandale. Mieux, l’éventuelle diabolisation peut/doit souder le groupe (sa formation politique) et permet de resserrer les rangs[3]. Il en tirera toujours des bénéfices.

Octobre 2017, une nouvelle polémique défraie la chronique.

Invité sur Europe 1, l’ancien Premier ministre Manuel Valls « confirme » les révélations du Canard Enchaîné, selon lesquelles Jean-Luc Mélenchon l’aurait qualifié de « nazi » à l’Assemblée nationale, avant qu’il ne démissionne de la mission d’information sur la Nouvelle-Calédonie. L’esclandre fait suite aux accusations portées par Manuel Valls qui dénonce une « dérive islamo-gauchiste » de la France insoumise. « Je ne l’ai pas entendu mais il l’a dit, il y a plusieurs témoins, et il a proféré devant moi de nombreuses insultes », explique Manuel Valls[4]. « Quand vous traitez un responsable politique de fasciste ou de nazi c’est une manière de le disqualifier pour empêcher le débat », déplore-t-il, avant de répliquer à l’insulte proférée par Mélenchon par des accusations d’accointances avec l’antisémitisme. « Je pense qu’il y a une partie de la gauche qui est soit complaisante ou qui n’a pas pris conscience » de l’antisémitisme, juge Manuel Valls. Et de développer de la manière suivante : « Je pense que c’est théorisé au sein de la France Insoumise, notamment sur les questions de sécurité et de terrorisme. Quand votre oratrice principale c’est la députée Obono, dont on connaît aujourd’hui les prises de position, les textes qu’elle a écrits après les attentats de 2015 ou la grande manifestation du 2 janvier ; quand elle dit qu’elle a plutôt pleuré pour Dieudonné et pas pour les victimes de Charlie », explique encore Manuel Valls[5]. « Il y a plus grave parce que quand il y a des insultes, au fond, on peut parler d’un coup de sang. Mais quand Jean-Luc Mélenchon, dans son courrier démissionnant de cette mission, le justifie notamment parce que je serai l’ami de l’extrême droite israélienne »…

En cette nouvelle polémique, Jean-Luc Mélenchon fait référence à un cliché montrant une poignée de main entre Manuel Valls et la ministre de la justice israélienne Ayelet Shaked, élue du parti Le Foyer juif, connue pour ses prises de positions radicales sur la question palestinienne. « Quand je vais en Israël, je rencontre tous les responsables. Il y avait un colloque sur l’antiterrorisme. Il y avait le ministre de la Défense et celle de la Justice, dans un gouvernement israélien, tout le monde le sait, qui est un gouvernement de droite », justifie Manuel Valls, qui explique avoir par ailleurs rencontré « tous les responsables », tant à Ramallah qu’au parti travailliste israélien[6].

Mélenchon est-il violent envers les journalistes ?

Jean-Luc Mélenchon mâche rarement ses mots lorsqu’il s’en prend à certains hommes politiques, nous venons de le voir. Les réparties sont brutales, coupantes, nerveuses et agressives. Mais, et plus curieusement, lorsqu’il s’en prend à des journalistes ou lorsqu’il se sent attaqué par eux, nous voyons qu’il est également agressif, nerveux, brutal. C’est même une constante. Lorsque Mélenchon est agacé, qu’une question le dérange, qu’une remarque l’énerve, les propos sont assénés violemment, la charge est souvent rapide, souvent méprisante. Le tribun n’hésite pas à élever le ton et à pointer du doigt son interlocuteur et peu lui importe qu’il s’agisse de journalistes. Il cogne et il cogne encore et encore.

D’ailleurs, on a l’impression qu’il ne répond plus aux questions, qu’il ne veut plus expliquer une politique et en analyser les ressorts, comme s’il avait en face de lui, des ennemis de… classe sociale. D’ailleurs, les journalistes sont souvent désemparés, comme ils pouvaient l’être lorsqu’ils interviewaient en son temps Jean-Marie Le Pen. Et, lorsqu’ils sont interrogés après qu’ils aient été agressés verbalement par Mélenchon, les journalistes tentent quelquefois de se justifier, d’expliquer en quoi consiste leur travail et ils rappellent qu’ils sont là pour poser des questions. « Jamais à l’antenne, on est là pour régler des comptes avec des gens. Je ne vais pas vous faire le coup de l’objectivité, je pense que l’objectivité, c’est un but. Qu’on essaye d’atteindre sans arrêt. Bien sûr qu’on pense des choses. Bien sûr qu’on peut être maladroit, qu’on peut faire des erreurs. Mais, je pense que les erreurs que l’on peut faire, ne sont jamais des erreurs voulues. Ensuite, on a, peut-être pas une déontologie, parce que le mot est un peu…, mais, on essaye de faire les choses proprement. Et, c’est totalement malsain que les choses se polarisent comme ça[7] », explique, désabusée, Nathalie Saint-Cricq après avoir été insultée par Jean-Luc Mélenchon.

Pour illustrer mon propos, j’ai choisi cet exemple, parce qu’il me semble caractérisé. Sauf que là, il y a cette particularité et nous tenons à le souligner ici. Le journaliste ne se laisse pas démonter et tient tête à Mélenchon, ce qui doit l’énerver encore plus.

Donc, le 5 janvier 2011, Jean-Luc Mélenchon est l’invité du journaliste Nicolas Demorand, sur Europe 1 et un clash se produit, très brutal.

Que se passe-t-il ?

Lors de l’interview, Demorand remarque que Marine Le Pen revendique une posture populiste. Il demande alors à Jean-Luc Mélenchon, sans faire d’autres parallèles entre lui et elle, si ce point commun ne le dérange pas ? Surpris, Mélenchon dit ne pas savoir ce qu’est le populisme de gauche. Puis, il s’en prend subitement aux journalistes de l’Express qui l’avaient tancé sur le populisme et il lance « j’en ai assez que toutes ces belles personnes se donnent des grands airs en regardant le peuple ». Demorand ne se laisse pas impressionner et répond du tac au tac. « Le peuple qui ne vous a jamais élu, Jean-Luc Mélenchon. Enfin à des élections directes au suffrage universel. » Il n’en faut pas plus pour que Mélenchon explose de colère et énumère les mandats qui ont été les siens. Mais, il le fait en élevant le ton, en pointant du doigt le journaliste et en criant, sur le plateau.

Cela donne l’échange suivant, un vrai moment d’anthologie.

« – Alors, remballez vos grands airs et le mépris à l’égard du peuple…
– Ne me pointez pas du doigt. Vous, Jean-Luc Mélenchon.
– Je vous pointe du doigt parce que vous dépassez les bornes.
– Oui, oui c’est bon, on connaît – répond Demorand en faisant un geste de la main.
– On connaît quoi, s’il vous plaît ?
– On connaît la chanson.
– Vous n’avez pas le droit de me parler comme ça, crie Mélenchon. Vous ne m’impressionnez pas, parce que vous êtes derrière votre micro.
– Mais non, pas du tout.
– Alors, parlez-moi poliment, je suis un élu du peuple et je l’ai été, j’ai été élu au suffrage direct.
– Vous aussi parlez-moi poliment.
– À moins que vous décidiez que les élus qui ont été au suffrage indirect, vous les méprisez…[8]
– Est-ce qu’en 2012, vous allez aller devant le peuple ?, questionne une dernière fois Demorand.
– Je l’espère, ne serait-ce que pour vous clouer le bec.
– Eh bien, merci infiniment d’avoir été au micro d’Europe 1, il est 18h58…
Mais Mélenchon ne s’arrête pas et pointe à nouveau du doigt Demorand.
– Remballez vos grands airs sur les élus, je suis un élu du peuple au suffrage direct.
– C’est bon, on l’a bien compris et arrêtez de me pointer du doigt.
– Alors, vous n’avez qu’à pas prendre cet air-là.
– Ah ben, je ne prends pas d’air. »
Comment expliquer cette relation conflictuelle avec les journalistes ?

Pour Christophe Barbier, qui est un fin connaisseur du monde politique et journalistique, cette violence c’est la conception du monde selon Jean-Luc Mélenchon. « D’un côté, il y a le peuple. Le peuple, c’est lui et ses électeurs et en face du peuple, contre le peuple, au-dessus du peuple, il y a le système, et dans le système il y a les maîtres, la finance internationale et puis il y a les valets. Et les valets, c’est nous, les journalistes, tous ceux qui ne rejoignent pas le combat du peuple et du chef révolutionnaire Mélenchon. Et, lorsqu’un journaliste pose une question qui ne l’arrange pas, c’est donc un valet du système et il fait cela depuis 2012[9] ».

Cette explication peut paraître un peu rapide. Pourtant, il me semble que Christophe Barbier voit juste. Mélenchon défend une ligne politique et dans cette représentation du monde, il pense que les journalistes font partie d’un système qui serait là pour le discréditer. D’ailleurs, il le dit lui-même.

Dans une séquence mémorable et extraite du documentaire de Pierre Carles « Fin de concession » et publiée par TV Mag, Jean-Luc Mélenchon est invité à réagir à une interview d’un délégué syndical CGT de Continental. Cet entretien est mené par le journaliste David Pujadas, le 21 mai 2009. Pujadas demande au délégué syndical s’il regrette les violences qui ont été commises par des salariés ou des syndicalistes dans l’entreprise. Mélenchon commente. « C’est toujours le même mécanisme. Vous regrettez hein, comme j’ai vu avec Pujadas. Humiliez-vous, prosternez-vous, baissez la tête, baissez les yeux. C’est ce que nous ont toujours dit les puissants et eux, ce sont leurs laqués. Et, comme le disait Voltaire, le laquais en imitant les vices de ses maîtres, il a l’impression de s’approprier leur puissance. Et eux, c’est ça, c’est seulement ça qu’ils savent faire[10] ». Pas l’ombre d’une hésitation dans la bouche de Mélenchon, les propos tenus sont d’une dureté implacable et d’un royal mépris.

C’est comme cela et au nom de cette logique (de classe) que la violence s’exerce à l’encontre des journalistes. La journaliste Nathalie Saint-Cricq de France 2 est invitée « à aller se faire foutre[11] ». Sophie Lapix et Patrick Cohen (C’à vous) sont traités de « salauds[12] ». Il qualifie Laurence Ferrari de « perruche » et s’en prend également à Arlette Chabot, qualifiée elle-même de « sotte »[13]. David Pujadas est un « larbin » et un « salaud[14] ». Il se moque d’une journaliste de France 3 et imite son accent[15]. Il dit à Arlette Chabot d’aller au « diable[16] ».

