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Qual será o palavrão que mais dizemos em Portugal? Começará por M? Por C? Ou talvez por F?

Escrito por Marco Neves

Há uns meses, Gaston Dorren, autor de óptimos livros sobre línguas, perguntou-me qual é o palavrão mais usado em Portugal. Há muitos, claro, mas qual é aquele que todos dizemos quando damos com o pé na esquina da porta?

Fiquei a pensar um pouco. Não me parecia haver um palavrão que fosse mais usado que todos os outros… Dei a minha resposta, com muitas dúvidas.

Decidi perguntar a mais pessoas. Fiz um pequeno inquérito, que espalhei pelas famosas redes sociais.

Antes de revelar os resultados, gostaria que olhar para «palavrão» (a palavra). Parece ser um aumentativo, mas raramente é usada para designar uma palavra muito grande (embora também o possa ser —«otorrinolaringologista» é mesmo um palavrão) — designa, a maior parte das vezes, as palavras que estão sujeitas a um qualquer tabu (também chamadas «asneiras») ou, então, uma palavra tão rara que mal se percebe.

Também temos aquilo a que podemos chamar «palavrõezinhos», fazendo o diminutivo do aumentativo (a língua permite-nos fazer estas malandrices). Os palavrõezinhos são aquelas palavras que aparecem em substituição dos palavrões. Quando damos um pontapé na mesa, a nossa boca descai-se logo para o palavrão, para aliviar a dor (e alivia mesmo!). Quando chegamos à segunda sílaba, lá conseguimos tomar as rédeas à palavra e sai-nos algo como «fogo», «fosga-se», «caraças» ou «poças»… Estes palavrõezinhos são interessantes só por si, mas hoje não é dia de falar deles.

Qual será então o palavrão mais usado, pelo menos por quem se deu ao trabalho de responder ao meu inquérito?

Em terceiro lugar do pódio ficou «porra», com 12% das respostas. Se virmos bem, esta palavra já não é bem um palavrão (nem me atrevo a disfarçá-la com asterisco). A divisão entre palavras feias e palavrões é muito subjectiva, diga-se a bem da verdade.

Atrás de «porra», ficou «c*r*lh*», com 8%, que tem a particularidade de se dar muito melhor com os ares do Norte que do Sul. Então se passarmos a fronteira e entrarmos pela Galiza adentro, encontramos a palavra com uma frequência que assusta qualquer português meridional. Certamente, na Galiza, o «c*r*lh*» não ficaria em quarto lugar…

O segundo lugar, com 31%, foi para a palavra em que votei (se fossem eleições, o meu partido teria perdido): «m*rd*». É um palavrão a caminho de se tornar um palavrãozinho, mas ainda tem a sua força. Como esta é uma página familiar, até a m*rd* fica com asteriscos — o que também serve para mostrar como podíamos usar um sistema de escrita sem vogais. Aliás, se ainda usássemos a escrita fenícia, de onde surgiu o nosso alfabeto, escreveríamos algo como «mrd» em lugar do palavrão…

Por fim, o vencedor, com 43% das respostas, foi a expressão «f*d*-s*», que, mesmo assim, teria de negociar uma coligação para atingir a maioria absoluta.

(Houve ainda 7% de respostas variadas.)

Quando dei a Gaston Dorren os resultados, ele disse-me que nós andamos a navegar entre o palavrão mais comum do alemão, «Scheiße», e o mais comum do inglês, «fuck» (como são palavrões estrangeiros, não têm direito a asterisco). Talvez sejamos um país indeciso nos palavrões; ou talvez um inquérito que explicitasse a região do falante permitisse encontrar uma fronteira entre a zona do «f*d*-s*» e a zona da «m*rd*».

A verdade é que os dois palavrões mais usados têm resultados muito próximos. As respostas válidas que recebi foram apenas 127 — um inquérito com uma amostra maior talvez desse a vitória nacional à «m*rd*»…

Fica para qualquer dia.

Sugestões de leitura

Sugiro (não é a primeira vez) o blogue de Gaston Dorren e os seus livros Lingo e Babel. Há pouco tempo, John McWhorter publicou Nine Nasty Words, sobre o tema. Por cá, temos o Dicionário de Insultos, de Sérgio Luís de Carvalho, e o Pequeno Livro dos Grandes Insultos, do meu editor Manuel S. Fonseca (curiosamente, os livros portugueses sobre o tema concentram-se nos insultos).

Sobre o tema, já escrevi por aqui:

 

[Fonte: http://www.certaspalavras.pt]

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Pompeu Fabra és l’arquitecte de la codificació moderna de la llengua catalana: la seva proposta normativa ha esdevingut el model que guia la tasca prescriptiva actual. Però aquest paper de codificador és només una de les cares d’una personalitat molt més complexa, que comprèn les facetes de lingüista autodidacte, de docent i gestor universitari, i de ciutadà compromès amb el país.

