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Como país vizinho colocou ditadores no banco dos réus – e reconstruiu a memória coletiva. O exemplo de amor na política das Mães de Maio. Por que acertar contas com o passado é crucial para impedir novos ataques à democracia?

Escrito por Nora Merlin em entrevista a Rosângela Ribeiro Gil

Argentina, 1985, de Santiago Mitre, é um filme obrigatório diante dos tempos distópicos brasileiros. Mostra o que não fizemos em solo brasileiro. O luto coletivo (ainda) não vivido O nunca mais de fato e de direito que por construir. Um pedaço, grande aliás, que ainda falta na nossa democracia. Explica-se: é que em certa “bolha” digital, num misto de chororô e transe, exulta-se, numa adoração psicótica e alucinógena, a volta da intervenção militar de 1964. Precisamos entender como chegamos a isso – e como seguir daqui pra frente. O processo de justiça e reparação argentino – e como ele foi crucial para bloquear novas ameaças de golpismo, como as que o Brasil enfrenta – pode apontar algumas pistas para isso, então troquei impressões com a psicanalista e cientista política Nora Merlin, professora de universidades argentinas.

Afinal, o que calamos sobre o passado nos diz muito sobre o presente – e há uma sucessão de fatos que mostra que ainda não acertamos nossas contas com a história. Em 1979, o Brasil aprovou a lei de anistia, igualando civis perseguidos e militares envolvidos em crimes de sequestro, tortura e desaparecimento de vítimas. Ainda temos inúmeros logradouros e ruas com nomes de militares que integraram o regime de 1964. A nossa Comissão Nacional da Verdade (CNV) só conseguiu ser constituída em 2011, pela presidenta Dilma Rousseff – ou seja, 26 anos depois do fim da ditadura; 377 nomes entre os autores de graves violações aos direitos humanos foram apontados e a maioria deles não foi julgada, muito menos sentenciada. Reiteradamente, nosso presidente da República ainda em exercício elogia torturadores de 1964 e até de outros países, como Alfredo Stroessner, do Paraguai, e Augusto Pinochet, do Chile. E, neste mês, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), disse que o Brasil não poderia repetir o que fez a Argentina, que ficou presa na vingança, no ódio e olhava o passado pelo retrovisor.

Já a Argentina, como mostra o filme, colocou suas três primeiras juntas militares no banco dos réus: Jorge Videla, Emilio Massera, Roberto Viola, Armando Lambruschini, Orlando Agosti, Omar Graffigna, Leopoldo Galtieri, Jorge Anaya e Basilio Lami Dozo. O tribunal foi civil e não militar, em nove meses de julgamento, 530 horas de audiência, 839 testemunhas, 709 casos, seis juízes e dois promotores. A sentença, pronunciada em 9/12/1985, condenou Videla e Massera à prisão perpétua com destituição; Viola, a 17 anos de prisão; Lambruschini a 8 anos de prisão e Agosti a 4 anos e 6 meses de prisão, todos destituídos. Graffigna, Galtieri, Lami Dozo e Anaya foram absolvidos.

Isso só foi possível porque a sociedade argentina se organizou, se uniu e se mobilizou em diversas frentes de luta exigindo verdade, memória e justiça. Os argentinos entenderam que a sociedade não poderia prosseguir ou se reconstruir em cima de escombros, cadáveres, desaparecidos e roubos de crianças.

Ato simbólico “Proceda”, que foi a determinação do presidente Néstor Kirchner de retirar quadros de militares genocidas de Clube Militar.

Além disso, no país vizinho a vigília em defesa dos direitos humanos é constante. Em 24/3/2004, por exemplo, o então presidente Néstor Kirchner deu a ordem – que ficou conhecida como Proceda – para a retirada dos quadros dos ditadores Rafael Videla e Reynaldo Bignone da Escola Militar de El Palomar, proferindo: “Senhores integrantes do Colégio Militar da Nação e das Forças Armadas, senhores generais e oficiais superiores: nunca mais, nunca mais, nunca mais a ordem institucional na Argentina terá que ser subvertida. É o povo argentino pelo voto e a decisão do mesmo, quem decide o destino da Argentina; vamos definitivamente terminar com as mentes iluminadas e os salvadores messiânicos que apenas trazem dor e sangue aos argentinos.”

Como disse Julio César Strassera, o promotor principal no caso contra os crimes da ditadura que no cinema é vivido por Ricardo Darín: “Senhores juízes: quero renunciar expressamente a qualquer pretensão de originalidade para encerrar esta requisitória. Quero usar uma frase que não me pertence, porque pertence já a todo o povo argentino. Senhores juízes: nunca más!”.

O que significou o julgamento de 1985 para a Argentina?

Foi uma ação fundamental para a história da democracia argentina. Até aquele momento os militares terroristas, golpistas, da pior ditadura de todas da Argentina, que se constituiu no Terrorismo de Estado de 1976, pretendiam ser julgados pela justiça militar. Importante esclarecer que a Argentina, ao longo de sua história republicana, sofreu muitos golpes de Estado com períodos mais curtos. Mas, sem dúvida, o golpe de 1976 foi o pior porque foi diretamente um terrorismo de Estado, sanguinário. Todo esse genocídio cometido contra o povo argentino pelas Forças Armadas se deu para tornar possível a implantação do projeto econômico neoliberal.

O julgamento dos militares, em 1985, foi uma construção da sociedade civil argentina, representada pelos familiares dos desaparecidos, pelas Mães e Avós da Praça de Maio, pelos artistas, pela juventude. Todos pediam verdade, memória e justiça.

O então presidente Raúl Alfonsín, por decreto, determinou que a hierarquia da Junta Militar, composta pelas três armas das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica), seria julgada pela justiça civil. Foi um ato inédito e grandioso para a democracia. Foi um impacto enorme em toda a sociedade ver a justiça civil julgando, pela primeira vez, os militares terroristas. Posso dizer que o julgamento de 1985 significou um antes e um depois na história da democracia argentina, que foi refundada baseada na defesa intransigente dos direitos humanos.

O julgamento significou, além da punição aos culpados, a criação, pela via democrática e judicial, de um pacto simbólico que se pode resumir pelas palavras “Nunca mais”. Nunca mais ódio. Nunca mais Terrorismo de Estado.

Importante acentuar que o julgamento dos militares genocidas é um exemplo para o mundo em relação à política em defesa dos direitos humanos e contra o Terrorismo de Estado, considerando que o desaparecimento de crianças não é um crime que prescreve. Nenhum país teve essa consagração em defesa da memória, da verdade e da justiça. É um fato que continua inédito e único no mundo.

Um político, dentro de uma instituição do Estado de Direito na Argentina, poderia fazer apologia à ditadura, à tortura e elogio a qualquer torturador?

Esse ato político e jurídico sedimentou, nos argentinos, o dever de defender a vida e os direitos humanos de todos. Por isso, ninguém se atreve, nenhum político, jornalista, funcionário público, a fazer apologia à ditadura ou elogiar um torturador.

Todavia, estamos vendo crescer vozes do fascismo e da extrema-direita em todo o mundo. Por isso, vemos alguns atores sociais falando abertamente na necessidade de uma “mão dura”. Na Argentina, os que se atrevem a fazer isso são questionados pela sociedade de forma muito incisiva. Ou seja, temos um pacto simbólico ainda muito forte contra o discurso que atente contra os direitos humanos.

O julgamento acontece dois anos após o fim da ditadura militar na Argentina, em 1983. Antes, todavia, uma das primeiras medidas do presidente eleito Raúl Alfonsín foi a criação da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), em 15 de dezembro de 1983.

A criação da Conadep teve como objetivo investigar as violações aos direitos humanos. A comissão reuniu pessoas probas, ilustres, confiáveis e dignas da cultura, periodistas, teóricos, escritores, representantes religiosos. Pessoas eticamente indiscutíveis. Ela foi presidida pelo escritor Ernesto Sabato.

A comissão investigou, por quase 10 meses, os crimes dos militares. Ela percorreu todo o país, buscando testemunhos dos sobreviventes, dos familiares e também dos próprios repressores. A comissão também recebeu muitas denúncias sobre centros ilegais de detenção e tortura. Todo esse trabalho, com testemunhos e provas, foi usado também no julgamento de 1985.

O relatório da Conadep foi entregue ao presidente Alfonsín, em 20 de setembro de 1984, e recebeu o nome de “Nunca mais” [Nunca más], que o promotor Julio César Strassera cita em sua alegação final contra os militares. O “Nunca mais” é a refundação simbólica da nossa democracia. Nunca mais violações dos direitos humanos.

Qual a importância da recuperação da memória para uma sociedade? O quanto podemos debitar à falta dessa memória institucionalizada, vamos definir assim, ao rompimento entre passado e presente numa sociedade?

A investigação da Conadep só foi possível porque a sociedade argentina exigiu. Foram ações dos movimentos sociais e de direitos humanos, da Assembleia Permanente pelos Direitos Humanos, do movimento das Mães e das Avós da Praça de Maio, dos filhos buscando seus pais.

Para que haja memória é necessário elaborar um trauma coletivo. Na Argentina, ele se deu com o processo contra o Terrorismo Estado de 1976, quando todo tipo de violação aos direitos humanos foi levantado, provado e julgado.

Terrorismo que criou “os desaparecidos”, crime que surgiu no tempo de [Jorge Rafael] Videla, entre 1976 e 1981. Um crime terrível, porque não se está nem vivo nem morto. Depois toda a tortura realizada nos campos de concentração, que eram centros clandestinos, que havia em todo o país. Roubos de bebês e de filhos.

A memória é fundamental porque os direitos humanos não estão assegurados totalmente, é uma luta permanente, inclusive para as novas gerações. Na Argentina, todo 24 de março celebramos o Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça, para evitar a repetição desse evento traumático.

Graças aos julgamentos temos evitado qualquer ação violenta das Forças Armadas. Neste momento, as Forças Armadas não constituem um perigo para a democracia argentina e não são consideradas como inimigas do povo. Sem vingança, sem ódio e com justiça temos criado um vínculo institucional satisfatório com essas instituições, que compõem o Estado de Direito. Na pandemia, se colocaram a serviço da comunidade com algumas ações importantes, como distribuição de máscara facial, mantimentos e remédios. Mas isso só é possível porque ocorreu o julgamento civil.

Qual foi o papel das mulheres, reunidas no movimento “Mães da Praça de Maio” e das “Avós da Praça de Maio”?

As mães dos desaparecidos eram donas de casa sem formação política, mas elas se transformaram num verdadeiro agente político com a pergunta: onde está meu filho. Elas ajudaram a criar essas demandas por verdade, memória e justiça. Essas Mães e Avós se caracterizaram por terem incluído amor na luta política. Elas não saíram a disseminar o ódio ou a matar os militares. Elas davam e dão voltas ao redor da pirâmide da Praça de Maio, por isso é um sítio histórico de memória de todo o povo argentino. Todas as quintas-feiras até os dias de hoje elas dão volta ao redor da pirâmide pedindo a aparição, com vida, dos seus filhos. [Em 1987, o governo Raúl Alfonsín criou o Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), que guarda a informação genética das famílias que buscam seus parentes roubados.]

As avós também foram fundamentais nessa luta política que culminou com o julgamento de 1985. Elas pedem pela aparição e a busca de seus netos, que foram roubados e vendidos, em alguns casos, pelos militares.

Muitos netos foram recuperados com essas ações. Inclusive, é a partir da luta das avós que se criou o Dia Nacional do Direito à Identidade [celebrado em 22 de outubro]. Toda pessoa tem direito a conhecer a sua identidade.

Cada neto restituído é uma festa coletiva de toda a Argentina. É um pedaço da história do povo argentino que é recuperado.

As Mães e Avós geraram o que conhecemos como memória coletiva. Quer dizer, a dor que significou o desaparecimento de um filho e de um neto se tornou uma dor coletiva, uma dor socializada. [O trabalho do BNDG e das instituições ligadas a ele conseguiram resgatar, até hoje, 130 netos roubados durante a ditadura. Em junho de 2019, Matías Darroux Mijalchuk foi o último. Calcula-se que cerca de 500 bebês foram sequestrados pelos militares. Com informações do jornal Brasil de Fato, de 12 de junho de 2022]

Pelo menos em três ocasiões, tentou-se anular ou desqualificar o veredicto do julgamento: no próprio governo de Raúl Alfonsín, depois com Carlos Menem. Mais recentemente, em maio de 2017, no governo de Mauricio Macri, a Argentina mobilizou-se contra a sentença da Corte Suprema que apontava para a redução de penas e até para a libertação de centenas de militares condenados por crimes de lesa humanidade durante a última ditadura entre 1976 e 1983.

Em 1987, o presidente Raúl Alfonsín, pressionado, assina o decreto denominado “Obediência devida”, que significava impunidade a alguns membros das Forças Armadas que estavam subordinados aos seus superiores, por isso não eram puníveis por terem agido em virtude de obediência devida. Mas antes, em 1986, houve a chamada Lei de Ponto Final [23.492], que estabelecia a paralisação dos processos judiciários contra os autores das detenções ilegais, torturas e assassinatos que ocorreram na ditadura militar.

Esse retrocesso continuou com a presidência de Carlos Menem, que se dizia peronista, mas que, na realidade, trazia um projeto neoliberal. Foi a segunda onda neoliberal na Argentina, depois dos militares. Em 1989 e 1990, ele declara a anistia que são leis de impunidade, e liberou os criminosos condenados.

Em 2003, quando assume Néstor Kirchner – iniciando o período de 12 anos de kirchnerismo, entre as presidências de Néstor e os dois governos de Cristina Kirchner –, ele retoma ativamente a questão dos direitos humanos, retoma os julgamentos, reabre as investigações e revoga a anistia aos genocidas.

Néstor Kirchner pede perdão, em nome do Estado, ao povo argentino pelos trinta mil desaparecidos.

O que foi a Escola de Mecânica da Armada (Esma) durante a ditadura militar argentina, e o que é a Esma hoje para o povo argentino?

Esta escola de atividades militares foi transformada, no período do terrorismo de Estado, em centro clandestino de detenção, tortura e desaparecimento de pessoas. Graças ao governo de Néstor Kirchner o espaço se transforma num patrimônio de memória e direitos humanos. Nele, são realizadas atividades culturais diversas, como recitais, cinemas, mostras permanentes e itinerantes. Assim como se recupera a Esma, Néstor Kirchner recupera outros centros clandestinos de detenção e tortura e dá novas funções, principalmente as culturais.

Quais são os valores sociais, políticos e humanos que emergem na sociedade argentina com o julgamento de 1985?

O principal está na frase “Nunca mais”, também proferida na alegação final do promotor Strassera. Ela representa um pacto social. Ela tem um valor simbólico de refundação da democracia no país. Nunca mais, golpe de Estado. Nunca mais, terrorismo de Estado. Nunca mais fazer desaparecer um dissidente político.

No tempo atual, esse pacto precisa fazer frente ao discurso de ódio e do avanço do neofascismo. Há pouco tempo, vimos a tentativa de assassinato da maior líder popular da Argentina, a vice-presidente Cristina Kirchner, que já foi nossa presidente.

Como seguimos nos tempos atuais?

Hoje, são novos métodos de guerras políticas que desestabilizam governos, que tentam colonizar a população com discursos de ódio. Na sua essência, estão a favor da morte.

Creio que há de se trabalhar uma lei que regulamente as corporações de comunicação audiovisual e as empresas de tecnologia. E isso não é contrário à liberdade de expressão, porque liberdade de expressão não implica liberdade de ódio. A vida em sociedade requer um pacto social, em que todos renunciam.

Parece-me que o caminho para a desconstrução do discurso de ódio já foi criado e mostrado pelas Mães e Avós da Praça de Maio e que os feminismos nos ensinam, que é o amor político que articula as diferenças.

Há um ovo de serpente porque não se terminou de julgar os genocidas do terrorismo de 1976, porque temos uma justiça cúmplice do poder neoliberal, que vai encaminhando de forma muito lenta as causas e que precisa julgar grupos econômicos e da própria sociedade civil que colaboraram com o genocídio dos militares.

Esse grupo de poder que está concentrado nos meios de comunicação, no poder judiciário e nas corporações econômicas não deixa os governos populares da Argentina trabalharem. Há uma guerra judicial, como o lawfare, que atenta contra a democracia e que é cúmplice dos que não aceitam a política como pluralidade de vozes.

Por último, precisamos atentar-nos principalmente os povos da América Latina, para o poder paralelo que o Poder Judiciário vem projetando, no sentido de transformar-se num “braço” do neoliberalismo e de apoiar vozes contrárias ao Estado de direito, com forte inclinação ao golpismo.