On ne compte d’ailleurs plus les saillies agressives contre les médias et les journalistes.

Mélenchon peut-il être violent contre un cheminot ?

Si Jean-Luc Mélenchon s’en prend aux hommes politiques et à des journalistes, il peut tout aussi bien péter un câble, lorsqu’il est pris à partie par un simple manifestant.

Le 26 janvier 2017, Jean-Luc Mélenchon est à Périgueux, il en profite pour aller voir quelques cheminots qui sont rassemblés dans une petite rue.

Là, un homme le prend à partie, probablement un cheminot. Il lui dit que l’ancien patron de la SNCF va supprimer des emplois. Puis, il ajoute, « On vous attend au tournant qui que vous soyez. Gauche, droite, extrême-gauche, extrême-droite, on vous attend… On arrive à un point de rupture ». Et d’ajouter, « gauche, droite, vous ne nous connaissez pas ». Mélenchon, surpris, puis visiblement agacé, s’écarte de l’homme et fait quelques pas. Puis, il revient vers le manifestant et très énervé et en le tutoyant, lui assène : « Pourquoi tu me parles comme ça ? J’ai passé ma vie à vous défendre. Juge ma vie à vous défendre, juge ma vie. Alors, va voir les mecs de droite c’est eux qui vous ont mis dans la merde, c’est le PS qui vous a mis dans la merde[17] ».

Notons la rapidité de la scène et le fait qu’il mette sur le même plan la droite et le PS. Mais, voilà, Mélenchon une fois encore perd ses nerfs.

Comment expliquer cette réaction et cette soudaine impulsivité ? Pourquoi se sent-il ainsi visé et si personnellement ? Parce que le cheminot met sur le même plan la gauche et la droite ? Parce qu’il le prend à partie, lui Mélenchon ? Mais, alors, pourquoi Jean-Luc Mélenchon le prend-t-il à témoin des luttes qu’il a mené toute sa vie ? Pour signifier qu’il est constant dans son engagement ? Qu’il se serait sacrifié ? Que les combats ont été difficiles ? Pourquoi ne garde-t-il pas son calme ? Et plutôt que d’engager un dialogue avec ce cheminot qui visiblement n’en peut plus, pourquoi se met-il à crier ainsi ? Car il crie, le visage est fermé, le doigt est tendu. Pense-t-il que le cheminot est un ingrat ? Qui ne verrait pas comment il s’est/se serait dévoué pour le peuple et les travailleurs ? Son égo est-il subitement mis à mal ?

« Ma manière d’être est un signal, je suis le bruit et la fureur »

Rappelez-vous cette scène ahurissante. Jean-Luc Mélenchon se filme avec son téléphone portable et diffuse en direct la vidéo pour montrer qu’il est l’objet d’une perquisition à son domicile. Les images sont impressionnantes et elles défraient la chronique. « Ne me touchez pas, personne ne me touche, ma personne est sacrée, je suis parlementaire », s’énerve-t-il. Quelques heures plus tard, il arrive, entouré de caméras, au QG de la France Insoumise pour en découdre avec les agents de police qui examinent les locaux[18]. « Enfoncez-moi cette porte », vocifère-t-il dans l’escalier. « Au nom de quoi vous m’empêchez d’entrer dans mon local. La République, c’est moi », hurle-t-il à la figure d’un policier. Une fois que les militants sont entrés et se retrouvent nez à nez avec les policiers, le ton monte, un policier met un militant par terre. « Descendez de cette table, crie Mélenchon à un agent, vous salissez mon matériel ».

Plus tard, de cette scène ahurissante, il s’en expliquera.

« Dans la scène où l’on voit “la République c’est moi”, où l’on a fait des tee-shirts depuis et des plaisanteries. Bon cet homme me menace de son arme. Il me montre son petit truc tricolore. Et à ce moment-là, comment vous expliquer ? C’est ridicule, je sais bien. Mais, je suis rempli d’une indignation terrible, parce que la République, c’est moi, c’est pas lui. Je suis député qui suis maltraité à ce moment-là ou qui le ressent comme ça. Bon voilà. Mais, ça, cela a été des mouvements mais vous savez, je ne suis pas le premier dans l’histoire. J’ai des modèles qui m’ont souvent fait réfléchir ». Puis, il parle d’une biographie de Louis XI et rappelle que ce roi de France disait que sa langue lui avait coûté cher. « Je peux dire aussi que ma langue m’aura coûté cher. Mais, à d’autres moments, elle a été là à mon service pour tout d’un coup mettre plus grand que moi en scène. Qui étaient les idées que j’illustrais[19] ».

Comment un homme aussi cultivé que Mélenchon peut-il se laisser avaler ainsi ? Ne plus maîtriser ses colères, ne plus distinguer ce qui peut être dit, de ce qui ne doit pas l’être ? Le tribun qui aura consacré sa vie à mener d’innombrables luttes, au nom des causes qui sont les siennes et du peuple qu’il entend représenter et dont il serait l’émanation, ne donne qu’une piètre image de lui. Certes, il y a là aussi comme une figuration, une scénarisation, une mise en condition, une sorte de jeu étonnant. Il s’agit de faire avancer des idées politiques, de faire progresser une cause, de dénoncer les nantis et le système, d’apparaître comme le représentant du peuple, un peuple dont il sait qu’il est en colère. Il sait donc utiliser à bon escient les mots qui tuent ou les belles phrases. Il sait aussi que certaines expressions peuvent blesser et susciter une vive polémique. Mais, il lui faut faire mouche. Nous prétendons que le tribun pense ce qu’il dit et dit ce qu’il pense. Parce qu’il est aussi un tacticien, plutôt féroce.

Mais, il y a aussi cette agressivité, cette impulsivité, cette férocité, pour ne pas dire, cette brutalité. Mélenchon est une sorte de cocotte-minute, prête à exploser et toute en ébullition. Il me donne l’impression qu’il ne peut se contenir et parce qu’il ne peut se contenir, il en devient sa propre caricature. Comme le disait avec justesse Bernard-Henri Lévy, « cet homme, parti pour incarner le meilleur de l’esprit républicain, a décidé de se mettre à son compte et de devenir, ce faisant, le premier dans la décrépitude de son art politique[20] ».

Une question reste à poser. À un homme politique, on demande forcément la droiture et le calme, la maîtrise et l’éloquence. Sans maîtrise et sans calme, que deviendrait la France, si jamais Mélenchon devait y exercer le pouvoir un jour et y perdrait définitivement ses nerfs ?

Marc Knobel est historien, il a publié également en 2012, L’Internet de la haine (Berg International, 184 pages). Il publie chez Hermann en 2021, Cyberhaine. Propagande, antisémitisme sur Internet.


[1] Europe 1, 25 mars 2013.

[2] Le Monde, 24 mars 2013.

[3] L’Express, 24 avril 2013.

[4] Pauline Moullot, « Mélenchon a-t-il vraiment traité Valls de “nazi“ ? », Libération, 12 octobre 2017.

[5] Dans une note de blog intitulée « Pleurer. Organiser », publiée le 11 janvier 2015, alors qu’elle n’était pas encore députée, Danielle Obono écrit : « Au cours des dernières 72 heures, j’ai pleuré, un peu, beaucoup, quand même. J’ai pleuré, un peu, jeudi. En pensant aux 12 personnes mortes. Aux centaines d’autres qui ne seront pas pleuré-e-s. Aux flambées d’amalgames, d’attaques, d’insultes, d’humiliations, de violences et aux difficiles batailles à venir ». Elle ajoute : « J’ai pleuré, oui, mais en pensant aux ami-e-s et aux camarades qui sont devenu-e-s Charlie ». Elle dit aussi avoir pleuré en pensant « à toutes les fois où des camarades ont défendu, mordicus, les caricatures racistes de Charlie Hebdo. » Elle ajoute : « J’ai pleuré en écoutant pleurer ma Brune, qui a aimé Charlie, à 15 ans, il y a si longtemps maintenant. Je n’ai pas pleuré Charlie ».

Citons également le passage suivant : « J’ai pleuré en pensant à tous les reculs, toutes les défaites, tous les choix et les décisions politiques des 10-15 dernières années qui nous ont amenés à ce point (…) A toutes les fois où ma gauche s’est refusée de parler d’islamophobie, de ne serait-ce que prononcer le mot. Toutes les fois où elle s’est refusée à se mobiliser contre les lois islamophobes. Toutes les fois où des camarades ont défendu, mordicus, les caricatures racistes de Charlie Hebdo ou les propos de Caroline Fourest au nom de la « liberté d’expression » (des Blanc-he-s/dominant-e-s) ou de la laïcité « à la Française ». Mais se sont opportunément tu-e-s quand l’Etat s’est attaqué à Dieudonné, voire ont appelé et soutenu sa censure… Toutes les fois où des « camarades » nous ont sommé-e-s, nous les « islamo-gauchistes », de montrer patte blanche et d’affirmer avant toute autre chose que nous luttions bien contre l’antisémitisme. Toutes les fois que d’autres nous ont carrément, à mots plus ou moins couverts, traité-e-s d’antisémites. »
https://camaradobono.wordpress.com/2015/01/11/pleurer-organiser/

[6] Chalenges.fr, « Quand Jean-Luc Mélenchon traite Manuel Valls de “nazi” », 11 octobre 2017 et France Info avec AFP, « “Nazi”, “islamo-gauchiste”… La guerre Mélenchon-Valls en cinq actes », 12 octobre 2017.

[7] https://www.tf1.fr/tmc/quotidien-avec-yann-barthes/videos/melenchon-va-te-faire-foutre.html

[8] La pique de Demorand a souvent été utilisée par les détracteurs contre l’ancien sénateur PS élu au suffrage indirect.

[9] BFMTV, 18 octobre 2018.

[10] https://www.youtube.com/watch?v=8vy0M-NyiiI

[11] https://www.tf1.fr/tmc/quotidien-avec-yann-barthes/videos/melenchon-va-te-faire-foutre.html

[12] https://www.youtube.com/watch?v=bbHtKLlu0Oc

[13] https://www.dailymotion.com/video/xfb3qk

[14] https://www.youtube.com/watch?v=8vy0M-NyiiI

[15] https://www.leparisien.fr/politique/embarrasse-par-une-question-jean-luc-melenchon-se-moque-d-une-journaliste-17-10-2018-7921953.php

[16] https://www.lejdd.fr/Politique/Allez-au-diable-madame-Chabot-24109-3072740

[17] https://www.youtube.com/watch?v=mvD5xvPyj9c&t=65s

[18] https://www.lejdd.fr/Politique/jean-luc-melenchon-lors-de-la-perquisition-du-qg-de-la-france-insoumise-la-republique-cest-moi-3780923

[19] https://www.youtube.com/watch?v=Ex_j9_KHRpI

[20] Bernard-Henri Lévy, « Qu’est-ce qui fait courir Jean-Luc Mélenchon ? », Le Point, 29 mars 2017.

