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Vencer Bolsonaro foi o primeiro passo. Agora, é preciso entender a militarização da política e o pânico moral das igrejas neopentecostais, bases do retrocesso. E apontar saídas à gourmetização da vida, enquanto milhões amargam a fome

Escrito por Daniel M. Huertas

Todas as forças progressistas e democráticas deste país ficaram atônitas com o resultado geral do primeiro turno das eleições deste ano, com votações inimagináveis a candidatos que beiram a insanidade – ou, na melhor das hipóteses, a uma caricatura grotesca de algo amorfo. Em suma: um retrocesso de proporções inestimáveis. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no pleito de 30 de outubro amenizou o sentimento de frustração e temor em relação ao futuro do Brasil, mas é preciso reconhecer que este espectro sinistro conhecido como bolsonarismo plantou raízes e se tornou, por incrível que pareça, uma peça extremamente relevante no cenário político brasileiro.

Muito tem sido escrito sobre a ascensão desse fenômeno macabro, e minha contribuição parte do princípio de que a esquerda precisa reavaliar a sua compreensão sobre a realidade brasileira. Isso não significa necessariamente abortar velhos conceitos e metodologias. Afinal, as permanências perversas do constructo social brasileiro (como o racismo estrutural e o latifúndio, por exemplo) estão mais vivas do que nunca e os inimigos de sempre continuaram (e continuarão) à espreita, no aguardo de uma janela de oportunidade para a cooptação de partidários e implementação de uma agenda com ações extremamente reacionárias maximizadas pela velocidade e capilaridade das redes sociais. As tubulações de esgoto do tecido social deste país nunca estiveram tão entupidas.

Esse novo contexto invoca novas análises e reflexões, que devem estar correlacionadas com as profundas mudanças que têm impactado o território brasileiro desde o fim da ditadura militar e o início da chamada Nova República. E, para além da questão meramente nacional, edificá-las de forma mais realística e eficiente com o movimento do mundo que foi aberto com o declínio da bipolaridade da Guerra Fria, do qual emanou um poderoso turbocapitalismo globalizado. A questão é complexa, obviamente, e pede uma análise multidimensional que não se esgota em um livro, muito menos em um artigo. Procurei organizar o meu ponto de vista em temáticas que considero altamente relevantes para que uma espécie de “ajuste fino” no plano das ideias seja alçado à condição de reflexão mais geral dos rumos do Brasil, ajudando de alguma forma nas estratégias que serão utilizadas pelas forças progressistas de agora em diante.

A militarização da política

Desde o advento da República, a política brasileira sempre reservou algum grau de militarização, mas em raras ocasiões havia ultrapassado o sentido estrito do termo. Ou seja, a militarização da política, em maior ou menor escala, de acordo com o contexto, ficara geralmente restrita à participação direta e indireta das Forças Armadas – e o golpe de 1964, como sabemos, foi o ápice desse processo. Mas, infelizmente, o fenômeno ganhou amplitude inédita com a entrada significativa no jogo das forças policiais civis e militares e com uma parcela considerável da sociedade civil que explicitamente defende políticas armamentistas.

Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada em 31 de agosto último, 30% dos entrevistados disseram acreditar que as leis que facilitam compra, porte e uso de armas aumentaram a segurança das pessoas, e o mesmo percentual gostaria de ter uma arma para se defender1. Cabe lembrar, ainda, que o número de unidades em nome de colecionador, atirador desportivo e caçador (CAC) aumentou de 350,7 mil, em 2018, para pouco mais de um milhão, em 2022, após a publicação dos decretos do governo Bolsonaro flexibilizando as normas para compra, porte e uso de armas pela população civil2.

O sociólogo José Vicente Tavares dos Santos, estudioso das pautas ligadas à segurança pública, já havia observado, no âmbito das greves policiais de 2012, na Bahia, a constituição de um “fenômeno social”. Ele lembrou que uma lei de 1967, editada em plena ditadura, transformou as polícias militares em órgãos auxiliares das Forças Armadas e militarizou o ensino policial. Ou seja, não houve a devida adequação das PMs ao trabalho em uma sociedade democrática, já que “faltam noções de direitos humanos, de investigação criminal, algo básico mas incrivelmente precário no Brasil”3, além da ausência de conteúdo correlato a mediação de conflitos.

A própria integração das Forças Armadas ao país depois de 21 anos (1964-85) de mandos, desmandos e atrocidades também se mostrou bastante frágil. A criação do Ministério da Defesa em 2000, durante o governo FHC, parecia ser um antídoto, mas novas crises apareceram na relação entre civis e militares no terreno político. Em 2004, a demissão do então ministro José Viegas ocorreu em meio à insatisfação de militares diante da anunciada abertura dos arquivos da ditadura. Cabe lembrar que a Comissão Nacional da Verdade, proposta no Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), no segundo mandato do governo Lula, também não foi bem recebida por vários setores da caserna. O caso do general Maynard Marques de Santa Rosa, que a chamou de “comissão da calúnia” e acabou sendo exonerado, ganhou as manchetes em 2010. “Os três comandantes militares reagiram contrariamente às cláusulas que propunham rever abusos contra os direitos humanos durante a ditadura e colocaram seus cargos à disposição”, lembrou a cientista política Maria Celina d’Araujo4.

A proposição da revisão da Lei de Anistia – que acabou sendo barrada pelo Superior Tribunal Federal (STF) por 7 votos a 2 — foi outro evento com ressonância extremamente negativa no seio das Forças, sobretudo com as declarações públicas de apoio do então ministro da Justiça, o petista Tarso Genro. E, na sociedade civil, os defensores do golpe de 1964 e de uma nova quartelada em pleno século XXI assombram o país, de forma recorrente desde as eleições de 2018, com demonstrações de efeito. Para completar, o antropólogo Celso Castro, especialista do universo militar, admite que existe um déficit de conhecimento sobre o cotidiano da caserna, “daí compreender-se pouco o funcionamento dessas instituições”5.

D’Araujo clama por uma reflexão sobre o papel das forças de defesa perante o povo e o Estado brasileiros, assunto que “nunca mobilizou os partidos, nunca deu votos”, além do desinteresse generalizado do Congresso sobre a questão. Mas, ao que parece, o bolsonarismo conseguiu encontrar aí uma brecha valiosa para a sua estratégia de poder, de certa forma interditando qualquer debate sobre a pauta sugerida por D’Araujo. É fato a adesão de setores e agentes das forças de segurança ao bolsonarismo – a participação de militares em cargos de confiança ao longo do governo Bolsonaro é espantosa –, mas muito ainda permanece sob uma cortina de fumaça quanto ao real potencial de ativismo político da categoria, sobretudo em relação aos policiais civis e militares.

A articulação política das igrejas evangélicas neopentecostais

A pesquisadora francesa Marion Aubrée talvez tenha sido uma das primeiras intelectuais a se debruçar sobre o fenômeno do expressivo crescimento dos movimentos evangélicos tidos como neopentecostais no Brasil. Um projeto que remonta ao final dos anos 1980, ainda em estágio inicial, encabeçado pela Igreja Universal do Reino de Deus com a sua missão global de evangelização a partir de um país do Terceiro Mundo. Segundo ela, esses movimentos “se adaptam bem à busca de uma devoção emocional pelo povo brasileiro às suas aspirações de uma relação direta com Deus”, na qual o transe corporal (ou a explosão do corpo, como define Aubrée), pouco compreendido ou rejeitado, foi substituído pela “transverbal”, ou “a linguagem dos anjos que, quando praticada, inibe as expressões corporais”6.

Mesmo assim, a articulação midiática dos cultos e atividades na tela da tevê – apenas para ficar no exemplo mais emblemático, a tradicional TV Record, fundada em 1953, foi comprada pelo bispo e empresário Edir Macedo em 1989 – levou a um ajuste, tolerando a maquiagem e roupas menos convencionais e deixando o corpo mais livre. Como afirma Aubrée, “voltou a ser brasileiro”. Desse modo, “sensibilizou setores ponderáveis das classes mais modestas da população”, além de acolher, continua ela, “parte dos vitimados pelo êxodo rural e pela marginalização urbana e ajudando-os a reconstruir suas identidades perdidas em tantas vicissitudes”.

O resultado é que, integrados ao movimento, os indivíduos “redescobrem a autoestima, o senso da dignidade”, atendendo, assim, ao “preceito-chave da ética individualista predominante no mundo atual – (…) que o homem tem que ser forte, equilibrado espiritual e moralmente para encontrar seu lugar ao sol”. Soma-se a isso a introdução pragmática da Teologia da Prosperidade nas comunidades evangélicas, alavancada por cursos de alfabetização, aprendizado de profissões, oferta de empregos e possibilidade de desenvolver carreira eclesiástica, “buscando meios para as pessoas progredirem na vida”.

Como bem disse o historiador Leandro Karnal, a “capilaridade notável” de “milhares de pequenas igrejas nas periferias das cidades” elevou o mundo evangélico a um “poderoso dínamo para as almas e para as urnas”7. Na sua análise, como tendência geral os evangélicos “valorizam pontos como críticas ao casamento homoafetivo”, embora o tom médio do eleitorado brasileiro “é muito conservador e isso antecede a presença evangélica no Parlamento”. Para Karnal, “evangélicos não criam, apenas reforçam um reacionarismo difuso”, e acreditar que votam em quem pastores e bispos mandam seria uma ideia que “subestima a capacidade crítica dos evangélicos e omite a mudança na composição social do grupo”. Naquele contexto, em 2014, Karnal analisou a questão como um controle até desejável pelas lideranças religiosas, mas que “não existe como dado absoluto”. Entretanto, deixou o debate em aberto, pois a temática estaria em “ebulição intensa”.

Mas os fatos recentes mostram que neste campo foi aberta outra brecha bastante utilizada pelo bolsonarismo: uma aliança tácita e explícita entre os exploradores da fé alheia e os falsos defensores dos valores de Deus e da família que envolve interesses de ambos os lados e muito dinheiro. E o dado absoluto agora está aí: o resultado foi o reforço da chamada bancada evangélica no Congresso – dos 177 candidatos a deputado federal, 109 foram eleitos, taxa superior a 60%. Ademais, alguns novatos ligados às igrejas evangélicas foram campeões de voto em seus respectivos estados. Nikolas Ferreira (PL-MG), o deputado mais votado do Brasil, com cerca de 1,492 milhão de votos, integra a Comunidade Evangélica Graça e Paz. O ex-procurador Deltan Dallagnol (Podemos-PR), conhecido por ter sido um dos cabeças da famigerada Operação Lava Jato, é da Igreja Batista do Bacacheri, em Curitiba, e com alguma frequência realiza palestras e pregações nos púlpitos evangélicos.

Filipe Barros (PL-PR), da Igreja Presbiteriana Central de Londrina, Silas Câmara (Republicamos-AM), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Paulo Freira Costa (PL-SP) e Cezinha Madureira (PSD-SP) são outros exemplos, todos da Assembleia de Deus, que mantém o seu domínio sobre a Frente Parlamentar Evangélica, que tem na “pauta dos costumes” a sua trincheira de valores conservadores contrários à esquerda. “Vai ter um grupo mais coeso agora, porque os novos deputados eleitos são evangélicos e é gente mais aguerrida. Isso vai ficar muito bom para a bancada”, declarou o deputado Gilberto Nascimento (PSC-SP), um dos principais articuladores do movimento e reeleito para o seu quarto mandato8. Por outro lado, os evangélicos de esquerda continuam sendo minoria.

O ex-ministro do STF, Cezar Peluso, já havia declarado que a Corte, provocada a deliberar sobre direitos considerados lesivos à sociedade pelas forças conservadoras (aborto, células-tronco, fetos anencéfalos, direitos dos homoafetivos), “reforça o caráter laico do ordenamento jurídico, (…) ao ponto de enfrentar as resistências religiosas em nome da laicidade do Estado”9. Na campanha para o segundo turno, Lula teve que lançar, estrategicamente, uma carta aos evangélicos que afirma a liberdade de culto e a posição contrária ao aborto. Ao mesmo tempo, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, lota igrejas neopentecostais Brasil afora ao lado da senadora eleita Damares Alves (Republicanos-DF), conhecida por inflar a pauta conservadora de costumes.

O diretor do Observatório Evangélico, Vinicius do Valle, enxerga um ambiente bastante violento no universo das igrejas, com “consequências sérias, dentro e fora dos templos”10. O desejo de aniquilamento da diferença, “mesmo entre aqueles que comungam da mesma fé”, foi incrustado nas igrejas pelo bolsonarismo, formando uma legião de (pseudo) religiosos que passou a disseminar a ideia de que o Partido dos Trabalhadores (PT), “amigo de ditaduras sanguinárias, fecharia igrejas, obrigaria as crianças a usar banheiros unissex, liberaria o aborto e ameaçaria a integridade das famílias”.

Valle explica que as pautas morais e religiosas, situadas “no terreno das crenças e das paixões, e menos conectadas à materialidade”, são “mais suscetíveis à dinâmica do marketing político agressivo e das fake news”. E o “bom marketing político”, como nos mostra a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, “é aquele que vai de encontro à imaginação política que já existe” e, portanto, “o bom candidato é aquele que sabe dialogar com esse imaginário da sociedade”11. Eis aqui, portanto, uma questão que precisa ser mais bem estudada, compreendida e enfrentada.

A força do dinheiro e do consumo

Uma enxurrada de números mostra o quadro sombrio para boa parte da população brasileira. Em 2021, 62,93 milhões de pessoas (ou 29,62% do total) viviam com renda domiciliar per capita de até US$ 5,50 por dia – ou seja, abaixo da linha da pobreza, segundo parâmetro internacional adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU). No mesmo ano, o rendimento médio mensal per capita registrou o menor valor desde o início da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 201212. Tecnicamente, de cada quatro brasileiros um está sob a linha de pobreza.

Não é exagero admitir, entretanto, que as condições materiais do povo brasileiro melhoraram, em níveis gerais, a partir dos anos 1990. Não pretendo aqui discutir as causas desse fenômeno – obviamente que as políticas sociais reorganizadas, azeitadas e vitaminadas com o PT no poder o explicam em parte –, e nem mesmo fechar os olhos para as mazelas crônicas e estruturais, mas o Brasil não é a Índia e nem a África, sem qualquer sentido pejorativo ou discriminatório sobre essas duas partes do mundo. Quero dizer com isso que a força do dinheiro e do consumo aterrissou com peso no Brasil a partir daquele contexto, mesmo que em escalas e condições diferenciadas. Com o neoliberalismo irresponsável e a abertura indiscriminada ao mundo globalizado, o país foi inserido numa posição amplamente disputada pelo capital internacional, já que passou a figurar entre os dez principais mercados consumidores mundiais de quase todos os bens de consumo, sejam eles duráveis, semiduráveis ou não duráveis.

Gradativamente houve uma multiplicação de shoppings centers nas grandes cidades, inclusive nas periferias, chegando anos depois a várias cidades de porte médio do interior do país. O efeito-demonstração causado pelo consumismo – e tudo o que ele carrega, como a criação inesgotável de desejos materiais, a ideia de felicidade, a busca por status e afirmação social e altas dosagens de entretenimento entorpecente – atingiu em cheio a todos os extratos da sociedade, sobretudo os mais baixos, que até então apenas de forma marginal faziam parte do mercado consumidor e, na sua estrutura psíquica e cultural, não tinham no consumo um valor em si de grande relevância para o seu cotidiano. Em suma, o dinheiro transformou-se no grande mediador das relações sociais em praticamente todas as porções do território e em todas as classes sociais.

O próprio governo Lula proporcionou um crescimento vertiginoso dessa dinâmica com as correlatas políticas de expansão do crédito público e aumento real do salário mínimo acima da inflação, incrementando o poder aquisitivo de grandes parcelas da população. Mas junto com o dinheiro e o consumo vêm o individualismo, a ganância e a ambição, um pacote completo embalado por milhares de peças publicitárias e pela ideia fortemente difundida da meritocracia e do empreendedorismo, diametralmente oposta aos valores humanistas de alteridade e solidariedade. O progresso material se sobrepõe a tudo e a todos e a busca pela “gourmetização da vida” é, agora, o modus operandi e o objetivo geral a ser alcançado por uma expressiva parcela da sociedade. Completa-se, assim, a atomização do indivíduo, presente nas periferias e nos bairros de classe média, nas capitais e no interior, no litoral e nos confins da Amazônia.

Como bem disse Karnal, “viver imune aos apelos do consumo é complexo para o adulto e quase intransponível para o jovem”13. O geógrafo Milton Santos vai além. Em sua análise sobre a globalização (que prefere denominar de “globaritarismo”, a aliança entre a tirania do dinheiro e da informação), o consumo é “o grande fundamentalismo do nosso tempo, porque alcança e envolve toda gente”. É um grande emoliente, “produtor ou encorajador de imobilismos”, ou “um veículo de narcisismos, por meio dos seus estímulos estéticos, morais, sociais”. E completa: “Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão.”14

Mesmo que em camadas, nuances, formas e situações diferenciadas o brasileiro entrou (ou foi empurrado) com força na dinâmica do turbocapitalismo globalizado, na qual a espiral do consumismo é um de seus principais traços, e o medo da perda das condições materiais, mesmo que reduzidas se comparadas aos extratos mais elevados da sociedade, aparece como elemento paralisante e reacionário. A questão da segurança pública ajuda a reforçar esse último aspecto com narrativas e imagens veiculadas incessantemente por programas de televisão sensacionalistas e a escassez, em outros tempos um forte elemento a favor das revoluções sociais, hoje parece estar mais inclinada ao reacionarismo.

Talvez a essência do brasileiro tenha-se tornado mais individualista e menos espontânea, cada vez mais enquadrada no “reino do cálculo e da competitividade”, amparado por um discurso único do mundo no qual as formas de relações econômicas implacáveis não aceitam discussão e exigem obediência imediata, como nos ensina Milton Santos15. Assim, a competitividade como norma acaba justificando os “individualismos arrebatadores e possessivos” na vida econômica, na ordem política, na ordem do território e na ordem social e individual. É o “dinheiro em estado puro”, explica o autor, em que dinheiro e consumo são tidos como reguladores da vida individual, cujo “objetivo é a necessidade, real ou imaginada, de buscar mais dinheiro”16.

Desde o último quartel do século XX, já há toda uma geração criada na frente da televisão, submetida a milhares de peças publicitárias por ano e seduzida pela expansão em grande escala da variedade de bens de consumo. Uma geração inteira receptora de enlatados estadunidenses em volume absurdo, na tevê, no cinema, nas rádios e nas antigas videolocadoras, fortalecendo o chamado american way of life na mente de grande parte da juventude brasileira de então. Uma geração inteira induzida ao convencimento da grandiosidade do papel dos Estados Unidos no mundo. Uma geração inteira com alto grau de despolitização, cujos ideais revolucionários pretéritos deixaram de ser atraentes.

Esses valores forjaram (e continuam forjando) a estrutura emocional, psíquica e cultural de parcela considerável das classes altas e médias das grandes e médias cidades brasileiras, frequentadoras assíduas da Disneylândia (desde criancinha) e dos inúmeros voos semanais para Miami e outros lugares dos Estados Unidos e da Europa. O pior é que esse fenômeno está gerando capilaridade entre as camadas mais pobres e se propaga pelo celular, na velocidade e ferocidade da internet e das redes sociais.

Por uma reforma agrária nos marcos do século XXI

É escancarada a rejeição dos agentes do agronegócio a Lula e ao PT. No primeiro turno, o candidato à reeleição venceu em 77 dos 100 municípios mais ricos do agronegócio, que juntos equivalem a 5,3 milhões de votos e concentram 34,3% do Valor Bruto da Produção Agrícola (VBP) nacional em 2021, índice medido pelo IBGE. A votação de Bolsonaro chegou a 74,84% em Canarana (MT), contra 21,80% de Lula. Em 22 municípios, o candidato do Partido Liberal (PL) recebeu mais de dois terços dos votos. Dos dez primeiros, sete são do Mato Grosso (Sorriso, Sapezal, Campo Novo dos Parecis, Diamantino, Nova Ubiratã, Nova Mutum e Querência), dois, da Bahia (São Desidério e Formosa do Rio Preto) e um, de Goiás (Rio Verde)17.

Segundo José Carlos Hausknecht, sócio-diretor da consultoria MB Agro, o forte apoio do setor já era esperado, “principalmente dos produtores, o que envolve as famílias e influencia nas cidades também”. Ele explica que os produtores “se sentem perseguidos, ameaçados com invasões do MST e atacados como responsáveis pelo desmatamento, pelo latifúndio improdutivo e pelo uso de defensivos”, e ao mesmo tempo nutrem o reconhecimento de um setor “que dá sustentação à economia e contribui com a balança comercial”18.

Seria muito ingenuidade imaginar que juntamente com esse fluxo produtivo e comercial, sobretudo em tempos muito favoráveis do ponto de vista cambial, não emergiria uma classe política potente e influente, que foi sendo construída gradativamente desde que a expansão da fronteira agrícola chegou aos confins do Centro-Oeste e à franja meridional da Amazônia, a partir da década de 1970. Como bem explicou o antropólogo Caio Pompeu, o agro não é pop, é político, e a partir do processo desencadeado para estabelecer o golpe contra a presidente Dilma Rousseff, em 2016, “nucleações dominantes do campo do agronegócio alcançaram protagonismo na agenda do Estado brasileiro” e o PT era considerado pelos líderes do agronegócio “como seu principal inimigo político”19.

Para além da questão política, sabemos que o agro não tem nada de pop, pois se trata de uma atividade com várias contradições e conflitos agudos nos temas que envolvem as questões agrária (condições de vida do trabalhador do campo e concentração fundiária), agrícola (latifúndio improdutivo), ambiental (desmatamento e outras práticas predatórias), indígena (violência e desrespeito para com as populações ancestrais) e trabalhista (trabalho escravo). E, nessa pauta, um dos elementos mais sensíveis diz respeito à reforma agrária — conceito temido pelas classes dominantes desde meados dos anos 1950, quando do advento das Ligas Camponeses no Nordeste.

Muitos autores advogam a tese de que o anúncio das Reformas de Base durante o governo João Goulart (1961-64) – da qual a reforma agrária era um dos pilares — foi a gota d’água para a deflagração do golpe militar de 1964, em um contexto caracterizado pela Guerra Fria. Do ponto de vista estrutural, o poder no Brasil guarda íntima correlação com a propriedade da terra, e uma mudança radical implicaria na eliminação do latifúndio e da especulação fundiária (a terra como reserva de valor).

Mas a temática da reforma agrária, a meu ver, precisa estar mais relacionada à realidade brasileira do século XXI, e não da segunda metade do século anterior. O país foi submetido a um enorme processo de urbanização, acompanhado de alterações demográficas igualmente substanciais, e grande parte dos problemas sociais também se deslocou para as cidades – déficit habitacional, ausência de saneamento básico, serviços insuficientes de saúde e educação, precariedade do transporte público, desemprego, etc.

Entretanto, não se trata de uma bandeira ultrapassada, pois a própria Constituição Federal prevê a desapropriação de terras que não cumprem a sua função social para serem destinadas à reforma agrária. Mas fica aqui a reflexão: será que o instrumento da reforma agrária seria eficaz, no momento atual, para resolver os problemas estruturais brasileiros? Por isso a necessidade de repensar o modelo de reforma agrária para o Brasil de hoje, sem deixar de criticar o que deve ser criticado. Afinal, como disse Eduardo Galeano, “a soberania começa pela boca” e, para quem dispõe de um mínimo de humanismo, é um absurdo ter fome no país aclamado como o “celeiro do mundo”.

É possível superar o ódio e a barbárie?

Agora caiu a máscara. Sem metáforas. Sem cortes. Sem o mito da tão propalada “democracia racial”. Ficou explícita a aversão que as forças conservadoras e reacionárias replicam em torno da figura do negro, indígena, pardo, favelado e suburbano, tida como de segunda categoria que atravanca o progresso do país — e, mais ainda, breca o desejo latente da “europeização” da sociedade brasileira. Sempre foi assim, é verdade, mas, nos marcos civilizatórios do atual contexto do mundo, deveria ser algo inadmissível. Uma “ralé eternizada”, na visão do sociólogo Jessé Souza, colocada como o “nosso maior conflito social”20. Um processo gradativo, perverso e crescente de naturalização da desigualdade social no Brasil e de tentativa de criminalização de qualquer tipo de movimento e/ou organização social daqueles que estão na base inferior da sociedade brasileira.