Amb motiu del cent-cinquantè aniversari del seu naixement i del centenari de la publicació de la Gramàtica catalana, i en el marc de les activitats de l’Any Pompeu Fabra, la Universitat de Barcelona va retre-li homenatge amb una exposició i una jornada acadèmica.

Fruit d’aquests actes, Pompeu Fabra, a la Universitat i de la Universitat presenta una recopilació d’articles que analitzen aspectes lingüístics de la seva obra, n’estudien els anys de formació, la recepció de les seves propostes normatives i la feina que va dur a terme en aquesta institució.

Títol: Pompeu Fabra, a la universitat i de la universitat
Autor: diversos autors
Editorial: Publicacions i Edicions de la Universitat de Barcelona
Col·lecció: Lingüística UB
Pàgines: 165
ISBN: 978-8491683339

 

[Font: http://www.racocatala.cat]

Pergunto a origem da palavra assim, no plural, por uma simples razão: em português, temos três plurais da palavra. Como chegámos a este curioso (e útil) excesso?

 

Escrito por Marco Neves

«Avó» tem o plural feminino «as avós». «Avô» tem o plural masculino «os avôs». Além destes dois plurais, a palavra tem uma espécie de plural neutro, que é o mais comum (e faz uso dos artigos masculinos): «os avós», que se refere às avós e aos avôs. Este último plural serve também de sinónimo de «antepassados», como vemos nos famosos «egrégios avós» do nosso hino.

O que se passou com os avós? Afinal, não acontece o mesmo com as outras palavras do português, que têm dois plurais: o feminino e o masculino.

Olhemos para a história da palavra…

A palavra «avô» tem origem numa palavra do latim vulgar, que não está registada, mas foi reconstruída: «*aviolus», um diminutivo da palavra «avus» (os romanos escreveriam esta palavra como «AVVS» e lê-la-iam como /awus/ — o nosso som /v/ não existia no latim e a letra <V> representava tanto o som /u/ como o som /w/).

O tal «aviolus» transformou-se em «avoo», como consequência da tendência dos falantes da nossa língua para deixarem cair o som /l/ entre vogais. Aqueles dois «oo» tornaram-se então num «ô». Ora, como acontece em muitas palavras com um «o» que se fechou no singular, o plural manteve um «o» aberto: «avós». Também acontece o mesmo em «ovo»/«ovos» — e tantas, tantas outras palavras. Este plural masculino, numa língua como o português que não tem um género neutro, acabou por servir de plural genérico ao longo da história.

Já «avó» teve origem na palavra reconstruída «*avoila», também um diminutivo, que se transformou em «avoa» e, depois, na nossa «avó». O plural é mais óbvio: «avós».

Por caminhos diferentes, o plural de «avó» ficou igual ao plural de «avô»: a distinção de género faz-se apenas no artigo. Como os dois plurais ficaram iguais, numa forma mais próxima do singular feminino do que do singular masculino, abriu-se espaço para que surgisse a forma plural «avôs», para designar apenas os avós do sexo masculino.

A língua ganhou assim, excepcionalmente, uma palavra com três plurais: «os avós», «as avós» e «os avôs». Ninguém planeou este estado de coisas. As palavras fazem o seu percurso pelos séculos fora sem pedir autorização a ninguém. Às vezes, há quem se lembre de inventar uma ou outra palavra e limar uma ou outra aresta. Mas a língua é o resultado de milhares de pequenas histórias como esta, que reconstruímos o melhor que podemos, mas que não são planeadas.

Para terminar, sublinho: tanto «avô» como «avó» provêm (tudo indica) de diminutivos — ou seja, do «avozinho» e da «avozinha» do latim lá de casa… As formas carinhosas tornaram-se nas únicas formas usadas pelos falantes, até precisarem de novos diminutivos, também eles carinhosos. Espero que me permita, neste espírito, deixar aqui um beijinho à minha avó Leonor e ao meu avô Manuel, a quem fica dedicada esta crónica.

 

[Fonte: http://www.certaspalavras.pt]

A exclamação «parabéns!» é das palavras mais felizes que por aí andam. Não só a ouvimos quando nos aconteceu alguma coisa de muito bom, como também naquele dia do ano em que se comemora o nosso nascimento. Qual será a sua origem?

Escrito por Marco Neves

A palavra é tão feliz que nunca a usamos no singular! Se alguém se atrever a desejar «parabém!», é capaz de encontrar uma careta de estranheza… Porquê este plural? E qual será a origem da palavra, que usamos nós e todos os que falam português (e galego, já agora)?