 

 

[Source : http://www.laregledujeu.org]

Né en 1941 dans une famille juive américaine, Paul Simon devient célèbre par son duo avec Arthur Garfunkel, un ami d’enfance. Sorti en 1986, inspiré de la musique sud-africaine (Jaiva) Graceland est le plus grand succès de la carrière solo de ce musicien, compositeur, producteur et arrangeur de musiques folk, rock, pop. Arte diffusera le 27 mai 2022 à 22 h 15 « Simon & Garfunkel – L’autre rêve américain » (Simon & Garfunkel: Traumwandler des Pop) de Jennifer Lebeau puis à 23 h 10 « Simon & Garfunkel – The Concert in Central Park » (Simon & Garfunkel: Konzert im Central Park 1981)  réalisé par Michael Lindsay-Hogg.  

Publié par Véronique Chemla

Né en 1941 dans une famille juive d’origine hongroise, Paul Simon devient célèbre dans les années 1960 par son duo avec Arthur Garfunkel, un ami d’enfance new-yorkaise.

Simon & Garfunkel
Les deux amis débutent dans un duo dénommé Tom and Jerry.

Avec talent et complémentarité, avec lyrisme ou simplicité, en mêlant gospel et musique andine, ils ont interprété la bande-son d’une génération.

Sounds of Silence (1966) – chanson interprétée durant la commémoration des attentats terroristes islamistes du 11 septembre 2001 -, Mrs Robinson (1967) – chanson de la bande originale de The Graduate de Mike Nichols -, Bridge over Troubled Water(1970), El Condor Pasa, Cecilia, TheBoxerBye Bye Love, Song for the Asking… demeurent à la fois caractéristiques des Sixties et des standards.

La décennie suivante marque la rupture du groupe vocal, qui se reforme en 1981 pour le célèbre concert à Central Park pour une tournée aux États-Unis en 2003, puis en Amérique et en Europe (2004) et en Asie.

Paul Simon poursuit sa carrière de musicien, à peine interrompue par son apparition dans Annie Hall de Woody Allen en 1977.

En 1986, sort Graceland, le plus grand succès, public et critique, de Paul Simon. Un album qui mêle des styles musicaux divers – pop, a cappella, isicathamiya, rock, zydeco et mbaqanga -, et dont l’un des plus célèbres titres est You Can Call Me Al.

Paul Simon est l’un des rares artistes, avec les Bee Gees, titulaires du copyright sur ses enregistrements.

Couronné d’un Grammy Lifetime Achievement Award, Paul Simon  a remporté douze Grammy Awards, dont trois dans la catégorie Album de l’Année, grâce à « Bridge Over Troubled Water » (1970) – intronisé en 1998 au Grammy Hall of Fame -, « Still Crazy After All These Years » (1976) et « Graceland » (1986).

Membre du Songwriters Hall of Fame, Paul Simon a été récompensé par le Johnny Mercer Award et « a été intronisé au Rock n’ Roll Hall of Fame à deux reprises, en tant que membre de Simon and Garfunkel et en tant qu’artiste solo ». « Mrs. Robinson » figure dans le Top 10 des plus grandes chansons du cinéma par l’American Film Institute. Paul Simon a également été honoré par le Kennedy Center en 2003 et a figuré dans la liste de Time Magazine des « 100 personnes les plus influentes qui façonnent notre monde » en 2006. En 2007, il « a été lauréat du premier Prix Gershwin pour la chanson populaire décerné par la Bibliothèque du Congrès américain. Ce nouveau prix, qui porte le nom des légendaires frères Gershwin, George et Ira, et rend hommage à l’impact profond et positif de la musique populaire dans la culture, est octroyé tous les ans à un compositeur ou un interprète pour l’ensemble de son œuvre ».

Les concerts dont Mr Simon est le plus fier ? Ses deux concerts au Central Park de New-York avec Art Garfunkel en 1981 et en tant qu’artiste solo en 1991, et sa série de spectacles à l’invitation de Nelson Mandela en Afrique du Sud – le premier artiste américain à jouer en Afrique du Sud après la fin de l’apartheid.

En 1998, sa « prestation sur le terrain du Yankee Stadium pour la célébration du monument en l’honneur de Joe DiMaggio (illustre jouer de football américain) est un précieux souvenir pour le très grand fan de Yankee qu’il est », comme son père.

Paul Simon est également le cofondateur du Children’s Health Fund (Fonds pour la santé des enfants) avec le Dr Irwin Redlener. CHF « offre des dons et des unités mobiles de personnel médical qui apportent des soins aux enfants pauvres et nécessiteux dans les régions urbaines et rurales à travers les États-Unis. Depuis sa création en 1986, il a fourni plus de 2 millions médecin / patient visites. Dans le sillage des ouragans Andrew et Katrina, il a été la source de soins de santé primaires pour les communautés décimées par les tempêtes. M. Simon a également soulevé des millions de dollars pour de bonnes causes aussi variées que l’AMfAR, The Nature Conservancy, The le Fonds pour les enfants emprisonnés en Afrique du Sud et Autism Speaks and The Joe Torre Safe at Home Foundation ».

Sur le site d’Arte

Arte diffusa le 24 juillet 2020 « Simon & Garfunkel – L’autre rêve américain » (Simon & Garfunkel: Traumwandler des Pop ; Simon and Garfunkel: The Harmony Game) de Jennifer Lebeau.

« Un demi-siècle après son enregistrement en 1970, ce documentaire captivant retrace l’histoire de « Bridge Over Troubled Water », l’ultime album, devenu culte, du duo formé par Paul Simon et Art Garfunkel. »

« Après avoir livré, en temps réel, la bande-son des incertaines années 1960, Simon & Garfunkel sortent en 1970 leur chef-d’œuvre, Bridge Over Troubled Water. L’album devient instantanément culte, notamment grâce à son titre éponyme, composé comme « un hymne sans prétention » par Paul Simon. Chanson la plus écoutée de l’année 1970 aux États-Unis, elle sera reprise par plus d’une cinquantaine d’artistes, dont Elvis Presley et Willy Nelson. »

« Cinquante ans plus tard, Jennifer Lebeau plonge dans les coulisses de l’ultime opus des deux musiciens du Queens, considéré comme leur plus réussi et entré dans la mythologie du rock’n’roll. Paul Simon et Art Garfunkel reviennent sur cette extraordinaire période créative de leur carrière, appuyés par des images d’archives inédites et de nombreuses anecdotes des producteurs et artistes qui ont gravité autour de leur duo. On y entend aussi, toujours avec le même plaisir, les tubes « Cecilia », « El condor pasa », « Bye Bye Love », « The Boxer » et « Mrs. Robinson », sans oublier, bien sûr, « Bridge Over Troubled Water », véritable hymne symphonique à l’entraide qui a marqué toute une génération, composé en quelques minutes seulement par un Paul Simon qui baignait alors dans le gospel. »

Arte diffusa le 24 juillet 2020 « Simon & Garfunkel – The Concert in Central Park » (Simon & Garfunkel: Konzert im Central Park 1981)  réalisé par Michael Lindsay-Hogg. « En 1981, après onze ans de séparation, Simon & Garfunkel se retrouvent le temps d’un gigantesque concert de bienfaisance à Central Park. Un morceau d’anthologie. À l’origine, Paul Simon devait fouler seul la scène. Ce concert gratuit, destiné à sensibiliser le public sur l’état dégradé du parc new-yorkais, s’est finalement transformé en retrouvailles mythiques. »

« Le 19 septembre 1981, une foule compacte de plus de 500 000 personnes assiste ainsi à la prestation pleine d’émotion du duo, reformé pour l’occasion sur le Great Lawn de Central Park. Onze ans après leur rupture, Paul Simon et Art Garfunkel, en osmose, y interprètent leurs plus grands succès (« Mrs. Robinson », « America », « Bridge Over Troubled Water », « The Boxer », « The Sound of Silence »…), ainsi que des morceaux issus de leur répertoire personnel, spécialement réarrangés pour l’occasion et joués avec un groupe de onze musiciens ».

« Sublimée par leur voix douce et pure, leur jeu détendu et parfaitement synchronisé, cette performance a donné lieu à un album lui aussi mythique, et a scellé à jamais l’histoire d’amour entre les deux gamins du Queens, devenus stars internationales du folk rock, et la ville de leur enfance. »

« Personne ne bouge ! Simon & Garfunkel » (Abgedreht! Simon & Garfunkela été rediffusé par Arte. « Avec leurs voix d’anges et leur folk sous anxiolytique, Paul Simon (le petit brun trapu) et Art Garfunkel (le grand blond filiforme) ont envoûté l’Amérique psychotique et psychédélique des sixties. De 1965 à 1970, le duo le plus dépareillé de la planète rock signe cinq albums devenus cultes, dont Sounds of Silence et Bridge over Troubled Water. Retour sur cette success story à guitares, avec un passage obligé par « Mrs. Robinson », chanson iconique du Lauréat de Mike Nichols, un gros plan sur la carrière solo de Paul Simon, amorcée en 1972, et une perle rare : en 1980, à la télé canadienne, Art Garfunkel est venu tout seul et raconte ses souvenirs d’enfance. Il a 39 ans et raconte ses souvenirs d’enfance. Pleins feux sur un duo folk aussi dissemblable que merveilleusement accordé, avec un passage obligé par « Mrs. Robinson », chanson iconique du « Lauréat », un gros plan sur la carrière solo de Paul Simon, amorcée en 1972″.

« Personne Ne Bouge ! Art Garfunkel se souvient… » (Abgedreht! Rare Perle: Art Garfunkel). « Nous sommes en 1980, Art Garfunkel est en solo sur le plateau de la télé canadienne. Il a 39 ans et évoque ses souvenirs d’enfance, ses promenades d’enfant chantant, son goût pour les statistiques, et dévoile le nom de groupe que Paul Simon devaient porter ».