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

Escrito por Nicole De March

Um mês após a vitória eleitoral de Luiz Inácio da Silva (PT) para o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda há manifestações ao redor do país contra os resultados das urnas.  O movimento é composto por golpistas de verde e amarelo que se aglomeram na frente de quartéis e QGs do Exército e bloqueiam rodovias.

Nas redes sociais circulam vídeos da manifestação com cenas no mínimo curiosas mostrando como a desinformação que essas pessoas consomem em suas redes sociais bolsonaristas as isolam da realidade. Um dos vídeos mostra os manifestantes comemorando a prisão de Alexandre de Moraes, ministro do STF, que não ocorreu.

O descolamento da realidade é tão grande que grupos bolsonaristas radicalizados acreditaram na ‘‘notícia’’ falsa de que a intervenção militar já tinha sido decretada. Vídeos como esse têm circulado nas redes, com correntes de oração, pessoas marchando, falando palavras de ordem e até pedindo ‘socorro’ a ETs com luzes de celular. Aparentemente, são pessoas que vivem numa realidade paralela que é guiada por suas redes sociais bolsonaristas.

A antropóloga, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Santa Catarina e autora do livro O mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital, Letícia Cesarino, comenta que todo público extremista (como esse que tem certeza de que as eleições foram fraudadas) é conspiracionista, já que é a Teoria da Conspiração que proporciona esse desgarrar da sociedade principal. Essas pessoas já estavam deslocadas e foram facilmente capturadas pelas teorias da conspiração, como uma verdade que estava escondida, colocando-as num lugar mais central do que o que tinham na sociedade.

A professora explica que o processo de criação dessa realidade paralela precisa de mediadores midiáticos e sociológicos. No caso dos bolsonaristas radicalizados, os mediadores midiáticos que guiam a sociedade, como a imprensa, academia e instituições, são desacreditados e substituídos pelos conteúdos compartilhados nos grupos no Whatsapp e Telegram, e os mediadores sociológicos são os outros bolsonaristas.

‘‘Esse fenômeno é muito característico de seita, quando a pessoa corta laços com a família e refaz com os membros da seita. Os ‘Patriotas’, como se autodenominam, acabam confiando entre si e em suas mídias. Você cria essa sensação de experiência de simultaneidade entre pessoas desconhecidas’’, diz Cesarino.

A pesquisadora adiciona que em seitas tradicionais é necessário sair fisicamente da sociedade, mas no caso dos patriotas é um recorte cognitivo.

Dissonância Cognitiva

Em 1957, o psicólogo social Leon Festinger introduziu o conceito de dissonância cognitiva, que se refere ao mal-estar que a pessoa sente quando se depara com evidências que contradizem crenças preestabelecidas, quando tem duas ideias psicologicamente inconsistentes.

Festinger observou o fenômeno quando ele e seus colegas se infiltraram na seita chamada The Seekers, que acreditava que o mundo seria destruído por um dilúvio que ocorreria antes do amanhecer do dia 21 de dezembro de 1954. O objetivo dos pesquisadores era estudar as cognições e reações quando a profecia de fim do mundo falhasse. A líder dessa seita dizia receber mensagens de extraterrestres do planeta Clarion e que esses iriam salvá-los antes da inundação da Terra. Quando nem o dilúvio e nem o resgate aconteceram, os membros não abandonaram suas crenças e acabaram buscando explicações para a sua não realização. A saída da líder foi alegar que tinha recebido uma mensagem psicografada que dizia que os membros do grupo tinham emanado tanta luz que Deus resolveu salvar a Terra. Os membros aceitaram e continuaram propagando a ideologia da seita.

O mesmo tipo de comportamento tem aparecido nas manifestações: em vários momentos desde o dia 30 de outubro os manifestantes bolsonaristas acreditaram que se ficassem 72 horas nas manifestações ocorreria a intervenção militar e o resultado das eleições seriam invalidados, por exemplo. Em todas as vezes que esse prazo expirou, os bolsonaristas seguiram na crença, interpretaram de alguma maneira e continuaram com o mesmo padrão.

Ricardo Lins Horta, professor de Ciências Comportamentais (ENAP), explica que o fenômeno de seitas é bem conhecido, mas que agora o que os pesquisadores estão tentando entender é o que está presente na arquitetura das redes sociais que potencializa a capacidade de mobilização e de arregimentação desses movimentos de crenças extremistas como o dos patriotas’.

Arquitetura das Redes 

Na pesquisa “Democracia Digital – Análise dos ecossistemas de desinformação no Telegram durante o processo eleitoral brasileiro de 2022”, realizada sob a coordenação de Cesarino e dos pesquisadores Leonardo Nascimento (ICTI/PPGCS/LABHD/UFBA) e Paulo Fonseca (ICTI/LABHD/UFBA), foram analisados grupos e canais de cunho político no Telegram. O que se observou foi que o YouTube era a principal fonte dos links compartilhados nesses grupos e que dentre esses links os canais Jovem Pan e Brasil Paralelo tiveram destaque. A professora comenta que canais como esses e influenciadores digitais muitas vezes não falam explicitamente sobre a teorias da conspiração nos vídeos, mas instalam a dúvida, por exemplo, quando questionam sobre a fraude nas urnas. Outro recurso é camuflar a linguagem, como, por exemplo, quando falam das ‘‘quatro linhas’’ da Constituição querendo referir-se ao artigo 142 que supostamente legitimaria a intervenção militar.

Os grupos no Telegram ampliam a sensação de identificação social e de pertencimento, uma vez que a pessoa se vê num grande grupo que compartilha das mesmas crenças.

Ricardo Horta salienta que ações como as do ‘patriotas’ podem parecer engraçadas, mas que é preciso lembrar que esses bolsonaristas são imbuídos da crença real de que o país está ameaçado. Eles acreditam que o governo do Lula pode violar a inocência das crianças, que quer implantar pautas de ideologia de gênero e banheiros unissex nas escolas, por exemplo.

‘‘As pessoas só são motivadas a ir para rua, pegar ônibus para outra cidade e ficar na chuva porque elas acreditam que valores muito caros e importantes a elas estão sendo ameaçados por pessoas muito mal-intencionadas’’, diz o professor.

A Casa Galileia, organização que atua com pesquisas e análise de dados de grupos evangélicos, cristão e católico monitorou os tipos de conteúdos presentes que circulam nas redes sociais evangélicas e constatou que nos dias 17, 18 e 19 de setembro e as pautas mais presentes eram guerra espiritual e ideologia de gênero.

As redes sociais permitiram o compartilhamento ao vivo de pânicos morais, teorias da conspiração e lendas urbanas, fazendo com que a pessoa se esteja a sentir diariamente ameaçada e com medo. O professor salienta que conteúdos de pânico moral não são novos, mas os smartphones e as redes sociais potencializam o compartilhamento desse tipo de conteúdo.

‘‘Boa parte das vítimas desses conteúdos são os próprios seguidores. Essas pessoas acham que quando Lula assumir a presidência o Brasil vai acabar, elas realmente pensam que vai ter gente entrando na sua casa para roubar sua comida e acreditam que as pessoas vão comer carne de cachorro. Elas estão no regime de terror’’, comenta Lins Horta.

O grande desafio é desradicalizar essas pessoas; a antropóloga acredita que a única saída é afastar a pessoa da sede da “seita”; nesse caso, seria desintoxicá-la desses meios digitais.

‘‘Para você ter alguma chance de trazer essas pessoas de volta, você tem que as tirar do ambiente da seita. Você teria que mexer na própria estrutura de distribuição do algoritmo de conteúdo. Uma coisa que eu acho que pode ser feita também é fazer com que essas pessoas vejam o tamanho que têm, que elas se consigam ver como minoria sectária’’, diz Cesarino. A antropóloga brinca que seria necessário fazer um controle parental reverso, onde se monitora os conteúdos utilizados pelos adultos, porém a professora não é otimista, não acredita que esses grupos vão sumir, mas que precisam ser colocados na margem, serem empurrados para o ‘‘subterrâneo’’ da internet.

A professora diz que nesse primeiro momento de transição de governo é necessária a moderação e banimentos dos grupos extremistas para acontecer esse deslocamento para a margem da sociedade, mas que a médio prazo não é a melhor solução porque eles têm novas formas de reorganizar-se.

O professor Ricardo comenta que podemos obter ‘‘pistas’’ sobre as intervenções eficazes para a desradicalização da publicação recente do maior experimento social já realizado que testou 25 técnicas para reduzir atitudes antidemocráticas, aversão política e suporte a violência política num estudo realizado em 31 mil norte-americanos. O estudo mostrou que uma das intervenções mais eficientes para minimizar a polarização, esse discurso de ‘‘nós’’ contra ‘‘eles’’,  é mostrar para a pessoa que existem valores em comum mesmo quando as pessoas discordam. Mas Lins Horta acrescenta que primeiro temos que trazer aos poucos os radicalizados, não começando pelos mais extremos.

‘‘Não temos que abrir mão de bandeiras, mas sim reconhecer que esses diálogos dão um terreno para você achar o valor comum, essa é uma das formas de desarmar e desradicalizar essas pessoas’’.

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Nicole De March é mestre e doutora em Física (UFRGS). Pós-doutoranda do LABTTS (DPCT-IG/Unicamp) e membro do Grupo de Estudos de Desinformação em Redes Sociais (EDReS).

[Foto: ROBERTO GARDINALLI/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO – fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br]

En Maurice Hall interpreta el paper de l’anglès convencional, però, darrere la façana de noi modest i generalment conformista, hi ha un creixent desig i atracció cap als homes. A través d’en Clive, que coneixerà a Cambridge, i l’Alec, el guardabosc de la finca rural d’en Clive, en Maurice experimentarà un intens i revelador despertar emocional i sexual.Una novel·la de passió, valentia i desafiament que condemna les actituds repressives de la societat britànica. Una història d’amor commovedora que és alhora la narració d’un íntim descobriment eròtic i polític. ‘Maurice’ és una novel·la profundament personal que Forster va acabar d’escriure el 1914 però que, per por que suposés el final de la seva carrera, va guardar durant més de cinquanta anys. Va ser publicada pòstumament l’any 1971.

Biografia de l’autor

Edward Morgan Forster (1879-1970) va estudiar a l’exclusiu King’s College de Cambridge, on va freqüentar cercles intel·lectuals que més tard es convertirien en el Grup de Bloomsbury. Va viatjar per Europa i pel nord d’Àfrica com a voluntari de la Creu Roja durant la Primera Guerra Mundial. Després de la contesa, va treballar diversos anys com a secretari personal del Maharajah de Dewas. Tot i que ja havia donat a la llum altres obres, com ara ‘Una habitació amb vistes’ (1908) o ‘Howards End ‘(1910), va ser la seva experiència asiàtica la que li va servir per crear el seu primer gran èxit editorial: ‘Passatge a l’Índia’ (1924).

Títol: Maurice
Autor: E.M. Forster
Editorial: Navona
Pàgines: 280
ISBN: 978-8419311306

[Font: http://www.racocatala.cat]

Em documento, sem-terra avaliam papel do governo Lula. E apresentam suas propostas para reforma agrária agroecológica, agroindústrias cooperativadas, produção de alimentos saudáveis e Plano Nacional de Reflorestamento

 

O Brasil vive a pior crise de sua história, que se manifesta na economia, na sociedade, no aumento da desigualdade social, nos crimes ambientais, na fome, no desespero e falta de perspectiva que atinge mais de 70 milhões de trabalhadores. Tudo isso se aprofundou nos últimos seis anos, após o golpe contra o Governo Dilma e os quatro anos de um governo neoliberal com práticas fascistas e autoritárias.

A vitória política de Lula nas últimas eleições revelou a vontade da maioria dos brasileiros de mudarmos os rumos, retomarmos os caminhos democráticos, para resolver os problemas urgentes da população brasileira. Essa vitória foi fruto de uma ampla aliança social de todas as forças progressistas e, certamente, marcará também um governo de Frente Ampla, com os mais diversos setores ai representados.

O governo Lula terá o desafio fundamental de enfrentar em caráter emergente as necessidades fundamentais do povo, como o combate à fome, ao desemprego, e investimentos pesados em educação e saúde. E no médio prazo debater com toda sociedade um novo projeto de pais, fundado na reindustrialização e na agricultura produtora de alimentos saudáveis, única forma de retomarmos o crescimento econômico com justiça social.

Na agricultura, se enfrentam há décadas três modelos de organização da produção. O latifúndio predador, que enriquece com a especulação imobiliária e da apropriação das riquezas naturais; o agronegócio, que produz apenas commodities agrícolas para exportação, concentrados em apenas cinco produtos (soja, milho, cana, algodão e pecuária bovina). Os fazendeiros enriquecem, mas não pagam impostos à sociedade graças às isenções das exportações e agridem a natureza com o desmatamento, o uso de agrotóxicos e o monocultivo. E o terceiro modelo é da agricultura familiar que, usando mão de obra familiar, protege à natureza e se dedica a produzir alimentos para suas famílias e para o mercado interno.

Nossa Constituição federal exige que a Terra cumpra sua função social, produzindo racionalmente, respeitando a legislação trabalhista e o meio ambiente. Assim como nossa Constituição, defendemos sempre que o latifúndio é antissocial e deve ser banido, e o agronegócio precisa assumir sua responsabilidade socioambiental, adequar-se às necessidades da sociedade, pagar impostos, parar de usar agrotóxicos e dar condições de dignidade os seus trabalhadores.

Defendemos a agricultura familiar e dentro dela a distribuição de terras dos latifúndios, sobretudo nas proximidades das cidades, para que se multipliquem as famílias camponesas produtoras de alimentos.

Defendemos o desmatamento zero. Não precisamos derrubar mais nenhuma árvore. Precisamos, sim, é de um Plano Nacional de Reflorestamento urgente, plantando milhões de árvores, em todo país, em todos os biomas, no campo e nas cidades. Condição necessária para combater as mudanças climáticas que afligem a população em todo território e a todo planeta.

Defendemos que o novo governo deve implementar urgentemente diversas medidas de políticas públicas – como os Programas de Aquisição de Alimentos e de Alimentação Escolar – buscando a soberania alimentar e para que se amplie imediatamente a produção alimentos saudáveis em todo país. E que se usem os mecanismos de aumento de renda, via bolsa família, e aumento do salário mínimo e do emprego para que o povo tenha condições de se alimentar dignamente.

Defendemos o estímulo da agroecologia como um modelo tecnológico que busca produzir alimentos saudáveis, sem agredir a natureza, gerando mais empregos e melhorando a produtividade física das lavouras. Garantindo assim saúde para nosso povo.

Defendemos um programa urgente de implementação de máquinas agrícolas para agricultura familiar, para que possamos aumentar a produtividade do trabalho, diminuindo o sacrifício humano.

Defendemos a implantação de um amplo programa de agroindústrias cooperativadas em todos os municípios, para beneficiar alimentos e gerar emprego e renda para mulheres e jovens no campo.

Devemos combater todas as forças de exploração no campo, como o trabalho escravo e as péssimas condições dos assalariados sem direitos trabalhistas. Devemos combater o garimpo e ação perversa das mineradoras que depredam nosso meio ambiente e riqueza natural apenas em função do lucro privado. Os bens da natureza devem estar subordinados às necessidades de todo o povo.

Defendemos um amplo programa de educação e cultura no meio rural que dê oportunidade a todas as pessoas, em especial aos jovens, que erradique o analfabetismo, ofertando todas formas de escolarização no interior do país, que preserve e fomente as manifestações e expressões culturais do povo.

Combateremos e denunciaremos todas as formas de violência, discriminação, racismo, misoginia, LGBTfobias e intolerância religiosa que foram alimentados pelo bolsonarismo fascista.

Levaremos essas propostas e ideias para o próximo governo Lula e contribuiremos de todas as formas possíveis para que elas sejam aplicadas.

Nossa missão maior é seguir organizando o povo, para que lute por seus direitos, consagrados na constituinte de 1988, pois sabemos que sem mobilização popular não haverá nenhuma mudança verdadeira no país.

Esses são os nossos compromissos que queríamos reafirmar para toda sociedade brasileira, em tempos de crise e de mudanças necessárias.