E, convenhamos, o núcleo duro do bolsonarismo está cheio de gente que pensa assim. São contra o fato de que o Brasil é um país mestiço e muito diverso em todos os aspectos. São contra a ideia de que empregadas domésticas devem ter salário digno e direitos trabalhistas. São contra a ideia de que pobres devem ter acesso às universidades públicas pelo sistema de cotas. Nunca aceitaram e não aceitam a ideia de um nordestino, metalúrgico e sindicalista ter sido presidente da República em duas ocasiões – e agora pela terceira vez.

Obviamente que o Brasil é muito mais complexo e diverso do que esse panorama e muitos aspectos colocados ao longo do texto são de conhecimento das forças progressistas. Entretanto, alguns elementos merecem uma compreensão mais profunda, muitos não foram sequer mencionados (o crescimento da extrema-direita em várias partes do mundo, por exemplo) e com outros ainda não sabemos ao certo como lidar, seja no plano intelectual, seja no plano político. Apesar de tudo, o Bolsonaristão foi derrotado e a esquerda está viva.


Referências citadas:

1. RAMOS, Pedro. Maioria rejeita uso de armas, afirma pesquisa Genial/Quaest,in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A9, 1º set. 2022.

2. Os dados, publicados pelo jornal O Estado de S. Paulo (Metrópole/A15, 06 out. 2022), são dos Serviços de Fiscalização de Produtos Controlados (SFPC).

3. CRUZ, Christian Carvalho. Mais uma para ficar na história, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 12 fev. 2012.

4. D’ARAUJO, Maria Celina. Demissão anunciada, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J3, 07 ago. 2011.

5. GREENHALGH, Laura e MARSIGLIA, Ivan. Brios e vacilos nas fileiras, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 14 fev. 2010.

6. SABÓIA, Napoleão. Estudiosa francesa analisa a fé dos brasileiros, in jornal O Estado de S. Paulo, Caderno2/D7, 08 jun. 2003.

7. KARNAL, Leandro. Rebanho não tão uniforme, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/E3, 07 set. 2014.

8. WETERMAN, Daniel. Campeões de voto reforçam bancada evangélica no Congresso,in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A21, 08 out. 2022.

9. GREENHALGH, Laura. Oceano processual, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 15 maio 2011.

10. VALLE, Vinicius do. Violência política toma conta de igrejas, in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A11, 20 out. 2022.

11. TAVARES, Flávia e MARSIGLIA, Ivan. Por trás da máscara, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 19 out. 2008.

12. AMORIM, Daniela e NEDER, Vinicius. Renda do brasileiro tem queda recorde, in jornal O Estado de S. Paulo, Economia&Negócios/B1, 11 jun. 2022.

13. KARNAL, Leandro. Compro e vivo, in jornal O Estado de S. Paulo, Cultura&Comportamento/C12, 09 out. 2022.

14-16. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do discurso único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2001, p.49 e p.56.

17-18. DUARTE, Isadora. Bolsonaro domina votação em 77 dos 100 municípios mais ricos do agronegócio, in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A10, 12 out. 2022.

19. POMPEIA, Caio. Formação política do agronegócio. São Paulo: Elefante, 2021, p.299.

20. SOUZA, Jessé. A ralé eternizada, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 06 jul. 2008.

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

El primer obrero que llegó a la presidencia de Brasil, sacó a millones de la pobreza y estuvo 20 meses en la cárcel logra un tercer mandato a los 77 años

Una ilustración de Lula da Silva. SCIAMMARELLA

Escrito por NAIARA GALARRAGA GORTÁZAR

Pocas personas han viajado tanto por el mundo y han visto tan poco fuera de hoteles, palacios y despachos como Luiz Inácio Lula da Silva (77 años, Garanhuns, Pernambuco). Era ya expresidente de Brasil cuando, en un viaje oficial a la India, no se reservó ni un instante fuera de la agenda oficial, ni siquiera para hacer una breve escapada y visitar uno de los monumentos más bellos del mundo. “En los últimos años, Lula no ha hecho otra cosa que política. No aprovecha ningún viaje para ver nada. En la India no vio ni el Taj Mahal. Se quedó en el hotel recibiendo políticos”, revela al teléfono su biógrafo y amigo Fernando Morais, que sigue sus pasos desde hace una década.

La política es el combustible que alimenta a este hombre pragmático y camaleónico que, tras su caída en desgracia, ha protagonizado la resurrección política más inesperada de los últimos tiempos al lograr este domingo un tercer mandato al frente de la primera potencia de América Latina, que ya gobernó entre 2003 y 2010.

Imaginar el actual escenario hubiera sonado a delirio hace cuatro años, cuando el operario metalúrgico convertido en líder sindical que fundó el Partido de los Trabajadores (PT) era prácticamente un cadáver político. Encarcelado por corrupción seis meses antes de las elecciones, ni siquiera pudo votar en los comicios que ganó un político de extrema derecha nostálgico de la dictadura, Jair Bolsonaro, 67 años. Lula ya había conocido la cárcel durante el Gobierno militar.

Concluido el recuento, Lula logró en la segunda vuelta un 50,9% de los votos frente a un 49,1% de Bolsonaro, es decir una ventaja de 1,8 puntos porcentuales y dos millones de votos.

Tras la primera vuelta, la campaña entró en una fase de guerra sucia, todo valía para destruir la reputación del adversario. El grado de desinformación y el volumen de mentiras que circulan por redes sociales es enorme, un fenómeno que Lula tardó en entender. “No imaginaba el poder de las mentiras que circulan entre teléfonos”, admitió en un reciente acto para desmontar mentiras y atraer el voto evangélico. Acababa de hacer una confesión: “Soy analógico, no tengo móvil. Uso los de otros”.

Los dos favoritos son viejos conocidos del electorado. Para Lula —que en portugués significa calamar— es su sexta elección porque, antes de ganar la dos primeras veces, perdió tres. A punto estuvo de abandonar, pero el cubano Fidel Castro le convenció con el argumento de que no podía traicionar a la clase trabajadora.

Fidel Castro habla con Luiz Inácio Lula da Silva durante una manifestación en La Habana (Cuba), el 27 de noviembre del 2000. Foto: GETTY IMAGES

Lula entró en la historia en 2003, cuando se convirtió en el primer —y único hasta ahora— obrero en presidir este país clasista y desigual como pocos. Para una parte de sus compatriotas es el héroe que sacó a millones de la pobreza y les dio oportunidades inimaginables para sus mayores. Para otros, el cabecilla de una banda de saqueadores de dinero público en la petrolera Petrobras (aunque las condenas por corrupción que le llevaron 20 meses a prisión fueron anuladas o archivadas). Siempre proclamó su inocencia y su confianza en la justicia.

Es, desde hace más de tres décadas, el personaje central de la política brasileña. Para bien o para mal, casi todo gira en torno a él. Casi nadie discute que es un hábil negociador, carismático, que muestra empatía, es astuto y un gran contador de historias. En la escuela ya destacaba por su expresión oral y escrita, aunque no fuera buen estudiante, según su biógrafo.

El PT es el partido más sólido de Brasil, pero ya no es la potentísima máquina electoral de los mejores años de Lula. Su poder territorial ha ido mermando a partir del impeachment de Dilma Rousseff en 2016. Él o sus aliados gobiernan cinco Estados, todos en el Brasil más pobre, y desde las últimas municipales no gestionan ni una sola de las capitales; solo un puñado de municipios que suman cuatro millones entre una población de 210 millones. El partido, a fin de cuentas, es una formación personalista. Su grupo parlamentario, uno de los mayores con 56 escaños, no logró erigirse en una oposición potente al bolsonarismo. Ese papel lo asumió Lula al quedar libre.

Sus discursos incluyen referencias constantes a doña Lindu, su madre. Aquella mujer analfabeta y severa que logró sacar adelante a sus siete hijos tras abandonar a un marido maltratador, que se llamaba Eurídice Ferreira de Melo. Y cuando los periodistas le preguntan por el techo de gasto, Lula suele escurrirse y decir que aprendió a administrar los dineros gracias a esta ama de casa en un hogar pobre. Aunque el poder económico le temía por radical, resultó bastante ortodoxo, aunque implantara políticas para una distribución un poco más justa de la renta: con los Gobiernos progresistas, el ingreso medio de los brasileños subió un 38% más que la inflación, pero el de los más pobres aumentó mucho más, un 84%, según el Partido de los Trabajadores.

Un cartel de Lula da Silva en la oficina del PT (Partido de los Trabajadores) en Brasilia, el 20 de septiembre de 2022. GUSTAVO MINAS (GETTY IMAGES)

Para buena parte de los brasileños más necesitados, Lula es uno de los suyos porque conoce la miseria. Nacido en el interior de Pernambuco, tierra asolada por la pobreza y las sequías, tenía siete años cuando, en 1952, viajó con su madre y hermanos en una camioneta durante 13 días hasta llegar a la pujante São Paulo en un éxodo de nordestinos hacia el sur. Se instalaron junto a la segunda familia creada por su padre, Aristides, un estibador que se esforzaba para alimentar a toda su prole mientras los trataba con una crueldad que rozaba el sadismo, cuenta Morais en Lula, Biografia Volumen 1 (Planeta en español; Companhia das Letras, en portugués). La vida era dura, pero había oportunidades. Lula las aprovechó. Trabajó de limpiabotas y chico de los recados antes de entrar en una escuela de formación profesional, su trampolín para el empleo de tornero. En ese cometido perdió el meñique izquierdo. Bolsonaro le suele llamar “nuevededos”.

Le gusta escuchar infinidad de opiniones antes de decidir. Se maneja bien en la ambigüedad y es un político que se mueve entre pobres, banqueros o reyes sin parecer un impostor. La suya es “una personalidad múltiple”, recalca Morais, que destaca también su capacidad de no guardar rencor. Ni siquiera su paso por la cárcel agrió su carácter. “Tiene más capacidad de hacer alianzas con antiguos enemigos que la mayoría de la gente que conozco”, dice sobre su amigo.

Basta ver a quién eligió como compañero de viaje. Su candidato a vicepresidente es Geraldo Alckmin, antiguo adversario en la disputa presidencial de 2006, figura histórica del centroderecha, de 70 años, y que en la anterior campaña electoral llegó a decir de él: “Después de arruinar el país, Lula quiere volver al poder, a la escena del crimen”, una frase que ahora esgrime Bolsonaro para atacar al dúo.

Lula también es “obstinado”. Todavía estaba en la cárcel cuando decía: “Voy a salir de aquí para disputar la Presidencia de la República”, recuerda el periodista que habla con él incluso en esta recta final de la campaña.

Cuando entró en prisión en 2018, Lula pensó que aquello era cosa de días, pero fueron 20 meses. Tiempo suficiente para escribir cientos de cartas a su novia Rosángela Silva, Janja, de 55 años, con la que se acaba de casar. Y para leer como nunca en la vida, con un diccionario de portugués y un atlas. Aquellas lecturas que “le dieron consistencia a sus principios y objetivos”, dice Morais, que añade: “Salió mucho mejor de lo que entró”. No tenía miedo de formular a sus abogados preguntas del tipo: “Explíqueme una cosa, ¿qué es esa historia de la política identitaria?”. Tampoco digiere bien otros asuntos de la modernidad como el uso del móvil. Y le irrita sobremanera que en medio de las reuniones los presentes consulten la pantalla del teléfono.

Muy admirado en el extranjero, Obama dijo de él en un corrillo del G-20: “Adoro a este tipo. ¡Es el político más popular de la tierra!”. Al año siguiente abandonaba el poder con un 87% de popularidad, como le encanta recordar. Tras recorrer el mundo como expresidente, acabó hundido en el lodazal por ese huracán que fue el escándalo de corrupción Lava Jato. Tan amado como odiado, el rencor hacia Lula y el PT amainó ligeramente tras su salida de prisión. No faltan brasileños espantados por Bolsonaro que le votarán pese a estar convencidos de que no fue un político íntegro.

Padre de cinco hijos, la vida le ha dado otros golpes. Su primera esposa falleció junto al bebé que esperaban. La segunda, doña Marisa, en pleno acoso judicial. Superó un cáncer de laringe.

Le entusiasma el calor de los mítines, el contacto directo con el pueblo, que la pandemia, y ahora la seguridad, complican. Pero nadie le recuerda en actividades terrenales como ir al supermercado, al cine, a un restaurante o al estadio del Corinthians, el equipo del mítico Sócrates del que es hincha.

Antes de entrar en la cárcel, en 2018, todavía jugaba algunos partidillos de fútbol con amigos (en uno conoció a Janja) y algún sábado organizaba un churrasco en su casa con viejos camaradas de los tiempos en que combatían la dictadura a golpe de huelga. Ya ni eso. Solo política. Acompañado siempre de su esposa, ha pasado la campaña embarcado en la misión de derrotar a Bolsonaro, salvar la democracia y regresar al poder para “volver a incluir a los pobres en el presupuesto y que todos los brasileños hagan tres comidas al día”. Él mismo reconoció ser consciente de la envergadura del desafío en estos tiempos que ya no son los de la bonanza generada por las materias primas. “Por eso hago gimnasia todos los días”. Para servir a Brasil. Y reescribir su historia.

 

[Fuente: http://www.elpais.com]

Digitalização da economia embaralha fronteiras entre lazer e labor, impõe jornadas massacrantes e aprofunda distúrbios psicossociais. Democracia exigirá regular corporações e reconectar sindicatos ao novo mundo do trabalho

Escrito por Marcio Pochmann

A tradição regulatória do trabalho no Brasil tem sido a de antecipar-se, em geral, aos potenciais riscos impostos durante os momentos históricos de grandes transformações econômicas e sociais. Ainda sob a vigência da escravidão, por exemplo, o Império adiantou-se à realidade que estava por chegar, definindo, em 1830, a regulação do contrato de prestação de trabalho entre brasileiros e estrangeiros livres.

Com a proibição do exercício do labor forçado, a livre expansão do capitalismo foi acompanhada por enorme potencial explosivo diante da exploração sem limites na crescente contratação da mão de obra. Por isso, logo no início da República, em 1891, o uso da mão de obra infantil em fábricas passou a ser, por exemplo, objeto de fiscalização; e em 1903 a existência de sindicatos passou a ser oficialmente permitida no país.

A própria Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), introduzida em 1943, não se deixou de orientar para a mão de obra exclusivamente urbana, quando um pouco mais de 10% do total dos ocupados enquadrava-se no estatuto do emprego assalariado formal. Pelo projeto tenentista de construção da sociedade urbana e industrial no Brasil, as massas sobrantes no campo, herdadas da sociedade agrária, seriam elevadas à cidadania laboral garantida pelo acesso aos direitos sociais e trabalhistas estabelecidos pela carteira do trabalho assalariado somente possível nas cidades.

Naquela oportunidade, a expansão nacional do mercado de trabalho urbano era a vanguarda das mudanças no Brasil. Por representar o passado a ser superado, o conjunto dos trabalhadores rurais que constituía a maior parte dos ocupados somente começou a ser integrado, lenta e gradualmente, na regulação pública a partir do ano de 1963, com a aprovação do Estatuto do Trabalhador Rural.

Coube ao Estado assumir centralidade regulatória diante do avanço do operariado e da burguesia industrial, as duas principais classes sociais que estruturavam a sociedade urbana e industrial em constituição. Considerado pelo presidente Getúlio Vargas (1930-1945) “O Ministério da Revolução”, o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, criado um mês após a Revolução de 1930, assumiu papel central na institucionalização, regulamentação e organização do mercado de trabalho assalariado.

A partir de 1990, quando o Brasil ingressou de forma passiva e subordinada na globalização conduzida pelos Estados Unidos, o assalariamento estancou e o emprego formal sofreu considerável deterioração. Concomitante com a ruína da sociedade urbana e industrial, a CLT foi sendo atacada, fazendo com que o Estado passasse a estar mais preocupado com o passado do que com o próprio futuro do presente, ao longo do primeiro quarto do século 21.

É nesse sentido que ganha importância na atualidade o entendimento acerca da emergência do mundo do trabalho digital que, impulsionado pelas diversidades das tecnologias de informação e comunicação, constitui o vetor de vanguarda das mudanças econômicas e sociais no país. Enquanto frente de expansão das ocupações novas e velhas, prolifera uma diversidade de atividades que se combinam virtualmente associadas à presença de trabalhadores que não são sequer reconhecidos como empregados.

Pela conformação de uma nova classe trabalhadora que se expande através das ocupações digitais, prevalecem enormes desafios quanto à identidade e pertencimento, bem como quanto à organização e recorte geográfico. Da mesma forma, as tradicionais instituições pertencentes ao antigo mundo do trabalho como entidades governamentais, sindicais e judiciais também registram dificuldades consideráveis para mobilizar e conectar as novas formas de trabalho ainda não padronizadas.

No contexto nacional de profusão de modelos de negócios cada vez mais operados pela coleta de dados e otimização dos processos de trabalho próprios da dispersão e fragmentação do labor remoto e terceirizado, a gestão algorítmica tem predominado. A assimetria de poder e de informação é inegável, tornando a retribuição monetária mínima diante da jornada de trabalho elevada, inclusive muitas vezes não remunerada, que acompanha a insegurança do rendimento e a ausência de compensação ao uso de equipamentos próprios da ocupação.

Ao mesmo tempo, o surgimento de novos sujeitos sociais ocorre condicionado a outros desafios em relação à formação da identidade coletiva e ao pertencimento solidário diante da ausência do status de emprego reconhecido legalmente e da natureza atomizada e dispersa do mundo do trabalho digital. A onipresença da digitalização faz desaparecer a fronteira que até então separava o tempo de labor do não labor, cujos impactos superam o caráter e a organização do trabalho, avançando sobre a saúde mental dos trabalhadores.

A digitalização da economia e da sociedade vem acompanhada de abusos da hiperconectividade gerados pela infração dos direitos de privacidade, vigilância massificada, elevação do tempo de trabalho, isolamento e intransparência nas relações profissionais. O resultado tem sido, em paralelo ao aumento da produtividade e dos lucros concentrados em poucos, o flagelo da precarização laboral e das doenças depressivas e de distúrbios psicossociais dependentes do uso de drogas legais ou até ilegais.

A regulação da digitalização e dos sistemas de inteligência artificial requer novas diretivas ao trabalho hiperconectado, capaz de garantir proteção social e trabalhista e padrões mínimos de saúde e segurança laboral. Novas instituições regulatórias e a reformulação das entidades de representação de interesses são necessárias para que o progresso da gestão algorítmica prevaleça com transparência e ética, sem decisões discriminatórias e arbitrárias que aprofundam a desigualdade e a injustiça.

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

 

El procés participatiu que ha obert el Pacte Nacional per la Llengua ha servit per recollir moltes propostes per reforçar l’ús del català i també alguns conceptes nous aptes per redefinir els reptes que tenim al davant

Escrit per Bernat Puigtobella

Aquest dimarts s’ha presentat l’informe del procés participatiu del Pacte Nacional per la Llengua. El procés ha estat obert des de l’1 de març fins al 30 de setembre i ha permès recollir 333 aportacions per millorar la situació del català, de les quals n’han sortit 2.600 propostes. Durant la presentació de l’informe, que el secretari Francesc Xavier Vila ha fet davant les entitats i partits que componen la taula del Pacte Nacional per la Llengua, han sortit alguns termes que em semblen oportuns i útils per entendre el moment que vivim.

El primer és el concepte de llengua completa. El català no és una llengua completa perquè no en podem fer un ús ple en tots els àmbits de la nostra vida. A hores d’ara, gairebé cinquanta anys després de la mort de Franco, encara és molt difícil poder celebrar un judici en català o poder tenir una oferta audiovisual normal en la nostra llengua. Em sembla que el desgast que ha patit el terme normalització demanava un concepte nou, i penso que el de llengua completa dona la talla. Ara que ja sabem que no hi ha llengües normals, hem de poder somniar una llengua completa.

El segon concepte sociolingüístic que he trobat valuós és el de ‘seguretat lingüística de les persones’. No parlem només de seguretat jurídica, que també, sinó sobretot de la confiança en la pròpia vàlua i en la possibilitat de poder anar pel món confiats que ens entendran. Ens manca aquesta seguretat cada vegada que baixem del carro a la més mínima contrarietat. Ens manca seguretat cada vegada que en una reunió de pares a l’escola ens passem al castellà només perquè una persona no entén el català. Ens manca seguretat quan la policia ens atura a la carretera i ens rendim abans que ens ho demanin.

I en tercer lloc, hem de començar a parlar de microdiglòssia de la mateixa manera que parlem de micromasclisme. Ho ha dit molt bé Maria Purificació Pinto, que participava a la taula del Pacte Nacional en representació del Consell Social de la Llengua Catalana. Pinto, que és una persona que ha adoptat la llengua catalana com a pròpia, ha apuntat que hem de saber detectar la diglòssia en les petites renúncies lingüístiques de cada dia, de la mateixa manera que el feminisme ens ha ensinistrat a destapar el masclisme que s’amaga rere actituds aparentment innòcues. No estem disposats a renunciar que el català sigui la llengua vehicular a les escoles, però després ens adrecem en castellà a l’entrenadora de futbol del nostra filla o al cambrer que ens ha de servir un cafè en llet. Els catalanoparlants ens sentim forts quan actuem en grup, però en el cos a cos individual evitem de seguida friccions i conflictes. Ens sentim protegits quan el pacte és col·lectiu i de curs legal, però fem figa quan ens la juguem tots sols de tu a tu.

En definitiva, no tindrem una llengua completa fins que no guanyem una mínima seguretat lingüística i aprenem a detectar les microdiglòssies de la nostra vida.

[Font: http://www.nuvol.com]

L’ascens del simi urbà

Els projectes urbanístics han dominat els últims sis mil anys d’història de la nostra espècie, i han aparegut de manera independent en tots els continents habitats. La majoria de la població ja viu en ciutats, i aquesta tendència sembla anar en augment. Un enfocament evolutiu implica explicar primer quins van ser els factors que van fer possibles els experiments urbans al final de l’Holocè i, a continuació, quines pressions selectives van provocar que les fórmules urbanes d’organització social tingueren més èxit que altres alternatives. Una sèrie de factors (alguns ambientals i altres derivats de les característiques de l’animal humà) expliquen el sorgiment de l’urbanisme. Entre les raons de l’avantatge comparatiu de les ciutats, s’argumenta que la formació de l’estat i la urbanització han tendit a formar relacions sinèrgiques en què cada element ha facilitat l’èxit de la resta.

Amman

Algunes ciutats primerenques es van caracteritzar per murs o ciutadelles i, per tant, se les pot considerar també un refugi. Fins i tot quan les circumstàncies van canviar, es van trobar nous usos per a les velles ciutats: en l’antiga regió mediterrània, l’expansió de l’Imperi romà va reduir els conflictes entre ciutats i va augmentar la seguretat. No obstant això, no es van abandonar les ciutats. En la imatge, vistes de la ciutat moderna d’Amman (Jordània) des de l’antiga ciutadella romana./ Foto: Kathleen, Flickr

Escrit per

El fenomen urbà

L’urbanisme ha transformat els entorns habitats del nostre planeta, així com el que entenem per ésser humà. Més de la meitat de nosaltres ja viu en ciutats, i per a finals de segle és possible que la xifra arribe a les tres quartes parts de la població mundial. L’aparició tan recent de l’urbanisme –les primeres ciutats es van crear fa tan sols 6.000 anys– i la seua pràctica omnipresència actual plantegen un repte explicatiu (Smith, 2019). La nostra espècie té una antiguitat de prop de 300.000 anys. Com a caçadors recol·lectors i abans del final del Plistocè, ja havíem colonitzat amb èxit tots els continents excepte l’Antàrtida. La nostra aventura urbana col·lectiva va començar fa relativament poc, però els sistemes urbans prompte van aconseguir dominar els paisatges socials del nostre planeta.

Això no és una sorpresa per a tothom. Hi ha moltes variacions del mite de la civilització que entén la ciutat com una forma superior d’existència. Aquestes idees han subscrit discursos teleològics de la història humana centrats en el «progrés» cap a un món de ciutats, estats i tecnologia cada vegada més avançada. No obstant això, la nostra extensa existència preurbana suggereix que l’explicació és molt més complexa. Ara sabem bé que no sols no hi hagué una única revolució urbana, sinó que l’urbanisme tampoc «es va propagar» a partir d’un petit nombre de centres originals (Childe, 1950). Les ciutats s’han inventat desenes de vegades al llarg dels últims mil·lennis; sovint ho van fer poblacions que no tenien coneixement d’altres experiments urbans. Els col·lapses també han estat freqüents, de manera que la història de les ciutats és discontínua i regional.