« Abgedreht! « Die Reifeprüfung » von Mike Nichols – Ikone » (Personne Ne Bouge ! « Le Lauréat » de Mike Nichols – Icônea été disponible juqu’au 30 juin 2018. « En 1967, dans « Le Lauréat » de Mike Nichols, Dustin Hoffman explose dans le rôle d’un jeune homme paumé qui entame par désœuvrement une liaison avec une femme de l’âge de sa mère, la fameuse Mrs Robinson, qui aura même droit à sa chanson iconique. Comment les chansons de Simon et Garfunkel se sont-elles retrouvées dans ce film ? Marie Sauvion nous raconte tout. »

Graceland
« Retour avec Paul Simon  en Afrique du Sud sur les traces de son album « Graceland », qui avait suscité en 1986, en plein apartheid, une polémique désormais oubliée ».

Réalisé en 1986 avec des artistes sud-africains – le groupe Ladysmith Black Mambazo, Ray Phiri (guitare), Bakithi Kumalo (basse) et Isaac Mtshali (batterie) – et enregistré en partie à Johannesburg, « à une époque où le boycott de l’apartheid interdisait ce genre de collaboration, Graceland, neuvième album solo de Paul Simon, est aujourd’hui considéré comme le premier opus de la world music ». Paul Simon était « conscient des problèmes politiques en Afrique du Sud« . Harry Belafonte l’invite à contacter « l’ANC, et lui propose d’en rencontrer les dirigeants ». Mais Paul Simon croyait en la liberté de la musique.

« J’étais intimidé et fasciné à l’idée de partir en Afrique du Sud. J’ai été frappé par les très vives tensions raciales. Mandela était toujours en prison« , se souvient Paul Simon. Pour des artistes Noirs sud-africains, malgré les boycotts adoptés par les instances onusiennes, enregistrer avec un artiste américain célèbre constituait une chance à saisir pour faire connaitre leur musique, leurs parties chantées mêlant de petits cris. Et l’occasion d’apprendre lors des « ambiances incroyables », « séances géniales » en studios d’enregistrements. La distance a aussi contribué à la liberté de Paul Simon, loin des demandes stressantes de sa société discographique. Tenté d’écrire une chanson politique, Paul Simon se rend compte que ses collègues sud-africains chantent sur des « filles qui portaient des jupes ». A la différence de Peter Gabriel, il choisit des airs de musique pop pour des thèmes non politiques.

Loué par la critique et vendu à 14 millions d’exemplaires dans le monde, distingué par un Grammy Award en 1987, Graceland « avait été la cible d’une intense polémique, le chanteur s’étant vu accusé de servir de caution au régime blanc de Pretoria », pour avoir enfreint le boycott culturel de l’Afrique du sud. L’ANC a reproché à Paul Simon de ne pas lui avoir demandé l’autorisation avant d’enregistrer son disque. Une attitude liberticide qui suscite l’indignation de l’artiste américain.

Une tournée est envisagée avec Miriam Makeba, chanteuse africaine la plus célèbre et en exil. Sur scène : Blancs et Noirs chantent. Une « manière de dire au public quelles étaient ses convictions profondes« , explique Harry Belafonte. En Europe, des alertes à la bombe empêchent certains concerts. Des manifestations anti-apartheid se tenaient à Londres devant la salle de spectacles. Un « univers magique » est révélé au public. Graceland a « permis cette prise de conscience« , reconnait Paul Simon. À la demande de Nelson Mandela, l’ANC finit par inviter Paul Simon à se produire en Afrique du sud.

« L’immense succès remporté par cette fusion inédite de styles et de langues, amplifié ensuite par une tournée qui s’étalera sur cinq ans, ainsi que la visibilité offerte à des musiciens sud-africains alors ostracisés dans leur propre pays ont fait oublier depuis la controverse ».

« En marge d’un mémorable concert d’anniversaire organisé en Afrique du Sud, avec Paul Simon et ses complices d’alors, ce documentaire revient avec eux vingt-cinq ans après sur l’album et sa genèse. En compagnie d’anciens activistes anti-apartheid et de figures comme Quincy Jones, Paul McCartney, David Byrne, Peter Gabriel, Whoopi Goldberg, Oprah Winfrey ou Harry Belafonte, ce passionnant voyage aux sources de la musique interroge aussi le rôle de l’artiste et l’évolution du monde depuis un quart de siècle ».

Le 14 novembre 2016, Paul Simon a donné un concert à Paris.

Paul Simon: Words & Music

Skirball Cultural Center présente l’exposition Paul Simon: Words & Music. « Reimagined and expanded by the Skirball, the exhibition explores Paul Simon’s creative process and indelible mark on the nation and the world ».
« Making its only West Coast stop at the Skirball, Paul Simon: Words & Music—a traveling exhibition organized by the Rock and Roll Hall of Fame and Museum—illustrates how the legendary artist’s music has reflected social and cultural ideals. Based on exclusive interviews with the artist, the show walks visitors through Paul Simon’s life and music and illuminates his creative process. On view are instruments, records, sheet music, handwritten lyrics, photography, costumes, and stage maquettes, as well as listening stations and performance footage spanning Simon’s six-decade career. Exclusively for the Los Angeles presentation, Paul Simon: Words & Music includes additional artifacts from Simon’s private archive and a newly created music lab developed by the Skirball in cooperation with Roland Corporation. Developed upon exclusive interviews with the artist, the show traces Simon’s life and career and illuminates his creative process ».
« Exclusively for the Los Angeles presentation, Paul Simon: Words & Music will include many additional artifacts from Simon’s private archive and a newly created music lab developed by the Skirball in cooperation with Roland Corporation U.S. The exhibition opens at the Skirball on April 27 and runs through September 3, 2017″.
“Through his extraordinary storytelling and trailblazing exploration of sounds, Paul Simon has captured the spirit of our nation and our times, from disillusionment and fear to hope and compassion,” remarked Robert Kirschner, Skirball Museum Director. “Our presentation of Paul Simon: Words & Music invites one and all to celebrate the life and legacy of this prolific artist, whose irresistible songwriting and landmark collaborations with artists around the world have built bridges of understanding and opened minds and hearts.”
« Born October 13, 1941, in Newark, New Jersey, Paul Simon rose to become one of the most influential and successful musicians of the past fifty years. Simon’s fame and commercial success began as part of the duo Simon & Garfunkel, formed in 1964 with musical partner Art Garfunkel ».

« When the duo parted ways in 1970, Simon launched a successful solo career, recording three highly acclaimed albums over the next five years and solidifying his status as one of the great American composers of the twentieth century. In the decades since, Simon has created beautifully crafted music that draws on diverse American musical genres as well as African American, Latin, South African, and West African sounds—notably on his 1986 landmark album, Graceland. Simon’s wide-ranging body of work is equally beloved for its musical vocabulary—style, rhythm, and instrumentation—and its compelling and poetic lyrics ».

« Paul Simon (b. 1941) has spent his life making music. From his first compositions as a teen and his celebrated work in Simon & Garfunkel to his transformative collaborations with world musicians up to and including his current work, Simon’s evolution has been grounded in a lifelong quest to find the words, music, and rhythms that connect most deeply with listeners. Through his songs, he has captured the story of generations and the mood of the nation, from disillusionment and fear to hope and compassion. As the exhibition reveals, he stands as a sterling example of the power of music to reflect social and cultural ideals and to communicate them to the rest of the world ».

« In choosing Simon among its “Greatest Songwriters of All Time,” Rolling Stone hailed, “If Paul Simon’s career had ended with the breakup of Simon & Garfunkel in 1970, he would still have produced some of the most beloved songs ever. … But Simon was just getting started. The quintessential New York singer-songwriter, he switches between styles effortlessly with as much attention to rhythm as melody, a rare quality among artists who came of age in the folk era. Over the decades, his music has incorporated Tin Pan Alley tunecraft, global textures, gentle acoustic reveries, gospel, R&B and electronic music, all without diluting his core appeal as an easeful chronicler of everyday alienation.”“It’s absolutely true that music brings people together in a way that they can’t find in any other form. It’s nonverbal, and it goes to something that’s deeply ingrained in our DNA. It’s a really powerful force.”—Paul Simon