 

[Imagem: Tarcísio Nascimento – fonte: http://www.outraspalavras.net]

 

 

L’entrada de Qatar en el club dels països amb Mundial de futbol no significa la derrota dels valors occidentals, sinó el seu triomf

Estadi Al Wakrah de Qatar en construcció | Fotograma del vídeo oficial de Qatar 2022

Escrit per Joan Burdeus

Crític cultural. Filosofia, política, art i pantalles

 

L’entrada de Qatar en el club dels països amb Mundial de futbol no significa la derrota dels valors occidentals, sinó el seu triomf. Perquè si hi ha alguna cosa igual d’occidental que la democràcia i l’individualisme liberal, és el nacionalisme i la construcció d’un leviatan estatal que reguli i homogeneïtzi la vida dels ciutadans amb un sistema sofisticat de burocràcia i el monopoli de la violència que, evidentment, té una història de sang i terror darrere de cada bombolla de benestar. S’ho van inventar els francesos. Les societats medievals regides per la religió tenien i aspiraven a un control molt menor sobre el poble que els nostres estats moderns guiats per la raó. El genocidi i l’enginyeria social totalitària són tan occidentals com l’hora del te i la novena Simfonia.

La gràcia de Qatar és que la seva ascendència meteòrica és un mirall augmentat de la nostra. La Modernitat es propulsa quan una regió de l’Europa nord-occidental comença a cremar combustibles fòssils. La transformació cultural més gran de la història recent no s’explica sense el poder alquímic del carbó i del petroli, que fan saltar pels aires segles d’escassedat amb un superàvit d’energia infinit que només es pot qualificar de màgic. Les revolucions de les quals ens sentim orgullosos, el fil que va de les primeres lluites obreres a l’estat del benestar socialdemòcrata, són, en realitat, contrarevolucions per frenar els excessos del progrés exponencial que desencadena l’or negre. Els sindicats surten de l’horror de la fàbrica, els drets humans de l’horror de les bombes. El grau de benestar i llibertat a què aspirem són fills d’un canvi de règim energètic del qual encara depèn tot.

I és normal que avui ens angoixi veure aquesta energia infinita sense les respectives contrarevolucions. A la Xina, per exemple, podem contemplar un país que ha adoptat mètodes i tecnologies tan occidentals com ara el nacionalisme, el capitalisme, el feixisme i el comunisme, però, ai las, ni rastre de democràcia i llibertat. A Qatar passa exactament el mateix: l’oceà de petroli ens recorda que la natura té més poder que la cultura. I fa gràcia perquè tant una nació com l’altra s’escuden en especificitats culturals, sigui el confucianisme o l’Islam. Però també el nazisme o el franquisme feien anar la història o la religió catòlica per justificar els seus monstres. En canvi, a Llatinoamèrica ningú parla d’una predisposició asteca envers la democràcia, i resulta n’hi ha moltes i molt d’esquerres. El planeta sencer ha acceptat la Modernitat científica i burocràtica d’Occident, però les derives liberals o il·liberals estan distribuïdes de manera irregular i multifactorial.

I ara el problema és que l’abundància d’energia de la qual depèn tot està causant estralls en forma de canvi climàtic i, com en altres moments del passat, emergeixen contrarevolucions. La cosa és a les beceroles i hi ha infinites divisions internes, però el més estès és una barreja de decreixentisme en els hàbits de consum a través d’un canvi cultural i una certa fe en el progrés tecnològic. Al marge de les contradiccions dels verds ara mateix, tant ideològiques com pragmàtiques, és inevitable tornar a veure els somnis d’internacionalisme utòpic no acomplerts pels moviments socials del passat que rebroten en l’esperança que l’ecologisme sigui el cavall de Troia d’un sentiment d’igualtat i solidaritat globals que s’estengui per les classes mitjanes d’arreu del món. Qatar és un bon lloc per veure com tot això que anomenem Modernitat Occidental és poc més que el resultat d’un superàvit d’energia solar continguda en un líquid negre a les profunditats de la terra, i la lluita de la cultura per domesticar-la abans que ens destrueixi.

 

[Font: http://www.nuvol.com]

Escrito por Ramón Nicolás

Pemón Bouzas

Cando os lobos escoitaban a radio

Xerais, 272 páxinas, 17,95 €, Vigo, 2022

Dispomos dun heteroxéneo e suxestivo corpus narrativo e histórico, desde algúns anos, que se asoma á resistencia guerrilleira ao franquismo en Galicia, que non foi anecdótica nin banal como se recoñece por multitude de historiadores. A este específico grupo de propostas súmase desde hai algunhas semanas a novela Cando os lobos escoitaban a radio do xornalista Pemón Bouzas.

O escritor intérnase nun ámbito no que dirixe unha ollada consciente e verosímil ao que ocorreu, nunha sociedade moral e materialmente devastada polos efectos da guerra civil, nun espazo concreto que adquire evidente categoría de protagonista como é o territorio que comprende unha gran parte do Bierzo, as montañas lucenses e ourensás e, sobre todo,  a comarca leonesa de La Cabrera. É aí onde un grupo de persoas abrazan a resistencia armada como único obxectivo que goberna as súas vidas e onde, no seo das conviccións éticas de cadaquén, se van xerando algúns dos conflitos, dúbidas e incertezas que se deron no seo da partida liderada polo guerrilleiro Girón. Sobre este, e as relacións cos demais membros do seu grupo co pano de fondo da delación e a traizón que sufriu, céntrase unha novela que proxecta un resultado moi efectivo ao relatarse desde unha tripla perspectiva: velaí a voz de Alida, a acompañante de Girón, respecto da que deitan novos matices nun perfil ao que se lle atribuíron falsamente actuacións das que nunca foi responsable; a do garda civil Núñez e mais a do traidor, Xosé Rodríguez Cañueto, chamado Joseliño. Todos eles, cómpre salientalo, tratados con solvencia, singularidade e verosimilitude, especialmente este último nun deseño que nolo presenta como unha figura deshonesta e carente de escrúpulos.

A novela, ademais do seu intrínseco valor histórico, é ficción e manexa unha abondosa documentación sen que se advirtan as costuras. Goza, así mesmo, de partes construídas con brillantez -véxanse as relativas ao cerco que a garda civil lles tende ao maquis e outras de fondo alento descritivo- que posibilitan asomarse a un atraente exercicio profiláctico contra a desmemoria. Nela todo cobra pleno sentido nesa espiral inacabable que simboliza a condición humana e o que esta nos pode deparar en situacións extremas.

 

[Fonte: cadernodacritica.wordpress.com]

Escrito por Edgar Isch L.*

El afán de controlar el pensamiento de los pueblos recorre toda la historia de las sociedades de clases. Así como se domina con la fuerza, se lo hace también y más fuertemente desde el pensamiento. Quienes se apropian del poder no requieren de fuerza cuando los dominados se enajenan al grado de creer que su opresión es normal y adecuada. En ese caso logran una suerte de consenso en favor del sistema, un “sentido común” aparentemente indiscutible.

La lucha en el campo de las ideas tiene esta importancia: o se posibilita un pensamiento libre y crítico o se impone un pensamiento sumiso y acrítico. Su expresión está en todos los campos de la vida social: cuando se busca trabajo y se negocian las condiciones laborales; cuando se recibe un servicio público y se compara con el privado; cuando se educa a las nuevas generaciones; cuando se decide cuáles son las noticias que deben transmitirse y qué ideas se presentan al hacerlo; y muchos más ejemplos que a cada uno se le pueden ocurrir.

Se dice de manera acertada que vivimos una sociedad que es clasista y que además ese clasismo está fortalecido y a su vez alimenta características como el sentido patriarcal, etnocentrista y colonizador de pueblos y la naturaleza. Todo conducido desde el poder que impone de esta forma de pensar. Para lograrlo, utilizan dos vías: difundir sus puntos de vista y su ideología como la única válida (“no hay alternativa”, repetirían continuamente los neoliberales), usando los sistemas educativos, los medios de comunicación, la mayoría de centros religiosos y muchos más instrumentos a su alcance; por otro lado, silencian y atacan a las opiniones críticas al sistema, como sucede en la gran prensa, las películas o en el manejo de los datos en internet, promoviendo más lo siempre promovido.

La prohibición de libros hoy

Una forma de silenciar otras voces ha sido la quema de libros. Y aquí es fácil recordar la inquisición, el nazismo de Hitler, la dictadura de Pinochet o el pedido del anticomunista senador Mc Carthy, quien pidió la quema de 30.000 títulos. Hoy que la derecha gana fuerza en algunos países desarrollados, como una respuesta ante la crisis y posibles levantamientos populares, es cuando estas formas extremas de control del pensamiento tienen lugar.

Lo dominante hoy son las prohibiciones que se van repitiendo. Veamos unos ejemplos, centrados en Norteamérica:

Desde julio 2021 al 31 de marzo de 2022, se ha prohibido 1.586 libros de bibliotecas escolares en 26 estados, afectando la libertad de pensamiento de más de 2 millones de estudiantes. Si bien la decisión no es del gobierno sino de los distritos educativos, se trata de acciones coordinadas por la extrema derecha. Los libros más afectados tienen que ver con la discusión del racismo, la denuncia de la esclavitud, sobre temas relacionados a la comunidad LGBTI, pero se han incluido libros de premios Nobel, textos religiosos, de una víctima del holocausto judío o de Malala, la niña que luchó por la educación contra los talibanes.

Ya a nivel estatal, el Departamento de Educación del Estado de la Florida prohibió 54 textos escolares, incluso de matemáticas, por cuestionar el racismo y esclavitud. El 40% de textos están en revisión de este grupo inquisidor.

En Texas, incluso se llega a colocar el préstamo de esos libros en las bibliotecas escolares como un delito. En Missouri se prohibió el uso de un número especial del periódico New York Times “NYT, 1619 Proyecto”, centrado en la esclavitud en Estados Unidos.

En Canadá la situación no es tan grave, pero en Ontario contra unos 4.700 libros infantiles y hasta el diccionario Webster, siempre con argumentos absurdos. Incluso con pretextos supuestamente contra estereotipos raciales, se ofendió a la libertad de pensamiento quemando (aquí literalmente) ediciones de Asterix o Lucky Luke.

Derecha es limitar las libertades

En general, se trata de empezar en el mundo educativo. Junto a los libros eliminados viene la prohibición de temas en el currículo y en general el silenciamiento de los profesores y profesoras, quienes en los últimos años han realizado varias huelgas superando la legislación represiva. La acción contra el NYT ya habla de un control más fuerte sobre la prensa, aunque al ser la mayoría medios de propiedad de millonarios, la censura previa les garantiza sus mensajes.

La derecha se presenta así como la limitación de las libertades, a pesar que usan la palabra libertad en sus discursos. La libertad que les interesa es la libertad de explotar a los trabajadores, la de apropiarse de los bienes comunes, la de sostener sus intereses por encima de la sociedad.

Estas son solo expresiones de esta gran batalla de ideas. Hay estudios que demuestran las distintas líneas que tiene la búsqueda del control del pensamiento de los pueblos, y la prohibición de los libros solo es una de ellas. El poder capitalista teme las nuevas protestas sociales ante la crisis a nivel global y por ello el incremento de su trabajo en el campo de las ideas. Las fuerzas de izquierda, democráticas y auténticamente progresistas deben presentar los contrapesos suficientes.

* Académico y exministro de Medioambiente de Ecuador. Asociado al Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico (CLAE)

 

[Fuente: http://www.nodal.am]

 

 

 

Vencer Bolsonaro foi o primeiro passo. Agora, é preciso entender a militarização da política e o pânico moral das igrejas neopentecostais, bases do retrocesso. E apontar saídas à gourmetização da vida, enquanto milhões amargam a fome

Escrito por Daniel M. Huertas

Todas as forças progressistas e democráticas deste país ficaram atônitas com o resultado geral do primeiro turno das eleições deste ano, com votações inimagináveis a candidatos que beiram a insanidade – ou, na melhor das hipóteses, a uma caricatura grotesca de algo amorfo. Em suma: um retrocesso de proporções inestimáveis. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no pleito de 30 de outubro amenizou o sentimento de frustração e temor em relação ao futuro do Brasil, mas é preciso reconhecer que este espectro sinistro conhecido como bolsonarismo plantou raízes e se tornou, por incrível que pareça, uma peça extremamente relevante no cenário político brasileiro.

Muito tem sido escrito sobre a ascensão desse fenômeno macabro, e minha contribuição parte do princípio de que a esquerda precisa reavaliar a sua compreensão sobre a realidade brasileira. Isso não significa necessariamente abortar velhos conceitos e metodologias. Afinal, as permanências perversas do constructo social brasileiro (como o racismo estrutural e o latifúndio, por exemplo) estão mais vivas do que nunca e os inimigos de sempre continuaram (e continuarão) à espreita, no aguardo de uma janela de oportunidade para a cooptação de partidários e implementação de uma agenda com ações extremamente reacionárias maximizadas pela velocidade e capilaridade das redes sociais. As tubulações de esgoto do tecido social deste país nunca estiveram tão entupidas.

Esse novo contexto invoca novas análises e reflexões, que devem estar correlacionadas com as profundas mudanças que têm impactado o território brasileiro desde o fim da ditadura militar e o início da chamada Nova República. E, para além da questão meramente nacional, edificá-las de forma mais realística e eficiente com o movimento do mundo que foi aberto com o declínio da bipolaridade da Guerra Fria, do qual emanou um poderoso turbocapitalismo globalizado. A questão é complexa, obviamente, e pede uma análise multidimensional que não se esgota em um livro, muito menos em um artigo. Procurei organizar o meu ponto de vista em temáticas que considero altamente relevantes para que uma espécie de “ajuste fino” no plano das ideias seja alçado à condição de reflexão mais geral dos rumos do Brasil, ajudando de alguma forma nas estratégias que serão utilizadas pelas forças progressistas de agora em diante.

A militarização da política

Desde o advento da República, a política brasileira sempre reservou algum grau de militarização, mas em raras ocasiões havia ultrapassado o sentido estrito do termo. Ou seja, a militarização da política, em maior ou menor escala, de acordo com o contexto, ficara geralmente restrita à participação direta e indireta das Forças Armadas – e o golpe de 1964, como sabemos, foi o ápice desse processo. Mas, infelizmente, o fenômeno ganhou amplitude inédita com a entrada significativa no jogo das forças policiais civis e militares e com uma parcela considerável da sociedade civil que explicitamente defende políticas armamentistas.

Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada em 31 de agosto último, 30% dos entrevistados disseram acreditar que as leis que facilitam compra, porte e uso de armas aumentaram a segurança das pessoas, e o mesmo percentual gostaria de ter uma arma para se defender1. Cabe lembrar, ainda, que o número de unidades em nome de colecionador, atirador desportivo e caçador (CAC) aumentou de 350,7 mil, em 2018, para pouco mais de um milhão, em 2022, após a publicação dos decretos do governo Bolsonaro flexibilizando as normas para compra, porte e uso de armas pela população civil2.

O sociólogo José Vicente Tavares dos Santos, estudioso das pautas ligadas à segurança pública, já havia observado, no âmbito das greves policiais de 2012, na Bahia, a constituição de um “fenômeno social”. Ele lembrou que uma lei de 1967, editada em plena ditadura, transformou as polícias militares em órgãos auxiliares das Forças Armadas e militarizou o ensino policial. Ou seja, não houve a devida adequação das PMs ao trabalho em uma sociedade democrática, já que “faltam noções de direitos humanos, de investigação criminal, algo básico mas incrivelmente precário no Brasil”3, além da ausência de conteúdo correlato a mediação de conflitos.

A própria integração das Forças Armadas ao país depois de 21 anos (1964-85) de mandos, desmandos e atrocidades também se mostrou bastante frágil. A criação do Ministério da Defesa em 2000, durante o governo FHC, parecia ser um antídoto, mas novas crises apareceram na relação entre civis e militares no terreno político. Em 2004, a demissão do então ministro José Viegas ocorreu em meio à insatisfação de militares diante da anunciada abertura dos arquivos da ditadura. Cabe lembrar que a Comissão Nacional da Verdade, proposta no Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), no segundo mandato do governo Lula, também não foi bem recebida por vários setores da caserna. O caso do general Maynard Marques de Santa Rosa, que a chamou de “comissão da calúnia” e acabou sendo exonerado, ganhou as manchetes em 2010. “Os três comandantes militares reagiram contrariamente às cláusulas que propunham rever abusos contra os direitos humanos durante a ditadura e colocaram seus cargos à disposição”, lembrou a cientista política Maria Celina d’Araujo4.

A proposição da revisão da Lei de Anistia – que acabou sendo barrada pelo Superior Tribunal Federal (STF) por 7 votos a 2 — foi outro evento com ressonância extremamente negativa no seio das Forças, sobretudo com as declarações públicas de apoio do então ministro da Justiça, o petista Tarso Genro. E, na sociedade civil, os defensores do golpe de 1964 e de uma nova quartelada em pleno século XXI assombram o país, de forma recorrente desde as eleições de 2018, com demonstrações de efeito. Para completar, o antropólogo Celso Castro, especialista do universo militar, admite que existe um déficit de conhecimento sobre o cotidiano da caserna, “daí compreender-se pouco o funcionamento dessas instituições”5.