Definicions i descripcions

Es fa necessari oferir una definició provisional. Les ciutats són assentaments densament poblats construïts per a perdurar durant generacions, i la riquesa i les ocupacions dels seus habitants són heterogènies. Totes les societats humanes es caracteritzen per diferències en els rols socials en funció del sexe i l’edat, i sempre hi ha uns pocs individus que per una raó o per altra són tractats de manera diferent tant en vida com després de morir. Però les primeres societats urbanes incloïen grups d’artesans, comerciants i, sovint, especialistes religiosos i guerrers, juntament amb famílies dedicades principalment a la producció d’aliments. Les diferències de riquesa van emergir a partir d’aquestes distincions: són clares si observem l’espectre d’habitatges d’un assentament, i sovint també a partir de les diferències sistemàtiques en els dipòsits funeraris i fins i tot en la dieta.

«Les primeres ciutats tenien molt en comú, independentment del lloc en què es crearen» 

Aquestes qüestions distingeixen les ciutats dels campaments grans, però temporals, com els creats pels caçadors recol·lectors i també dels assentaments permanents sense gaire diferenciació entre habitants, com els poblats agrícoles prehistòrics d’Euràsia (Wengrow, 2018). Les ciutats també es poden distingir dels grans enclavaments cerimonials creats per algunes societats prehistòriques tardanes. És molt probable que les diferents invencions de les ciutats es basaren en els models proporcionats per grans assentaments temporals, extensos poblats agraris i complexos monumentals, però el que van crear va ser una cosa nova.

Les primeres ciutats tenien molt en comú, independentment del lloc en què es crearen. Per exemple, formaven nodes relacionals amb dos tipus de sistemes d’intercanvi. A escala local, les ciutats se sostenien amb l’extracció d’aliments, materials i treball de les zones pròximes. D’altra banda, la majoria també participava en intercanvis de llarga distància entre civilitzacions urbanes molt allunyades. La unió d’aquests dos sistemes es materialitzava en la fabricació per a l’exportació, per exemple la producció de teixits.

En termes morfològics, les primeres ciutats també presentaven algunes similituds. Els sistemes de comunicació interna eren necessaris per a la circulació d’aliments, aigua, combustible, deixalles i informació, a més d’altres béns i productes manufacturats. Els límits de les ciutats estaven clarament delimitats per murs, canals, camins perimetrals i, a vegades, santuaris i cementeris. L’organització espacial dins de les ciutats diferia entre cultures. Algunes dedicaven àmplies àrees als temples i les residències dels governants, mentre que altres semblen haver-se organitzat de manera més igualitària. Apareixen amb freqüència espais comunitaris per a rituals col·lectius i potser per a reunions polítiques, però l’estructura dels barris era diferent entre les unes i les altres.

Hi havia també notables àrees de diferenciació. La grandària de les primeres ciutats anava des dels pocs milers de persones fins als centenars de milers en les capitals imperials preindustrials. Les ciutats mesoamericanes eren enormes en comparació amb les de la conca mediterrània. Els imperis euroasiàtics es caracteritzaven per xarxes urbanes molt jerarquitzades en què unes poques ciutats de centenars de milers d’habitants coexistien amb milers d’entitats urbanes molt menors. Les diferents trajectòries d’urbanització expliquen part d’aquesta variabilitat. Alguns sistemes urbans es van crear per diferenciació amb altres xarxes d’assentaments anteriors, mentre que altres van sorgir per una ràpida concentració de població. És també probable que els factors mediambientals tingueren un paper rellevant en la configuració d’aquestes urbs. Un gran nombre de ciutats tenien una densitat relativament baixa, amb àrees residencials separades per jardins i altres espais oberts (Fletcher, 1995); això s’ha considerat típic dels tròpics. Altres ciutats estaven més concentrades, a vegades amb residències d’uns quants pisos.

L’èxit dels experiments urbans no va ser un procés fàcil: en molts llocs, les ciutats es van reduir o van desaparèixer a causa de diferents factors. Per exemple, el col·lapse de la civilització maia del període clàssic s’ha atribuït als canvis mediambientals que van provocar-ne la caiguda. En la imatge, el temple de Kukulkan (conegut com el Castell), construït per la civilització maia entre els segles viii i xii de la nostra era, que domina el conjunt arqueològic de Chichén Itzá, a l’estat de Yucatán (Mèxic)./ Raquel Moss

Els testimoniatges de viatgers antics, medievals i del començament de l’edat moderna, com Ibn Battuta, Marco Polo o els conqueridors, mostren que sempre va ser fàcil reconèixer les ciutats, encara que les seues peculiaritats locals també eren evidents. Fins fa molt poc, quan es van globalitzar les tecnologies de construcció i els estils arquitectònics, els sistemes urbans de tot el món semblaven una família de cosins amb faccions comunes i recognoscibles però també amb peculiaritats individuals.

Més enllà de l’origen urbà

La utilitat de la ciutat com a categoria analítica rares vegades ha estat qüestionada. Els orígens urbans són més controvertits.

Les explicacions d’episodis concrets d’urbanització han variat enormement (Ucko et al., 1972). Hi ha qui destaca l’impacte de la guerra o el despotisme, o presenta les ciutats com el producte de moviments de refugiats, en resposta a catàstrofes mediambientals, o per les exigències d’entorns amb problemes hidràulics. S’ha argumentat que, per si sol, l’augment de la població pot portar a una població més enllà d’un punt en què les institucions urbanes són necessàries, i altres explicacions similars veuen l’urbanisme com una conseqüència del creixement econòmic o polític. Sembla extremadament improbable que puguem trobar una causa única que explique cadascuna de les invencions d’urbanisme. Amb major èxit, s’ha suggerit que la ciutat és la solució única per a molts problemes durant l’Holocè (Clarke, 1979).

També s’ha argumentat que la urbanització és només una dimensió més d’un augment general de la complexitat que també inclou la formació de l’estat, l’ús de símbols, l’escriptura i els diners (Smith, 2009). La interconnexió d’aquests processos sol ser evident, però la posició general ha rebut crítiques constants. S’han identificat nombroses ciutats en diferents societats sense que hi haja indicis d’institucions estatals (Graeber i Wengrow, 2018, 2021; Morris, 1991). No tots els estats es caracteritzaven per l’urbanisme, i algunes ciutats primerenques semblen comunitats més igualitàries que jeràrquiques. La complexitat és, en qualsevol cas, una mesura problemàtica: la complexitat de moltes societats de caçadors recol·lectors es materialitzava de diferents maneres, i algunes operaven, almenys periòdicament, a gran escala. Molts agricultors no urbans sabien organitzar projectes extraordinàriament complexos, incloent-hi obres hidràuliques i la construcció de monuments. Per aquestes raons, sembla més adequat mantenir l’urbanisme separat en termes d’anàlisi i considerar més avant les seues relacions amb la formació de l’estat.

Els evolucionistes podrien considerar la qüestió urbana en dues parts. La primera està relacionada amb quins van ser els factors que van fer possible l’estratègia de la fundació de ciutats des de mitjan Holocè. La segona, amb quines són les raons de l’èxit d’aquest conjunt d’experiments socials, en particular davant d’altres alternatives.

La possibilitat de l’urbanisme

L’urbanisme primerenc no depenia d’un únic nínxol ambiental. Les ciutats es van crear a les planes al·luvials i a les estepes, a les valls de rius importants i al litoral marítim, i fins i tot a gran altitud, com als Andes. Abans de l’era industrial, les ciutats eren poc habituals a la taigà, la tundra o el desert. Fins fa poc, podríem haver inclòs els boscos tropicals en aquesta llista, però el treball recent amb teledetecció LiDAR a Amèrica Central i l’Amazònia suggereix que aquest buit podria ser només aparent (Iriarte et al., 2020). Els principals assentaments a Ucraïna es van crear en el quart mil·lenni abans de la nostra era (ANE) en el punt d’unió entre l’estepa i els boscos temperats. És probable que hi haja més societats urbanes primerenques sense descobrir. La majoria d’aquests entorns també han estat, de vegades, la base de societats no urbanes, i poques regions tenen una història urbana ininterrompuda. Així, van anar apareixent grups de ciutats que més tard van desaparèixer, en gran mesura cap al final de l’Holocè.

L’agricultura és un prerequisit per a l’urbanisme. Aquesta és probablement la raó principal per la qual, segons sembla, la construcció de ciutats no es va intentar abans. La domesticació dels primers conreus i, més avant, dels primers animals va ocórrer en múltiples ocasions arreu del món i en la majoria de regions va precedir l’urbanisme uns quants milers d’anys. Encara que algunes societats de caçadors recol·lectors en entorns tropicals rics sí que van adoptar formes de vida sedentàries, i algunes fins i tot van crear monuments notables, cap no va fundar ciutats com les definides anteriorment. El més probable és que això es dega a raons energètiques. La construcció de ciutats és un procés temporalment i energèticament costós, i sostenir la vida urbana també requereix accés a excedents de producció. Però encara que l’agricultura va ser necessària per al desenvolupament de l’urbanisme, no era suficient per ella mateixa. Moltes societats agrícoles no van intentar crear ciutats.

Altres prerequisits estan relacionats amb una sèrie de trets que distingeixen l’animal humà de moltes altres espècies (Woolf, 2020). És de sobres conegut que els humans toleren una gran varietat de dietes, incloent-hi aquelles en què es combinen les calories adequades amb una dieta rica en carbohidrats i pobra en vitamines. D’igual manera, els humans han demostrat ser capaços de viure en tota una sèrie de condicions endèmiques generades en habitar al costat d’altres humans, animals domèstics i les deixalles dels uns i els altres. Aquestes condicions certament caracteritzen moltes ciutats primerenques (Hassett, 2017).

En termes més positius, la sociabilitat humana va permetre la cooperació sostinguda de grans grups. Les ciutats ofereixen als humans alguns dels avantatges que els ruscos i les colònies ofereixen als animals euso­cials. Però a diferència dels insectes socials o els peixos, aquestes col·laboracions i rols complementaris depenen d’una forma complexa de comunicació que cap altra espècie pot gestionar. Això no era una novetat de l’Holocè. Els humans ja tenien la capacitat de viure i treballar junts en grans grups molt abans que crearen ciutats. De fet, s’ha suggerit que les grans expedicions de caça col·laborativa i fins i tot la construcció de monuments proporcionaven als humans plantilles d’activitat cooperativa que van facilitar tant el desenvolupament de l’agricultura com la vida urbana. Tant els projectes agrícoles com els urbanístics requerien no sols una planificació complexa, sinó també la voluntat col·lectiva per a invertir en projectes de llarga duració.

Una conclusió provisional és que una sèrie de característiques fisiològiques i cognitives dels humans van resultar ser també útils per a la construcció de ciutats i, quan l’agricultura ja havia produït suficients excedents d’energia i aliments, aquests projectes es van fer viables.

L’urbanisme i les seues alternatives

L’urbanisme no va ser l’única innovació social de l’Holocè. Però hem de preguntar-nos per què va tenir tant d’èxit, en comparació amb altres.

En l’actualitat és impossible documentar tots els experiments socials de les societats agrícoles, però podem identificar-ne uns quants. El més evident en el registre arqueològic són les regions caracteritzades pels pobles agrícoles, comunitats sedentàries amb escassa diferenciació social. Les domesticacions animals van obrir un segon grup d’opcions, incloent-hi diversos tipus de nomadisme. En moltes regions des del nord de Mesopotàmia fins a l’estepa euroasiàtica es van desenvolupar relacions simbiòtiques entre els agricultors i els ramaders. Finalment, podem apuntar l’existència de diversos grups de caçadors i recol·lectors de l’Holocè, molts dels quals (com les poblacions circumpolars) utilitzaven un set d’eines molt més avançat que el dels seus predecessors del Plistocè. La pregunta que hem de respondre és per què els experiments urbans van acabar superant altres opcions a llarg termini.

Tradicionalment, el nomadisme s’ha avingut malament amb els estats centralitzadors; això ha estat així des dels primers califats fins a la Unió Soviètica. Altres formes d’organització social a menor escala han resultat ser (amb algunes excepcions) menys compatibles que les ciutats amb els objectius d’entitats polítiques més grans. En la imatge, una família nòmada prop del llac Song Kol, a Kirguizistan./ Renate Vanaga

Hauríem d’admetre immediatament que aquest no va ser un procés fàcil. En algunes regions, els poblats agrícoles van reemplaçar els urbanitzadors durant segles. La vall de l’Indus n’és un exemple. Diverses cultures agrícoles forestals van ocupar moltes àrees d’Amèrica Central i del Sud ocupades per urbans molt abans de l’intercanvi colombí. El desenvolupament d’«imperis nòmades» en l’estepa euroasiàtica va ser una característica de l’últim mil·lenni ANE i del primer mil·lenni de l’era actual: en molts casos, les societats urbanes van sobreviure com a vassalls d’aquests estats nòmades, però en alguns casos les ciutats es van reduir o van desaparèixer. El final de l’Imperi romà d’Occident va provocar la desaparició de les ciutats d’algunes regions del nord d’Europa.

En uns pocs casos, pot ser que els canvis ambientals foren un factor que cal tenir en compte. Les ciutats a la vora del desert podrien haver-se fet menys viables; el rebliment va obligar a abandonar algunes urbs, i s’ha ofert tota una sèrie d’explicacions ambientals per al col·lapse de la civilització maia del període clàssic. Recentment hi ha una tendència clara a posar l’accent en els factors antropogènics. En efecte, això és cert en alguns casos, com la fi de l’urbanisme al Mississipí poc després de l’arribada dels europeus a Amèrica del Nord, però no és una explicació general vàlida. Moltes d’aquestes discussions han donat per descomptat que l’urbanisme (o la civilització) és indiscutiblement bo, i que qualsevol societat capaç de desenvolupar-lo ho hauria fet (McAnany i Yoffee, 2010). I no obstant això, és també possible que, en certs moments i llocs, les poblacions simplement triaren una de les alternatives disponibles a l’urbanisme.

Pot ser que, certament, aquest tipus d’elecció siga ara menys factible que en el passat. El creixement global de població està fent que residir en entorns no urbans siga una opció cada vegada més exclusiva de les classes privilegiades. La reducció de biodiversitat provocada per l’agricultura comercial fa cada vegada més difícil viure dels horts personals, la caça o la recol·lecció. Però la falta d’alternatives a l’urbanisme és un fenomen molt recent, potser amb menys de dos segles d’història en algunes parts del món. Falta explicar per què l’urbanisme sí que va aconseguir desplaçar altres estils de vida alternatius en els seus primers cinc mil·lennis i mig d’existència.

L’èxit comparatiu de l’urbanisme

El concepte d’urbanisme de Clarke com una solució única per a tota una sèrie de problemes ens pot servir com a punt de partida. En molts casos, l’urbanisme deu haver resolt o mitigat un problema immediat. La persistència urbana és menys difícil d’explicar en aquests casos, almenys mentre el problema continue existint.

Per exemple, algunes ciutats primerenques es van caracteritzar per estar dotades de murs o ciutadelles i, per tant, se les pot considerar també un refugi. Les ciutats sumèries del quart mil·lenni ANE o les gregues del primer mil·lenni ANE van aparèixer en paisatges políticament fragmentats en què la guerra sembla haver estat una preocupació principal, si s’ha de jutjar per la seua literatura i art figuratiu. Resulta bastant fàcil veure per què el seu canvi cap a l’urbanisme no es va revertir mentre persistiren les mateixes condicions.

Fins i tot quan aquestes van canviar, es podien trobar nous usos per a les velles ciutats. L’expansió de diversos estats imperials a la regió mediterrània que va culminar amb un llarg període d’unificació sota el mandat romà va reduir els conflictes entre ciutats i va augmentar-ne la seguretat, però el resultat no va ser l’abandó de les ciutats fortificades. En algunes regions com Itàlia central, es va començar a construir i residir més al camp, i en altres com Grècia, les poblacions urbanes van augmentar, però la majoria de ciutats no es van fortificar. Les ciutats en general es van tornar més importants com a nodes de les xarxes d’intercanvi i com a proveïdors especialitzats de serveis com la justícia i els esdeveniments religiosos i culturals. Com a resultat, la xarxa es va tornar més diferenciada, encongint les ciutats petites i fent créixer més les grans. Un conjunt similar de processos es va produir segles més tard a Europa occidental, amb l’expansió de les ciutats catedralícies, els centres de peregrinació i les poblacions portuàries a costa dels primers burgs medievals, que anteriorment proporcionaven seguretat local (De Vries, 1984).

El fenomen de la persistència de les ciutats tot i el canvi de les seues funcions és tan extens que mereix una major consideració. Si bé és possible que les ciutats es desenvoluparen com a solució a múltiples problemes, potser hem de considerar la facilitat amb què es van reconvertir. Com altres tecnologies (per exemple l’escriptura o la metal·lúrgia), una vegada adquirit, l’urbanisme es pot utilitzar per a diferents finalitats. La disponibilitat de ciutats pot haver-les convertides en eines convenients, i és possible que la seua àmplia utilitat n’assegurara la persistència fins i tot quan les raons originals per a crear-ne ja no existien.

Els humans ja tenien la capacitat de viure i treballar junts en grans grups molt abans que crearen ciutats. Però tant els projectes agrícoles com els urbanístics requerien no sols una planificació complexa, sinó també la voluntat col·lectiva per a invertir en projectes de llarga duració. En la imatge, un mercat d’aliments a Bolonya (Itàlia)./ Renate Vanaga

Un exemple particularment generalitzat és l’ús de les ciutats en el govern. Els governs premoderns van sorgir a partir de diversos orígens. Tant la competència entre grups de parentiu, com les conquestes externes, el conflicte entre faccions i els canvis en tecnologia militar hi van tenir un paper important. Els primers imperis els establiren monarquies, grups nòmades i ciutats estat que van aconseguir superar altres sistemes rivals. Però l’espectre d’opcions de govern era més limitat. Els imperis premoderns solien dependre d’alian­ces amb les elits locals, de la imposició de governadors militars o de la generació de burocràcies. Les dues últimes solucions solien ser prou costoses com per a requerir una pujada d’impostos. No és sorprenent, per tant, que les ciutats conquistades foren utilitzades regularment com a instruments de govern per imperis de tota mena. El mateix ocorre amb els estats nació. Podria dir-se que l’èxit de l’urbanisme en els dos últims mil·lennis s’ha degut en gran manera a la utilitat de les unitats polítiques més grans.

Aquesta línia d’argumentació ens porta de tornada a la qüestió de l’urbanisme i l’estat, i de la complexitat social. En lloc d’afirmar que la ciutat i l’estat són dues dimensions o reflexos d’un procés major, vull defensar que totes dues unitats han estat cada vegada més útils mútuament. Per contra, tradicionalment el nomadisme s’ha avingut malament amb els estats centralitzadors; això ha estat així des dels primers califats fins a la Unió Soviètica. Altres formes d’organització social a menor escala –silvicultors, grans poblacions agrícoles i comunitats de caçadors– han resultat ser (amb algunes excepcions) menys compatibles que les ciutats amb els objectius d’entitats polítiques més grans.

Futurs urbans

L’urbanisme, com he suggerit, comprèn una sèrie d’experiments socials disponibles per a l’espècie humana a partir del punt de l’Holocè en què els excedents agrícoles i les poblacions que aquests generaven van arribar a un cert llindar. Durant gran part dels primers cinc mil·lennis, les formes de vida urbanes van competir amb altres alternatives, i es poden trobar nombrosos casos de societats que, per una raó o altra, es van desil·lusionar del concepte de ciutat. Aquestes alternatives s’han vist cada vegada més apartades pels dràstics canvis dels últims dos segles. L’Antropocè, ens agrade o no, pertany a la ciutat, i és difícil imaginar futurs posturbans no catastròfics.

«El creixement global de població està fent que residir en entorns no urbans siga una opció cada vegada més exclusiva de les classes privilegiades» 

Heus ací una qüestió general sobre la reversibilitat de processos com la urbanització i la formació de l’estat. Aquesta qüestió deu resultar familiar als experts en evolució que estudien altres problemes. El canvi en resposta a les pressions selectives es pot revertir moltes vegades quan aquestes pressions canvien, però pot arribar un punt en què aquesta opció ja no siga possible. En l’evolució biològica, això sol implicar una reducció de diversitat genètica, com quan una espècie pateix una situació de coll de botella.

L’evolució social opera mitjançant mecanismes diferents. És cert que la pèrdua de biodiversitat fa que algunes alternatives a l’urbanisme siguen molt més difícils de perseguir avui dia. Col·lectivament, les ciutats han creat entorns en què és difícil ser no urbà: això també és una conseqüència no planificada del seu èxit. Però, en un cert sentit, la ciutat també és la solució a tants problemes que resulta complicat imaginar una substitució integral. Al final, la versatilitat social de l’urbanisme és el que ha assegurat el seu èxit. 

Referències 

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Una nueva carretera abre oportunidades de negocio en América Latina, pero trae más amenazas a pueblos indígenas, bosques y animales de un bioma casi desconocido

Un ganadero recorre un tramo casi terminado del Corredor Bioceánico, un proyecto que busca mejorar la conectividad a través del Gran Chaco paraguayo.

Escrito por Santi Carneri 

Vuelan cuervos al atardecer, el coche abandona el asfalto y circula por un camino de tierra seca que cruzan pequeños lagartos y zorros. En los costados hay charcos de lluvia y matorrales, también cactus de cinco metros de alto y árboles jóvenes que ocultan una valla de alambre y madera de una estancia ganadera tan grande que es imposible verla completa:

“Toda esta zona se deforestó ”, dice Tagüide Picanerai, un líder del pueblo indígena ayoreo, mientras conduce hacia su comunidad, Chaidí, que significa « refugio » en su idioma materno. « Acá se ve que están tirando abajo los pequeños bosques que quedaban. Sabemos que esto mata la biodiversidad y, lentamente, el mundo ayoreo ».

Chaidí es una aldea de casas de madera rodeadas de bosque, una de las zonas más vírgenes del Gran Chaco, el segundo bosque más extenso de América del Sur después de la Amazonía y que conecta con el Pantanal brasileño, el mayor humedal del mundo.

Una casa de la comunidad ayoreo de Chaidí, en el Alto Paraguay, a unos 700 kilómetros de Asunción. Varios habitantes de la comunidad viven en aislamiento voluntario en el bosque.

Picanerai es nativo de este inmenso pero desconocido bioma, en parte árido y en parte húmedo que, con 1,1 millón de km2, ocupa la mitad de Paraguay, un tercio de Bolivia, un buen pedazo de Argentina y un poquito de Brasil. Es un territorio el doble de grande que Francia.

Los ayoreo son el único pueblo que vive en aislamiento voluntario en América, fuera de la cuenca amazónica. Su derecho a la autodeterminación está consagrado por la legislación interamericana, pero son uno de los pueblos más amenazados y afectados por la deforestación, impulsada por la ganadería y la agricultura a gran escala.

El Gran Chaco está en plena transformación y, muy pronto, un nuevo proyecto vial podría cambiarlo drásticamente.

El Corredor Vial Bioceánico

Pocos saben de la enorme riqueza cultural y natural de esta tierra, pero menos saben del proyecto que Paraguay está llevando a cabo aquí: una obra insólita conocida como el “Corredor Vial Bioceánico”, que tendrá 544 kilómetros de asfalto y un nuevo puente entre Brasil y Paraguay para facilitar el tránsito rodado de un lado al otro del continente. El sueño de Colón, llegar a Asia.

Y también el sueño de los productores de soja de Brasil y los ganaderos de Paraguay de alcanzar más mercados asiáticos, atravesando el norte de Argentina y los puertos de Chile. Un tráfico hasta ahora lento, peligroso y muchas veces detenido por caminos de tierra y lodo de Paraguay.

Una máquina trabaja en el Corredor Bioceánico en el Chaco paraguayo. El proyecto es una iniciativa de cuatro países para mejorar la conectividad en toda Sudamérica,

Cuadrillas de trabajadores avanzan día tras día en la nueva carretera, y casi todo el camino desde Asunción hasta las comunidades ayoreo está en plena ebullición: camiones, tractores, bulldozers y cientos de personas recorren la vía cavando, asfaltando y pintando.

Picanerai nació hace 34 años en Campo Loro, un asentamiento fuera del bosque, construido por religiosos de la misión evangélica hoy conocida como Ethnos 360, que forzaron a sus padres a abandonar su vida nómada y sus costumbres en la década de 1970. Dice Picanerai que los misioneros llamaron así al lugar porque los hombres y mujeres, como sus padres, obligados a punta de pistola a salir del bosque, no paraban de hablar, como los loros.

Tagüide Picanerai abre la puerta del territorio de Ayoreo, situado entre los departamentos de Boquerón y Alto Paraguay, en el Chaco paraguayo.

La ausencia total de asfalto en la zona paraguaya del Gran Chaco, que hace frontera con Bolivia y Brasil, mantuvo hasta ahora el intenso comercio de materias primas por otros caminos. La enorme dificultad de atravesarlo sin conocerlo le valió el bautismo de la primera literatura colonial, y la del siglo XVIII en adelante, como “infierno verde” o “desierto”, “hostil”, “seco”, “árido”. Pero lo cierto es que no es así.