« Simon has earned sixteen Grammys for his solo and collaborative work—three of which were for Album of the Year (Bridge Over Troubled Water, Still Crazy After All These Years, and Graceland)—as well as a Lifetime Achievement Award. He is one of a small group of two-time inductees into the Rock and Roll Hall of Fame: he was inducted in 1990 with Art Garfunkel and again in 2001 as a solo artist. In 2002, Simon was a recipient of the Kennedy Center Honors. In 2006, he was among the “TIME 100,” TIME magazine’s prestigious annual list of the “100 men and women whose power, talent, or moral example is transforming our world.” In 2011, Rolling Stone magazine named Simon one of the “100 Greatest Guitarists,” then named him one of the “100 Greatest Songwriters of All Time” in 2015. Simon was the first recipient of the Library of Congress’s Gershwin Prize for Popular Song in 2007″.
« Paul Simon: Words & Music at the Skirball Cultural Center is organized chronologically, with themed sections that cover Simon’s early years and Simon & Garfunkel period, his acclaimed solo work since 1971, and his songwriting process ».
« In the newly developed music lab, created exclusively by Roland Corporation U.S. for the Skirball, visitors will experience Simon’s recordings firsthand through various interactives. Music fans will be invited to keep the beat to “Cecilia” in a communal drum circle, manipulate tracks for “Me and Julio Down by the Schoolyard” and “Wristband” using mixing equipment, and more ».
« The Skirball’s presentation of Paul Simon: Words & Music expands on the original exhibition and includes many never-before-exhibited or rarely exhibited items from Simon’s own archives. Highlights include:
• Handwritten manuscript lyrics and lyric developments for “Mother and Child Reunion,” “American Tune,” “50 Ways to Leave Your Lover,” and “Diamonds on the Soles of Her Shoes,” « The Boxer » scrawled on an in-flight magazine, an early draft of « Mrs. Robinson » on an envelope, and the first-ever display of « Hearts and Bones. »
• Music sheets for “Bridge Over Troubled Water,” incorrectly titled « Like a Pitcher of Water » by arranger Ernie Freeman.
• Original pressings of 45 RPM singles of « America » and “El Condor Pasa.”
• Fan letters written to Simon after the 1969 television special « Songs of America. »
• Never-before-displayed photographs of Simon from his personal archives.
• Hand-colored photograph by Edie Baskin of Simon in the famous Saturday Night Live turkey outfit.
• Simon’s Kennedy Center Honors medal.
• Simon’s Library of Congress Gershwin Prize for Popular Song, of which Simon was the very first recipient.
• « We are the World » sheet music signed by the artists.
The exhibition also includes popular items displayed in the original Rock and Roll Hall of Fame and Museum exhibition, including:
• Stage maquette from Simon & Garfunkel’s famed concert in Central Park.
• Yamaha acoustic guitar used during the recording of Graceland.
• Simon’s very first guitar, given to him on his thirteenth birthday by his father and used during his early musical career.
• First recording contract with Big Records signed by Simon’s parents
• Simon’s copy of the rare LP of Simon & Garfunkel’s first album (when they were known as Tom & Jerry), Hey Schoolgirl, whose title track represented their first hit.
• Simon’s Saturday Night Live « Five-Timers Club » jacket.
• Several of Simon’s Grammy Awards.
• Media stations where visitors can watch interviews with the artist conducted specially for the exhibition, concert footage, and clips from Simon’s Saturday Night Live appearances ».
« Related Film Screening and Rare Evening Gallery Hours
On Friday, May 12, at 8:00 p.m., the Skirball presents a screening of the Emmy-nominated documentary Under African Skies, which traces the turbulent origins and lasting impact of Paul Simon’s landmark album Graceland. Prior to the screening, the public is welcome to enjoy rare evening Museum hours and gain free admission to Paul Simon: Words & Music. The exhibition will be open from 6:00 p.m. through 10:00 p.m. Reservations for the late-night event and ticket sales for the film screening will open in mid-April on skirball.org ».
« PAUL SIMON: WORDS & MUSICWAS CURATED BY THE ROCK AND ROLL HALL OF FAME AND MUSEUM, CLEVELAND, OHIO.
THE EXHIBITION AND ITS RELATED EDUCATIONAL PROGRAMS AT THE SKIRBALL CULTURAL CENTER ARE MADE POSSIBLE IN PART BY SUPPORT FROM THE FOLLOWING DONORS:
The Material World Foundation
Steve Tisch
ALONG WITH GENEROUS SUPPORT FROM THE FOLLOWING DONORS:
Sandy and Hank Abouaf
Bloomberg Philanthropies
Stephanie and Harold Bronson
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Fischer Family Foundation
Shari and Richard Foos
Gang, Tyre, Ramer & Brown Charitable Foundation
David Geffen Foundation
Hillside Memorial Park and Mortuary
Karsh Family Foundation
Linda and Michael Keston
Suzanne and Dave Larky
Live Nation
Monterey International Pop Festival Foundation
Rock-It Cargo
Roland Corporation U.S.
Skirball Volunteer Service Council
Sony Music’s Legacy Recordings
Tiebreaker Productions/Forest Hills Stadium
MEDIA SUPPORT PROVIDED BY:
Los Angeles magazine
LA Weekly
About the Skirball

The Skirball Cultural Center is a place of meeting guided by the Jewish tradition of welcoming the stranger and inspired by the American democratic ideals of freedom and equality. We welcome people of all communities and generations to participate in cultural experiences that celebrate discovery and hope, foster human connections, and call upon us to help build a more just society ».

 
« Simon & Garfunkel – L’autre rêve américain » de Jennifer Lebeau
États-Unis, SME Production, 2011, 53 min
Sur Arte les 24 juillet 2020 à 22 h 25, 25 juillet 2020 à 5 h 40, 2 août 2020 à 0 h 25 et 8 août 2020 à 7 h 45, 27 mai 2022 à 22 h 15, 30 mai 2022 à 2 h 45, 3 juillet 2022 à 16 h 25

Disponible du 17/07/2020 au 21/10/2020
Disponible du 20/05/2022 au 24/08/2022
Visuel : © Whight Light TV

« Simon & Garfunkel – The Concert in Central Park« de Michael Lindsay-Hogg
États-Unis, Peregrine Productions, Above Average Productions, 1982, 87 min
Sur Arte les 24 juillet 2020 à 23 h 20 et 1er septembre 2020 à 5 h, 27 mai 2022 à 23 h 10, 13 juin 2022 à 5 h, 22 juin 2022 à 5 h
Disponible du 17/07/2020 au 21/10/2020

Disponible du 20/05/2022 au 24/08/2022
Visuels : 
Simon & Garfunkel: Konzert im Central Park 1981
© White Light Int. Media Ltd

« Personne Ne Bouge ! Art Garfunkel se souvient… » 
France, 2017, 36 min.
Sur Arte le 30 décembre 2018 à 5 h, disponible jusqu’au 30 juin 2018.

(Personne Ne Bouge ! « Le Lauréat » de Mike Nichols – Icône
Sur Arte disponible juqu’au 30 juin 2018.

Du 27 avril au 3 septembre 2017
À The Skirball Cultural Center
2701 N. Sepulveda Blvd. Los Angeles, CA 90049
Tel. : (310) 440-4500
Du mardi au vendredi de 12 h à 17 h. Vendredi de 12 h à 17 h, samedi et dimanche de 10 h à 17 h

 

Paul Simon « Graceland » – Retour aux sources africaines, par Joe Berlinger
2011, 83 min
Sur Arte les 27 février à 22 h 35 et 2 avril 2016 à 1 h 05, 10 juin 2018 à 5 h 50, 30 décembre 2018 à 5 h.
Visuels :
Paul Simon backstage at the Philharmonic Hall, Lincoln Center, New York, 1967. Photograph by Don Hunstein. Courtesy of Sony Music Entertainment.
Paul Simon, New York, 1975. Photograph by Edie Baskin
Paul Simon at the Concert in Central Park, 1991. Photograph by Nick Elgar. Courtesy of Paul Simon Archive
Paul Simon’s first acoustic guitar, made by Stadium. Collection of Paul Simon
“Mrs. Robinson” early lyric development, c. 1967, New York, New York. Collection of Paul Simon.
“50 Ways to Leave Your Lover” lyrics manuscript, 1975, New York, New York. Collection of Paul Simon.
Paul Simon’s Grammy Award, for Album of the Year, 1975: Still Crazy After All These Years. Collection of Paul Simon
“The Boxer” early lyric development, handwritten by Paul Simon on United Airlines Mainliner Magazine, Volume 12, N0.11, November 1968. The lyrics are written on an article by Richard H. Gratiot entitled « Davi Jones and the Crowd.” Collection of Paul Simon.
Paul Simon notepad featuring handwritten lyric development for « Graceland », with cover page dated 3/30/85. Collection of Paul Simon.
Gershwin Prize for Popular Song awarded to Paul Simon, 2007, Washington, DC. Collection of Paul Simon.
Paul Simon, 2000. Photo by Lynne Goldsmith. Courtesy of Paul Simon Archive.
Gershwin Prize for Popular Song awarded to Paul Simon, 2007, Washington, DC. Collection of Paul Simon.
Paul Simon’s first acoustic guitar, made by Stadium. Collection of Paul Simon.
Paul Simon with Ladysmith Black Mambazo during the Graceland tour (left to right: Joseph Shabalala, Miriam Makeba, Okyerema Asante, Paul Simon, and Ray Phiri), Zimbabwe, 1987. Photograph by Luise Gubb. Courtesy of Paul Simon Archive.
Paul Simon, 2000. Photo by Lynne Goldsmith. Courtesy of Paul Simon Archive.

 

Les citations proviennent d’Arte et du site de Paul Simon.
 
Cet article a été publié le  27 février puis les 16 novembre 2016, 1er mai et 2 septembre 2017, 10 juin et 28 décembre 2018, 23 juillet 2020.
[Source : http://www.veroniquechemla.info]

L’executiu balear reclama a Espanya que es respecti el nom i la unitat del català

El govern espanyol s’ha empescat una nova denominació per a la llengua pròpia de les Illes Balears i ha qualificat, aquest cop, el català com a baleà. Ho ha fet al web oficial de la campanya La seguretat salva vides, del Pla Nacional de Sensibilització en Seguretat i Salut per al Sector Pesquer, que depèn del Ministeri de Treball, Migracions i Seguretat Social.

En aquest web, els usuaris podien descarregar-se el material en sis idiomes: castellà, català, baleà, basc i valencià. El contingut en català, baleà i valencià, però, estava en la mateixa llengua. El Ministeri va retirar el menú en la nova llengua al cap d’unes hores.

Aquest episodi recorda una altra iniciativa peculiar, en aquella ocasió, del grup parlamentari d’Unides Podem (UP) al Congrés dels Diputats espanyol, que l’any passat va tenir la pensada de presentar unes esmenes en les quals reclamava que s’anomenés “balear” la llengua catalana parlada a les Illes Balears.

La nova denominació de la llengua del govern espanyol, a part de provocar burles a les xarxes socials, ha causat la indignació del govern balear, que a través de la Direcció General de Política Lingüística (DGPL) s’ha queixat a l’executiu de PSOE i Unides Podem del fet que “impulsi la fragmentació lingüística utilitzant denominacions diverses per referir-se a la llengua catalana, incloent-ne d’inventades i amb grafies no normatives”.

La DGPL retreu al govern espanyol que “a més de distingir habitualment entre català i valencià, en contra de criteris científics i de la jurisprudència dels tribunals espanyols, el Ministeri de Treball, Migracions i Seguretat Social ofereix la versió lingüística en “baléà””, una denominació que “no s’ajusta ni a la normativa ni a cap nomenclatura popular, i a més s’ofereix escrita en una ortografia no acadèmica”.

El govern balear ha fet gestions per aclarir els fets i exigir una rectificació i l’adequació a la llei i a la ciència. “Les institucions oficials s’han de referir a la llengua pròpia de les Illes Balears com a “català” o, si ho considera necessari, i seguint el criteri del Consell d’Europa, com a “català/valencià”, per evitar oferir dues versions lingüístiques idèntiques sota etiquetes diferents que poden donar peu a interpretar que es tracta de dues llengües diferents”, remarca l’executiu.

També ha expressat el seu rebuig al menyspreu a la llengua pròpia l’Obra Cultural Balear (OCB), que ha denunciat que “és intolerable que un govern promogui denominacions acientífiques”. La Plataforma per la Llengua ha demanat al govern espanyol que “deixin d’inventar llengües i, de pas, s’aturi la fragmentació del català”.

 

[Font: http://www.diaridelallengua.cat]

Pour les néophytes qui iront voir le film ELVIS de Baz Luhrmann, l’écrivain Bruno de Stabenrath raconte pourquoi l’Amérique, le rock et son héraut flamboyant l’ont influencé.