D’Araujo clama por uma reflexão sobre o papel das forças de defesa perante o povo e o Estado brasileiros, assunto que “nunca mobilizou os partidos, nunca deu votos”, além do desinteresse generalizado do Congresso sobre a questão. Mas, ao que parece, o bolsonarismo conseguiu encontrar aí uma brecha valiosa para a sua estratégia de poder, de certa forma interditando qualquer debate sobre a pauta sugerida por D’Araujo. É fato a adesão de setores e agentes das forças de segurança ao bolsonarismo – a participação de militares em cargos de confiança ao longo do governo Bolsonaro é espantosa –, mas muito ainda permanece sob uma cortina de fumaça quanto ao real potencial de ativismo político da categoria, sobretudo em relação aos policiais civis e militares.

A articulação política das igrejas evangélicas neopentecostais

A pesquisadora francesa Marion Aubrée talvez tenha sido uma das primeiras intelectuais a se debruçar sobre o fenômeno do expressivo crescimento dos movimentos evangélicos tidos como neopentecostais no Brasil. Um projeto que remonta ao final dos anos 1980, ainda em estágio inicial, encabeçado pela Igreja Universal do Reino de Deus com a sua missão global de evangelização a partir de um país do Terceiro Mundo. Segundo ela, esses movimentos “se adaptam bem à busca de uma devoção emocional pelo povo brasileiro às suas aspirações de uma relação direta com Deus”, na qual o transe corporal (ou a explosão do corpo, como define Aubrée), pouco compreendido ou rejeitado, foi substituído pela “transverbal”, ou “a linguagem dos anjos que, quando praticada, inibe as expressões corporais”6.

Mesmo assim, a articulação midiática dos cultos e atividades na tela da tevê – apenas para ficar no exemplo mais emblemático, a tradicional TV Record, fundada em 1953, foi comprada pelo bispo e empresário Edir Macedo em 1989 – levou a um ajuste, tolerando a maquiagem e roupas menos convencionais e deixando o corpo mais livre. Como afirma Aubrée, “voltou a ser brasileiro”. Desse modo, “sensibilizou setores ponderáveis das classes mais modestas da população”, além de acolher, continua ela, “parte dos vitimados pelo êxodo rural e pela marginalização urbana e ajudando-os a reconstruir suas identidades perdidas em tantas vicissitudes”.

O resultado é que, integrados ao movimento, os indivíduos “redescobrem a autoestima, o senso da dignidade”, atendendo, assim, ao “preceito-chave da ética individualista predominante no mundo atual – (…) que o homem tem que ser forte, equilibrado espiritual e moralmente para encontrar seu lugar ao sol”. Soma-se a isso a introdução pragmática da Teologia da Prosperidade nas comunidades evangélicas, alavancada por cursos de alfabetização, aprendizado de profissões, oferta de empregos e possibilidade de desenvolver carreira eclesiástica, “buscando meios para as pessoas progredirem na vida”.

Como bem disse o historiador Leandro Karnal, a “capilaridade notável” de “milhares de pequenas igrejas nas periferias das cidades” elevou o mundo evangélico a um “poderoso dínamo para as almas e para as urnas”7. Na sua análise, como tendência geral os evangélicos “valorizam pontos como críticas ao casamento homoafetivo”, embora o tom médio do eleitorado brasileiro “é muito conservador e isso antecede a presença evangélica no Parlamento”. Para Karnal, “evangélicos não criam, apenas reforçam um reacionarismo difuso”, e acreditar que votam em quem pastores e bispos mandam seria uma ideia que “subestima a capacidade crítica dos evangélicos e omite a mudança na composição social do grupo”. Naquele contexto, em 2014, Karnal analisou a questão como um controle até desejável pelas lideranças religiosas, mas que “não existe como dado absoluto”. Entretanto, deixou o debate em aberto, pois a temática estaria em “ebulição intensa”.

Mas os fatos recentes mostram que neste campo foi aberta outra brecha bastante utilizada pelo bolsonarismo: uma aliança tácita e explícita entre os exploradores da fé alheia e os falsos defensores dos valores de Deus e da família que envolve interesses de ambos os lados e muito dinheiro. E o dado absoluto agora está aí: o resultado foi o reforço da chamada bancada evangélica no Congresso – dos 177 candidatos a deputado federal, 109 foram eleitos, taxa superior a 60%. Ademais, alguns novatos ligados às igrejas evangélicas foram campeões de voto em seus respectivos estados. Nikolas Ferreira (PL-MG), o deputado mais votado do Brasil, com cerca de 1,492 milhão de votos, integra a Comunidade Evangélica Graça e Paz. O ex-procurador Deltan Dallagnol (Podemos-PR), conhecido por ter sido um dos cabeças da famigerada Operação Lava Jato, é da Igreja Batista do Bacacheri, em Curitiba, e com alguma frequência realiza palestras e pregações nos púlpitos evangélicos.

Filipe Barros (PL-PR), da Igreja Presbiteriana Central de Londrina, Silas Câmara (Republicamos-AM), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Paulo Freira Costa (PL-SP) e Cezinha Madureira (PSD-SP) são outros exemplos, todos da Assembleia de Deus, que mantém o seu domínio sobre a Frente Parlamentar Evangélica, que tem na “pauta dos costumes” a sua trincheira de valores conservadores contrários à esquerda. “Vai ter um grupo mais coeso agora, porque os novos deputados eleitos são evangélicos e é gente mais aguerrida. Isso vai ficar muito bom para a bancada”, declarou o deputado Gilberto Nascimento (PSC-SP), um dos principais articuladores do movimento e reeleito para o seu quarto mandato8. Por outro lado, os evangélicos de esquerda continuam sendo minoria.

O ex-ministro do STF, Cezar Peluso, já havia declarado que a Corte, provocada a deliberar sobre direitos considerados lesivos à sociedade pelas forças conservadoras (aborto, células-tronco, fetos anencéfalos, direitos dos homoafetivos), “reforça o caráter laico do ordenamento jurídico, (…) ao ponto de enfrentar as resistências religiosas em nome da laicidade do Estado”9. Na campanha para o segundo turno, Lula teve que lançar, estrategicamente, uma carta aos evangélicos que afirma a liberdade de culto e a posição contrária ao aborto. Ao mesmo tempo, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, lota igrejas neopentecostais Brasil afora ao lado da senadora eleita Damares Alves (Republicanos-DF), conhecida por inflar a pauta conservadora de costumes.

O diretor do Observatório Evangélico, Vinicius do Valle, enxerga um ambiente bastante violento no universo das igrejas, com “consequências sérias, dentro e fora dos templos”10. O desejo de aniquilamento da diferença, “mesmo entre aqueles que comungam da mesma fé”, foi incrustado nas igrejas pelo bolsonarismo, formando uma legião de (pseudo) religiosos que passou a disseminar a ideia de que o Partido dos Trabalhadores (PT), “amigo de ditaduras sanguinárias, fecharia igrejas, obrigaria as crianças a usar banheiros unissex, liberaria o aborto e ameaçaria a integridade das famílias”.

Valle explica que as pautas morais e religiosas, situadas “no terreno das crenças e das paixões, e menos conectadas à materialidade”, são “mais suscetíveis à dinâmica do marketing político agressivo e das fake news”. E o “bom marketing político”, como nos mostra a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, “é aquele que vai de encontro à imaginação política que já existe” e, portanto, “o bom candidato é aquele que sabe dialogar com esse imaginário da sociedade”11. Eis aqui, portanto, uma questão que precisa ser mais bem estudada, compreendida e enfrentada.

A força do dinheiro e do consumo

Uma enxurrada de números mostra o quadro sombrio para boa parte da população brasileira. Em 2021, 62,93 milhões de pessoas (ou 29,62% do total) viviam com renda domiciliar per capita de até US$ 5,50 por dia – ou seja, abaixo da linha da pobreza, segundo parâmetro internacional adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU). No mesmo ano, o rendimento médio mensal per capita registrou o menor valor desde o início da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 201212. Tecnicamente, de cada quatro brasileiros um está sob a linha de pobreza.

Não é exagero admitir, entretanto, que as condições materiais do povo brasileiro melhoraram, em níveis gerais, a partir dos anos 1990. Não pretendo aqui discutir as causas desse fenômeno – obviamente que as políticas sociais reorganizadas, azeitadas e vitaminadas com o PT no poder o explicam em parte –, e nem mesmo fechar os olhos para as mazelas crônicas e estruturais, mas o Brasil não é a Índia e nem a África, sem qualquer sentido pejorativo ou discriminatório sobre essas duas partes do mundo. Quero dizer com isso que a força do dinheiro e do consumo aterrissou com peso no Brasil a partir daquele contexto, mesmo que em escalas e condições diferenciadas. Com o neoliberalismo irresponsável e a abertura indiscriminada ao mundo globalizado, o país foi inserido numa posição amplamente disputada pelo capital internacional, já que passou a figurar entre os dez principais mercados consumidores mundiais de quase todos os bens de consumo, sejam eles duráveis, semiduráveis ou não duráveis.

Gradativamente houve uma multiplicação de shoppings centers nas grandes cidades, inclusive nas periferias, chegando anos depois a várias cidades de porte médio do interior do país. O efeito-demonstração causado pelo consumismo – e tudo o que ele carrega, como a criação inesgotável de desejos materiais, a ideia de felicidade, a busca por status e afirmação social e altas dosagens de entretenimento entorpecente – atingiu em cheio a todos os extratos da sociedade, sobretudo os mais baixos, que até então apenas de forma marginal faziam parte do mercado consumidor e, na sua estrutura psíquica e cultural, não tinham no consumo um valor em si de grande relevância para o seu cotidiano. Em suma, o dinheiro transformou-se no grande mediador das relações sociais em praticamente todas as porções do território e em todas as classes sociais.

O próprio governo Lula proporcionou um crescimento vertiginoso dessa dinâmica com as correlatas políticas de expansão do crédito público e aumento real do salário mínimo acima da inflação, incrementando o poder aquisitivo de grandes parcelas da população. Mas junto com o dinheiro e o consumo vêm o individualismo, a ganância e a ambição, um pacote completo embalado por milhares de peças publicitárias e pela ideia fortemente difundida da meritocracia e do empreendedorismo, diametralmente oposta aos valores humanistas de alteridade e solidariedade. O progresso material se sobrepõe a tudo e a todos e a busca pela “gourmetização da vida” é, agora, o modus operandi e o objetivo geral a ser alcançado por uma expressiva parcela da sociedade. Completa-se, assim, a atomização do indivíduo, presente nas periferias e nos bairros de classe média, nas capitais e no interior, no litoral e nos confins da Amazônia.

Como bem disse Karnal, “viver imune aos apelos do consumo é complexo para o adulto e quase intransponível para o jovem”13. O geógrafo Milton Santos vai além. Em sua análise sobre a globalização (que prefere denominar de “globaritarismo”, a aliança entre a tirania do dinheiro e da informação), o consumo é “o grande fundamentalismo do nosso tempo, porque alcança e envolve toda gente”. É um grande emoliente, “produtor ou encorajador de imobilismos”, ou “um veículo de narcisismos, por meio dos seus estímulos estéticos, morais, sociais”. E completa: “Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão.”14

Mesmo que em camadas, nuances, formas e situações diferenciadas o brasileiro entrou (ou foi empurrado) com força na dinâmica do turbocapitalismo globalizado, na qual a espiral do consumismo é um de seus principais traços, e o medo da perda das condições materiais, mesmo que reduzidas se comparadas aos extratos mais elevados da sociedade, aparece como elemento paralisante e reacionário. A questão da segurança pública ajuda a reforçar esse último aspecto com narrativas e imagens veiculadas incessantemente por programas de televisão sensacionalistas e a escassez, em outros tempos um forte elemento a favor das revoluções sociais, hoje parece estar mais inclinada ao reacionarismo.

Talvez a essência do brasileiro tenha-se tornado mais individualista e menos espontânea, cada vez mais enquadrada no “reino do cálculo e da competitividade”, amparado por um discurso único do mundo no qual as formas de relações econômicas implacáveis não aceitam discussão e exigem obediência imediata, como nos ensina Milton Santos15. Assim, a competitividade como norma acaba justificando os “individualismos arrebatadores e possessivos” na vida econômica, na ordem política, na ordem do território e na ordem social e individual. É o “dinheiro em estado puro”, explica o autor, em que dinheiro e consumo são tidos como reguladores da vida individual, cujo “objetivo é a necessidade, real ou imaginada, de buscar mais dinheiro”16.

Desde o último quartel do século XX, já há toda uma geração criada na frente da televisão, submetida a milhares de peças publicitárias por ano e seduzida pela expansão em grande escala da variedade de bens de consumo. Uma geração inteira receptora de enlatados estadunidenses em volume absurdo, na tevê, no cinema, nas rádios e nas antigas videolocadoras, fortalecendo o chamado american way of life na mente de grande parte da juventude brasileira de então. Uma geração inteira induzida ao convencimento da grandiosidade do papel dos Estados Unidos no mundo. Uma geração inteira com alto grau de despolitização, cujos ideais revolucionários pretéritos deixaram de ser atraentes.

Esses valores forjaram (e continuam forjando) a estrutura emocional, psíquica e cultural de parcela considerável das classes altas e médias das grandes e médias cidades brasileiras, frequentadoras assíduas da Disneylândia (desde criancinha) e dos inúmeros voos semanais para Miami e outros lugares dos Estados Unidos e da Europa. O pior é que esse fenômeno está gerando capilaridade entre as camadas mais pobres e se propaga pelo celular, na velocidade e ferocidade da internet e das redes sociais.

Por uma reforma agrária nos marcos do século XXI

É escancarada a rejeição dos agentes do agronegócio a Lula e ao PT. No primeiro turno, o candidato à reeleição venceu em 77 dos 100 municípios mais ricos do agronegócio, que juntos equivalem a 5,3 milhões de votos e concentram 34,3% do Valor Bruto da Produção Agrícola (VBP) nacional em 2021, índice medido pelo IBGE. A votação de Bolsonaro chegou a 74,84% em Canarana (MT), contra 21,80% de Lula. Em 22 municípios, o candidato do Partido Liberal (PL) recebeu mais de dois terços dos votos. Dos dez primeiros, sete são do Mato Grosso (Sorriso, Sapezal, Campo Novo dos Parecis, Diamantino, Nova Ubiratã, Nova Mutum e Querência), dois, da Bahia (São Desidério e Formosa do Rio Preto) e um, de Goiás (Rio Verde)17.

Segundo José Carlos Hausknecht, sócio-diretor da consultoria MB Agro, o forte apoio do setor já era esperado, “principalmente dos produtores, o que envolve as famílias e influencia nas cidades também”. Ele explica que os produtores “se sentem perseguidos, ameaçados com invasões do MST e atacados como responsáveis pelo desmatamento, pelo latifúndio improdutivo e pelo uso de defensivos”, e ao mesmo tempo nutrem o reconhecimento de um setor “que dá sustentação à economia e contribui com a balança comercial”18.

Seria muito ingenuidade imaginar que juntamente com esse fluxo produtivo e comercial, sobretudo em tempos muito favoráveis do ponto de vista cambial, não emergiria uma classe política potente e influente, que foi sendo construída gradativamente desde que a expansão da fronteira agrícola chegou aos confins do Centro-Oeste e à franja meridional da Amazônia, a partir da década de 1970. Como bem explicou o antropólogo Caio Pompeu, o agro não é pop, é político, e a partir do processo desencadeado para estabelecer o golpe contra a presidente Dilma Rousseff, em 2016, “nucleações dominantes do campo do agronegócio alcançaram protagonismo na agenda do Estado brasileiro” e o PT era considerado pelos líderes do agronegócio “como seu principal inimigo político”19.

Para além da questão política, sabemos que o agro não tem nada de pop, pois se trata de uma atividade com várias contradições e conflitos agudos nos temas que envolvem as questões agrária (condições de vida do trabalhador do campo e concentração fundiária), agrícola (latifúndio improdutivo), ambiental (desmatamento e outras práticas predatórias), indígena (violência e desrespeito para com as populações ancestrais) e trabalhista (trabalho escravo). E, nessa pauta, um dos elementos mais sensíveis diz respeito à reforma agrária — conceito temido pelas classes dominantes desde meados dos anos 1950, quando do advento das Ligas Camponeses no Nordeste.