Puede que sea un bosque impenetrable para un forastero, pero no para los cientos de miles de personas que han vivido aquí desde antes de la llegada de los españoles.

El Gran Chaco: ‘Un ecosistema peculiar’

El Gran Chaco es un bosque de palmeras, jaguares, cactus, espinas y osos hormigueros; de caimanes (jacarés) y pumas y maderas preciosas como el palo santo. Un bosque continuo, de caminos polvorientos y pantanosos, dividido por fronteras políticas que no existen para la naturaleza y en cuatro ecorregiones que, sí, incluyen climas áridos, pero también bosques, humedales, estepas, ríos y lagunas, a veces secas.

mapa que muestra la ubicación del Gran Chaco en Sudamérica

Es un bosque de importancia vital para los pueblos indígenas que lo habitan y, como la Amazonía, para la fauna y la flora del mundo entero, cuenta a Diálogo Chino Andrea Weiler, bióloga y profesora de la Universidad Nacional de Asunción, en Paraguay.

“Es un ecosistema tan peculiar, tan único y tan extremo en su biodiversidad que está maravillosamente adaptada a condiciones extremas”, destaca esta investigadora especializada en el monitoreo de la fauna del Chaco, como los jaguares (yaguareté en guaraní, que significa “perro auténtico”) o los pumas.

El valor ecológico del Gran Chaco incluye 3400 especies de plantas, 500 especies de aves, 150 mamíferos, 120 reptiles y 100 anfibios. Muchos amenazados, como el jaguar, el pecarí de barba blanca, el oso hormiguero o el tapir.

Es un ecosistema tan peculiar, tan único y tan extremo en su biodiversidad que está maravillosamente adaptada a condiciones extremas

“Al meter todas estas nuevas rutas habilitan zonas de tránsito mucho más intensivo y ese tránsito va a traer más fragmentación del bosque y más población; a medida que haya más asentamientos urbanos habrá más conflicto”, explica Weiler.

La reducción del bosque y de las presas de los grandes felinos los atrae hacia las vacas. Weiler alertó que los ganaderos pagan a sus empleados entre 100 y 200 dólares por cada puma que cazan, y el doble si es un jaguar, actividades penadas con 5 años de cárcel. Lo mismo o más que un salario mensual medio en la zona.

Ni un desierto ni un idilio

El Gran Chaco no es un idilio ambiental, ni tampoco una tierra habitada solo por indígenas. En el lado argentino hay plantaciones de soja y algodón transgénico desde hace dos décadas. En la parte brasileña, unos pocos estancieros son dueños de la mayoría del ecosistema. Y tanto del lado boliviano como paraguayo miles de colonos menonitas de origen ruso, alemán, canadiense y mexicano se han asentado, generado industrias de extracción de madera, ganadería, leche, soja y algodón. También hay misioneros.

Dos guerras han atravesado este territorio en menos de 200 años. Primero la de la Triple Alianza (1864-1870), en que Brasil y Argentina destruyeron, ocuparon y recortaron Paraguay, —después, para hacer frente a las exigencias de los vencedores, Paraguay vendió las tierras “estatales” del Chaco en la bolsa internacional, privatizando bosques que eran territorio ancestral indígena—. Más tarde, la guerra entre Paraguay y Bolivia de 1932 y 1935, que fue, en concreto, por el territorio chaqueño y dejó 60.000 bolivianos y 30.000 paraguayos muertos.

Y a los pueblos indígenas de la región asediados, reclutados o encarcelados, viendo cómo sus tierras seguían repartiéndose sin su consentimiento.

Hoy, Picanerai es uno de los principales actores políticos indígenas del Chaco. Habla ayoreo, español y se defiende en guaraní y portugués. Sobre su ancha espalda carga la responsabilidad de negociar con el Estado paraguayo acciones para prevenir la destrucción de las tierras comunales y los bosques donde viven sus familiares.

Trabajadores en el Corredor Bioceánico de Paraguay. El proyecto supondrá la colocación de unos 544 km de asfalto, atravesando regiones que hasta ahora solo tenían caminos de tierra.

Cada quince días, va y viene conduciendo un coche por los más de 500 kilómetros que separan su comunidad de Asunción, la capital de Paraguay, también conocida como “Puerta al Chaco” por ser la mayor capital cercana a este ecosistema. Antes, en 2015, cuando hice el primer viaje con él, llevaba unas diez horas, ahora que la mayoría es asfalto se hace en seis.

Si él y otros líderes no mantienen la presencia y presión en los tres poderes del Estado, sus tierras corren aún más peligro. Tala ilegal, cazadores furtivos, narcotráfico, misioneros y funcionarios públicos corruptos son algunas de sus principales amenazas.

“Lo que antes eran huellas de yaguareté ahora son marcas de las topadoras. Nuestros hermanos solo quieren que salvemos el bosque”, dice en idioma ayoreo Porai Picanerai, padre de Tagüide, mientras talla un tortuga hecha de madera de palosanto en su casa en Chaidi.

Ingoi Etacori, un residente ayoreo en Chaidí, posa con un loro. Salió del aislamiento en el bosque en 2004, cuando los ganaderos abrieron una nueva carretera cerca de su antiguo hogar,

Desde 2004, año del último contacto, ningún ayoreo ha vuelto a salir del bosque, pero en los 30 años anteriores unos 7.000 de ellos fueron forzados a abandonarlo. En la mayoría de los casos, obligados por la organización evangélica estadounidense Ethnos 360, que provocaron enfrentamientos y muertos, según relatos de los Picanerai y de la ONG inglesa Survival.

El nuevo corredor bioceánico atraviesa algunas de las comunidades ayoreo fuera del bosque, como las de Carmelo Peralta, ubicadas a orillas del río Paraguay, justo por donde pasa el puente que unirá Brasil y Paraguay. Solo el puente ha costado al gobierno paraguayo 103 millones de dólares y se suma a los 445 millones de dólares de asfalto y hormigón de la nueva carretera.

El orgullo paraguayo y el Chaco menonita

“Este puente y esta ruta bioceánica van a permitir a Paraguay ser un aliado estratégico para la producción competitiva, en la región y en el mundo”. Eso dijo en diciembre de 2021, el presidente paraguayo Mario Abdo Benítez, de Carmelo Peralta, anunciando el comienzo de las obras del puente.

Desde ahí, el nuevo asfalto traza una línea recta para conectar el estado brasileño de Mato Grosso con la provincia argentina de Salta. El ministro de Obras Públicas de Paraguay, Arnoldo Wiens, dijo a Diálogo Chino que la ruta será muy útil y podría traer más recursos a su país: “Solamente el estado de Mato Grosso produce cuatro veces más granos que toda la República de Paraguay. Si un cuarto de esa producción usa este corredor, ya supone el mismo volumen que Paraguay”.

Una mujer desembarca del Aquidabán, un barco de pasajeros que recorre el río Paraguay y conecta el Chaco y el Pantanal con Asunción. El Corredor Bioceánico pretende mejorar las conexiones en la región.

La nueva carretera lleva asfalto al departamento de Alto Paraguay, una región que nunca tuvo caminos permanentes hasta que comenzaron las obras viales en 2019.

Un informe de la ONG Earthsight mostró en 2020 como empresas ganaderas brasileñas estaban deforestando ilegalmente porciones de la Reserva Patrimonio Natural Cultural Ayoreo Totobiegosode. Earthsight señala en su investigación que el cuero procedente de la zona se ha utilizado por empresas europeas como BMW, producido por la Cooperativa Chortitzer, una gran empresa ganadera propiedad de la comunidad menonita de Loma Plata, donde termina la primera etapa del Corredor Bioceánico.

Vacas en una granja y escuela de la comunidad menonita cerca de Loma Plata. Sesenta y ocho vacas proporcionan 1.600 litros de leche al día, mientras que hay más de 800 reses dedicadas a la producción de carne.

Loma Plata es, junto a otras dos urbes menonitas, Filadelfia y Neuland, el corazón del Chaco paraguayo, que paradójicamente es mayoritariamente menonita, que han levantado un imperio ganadero y lácteo. Comunidades más o menos ortodoxas de este pueblo europeo errante, que huyó de Rusia y Alemania, se distribuyen por toda América desde los años 1930, casi sin mezclarse con la población local.

Berthold Penner tiene 32 años, nacionalidad alemana y paraguaya. Sus abuelos paternos nacieron en el Chaco, como él, pero su abuela materna llegó desde Alemania huyendo de la II Guerra Mundial. Él creció en una granja de la cooperativa.

Berthold Penner es de ascendencia alemana y paraguaya y enseña gestión agrícola en una zona menonita del Chaco. Dice que el Corredor Bioceánico « nos acerca a nuestros vecinos ».

Berthold estudió administración agropecuaria y hoy enseña en la misma zona a decenas de alumnos paraguayos y menonitas cómo hacer que las 68 vacas de la escuela den más y mejor leche (alcanzando los 1600 litros por día). También cómo conseguir que las 880 reses dedicadas a producción de carne no se estresen y sean tiernas, o cómo alimentarlas de forma equilibrada e, incluso, cómo ayudarlas a procrear. Relata con entusiasmo los detalles de su oficio mientras uno de los alumnos maneja un flamante tractor que reparte comida a los animales. Berthold se apoya en la valla de alambre y opina sobre el corredor bioceánico:

“La agricultura va a aumentar y toda la producción se va a poder sacar en tiempo y forma”, dice Berthold. « La bioceánica acerca a nuestros vecinos. Son 232 kilómetros menos de camino de tierra donde una lluvia te dejaba parado en el camino. Reduce el riesgo y aumenta la rapidez y seguridad de que el producto llegue a su destino ».

Los efectos de la nueva ruta bioceánica se sienten también en las carreteras aledañas, como la Trans-Chaco, la que atraviesa Paraguay de norte a sur y conecta Asunción con Santa Cruz, Bolivia, dos ciudades parecidas porque están unidas por el Chaco, pese a la distancia geográfica que las separa. El gobierno paraguayo está ampliando esta carretera de dos a cuatro carriles y arreglándola en zonas que antes parecían más la superficie lunar.

El Gran Chaco, una tierra de extremos

Pero este desarrollo no parece acompañar a las comunidades indígenas con el mismo ímpetu que a los demás habitantes del Chaco. A 15 kilómetros de Loma Plata está El Estribo, una comunidad con 7.000 personas, la mitad niños y niñas, del pueblo indígena enxet, también defensores del bosque, pero más urbanizados por su cercanía a las ciudades menonitas.

Benigno Rojas, uno de los líderes de la comunidad Enxet de El Estribo: « En el Chaco hay problemas cuando hay sequía, y también cuando hay inundaciones ».

Benigno Rojas tiene 79 años y más energía que los niños que juegan al piki-voley (mezcla de vóley y fútbol) frente a la escuela de la aldea.

Líder y luchador, Benigno camina decidido mientras acaricia una hoja verde de algarrobo. Me muestra los fastuosos samu’u, o palo borracho, que hay por todas partes y que florecen ofreciendo sus semillas al viento en forma de algodón blanco que cubre hojas, ramas y el suelo de tierra blanquecina.

“En el Chaco, cuando hay sequía hay problemas y cuando hay inundación, también”, relata Benigno.

Niños juegan en la comunidad indígena Enxet de El Estribo.

En el Chaco hay siempre esa dualidad extrema: ausencia total de lluvias durante más de cuatro meses, e incluso falta de agua para beber, o abundancia excesiva que convierte en pantanos los caminos, en imposible el acceso a hospitales, y a los mosquitos en el animal más presente. Pero también, máquinas arrasan 220.000 hectáreas por año de bosque del lado paraguayo y 150.000 por año del lado argentino.

La otra dualidad es la desigualdad económica y racial: a un lado las grandes estancias ganaderas de inversores paraguayos y extranjeros, así como las ciudades menonitas de inspiración alemana, con su agua corriente y electricidad aseguradas, con agricultores de grandes tractores verdes y ganaderos con cuentas y créditos bancarios. Al otro lado, las comunidades indígenas sobreviven con lo justo, casi sin apoyo estatal ni para asegurar la titulación de sus tierras y tomando agua de tajamares, como llaman a los pozos que acumulan agua de lluvia.

Benigno Rojas muestra una de las últimas reservas de agua de los tajamares, los pozos que recogen el agua de lluvia para beber cuando no hay otras fuente.

Es septiembre de 2022 y la sequía afecta al Chaco desde hace más de cinco meses. Hay incendios en los lados argentino y boliviano que envuelven el ambiente con humo. En El Estribo, la comunidad de Benigno, se está a punto de terminar el agua potable comprada al Estado.

En Brasil, el Chaco es un bioma prácticamente desconocido conectado al Pantanal. Recientemente ha recibido una atención renovada gracias a una telenovela, llamada también « Pantanal », que ha contribuido a sensibilizar sobre los problemas medioambientales del bioma, aunque nunca tanto como la Amazonía. La devastación del Chaco brasileño está directamente ligada a la devastación del Pantanal por el avance de la frontera agrícola en los últimos 40 años.

Desde Puerto Diana, en el lado paraguayo del río, se pueden ver los incendios forestales cerca de Puerto Mortinho, en Brasil, supuestamente provocados deliberadamente para despejar el terreno para la ganadería.

María Liz Paya, del pueblo indígena yshy, vive a doscientos metros del río Paraguay, justo en frente de Brasil. En la entrada paraguaya al Pantanal, pero en su casa casi nunca hay agua potable. Es cocinera y vive en Puerto Diana, entre palmeras y cactus; entre caimanes, inundaciones y, últimamente, sequías. Mientras saca agua del río con un cubo que luego tendrá que potabilizar con cloro mira el bosque arder al otro lado del río, cerca de Puerto Murtinho, en Brasil.

« Es la estancia de un ganadero brasileño. Está quemando bosque para hacer lugar a las vacas », dice Paya. “El fuego avanza cada año sobre la tierra de nuestros ancestros ¿qué futuro tendrán nuestros hijos?”

 

[Todas las imágenes son del autor – fuente: dialogochino.net]

Escrito por Lois Alcayde Dans

Unha das cousas máis sorprendentes vidas da introdución do novo abono «gratuíto» de Renfe é a enorme, e lóxica, afluencia de xente disposta a empregar o transporte público, neste caso un transporte público que se atopa entre os máis fermosos dos dispoñibles: o tren. A través do tren coñeces o país, sexa polo que ves pola ventá ou polas persoas coas que compartes vagón. Ao outro lado do cristal podes ver cantos eucaliptos decidiron colocar preto, ou dentro, do bosque autóctono, ves as corredoiras, as casas tradicionais e as casas máis vangardistas, cadansúa na súa finca, as pequenas estradas comarcais, nacionais e as pontes elevadas sobre os castiñeiros, outeiros ou piñeiros, dando sombra. Dentro, o mundo. O noso mundo. Dentro do vagón o incremento de xente nótase, multiplícanse as caras, as roupas, as mochilas e maletas.

Durante algúns anos dos meus estudos na universidade fixen uso cotián do tren. Recoñeces o funcionariado, os ocasionais, os outros estudantes e os turistas. E velaquí o máis fermoso do tren: a posibilidade de falar. Nos anos de pandemia era pouco ou nada recomendable facelo, os trens incrementaron a notada asepsia coa que se condena ao viaxeiro nos nosos días. As despedidas son detrás dunha pantalla de plástico, despois de pasar o billete polo escáner. Co pretexto da seguridade, as apertas postérganse, os bicos danse fóra da plataforma, non nel; case non cruzamos palabra coa xente coa que convivimos no vagón ou coas persoas –cada vez menos, se non se lle pon remedio– que traballan dentro de cada tren. Por iso é tan importante que a administración pública facilite algo que debera ser dereito: o dereito a un transporte público ou ben asequible ou ben, todavía máis preferible, gratuíto.

Durante algúns anos dos meus estudos na universidade fixen uso cotián do tren. Recoñeces o funcionariado, os ocasionais, os outros estudantes e os turistas. E velaquí o máis fermoso do tren: a posibilidade de falar.

As razóns ecolóxicas e o sentido común amparan esta lóxica do transporte público frecuente e accesíbel, o coidado dun planeta que precisa de entender máis cousas en común e non de xeito insolidario. Mais o transporte público engárzase, tamén, na mesma corda ca o resto de servizos públicos que van máis aló do servizo en si. Por que? Porque son unha proposta social, unha filosofía de vida, un xeito de ollar o mundo. Son, en fin, unha proposta política de convivencia democrática. Cando compartimos espazo nunha sala de espera, nun tren, nunha escola, nun lugar de traballo, convivimos con xente distinta. Xente de procedencias diversas unidas nun mesmo lugar. Falamos entre nós, intercambiamos ideas.

Os lugares públicos, sexa unha praza ou unha biblioteca, lémbrannos a importancia da solidariedade, da diferenza, da diverxencia e da conversa. Parte do urbanismo contemporáneo non escatima esforzos en crear lugares públicos que sexan tamén zonas de reunión, de ocio sen mercado mediante, de lecer agradable á sombra das árbores. Tamén ocorre nos espazos pechados, malia a idea de dispoñer as butacas dos nosos trens de xeito orientado cara a unha única dirección, coma se foran avións estreitos, e onde sería ideal atopar unha economía de materiais e de espazo harmoniosa co feito de que, nun ecosistema onde os lugares comúns son cada vez máis castigados, se prime o xeito de que a xente fale. Estes lugares brutais, asépticos, van no mesmo discurso ca as prazas eternas e pouco humanas ou da carencia de papeleiras e espazos de aseo públicos. O tren implica, en si mesmo, unha agarda, un café ou infusión no bar próximo ou na cafetería da estación, unha mirada cruzada, un sorriso, unha lectura dun libro fantástico ou unhas oposicións tediosas.

Os lugares públicos, sexa unha praza ou unha biblioteca, lémbrannos a importancia da solidariedade, da diferenza, da diverxencia e da conversa.

O noso presente esfórzase no político por aniquilar as distancias asociadas á reflexión e os tempos biolóxicos e aumentar as distancias, as desigualdades, no económico. Por iso o tren vale todo o que nos axuda a combater o desastre climático, pero vale, tamén, polo que implica tempo de traxecto, pola carga de proposta de vida que ten. Implica afondar no coñecemento das distancias, implica ver os danos do lume que, detrás da pantalla do televisor, fanse alonxados, alleos ao fulgor das lámpadas urbanas ou da vibración das multitudes e automóbiles, das bolsas da compra, da fascinación do neón, implica erguer a cabeza, levemente, do móbil ou do libro, e observar.

 

[Fonte: http://www.luzes.gal]

Quince años después de que un periodista musulmán de Associated Press fotografiara la vida cotidiana de los judíos en la nación que alberga a la segunda comunidad más grande de Medio Oriente, su proyecto único finalmente sale a la luz.

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Una tienda de alfombras judías en el Gran Bazar de Teherán

Oración judía en una mezquita. Humo de narguile en una cocina kosher. Estudio de escuela hebrea bajo retratos de ayatollahs.

Cuando el exfotógrafo de Associated Press Hassan Sarbakhshian pasó casi dos años entre 2006 y 2008 en las comunidades judías de Irán, esas son algunas de las imágenes que recopiló para un proyecto de libro. Las fotografías ofrecen una mirada poco común dentro de las casas, sinagogas y otros espacios judíos, que la comunidad judía normalmente mantiene bastante cerrados para los forasteros.

En Irán, una nación cuyo gobierno posterior a la revolución de 1979 llama regularmente a la destrucción violenta de Israel, se permite a los judíos practicar su religión libremente y sentir una fuerte conexión con su país. De hecho, hay un representante judío permanente en el parlamento.

judios iranies

Cuando se tomó esta fotografía en 2007, Shamsi era uno de los tres judíos que vivían en la sinagoga Ezra Jacob en Teherán.

Pero cuando Sarbakhshian envió el libro al ministerio de Cultura de Irán para su publicación, se topó con la cultura antisionista generalizada del país.

El ministerio argumentó que era un agente de Israel que promovía valores antiislámicos. Lo obligaron a dejar de trabajar para la AP y finalmente comenzó a temer por su seguridad y la de su esposa. Él y su esposa, Parvaneh Vahidmanesh, periodista y activista de derechos humanos que participó en el proyecto, se mudaron a Virginia.

Dos jóvenes caminan en un barrio judío de Shiraz. En la pared detrás de ellos, un término despectivo para judíos está escrito en graffiti.

Casi 15 años después de tomar sus últimas fotos para el libro, que finalmente será publicado el martes por Penn State University Press, Sarbakhshian todavía considera que el proyecto fue una de las mejores experiencias de su vida.

“Viajamos a más de 15 ciudades en un autobús con judíos iraníes. Nos reímos con ellos, comimos con ellos. De hecho, vivíamos con ellos”, dijo.

En 2020, había 9000 judíos viviendo en Irán. Está muy lejos de la población judía máxima anterior a la revolución de alrededor de 100.000, pero el país aún alberga a la segunda población judía más grande de Medio Oriente, después de Israel. Algunas de las fotografías de Sarbakhshian casi parecen haber sido tomadas en un suburbio estadounidense: niños jugando al fútbol, personas haciendo un picnic en el parque, miembros de la familia corriendo de un lado a otro.

Niñas judías se manifiestan por la paz en Teherán.

Pero otras fotos en el libro demuestran el precario estatus de los judíos en un país que los obliga continuamente a jurar lealtad al Estado teocrático musulmán. Una muestra a un líder judío en una mezquita que asiste a una celebración del Día de Quds, un día de mítines a favor de los palestinos que a menudo incluyen quemas de banderas de Israel y retórica antiisraelí.

Haroun Yashayaei, el exjefe de la comunidad judía de Irán, en el centro, asiste a la oración musulmana de los viernes para mostrar su solidaridad con los palestinos.

Algunas de las imágenes también brindan un contexto moderno para momentos clave en la historia judía iraní, incluido el momento en que Irán proporcionó refugio a los judíos polacos que huían del Holocausto, el momento en 1999 cuando 13 judíos iraníes fueron acusados falsamente de espiar para Israel y la historia del Centro Médico Dr. Sapir, un hospital judío que trató a los manifestantes antes de la revolución sin alertar a la policía.

El exfotógrafo de Associated Press Hassan Sarbakhshian

 

[Fotos: Hassan Sarbakhsian/ JTA – fuente: http://www.agenciaajn.com]

Humo de narguile en una cocina kosher en Isfahan. Hassan Sarbakhsian

 

Boys play at school.

Estudiantes de escuela hebrea bajo retratos de ayatollahs. Hassan Sarbakhsian

 

Oración judía en una mezquita. Hassan Sarbakhsian

 

Entitats i activistes denuncien el tractament de la informació que s’ha donat sobre aquest virus, travessat per la LGTBIfobia i els tabús sexuals.

Escrit per Judit Vela

Segons Canal Salut, la verola del mico és una zoonosi causada per un virus anomenat MPXV (segles en anglès de ‘monkeypox virus’). Els seus símptomes són similars als de la verola erradicada l’any 1980, tot i que menys greus: febre, maldecap, dolors musculars i erupció a la pell. La majoria de les persones afectades es recuperen en un període d’entre dues i quatre setmanes.

Després d’avaluar la progressió del virus a diferents territoris, l’Organització Mundial de la Salut (OMS) va decidir declarar la verola del mico com a emergència sanitària internacional al juliol, tot i no comptar amb el suport del comitè científic. En aquell moment, l’organisme va recomanar que “els homes que tenen sexe amb homes” reduïssin el número de parelles sexuals.

Lluitant contra l’alarmisme

“Crec que aquestes declaracions van contra el seu propi interès, que en teoria és el de tenir cura de la salut de tothom”, comenta Sebastian Meyer, president de l’Associació STOP. Des del maig, aquesta entitat es dedica a difondre informació sobre la verola del mico per contrarestar la desinformació i l’alarmisme creat pels mitjans generalistes i les administracions. “Tot i que és molt desagradable, sabem que acostuma a no ser greu i que la mortalitat és baixíssima”, assegura.

No és l’única organització que ha assenyalat el risc d’emetre aquest tipus de discurs. La Federació Estatal de Lesbianes, Gais, Trans, Bisexuals, Intersexuals i més (FELGTBI+) va publicar un comunicat destacant les repercussions que pot tenir el fet de vincular una malaltia amb un col·lectiu: d’una banda, l’estigmatització del col·lectiu en qüestió i, de l’altra, la falsa sensació de seguretat per a la resta de la població.