Le portrait du comédien qui incarne Elvis Presley au cinéma mis côté à côte d'un portrait d'Elvis.

Le comédien Austin Butler, qui incarne Elvis dans le film de Baz Luhrmann et Elvis Presley avec son fameux blouson en cuir noir.

Par Bruno de Stabenrath

Suis-je un bon public ? Mon esprit critique s’évanouit-il lorsque se rappelle à ma mémoire le souvenir des paradis perdus ? Elvis, le mythe éternel de ma jeunesse en fait partie : sa voix, son physique, sa musique, ses chansons, l’évocation syncopée d’une Amérique fifties au tempo fracassant du rock, des somptueuses Cadillac 59 Eldorado pourpre et des belles gosses rousses ou blondes, aux poitrines insolentes et aux lèvres pulpeuses rouge cerise. Elvis a inventé l’adolescence et il a ensoleillé la mienne. Moi, rebelle de bonne famille et chanteur crooner, j’ai pensé, cela peut être un projet sinon une direction et presque un avertissement : tu veux être une star ? Plus dure sera ta chute… Protège tes arrières, évites les seringues souillées, l’alcool frelaté, les putes avariées et les groupies mineures… Surtout, ne fais pas de tes errances, les défroques du génie incompris. On a les mentors qu’on mérite. N’oublie jamais que la vieille histoire du rock n’roll s’est déglinguée en 1958, lorsque le G.I Presley est parti servir sa patrie en Allemagne.

Plus tard, la fin de vie d’Elvis fût terrifiante : en tenue de scène combinaison lamée rutilante, il se transforma en Big Mac baroque, en pachyderme boursouflé, larmoyant de sueur, suintant les larmes, l’eau de toilette Fabergé et le beurre de cacahuètes. Le caruso du vieux sud filait droit vers la mort à bord de ce « Mystery Train » fatidique qu’il avait tant chanté. L’amour l’avait tué quand Priscilla, son épouse, l’avait quitté pour Mike Stone, son prof de karaté hawaïen.

Aussi, lorsqu’un film, un biopic inattendu ou un documentaire (Netflix) évoque pour la énième fois la carrière du roi du rock, je suis sur mes gardes. Qu’ai-je donc à apprendre que je ne sais déjà ? Ce type fait partie de ma famille, alors ?

Au départ, le sujet, me semble-t-il, est bon et mérite notre indulgence… (il s’agit d’Elvis quand même, pas de Dick Rivers ni de Patrick Topaloff) et davantage, lorsque le script se trouve revitalisée par une nouvelle et jeune équipe (producteur, réalisateur), remasterisé, scénarisée en une dramaturgie originale, un point de vue inédit et servi par un casting sans failles… Bingo ! Je tombe dans le panneau, ravi, ému et dépucelé encore… Le King me tue…

Car voilà, bientôt sur les écrans, ELVIS, le film australo-américain, réalisé par Baz Luhrmann, avec le jeune Austin Butler dans le rôle-titre et l’incontournable Tom Hanks, dans la peau du colonel Parker, producteur manipulateur du King. On découvre ainsi, la relation intense, mitigée, conflictuelle entre l’impresario et son poulain. Priscilla est interprétée par l’émouvante Olivia de Jonge et les bandes masters ont été remixées avec la voix originale (et l’accord de la Presley Enterprise Limited).

Après la projection, j’ai eu une révélation :

– Une chose est sûre, me suis-je dit. Là où il se cache, et sûrement aux states, le fugitif Xavier de Ligonnès va se précipiter dans le premier cinéma, applaudir le héros de notre jeunesse versaillaise. Xavier se rappellera-il, que je conserve toujours sa collection de 33 tours d’Elvis qu’il m’avait offerte avant de partir à l’armée ?

Se souviendra-t-il de ce moment pénible – qui le fit beaucoup rire – lorsqu’un été 1993, je fis un pèlerinage à Graceland, la propriété de Memphis où était enterré Elvis et ses parents. Il faisait une chaleur torride ce jour-là, et profitant d’un groupe de touristes VIP, j’accédais au mausolée couvert de fleurs et tapissé de bibelots commémoratifs. En voulant m’approcher d’une statuette à l’effigie du king, érigée sur la sépulture en marbre, je fus stoppé par une mamie obèse aux cheveux violets :

– Ne marche pas sur la tombe d’Elvis, aboya-t-elle.

Zut ! J’avais gaffé et commis un sacrilège ! Quinze bibendums mâles et femelles, en chemise hawaïenne et en tong me jaugeaient avec mépris et indignation…

Si encore j’avais chaussé des « Blue Suede Shoes »… Ah, ces français…

Pour les néophytes qui iront voir ce très beau film d’ELVIS, et pour la jeune génération de la RDJ, j’aimerais vous raconter entre les lignes et entre les notes, pourquoi et comment, l’Amérique, le vieux sud, le rock et son héraut flamboyant, ont influencé ma vie, mes métiers, mon écriture.

Bruno de Stabenrath, le Elvis Presley français.

Bruno de Stabenrath, le « Elvis Presley français ».

Rock n’roll story – 1954/1958 :

Quelques mois après la mort de Hank Williams âgé de 29 ans – une des premières grandes stars de la musique country, retrouvé raide et froid, sur la banquette arrière d’une Cadillac bleue, modèle 49, non loin de là, à la frontière de la Virginie – un nouveau monde s’éclairait, en cette aube de janvier 1953. Désormais, plus rien ne serait pareil. Un nouveau son, une nouvelle musique, une nouvelle idole.

Le rock and roll trace son premier sillon fertile au cours d’une journée torride, quelque part dans le Sud profond, le 5 juillet 1954, dans le Studio Sun à Memphis, état du Tennessee ; il est dirigé par le producteur et agent, Sam Philips, quand un jeune Blanc gominé de 19 ans, Elvis Presley, enregistre une vieille chanson d’Arthur Big Boy Crudup datant de 1943, « That’s all Right Mama ». Sur un tempo binaire Rockabilly, avec Scotty Moore à la guitare et Bill Black à la contrebasse, l’Amérique, la terre promise, découvre la voix chaude, lancinante et syncopée d’un inconnu nommé Presley.

Plébiscité par les disc-jockeys, dont Bob Neal et Alan Freed, qui, déjà en 1951, animait la première émission radio « The Moon Dog Rock and roll House Party », le titre d’Elvis envahit les ondes et grignote peu à peu, les territoires du rhythm and blues, du boogie-woogie et du Doo-Wop, jusqu’ici réservé aux artistes noirs : Fats Domino, Ray Charles, Little Richard, Big Joe Turner, les Moonglows, Jimmy Reed, Bo Diddley, Muddy Waters, Chuck Berry…

Ce sont eux, les précurseurs, les mèches de dynamite, mais l’Amérique puritaine, conservatrice et raciste, les cantonne aux dancings de la Nouvelle Orléans, aux honky-tonks du Mississippi ou aux clubs de Harlem.

Le rock avec ses prêcheurs turbulents n’est pas vraiment en odeur de sainteté et ses heures semblent comptées. On lui préfère les big bands de Sinatra, la gentille country, les voix sirupeuses de Pat Boone, Ricky Nelson ou de Tommy Steele. Taxées de musique obscène et lascive par les masses bien-pensantes, les pouvoirs politiques et les industriels du disque, les chansons d’Elvis se font rapidement censurer par les programmateurs de radios, car ils pensent que ce dénommé Presley est noir !

Il faudra attendre le 9 septembre 1956 et son apparition à la télévision avec « Don’t Be Cruel » au Ed Sullivan Show (50 millions de spectateurs), pour inverser la vapeur et rallier le Nord avec le Sud, où Elvis le Pelvis qui enchaîne les tournées, cartonne depuis longtemps en concert dans les États sudistes.

Sa bonne bouille, ses déhanchements et ses cils charbonneux, sans vraiment rassurer les parents, déclenchent l’hystérie des jeunes filles et l’adhésion des ados. Hollywood et la Paramount lui font des ponts d’or. Il tourne Love me Tender, le colonel Parker devient son manager et le poulain sauvage ne le restera plus très longtemps.

En attendant, derrière lui, s’engouffre le fameux cru du rock n’roll 1955 : Eddy Cochran, Buddy Holly, Roy Orbison, Johnny Cash, Gene Vincent, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, Bill Haley…

Quand, en 1958, il part faire son service militaire en Allemagne, à la base de Friedberg, le soldat Elvis a le cœur brisé : il vient de perdre sa mère, Gladys, décédée le 14 août à l’âge de 46 ans d’une cirrhose du foie. Le choc est rude, et le séjour forcé en RFA interrompt provisoirement sa carrière de rock star débutante, déjà récompensée de 23 disques de platine : (en décembre 1956, le Wall Street Journal annonce que les produits dérivés d’Elvis ont rapporté vingt-deux millions de dollars) et celle d’acteur (il a déjà joué dans quatre films, dont le très bon Jailhouse Rock et l’excellent King Creole – il en tournera trente et un jusqu’en 1969).

Pendant son séjour à Bad Nauheim, Elvis fait trois rencontres capitales : celle d’une jeune beauté de 14 ans, Priscilla Beaulieu, fille de commandant (qu’il épousera le 1er mai 1967, à l’hôtel Aladdin de Las Vegas), celle du Major X, qui lui fera découvrir les amphétamines et autres benzodiazépines, afin de supporter les nuits polaires des bivouacs, et enfin celle du karaté (il obtiendra sa ceinture noire, premier dan, le 21 mars 1960).

Le 15 juin 1959, Elvis vient en perm’ à Paris et s’installe à l’hôtel Prince-de-Galles avec deux copains, Charlie Hodge (guitariste, chanteur), qui restera à ses côtés jusqu’à la fin de sa vie, et Rex Mansfield. À son retour aux États-Unis, le 1er mars 1960, le sergent Presley enchaîne à Hollywood les tournages de films sans intérêt – hormis Viva Las Vegas ! d’où fut extrait le single 45-tours éponyme, composé par un duo prolifique : Mort Schuman, du Lac Majeur, et Doc Pomus, du « Bronx », et dont les bandes originales proposent des chansons pathétiques (GI Blues, Vivo dinero y amor, Yoga Is as Yoga does, Puppet on a String, The Bull Fighter Was a Lady, Chatanooga Kiss…).

Le soldat Elvis Presley, muni d'une arme, s'entraîne en Allemagne.