Muitos autores advogam a tese de que o anúncio das Reformas de Base durante o governo João Goulart (1961-64) – da qual a reforma agrária era um dos pilares — foi a gota d’água para a deflagração do golpe militar de 1964, em um contexto caracterizado pela Guerra Fria. Do ponto de vista estrutural, o poder no Brasil guarda íntima correlação com a propriedade da terra, e uma mudança radical implicaria na eliminação do latifúndio e da especulação fundiária (a terra como reserva de valor).

Mas a temática da reforma agrária, a meu ver, precisa estar mais relacionada à realidade brasileira do século XXI, e não da segunda metade do século anterior. O país foi submetido a um enorme processo de urbanização, acompanhado de alterações demográficas igualmente substanciais, e grande parte dos problemas sociais também se deslocou para as cidades – déficit habitacional, ausência de saneamento básico, serviços insuficientes de saúde e educação, precariedade do transporte público, desemprego, etc.

Entretanto, não se trata de uma bandeira ultrapassada, pois a própria Constituição Federal prevê a desapropriação de terras que não cumprem a sua função social para serem destinadas à reforma agrária. Mas fica aqui a reflexão: será que o instrumento da reforma agrária seria eficaz, no momento atual, para resolver os problemas estruturais brasileiros? Por isso a necessidade de repensar o modelo de reforma agrária para o Brasil de hoje, sem deixar de criticar o que deve ser criticado. Afinal, como disse Eduardo Galeano, “a soberania começa pela boca” e, para quem dispõe de um mínimo de humanismo, é um absurdo ter fome no país aclamado como o “celeiro do mundo”.

É possível superar o ódio e a barbárie?

Agora caiu a máscara. Sem metáforas. Sem cortes. Sem o mito da tão propalada “democracia racial”. Ficou explícita a aversão que as forças conservadoras e reacionárias replicam em torno da figura do negro, indígena, pardo, favelado e suburbano, tida como de segunda categoria que atravanca o progresso do país — e, mais ainda, breca o desejo latente da “europeização” da sociedade brasileira. Sempre foi assim, é verdade, mas, nos marcos civilizatórios do atual contexto do mundo, deveria ser algo inadmissível. Uma “ralé eternizada”, na visão do sociólogo Jessé Souza, colocada como o “nosso maior conflito social”20. Um processo gradativo, perverso e crescente de naturalização da desigualdade social no Brasil e de tentativa de criminalização de qualquer tipo de movimento e/ou organização social daqueles que estão na base inferior da sociedade brasileira.

E, convenhamos, o núcleo duro do bolsonarismo está cheio de gente que pensa assim. São contra o fato de que o Brasil é um país mestiço e muito diverso em todos os aspectos. São contra a ideia de que empregadas domésticas devem ter salário digno e direitos trabalhistas. São contra a ideia de que pobres devem ter acesso às universidades públicas pelo sistema de cotas. Nunca aceitaram e não aceitam a ideia de um nordestino, metalúrgico e sindicalista ter sido presidente da República em duas ocasiões – e agora pela terceira vez.

Obviamente que o Brasil é muito mais complexo e diverso do que esse panorama e muitos aspectos colocados ao longo do texto são de conhecimento das forças progressistas. Entretanto, alguns elementos merecem uma compreensão mais profunda, muitos não foram sequer mencionados (o crescimento da extrema-direita em várias partes do mundo, por exemplo) e com outros ainda não sabemos ao certo como lidar, seja no plano intelectual, seja no plano político. Apesar de tudo, o Bolsonaristão foi derrotado e a esquerda está viva.


Referências citadas:

1. RAMOS, Pedro. Maioria rejeita uso de armas, afirma pesquisa Genial/Quaest,in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A9, 1º set. 2022.

2. Os dados, publicados pelo jornal O Estado de S. Paulo (Metrópole/A15, 06 out. 2022), são dos Serviços de Fiscalização de Produtos Controlados (SFPC).

3. CRUZ, Christian Carvalho. Mais uma para ficar na história, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 12 fev. 2012.

4. D’ARAUJO, Maria Celina. Demissão anunciada, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J3, 07 ago. 2011.

5. GREENHALGH, Laura e MARSIGLIA, Ivan. Brios e vacilos nas fileiras, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 14 fev. 2010.

6. SABÓIA, Napoleão. Estudiosa francesa analisa a fé dos brasileiros, in jornal O Estado de S. Paulo, Caderno2/D7, 08 jun. 2003.

7. KARNAL, Leandro. Rebanho não tão uniforme, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/E3, 07 set. 2014.

8. WETERMAN, Daniel. Campeões de voto reforçam bancada evangélica no Congresso,in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A21, 08 out. 2022.

9. GREENHALGH, Laura. Oceano processual, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 15 maio 2011.

10. VALLE, Vinicius do. Violência política toma conta de igrejas, in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A11, 20 out. 2022.

11. TAVARES, Flávia e MARSIGLIA, Ivan. Por trás da máscara, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 19 out. 2008.

12. AMORIM, Daniela e NEDER, Vinicius. Renda do brasileiro tem queda recorde, in jornal O Estado de S. Paulo, Economia&Negócios/B1, 11 jun. 2022.

13. KARNAL, Leandro. Compro e vivo, in jornal O Estado de S. Paulo, Cultura&Comportamento/C12, 09 out. 2022.

14-16. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do discurso único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2001, p.49 e p.56.

17-18. DUARTE, Isadora. Bolsonaro domina votação em 77 dos 100 municípios mais ricos do agronegócio, in jornal O Estado de S. Paulo, Política/A10, 12 out. 2022.

19. POMPEIA, Caio. Formação política do agronegócio. São Paulo: Elefante, 2021, p.299.

20. SOUZA, Jessé. A ralé eternizada, in jornal O Estado de S. Paulo, Aliás/J4, 06 jul. 2008.

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

Digitalização da economia embaralha fronteiras entre lazer e labor, impõe jornadas massacrantes e aprofunda distúrbios psicossociais. Democracia exigirá regular corporações e reconectar sindicatos ao novo mundo do trabalho

Escrito por Marcio Pochmann

A tradição regulatória do trabalho no Brasil tem sido a de antecipar-se, em geral, aos potenciais riscos impostos durante os momentos históricos de grandes transformações econômicas e sociais. Ainda sob a vigência da escravidão, por exemplo, o Império adiantou-se à realidade que estava por chegar, definindo, em 1830, a regulação do contrato de prestação de trabalho entre brasileiros e estrangeiros livres.

Com a proibição do exercício do labor forçado, a livre expansão do capitalismo foi acompanhada por enorme potencial explosivo diante da exploração sem limites na crescente contratação da mão de obra. Por isso, logo no início da República, em 1891, o uso da mão de obra infantil em fábricas passou a ser, por exemplo, objeto de fiscalização; e em 1903 a existência de sindicatos passou a ser oficialmente permitida no país.

A própria Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), introduzida em 1943, não se deixou de orientar para a mão de obra exclusivamente urbana, quando um pouco mais de 10% do total dos ocupados enquadrava-se no estatuto do emprego assalariado formal. Pelo projeto tenentista de construção da sociedade urbana e industrial no Brasil, as massas sobrantes no campo, herdadas da sociedade agrária, seriam elevadas à cidadania laboral garantida pelo acesso aos direitos sociais e trabalhistas estabelecidos pela carteira do trabalho assalariado somente possível nas cidades.

Naquela oportunidade, a expansão nacional do mercado de trabalho urbano era a vanguarda das mudanças no Brasil. Por representar o passado a ser superado, o conjunto dos trabalhadores rurais que constituía a maior parte dos ocupados somente começou a ser integrado, lenta e gradualmente, na regulação pública a partir do ano de 1963, com a aprovação do Estatuto do Trabalhador Rural.

Coube ao Estado assumir centralidade regulatória diante do avanço do operariado e da burguesia industrial, as duas principais classes sociais que estruturavam a sociedade urbana e industrial em constituição. Considerado pelo presidente Getúlio Vargas (1930-1945) “O Ministério da Revolução”, o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, criado um mês após a Revolução de 1930, assumiu papel central na institucionalização, regulamentação e organização do mercado de trabalho assalariado.

A partir de 1990, quando o Brasil ingressou de forma passiva e subordinada na globalização conduzida pelos Estados Unidos, o assalariamento estancou e o emprego formal sofreu considerável deterioração. Concomitante com a ruína da sociedade urbana e industrial, a CLT foi sendo atacada, fazendo com que o Estado passasse a estar mais preocupado com o passado do que com o próprio futuro do presente, ao longo do primeiro quarto do século 21.

É nesse sentido que ganha importância na atualidade o entendimento acerca da emergência do mundo do trabalho digital que, impulsionado pelas diversidades das tecnologias de informação e comunicação, constitui o vetor de vanguarda das mudanças econômicas e sociais no país. Enquanto frente de expansão das ocupações novas e velhas, prolifera uma diversidade de atividades que se combinam virtualmente associadas à presença de trabalhadores que não são sequer reconhecidos como empregados.

Pela conformação de uma nova classe trabalhadora que se expande através das ocupações digitais, prevalecem enormes desafios quanto à identidade e pertencimento, bem como quanto à organização e recorte geográfico. Da mesma forma, as tradicionais instituições pertencentes ao antigo mundo do trabalho como entidades governamentais, sindicais e judiciais também registram dificuldades consideráveis para mobilizar e conectar as novas formas de trabalho ainda não padronizadas.

No contexto nacional de profusão de modelos de negócios cada vez mais operados pela coleta de dados e otimização dos processos de trabalho próprios da dispersão e fragmentação do labor remoto e terceirizado, a gestão algorítmica tem predominado. A assimetria de poder e de informação é inegável, tornando a retribuição monetária mínima diante da jornada de trabalho elevada, inclusive muitas vezes não remunerada, que acompanha a insegurança do rendimento e a ausência de compensação ao uso de equipamentos próprios da ocupação.

Ao mesmo tempo, o surgimento de novos sujeitos sociais ocorre condicionado a outros desafios em relação à formação da identidade coletiva e ao pertencimento solidário diante da ausência do status de emprego reconhecido legalmente e da natureza atomizada e dispersa do mundo do trabalho digital. A onipresença da digitalização faz desaparecer a fronteira que até então separava o tempo de labor do não labor, cujos impactos superam o caráter e a organização do trabalho, avançando sobre a saúde mental dos trabalhadores.

A digitalização da economia e da sociedade vem acompanhada de abusos da hiperconectividade gerados pela infração dos direitos de privacidade, vigilância massificada, elevação do tempo de trabalho, isolamento e intransparência nas relações profissionais. O resultado tem sido, em paralelo ao aumento da produtividade e dos lucros concentrados em poucos, o flagelo da precarização laboral e das doenças depressivas e de distúrbios psicossociais dependentes do uso de drogas legais ou até ilegais.

A regulação da digitalização e dos sistemas de inteligência artificial requer novas diretivas ao trabalho hiperconectado, capaz de garantir proteção social e trabalhista e padrões mínimos de saúde e segurança laboral. Novas instituições regulatórias e a reformulação das entidades de representação de interesses são necessárias para que o progresso da gestão algorítmica prevaleça com transparência e ética, sem decisões discriminatórias e arbitrárias que aprofundam a desigualdade e a injustiça.

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

 

Ananda Marques, mestra em Ciência Política pela UFPI

A semana seguinte é sempre pior que a atual há algum tempo no Brasil, o sem limites do sofrimento encontra cada vez mais espaço para corroer aqueles que sobreviveram aos últimos anos. E para as mulheres brasileiras, para as mulheres negras, para as mulheres pobres, para as mulheres mães, para as mulheres com deficiência, lgbt, indígenas e ativistas, para aquelas que ocupam esse lugar de coragem e risco tem sido ainda mais dolorido. Num intervalo de poucos dias, três vídeos circularam tanto na imprensa como nas redes sociais escancarando a insegurança na qual vivemos; não há garantia alguma de nossas vidas e direitos no Brasil em 2022.

Na cena que chocou o país, uma juíza tortura psicologicamente uma criança de 11 anos vítima de abuso sexual, cuja mãe buscou o sistema de saúde para acesso à interrupção da gravidez, como é previsto no Código Penal desde 1940. Depois da negativa do hospital, procurou o sistema de justiça, o que elas encontraram foi mais violência. Dois dias depois da matéria que denunciou o ocorrido, a juíza foi removida do caso porque, coincidentemente, estava em processo de promoção. O caso lembra a história de Cícera Fernandes de Oliveira, que em 1980 buscou o mesmo direito para a filha de 12 anos, estuprada pelo padrasto e que teve de levar a gestação a termo por falha do Estado brasileiro. Quarenta anos depois, retrocedemos.

Antes mesmo de que as notícias sobre a juíza de Santa Catarina esfriassem, outro vídeo nos horrorizou: a procuradora do município de Registro, no interior de São Paulo, foi espancada pelo colega de trabalho e toda a agressão, filmada. Ao desferir golpes, chutes e tapas contra a mulher, ele a xingava com termos machistas. A imagem da procuradora com o rosto ensanguentado estampou jornais. Três dias depois, o agressor foi levado para um hospital psiquiátrico.

Como o país não nos permite descansar entre uma tragédia e outra, logo depois ganhou repercussão um vídeo do RJTV no qual uma senhora acompanhada de seu neto chora ao ser entrevistada, conta à repórter – também emocionada – que no domingo anterior sua família não tinha absolutamente nada para comer, perdeu o marido e uma filha no último ano e estava na fila do projeto municipal que distribui refeições porque passava fome. Pergunto-me como ela perdeu o marido e a filha, se foi para a Covid. No Brasil de quem sobreviveu à pandemia, o prêmio é a fome? Mais de 33 milhões de brasileiros estão na mesma situação e mais da metade da população vive algum nível de insegurança alimentar em 2022.

O que essas três cenas têm em comum? Abuso sexual e revitimização são violências. Agressão física e psicológica são violências. Fome e violação de direitos básicos, como alimentação, são violências. As três histórias que ganharam visibilidade essa semana têm como alvo mulheres e crianças, vítimas não apenas de seus agressores diretos, mas também, dos sistemas de saúde, justiça e assistência social que falharam com elas, com todas nós. Vítimas de um modo de governar que promove a morte.

Uma criança abusada não ter acesso a um atendimento humanizado e a um direito previsto há décadas não é uma situação excepcional. A juíza, apesar dos requintes de crueldade da audiência, não é a única. Há pelo menos uma década conservadores, fundamentalistas e a extrema-direita têm travado uma cruzada ideológica que se deslocou da sociedade civil para as instituições. Nesse processo, promoveram pânico moral, ataque sistemático aos direitos humanos e, uma vez com acesso ao poder, implementaram um processo de desmonte de políticas públicas que garantiam o mínimo. Apenas para ilustrar, em maio deste ano o Ministério da Saúde publicou a nova caderneta da gestante, estimulando práticas que são notadamente reconhecidas como violência obstétrica. Os retrocessos na política de saúde, criada em 1984 como Política de Atenção Integral à Saúde da Mulher, são significativos, e a cada caso de falha na assistência à saúde, o quadro se agrava.

Da mesma forma, o governo de extrema-direita que hoje está no poder vem desmontando as políticas de direitos das mulheres e minorias, não apenas através da criação de programas ineficientes e encerrando ações historicamente reconhecidas como efetivas, mas também, devido à paralisia na gestão. Levantamento da revista Gênero e Número revela que apenas 56,5% dos recursos disponíveis para as mulheres foram efetivamente gastos até novembro passado pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, apesar do aumento de verbas destinadas à pasta.

Política pública não é apenas o que o Estado faz, é também o que deixa de fazer. A cultura de violência é reforçada quando não há políticas públicas eficientes de promoção da paz e em defesa das mulheres e crianças. O agressor da procuradora de Registro é o responsável direto pela violência, no entanto, a ausência de políticas de prevenção à violência contra mulheres e o incentivo ao machismo e à misoginia promovido pelo presidente e seus apoiadores têm peso no cenário de insegurança que vivemos.

E por fim, o aumento da pobreza e da fome no Brasil, que violenta de forma ainda mais grave mulheres e crianças, é responsabilidade também do governo federal. O fim do Bolsa Família, programa de combate à pobreza internacionalmente reconhecido e de eficiência cientificamente comprovada, com sua substituição pelo Auxílio Brasil – programa ainda mais focalizado, esteve acompanhado do crescimento no número de pessoas em situação de pobreza e vulnerabilidade. A alimentação é um direito humano, é a garantia básica de dignidade, e é sob o atual governo que metade do povo brasileiro está vivendo sem esse direito.