L’il·lustrador i divulgador a les xarxes socials Rubén Evangelista (@motherofqueer) també considera que aquest tipus de declaracions que assenyalen directament un culpable acaben calant en la població: “Conec gent que ha hagut de mentir a la feina per agafar la baixa per la verola del mico”, explica. Així, l’interrogant és evident: s’hauria destacat l’orientació sexual del grup de població més afectat per un virus en cas que aquest hagués estat heterosexual?

Una qüestió moral

La verola del mico, segons Canal Salut, es pot contagiar a través de lesions de la pell produïdes pel mateix virus (com ara vesícules, pústules, crostes, etc.); fluids corporals (com ara saliva, pus, semen, etc.); objectes contaminats (com ara roba, tovalloles, roba de llit o estris per menjar) i gotetes respiratòries.

A dia d’avui, l’últim comunicat del Govern sobre el tema notifica que hi ha un total de 2.984 casos sospitosos o probables de verola del mico i 1.995 confirmats. La majoria d’aquests confirmats, apunten, “són homes d’entre 20 i 60 anys”, i la via de transmissió més freqüent ha estat possiblement “el contacte durant les relacions sexuals (…) en el context d’esdeveniments festius multitudinaris”.

En relació amb això, el president d’STOP opina que no cal amagar la vulnerabilitat del col·lectiu, ja que és necessari saber quin és el focus poblacional del virus per poder adreçar-se a ell en les campanyes de prevenció. No obstant això, també considera que s’hauria de fer un ús més curós de les paraules per evitar la criminalització, i que tot plegat es tracta d’una qüestió moral: “Pots tenir una relació sexual amb una sola persona i contagiar-te. El més important és que les pràctiques siguin segures”.

En aquesta línia, diverses entitats han hagut de recordar que la verola del mico no és una infecció de transmissió sexual (ITS).

Racisme en la gestió sanitària

Madrid i Catalunya són les comunitats on més contagis s’han registrat fins ara. A Catalunya, la campanya de vacunació va iniciar-se just un dia abans que la OMS declarés la verola del mico emergència sanitària internacional, el 21 de juliol.

Rubén Evangelista assenyala les dificultats amb les quals va trobar-se per accedir a la vacuna a la comunitat de Madrid: “És tot un entramat que requereix paciència i constància”. A més a més, té limitacions molt importants, ja que no es pot optar a una cita sense documentació. “No podem deixar una part de la població sense cobertura per tenir una llei d’estrangeria com la que tenim, entintada de racisme i colonialisme”, denuncia.

En aquest sentit, l’il·lustrador recorda també que la verola del mico fa temps que existeix, però que no ha estat fins que ha arribat a Occident que s’ha considerat una crisi sanitària. En això coincideix amb Sebastian Meyer, que assegura que “es podria haver intervingut durant molt de temps per erradicar-la o reduir la seva presència a Àfrica, però no s’ha fet, la qual cosa ens indica altres qüestions”.

Aliances comunitàries contra la desinformació

Les últimes declaracions de l’OMS apunten a un alentiment del brot de verola del mico. Tot i així, l’Estat espanyol continua encapçalant el número de contagis a Europa. “Es pot comparar amb la gestió de la Covid-19 i del VIH perquè no s’ha fet tot el que es podria haver fet, ni s’ha fet de manera correcta”, manifesta Sebastian Meyer.

Una gestió que, com bé han apuntat des de diverses organitzacions, deixa al descobert els tabús i estigmes sexuals que encara regeixen la societat actual. Per sort, això sí, la resistència també és una realitat: “Moltes persones hem parlat de la nostra experiència, hem compartit informació o hem ajudat en el procés de demanar cita. Com sempre: establint xarxes de diàleg i cures”, conclou Rubén Evangelista.

 

[Font: http://www.xarxanet.org]

Le président israélien Isaac Herzog était l’invité d’honneur de la commémoration du premier Congrès Sioniste mondial qui avait eu lieu à Bâle il y a 125 ans, marquant un tournant décisif dans l’histoire du sionisme.

Theodor Herzl en 1901, sur le balcon de l’hôtel „Drei Könige“ à Bâle

Organisée par la World Zionist Organization (WZO), la manifestation, à laquelle ont participé plus de 1 000 invités, s’est tenue 125 ans après la conférence sur trois jours de 1897 au cours de laquelle Theodor Herzl a parlé devant plus de 200 délégués et « fondé l’État juif ». À l’occasion de cet événement, la ville avait pris des mesures de sécurité drastiques. Parmi les orateurs, citons Miriam Adelson, l’ancien chef du Mossad, Yossi Cohen, qui dirige aujourd’hui les opérations de la Softbank en Israël, le président de l’Agence juive, Doron Almog, le chef de l’Anti-Defamation League (ADL), Jonathan Greenblatt, le ministre de la Diaspora, Nachman Shaï, et la baronne Ariane de Rothschild, présidente du groupe Edmond de Rothschild.

Durant son séjour, Isaac Herzog a rencontré des membres du gouvernement de la confédération, dont le président Ignazio Cassis, ainsi que des membres du gouvernement cantonal de Bâle et des membres de la communauté juive. La rencontre entre Isaac Herzog et Ignazio Cassis doit déboucher sur un « accord révolutionnaire » entre les fondations pour la science israélienne et suisse.

Le premier congrès sioniste était d’abord censé se dérouler à Munich. Il n’y a pas eu lieu à cause du refus très ferme de l’association rabbinique allemande et du comité directeur de la communauté israélite de Munich. La ville de Bâle fut donc choisie comme alternative et le congrès, organisé par David Farbstein, un proche de Theodor Herzl et futur conseiller national suisse, s’y tint du 29 au 31 août 1897. Dans le programme formulé il y a 125 ans, on peut lire entre autres : « Le sionisme vise à établir en Palestine une patrie qui soit garantie par le droit public pour les Juifs qui ne peuvent ou ne veulent pas s’assimiler ailleurs ».

[Photo : Ephraim Moses Lilien, gemeinfrei, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2209998 – source : israelentreleslignes.com]

A horas de elegir entre aprobar o rechazar la propuesta de nueva Constitución, el país oscila entre la rabia y la esperanza

Manifestantes durante un mitin en favor del referéndum constitucional de Chile, en septiembre de 2022.

Escrito por

A pocas horas de conocer el resultado de las elecciones sobre aprobar o rechazar la propuesta de una nueva constitución, Chile vive o sufre una experiencia que oscila entre la rabia y la esperanza. Rabia para quienes piensan que se trata de un documento maximalista e incoherente que nos enredará en una maraña de disputas ideológicas e identitarias que nos alejan de lo que le preocupa a la población: seguridad, pensiones, costos de salud, educación y vivienda. Esperanza para quienes piensan que ha llegado el momento de salir de la camisa de fuerza que nos impuso la dictadura con la constitución de 1980, y de inaugurar una nueva era en donde la carta fundamental ha sido redactada en democracia y por constituyentes que representan a la sociedad y no a los desprestigiados partidos políticos u obsoletas instituciones. Se trata de sentimientos, rabia y esperanza, que polarizan a la población y crispan el ambiente. Cuál sentimiento prevalecerá es la gran incógnita que se revelará en algunas horas.

Pase lo que pase, la dirección va por los cambios. Si gana el apruebo, no hay forma de que la propuesta de constitución se pueda implementar sin cambios, sobre todo al reducirse el quorum de dos tercios a cuatro séptimos para aprobar los diferentes elementos del borrador constitucional en el Congreso. La apuesta, si es que ha sido pensada en esos términos, es exigir lo máximo para después negociar. Si gana el rechazo, comienza la discusión sobre cómo redactar un nuevo documento, si con otra constituyente, posiblemente sin listas de independientes (de los partidos políticos) y con escaños reservados más proporcionales a la votación de la población indígena. Para ambas opciones el camino es largo. El actual Gobierno, inaugurado en marzo de 2022, tendrá que lidiar con ambos escenarios de triunfo, lo que dominará la agenda política en los cortos cuatro años que tiene por delante. Esto, en un contexto de pandemia, inmigración que desborda a las actuales instituciones, violencia en la macrozona sur mezclada con la temática indígena, reformas tributarias, inflación, caída de la inversión interna y externa, y crisis global. Chile está simplemente agobiado.

¿Respirará de alivio el país luego de estas elecciones? Quizás. Mucho depende de la proporción del voto, digamos 48 contra 52% para cualquiera de las opciones. Pero si es entre el 56-58 % contra 42-44% para las mismas estaremos en una situación de ganadores y perdedores, con la soberbia o el resentimiento que conllevan. Si gana el apruebo por el número mayor, tendrá todavía las cortapisas del Congreso, pero con la legitimidad de las mayorías. Si gana el rechazo, la centroderecha liberal podrá declararse victoriosa, pero se empoderará a la derecha más radical que no quiere saber nada de paridad, plurinacionalidad o inmigración a la que asocia con el narco y el crimen organizado. Es la derecha “cavernaria” que denunció Mario Vargas Llosa.

Volvamos a los sentimientos a horas de los resultados. La tensión que vive el país es enorme. Las encuestas están suspendidas, de modo que cada cual debe decidir, en el mejor de los casos, de acuerdo a su conciencia o, en el peor, orientándose por las propagandas electorales de último minuto, o por tendencias puramente viscerales. Quizás en el interior de cada persona exista un nivel de convicción respecto de cómo votar en el momento de acercarse a las urnas, pero persiste un clima, llamémoslo existencial, en donde la preferencia sería la de no tener que enfrentar elecciones en donde todo es incierto.

Es un país en suspenso, con deseos de irse a la cama, agotado y nervioso, y despertar con ánimo para enfrentar lo que viene.

Es hora “del pensar profundo” diría Andrés Bello. Cualquiera sea el resultado, mañana es otro día.

Iván Jaksic es historiador y Premio Nacional de Historia 2020.

[Foto: ALEJANDRO OLIVARES (BLOOMBERG) – fuente: http://www.elpais.com]

La comunidad judía de Oporto presentó una denuncia ante la Fiscalía Europea alegando una conspiración antisemita contra los miembros ricos de la comunidad judía portuguesa y la organización judía más fuerte de Portugal, lo que perjudica los intereses financieros de la Unión Europea.

Escrito por Shelly Paz

La denuncia se presentó con la asistencia de abogados de Portugal, EE. UU. e Israel, así como la Asociación Judía Europea, la organización que representa la unión de las comunidades judías de Europa; desde Portugal hasta Ucrania.

La denuncia descrita con todos sus detalles también ha sido publicada en un libro con el título “La primera gran conspiración antisemita del siglo XXI”, que se puede descargar de forma gratuita aquí (https://firstmajorconspiracy.com ). Se está enviando una copia del libro a bibliotecas de todo el mundo y se enseñará en varios programas de estudios de antisemitismo.

Según la comunidad judía de Oporto, “personas no reveladas entre las élites gobernantes portuguesas unieron los poderes ejecutivo, legislativo, judicial y medios de comunicación en una violenta conspiración antisemita. Los objetivos de la conspiración eran rechazar políticamente la gran afluencia de ciudadanos israelíes interesados en la nacionalidad portuguesa, destruir la ley sefardí en un contexto de terror, para que nadie pudiera salir a defender esa ley (para evitar ser acusado de colusión con el fraude), y producir una “querella criminal” basada en denuncias anónimas que pretenden destruir al empresario judío Patrick Drahi, judíos adinerados de origen portugués y la comunidad judía de Oporto, posiblemente la organización judía más fuerte de Europa en términos de religión, cultura, educación y la lucha contra el antisemitismo. El poder judicial portugués fue utilizado políticamente como un instrumento”.

“La Fiscalía Europea no tiene legitimidad legal para investigar casos de antisemitismo, pero en este caso hay indicios de corrupción por parte de las élites gobernantes y esto perjudica a todos los ciudadanos de Europa”, dijo el presidente de la comunidad judía de Oporto, Gabriel Senderowicz.

“Nuestro objetivo es documentar la conspiración, incluso si la Fiscalía Europea decide no hacer nada al respecto. Nos aseguraremos de que esta información se difunda en todas partes donde sea necesaria la educación sobre el antisemitismo. El antisemitismo moderno en Europa no ataca a los judíos en general como en el pasado, sino solo a las verdaderas fortalezas judías: comunidades fuertes, judíos ricos, leyes beneficiosas para los judíos y el Estado de Israel. En la Unión Soviética, las comunidades “no tan fuertes” no fueron destruidas, ya que servían de publicidad al régimen político. Cualquiera que visite Moscú podría visitar una hermosa sinagoga con puertas abiertas y servicios, pero prácticamente muerta, sin vida judía relevante “.

En la demoledora denuncia de 113 páginas presentada la semana pasada ante la Fiscalía Europea, la comunidad judía de Oporto afirma que “los conspiradores utilizaron una organización criminal dedicada a redadas nocturnas en domicilios particulares y despachos de abogados supuestamente relacionadas con Patrick Drahi, así como falsas acusaciones de narcotráfico, y también utilizaron fuentes “anónimas” que ya habían anteriormente sido condenadas judicialmente por difamación contra miembros y colaboradores de la comunidad judía de Oporto”.

La comunidad judía de Oporto dice: “La conspiración, paternalmente guiada desde arriba y con intereses internacionales en el medio, ha usado toda una amalgama de personas” como –el exministro de Relaciones Exteriores Augusto Santos Silva, quien fue autor moral de la destrucción de la ley de los sefardíes “por una ‘cuestión palestina”, la exvicepresidenta de la bancada parlamentaria del Partido Socialista Constança Urbano de Sousa, quien comparó la reproducción exponencial de los sefardíes con el coronavirus (y dijo que junto con sus dos hijos va a ser responsable de un millón de descendientes dentro de 250 años), y la ministra de Justicia, Francisca van Dunem, quien elaboró un reglamento que puso el fin a la ley sefardí en términos prácticos a partir del 1 de septiembre de 2022, y recogió denuncias “anónimas” de la escoria de la sociedad y las envió a “investigación criminal” por parte de autoridades cuyos líderes ella misma nombró.

Gabriel Senderowicz dijo: “La soberanía del Estado portugués que puede terminar o cambiar esta ley y cualquier otra ley en cualquier momento no está en cuestión, pero el procedimiento podría y debería haberse implementado sin poner en peligro la imagen y la seguridad de los judíos sefardíes y las comunidades judías portuguesas. Eso no es lo que há sucedido durante dos años”.

La denuncia menciona el papel destructivo de algunos influencers, así como de periodistas de los diarios Público y Expresso y de los canales de televisión “SIC” y “RTP”. “Durante ocho meses nunca mencionaron un solo efecto positivo de la ley sefardí, calificaron una sinagoga llena, restaurantes kosher y museos llenos de gente como “opulencia”, y redujeron la llamada ley sefardí a las tarifas cobradas por la comunidad judía de Oporto (250 euros).

Estos influencers y periodistas siempre actuaron contra el honor de los miembros de la comunidad y de solicitantes que han sido certificados, y solo hablaban sobre sospechas de supuesta corrupción, Mossad, oligarcas, drogas canábicas, ganancias y grandes negocios”, de acuerdo con lo mencionado en la denuncia.

Senderowicz agrega: “Semana tras semana, familias enteras fueron objeto de exposición calumniosa en los periódicos y la televisión, todo basado en denuncias anónimas y fuentes anónimas. Nadie escapó a este tipo de “purificación” al estilo de la Inquisición, desde los líderes religiosos y seculares –rabinos, presidentes, expresidentes, vicepresidentes, tesoreros, secretarios– así como el museólogo, e incluso el portero y amigos de la comunidad. Ancianos llorando, niños con miedo de ir a la escuela porque eran judíos y el gran rabino siendo atacado en un supermercado”.

En resumen, la operación policial “Puerta Abierta” que fue presentada a todo el mundo como una venta de pasaportes por parte de un rabinato que actuó por dinero, es una operación “Cuestión Palestina” dirigida por personas entre las élites portuguesas que ataca a los judíos israelíes, a los judíos ricos y a todas las realidades judías relevantes relacionadas con Portugal.

Hay evidencia de intercambio de favores, uso del poder judicial con fines políticos, teorías de conspiración, robos nocturnos a bufetes de abogados y casas particulares, falsas acusaciones de narcotráfico y esquemas con Rusia, y uso de denuncias “anónimas” que en realidad fueron realizadas por agentes del Estado, calumniadores profesionales y condenados por difamación, todo ello articulado con una campaña mediática asesina protagonizada por media docena de periodistas e influencers para destruir la credibilidad de una ley, líderes comunitarios y personas de origen sefardí que habían sido aprobadas en cumplimiento de la ley.

“El Estado portugués no es antisemita”, señala el presidente de la comunidad judía de Oporto, Gabriel Senderowicz. “Entre las víctimas de esta conspiración se encuentran también el presidente de la República Portuguesa, el primer ministro, líderes parlamentarios, jueces, policías y la abrumadora mayoría de los medios de comunicación, incluso de aquellos que a menudo son acusados de actos escandalosos”.

 

[Fuente: http://www.enlacejudio.com]

La periodista Alba Sidera, corresponsal d’El Punt Avui, va instal·lar-se a Roma l’any 2007 i va especialitzar-se en els moviments d’extrema dreta. El resultat de la seva investigació és el llibre Feixisme persistent. Radiografia de la Itàlia de Matteo Salvini (Edicions Saldonar), que va publicar l’any passat. Segons explica Sidera, el país transalpí és un bon mirall per anticipar els esdeveniments polítics que poden tenir lloc a l’Estat espanyol i serveix d’exemple “per saber tot el que no s’ha de fer” quan els mitjans aborden informativament els discursos d’odi. Amb ella parlem de periodisme, de les esquerres, d’ultres i d’antifeixisme.

Escrit per Laura Aznar

Fa uns 15 anys que vius a Roma i allà has investigat l’extrema dreta italiana, fins al punt que vas publicar el llibre Feixisme persistent, on radiografiaves la Itàlia de Matteo Salvini.

Tot i que em movia en ambients antifeixistes i de gent d’esquerres, a Itàlia he acabat trobant-me molta gent que es definia com a feixista; una cosa que no m’havia passat mai a Catalunya. Aquí hi ha una normalització del terme. Això em va fer trencar amb l’imaginari que els feixistes són els del cap rapat i les formes de fer agressives. Doncs no. De fet, amb alguns d’ells fins i tot compartia interessos i gustos musicals. A la gent li agrada molt parlar de política amb desconeguts, i em trobava amb situacions molts surrealistes a la consulta del dentista o al supermercat, de persones que, amb tota la naturalitat, em parlaven del feixisme. El llibre sorgeix d’intentar entendre per què passa això, com s’ha blanquejat aquesta ideologia, quins còmplices ha tingut i quins paral·lelismes existeixen amb l’Estat espanyol. D’Itàlia sempre es diu que anem uns quants anys al davant. I és cert.

Fa la sensació que, a l’Estat espanyol, autoidentificar-se com a feixista segueix sent un tabú, que hi ha poca gent que ho faci. És així o això comença a canviar?

Aquesta és una de les diferències més grans. Jo he estat infiltrada en grups feixistes a Itàlia i em comentaven que els sorprenia molt que, a l’Estat espanyol, es fes servir el concepte feixista com un insult. Això té moltes explicacions possibles; una de les més clares és que, a Espanya, el franquisme no va ser vençut. Hi va haver una continuïtat amb la Transició i als feixistes no els ha calgut reivindicar-se. L’extrema dreta ha estat inserida en els partits majoritaris, dins l’aparell judicial, el policial… En canvi, a Itàlia, hi ha l’èpica de la derrota: el feixisme va perdre i tots els partits que s’hi oposaven, des de la democràcia cristiana fins als comunistes, van fer una Constitució pensada perquè no pogués sortir cap altre partit feixista. Com saps, la cosa no ha funcionat. I, en aquest sentit, Berlusconi representa un punt d’inflexió.

Com va ser l’experiència d’estar infiltrada en grups feixistes a Itàlia?

He decidit no donar-ne gaires detalls mentre visqui aquí per motius de seguretat. Et puc dir que he estat en reunions amb gent de la Lega i que he conegut espais on participaven militants de Forza Nuova i de CasaPound, que s’organitzaven com a grups de suport veïnal amb l’objectiu de reconduir debats cap a posicions racistes. S’han aprofitat de l’antigitanisme, que aquí és brutal i molt transversal. M’hi vaig trobar i vaig voler investigar-los.

Per què dius que Berlusconi representa un punt d’inflexió?

Ell arriba al poder al principi dels noranta amb dues crosses: els vots de la Lega Nord i els vots d’Alleanza Nazionale, que va anar canviant de nom però que era un partit feixista. Això va ser un escàndol. Els polítics actuals són fruit del berlusconisme, d’una manera de fer populista. Dic que Berlusconi representa un punt d’inflexió perquè va ser el primer a blanquejar el feixisme quan va dir que Mussolini també havia fet coses bones. Ell és qui normalitza aquest discurs, i ara veiem que es reprodueix als principals programes de tele i de ràdio italians: hi ha personatges com Alessandra Mussolini, neta del dictador, que hi va per defensar el seu avi, o partits d’extrema dreta com Forza Nuova que surten a les tertúlies a explicar la seva ideologia amb total tranquil·litat.

“L’extrema dreta està vivint el seu Maig del 68, el seu moment d’or”

Això també ha passat a l’Estat espanyol.

Sí. Quan es produeix la irrupció de Vox, els seus discursos es comencen a normalitzar amb l’ajuda d’alguns mitjans. Fins al punt que ara tenim joves que diuen “jo soc fatxa, i què passa?”. El feixisme ha aconseguit que hi hagi gent que el percebi com una cosa contracultural, antiestablishment. La camama que expliquen, que ells van en contra del que és políticament correcte, forma part d’una estratègia que despleguen a escala mundial. L’extrema dreta està vivint el seu Maig del 68, el seu moment d’or.

Per tant, una de les estratègies de l’extrema dreta està sent justament la de ressignificar el terme fatxa per interpel·lar grups amplis de població i, particularment, els joves?

S’han apropiat del concepte per treure-li el seu sentit i vendre’l com una cosa guai. El tema és que hi ha molta gent que caricaturitza l’extrema dreta i pensa que, darrere dels seus discursos, hi ha quatre analfabets. És un error garrafal. Hi ha molts intel·lectuals que han estudiat com penetrar entre els joves, i això explica que siguin tan hàbils a l’hora de fer servir les xarxes socials, per exemple. Difonen el seu discurs a través de mems, d’imatgeria, i els funciona. Han sabut pintar aquesta nova onada reaccionària que estem vivint amb el vernís d’una certa modernor, dient “nosaltres no formem part de la casta“, explicant-se com una reacció en contra del poder establert i la “ideologia dominant”. Això connecta molt amb l’esperit de rebel·lia dels joves. Per això és necessari desmuntar-ho.

Com?

Cal posar en evidència que el que diuen és mentida, que el poder està al costat de l’extrema dreta i que les conquestes que s’han aconseguit en matèria de drets humans no són producte d’una ideologia imperant. Que han costat molt i que són coses molt fràgils –ho estem veient amb l’avortament, per exemple. Estem parlant de drets pels quals s’ha de lluitar cada dia.

“Mentre l’esquerra perdia el temps teoritzant, l’extrema dreta anava a fer mítings a les fàbriques”

Quines són les causes d’aquest moment d’or que està vivint l’extrema dreta?

És fruit de diferents factors. D’una banda, hi ha hagut un seguit de crisis econòmiques que han estat el caldo de cultiu ideal perquè la classe treballadora es trobi en una situació de vulnerabilitat. A això, suma-hi la crisi de la socialdemocràcia, que fa que molta gent d’esquerres es quedi òrfena de representació política. I, a més, en l’àmbit teòric, l’extrema dreta recull ara els fruits de la feina feta durant tots els anys previs. Les bases, les van posar els seus intel·lectuals, que van ser capaços de veure que els calia canviar l’estratègia: es van adonar que les idees d’esquerres eren molt més atractives que les idees clàssiques de la dreta, sobretot per als joves, i les van posar al servei de la seva ideologia. També van ser conscients que l’important era penetrar en com més espais de la societat millor, fent que, de mica en mica, l’imaginari col·lectiu es vagi desplaçant cap a la dreta.

Però, si són idees d’esquerres, com és que no han estat justament els partits d’esquerres els que han tingut èxit a l’hora d’interpel·lar l’electorat quan les han fet servir?

L’esquerra ha estat molt endogàmica i ha perdut el temps fent discurs teòric sobre quina era la millor manera de procedir, a la vegada que descuidava l’aplicació pràctica. Mentrestant, l’extrema dreta ha anat a fer mítings a la sortida de les fàbriques. Això, si parlem de l’esquerra real. Si parlem de la socialdemocràcia, hem vist que, quan ha arribat al poder, també ha aplicat retallades i li ha facilitat la feina al feixisme perquè vengui el discurs que “aquests són els que es dobleguen davant la troica“. Això no exclou, evidentment, que, quan la ultradreta mana, es desmantella el sistema sanitari, puja la corrupció i es legisla a favor del gran capital i en contra de les dones o del col·lectiu LGTBI. És clar. Però també és cert que una part de l’electorat ha quedat òrfena quan ha vist que l’esquerra ha governat d’esquena a la classe treballadora. I l’extrema dreta ho ha aprofitat.