Elvis Presley lors d’un entraînement à Grafenwöhr. Allemagne, 1958.

My baby left me  – 1968/1977

L’été 1968, cloîtré entre la mafia de Memphis, ses gardes du corps et le colonel Tom Parker, son imprésario machiavélique, Elvis tourne en rond. C’est le début du Flower Power, et il ne trouve pas sa place dans la nouvelle génération. Il boude la pop music, qui le considère comme un has been. Les assassinats de Martin Luther King, Robert Kennedy, Bobby Hutton, Sharon Tate (l’épouse de Roman Polanski) aggravent sa parano et, quand il regarde, à la télé, la retransmission des nombreux festivals de rock avec hippies fumeurs non violents, il dégaine son 44 magnum et explose l’écran Sony.

Au cours de l’été 1968, Elvis prépare, la mort dans l’âme, un show TV pour Noël, avec l’éternel sapin, la chorale de mioches qui chouinent sur Santa Claus, quand un jeune producteur de 23 ans, Steve Binder, spécialiste des shows de rock comme Hullabaloo, le convainc – en dépit de l’opposition farouche du colonel Parker – de tenter quelque chose de vraiment nouveau.

Ce sera le NBC Special Show, qui sera diffusé le 3 décembre 1968 (The Elvis 68’s Come-Back Special), avec un indice d’Audimat de 74,6% et, quelques mois plus tard, le 12 juillet 1969, LA couverture du magazine Rolling Stones et la consécration unanime de tout le show-business américain.

Le rock et son roi sont de retour ! Elvis est sublime : en total look cuir noir, blouson, pantalon, boots, assis sur une scène centrale, carrée, entouré de Scooty Moore, Charlie Hodge, il inaugure le premier « unplugged » de l’histoire du show-business.

Elvis est chaud bouillant ! Adieu le cinoche qui craint, revoilà la scène et les concerts live et toujours sold out, avec une première série de 57 spectacles à l’International Hotel de Las Vegas, contrat qui sera reconduit jusqu’au 12 décembre 1976. Avant d’attaquer le Nevada, Presley tourne le documentaire monumental « That’s The Way It Is » où on découvre la star en répétition, et en impro gospel, Elvis au piano, harmonisant avec ses choristes.

Les hits s’enchaînent : Suspicious Mind, You’re Always on my Mind, Burning Love, American Trilogy, Moody Blues…

Culotté et shooté jusqu’aux oreilles, il déboule en décembre 1970 à la maison blanche sans prévenir et interpelle le président Nixon sur les ravages de la drogue et son intention d’agir en tant qu’agent infiltré ; son but est d’obtenir l’insigne officielle du bureau des narcotiques afin de compléter sa collection et surtout de pouvoir prendre l’avion « armé » et sans le risque que sa mallette personnelle bourrée de médicaments et de drogues diverses soit contrôlé par les douanes.

Le président américain Richard Nixon et Elvis Presley se serrent la main.

Le président américain Richard Nixon et Elvis Presley se serrent la main.

À cette époque, Elvis, l’homme aux cinquante millions de fans et aux neuf cents chansons, est un fantôme. Sa consommation quotidienne de pilules magiques est effarante : Dilaudid, Fentanyl, Valium, Quaalude, codéïne, Valmid, Placidyl, etc. Il pèse cent kilos, sa femme Priscilla l’a quitté pour un champion de karaté métis mi-hawaiien, Mike Stone (quand Elvis apprend que Lisa Marie, sa fille de 3 ans, dort dans la chambre du couple adultère, il ordonne un contrat sur la tête de Stone) mais Jerry Schilling, son garde du corps, l’en dissuade.

Le 26 juin 1977, au cours de son dernier concert au Market Square Arena d’Indianapolis, il donne une interprétation poignante d’Unchained Melody.

Le 16 août, chez lui, à Graceland, dans sa propriété de Memphis, juste après minuit, Elvis décide d’aller voir son dentiste, revient, traîne, joue au tennis avec Ginger Alden, sa petite amie de 22 ans. Vers 7 heures du matin, tandis qu’elle se couche et s’endort, lui s’installe sur le trône des toilettes dans sa salle de bains. À son réveil, vers 14 heures, Ginger le retrouvera raide mort, face contre terre, le pantalon de pyjama aux chevilles et une bible dans la main. Verdict officiel du coroner : crise cardiaque. À 15 heures, l’annonce de son décès a fait le tour du monde : l’Elvismania peut commencer et les ventes de disques, s’envoler.

Le roi est mort, vive Elvis !

 

[Source : http://www.laregledujeu.org]

Escrito por André Márcio Neves Soares

O que uma passagem do filme Batman Begins e as máscaras usadas nessa pandemia da covid-19 têm a ver com a invasão russa da Ucrânia? Resposta: as múltiplas facetas de todos nós, seres humanos.

Mesmo para quem viu, não custa relembrar uma cena quase no final do primeiro filme da trilogia sobre o herói fantasiado de morcego, o Batman, em que a mocinha, chamada Rachel, beija Bruce Wayne e diz que teve esperanças quando ele retornou à cidade, até descobrir a máscara que ele usava. Wayne então diz que o “Batman” é apenas um símbolo, mas Rachel o interrompe afirmando que não era à máscara do “Batman” a que se referia, mas ao próprio rosto de Wayne, pois este era o verdadeiro rosto que todos agora temiam. E acrescenta que, quando tudo isso acabar, talvez um dia ela possa recuperar o homem que amou no passado. Melodramático? Um pouco! Mas essa passagem emblemática do filme pode dar-nos algumas pistas das inúmeras facetas dos seres humanos reveladas durante essa pandemia e, para piorar tudo, nesse conflito que estourou no leste europeu.

É fato que não paramos para pensar sobre as consequências dessa pandemia, para além de todos os horrores que a nossa espécie tem vivenciado, de ordem médica, sanitária, psicológica, fisiológica, financeira etc. Na verdade, a máscara que seremos obrigados a usar ainda por muito tempo, quiçá para sempre, servirá também de escudo para esconder ainda mais nossas já furtivas demonstrações de emoção diante de momentos indesejados. A máscara da covid-19 será a desculpa perfeita para a ausência de qualquer deslize que nos denuncie enquanto ser emotivo, numa sociedade que prima pela aparência de todos e de tudo. Sem perceber, estamos sendo treinados por um sistema global de vigilância e segurança para jamais pararmos de movimentar-nos, mesmo diante das maiores dificuldades. O tempo da reflexão e da conexão com a natureza, com nossos semelhantes e com o mundo mesmo, terminou.

Nesse sentido, se antes algum trejeito facial denunciava ao mundo a nossa irritação, alegria ou mesmo indiferença, hoje a máscara esconde essa faceta, evitando a exposição dos nossos sentimentos. Para o bem ou para o mal. O sujeito contemporâneo autêntico já está sendo medido pelo que consome, pelo que destrói na sua incessante movimentação – e o rastro ou resto que deixa pelo caminho – ou pelo que usurpa em nome do seu bem-estar solitário e unitário. Em nome do bem comum, o “Batman” abdica da sua vida pessoal, dos seus sentimentos e dos sentimentos das outras pessoas para com o verdadeiro mascarado que está por baixo da vestimenta negra. As pessoas estão abdicando de suas vidas pessoais em favor dos bens materiais, dos minutos de fama e das oportunidades que se podem abrir para aquelas isentas de empatia.

O escritor e poeta francês Guy de Maupassant escreveu um conto em que denunciou, ao mesmo tempo, o insensível modo capitalista de reprodução da força de trabalho e a assombrosa imposição da estética às mulheres. Realmente, para a primeira mãe retratada, os bebês deformados que nasceram se transformaram em lucro para ela, que os vendeu para os aproveitadores comerciais de espetáculos místicos; para a segunda mãe retratada, descrita como bela e esbelta, a deformação dos bebês decorria da necessidade de manter sua silhueta conforme os padrões de época, através do espartilho. Dinheiro e espetáculo unidos. Consumo e fetiche são a nova ordem global. A todos os que, por motivos diversos, não se encaixam nessa nova ordem, restará a exclusão sumária do viver em sociedade. No devir de um mundo cada vez mais caótico, nem mesmo a família, a mais tradicional das instituições privadas de todos os tempos da humanidade, poderá salvar esses “desgarrados”.

As duas grandes guerras mundiais do século XX, e todas as pequenas guerras localizadas delas decorrentes, estão na base da transformação mascarada da sociedade de consumo. Nesse ponto, a invasão russa iniciada no final do mês passado é só mais um capítulo de uma geopolítica em permanente transformação, desde que a vida, como bem maior da humanidade, perdeu o seu sentido. Deixamos de ser sujeitos potentes na linguagem do mundo visível para ser apenas predicados consumidores da fonética mercadológica. A máscara que Putin usa é a do seu próprio rosto impassível diante das câmeras, assim como o próprio Bruce Wayne, a pressionar a Ucrânia e o resto do mundo, para que cedam aos seus caprichos. A máscara que Biden usa, e a Otan por tabela, é a faceta de uma indignação calculada milimetricamente, mas inoperante, incapaz de dizer aos povos as reais motivações da falta de consenso entre os atores desse cenário de guerra.

Destarte, parece ter chegado ao fim a era dos mitos. Não há mais espaço para poemas como Metamorfoses de Ovídio, poeta romano do século I a.C., no qual ele tentou retratar a interação entre o Cosmos e a história do mundo, através das eras dos homens. Temas caros a esse poeta, considerado hoje o primeiro poeta romano, como o amor, o ciúme e o crime, todos inseridos nas formas artísticas da literatura, da música, da arquitetura e da pintura que perfazem o arcabouço antigo da filosofia e mitologia clássica, estão simplesmente em desuso. A máscara da contemporaneidade, ou pós-modernidade para alguns, é a máscara da indiferença. Ou da hipocrisia. É por isso que a máscara da Otan, que finge indignação perante o assalto de Putin a um país soberano, é a mesma da desconexão com a realidade dos bombardeios efetuados por esta mesma Otan, ou seus aliados, na Síria, no Iêmen, no Iraque ou na Palestina, para ficarmos em apenas alguns exemplos. Mais. É a mesma máscara das respostas prontas, sarcásticas mesmo, a respeito do infame bloqueio a Cuba, que já dura sete décadas.