Diante das notícias sinto o que não consigo nomear: o insuportável de ser mulher no Brasil. Não há garantia alguma de nossa integridade como seres humanos, não há segurança para as mulheres e seus filhos. Silvia Federici, historiadora italiana, argumenta que há “um estado de guerra permanente contra as mulheres” sustentado pela desvalorização da vida e trabalho, impulsionado pelo processo de globalização. A misoginia, o ódio às mulheres, atravessa as relações sociais e se manifesta também nas instituições políticas. Rita Segato, antropóloga argentina, aponta que vivemos “novas formas de guerra” nos modos atuais de violência que têm como alvo os corpos das mulheres e o que persiste é a dimensão colonial, um regime de apropriação que radicaliza a forma colonial da violência.

O Brasil que é insuportável para mulheres hoje descende do projeto de colonização através da apropriação, escravização, extermínio, violência, tortura e estupro. Projeto atualizado na ditadura e que tem diversos braços nos diferentes territórios, desde o encarceramento e genocídio da população negra, passando pela exploração de terras indígenas, assassinatos e violações dos povos originários, tradicionais e ativistas ambientais, até o agravamento da violência contra mulheres. Não creio que toda essa cadeia de violações seja ingênua ou casual, me parece um projeto de sociedade excludente que atualmente ganhou fôlego para ser executado, e consequentemente, nos executar.

Por mais que seja óbvio enxergar apenas a primeira camada de responsabilidade pela violência, ou seja, daquele que a pratica diretamente, é preciso escavar as dimensões invisíveis que a História revela. O século XXI parece não ter chegado para nós, vivemos num limbo temporal perverso, uma espécie de máquina do tempo que nos coloca diante das mesmas violências de nossas antepassadas. O temor me sobressalta, o que virá depois? Nos proibir de ir à escola, de possuir algo em nosso nome, condenar-nos à fogueira? Margaret Atwood, que escreveu “O Conto da Aia” e é conhecida por suas distopias a partir de fatos históricos, precisa ser uma obra de ficção e não um um prenúncio aterrorizante do que o Brasil vai se tornar.

[Fonte: http://www.estadao.com.br]

À l’annonce des résultats de la présidentielle, une femme fond en larmes lors d’un rassemblement de partisans de Jair Bolsonaro, à Rio de Janeiro, le 30 octobre 2022 au soir. Andre Borges/AFP

Écrit par Bruno Ronchi

Doctorant en science politique, Université de Rennes 1

Lucas Camargo Gomes

Doctorant en sociologie, Université Federal du Paraná, Universidade Federal do Paraná (Brésil)

Lula vient de remporter d’une courte tête le second tour de l’élection présidentielle au Brésil face au président sortant, Jair Bolsonaro, à l’issue d’une campagne émaillée de troubles jusqu’au dernier jour.

Cette campagne extrêmement tendue aura confirmé l’emprise durable du bolsonarisme sur la société brésilienne.

En effet, malgré la résurgence de l’insécurité alimentaire, les presque 700 000 décès provoqués par la pandémie de Covid-19 et la hausse de la déforestation, Jair Bolsonaro et son gouvernement ont conservé tout au long de son mandat une forte popularité auprès d’une partie importante de la population. Le dernier sondage Datafolha organisé avant le scrutin indiquait que 38 % des Brésiliens considéraient le gouvernement « bon » ou « très bon », tandis que 22 % le jugeaient « moyen » et 39 % « mauvais » ou « très mauvais ».

Si le débat reste ouvert, les recherches en cours montrent que l’adhésion aux idées bolsonaristes peut s’expliquer par plusieurs facteurs, le premier étant la stratégie de communication du désormais ex-président. Malgré les critiques récurrentes des médias traditionnels à l’égard de Bolsonaro et de son gouvernement, le bolsonarisme parvient à créer un circuit d’informations indépendant, étendu et perméable, notamment sur Internet.

Envers et contre tous

Le contenu reproduit par ces moyens de diffusion contribue lui aussi au maintien du bolsonarisme. Malgré ses divergences internes, le discours bolsonariste conçoit le leader et ses partisans comme des soldats dans la lutte contre « le système ». Ce « système » comprend, entre autres, les établissements d’enseignement supérieur, les institutions judiciaires, les ONG nationales et internationales, et même les Nations unies.

De ce fait, toute critique émanant de ces institutions et de leurs membres voit sa légitimité remise en cause, ce qui contribue à justifier les difficultés que rencontre le gouvernement dans la mise en œuvre de ses politiques.

En outre, le discours bolsonariste insiste sur la nécessité de moraliser la société brésilienne. Cette moralisation ravive la mémoire des scandales de corruption qui ont éclaté durant les gouvernements du Parti des travailleurs et exalte les valeurs traditionnelles – comme en témoigne le slogan bolsonariste souvent répété, « Dieu, patrie et famille ». Dans ce contexte, l’utilisation de symboles nationaux et religieux renforce l’effet de moralisation, éveillant des sentiments tels que la peur et la haine.

Un soutien de Lula marche dans la direction opposée aux militants pro-Bolsonaro (en jaune) à Brasilia, le 30 octobre 2022

Un partisan de Lula marche dans la direction opposée aux militants pro-Bolsonaro (en jaune) à Brasilia, le 30 octobre 2022. Evaristo Sa/AFP

De surcroît, il est important de souligner le soutien économique et moral apporté à Bolsonaro par certains secteurs, comme une partie des Églises évangéliques (en particulier pentecôtistes), de l’agrobusiness, du monde de l’entreprise, de la police et de l’armée.


Une représentation restreinte du peuple

L’enracinement du bolsonarisme dans la société brésilienne passe dans une large mesure par la construction d’une certaine représentation du peuple. Reposant sur la figure du « bon citoyen », le peuple que Bolsonaro et son camp entendent représenter se construit avant tout par opposition aux représentations faites de l’ennemi commun bolsonariste, incarné par la gauche.

Dans une perspective de lutte du bien contre le mal, les autres sont ici les « vagabonds », qu’ils soient intérieurs – tous ceux qui menaceraient l’intégrité des Brésiliens et de leurs familles – ou extérieurs – en ce sens, les nombreuses comparaisons avec les pays d’Amérique latine gouvernés par des partis de gauche servent à mettre en garde contre leur retour au pouvoir.

Dans ce contexte, Lula apparaît comme la personnification de cette contre-image, soudant le « nous » bolsonariste autour d’un rejet profond. On lui attribue notamment la volonté de détruire les familles brésiliennes – sur fond de lutte contre « l’idéologie du genre », associée à la « sexualisation des enfants » – et de persécuter les chrétiens, au risque de voir leurs temples fermés – en invoquant l’exemple du Nicaragua.

Panique morale autour de Lula

On fustige également les politiques de lutte contre la pauvreté mises en œuvre par le Parti des Travailleurs en y voyant une forme de manipulation électorale – même si Bolsonaro cherche à mettre en avant sa propre « générosité » à l’égard des bénéficiaires de ces mêmes politiques. De plus, on présente Lula comme le candidat « du système », soutenu à la fois par les grands médias et par les institutions chargées de réguler les élections – en particulier le Tribunal suprême électoral, représenté dans la personne de son président, le ministre Alexandre de Moraes.

Avec la panique morale créée autour du camp Lula, se développe l’idée que le Brésil est spirituellement malade, car dominé par des forces maléfiques. Bolsonaro apparaît alors comme le seul à pouvoir lutter contre ces forces et à « guérir » le Brésil en le débarrassant d’un système profondément corrompu.

Des personnes regardent le débat Bolsonaro-Lula dans un bar

Le 16 octobre, le débat d’avant le second tour entre Lula et Bolsonaro, ici diffusé dans un bar de Brasilia, a été particulièrement houleux. Bolsonaro a notamment traité son adversaire de « bandit » et s’est demandé s’il faudrait « l’exorciser pour qu’il arrête de mentir ». Evaristo Sa/AFP

Ce discours sous-tend une forme de rapprochement avec les électeurs, marquée par la mise en valeur de l’authenticité et de la simplicité comme des qualités intrinsèques du leader et du peuple qu’il entend représenter. L’emploi de termes vulgaires, la revendication du sens commun contre un certain intellectualisme perçu comme élitiste, ou encore son style vestimentaire traduisent une représentation quelque peu caricaturale du « citoyen ordinaire ».

Le poids de l’électorat populaire

D’après les derniers sondages (Datafolha, 28 octobre 2022), les électeurs dont le revenu familial est inférieur ou égal à deux smic brésiliens (environ 460€) ont tendance à voter pour Lula (61 % Lula, 33 % Bolsonaro). Cet écart se reproduit dans la plupart des strates où les classes populaires sont majoritaires, comme parmi les électeurs qui se déclarent noirs (60 % contre 34 %), les moins diplômés (60 % contre 34 %) et ceux qui habitent dans la région du Nord-Est, la plus pauvre du Brésil (67 % contre 28 %). Malgré cela, dans un pays où 48 % des électeurs ont un revenu familial inférieur ou égal à deux smic, le soutien de l’électorat populaire reste fondamental pour le maintien du potentiel électoral de Bolsonaro.

Ce potentiel peut s’expliquer en partie par l’appui dont il bénéficie auprès des évangéliques. Pour autant, le camp évangélique, qui en 2018 était fortement favorable à Bolsonaro (près de 70 % des voix), est devenu aujourd’hui un camp disputé, comme le souligne Esther Solano. Cette professeure de relations internationales à l’Université fédérale de São Paulo observe que certains fidèles manifestent leur insatisfaction quant à l’instrumentalisation de leur religion à des fins politiques et note l’existence de ce qu’elle appelle le « pentecôtisme oscillant » entre Lula et Bolsonaro. Selon la chercheuse, une partie des fidèles des Églises pentecôtistes regrettent d’avoir soutenu Bolsonaro, soit en raison du manque de prise en charge de la population pendant la pandémie, soit en raison de leur désespoir économique.

Outre les questions religieuses, le discours bolsonariste paraît trouver une certaine résonance dans la révolte des classes populaires face à la criminalité – plus intense dans la périphérie des grandes villes et dans les zones rurales. Face à cette colère, la réponse est une proposition répressive, que ce soit par la police ou par les citoyens – devenant alors libres de porter des armes à feu.

De plus, le discours bolsonariste met en valeur l’importance de la corruption comme clé explicative de tous les problèmes. Cela contribue à la construction d’une image de l’État en tant qu’obstacle à l’épanouissement individuel et collectif – raison pour laquelle, de ce point de vue, les fonctions publiques devraient être confiées au secteur privé, affirmait Paulo Guedes, le ministre de l’Économie de Bolsonaro.

Les effets à long terme

Au vu de l’enracinement bolsonariste dans la société brésilienne, il est important d’envisager les effets à court et à long terme qu’il a produits sur cette jeune démocratie. Les attaques incessantes dirigées vers les autres pouvoirs, en particulier la Cour suprême, accentuent la méfiance à l’égard des institutions dont la mission est de sauvegarder l’État de droit. Ancré dans la Constitution de 1988, dont la promulgation scelle la fin de la dictature militaire, ce cadre institutionnel affichait des signes de corrosion bien avant l’arrivée de Bolsonaro au pouvoir.

Face à la succession de crises et de reconfigurations survenues depuis la dernière décennie, marquée par la destitution de Dilma Rousseff en 2016, ainsi que par de nombreux scandales de corruption, le mécontentement généralisé devient de plus en plus palpable. Le bolsonarisme apparaît alors comme l’expression de l’antipolitique, partant de l’idée que tous ceux qui se soumettent au système sont corrompus. Une construction non dépourvue de contradictions – étant donné la longue trajectoire de l’ancien capitaine en tant que député, et surtout le fait que lui aussi est amené à faire alliance avec de vieilles forces politiques pour se maintenir au pouvoir –, mais très puissante dans une société traversée par des scandales et un certain discours moralisateur.

Les scénarios qui se dessinent pour l’avenir de la démocratie brésilienne ne laissent pas entrevoir un « retour à la normalité démocratique » facile à opérer. Le phénomène observé actuellement se caractérise bien davantage par la déstructuration d’un cadre institutionnel historiquement situé qui montrait déjà ses limites.

Même si la victoire de Lula était acceptée par Bolsonaro et ses partisans, il faudrait un travail de fond du nouveau gouvernement pour se réadapter aux nouvelles méthodes d’action politique, face à une opposition bolsonariste qui sera sans doute féroce et déterminée à revenir au pouvoir au plus vite.

 

[Source : http://www.theconversation.com]

Alfaguara. Barcelona, 2022. 304 páginas. 18,90 €. Libro electrónico: 8,99 €. Recopilación de excelentes artículos del autor de novelas inolvidables como “Todas las almas” o “Tomás Nevison”. La mirada lúcida, incisiva, independiente del escritor recientemente fallecido pasa revista a un sinfín de asuntos de una sociedad asfixiada por la tiranía de lo políticamente correcto y la cultura de la cancelación.

Escrito por Adrián Sanmartín

La reciente desaparición de Javier Marías (Madrid, 1951-2022) ha supuesto una enorme e irreparable pérdida para las letras españolas. Candidato al Nobel, académico leyó su discurso de ingreso, “Sobre la dificultad de contar”, el 27 de abril de 2008-, traductor y editor -fundó la exquisita editorial Reino de Redonda-, sus padres Julián Marías -discípulo de Ortega y Gasset-, y Dolores Franco le proporcionaron una sólida educación. Al igual que en su trayectoria fueron claves algunas figuras, sobre todo la del escritor Juan Benet. Javier Marías tiene en su haber una de las obras más brillantes de nuestra literatura, desde que se dio a conocer en 1970 con Los dominios del lobo. Después, entre otros títulosle siguieron El monarca del tiempoEl sigloTodas las almas –que relata la vida de un profesor español en la universidad de Oxford, puesto que ocupó el propio Marías-, y Corazón tan blanco, que obtuvo un gran éxito de crítica y público dentro y fuera de nuestras fronteras. Así, el influyente crítico alemán Marcel Reich-Ranicki le dio un espaldarazo definitivo, considerándolo uno de los autores imprescindibles. Luego, entre otros novelas, Mañana en la batalla piensa en mí –título tomado de una pieza de Shakespeare, algo que Marías hace con frecuencia, en este caso de Ricardo III-, la monumental trilogía Tu rostro mañanaAsí empieza lo malo, y su última propuesta antes de que nos lo arrebatara la muerte, Tomás Nevinson, interrelacionada con la anterior Berta Isla, aunque pueden leerse de manera independiente.

Pero, además de un extraordinario novelista, Javier Marías fue un magnífico cuentista, ensayista y articulista. Da cumplida cuenta de esta última faceta el volumen ¿Será buena persona el cocinero?, donde se recogen los noventa y cinco trabajos publicados por Marías en el suplemento dominical El País Semanal, del que era habitual colaborador, entre el 3 de febrero de 2019 y el 24 de enero de 2021.

En esta recopilación podemos disfrutar de un Javier Marías incisivo, irónico, con un saludable sentido del humor y que pulveriza la tiranía de lo políticamente correcto. Aunque también aparece un Marías íntimo, que comparte con sus lectores su música, sus autores, películas y libros preferidos, y recuerda a sus amigos o a sus padres. A estos últimos, por ejemplo, en el maravilloso artículo “Pero ojalá estuvieran”, tan entrañable como carente de sensiblería.

Variados son los asuntos que se abordan los artículos, pasando revista a la sociedad actual, incluida la pandemia, y a algunos de sus fenómenos como las redes sociales y su gran poder, la propagación de las noticias falsas, la manipulación de los políticos, el MeToo, la ciudad de Madrid… Marías denuncia con valentía las contradicciones, la irracionalidad, el infantilismo… que cada vez se hacen más fuertes.

Impagable es el artículo que titula el conjunto. En “¿Será buena persona el cocinero?”, Marías pone el dedo en la llaga de una cuestión que ha alimentado la dictadura de la cancelación al ligar de manera absoluta la obra con la personalidad, la ideología… de su autor: “A menudo se dice -una vieja superstición- que los artistas tienen un lado oscuro, y se los pinta como a seres más bien desagradables o pesadísimos: atormentados, iracundos, histéricos, engreídos, despóticos, abusivos. Se les suele achacar una vanidad excesiva que a veces los lleva a creerse por encima de las leyes y de las demás personas, y a permitirse actitudes y acciones que a cualquier otro se le reprobarían. Yo creo que los artistas no se diferencian apenas del resto, de los funcionarios, los zapateros y los relojeros, los profesores, los jueces y los médicos. El problema es que sobre ellos hay un foco y una lupa: hoy se estudian sus trayectorias de manera exhaustiva, por lo general en busca de aspectos y episodios escandalosos, condenables y feos. Y cuando se rasca se descubre, desde luego, porque no ha habido mujer ni hombre que hayan pasado por el mundo sin tacha, sin incurrir en alguna indignidad o bajeza a lo largo de sus días. Lo mismo el escritor que el zapatero, el pintor que el relojero, el juez que el músico. La cuestión es que nadie se dedica a indagar en la vida de un juez o un relojero”.