Si Ayuso fos un home, no se li hauria dit ‘boja’; se li hauria dit ‘atrevida’”

Parlem d’Isabel Díaz Ayuso. La seva victòria electoral s’explica, entre altres coses, perquè va saber connectar amb els joves i amb un gruix ampli de les classes populars. Quines tecles va tocar?

El primer factor que explica la seva popularitat és que no tenia gaire competència. Hi havia un buit i ella l’ha ocupat. Els seus ideòlegs han volgut crear un personatge carismàtic, molt a l’estil de Salvini, a qui venen com una persona propera i espontània. És fals; en realitat, tot està molt ben estudiat. El gran mèrit d’Ayuso és que va interpel·lar persones de diferents espectres ideològics perquè es presentava com una política outsider, com un producte nou que anava en contra de les elits. Tanmateix, lògicament, totes les seves polítiques són neoliberals i estan totalment alineades amb els interessos del poder.

L’emmarcaries dins l’extrema dreta?

Ayuso és una petita Berlusconi: fa servir les tàctiques que ja havia utilitzat ell abans. El seu eslògan “Comunismo o libertad” recorda molt el que va utilitzar Berlusconi quan va arribar al poder dient que hi havia una “amenaça comunista”, que no existia llavors ni existeix ara, malgrat que l’extrema dreta el segueixi referenciant. Ayuso i els seus estrategs han estat molt hàbils a l’hora de copiar coses que ja estaven inventades. Jo no crec que sigui una política d’extrema dreta; crec que fa populisme de dretes i que blanqueja l’extrema dreta. I l’onada reaccionària que recorre tot el món li juga a favor. S’està aprofitant del context per fer declaracions que fa alguns anys no s’haurien acceptat, però ara els consensos socials estan canviant.

Com analitzes el tractament mediàtic que se n’ha fet? Des d’alguns mitjans diguem-ne “progres” s’ha presentat Ayuso com un titella en mans dels seus assessors, com una boja o com una tonta.

En absolut ha estat la forma més intel·ligent de confrontar-la, i aquí hi ha molt de masclisme darrere. Quan va començar a adquirir popularitat, hi havia analistes que se’n reien, dient “Mira quines parides diu!”. Però estava tot molt ben pensat. Es va brandar la figura de la dona boja, quan no s’hauria fet aquest relat si Ayuso fos un home; se li hauria dit atrevit. Tot això també representa un dels errors clàssics de l’esquerra: la superioritat moral, el fet de menysprear l’enemic i pensar que només algú molt ignorant pot votar un polític populista de dretes o un d’extrema dreta.

I ara et faig la pregunta del milió: com s’hauria de cobrir l’extrema dreta des del periodisme? A l’Estat espanyol i a Catalunya, ja hi ha una força d’extrema dreta que té representació parlamentària. Què cal fer?

Aquesta és la pregunta, i crec que no hi ha una resposta única. Tanmateix, l’exemple d’Itàlia ens pot servir per saber què no s’ha de fer. Penso que, a Espanya, no se’ls hauria d’haver donat veu quan encara no eren al Parlament, i, ara que hi són i no podem ignorar-los, la clau és contextualitzar sempre i no difondre les barbaritats que diuen. Això vol dir no fer titulars dels seus discursos d’odi i no convertir els mitjans en una corretja de transmissió de les seves idees. A Catalunya, Vox va voler vincular la immigració dels temporers de Lleida amb la inseguretat, i recordo que aquest titular va circular. Si la qüestió es vol abordar periodísticament, com a mínim se li ha de donar la volta i explicar que Vox utilitza l’arribada de temporers per difondre el seu missatge racista.

Però fins i tot donar-li la volta implica situar el tema, i, en conseqüència, que els marcs de l’extrema dreta acabin penetrant en els mitjans de comunicació.

Certament. Això directament no hauria d’haver estat notícia. Quan tries un tema, ja estàs fent ideologia. De totes maneres, a vegades és molt fàcil fer aquest discurs des d’un mitjà que et dona total llibertat per decidir quines peces treballes i quin enfocament hi dones. Jo soc partidària de parlar de l’extrema dreta, i als llocs on he treballat i treballo sempre ho he reivindicat. Quan vaig començar a parlar de la Lega, no es deia –encara no es diu ara!– que era un partit d’extrema dreta i xenòfob. La qüestió, per mi, era explicar-ho en aquests termes. Cal dir les coses pel seu nom. I, sobretot, no comprar els seus marcs. L’exemple clàssic és el del debat sobre si la immigració és bona o dolenta.

“A l’extrema dreta li va molt bé que el periodisme tingui la necessitat de fer titulars cridaners”

Què vols dir?

Doncs que no es pot fer un debat sobre això. Només en la definició del debat, l’extrema dreta ja hi ha guanyat. I tant és que tu com a periodista defensis que sí que és bona o que hi hagi tertulians que també ho facin. Els drets humans són el límit. El feixisme, se l’ha de redirigir cap a discursos que el deixin al descobert. Jo penso que no se li ha de donar espai; però, si entrevistes als seus representants, ja sigui perquè tenen representació o perquè els teus caps t’hi obliguen, has d’estar molt ben preparada, tenir dades per desmuntar tots els seus discursos. I confrontar-los amb els temes que ells no volen tocar. On se senten forts? Quan parlen d’immigració, de seguretat, d’unitat de la pàtria, d’”ideologia de gènere”… és una tònica a escala mundial. Doncs pregunta-li per les pensions, per la sanitat, pels desnonaments, o per la pobresa energètica. No diuen que són part de la classe treballadora? Doncs, a la pràctica, què voldrien fer? Aquí, el relat se’ls desfà.

Salvant les distàncies, en algunes tertúlies a Catalunya i, en particular, a l’Estat espanyol, s’ha situat diverses vegades el debat al voltant dels drets del col·lectiu trans. Això passa en mitjans que no necessàriament compren els marcs de l’extrema dreta. És un exemple del que ara apuntaves?

Totalment. Això explica com ha evolucionat el feminisme, o, millor dit, com hi ha hagut feministes que no han volgut evolucionar. I això ha fet que coincidissin amb l’extrema dreta.

“La societat s’ha dretanitzat, i ara hi ha debats que fins fa poc no s’haurien permès”

Que fins i tot ha instrumentalitzat les postures de les feministes contràries a la llei trans. Al Congrés dels Diputats, Macarena Olona, de Vox, agraïa “les veus crítiques femenines” com les de Lucía Etxebarria, Paula Fraga o Lidia Falcón, que s’hi han oposat fèrriament.

Exactament. La societat s’ha dretanitzat, i ara hi ha debats que fins fa poc no s’haurien permès. Però no només a les tertúlies i no només en relació amb aquest tema. Si tu dediques la meitat d’un informatiu als robatoris o als okupes, contribueixes a generar una sensació d’inseguretat que és irreal. I en això els mitjans de comunicació hi tenen molta responsabilitat.

La precarietat del sector i la guerra pel clic també expliquen com s’informa de l’extrema dreta i com alguns mitjans tracten aquests actors?

Absolutament, aquesta és la base. Hi ha una crisi en el periodisme marcada per una precarietat absoluta. S’ha generat un matrimoni perfecte, perquè a l’extrema dreta li ha anat molt bé que el periodisme es trobi en la necessitat de fer titulars cada vegada més cridaners. Jo divideixo els mitjans en tres grups, depenent de com informen de l’extrema dreta: hi ha els que li compren el discurs perquè ideològicament hi estan d’acord; els que el difonen acríticament perquè pretenen ser neutrals o perquè això els dona clics, i un tercer grup, que són els que han fet una reflexió al voltant de l’extrema dreta i que treballen amb la voluntat de no engegantir-la. I em preocupen especialment els del segon grup.

Perquè no es pot ser neutre davant del feixisme.

Les idees d’odi no es poden tenir en compte, i aquí vaig al periodista i polític socialista italià, Giacomo Matteotti. Quan els feixistes van guanyar les eleccions, ell va documentar totes les atrocitats que cometien els seus esquadrons i denunciava que els mitjans no ho estiguessin difonent, perquè el feixisme sempre va de bracet del poder. Fa 100 anys que Matteotti va dir que el feixisme no és una opinió, sinó un crim, i que voler dialogar-hi era un error, perquè aquesta gent intenta dinamitar la democràcia des de dins. Des d’un punt de vista liberal, se’l va intentar contrarestar, amb la idea que cal ser tolerants, que se’ls ha de respectar. Total, l’any 1924, un esquadró feixista el va assassinar. El que Matteotti plantejava a principis del segle passat no forma part del passat; és superactual. L’historiador Carles Viñas diu que el feixisme “és la formulació de l’odi en doctrina política”, perquè implica violència, implica atemptar contra els drets humans. Llavors, costa d’entendre que hi hagi gent, fins i tot intel·lectuals que, des del progressisme, considerin que també se li ha de donar veu.

“Hi ha molt poca cultura antifeixista a les redaccions”

Per tant, aquesta suposada neutralitat, de facto, acaba legitimant l’extrema dreta?

Sí. S’han naturalitzat aquests discursos i s’ha banalitzat el feixisme. I això no només té a veure amb la precarietat del periodisme, sinó també amb la poca cultura antifeixista que hi ha a les redaccions.

Tal com explica Miquel Ramos al seu darrer llibre Antifascistas (Capitán Swing), a l’Estat espanyol, aquesta banalització es dona en paral·lel a un altre fenomen, que és l’estigmatització i la caricaturització de l’antifeixisme.

Aquí no queda gens clara una premissa bàsica: que ser demòcrata necessàriament vol dir ser antifeixista. Això no ho tenen clar representants de partits que es consideren d’esquerres, i moltes vegades parlen en termes d’extrems: “ni feixisme, ni comunisme”, “ni Vox, ni Podem”, “ni Vox, ni la CUP”, “ni Vox, ni Bildu”. Aquesta equiparació és molt greu. A Itàlia, la situació és substancialment diferent, en el sentit que la teoria és molt correcta i el cap d’Estat es defineix com a antifeixista; però, a la pràctica, hi ha formacions democràtiques que segueixen pactant amb el feixisme. Tanmateix, l’estereotip del jove encaputxat que crema un contenidor, tan típic a l’Estat espanyol, aquí no es reprodueix.

“Ser demòcrata necessàriament vol dir ser antifeixista”

Més enllà de les diferències que ubiques entre el feixisme espanyol i l’italià, quines són les similituds? Tenen un substrat comú?

Les estratègies que segueix l’extrema dreta a tot arreu tenen punts en comú –el racisme, la xenofòbia, la lluita contra la “ideologia de gènere”, etc.–, però també connecten amb el marc d’acció de la nova dreta populista, que intenta fer-se seus conceptes propis de la classe treballadora, fer veure que confronta les elits i situar un enemic, que poden ser els gitanos, els migrants o els catalans, depenent de cada context. Cada partit adequa els seus principis a l’entorn. Però el substrat és comú.

 

[Foto: ALBA SIDERA – font: http://www.elcritic.cat]

Há cada vez mais californianos a escolherem o nosso país para viver. Fogem da agitação dos dias, da insegurança, do custo de vida elevado. Encontram uma tranquilidade que nunca supuseram, um país sem radicalismos de ideias, seguro e barato. Vieram para ficar. E a onda não parará por aqui.

Escrito por PEDRO EMANUEL SANTOS

Foi como que uma aposta no escuro. Mas clara, por contraditório que possa parecer. Clara nos objetivos, clara nas ideias, clara na certeza, clara na ambição de querer uma vida nova longe, bem longe, da Califórnia natal, o imenso estado dos EUA – quatro vezes maior do que Portugal em área e número de habitantes – onde (quase) sempre vivera e de onde queria sair para iniciar rumo novo com Doug, o marido, e Bodhi, o filho de 13 anos, depois de um longo período em que cuidou da mãe, que padecia de um cancro terminal. Jen Wittman nem sequer tinha estado em Portugal quando tomou a decisão mais radical da sua vida.

“Um amigo disse-nos maravilhas do país. Ficámos tão encantados que quase não pensámos duas vezes”, conta. E até agora não se arrependeu, bem pelo contrário. “A mudança aconteceu em março de 2021.” A pandemia ainda atacava forte, o mundo era uma imensa incerteza, o futuro um ponto de interrogação. Mas nada de arrependimentos. Pelo contrário, Jen apaixonou-se à primeira vista por Portugal, a paixão evoluiu para um amor que deu em casamento com promessa de eternidade. “É, sem dúvida, a minha ‘forever home’ [casa para sempre]”, garante.

Aos 47 anos, Jen Wittman não tem dúvidas de que tomou a melhor decisão. Já tinha vivido durante dois anos em Itália, 2013 e 2014, mas Portugal é diferente. “Pessoas acolhedoras, bons cuidados médicos, uma mentalidade inclusiva, segurança acima da média, gastronomia ótima, uma comunidade multicultural bastante interessante”, define. Bem diferente dos EUA, daquela Los Angeles supermovimentada e incerta que ficou para trás. “Queria que o meu filho crescesse em segurança, sem medo de armas, sem andar com o coração nas mãos com receio de um qualquer tiroteio, como os muitos que têm ocorrido nos EUA com as consequências que se sabem”, justifica.

Trabalho também não foi dificuldade. Continua a gerir a Mindful Mavericks, como acontecia nos EUA natal, empresa que fundou e que tem como objetivo ajudar a expandir negócios de clientes em todas as partes do globo. E que publica, também, uma revista. Tudo agora feito online desde a Margem Sul, onde Jen reside num apartamento alugado enquanto espera que o ramo imobiliário dê uma ajuda e proporcione compra definitiva de um imóvel para a família, seja em Lisboa ou por lá perto. “A ideia quando viemos era adquirir casa. Mas o mercado encontra-se em alta e os preços estão muito elevados. Aliás, é a única coisa que me desagrada em Portugal. O processo para adquirir habitação é muito diferente do que acontece nos EUA, não existe tanta transparência.” Isso e os preços, “tão altos como na Califórnia”.

De resto, Portugal é mesmo chão certo para ela e os seus. Tão certo que já se considera “meia portuguesa, meia americana em transição para 100% portuguesa”. Tanto assim que o processo para adquirir dupla nacionalidade se encontra em marcha e é possível que tenha o seu epílogo muito em breve, tudo dependendo das andanças burocráticas. O pior é mesmo a língua, tão diferente do inglês. “Aos poucos vou falando alguma coisa. Prometo aprender cada vez mais rápido.” Palavra de quem vê Portugal como seu.

Jen Wittman é um dos exemplos dos milhares de norte-americanos que na última década escolheram Portugal para viver. No final de 2021, segundo os últimos dados disponibilizados pelo SEF, eram 6921. Dois mil a mais do que em 2020 (4768). O triplo em relação a 2010 (2236), segundo dados avançados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

“De todo este grosso, a Califórnia é a principal zona emissora. Foi o estado norte-americano onde a informação sobre Portugal se espalhou com mais facilidade e que tem características similares a Portugal, nomeadamente no que diz respeito ao clima”, explica Pedro Fontainhas, presidente da Associação Portuguesa de Resorts e conhecedor de perto desta nova realidade. “Essencialmente, são famílias ainda em idade laboral e reformados quem se muda desde a Califórnia.”

“Tem-se notado um fluxo significativo de californianos, sobretudo focado na área de Lisboa e Cascais, litoral alentejano e Algarve. São famílias que vêm para Portugal de forma definitiva”, sublinha, por sua vez, David Carapinha, da Home Tailors Real Estate, empresa de angariação e mediação imobiliária que trabalha de perto com clientes americanos e da Califórnia, em particular. “Valorizam bastante a proximidade, porque Portugal é um país pequeno e diverso e a partir do qual é fácil e rápido viajar para qualquer outro ponto da Europa. Para além de que o custo de vida é para eles significativamente atrativo”, aponta.

Números da Imovirtual, o maior portal imobiliário online, confirmam a tendência. No espaço de um ano, a procura americana por moradias e apartamentos em Portugal subiu, respetivamente, 11% e 32%. Só no período entre dezembro e maio últimos, as regiões de Lisboa, Porto e Setúbal verificaram significativo aumento de interesse, com aumentos de 53%, 45% e 47%. Surpreendentes foram também as expressivas buscas em Braga (98% em relação a igual período de 2021), o que se explica, segundo fonte da Imovirtual, “pelo facto de ser uma região que começa agora a ser descoberta pelo mercado dos EUA”.

Voltando aos dados oficiais do SEF, os pedidos para Autorização de Residência e Investimento, que dispensam, entre outras regalias, a necessidade de visto de residência desde que tal implique investimento em Portugal num valor superior a um milhão de euros e a criação de um mínimo de dez postos de trabalho, têm nos cidadãos norte-americanos fatia grossa de requerentes. Em maio último foram 16, número superado por pouco pela China (17). No mesmo mês de 2021 havia sido somente três. E no total do ano passado 101 (segundo lugar atrás da China, com 270), contra 75 em 2020 e 65 em 2019. Há dez anos não chegavam sequer a uma dezena.

Um artigo recente do influente “The Wall Street Journal” indica como fatores essenciais para a escolha de Portugal a saúde, o clima, os incentivos fiscais, a segurança, o baixo custo de vida (em média, os produtos são 40% mais baratos do que nos EUA) e os valores acessíveis para requerer visto de residência.

Thomas Murray, escritor e consultor de 59 anos, lembra-se bem do dia em que decidiu viver definitivamente em Portugal. “Foi quando Donald Trump venceu as eleições para a presidência dos EUA, em 2016.” Deixou Lake Forest, cidade da Califórnia com pouco mais do que 80 mil habitantes, e fixou-se na pacata Aldeia de Juso, em Cascais, com a namorada de então e um gato. “Quando cheguei, senti logo que esta era a minha casa. As pessoas são fantásticas de tão civilizadas. Posso falar seja com quem for sobre temas sensíveis, como religião, pena de morte ou racismo, sem esperar violência da outra parte, como infelizmente acontece nos EUA, onde as posições estão muito extremadas e a cultura de violência é uma constante”, frisa. “Trump ofendeu muitos americanos. Muitos como eu escolheram viver em países de acordo com os seus valores, tal como Portugal”, assinala Thomas.

Por isso, voltar para os EUA “é uma ideia que nem passa pela cabeça, de certeza absoluta”. Por que? A resposta vem na ponta da língua: “Não quero viver num país onde crianças são assassinadas nas escolas e onde o fanatismo tem crescido e é assustador.” Em Portugal, o tempo flui-lhe, o ambiente inspira-o. Desde a mudança, escreveu quatro romances – o quinto está em fase final de produção.

Além do mais, Thomas Murray tem em mãos a presidência da Americans in Portugal Association, a mais antiga associação luso-americana com exceção do American Club. “Pediram-me para a revitalizar pouco tempo depois da minha chegada. O anterior líder havia falecido e estava quase inativa.” Conta atualmente com cerca de mil membros, “muitos deles vivem ainda nos EUA e pensam vir para Portugal nos próximos tempos”. Lamento único sobre Portugal são os “loucos preços do imobiliário”. Tão loucos que “comprar uma casa na costa da Califórnia é mais acessível do que em Lisboa ou Cascais”. Mas a culpa, considera, não é dos portugueses, esse povo que passou a admirar, apenas dos “estrangeiros ricos que fazem negócios com tudo o que é caro sem importar ao preço”.

“Sinto-me em casa”

O nome é latino, Paulina Gallardo. E tem razão de ser, Paulina nasceu em Tijuana, cidade fronteiriça do México, e criança se mudou para San Diego, na Califórnia. Foi produtora de televisão, apresentou programas de viagens, a vida levou-a a viver noutras paragens do mundo, como Londres, onde conheceu o marido, Alex, mas fê-la sempre regressar às origens. Até 2019, quando decidiu que Portugal (e Lisboa) seria base nova.

“Não foi uma mudança radical. Fomo-nos mudando aos poucos, até aproveitando o facto de a minha sogra morar em Portugal e de querermos estar perto dela.” Paulina não ficou de braços cruzados e percebeu que em Portugal produtos mexicanos era coisa que escasseava ou não havia de todo. Colocou mãos à obra e lançou a Casa Mexicana, primeiro online e em plena pandemia. “Fomos a primeira do género.” Abriu depois um espaço físico, na lisboeta Rua da Quintinha, estabeleceu parcerias e espalhou-se para o norte, onde inaugurou em maio o restaurante (mexicano, claro está) La Dolorosa, em Leça da Palmeira, a dois passos do Porto.

“Não é muito diferente da Califórnia”, diz Paulina. “O clima é idêntico, a imensa costa marítima é semelhante. Até as praias são parecidíssimas, estar na Costa da Caparica ou em Melides é a mesma coisa do que estar num areal californiano”, destaca. E depois há estilo de vida, o modo de encarar o quotidiano, a forma de pensar o hoje e de olhar o outro. E o custo de vida, “bem mais acessível do que nos EUA”. E as viagens, “estamos sempre tão perto de avião seja de onde for, em particular de outras grandes cidades europeias”.

Paulina não promete viver Portugal para sempre. Mas também não diz um não definitivo à ideia. “Vamos indo e vamos vendo. Nunca fui de me prender muito a um lugar. Mas com Portugal tem sido diferente, é tudo tão excelente.”

“Uma espécie de fé”

Quem também trocou as câmaras de televisão e o frenesim do “luz, câmara, ação” por uma vida tranquila em Portugal foi Peter Wentzel. Pediu a reforma antecipada, deixou para trás os estúdios MRC, responsável pela produção de séries como “Ozark” ou “House of Cards”, onde chegou a ser vice-presidente, e zarpou há um ano e três meses rumo ao outro lado do mundo. “Durante a pandemia estive a trabalhar em casa, em Los Angeles, e senti-me isolado como nunca. Comecei a ler coisas sobre Portugal, onde nunca tinha estado, e tomei a decisão.” Falou com amigos que haviam feito férias por cá, reuniu cada vez mais informação, ponderou e não hesitou. “Acreditei que ia correr bem, foi uma espécie de fé.” Fez as malas e deixou a Califórnia. Para não mais voltar.

A situação política e social nos EUA contribuiu, igualmente, para a escolha. “Queria sair de lá o mais rapidamente possível e ir para um país estável, seguro e com um custo de vida acessível.” Esse país foi Portugal, a cidade que elegeu foi Lisboa. “Aluguei casa, comprar é caro nos grandes centros urbanos. Estou à procura em zonas mais afastadas da capital, como Tomar ou Ferreira do Zêzere”, revela.

Apesar de aposentado, Peter continua “a fazer alguns trabalhos online” e a colaborar em produções na Europa. “Mais a título pessoal do que outra coisa.” De resto, vai-se surpreendendo com o país que agora também é seu. “Conheci imensas pessoas novas, portuguesas e não só. Tenho boa qualidade de vida e não sinto falta dos EUA.” Quando as saudades apertam, há sempre forma de contactar online com amigos e familiares que moram lá longe. “Não me arrependo nada da mudança, cada dia que passa sublinho a convicção de que tomei a decisão correta.” Afinal, Portugal e a Califórnia não são assim tão diferentes quanto a geografia possa parecer dar a entender. “Ambos estão habituados a bom tempo, ambos têm produtos frescos disponíveis durante o ano todo, ambos têm uma gastronomia ótima, ambos têm sol, ambos têm montanhas e alguma neve, ambos têm chuva. É igual”, recapitula Peter Wentzel. Diferente, mesmo, “só a burocracia”. Aí, vinca, Portugal bate aos pontos a Califórnia. De goleada.

“Em Portugal ninguém tem pressa”

Meghana Kamdar tem 42 anos e há quatro, em 2018, passou uns dias de férias em Portugal com o marido, Benny Robertson, e os três filhos. Foi o primeiro contacto com o país que haveria pouco depois de escolher para viver em definitivo. “Era verão e fiquei surpreendida com a grande energia que se sentia no ar. Percebi logo que as pessoas são fantásticas e que a qualidade de vida é diferente. Uma espécie de ‘slow country’ [país lento]”, rebobina. “Aqui, as famílias reúnem-se para jantar aos fins de semana durante três horas seguidas, algo completamente impossível de acontecer nos EUA. Lá, era só trabalho. Passava a vida a trabalhar, não parava”, exemplifica.