A palavra é uma junção de «para» e «bem», no plural, e já aparece nos nossos dicionários desde o início do século XVIII. Muito antes de aparecer nos nossos dicionários, era usada no castelhano, em expressões como «para bien sea» — a partir destas expressões, as palavrinhas «para» e «bien» juntaram-se as duas à esquina e criaram uma só palavra, que aparecia em expressões como «com muchas bendiciones y parabienes». Todo o século XVI e o início do século XVII foram tempos em que o castelhano era a língua da moda cá em Portugal, principalmente em Lisboa. Importámos tantas e tantas palavras que lhes perdemos a conta. Muitos dos grandes escritores não só escreviam também em castelhano, como usavam palavras de sabor castelhano nos textos em português (até Camões…). Hoje, nem notamos, porque muitas delas acabaram por fazer parte do nosso léxico e não as distinguimos das outras…

Assim, não é de admirar que os nossos «parabéns» tenham vindo dos «parabienes» castelhanos. O que é muito curioso é que esta palavra não tem o mesmo uso em castelhano. Fomos nós que nos lembramos de usá-la como exclamação única para dar os parabéns. Os nossos vizinhos castelhanos usam com muito mais frequência outras expressões, como «feliz cumpleaños» para os parabéns de aniversário, «enhorabuena» para os parabéns depois da conclusão de algo importante, entre outras formas de dizer o que nós dizemos com um simples «parabéns!» (também usamos outras expressões, como «feliz aniversário», mas são muito mais raras). As línguas emprestam-se palavras sem parar, mas raramente algum idioma as recebe sem torcer um pouco a forma ou o significado — neste caso, criámos uma nova expressão muito nossa, apesar da origem.

Já de pedra e cal no português, a palavra não ficou quieta. Do outro lado do Atlântico, transformou-se no verbo «parabenizar». Por cá, garantem-me os dicionários que existe o verbo «parabentear», mas o coitado não tem saído muito à rua… O que fazemos é pedir ajuda a outras palavras, usando a expressão «dar os parabéns».

Para terminar, deixo um sinónimo para todos aqueles que se arrepiam de dar os parabéns usando uma palavra castelhana (aconselho a não ter esses pruridos; afinal, uma grande parte das palavras que usamos já andou a passear no mundo). O sinónimo é «prolfaça». Também pode ser usado no plural: «prolfaças». Parece ser mais usada em casamentos. A origem parece clara: vem de «bom prol lhe faça». Está nos dicionários, mas raramente se ouve. Acontece muito: há palavras que estão nos dicionários durante séculos e ninguém as usa — e outras que andam à solta pelo mundo por décadas e décadas antes de serem apanhadas pelos dicionários.

Confesso agora duas coisas. Em primeiro lugar, tive ajuda de Fernando Venâncio para descobrir a origem da palavra. Muito obrigado! — que é, diga-se, outra das nossas exclamações felizes. Em segundo lugar, lembrei-me da palavra «parabéns» para esta crónica porque a minha mulher, Zélia, está mesmo quase a fazer anos, num número bem redondo, que ela me proibiu de revelar. Como ainda faltam uns dias e dizem que os parabéns antecipados dão azar, desejo-lhe já as prolfaças!

 

 

[Fonte: http://www.certaspalavras.pt]

Semella que estas formas poden ter o mesmo significado en portugués. Pero non é así e poden levar a situacións embarazosas.

bico de amor

O galego e o portugués teñen a mesma raíz lingüística, pero non todo o vocabulario que empregamos dunha e doutra beira da raia significa o mesmo. Aquí tres casos comentados por Marco Neves, profesor na NOVA-FCSH, tradutor e autor na web Certas Palavras.

«Labrego»

Lonxe de ser para maiores de 18, é para todas as idades. A verdade é que é difícil encontrar portugueses que non se rían cando descobren que, na Galiza, existe un Sindicato Labrego Galego.

Un labrego aquí é quen traballa a terra. En Portugal o significado é ben diferente. Un labrego é unha persoa parva e groseira. Alí o correcto é dicir lavrador.

«Grelo»

Unha das verbas máis comúns en Galicia, que dá nome a un dos principais elementos que conforman o tradicional caldo e cocido galego. Pero, no país veciño o seu significado é moi diferente, tanto, que falara de grelos en Portugal pode dar lugar a situacións complicadas. Alí o grelo é a forma vulgar de definir ao clítoris. E, de feito, fíxose esta palabra coñecida no mundo enteiro polo famoso tradutor de Google que nomeou como « Fiesta del clítoris » á « Feira do Grelo » das Pontes.

«Bico»

E outra palabra que pode levar a outra situación de embarazo é bico. Aquí damos bicos e biquiños a todos –agora menos por mor da COVID-19-, pero en Portugal un bico é unha felación.

[Imaxe: Youtube.com – fonte: http://www.galiciaconfidencial.com]