Marías concluye con una evidencia de esas que, sin embargo, hoy parece más que necesario poner de relieve: “Una cosa es la persona y otra su obra, que no por fuerza está teñida por las peores pasiones de aquélla”.

Un estilo claro, preciso, certero contribuye a una lectura que se saborea y disfruta.

 

[Fuente: http://www.elimparcial.es]

«Faits divers et vies déviantes», «Démons du crime» et «L’Arsène Lupin des galetas» nous plongent dans les différentes représentations des malfrats et des faits divers au fil des siècles.

Le truand est à la fois le mauvais genre, le repoussoir et un modèle littéraire. | Fondo Antiguo de la Biblioteca de la Universidad de Sevilla via Wikimedia Commons

Le truand est à la fois le mauvais genre, le repoussoir et un modèle littéraire. | Fondo Antiguo de la Biblioteca de la Universidad de Sevilla  via Wikimedia Commons

Écrit par Sylvain Boulouque — édité par Natacha Zimmermann 

L’époque hyper médiatisée veut que l’on soit entré dans une nouvelle forme de société violente: les statistiques et les enquêtes sociologiques ne semblent rien pouvoir faire contre l’anecdote érigée en règle. Pour s’élever, voici quelques ouvrages récemment parus qui viennent montrer que le rapport à la criminalité a beaucoup évolué à travers les âges, loin des stéréotypes contemporains.

Parmi eux, Faits divers et vies déviantes​–XIXe-XXIe siècle, du collectif Roy Pinker regroupant des historiens ayant choisi de mettre en perspective un sujet de société grâce au réexamen –un pseudonyme emprunté au groupe de journalistes de la revue d’enquête policière Détective. Leur livre​ est aussi un clin d’œil et un hommage à Dominique Kalifa, historien disparu en 2020, spécialiste du bagne, du fait divers et de la criminalité. Le collectif explore ce sujet comme un moyen de comprendre la société. Leur lecture éclaire aussi l’image que cette dernière cherche à renvoyer d’elle-même.

Les affaires présentées sont parfois incongrues, mais souvent révélatrices. La violence de ces histoires ferait aujourd’hui les choux gras des médias et réseaux sociaux; elles étaient hier une brève dans la presse, y compris dans les journaux consacrés aux faits criminels. Pour l’anecdote, il est notamment possible de lire le récit d’une femme qui tue son chien en le prenant pour son mari. Ou celui de deux sergots croisant involontairement, au cours d’une ronde de nuit, un homme dont le corps se consume sans qu’ils n’arrivent à comprendre ce crime mystérieux.

Plus loin, des têtes décapitées qui continuent, selon la presse, à parler viennent nous faire comprendre le poids des représentations de l’autre monde. On observe également, à travers l’histoire du coupeur de nattes du Trocadéro, une des pratiques fétichistes de la fin du XIXe siècle, mais aussi une réalité plus prosaïque: un coupeur peut spéculer sur le dos des victimes, la vente de cheveux rapportant de l’argent. Ces pratiques criminelles interrogent sur le sens qu’il faut donner aux meurtres, assassinats, vols et autres rapines.

Faits divers et vies déviantes–XIXe-XXIe siècle

Roy Pinker

CNRS éditions

320 pages

24 euros

Sortie le 15 septembre 2022

 

«Démons du crime», la figure ambiguë du truand

Dans un livre touffu et foisonnant issu d’une thèse, Vincent Platini examine quant à lui les formes de la criminalité entre les deux guerres et son traitement à travers la littérature et le cinéma en France, en Allemagne et aux États-Unis. Le truand était et demeure une figure ambiguë, à mettre en regard avec celle du policier. Il est dans le même temps le mauvais genre, le repoussoir et un modèle littéraire. Il est l’interdit et constitue l’image de la transgression, comme Pépé le Moko qui sort de la Casbah, qui transgresse les valeurs de classe.

La littérature laisse le truand à la marge de la société, pour ne pas permettre une identification totale. La norme sociale veut que les classes laborieuses ne puissent plus être assimilées aux classes dangereuses. Il faut donc passer du mythe des Apaches et de la zone, à la construction d’un voyou qui assimile les normes de la société, mais qui ne peut l’intégrer que s’il se plie à ses règles.

Vincent Platini montre que dans le cas contraire, le truand, rétif à l’ordre social, est exécuté par la littérature ou le cinéma. La littérature permet de mettre à distance la violence sociale. Le truand devient alors un moyen de contrôle, l’illégalité fait figure de construction repoussoir, à l’exception de ceux qui conservent une passion pour les marges et les marginaux.

Démons du crime–Les pouvoirs du truand dans l’entre-deux-guerres

Vincent Platini

Garnier

584 pages

45 euros

Sortie le 15 juin 2022

«L’Arsène Lupin des galetas», anarchiste cambrioleur

C’est ce que propose Phil Casoar dans la biographie de Raoul Saccorotti, un gentleman cambrioleur. Il évoque, de proche en proche, la vie d’Alexandre Marius Jacob, le visage originel d’Arsène Lupin, qui ne rechignait pas à la violence pour prendre aux riches et donner aux pauvres.

Alexandre Marius Jacob est né en 1879 et mort en 1954. Entre 1900 et 1903, avec sa bande, les Travailleurs de la nuit, il dévalisa nombre de maisons bourgeoises quitte à parfois jouer du pistolet. Arrêté en 1903, il fit de son procès, deux ans plus tard, une tribune pour dénoncer les inégalités sociales, avant d’être condamné au bagne. Le banditisme social est marginal dans la criminalité. Mais Jacob à lui seul est un phénomène suffisamment original pour que lui soit consacrées des études universitaires multiples.

Raoul Saccorotti est de la même trempe. Né en 1900 à Rome, il multiplie les larcins, tâte à plusieurs reprises les paillasses humides des cachots, avant de se réfugier en France. Si un migrant riche paraît louche à la majorité des Italiens installés dans l’Hexagone, ce n’est pas le cas dans les milieux interlopes de la mouvance libertaire, qui ont vite compris que l’argent n’a pas forcément d’odeur et qui ne sont pas mécontents de voir financer la cause. Surtout quand l’argent est repris au capital et permet d’acheter des armes pour les anarchistes espagnols entre 1936 et 1938, afin de les aider à combattre Franco. Arrêté en 1939, Saccorotti est livré à l’Italie en 1943. C’est la fin du premier épisode.

Il est suivi d’une second, tout aussi rocambolesque. Raoul Saccorotti se fait passer pour un agent de la police infiltré dans les milieux antifascistes et réussit à se faire libérer et à faire oublier son passé sulfureux. Il rejoint alors les réseaux anticommunistes, dans lesquels il retrouve de vieilles connaissances issues du milieu libertaire. Destin d’un cambrioleur hors normes, qui comme souvent chez les libertaires révèle surtout l’amour passionné de la culture de soi-même, assez éloignée de la réalité du monde du crime.

L’Arsène Lupin des galetas–Une vie rocambolesque qui épouse les chaos du siècle passé

Phil Casoar

Cerf

584 pages

25 euros

Sortie le 25 août 2022

 

[Source : http://www.slate.fr]

L‘immarcescible petit garçon a enfin droit à un film digne de lui: un dessin animé qui honore la légèreté du trait de Sempé et de l’humour de Goscinny, ses créateurs, avec lesquels il dialogue

Le Petit Nicolas ou l’enfance éternelle selon Sempé (dessin) et Goscinny (textes). — © Ascot Elite Entertainment Group

Écrit par Antoine Duplan

Le cinéma est un art trop lourd pour lui, le Petit Nicolas en a fait à trois reprises l’expérience, avec Le Petit Nicolas (2010) et Les Vacances du Petit Nicolas (2014), de Laurent Tirard, puis Le Trésor du Petit Nicolas (2021), de Julien Rappeneau, films sucrés, bébêtes, pleins de gosses propres sur eux, de tendresse frelatée et de démagogie. De purs contresens à l’œuvre de Sempé et Goscinny. Le Petit Nicolas – Qu’est ce qu’on attend pour être heureux? se démarque avec bonheur de ces produits. Pas de têtes à claques juvéniles pour incarner Agnan, Eudes et Clotaire, pas de scénario prétexte pour tenir ensemble quelques saynètes gnangnan, ni même l’animation numérique de la série télévisée: tenant de l’hommage, ce film inespéré renoue avec la céleste élégance du graphisme léger, si léger de Sempé pour raconter une demi-douzaine d’histoires sur les 222 que compte l’œuvre et célébrer ses créateurs.

Dans un Paris qui est celui de Prévert et de Doisneau, Jean-Jacques Sempé (voix de Laurent Laffite) file sur son vélo jusqu’à la terrasse d’un café, entre Montparnasse et Saint-Germain-des-Prés, retrouver son ami René Goscinny (voix d’Alain Chabat). Dans son cartable, il a le dessin d’un petit garçon qui plaît au scénariste. Ils lui cherchent un nom: ce sera Nicolas, comme le pinardier. À travers lui, ils vont procéder à une évocation de l’enfance qui, quelque 65 ans plus tard, reste fraîche comme au premier jour malgré tous les bouleversements que la société a connus.

Enfance heureuse

Ça y est, on l’a! – Nicolas parle de la télévision – est le premier des récits rapportés par le film. Suivent la visite de mémé, la photo de classe, une récré avec le Bouillon et un tas de sable, le cours de dessin, l’irruption de Louisette et de Marie-Hedwige dans le gang des garçons sur lesquels elles produisent un drôle d’effet en dépit de leurs préjugés («les filles, c’est bête et ça veut tout le temps jouer à la marchande…»), le jour où Nicolas et Alceste sèchent l’école et les vacances balnéaires avec un moniteur qui tourne chèvre…

Nicolas sort de la fiction à plusieurs reprises pour dialoguer avec son scénariste et son dessinateur. Tel un lutin, il se balade sur la table et la machine à écrire de Goscinny. Celui-ci lui raconte son enfance en Argentine, ses débuts comme dessinateur à New York où il croise des pointures comme Harvey Kurtzman, fondateur du magazine Mad, mais aussi la France occupée et ses oncles déportés, ces ombres qu’il a conjurées par le rire avec Astérix, Lucky Luke, Iznogoud… Au jardin des Tuileries, Sempé évoque ses mornes jeunes années, les torgnoles qu’il prenait de sa mère, et l’amour qu’il portait à son grand-père, sa passion pour le jazz – Duke Ellington est son idole – et le sport. Il se réjouit d’avoir vécu une enfance heureuse par le truchement du petit bonhomme de papier.

René Goscinny est décédé en novembre 1977, à l’âge de 51 ans, et Jean-Jacques Sempé le 11 août de cette année. Leur Petit Nicolas est éternel. Il nous enchante à jamais, il nous guérit du temps qui passe, tout en attisant la nostalgie des Trente Glorieuses quand l’avenir semblait prometteur. Pour raviver le souvenir des enchanteurs défunts, on peut écouter Ray Ventura chanter Qu’est-ce qu’on attend pour être heureux?, cette chanson que Sempé aimait et qu’il a si bien su traduire en dessin.


Le Petit Nicolas – Qu’est-ce qu’on attend pour être heureux?, d’Amandine Fredon et Benjamin Massoubre (France, Luxembourg, 2022), 1h22.

[Source : http://www.letemps.ch]

Su obra refleja el ambiente criollo en el que vivió, así como la temática humana heredada de autores europeos a los que admiraba: Pirandello, Proust o Unamuno. Marta Brunet fue diplomática y educadora, plasma sus recuerdos y vivencias en una obra poligráfica reconocida y premiada por la crítica posterior.

 

Escrito por PILAR ÚCAR VENTURA

Marta Brunet Cáraves​, nace en Chile en 1897, hija de madre española, recibe una educación en su propia casa, en la finca particular de sus padres, conservadores, inmersa en un ambiente rural y agrario que describirá a lo largo de su producción literaria. Precoz narradora y muy original en su estilo, comienza escribiendo teatro a los siete años y fantasea con la idea de un público animalario que observa lo que se representa en su función.

En sus años de adolescencia, emprende un viaje familiar que la llevará por diferentes países de Europa hasta recalar en España, en concreto en las regiones de Asturias y Cataluña para conocer a su familia materna. Tras la Primera Guerra Mundial, regresa a su país y comienza la publicación de cuentos, con el seudónimo de Miriam, hasta que se decide a hacerlo con su propio nombre en la novela Montaña Adentro (1923) que le valió ser aclamada por la crítica de su tiempo, aunque no exenta de polémica por parte de la sociedad más reaccionaria que veía atacados sus principales valores, al tratar el tema de la maternidad en soledad. Gabriela Mistral encomió el libro sin paliativos ni fisuras.

Con su madre enferma mental y después de morir su padre, se traslada a vivir a Santiago y se dedica a publicar artículos de cocina o quiromancia en periódicos como El Sur y La Nación, por ejemplo.

Destaca la precisión y minuciosidad en la técnica descriptiva que despliega para “pintar” tanto a sus criaturas literarias como paisajes y naturaleza que los envuelve.

Premiada y reconocida, continúa imparable su labor como escritora durante las siguientes décadas Reloj de Sol, La hermanita hormiga, Cuentos para Marisol entre otros títulos. Avanzan los años treinta y cuarenta…

Combina esta profesión con la de actriz y con posterioridad va a ejercer responsabilidades diplomáticas en Buenos Aires, Brasil y Montevideo, donde muere en 1967 el día en que incorporada a la Academia Nacional de Letras de Uruguay, impartía su discurso de agradecimiento al público: en aquel momento se desplomó, víctima de un ataque cerebral.

Algunos títulos famosos son Don Florisondo, Bestia dañina, María Rosa, flor de Quillén; la colección de cuentos Aguas Abajo. Recibió el Premio Nacional de Literatura en España en 1961, segunda mujer en obtener dicho galardón, después de Gabriela Mistral, amiga personal de la autora.

Su herencia literaria se destinó a la Universidad de Chile con el objeto de crear una beca para apoyar al Liceo de Niñas y al Liceo de niños de Chillán.

Hoy distintas escuelas e instituciones llevan su nombre en recuerdo de la labor educativa que desarrolló a lo largo de su vida.

 

[Fuente: http://www.todoliteratura.es]

 

 

Prezentado por Dora NİYEGO

Los emigrantes judios fueron los fondadores de los prensipales studios de Hollywood. Kualo enspiro tantos judios a unirsen a la endustria sinematografika temprana i kualo fue su influensa a la kultura de los Estados Unidos? Munchos de estos judios eran vinidos de vodevil i del komerso de vistimyenta; dos endustrias ke los judios eran permetidos de azer.

Los teatros de vodevil prezentavan spektakulos de modos diferentes: un kantador, un akto de animales, un palyacho etc. Los teatros de los barrios de emigrantes aparejavan spektakulos en diferentes linguas, inkluzo yiddish. Estos spektakulos eran atraktivo para los emigrantes i los presios de las entradas eran baratos. La klase alta kristiana, desdenyavan el vodevil. Los kristianos no izyeron nada para mantener los empresarios judios afuera del negosio.

Munchos de los emigrantes judios ke teniyan abilidades de kustura, prosperaron de manera similar en la industria de la konfeksion. No aviya menester de muncha kapachedad, ni paras para avrir una chika fabrika de ropa.

Kuando se introduizaron los filmos a la fin de la dekada de 1890, el sukseso de esta mueva endustria teniya menester munchas de las mizmas abilidades ke el vodevil i el komersio de vistimyenta. El arte de vender era lo mas emportante: los produktores de sinema teniyan menester de vender sus filmos a los patrones de los sinemas, i los patrones de los sinemas kaliya ke vendyeran los biletos al publiko. Por egzemplo, Carl Laemmle vendiya ropa antes de fondar Universal Pictures. Adolph Zukor vendiya kueros antes de fondar Paramount Pictures, i Jesse Lasky, uno de los haveres de Paramount, era un trompetisto de vodevil. I uvo munchos otros, komo Shmuel Gelbfisz ke troko su nombre a Samuel Goldwyn kuando desho el echo de vender guantes i entro al negosio del sinema.