Meghana e a família moravam em Santa Rosa, a uma hora e meia de caminho da gigante São Francisco. Mas ela queria outra coisa para si e para os seus. Queria a tal qualidade de vida que tinha encontrado nas férias em Portugal e que parecia impossível de alcançar na Califórnia. “Viver sem pressas”, conjugando o emprego – é life coaching, tal como nos EUA, e trabalha online – com a fruição do tempo, dos dias, dos minutos, de todos os segundos disponíveis. No fundo, uma mudança radical que lhe desse outra perspetiva de vida. Afinal, “em Portugal ninguém tem pressa” e era isso que também pretendia: deixar para trás a correria, abraçar a tranquilidade.

Fez as malas em janeiro de 2020, mal imaginava que dois meses depois uma pandemia haveria de mudar o mundo, e só parou quando aterrou em Lisboa, onde escolheu viver. “É uma grande cidade, internacional e cosmopolita, que tem tudo como Paris ou Londres, mas não é gigante como essas capitais”, resume. E tem outra coisa, para ela rara de encontrar seja onde for, “um sentido de comunidade e de vizinhança únicos”. Além de ser “vibrante do ponto de vista cultural e segura”. A segurança, sempre ela, reforçada como essencial pelos californianos que trocaram o seu país por Portugal, cansados das armas, da violência, do dia de amanhã que pode ser manchado de sangue.

Em família, Meghana Kamdar faz em Lisboa o que era praticamente impossível fazer na Califórnia. Como andar a pé. “Não preciso de carro.” Ou compras no dia a dia a preços acessíveis. A experiência tem sido de tal modo interessante que Meghana não tem dúvidas em afirmar que se trata de “um processo de crescimento diário”. E faz por isso acontecer, porque quer sempre mais, quer absorver tudo o que o seu novo país lhe dá e lhe traz. “Não queria viver numa bolha. Foi sempre minha intenção aprender uma nova língua, beber uma nova cultura, conhecer novas pessoas. E isso tem acontecido”, assegura.

Mais importante do que tudo, diz, é “ver os filhos felizes”. Isso é felicidade sem retorno que não trocaria por nada e que prova ter sido correta a decisão de viver em Portugal. “Não há nada mais importante do que a felicidade das nossas crianças.” E isso Meghana já ganhou. Em Portugal, longe da Califórnia que deixou para trás em busca de um novo estado de espírito. Porque não há latitude para se ser feliz.

Meghana Kamdar é, também, um bom exemplo do perfil de californianos que optam por Portugal. Trabalha desde casa, sem restrições de geografia e de abrangência. É nómada digital, como muitos outros assim batizados por conseguirem gerir profissionalmente a sua vida estejam onde estiverem. Basta que se mantenham ligados online, afinal o mundo é uma pequena aldeia onde todos nos encontramos conectados sem dificuldades de maior.

“Os nómadas digitais começaram a procurar Portugal com mais intensidade durante a pandemia. Curiosamente, essa procura tornou-se maior a partir de março de 2021, exatamente um ano após o início da pandemia”, confirma Pedro Franco Caiado, country manager da Spotahome, um marketplace internacional de arrendamento de casas presente na Europa e no Dubai e que trabalha de perto com quem faz do trabalho à distância realidade. Foi da Spotahome o estudo recente que deu conta que Portugal consta da lista de países considerados os melhores para nómadas digitais. “É uma tendência clara. O perfil pessoal são pessoas acima dos 40 anos, que conseguem trabalhar de qualquer lado e procuram qualidade de vida”, descreve. “O mercado norte-americano está em crescendo, em particular o da Califórnia”, acrescenta.

O estudo da Spotahome coloca o Porto no topo da lista das melhores cidades para viver e trabalhar desde casa, à frente de referências como Florença (Itália), Amesterdão (Países Baixos), Praga (Chéquia) e Barcelona (Catalunha), que fecham o top-5.

“Como se estivesse na Califórnia”

É precisamente o Porto a futura casa de Todd Greentree. O processo de mudança está em marcha, a casa escolhida e comprada, tudo quase no ponto para que, em dezembro, Todd possa mudar-se em definitivo para Portugal. Ele que em missões diplomáticas ao serviço dos EUA calcou locais tão diferentes do planeta como o Afeganistão, Nepal, Angola, Brasil ou El Salvador. E que agora vai deixar Amã (Jordânia), onde vive com a mulher, e começar vida nova aos 68 anos.

“A minha mulher é suíço-americana e trabalha na área humanitária como representante da embaixada da Suíça em Amã. Passámos metade da nossa vida adulta noutros países, estamos orientados para a vida internacional”, relata num português impecável. A língua não será problema quando passar a viver no Porto.

Foram anos e anos longe da Califórnia onde nasceu mas que nunca deixou de fazer sua, a sua San Diego. Era lá que voltava sempre, era ali que se sentia em casa. Essa Califórnia das praias sem fim e ondas enormes que Todd surfou durante a juventude. Essa Califórnia onde conheceu de perto pela primeira vez portugueses, corria a década de 1960. “Dedicavam-se à pesca do atum. Era uma comunidade muito interessante e trabalhadora, proveniente dos Açores, que já vai na terceira e quarta gerações”, desfia.

Todd está já reformado, o trabalho nos serviços diplomáticos dos EUA é agora passado. Mas continua a dar aulas online, como professor universitário. Esteja onde estiver, da sala de casa para uma sala de aulas do outro lado do hemisfério. “Em Portugal, será assim, também.” Do Porto para os EUA sem amarras de distância. “Nos últimos dois anos eu e a minha mulher pensámos muito onde queríamos viver. E ficou certo que não voltaríamos aos Estados Unidos, estamos um pouco cansados. Incêndios, insegurança, ambiente político, tudo foram fatores que contribuíram para a decisão.” Além disso, “os custos da habitação na Califórnia estão incomportáveis, é uma situação que não pode continuar”.

A escolha por Portugal acabou por ser tomada sem dificuldades de maior. O casal já conhecia o país e ficara apaixonado quase à primeira vista em 1989, aquando da primeira visita. “Sempre gostamos de Portugal e ambos falamos português”, realça. Em agosto do ano passado, Todd e a mulher vieram em viagem exploratória. Percorreram o país de norte a sul e perceberam rapidamente que o Porto seria a opção. Sem olhar para trás. “Estivemos quase duas semanas na cidade. Adorámos as pessoas, abertas e generosas, com uma atitude de vida positiva. Como as de São Diego. Senti-me em casa desde o primeiro dia, é como se estivesse na Califórnia.” E em casa irá sentir-se mais ainda quando a mudança for definitiva. Já falta pouco, o calendário vai encurtando e Todd não vê a hora para começar a experiência que lhe vai mudar a vida. “Para melhor”, tem a certeza, sem esconder “alguma ansiedade” pela realidade que não tardará.

Como ele, muitos californianos têm experimentado as mesmas sensações. Fazem de Portugal o seu novo mundo, a sua profissão de fé numa vida que querem melhor e com outra tranquilidade. Onde os dias correm devagar e o contacto com a comunidade traz vivências impensáveis. E, sobretudo, onde é possível não viver numa sociedade dividida em que a violência gera ondas de ansiedade profundas. Uma nova Califórnia. Sem pontos de interrogação em relação ao futuro e com muito para explorar e conquistar.

 

[Fonte: http://www.noticiasmagazine.pt]

Després de quatre segles de silenci, a finals del XIX els jueus van retornar a Barcelona, per arrelar-hi i projectar-s’hi.

Escrit per Marc Pons

Barcelona, 26 de març de 1936. Fa 86 anys. El rotatiu La Rambla publicava la notícia que, pocs dies abans, el president Companys i els directius de l’Associació Cultural Jueva de Barcelona s’havien reunit al Palau de la Generalitat per a posar en pràctica accions que havien de garantir la seguretat de la comunitat jueva barcelonina; amenaçada per una sèrie d’elements, autòctons i estrangers, que gravitaven al voltant del consolat alemany a la capital catalana. Aquella reunió seria la primera trobada al més alt nivell entre el govern de Catalunya i la comunitat jueva catalana des del decret de conversió o expulsió promogut per la monarquia hispànica el 1492. Però no era el primer testimoni de la recuperació de la comunitat jueva catalana. Barcelona ja acollia una comunitat jueva local des de finals del segle XIX.

El primer retorn

Una part molt important de les diàspores katalanim i sefardita que es van produir entre 1391 (any dels primers pogroms) i 1492 (data del decret de conversió o expulsió); es va dirigir als territoris de la Mediterrània oriental que l’emergent Imperi otomà guanyava al decrèpit Imperi bizantí. Tessalònica (a l’actual Grècia) va ser una ciutat de majoria jueva des del 1492 fins a l’Holocaust de 1942. Durant segles, katalanim i sefardites van mantenir una relació de complicitat amb el poder de la Porta Sublim. Però la reculada territorial de l’Imperi otomà (durant el segle XIX) forçada pel ressorgiment de les nacions balcàniques (Grècia, Bulgària, Sèrbia), els situaria en una posició precària i, fins i tot d’amenaça; que impulsaria una mena de retorn cap a l’Europa occidental, sobretot cap a París i Milà en primer terme; i cap a Barcelona com a etapa final.

La botiga de Lleó Alexandrovich. Foto Josep Brangulí. Font: Arxiu Nacional de Catalunya

El cas de Jacques Bensussan

Segons la investigació historiogràfica, als inicis d’aquest fenomen migratori (1877) a Barcelona hi havia una vintena de persones de cultura jueva. Però quaranta anys més tard, coincidint amb l’esclat de la Primera Guerra Mundial (1914), aquell col·lectiu s’havia multiplicat per 20 i n’hi havia unes 400Jacques Bensussan és un dels casos més paradigmàtics d’aquell fenomen. Bensussan havia nascut a Tessalònica el 1877 en una família de l’elit jueva de la ciutat. Però el 1912, un Imperi otomà en plena descomposició transferia Tessalònica a la nova i flamant Grècia. I aquell fet desencadenaria una primera diàspora local; que es dirigiria cap a París. L’aventura de Bensussan a la capital francesa va durar el que va trigar a esclatar la Primera Guerra Mundial (1914-1918), i el 1916 arribava a Barcelona i creava un petit taller de fabricació tèxtil.

El cas de Joseph Palomo-Sagués

Joseph Palomo-Sagués seria un altre paradigma d’aquell fenomen d’emigració jueva a Barcelona. Segons la mateixa investigació havia nascut a Pursa (a l’oest de l’actual Turquia) l’any 1902; i poc abans de ser cridat a files per la República de Kemal Ataturk, havia travessat la Mediterrània i s’havia refugiat a Barcelona (1923). Sagués va ser a Barcelona fins a les acaballes de la Guerra Civil (1939). A Catalunya es va casar amb la jueva Fortuna Adjiban; va fundar una família i es va dedicar a la venda ambulant pels pobles de l’interior del país; cosa que fa pressuposar, que com tants altres jueus catalans d’adopció acabaria dominant la llengua catalana. Sagués va ser detingut i reclòs en un camp de concentració franquista (Miranda, 1939). Mai se li va imputar cap càrrec, i no va ser alliberat fins al 1943, quan va poder passar al Protectorat Britànic de Palestina.

Familia Palomo Sagués i Adjiman a la Rambla de Barcelona (circa 1936). Font: European Observatory on Memories

Els jueus contemporanis a Barcelona

Segons els investigadors Josep Calvet i Manu Valentin, de la Universitat de Barcelona, la comunitat jueva contemporània es va establir en diversos indrets de la ciutat; però especialment al Poble Sec (obradors) i al Raval (comerços). Seria amb aquell establiment que es posaria en relleu la presència d’un altre corrent jueu, que procedia del centre i de l’est del continent (els askenazis). Segons els mateixos investigadors, durant els anys vint del segle XX, al carrer de Sant Pau hi havia una vintena llarga de botigues jueves. Una de les més populars era la de Lleó Alexandrovich (exiliat de la Rússia tsarista), situada a la cantonada dels carrers Sant Pau i Robadors. I una altra, també molt popular era la merceria dels germans Mendelson (originaris de Polònia), que estava situada al carrer Tamarit, just al davant del Mercat de Sant Antoni.

La primera associació jueva de Barcelona

La conclusió del conflicte mundial (1918), lluny d’estimular el retorn dels jueus barcelonins als seus països d’origen, va impulsar l’articulació del col·lectiu, a través de la Comunitat Israelita de Barcelona. Bensussan, que havia arribat a la capital catalana tan sols dos anys abans, ja apareix com un dels socis fundadors. I llavors és quan es planteja la qüestió: ¿realment Barcelona només era un refugi transitori o era una prometedora destinació? Sabem que els primers jueus contemporanis s’havien establert a Barcelona ja feia més quaranta anys (1877). I sabem que aquell fenomen s’havia multiplicat per “l’efecte crida”. Llavors, està clar, que els Bensussan, els Sagués, els Alexandrovich, els Mendelson —per citar alguns exemples— havien vingut a alguna cosa més que a esperar que escampés la tempesta bèl·lica europea.

Acta fundacional de la Comunitat Israelita de Barcelona (CIB). Font: Arxiu del CIB

Per què a Barcelona?

En mig segle (1877-1927) la població jueva local ja censava unes 2.000 persones. No obstant això, aquest creixement era producte d’un fenomen migratori discret però constant; que s’havia accelerat durant la darrera fase, especialment durant el quinquenni 1918-1923. De nou sorgeix un interrogant: ¿Per què a Barcelona? I la resposta l’obtenim quan observem el paisatge de la ciutat durant aquella etapa. La Barcelona de 1920 era una de les ciutats més dinàmiques del continent. Era la capital econòmica, social, cultural, científica i demogràfica de la península Ibèrica. I això explicaria que el 1919, la comunitat jueva local va crear la primera sinagoga contemporània de la ciutat, al carrer Provença 250. Els llibres i objectes de culte d’aquella sinagoga van ser cremats al mig del carrer l’endemà de l’ocupació franquista de la ciutat (1939).

L’etapa daurada de la comunitat jueva barcelonina

Catalunya va patir una brutal repressió política i cultural durant el règim dictatorial de Primo de Rivera (1923-1930). Però, per una altra banda, el país es recuperava del col·lapse econòmic de 1918 i dels formidables conflictes socials de 1919. Durant aquesta etapa, la comunitat jueva local no tan sols va confirmar l’arrelament a la ciutat i al país; sinó que va prosperar significativament. Amb l’ensorrament de la dictadura, la restauració de la Generalitat i la proclamació de la República (1931); la comunitat jueva catalana contemporània coneixeria la seva plenitud. Fins i tot, més enllà dels esdeveniments relativament llunyans però amenaçants: 1933 (instauració del règim nazi alemany), i 1936 (usurpació de la seguretat publica per part de les temibles Patrulles de Control anarquistes). Però això ho explicarem en el pròxim lliurament.

Llistat parcial de comerços jueus al Raval. Font CTNE European Observatory on Memories

 

[Font: http://www.elnacional.cat]

Não há uma relação líder-fiel automática. Religião não determina escolha de candidato. Bolsonarismo não tem poder pleno sobre pentecostais. E pautas morais perdem força: anseio por soluções econômicas vira a nova arena de disputa

Foto: Thiago dos Anjos/Brasil de Fato

Escrito por Ana Carolina Evangelista

Com os acontecimentos das últimas semanas e as oscilações em pesquisas de intenção de voto para presidente, a variável religião voltou a chamar a atenção de quem acompanha o processo eleitoral deste ano. Mais do que isso, o chamado “voto evangélico” ocupou as reuniões de pauta de quase todas as redações que cobrem as eleições brasileiras. E hoje, quando saírem novas pesquisas, de novo os analistas se perguntarão sobre o impacto desse eleitorado nas eleições de outubro. Diante disso, vale a pena refletir sobre algumas afirmações que se tornaram comuns para tratar desse segmento.

Ao mesmo tempo que esse voto não é tão uníssono assim, chama a atenção o crescente alinhamento de parte desse eleitorado com pautas conservadoras e simbologias que sintetizem ameaças morais. Afirmar que não é um bloco não significa dizer não haver elementos que nos permitam identificar o que tem mobilizado o voto de pessoas que se autodeclaram evangélicas.

2. Os pastores fazem a cabeça dos fiéis nas eleições

Há uma tentação frequente no Brasil de pensar em voto de rebanho, sobretudo quando alguma importante liderança religiosa evangélica declara seu voto. Não raro, a partir daí, surgem análises que tentam decifrar “para onde vai agora o voto evangélico”. Esse tipo de abordagem tornou-se ainda mais comum quando a diferença de votos num único segmento – o evangélico – bateu recordes a ponto de ser decisiva na definição do resultado das eleições presidenciais, como em 2018.

Isso não significa, porém, que, diante da orientação de um pastor, todo o seu rebanho vote como ele recomenda. Primeiro: a divisão e a fragmentação no universo evangélico são enormes, com inúmeras igrejas, denominações, histórico, práticas litúrgicas e lógicas muito distintas. Não custa lembrar que uma parcela significativa dos evangélicos no Brasil é formada pelos chamados “sem denominação” ou “desigrejados”.

Agora, mesmo que o pastor não faça a cabeça do fiel pura e simplesmente e sejam muitos pastores diferentes, falando com comunidades evangélicas diferentes com identificação institucional de variados níveis, é importante reconhecer que cada vez mais espaços de igreja têm buscado influenciar politicamente seus fiéis de múltiplas maneiras. Isso não era comum no meio evangélico institucional até trinta anos atrás, mas vem intensificando-se.

No início dos anos 1990, o Iser (Instituto de Estudos da Religião) já media, na região metropolitana do Rio de Janeiro, a presença explícita do tema eleitoral nos templos e se a pessoa orava ou não por algum candidato. A pesquisa Novo Nascimento – Os Evangélicos em Casa, na Igreja e na Política, realizada durante a campanha presidencial de 1994, mostrou, por exemplo, que a Igreja Universal do Reino de Deus já se destacava pela incidência política e eleitoral a partir dos púlpitos. Enquanto, na média entre diferentes denominações evangélicas, 39% diziam orar por um candidato, entre fiéis da Universal esse número subia para 56%. Uma prática que se confirmou e se aprofundou nos últimos tempos.

Em outras palavras, a probabilidade de um fiel da Universal ser influenciado por seu pastor podia – e pode – ser maior do que em outras igrejas, e isso tem acontecido em outros espaços religiosos. Não pela relação automática líder-fiel, mas porque grandes corporações evangélicas, especialmente pentecostais, mas não apenas elas, possuem diferentes formas de manter influência e comunicação com seus fiéis além dos períodos eleitorais. Por meio de conteúdos de formação em escolas dominicais e grupos de oração, por meio de atividades culturais e de assistência social, por meio de veículos de rádio e televisão, e mais comumente nos cultos e templos.

Determinadas denominações evangélicas vêm aperfeiçoando, também, desde os anos 1990, a forma de se organizar para eleger candidatos e representantes “oficiais”. Essa maior organização política e essa “orientação de voto” têm, sim, tido impacto. Principalmente em relação às Assembleias de Deus, suas subdivisões, e à Universal do Reino de Deus. São as denominações que hoje têm mais filiados a elas eleitos para o Congresso, as Assembleias Legislativas estaduais e as Câmaras Municipais das capitais.

3. É um voto definido por motivação ou identificação religiosa

A identificação religiosa explícita não tem sido, sozinha, fator de êxito numa disputa eleitoral. Basta ver que nomes como o pastor Everaldo, nas eleições presidenciais em 2014, ou o bispo Marcelo Crivella, nas eleições municipais em 2020, perderam eleições. Ou inúmeras candidaturas ao Legislativo pelo Brasil afora que utilizam ativamente sua identidade religiosa e não são eleitas. Porém, a identidade religiosa tem estado presente de maneira mais difusa e crescente em discursos e posicionamentos de candidaturas. Na realidade, é uma identidade cristã ampliada que nem sempre aciona linguagens e símbolos bíblicos, mas mobiliza moralidades religiosas de forma genérica, buscando alcançar evangélicos e católicos.

No estudo recente do Iser – Religião e Voto: uma fotografia das candidaturas com identidade religiosa nas Eleições 2020 –, identificou-se que os evangélicos fazem uma mobilização mais direta à religião que católicos e pessoas de outras religiões. A mobilização direta é aquela em que candidatos e eleitos utilizam sua identidade religiosa como referência central na campanha eleitoral, com o nome nas urnas, material de campanha e mídias sociais, ou quando a relação com a religião já é de conhecimento público. No caso dos evangélicos, 94% da mobilização foi direta, em comparação com apenas 60% entre católicos.

Mobiliza-se uma identidade cristã ampla e difusa e, paralelamente, acionam-se pautas priorizadas por esse segmento desde os últimos ciclos eleitorais: a defesa da moral e da família, o controle e a ordem no campo da segurança pública, e o forte posicionamento antiesquerda. Essas pautas não estão presentes apenas no eleitorado de base evangélica e fazem parte da vida de eleitores de diferentes matizes conservadores, com ou sem identificação religiosa – mas têm, sim, apresentado maior incidência na base evangélica.

4. As pautas morais perderam força para a pauta econômica

As pautas morais seguem com forte apelo sobre os anseios e demandas desse recorte do eleitorado, e é justamente por essa força que os políticos recorrem a elas. É muito comum que materiais de campanha citem práticas ou temáticas consideradas “desvios morais”, sob a ótica de proteção à família e à fé cristã. Mistura-se tudo num mesmo balaio: de corrupção, passando por permissão ao aborto, pela legalização das drogas, chegando à chamada ideologia de gênero.

Quando o pânico moral volta a ser fortemente acionado, as intenções de voto do segmento evangélico mostram oscilações. Aconteceu em 2018, aconteceu em 2020 e está acontecendo em 2022.

5. Não é um segmento com tanto peso político e eleitoral assim

Os evangélicos não se destacam no Brasil apenas pelo seu crescimento, mas também por seu ativismo de fé. Em comparação com católicos e outras religiões, eles se declaram mais praticantes, frequentando templos e afirmando orar com mais frequência. Também é um segmento que compartilha mais a sua fé fora dos templos, ocupando as artes, a música e a política. Estamos falando, portanto, de uma população que cresce e que é mais ativa em seus hábitos de fé num país até poucos anos de maioria católica não praticante.

Esse fenômeno não é novo, e o sistema político sabe disso. Desde os anos 1990 já se identificava, por exemplo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, que o sucesso eleitoral de candidatos evangélicos aparecia associado a uma comunicação mais intensa entre eleitores e eleitos nesse segmento — os evangélicos fluminenses se comunicavam mais com políticos, se comparados com a população em geral. Mais exemplos? O mesmo estudo do ISER já mencionado mostrava que o peso de candidatos evangélicos em eleições proporcionais, em 1994, representou 60% dos votos obtidos pelo PP e 49% dos votos do PFL no estado do Rio. Sem esquecer a emergência da “bancada evangélica”, com 33 membros em 1986 e hoje chegando a mais de 100 parlamentares.

O sistema político sabe, portanto, desse peso político e eleitoral há pelo menos trinta anos.

6. Os evangélicos invadiram a política

Não, os evangélicos não invadiram a política. Entretanto, os evangélicos conservadores e denominações e igrejas mais ativas praticamente invadiram o governo federal atual. A presença de representantes conservadores do segmento evangélico em cargos importantes encontrou seu ápice no governo de Jair Bolsonaro.

O governo começou com a pastora Damares Alves, que ganhou a direção do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. A Casa Civil foi ocupada pelo luterano Onyx Lorenzoni. O Ministério do Turismo era conduzido pelo membro da Igreja Maranata Marcelo Álvaro Antônio. Na Advocacia-Geral da União, o pastor presbiteriano André Luiz Mendonça (mais tarde nomeado por Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal). O ministro-chefe da Secretaria de Governo era o general Luiz Eduardo Ramos, membro da Igreja Batista.

Em 2021, ocorreram trocas significativas na Esplanada dos Ministérios, e enquanto Marcelo Álvaro Antônio era afastado do governo, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro passava a ocupar o Ministério da Educação, e o recém-criado Ministério das Comunicações ia para as mãos do deputado federal Fábio Faria, da Igreja Batista.

Essa presença, somada à força da bancada evangélica no Congresso Nacional, reforçou a incidência da pauta e de políticas públicas de interesse desses setores evangélicos conservadores com incidência, consequentemente, sobre o eleitorado.

7. Os evangélicos “bolsonarizaram”

Nem todo evangélico é bolsonarista, mas Jair Bolsonaro sintetizou em 2018 o que até então parecia disperso: um eleitorado que vinha dobrando à direita, para usar uma expressão do cientista político Jairo Nicolau ao radiografar as eleições daquele ano. Isso aconteceu de forma ampla e especialmente no segmento evangélico. Especialmente porque a figura do então candidato personificava e sintetizava demandas prioritárias de lideranças desse campo que o agora presidente transformou em políticas ou pautas legislativas.