Talvez a era “pós-moderna” seja, por assim dizer, a era das máscaras individuais e coletivas. As individuais para evitar o sofrimento maior de precisarmos tomar conhecimento do horror perpetrado pela própria dinâmica do progresso capitalista democrático. Dinâmica esta que já foi muito bem retratada por autores díspares como o filósofo ateu John Gray, e sua crítica da busca da humanidade pela imortalidade através do avanço da ciência,1 e o filósofo humanista camaronês Achille Mbembe, e sua crítica de “carbonização” do mundo pelas forças capitalistas. A grande diferença entre ambos, no particular, é que enquanto o primeiro não parece nutrir maiores expectativas em relação ao futuro da humanidade – dado o já avançado grau de virtualização da vida social do animal humano –, o segundo ainda mantém esperanças numa possível correção de rota da história, especialmente através da nossa volta para casa, ou melhor, do resgate dos valores africanos em relação a nossa interação com a natureza.

Contudo, as máscaras individuais fazem cada vez menos sentido em relação as novas máscaras coletivas do século XXI. Com efeito, se os rostos, e por tabela os corpos, passaram a ser as máscaras na nova normalidade de pessoas cujas vidas se tornaram indefinidas, efêmeras e fetichistas, então podemos ser o que as nossas vidas precisarem, de acordo com as nossas vontades e permanências.2 Mas quem será o herói que chamará para si a responsabilidade pelos horrores praticados por uma sociedade que já não se reconhece mais como espécie? Na vida real não existe o Batman, capaz de ser o que nós precisamos que ele seja. Mas existem muitos Coringas, ou seja, muitos sujeitos capazes de fazer enlouquecer a maioria das pessoas ditas normais, como a personagem Harvey Dent da citada trilogia.

Quando vemos um experiente e renomado historiador como Laurence Rees3 desanimado e frustrado com os rumos tomados pela invasão russa na Ucrânia, e as consequências que dela ainda virão, perguntamo-nos: a quem recorreremos nas décadas vindouras? O Ocidente parece tresloucado pela aceleração das relações totais entre todos os domínios da vida humana – sociais, econômicas, políticas, religiosas, virtuais. etc. –, e está mais para o justiceiro Duas Caras, que para o promotor Harvey Dent. Anseia por destruir o mundo oriental, mas não sabe como fazer isso sem colocar seu próprio lado em perigo. Então, espera criminosamente pelo desfecho do conflito que ele mesmo, Ocidente, fez questão de insuflar, mediante o bombardeio psicológico do tirano, cercando-o através da Otan. Essa espera criminosa já aconteceu em ocasiões anteriores, envolvendo os mesmos atores, quando Churchill e Roosevelt se omitiram diante dos horrores praticados por Stálin. E mais. O mesmo Ocidente que conciliou com Mikhail Gorbatchov4 jamais pleitear a entrada da Ucrânia no Otan.

Destarte, se a covid-19 naturalizou um procedimento que já era latente na sociedade espetacular, a saber, o uso de máscaras, ainda que dessa vez por motivos sanitários, o fato é que essas máscaras produzidas em série, portanto próprias da sociedade capitalista, veio bem a calhar no momento atual. Os impactos dessa pandemia, aliados à invasão russa, devem redimensionar as tensões globais em termos nunca vistos depois da Segunda Guerra Mundial. Os deslocamentos humanos já tiveram um incremento de mais de 2,5 milhões de pessoas só naquela região deflagrada. A máscara “Harvey Dent” usada pelo Ocidente nesse conflito, de indignação com os atos de Putin, contrasta de maneira sombria com a máscara “Duas Caras” utilizada por esse mesmo Ocidente em outros conflitos espalhados pelo mundo afora.

Ciente da impossibilidade duma mudança no paradigma civilizatório da espécie humana, entendo ser adequado voltarmo-nos para um lúcido pensador já centenário: Edgar Morin. De fato, em uma breve e tocante entrevista dada recentemente, Morin vai além de Hessel para dizer que antes de nos indignarmos, é preciso pensar. Obviamente, ele está referindo-se à categoria mental do entendimento. Entender tudo o que se passa à nossa volta é, mais do que nunca, imprescindível para mudarmos o status quo a que estamos submissos. Para ele, só um diagnóstico correto das mazelas que o ser humano impõe a todos os outros seres viventes, inclusive aos da sua própria espécie, é capaz de fazer com que entendamos o mundo e a história atual. É preciso derrubar o mito de que somos seres naturais superiores, pois dessa visão deturpada é que advém a certeza da humanidade como uma espécie sobrenatural, ou seja, mais importante do que todas as outras.

Morin afirma apoiar-se em três princípios para não perder a esperança na humanidade, a saber: apostar no improvável; acreditar nas capacidades criativas e na resistência à opressão das minorias; e acreditar que mesmo o pior sistema totalitário da futura Matrix5 poderá apresentar falhas, que serão exploradas por indivíduos que tentarão salvar o mundo.6 Entretanto, afirma que hoje não existe qualquer candidato ao posto de herói nesse caminho que trilhamos. Sabe ele que a atual mecanização da vida nos remete diariamente a uma situação distópica entre a face da guerra e da pandemia, e a rejeição delas. Daí as máscaras contemporâneas serem necessárias para a sobrevivência de todos nós, numa era paradoxal entre a fartura e a fome, a abundância indecente e a escassez absoluta, entre a razão e a ignorância. A vida enlatada no que comemos, assistimos, lemos e entendemos como normal só pode ser suportável através de máscaras.


Notas
1 Casa bem a leitura do livro indicado desse autor com a série que pode ser vista no streaming Altered Carbon.
2 No segundo filme da trilogia do “Batman”, denominado “ Batman – o cavaleiro das trevas”, em 2008, na cena final ele diz ao comissário Gordon que o Coringa (já preso) não podia vencer (por ter causado tanto sofrimento e morte, inclusive a do promotor Harvey Dent, este enlouquecido pela morte da sua colega e amante, Rachel Doyles, fato que o transformou no vilão “Duas Caras”). Assim, “Batman” diz, sob protestos do comissário Gordon, que ele assumiria a culpa por todos os horrores fornecidos pelo Coringa porque ele “não era um herói, não como Harvey Dent, mas o herói que a cidade de Gotham precisava naquele momento.
3 Ver entrevista com Laurence Rees.
4 Oitavo e último líder da União Soviética, foi secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) de 1985 a 1991. Foi chefe de Estado do país de 1988 a 1991, na posição de presidente do Presidium do Soviete Supremo de 1988 a 1989, presidente do Soviete Supremo de 1989 a 1990 e presidente da União Soviética de 1990 a 1991.
5 Morin faz referência ao filme Matrix de 1999, das irmãs Wachowski.
6 Na verdade, Morin afirma que sempre existirá alguém, algum herói que salvará o mundo. Essa afirmação me parece um pouco otimista demais, pois não temos certeza sequer de se a Matriz existirá algum dia. Se existir, o que parece provável, dada a escalada do progresso nanotecnológico, também não há como ter a certeza de que qualquer tentativa de salvar o mundo da tirania digital resultará em sucesso.

Referências bibliográficas
GRAY, Johh. A Busca pela Imortalidade: a obsessão humana em ludibriar a morte. Rio de Janeiro: Record, 2014.
MAUPASSANT, Guy de. A mãe dos monstros. Portal noturno, 2015.
MBEMBE, Achille. Brutalismo. São Paulo: n-1 Edições, 2021.
MORIN, Edgar. “Antes de indignar-se, é preciso pensar”. Outras Palavras, 2022.

***
André Márcio Neves Soares é mestre e doutorando em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador – UCSAL, e integrante do Núcleo de Estudos sobre Educação e Direitos Humanos (NEDH).

 

[Imagem: DAN DENNIS – fonte: http://www.blogdaboitempo.com.br]

L’annonce de l’adaptation des pièces pour le jeune public a suscité l’indignation de certains politiques. Mais il s’agit en fait d’un atelier d’écriture en Pologne, destiné à l’apprentissage du français.

La plupart des textes étudiés aujourd’hui sont relativement éloignés sur la forme des versions jouée sur scène il y a près de 300 ans.

«La langue de Molière est-elle devenue trop ardue pour les écoliers d’aujourd’hui ?». Dans la poudrière qu’est Twitter, France Culture a craqué une allumette. Selon une publication de l’antenne publique, de jeunes auteurs vont réécrire les pièces du grand dramaturge «pour que les élèves puissent y avoir accès plus facilement». Une annonce approximative qui n’a pas manqué de faire réagir les internautes.

«Aujourd’hui certains veulent réécrire #Molière, demain ils voudront réécrire l’Histoire de France et après-demain tout aura disparu», a écrit le maire RN de Fréjus David Rachline sur le réseau social. «Sous couvert d’un prétendu égalitarisme, on considère donc que certains élèves ne pourraient avoir accès à Molière. C’est insultant pour eux», a regretté de son côté Aurore Bergé, la députée LREM des Yvelines.

Ces exercices de réécriture ne sont cependant pas destinés aux écoliers français. Ils s’inscrivent dans le cadre de l’initiative 10 sur 10, une résidence d’écriture organisée par le centre international de théâtre francophone en Pologne, en partenariat avec la Comédie Française.

«Le but du jeu n’est pas de rendre Molière accessible, le but du jeu est de permettre à dix auteurs francophones de proposer grâce à Molière de nouvelles pièces destinées essentiellement à l’enseignement du français langue étrangère», explique le professeur de littérature Marc Escola, dans un extrait l’émission Affaire en cours. Il s’agit de «10 pièces courtes, rythmées, actuelles de 10 pages et 10 personnages tout spécialement écrites pour un public de jeunes qui apprennent le français», précise le site de l’événement créé il y a 5 ans. Sans rapport direct avec la question des difficultés de compréhension de la langue de Molière par nos contemporains, et particulièrement les élèves.

Marc Escola estime cependant que les textes du dramaturge utilisent un français daté, le rendant moins abordable pour les jeunes générations. L’évolution des pratiques linguistiques, qui concerne des auteurs comme Rabelais, Montaigne ou Du Bellay sans que cela prête à polémique, touche aujourd’hui des auteurs comme Racine et Corneille. L’adaptation de l’œuvre de Molière, bien qu’hypothétique, n’aurait rien d’inédit. Et, souligne l’enseignant, la plupart des textes étudiés aujourd’hui sont déjà éloignés des versions jouées sur scène au XVIIe siècle, le temps ayant rendu certains passages hermétiques au public contemporain.

 

[Photo : Eric Feferberg / AFP – source : http://www.lefigaro.fr]