Estos empresarios judios-amerikanos tuvieron sukseso porke los filmos se izyeron muy populares. Los kristianos rikos no kijeron ver estos filmos. La djente ke se ivan al sinema eran los lavorantes i los emigrantes: las entradas eran baratas i komo no aviya avlar en los filmos, no era menester de saver linguas. La klasa elit kultural estava pensando ke esto iva ser una moda pasajera. Las enstitusiones katolikas estavan diziendo ke los filmos ivan a tener una influensa korruptura al publiko. Ma, los judios no estavan afektados de nada. Eyos estavan afektados solo por el antisemitizmo. Eyos keriyan abrasar el publiko entero i deshar atras el antisemitizmo del Viejo Mundo.

Los patrones de las kompanyias de produksion keriyan engrandeser sus kompanyias. El chiko studio Metro Pictures se adjunto kon Goldwyn Pictures, i el nombre se troko, se izo Metro-Goldwyn-Mayer.

Los studios de Hollywood minimizaron las diferensias kulturales i relijiozas. A la fin, los filmos se konvertieron en una mueva identidad kultural omojena ke iva abrasar el publiko entero. Los filmos prezentaron una vizion de ‘Great Melting Pot’ ke la sosiedad de la Amerika keriya ser. Los empresarios judios finalmente enventaron la kultura de los Estados Unidos del venten siglo.

En la dekada de 1960, los studios de Hollywood estavan aziendo filmos mas karos i mas grandes. Los patrones de los studios vendieron sus kompanyias a kompanyias mas grandes para protejarsen de los rizikos.

Los temas de los filmos trokaron. Los filmos kontaron istorias sovre el amor por la famiya, la sosiedad i el paiz. Istorias sovre komo ganarse la vida onestamente en lavorando duro i administrando su negosio de manera djusta. Istorias sovre protejar los ke no son poderosos i kombatir los tiranos. Istorias sovre la fe, la esperanza, la sanedad, la verdad, la djustisia i el stilo amerikano.

 

[Orijin: http://www.salom.com.tr]

Escrito por DAVID PÉREZ VEGA

Había leído hasta ahora todas las novelas de Michel Houellebecq (Saint-Pierre, isla de La Reunión, 1958), que ya sumaban ocho y, cuando empecé a ver en redes sociales noticias sobre la aparición de la novena, Aniquilación (2022), también quise leerla. Ya he dicho, más de una vez, que el francés Houellebecq me parece, ahora mismo, el gran autor europeo que sabe captar, como nadie, la decadencia del viejo continente.

El personaje principal de Aniquilación es Paul, que tiene cuarenta y nueve años cuando empieza la narración. «Algunos lunes de los últimos días de noviembre, o de principios de diciembre, tenemos la sensación, sobre todo si uno es soltero, de estar en el corredor de la muerte.» Esta es la primera frase del libro y, al acercarse a ella, el lector habitual de Houellebecq empieza ya a reconocer su territorio de desesperación y soledad.

Paul es un burócrata, con un sueldo de 8.000 euros al mes, y que trabaja como asesor, u hombre de confianza, de Bruno, el exitoso ministro de Economía de Francia. Cuando la novela ya lleva un buen número de páginas sabremos que el diciembre, al que se alude en la primera frase, es el del año 2026 y que casi toda la novela va a transcurrir, por tanto, en 2027. Si las últimas elecciones presidenciales en Francia han tenido lugar en abril de 2022, Houellebecq especula en Aniquilación con las siguientes.

El candidato del partido conservador, al que pertenece Bruno, va a ser un presentador de televisión, con un pasado como cómico. Algo que, parece decirnos Houellebecq, resulta ya irrelevante dentro de un mundo en el que la política real se ha vuelto insustancial. Y la función de este presentador, en el tablero político francés, simplemente puede que sea la de abrir las puertas para que sea posible que se vuelva a presentar, y a ganar, el presidente actual, que no puede hacerlo en 2027 porque ya lleva dos legislaciones seguidas, y la ley francesa prohíbe una tercera; así que se trataría, más que nada, de una estrategia de los conservadores para poder mantenerse en el poder.

No es la primera vez en la que las elecciones francesas son importantes en un libro de Houellebecq, ya lo fueron en Sumisión (2015), donde se especulaba con la idea de que un partido islámico llegaba a la presidencia.

Solo hay un elemento, además del juego sobre las próximas elecciones, que nos puede hacer pensar que nos encontramos ante una novela ligeramente futurista: están apareciendo en internet imágenes inquietantes en las que, por ejemplo, se ve cómo se le corta la cabeza al ministro Bruno con una guillotina, y la tecnología con la que está hecha la simulación hace que prácticamente esta farsa se pueda ver como si fuera real. El gobierno, del que Paul forma parte, está tratando de averiguar qué grupo o qué personas se encuentran detrás de la creación de estas imágenes. Pronto, además, este grupo, u otro, se va a dedicar a realizar atentados contra intereses en apariencia difíciles de relacionar (barcos mercantiles, un banco de semen, etc.).

Una de las subtramas de la novela será aquélla en la que Paul, y las personas con las que se relaciona en el trabajo, tratan de averiguar quién está detrás del grupo terrorista que atenta contra estos diversos intereses. Así que, en parte, la novela funciona como un thriller político; aunque es cierto, que más bien este tema del terrorismo acabará actuando como un «MacGuffin» de los que usaba Alfred Hitchcock en sus películas, un elemento que hace avanzar la trama, pero que es tan solo una cortina de humo. Imagino que esta evaporación final de un tema que, a priori, parecía importante para el libro, irritará a más de un lector.

En realidad el tema principal de Aniquilación es el de la muerte, el de la asimilación de la decrepitud y la muerte por parte de las sociedades opulentas y decadentes. No es un tema nuevo en una obra de Houellebecq, pero nunca había sido tan central como hasta ahora. Sin embargo, sí que asistimos en Aniquilación a la desaparición de uno de sus temas más controvertidos y más clásicos: el del deseo sexual insatisfecho. En este sentido, la carrera literaria de Houellebecq empezó en 1994 con Ampliación del campo de batalla que hablaba de un «incel» (abreviatura de «involuntariamente célibe») y de sus frustraciones para encontrar pareja, y seguía en 1999 con Las partículas elementales, donde se habla del tema de la madurez y la insatisfacción del deseo. En El mapa y el territorio de 2010 tal vez hay una escena que puede actuar como bisagra entre el tema sexual de los primeros libros y el de la muerte del último: el personaje va a una ciudad de Suiza, donde están juntos el mayor prostíbulo de Europa y la mayor clínica de eutanasia de Europa, y Houellebecq, con su característico humor doliente, nos cuenta que la segunda empresa tenía más clientes que la primera.

Así que la obra de Houellebecq siempre ha basculado entre los dos temas subconscientes más básicos del ser humano: el eros y el tánatos.

En Aniquilación la idea del deseo sexual insatisfecho, que hace sufrir a los personajes, casi ha desaparecido. Me comentaba alguien en las redes sociales que, posiblemente, se deba a la ingesta de Houellebecq de antidepresivos, que eliminan la libido. Quizás esté en lo cierto.

La novela también nos habla de la relación de Paul con su mujer Prudence. Los dos, desde diez años antes de empezar la narración, duermen en habitaciones separadas y casi no tienen relación ni afectiva, ni sexual, ni de complicidad, ni de nada. La novela abrirá la posibilidad de un tiempo para los dos de volver a conocerse y acercarse. En Aniquilación también se nos hablará de la familia de Paul, con la que este no parece tener mucho apego. Como suele ocurrir en las novelas de Houellebecq, su personaje masculino principal es un hombre distante y analítico, con pocas muestras de afecto hacia los demás. La madre, que era restauradora de arte, murió trabajando ocho años antes, y los hermanos, que son tres, tendrán que volver a juntarse para gestionar la nueva vida de su padre, cuando a este le da un ictus que le deja casi inmovilizado.

La novela está escrita en tercera persona, pero ‒gracias al recurso del estilo indirecto libre‒ el autor cede, en muchas ocasiones, la voz narrativa a Paul. Si bien, casi siempre se nos habla de Paul, el narrador también cederá la palabra en algunas ocasiones a sus hermanos.

Como siempre ocurre en las novelas de Houllebecq, el lector se encontrará con acertados dardos envenenados que se lanzan sobre el comportamiento humano y la decadente sociedad europea. Esto se dice sobre los viejos en las página 374: «La verdadera razón de la eutanasia es que ya no los soportamos, ni siquiera queremos saber que existen, por eso los apartamos en lugares especializados, fuera de la vista de los demás seres humanos. La cuasi totalidad de la gente hoy día considera que la valía de una persona disminuye a medida que su edad aumenta; que la vida de un joven, y más aún de un niño, vale mucho más que la de un anciano. (…) Al conceder más valía a la vida de un niño (siendo así que no sabemos en qué se va a convertir, si será inteligente o estúpido, un genio, un criminal o un santo) negamos todo valor a nuestras acciones reales.

Nuestros actos heroicos o generosos, todos nuestros logros, lo que hemos llevado a cabo, nuestras obras, nada de esto posee ya ningún valor a juicio del mundo y, muy rápidamente, no lo posee tampoco para nosotros. De este modo, privamos de toda motivación y todo sentido a nuestra vida; es, muy concretamente, lo que llamamos el nihilismo. Devaluar el pasado y el presente en beneficio del futuro, devaluar lo real para preferir una virtualidad situada en un futuro incierto, son síntomas del nihilismo europeo mucho más decisivos que todo los que Nietzsche pudo detectar.»

Como siempre, el lector se encontrará con el humor desangelado de Houellebecq.

Como ya he escrito, hay en esta novela más de un camino narrativo que no conduce a ninguna parte, pero, a diferencia de su anterior novela, Serotonina (2019), que me parece una repetición respecto a las anteriores, en Aniquilación Houellebecq trata de evolucionar y, por extraño que parezca, al final parece que cree hasta en el amor. Es posible también que al tratar de ser un autor más serio, pierda gran parte de la frescura que asociamos a su obra. Aniquilación no es una novela redonda y, desde luego, no está entre las mejores del autor, pero me lo he pasado bien leyéndola.

 

[Fuente: http://www.culturamas.es]

 

Escrito por

A República de Checoeslovaquia foi un dos países que naceron coa desintegración da monarquía austrohúngara tralo final da Gran Guerra (1914-1918). A súa concepción retrotráese ata antes do conflito europeo, coas negociacións entre checos e eslovacos, interesados os segundos na idea dun Estado binacional, coa autonomía garantida nos planos administrativo e político. O paso definitivo para a unión foi o Pacto de Pittsburgh de maio de 1918, onde quedaban ratificadas a autonomía xudicial e parlamentaria para Eslovaquia e o recoñecemento da súa lingua. En outubro, o Consello Nacional Eslovaco rompe con Hungría e confirma a unión checoeslovaca1.

Pero o novo Estado (que a diplomacia postbélica posibilitou) nacera marcado coas profundas diferenzas entre territorios: por un lado Eslovaquia, cunha economía de predominio rural e máis atrasada ca a do seu veciño, e unha sociedade maioritariamente católica e xerarquizada; polo outro, a industrializada2, laica e urbana sociedade checa, con importancia do luteranismo e incluso do ateísmo3.

A cuestión relixiosa foi especialmente candente, sobre todo na parte eslovaca, onde había unha tradición de cregos que actuaban coma líderes intelectuais e activistas do movemento nacionalista. Eles esperaban aumentar a súa influencia e mellorar as súas condicións materiais coa unión, pero en cambio atopáronse cos intentos de modernización e laicización: separación de Igrexa e Estado, ideas de igualdade, liberdade de conciencia ou a emancipación da muller4.

Estas diferenzas sociais e económicas traducíronse en diferenzas de corte político. Na rexión checa a tradición democrática das correntes burguesa e campesiña era moi forte, que consolidou un réxime pluralista e parlamentario estable; no contexto urbano e industrial, de suma importancia, as clases medias apoiaban ás diferentes variantes do liberalismo, e os traballadores ó socialismo5.  Da man de políticos coma Tomáš Masaryk, fomentouse ademais o entendemento de partidos moderados, evitando o éxito de forzas nacionalistas ou extremistas6.

Ese contexto explica a debilidade das correntes fascistas nas rexións checas, as cales cristalizaran en tres partidos: a Comunidade Nacional Fascista ou NOF, fundada en 1926, inspirada no fascismo italiano; o Campo Nacionalsocialista Checo ou Vlakja, xurdido na década dos trintas7; e en 1934 Unificación Nacional (Narodní sjednocení), unha unión de pequenos grupos fascistas8. Ningún dos tres obtivo unha gran relevancia electoral nin social.

Pero a situación era diferente en Eslovaquia, onde en 1918 fundouse o Partido Popular Cristián-Eslovaco, a posteriori renomeado coma Partido Popular Eslovaco de Hlinka (Hlinkovà Slovenská Ludova Strana, ou Ludakis), baixo a dirección do párroco Andrej Hlinka. Era un partido orixinalmente conservador e moderado, católico, populista e nacionalista, pero con claras tendencias cara ó autoritarismo e o corporativismo9. Non se pode dicir que fose unha agrupación estritamente fascista, polo menos ata 1938, onde a influenza alemá fomentaría un proceso de “fascistización” parecido ó de outras forzas en países ocupados polos nazis10.

O crego Andrej Hinka. Fonte: Wikimediacommons

Nas súas propostas presentábanse a defensa exacerbada da relixión e educación católicas, e a intención de esixir os órganos administrativos propios prometidos polo Pacto de Pittsburgh; nos sectores máis radicais reclamábase unha estrutura de tipo federal, ou directamente a independencia. A súa doutrina social inspirábase nas encíclicas papais, abominando o socialismo e o comunismo pero prometendo terras ós campesiños, maiores ingresos ós traballadores e emprego ós parados. Ó mesmo tempo, pretendían expandir o poder das elites eslovacas e do clero, e restrinxir as ideas de liberalismo e modernización procedentes das rexións checas11.

Os ludaki desconfiaban dos checos, xa que non os consideraban católicos “puros”, polo escaso tacto do goberno de Praga coas tradicións católicas eslovacas12, pola dependencia do mesmo nos luteranos, e tamén pola chegada de funcionarios checos ó país para cubrir postos que non podían ocupar os eslovacos, pola falta de traballadores cualificados13. Había tamén fortes tendencias antisemitas no partido14, que terán consecuencias espantosas coa futura instauración do Estado independente. Pero aínda queda para iso. Terán que chegar ó poder.

*A foto de portada amosa o Tratado de Trianon (1918) e a disolución de Austria-Hungría. Fonte: Wikimediacommons

 

Bibliografía

-R. C. BIJMAN: Clerical Fascism? A Controversial Concept and its Use. Tesis de máster. Utrecht, Universiteit Utrecht, 2009.

-Jerzy W. BOREJSZA: La escalada del odio. Movimientos y sistemas autoritarios y fascistas en Europa, 1919-1945. Madrid, Siglo Veintiuno de España Editores, 2002..

-Xosé Manoel NÚÑEZ SEIXAS: Movimientos nacionalistas en Europa. Siglo XX. Madrid, Editorial Síntesis, 2004.

-Stanley G. PAYNE: El fascismo. Madrid, Alianza Editorial, 2014.

Notas ao pé

  1. Xosé Manoel NÚÑEZ SEIXAS: Movimientos nacionalistas en Europa. Siglo XX. Madrid, Editorial Síntesis, 2004, p. 146. []
  2. Ata o 75% da industria na antiga Austria-Hungría. []
  3. Jerzy W. BOREJSZA: La escalada del odio. Movimientos y sistemas autoritarios y fascistas en Europa, 1919-1945. Madrid, Siglo Veintiuno de España Editores, 2002, pp. 200-201. []
  4. R. C. BIJMAN: Clerical Fascism? A Controversial Concept and its Use. Tesis de máster. Utrecht, Universiteit Utrecht, 2009, p. 73. []
  5. Stanley G. PAYNE: El fascismo. Madrid, Alianza Editorial, 2014, p. 157. []
  6. Jerzy W. BOREJSZA: La escalada…, p. 200. []
  7. Stanley G. PAYNE: El fascismo, p. 157. []
  8. Jerzy W. BOREJSZA: La escalada…, p. 201. []
  9. Stanley G. PAYNE: El fascismo, p. 158. []
  10. Íbid., pp. 172-173. []
  11. Jerzy W. BOREJSZA: La escalada…, pp. 202-203. []
  12. Xosé Manoel NÚÑEZ SEIXAS: Movimientos nacionalistas…, p. 146. []
  13. R. C. BIJMAN: Clerical Fascism? A Controversial…, p. 146. []
  14. Jerzy W. BOREJSZA: La escalada…, p. 202. []

 

[Fonte: http://www.mazarelos.gal]