É fundamental sempre destacar que a articulação de políticos religiosos evangélicos e católicos conservadores se aprofundou e faz parte desse marco geral de maior alinhamento.

A presença de lideranças religiosas no espaço público e na política tem uma enorme influência em moldar esse cenário, e hoje as lideranças religiosas com força política e voz pública marcante são as de cunho ultraconservador. É um movimento duplo: políticos ultraconservadores mobilizam o religioso e os líderes religiosos, hoje em sua maioria evangélicos, usam o espaço da política institucional para impor a moral do seu segmento como agenda geral.

Além desse casamento de intenções comuns a partir de 2018, os evangélicos também se destacam pelas candidaturas legislativas de perfil religioso, e a maior parte delas, nas últimas eleições municipais pelo menos, está no campo da direita. No caso católico, apesar de as candidaturas legislativas estarem em maior número em partidos de esquerda, as que tiveram mais sucesso eleitoral foram aquelas vinculadas também aos partidos da centro-direita e direita, em 2020.

Na minha última coluna neste espaço refleti sobre o apelo a símbolos, fatos e medos na mobilização por eleitores. Esse raciocínio segue válido e é inegável que, no segmento evangélico especificamente, por mais heterogêneo que seja, a incidência de símbolos e medos se mostra muito eficiente há décadas na mobilização por votos.

Não é possível, portanto, falarmos em “voto evangélico” ou igualarmos esse segmento ao campo conservador, mas tampouco é suficiente afirmarmos apenas que não se trata de um campo homogêneo. É fundamental continuarmos a destrinchar qualitativamente como votam os evangélicos num país onde “ser cristão” está cotidianamente na boca do presidente. E mais ainda, num país em que as preferências desse segmento resultam, em grande medida, em vitória nas urnas.

 

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

 

Au lendemain de l’attaque au couteau contre Rushdie, BHL est revenu, dans le JDD, sur les trente ans d’amitié avec l’écrivain visé par la fatwa. Il lance une campagne pour que le Nobel de littérature 2022 soit décerné à l’auteur de « Les Enfants de minuit ».

Salman Rushdie.

Salman Rushdie. Photo : AFP

Écrit par Bernard-Henri Lévy

La fatwa, les amis de Rushdie, ses lecteurs, Rushdie lui-même, avaient fini par ne plus y penser.

Il vivait, à New York, une vie presque normale.

Il n’avait plus, depuis des années, qu’une sécurité discrète, presque invisible.

Et je me rappelle ce jour, peu après son élection, où le président Emmanuel Macron nous avait reçus autour d’un café et s’était étonné qu’il soit si peu protégé : « Je n’ai pas l’âme d’un martyr !, avait répondu Salman en riant. Je ne suis qu’un écrivain ! pourquoi en voudrait-on, autant, à un écrivain ? »

Eh bien il se trompait.

Ce genre de tueurs ne lâche jamais.

Vous pouvez mépriser, oublier les chasseurs de prime que l’Histoire lâche à vos trousses, la meute, elle, ne vous oublie pas.

Et c’est ce qu’a sans doute compris mon ami dans les secondes d’effarement, avant qu’il ne perde connaissance, où il a vu que, comme Samuel Paty, comme le père Jacques Hamel, comme Daniel Pearl, on voulait le décapiter.

Aujourd’hui, il lutte contre la mort.

Déferle sur le monde un vent de terreur et d’horreur.

Bernard-Henri Lévy et Salman Rushdie à l’issue de la conférence donnée à Helsinki en 1992. Photo : Micheline Pelletier/SYGMA

Trente-trois années d’amitié intellectuelle

Et je n’ai le cœur à rien, sinon à attendre, guetter les rares nouvelles qui filtrent de l’hôpital UPMC Hamot, à Érié, Pennsylvanie, où il a été héliporté – et laisser venir à moi les souvenirs des 33 années écoulées depuis que l’ayatollah Khomeyni l’a publiquement condamné à mort.

Cette assemblée du Conseil Nordique, quelques semaines après la fatwa, à Helsinki, où j’avais, en secret, avec mon ami suédois, Gabi Gleichman, décidé de partager mon temps de parole avec lui… Il surgit, sur scène, à mes côtés. L’assistance, médusée, retient son souffle. Elle croit voir un fantôme, un condamné à mort qui s’est échappé, un masque de fer évadé de sa Bastille planétaire. Et, alors, il prend la parole. Il rit de ses yeux étranges, en demi-lune, avec leur pupille trop grande qui lui mange le blanc du regard. Il improvise un monologue étincelant sur l’art et les pouvoirs du roman. Il dit qu’entre son œuvre et sa vie, il choisira toujours son œuvre. Et c’est une ovation.

Ce voyage à Nice. Air Inter a bloqué la première rangée. Il embarque au dernier moment, avec ses officiers de sécurité, juste avant la fermeture des portes et après qu’on a vu, sur la piste, un mystérieux ballet de policiers, de voitures de service, de gyrophares. Et, de nouveau, quand il apparaît, saisissement. Une dame se trouve mal. Une autre demande à descendre. Mais le reste de l’avion, le premier choc passé, applaudit, soutient.

Prison sans murs

Cet autre peureux. Le malheur c’est qu’il était, celui-là, ministre des Relations Extérieures de la France. Il s’appelait Roland Dumas. La Règle du Jeu, ma revue et celle de Salman Rushdie, celle que nous avions, avec lui et quelques autres, fondée en 1990, l’avait invité à rencontrer ses amis parisiens. Mais le ministre fut ignoble. Il décréta que ce citoyen d’Europe avait besoin d’un visa pour entrer en France. Et il refusa le visa au motif qu’il n’était pas en mesure d’assurer sa sécurité. Son collègue Jack Lang, ministre de la Culture, protesta. François Pinault proposa d’envoyer un avion et de fournir les protections nécessaires. François Mitterrand trancha. Et la France des trafics et des ventes d’armes céda face à l’esprit de Voltaire. Bonjour Mr Rushdie.

Un autre encore. Le Prince Charles. Mêmes années. Déjeuner à l’ambassade du Royaume Uni à Paris. « Rushdie n’est pas un bon écrivain », grogna le Prince à qui je demandais ce qu’il pensait de l’Affaire. Et d’ajouter : « sa protection coûte cher à la couronne d’Angleterre ». Un autre ami de Salman, Martin Amis, rétorqua : « ça coûte encore plus cher de protéger le prince de Galles qui n’a, que l’on sache, pas publié grand-chose d’intéressant ». Et la presse, les tabloïds, l’Opinion, prirent, une fois n’est pas coutume, parti pour l’écrivain persécuté.

Je me souviens du journal Le Monde m’envoyant à Londres, à peu près à la même époque, pour faire un reportage sur la vie quotidienne de l’écrivain le plus reclus du monde. Nous déjeunons chez Scott’s. Nous marchons dans Mayfair. Nous passons devant Kensington Palace où il m’avoue s’être précipité, comme beaucoup de Londoniens, le jour de la mort de la princesse Diana. Nous allons, à la Portrait Gallery, voir une exposition de portraits d’écrivains par Henri Cartier-Bresson. Des gens l’accostent : « Vous êtes Salman Rushdie ? – I hope so, I do my best… ». Il met son point d’honneur, ce jour-là, à faire comme s’il n’avait pas cette épée de Damoclès au-dessus de la tête. Il fait ses exercices de liberté et de vie normale, comme d’autres de remise en forme. Après mon départ, hélas, il retourne à sa prison sans murs.

Bernard-Henri Lévy et Salman Rushdie à Paris. Micheline Pelletier/SYGMA.

L’ami de l’islam modéré

Je me souviens, un peu plus tard, de notre projet de voyage à Sarajevo. Le président Izetbegovic en avait accepté le principe. Lui, Salman, le désirait. Loin d’être l’islamophobe que décrivent les salauds et les crétins, n’était-il pas l’ami de l’islam modéré ? le défenseur d’un Coran qui, comme à Sarajevo, lutterait pour les Lumières ? Un certain Boutros Boutros-Ghali, alors secrétaire général des Nations Unies, mais tombé depuis dans les poubelles de l’Histoire, s’y opposa sous de fallacieux prétextes. Il fallut renoncer.

Je me souviens d’une conversation que nous eûmes, lors d’un Festival du Livre, à Londres, où il dit sa nostalgie, justement, de l’islam de son enfance indienne. « La grande pensée musulmane, expliqua-t-il, était large d’esprit. ». Puis : « Lorsque je repense aux temps de mes grands-parents, de mes parents, l’islam se voulait cosmopolite, suscitait des interrogations et des argumentations, il était vivant. ». Salman est fils de cet Islam-là. Il n’a évidemment rien contre le blasphème ; car le droit au blasphème est indissociable, à ses yeux, de la liberté d’expression et de pensée ; mais je ne crois pas qu’il ait, pour autant, jamais blasphémé quoi que ce soit.

Je me souviens d’une conversation, à Paris, sur la radio juive RCJ, où il médita sur ce qu’aurait été sa fatwa si elle avait été prononcée au temps, non du fax, mais des réseaux sociaux. « Il suffit d’un tweet, disait-il, pour mettre la planète en émoi. Il suffit de cinq minutes sur YouTube pour provoquer des manifestations, partout dans le monde, au même moment. Si ma fatwa avait eu lieu à l’ère d’Internet, m’aurait-elle été fatale ? Je ne sais pas. » Maintenant, il sait. Hélas.

Je me souviens de son mariage, pluie de pétales de rose, orchestre indien, sitar, tambour, le geste de passer l’anneau à la cheville de son aimée, ses amis sont là, son fils aussi, il est heureux.

Je me souviens du soir de la première élection de Barack Obama. Nous sommes dans un appartement à recoins et boiseries d’un mogul new-yorkais. Il y a là un mélange de gens de lettres, d’acteurs, de journalistes, de grands donateurs. À un moment, un portable sonne. C’est le président élu, qui le remercie de son soutien.

Le contraire d’un maudit

Je me souviens du jour où, avec Pierre Nora et Claude Lanzmann, nous étions venus le filmer pour ARTE. Je ne sais pas ce qu’est devenu ce documentaire. Nous avions tourné, il me semble, dans la bibliothèque d’un club d’un quartier chic de Londres. Lanzmann s’agaçait de l’autorité de Rushdie. Nora s’agaçait de l’agacement de son vieux copain et ancien condisciple. Il semblait vouloir le protéger contre lui-même et contre sa tendance bien connue à la querelle mimétique. Salman s’amusait du spectacle. Il aimait l’idée de ces vieux khâgneux qu’il admirait et qui semblaient poursuivre une éternelle conversation d’adolescents.

Je me souviens d’une journée, sur une plage d’Antibes, douceur de vivre, soleil de midi, chaleur qui tremble à perte de vue, amour du cinéma et des actrices, Le Mépris, à qui appartient vraiment la maison Malaparte de Capri ? Il ne désirait rien tant, ce jour-là, que de parvenir à tourner, un jour, un remake de James Bond 007 contre Docteur No ou de Bons Baisers de Russie. Grand vivant. Appétit d’exister et de multiplier les existences. Le contraire d’un maudit.

Je me souviens de nos dîners en solitaire, ces dernières années, à New York. Il ne voulait plus entendre parler, du tout, de la fatwa. Nous devisions de Rabelais, du Chant de Salomon de Toni Morrison, de Laurence Sterne, de George Eliot où il n’arrivait décidément pas à entrer, de Naipaul dont la mort le laissait inconsolable. La littérature avant toutes choses. L’envie, face au fracas du monde, de dire : « S’il vous plaît, baissez le son ». Ce qui ne l’empêcha évidemment pas, il y a quelques semaines, au tout début de la guerre d’Ukraine, de considérer qu’il y avait urgence, d’écrire avec moi un appel aux sanctions contre la Russie et d’aider à ce que le cosignent Sting et Sean Penn.

Héroïsme tranquille

Ce qui m’a frappé, pendant toutes ces années, c’est l’héroïsme tranquille de mon ami.

Il voyait bien qu’il ne se passait guère d’année sans qu’une grande capitale expulse un faux diplomate iranien en lien avec sa fatwa.

Il savait qu’il se trouvait encore des prétendus amis des peuples musulmans pour, malgré Charlie Hebdo, l’Hyper Cacher, le reste, estimer qu’on n’a jamais raison d’offenser la foi d’autrui et que, s’il arrive malheur à l’offenseur, c’est lui qui l’a cherché.

Et il n’y avait pas une conférence du type de celle qu’il s’apprêtait à donner, en ce terrible 12 août, au centre culturel de Chautauqua, où il échappait à l’éternelle question de savoir s’il regrettait, sachant tout ce qu’il sait désormais, ces Versets Sataniques écrits dans la fougue de la jeunesse et qui le suivent comme une malédiction.

Mais il n’avait pas peur, non.

Tout au plus concédait-il disposer d’un radar qui l’avertissait, parfois, de la possibilité d’un danger.

Et, une fois seulement, mais il y a longtemps, je l’entendis faire une remarque étrange sur le talent qu’ont les maîtres tueurs de ruminer leur vengeance et de l’exécuter froidement, sans laisser trop de traces, quand on s’y attend le moins – Mussolini et les frères Rosselli ; Staline et Ignace Reiss ; Poutine et les premiers oligarques empoisonnés ; un jour, un Ramón Mercader chiite que nul n’aura vu venir ?

Bernard-Henri Lévy et Salman Rushdie à Paris. Photo : Jacques Lange/Paris Match.

Un immortel, à la fois Dickens, Balzac et Tagore

Je pense qu’il en était là, vendredi, quand a bondi face à lui l’homme chargé de l’exécuter.

En sera-t-il toujours là quand il sera sorti de cet enfer de douleur où je l’imagine se débattant ?

L’artiste en lui continuera de croire, je suppose, que la vie est un songe, plein de fureur et de bruit, écrit par un idiot.

Et il ne s’étonnera pas que, si l’on a su, dans une seule vie, être à la fois Dickens, Balzac et Tagore, on est, à la fin, immortel.

Mais il lira l’article de Iran, le journal quasi officiel du régime, qui, tandis qu’il luttait contre la mort, se réjouissait que « le cou du diable » ait été « frappé par un rasoir ».

Il verra le quotidien ultraconservateur Kayhan bénissant, alors qu’il souffrait le martyre, « la main de celui qui a déchiré le cou de l’ennemi de Dieu avec un couteau. ».

Il apprendra, aussi, que l’homme qui a voulu le tuer est un fanatique du Hezbollah libanais, à la solde de l’Iran.

Et il devra se résoudre à l’idée, qui lui a toujours fait si peur, d’être cet homme symbole, otage dans la guerre des mondes et dont la mort, la vie, sont, qu’il le veuille ou non, l’affaire de tous.

Un devoir et un Nobel

C’est pourquoi, aux autres, à ceux qui n’ont pas su le protéger, à nous, incombe un devoir.

Cet écrivain puni pour avoir écrit, depuis trente ans, des textes libres et qui rendent libre mérite réparation.

Cet acte de terreur absolue qui, par-delà son corps poignardé et ses livres, est une terreur sur tous les livres et tous les mots du monde, appelle une riposte éclatante.

Les États auront la leur.

La communauté internationale devra signifier aux commanditaires du crime qu’il y a un avant et un après la nouvelle affaire Salman Rushdie.

Mais ses amis, ses pairs, ceux dont l’opinion compte, la presse, ont entre les mains une décision.

Faire que soit décernée à l’auteur des Versets Sataniques la plus haute des distinctions littéraires.

Faire qu’au nom de tous les siens et en son nom propre, lui soit décerné, cette année, c’est-à-dire dans quelques semaines, le Prix Nobel de littérature.

Je n’imagine pas un autre écrivain avoir l’outrecuidance, aujourd’hui, de le mériter plus que lui.

La campagne commence maintenant.

 

[Source : laregledujeu.org]

Tras la aberración del gobierno de Gadafi y la agitación que siguió a su derrocamiento, la comunidad internacional sigue buscando soluciones democráticas al atolladero de Libia.

Libia busca restaurar su antigua comunidad judía

Detalle del exterior de la principal sinagoga de Trípoli, Libia.

Escrito por Samuel Zarrugh

La comunidad judía libia era una de las más antiguas del mundo; algunos historiadores sitúan el asentamiento judío en el país en el siglo IV a.C., y la primera sinagoga de Sirte se construyó en el año 10 a.C. En 1911, había unos 21.000 judíos en el país, principalmente en Trípoli, en el noroeste, y un número menor en Bengasi, en el nordeste. En 1941, el 25% de la población de Trípoli seguía siendo judía y había 44 sinagogas en la ciudad. Al final de la Segunda Guerra Mundial, los judíos libios eran más de 30.000.

Sin embargo, en 2002, cuando se informó de la muerte del último judío superviviente en Libia, la comunidad parecía haber desaparecido.

Durante la Segunda Guerra Mundial y posteriormente bajo el dictador Muammar Gaddafi, que tomó el poder en un golpe de estado y gobernó Libia desde 1969 hasta su muerte en 2011, la comunidad judía sufrió atrozmente.

Durante la Segunda Guerra Mundial, los judíos libios fueron castigados por los italianos por su supuesta “colaboración” con los británicos, y en 1942 habían deportado a 2.584 judíos a Jado, un campo situado a 235 kilómetros al sur de Trípoli. Al menos 560 de los deportados murieron de diversas dolencias, principalmente de hambre y fiebre tifoidea.

El periodo de interludio, entre el final de la ocupación italiana y el golpe de estado de 1969, supuso un respiro para los judíos de Libia. Trípoli y Jado fueron liberados por los británicos en enero de 1943, y el último grupo de prisioneros abandonó el campo ese mismo año. Tras la liberación, se derogaron las leyes raciales contra los judíos.

La constitución de 1951, bajo la cual Libia se regía sobre la base de una monarquía constitucional con un sistema de gobierno representativo, ofrecía amplias libertades políticas y sociales a su pueblo. El artículo 11 garantizaba la igualdad ante la ley sin distinción de religión; el artículo 12 garantizaba la libertad personal y la igualdad de protección de la ley; y el artículo 21 garantizaba la libertad de conciencia y de religión, a pesar de que el Islam era la religión oficial del Estado. La monarquía actuó como símbolo de unidad, reforzada por el popular rey Idris.

El agradecimiento desempeña un papel importante en la fe judía, y los judíos no han olvidado el respeto que el rey Idris mostró hacia todas las confesiones, asegurándoles su plena libertad en su Libia independiente.

Por ello, no es de extrañar que exista un claro apoyo a la restauración de la Constitución de 1951, como demuestran los movimientos populares que surgen legítimamente a favor de ella en Libia. También existe un amplio apoyo a la resurrección de la constitución entre las minorías en el exilio, incluida la comunidad judía libia.

Desgraciadamente, la constitución de 1951 fue eliminada cuando Gadafi tomó el poder en 1969. Las libertades personales y los derechos de propiedad se dejaron de lado cuando su gobierno confiscó todas las propiedades judías y prohibió la emigración de los judíos. A pesar de las promesas de que los judíos recibirían bonos del gobierno, nunca se produjo ninguna compensación. En 2004, la Organización para los Judíos Libios presentó una demanda para obtener una indemnización por los bienes confiscados durante el gobierno de Gadafi. El valor estimado de los bienes robados ascendía a más de 100 millones de libras.

Además de despojar a la comunidad de sus medios de vida, Gadafi promulgó un vehemente antisemitismo, alentando a los libios a considerar a los judíos como responsables de los males del mundo.

No es de extrañar entonces que, después de más de 40 años de condicionamiento pernicioso de los libios por parte de Gadafi, cuando David Gerbi, un miembro de la comunidad judía libia que había sido obligado a marcharse, regresó a su patria en 2011, fue obligado a salir de una sinagoga en Trípoli y recibido con manifestantes que sostenían carteles que decían: “No hay lugar para los judíos en Libia.”

Como explicó Gerbi, “lo que Gadafi intentó hacer es eliminar nuestra memoria. Eliminar nuestra increíble lengua. Eliminar todo rastro del pueblo judío”.

En eso tuvo un gran éxito, ya que una minoría judía antes considerable se redujo a cero en el espacio de menos de un siglo.

Mientras Gadafi pretendía que Libia fuera un Estado árabe musulmán homogéneo, en detrimento de todos, la constitución de 1951 y la monarquía hereditaria que preveía gozaban de un amplio apoyo, y siguen haciéndolo en la actualidad. Su restablecimiento proporcionaría garantías a las minorías que sufrieron bajo el mandato de Gadafi, nada menos que los judíos de Libia.

Los políticos libios también han manifestado su apoyo a la idea. Mohamed Abdelaziz, que fue ministro de Asuntos Exteriores durante un breve periodo de 2013 a 2014, ha pedido anteriormente el regreso del gobierno de un monarca simbólico, prometiendo “encargarse” de hacer campaña por ello. Como bien argumentó, esa sería la mejor solución para restaurar la seguridad y la estabilidad en Libia.

El restablecimiento de la Constitución de 1951 no solo mejoraría la estabilidad interna de Libia, sino que también ayudaría a sus relaciones exteriores, especialmente con Israel.

Israel ha demostrado una impresionante astucia diplomática para cooperar con las monarquías regionales, como demuestran los esfuerzos de normalización con los EAU y otros países en los últimos dos años.

Tras la aberración del gobierno de Gadafi y la agitación que siguió a su derrocamiento, la comunidad internacional sigue buscando soluciones democráticas al atolladero de Libia.

Pero está claro que la reimposición de la Constitución de 1951 en Libia tendría un efecto transformador en el país y en la región en general.

No solo ayudaría a una nación atribulada y dividida a avanzar como una sola, sino que también permitiría a los miembros de la antigua e histórica comunidad judía de Libia regresar a su legítima patria.

Sobre el autor: Samuel Zarrugh es originario de Bengasi, Libia, y fue presidente de la comunidad judía de Livorno, Italia, durante 13 años.

 

[Foto: Abdel Magid al-Fergany/AP – fuente: http://www.israelnoticias.com]

 

A pesar de ser reconocidos por el Estado, en México los pueblos indígenas continúan enfrentando invisibilización, afirma investigador de la UNAM Orlando Aragón.

A pesar de que el Instituto Nacional de Estadística y Geografía (INEGI) de México ha reconocido la existencia de pueblos indígenas, continúan siendo invisibilizados por el gobierno y la sociedad.

El último censo realizado en el 2010 por el INEGI indicó que en el país existen comunidades indígenas principalmente en la zona sur, oriente y sureste: Oaxaca, Chiapas, Veracruz, Puebla y Yucatán.

En estos territorios se concentran el 61.09 por cierto de la población (6 millones) que hablan lenguas originarias. Del total, 50.9 % son mujeres y 49.1 % hombres.

Cabe recordar que la Organización de Naciones Unidas (ONU) señala que en el mundo existen 476 millones de personas reconocidas como indígenas viviendo en 90 países, lo que representa el 5 % de la población mundial.

Pero también son uno los grupos más vulnerables: del total, el 15 por ciento son pobres y/o pobres extremos.

Orlando Aragón Andrade, investigador de la Escuela Nacional de Estudios Superiores de la Universidad Autónoma de México (UNAM), señala que en la actualidad esta población sigue sufriendo estragos de discriminación y negación de su existencia.

Uno de los factores que borra la identidad de los pueblos indígenas son los proyectos extractivos que amenazan y desplazan no solo a las comunidades en México, sino también de Latinoamérica y África.

“En todos lados nos encontramos los megaproyectos que amenazan no solo la identidad cultural de los pueblos, sino la salud, la seguridad de las personas y su territorio”, explica el investigador.

La invisibilización de los pueblos: una herencia colonial

Aragón explica que esta situación no es nueva y que es más bien un arraigo histórico que persiste hasta la actualidad.

“(…) Existe una serie de iniciativas, políticas, derechos de las comunidades y pueblos indígenas que han sido reconocidos en distintos ámbitos con una lógica e inercia de carácter colonial desde la fundación de los Estados latinoamericanos (…)”

A pesar de las batallas ganadas de los pueblos indígenas, las instituciones y el gobierno priorizan los intereses de las grandes compañías frente al bienestar de las comunidades.

Un ejemplo es cuando el Estado favorece el “capital transnacional” frente al  bienestar de las comunidades situadas en el territorio.

Estas prácticas de herencia colonial no solo se reproducen desde el Estado, sino que finalmente son perpetuadas dentro de la sociedad que discrimina a las poblaciones indígenas.

“Sería bueno enterarnos de nuestra realidad y entorno inmediato, dándonos cuenta de que somos una sociedad mucho más diversa y plural, conocerlos, no prejuzgarlos y alejarnos de las ideas más folclorizadas promovidas por el gobierno”, concluye Aragón.

 

 

[Foto: Gobierno de México – fuente: http://www.servindi.org]