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Escrito por Veladimir Romano*

Um dia nascemos, marcamos nosso caminho e partimos quando a Natureza entende que o veículo físico já não tem condições ou qualquer resistência. Faleceu, nessa sexta-feira (10), um dos presidentes e prefeitos mais bem sucedidos depois da reforma política portuguesa: Jorge Sampaio, aos 81 anos, em Lisboa.

Antigo líder do Partido Socialista, Sampaio foi protagonista na redemocratização portuguesa, após a Revolução dos Cravos. Nos últimos anos vinha dedicando-se ao apoio e acolhimento de refugiados.

Já nos anos de 1980, a revista norte-americana Time o elogiava e previa seu futuro de sucesso.

Não foi somente sucesso, foi brilhante e, lamentavelmente, não se repetiu ao longo dos anos da sua herança bem republicana, dedicado às causas sociais. Sampaio não foi um mero político, mas um diplomata da prática política, carismático, humanista, equilibrado, sereno, entregue ao sacrifício.

Durante a ditadura portuguesa, lutou o bom combate contra o fascismo em Portugal, o que o obrigou incontáveis vezes a dirigir-se aos centros universitários, ao lado da juventude mobilizada nessas épocas difíceis, quando os mais determinados e corajosos se engajavam em semanas de lutas, campanha, no combates frontais pelo que o tempo nem dava para a criação estratégica deste combate.

Dúvidas nunca teve sobre o seu papel histórico. Por isso, desde a sua juventude combateu contra a polícia do Regime, Desse enfrentamento, surgiu seu apelido: o “Furacão Ruivo”.

Jorge Sampaio rapidamente entendeu que reformas e liberdade são coisas que rimam com Democracia.

Daí que não perdeu tempo quando criou a Iniciativa Socialista, depois o Movimento da Esquerda Socialista [MES], figurando entre os 15 camaradas fundadores do Partido Socialista [PS]. Abrir portas para que a velha República funcionasse no seu absoluto desígnio, não foi nada fácil. Entretanto, o 25 de Abril precipitou a luta e repôs a verdade que a maioria desejava, muito mais quem já via o trilho futurista.

É então quando nasce outro Jorge Sampaio (1939-2021), secretário-geral do PS, verdadeiro idealista dos programas sociais, da transparência [dos que mais lutou], totalmente dedicado ao serviço público, respeito pela primazia das funções do Estado, homem de grande dimensão lutando por Justiça e da extensão humana pelo bem.

Não foi apenas o prefeito cuidadoso e social quando entra na casa do cidadão apenas porque um cego deseja escutar sua voz ali perto, como fazia em contato com qualquer cidadã/o que precisasse do seu calor, atenção, cuidados. A todos estendia um aperto de mão sincero, pelo quanto de amor vive na sua alma.

Por isso quando deixa a Câmara Municipal de Lisboa, o Palácio de Belém onde já foi moradia monárquica, depois alojamento das ditaduras [militar e civil], não resistiu ao processo democrático quando desta vez os militares foram reformistas contra uma guerra dividida a três capítulos: Guiné, Angola e Moçambique, eram já nações soberanas mas dominadas pelo falso entendimento dos dirigentes fascistas sonhando ainda em manter a colonização que anunciava seu fim.

Depois de 30 anos de serviço público, partidário, autárquico e político, de nota máxima, atravessando a fronteira, foi servir o mundo. Instâncias internacionais de âmbito social e humano chamaram por ele quando podia ir descansar na sua aposentadoria como fizeram alguns.

Mas ele não se susteve, avançou, fez a diferença. Já em idade avançada, voltou o “Furacão Ruivo”, não querendo desiludir aqueles que, acreditando nele, saberem das diferenças positivas, de boas intuições e clareza que, na prática, Jorge Sampaio podia trazer.

Ser presidente da nação Lusa [1996-2006] não deixa ninguém indiferente tanto pelas polêmicas contra governos e governantes levados pelo aventureirismo. Com sua experiência, pensando no país e no povo, interveio de forma corajosa e determinante, ainda que alguns, defendendo interesses pessoais ou de grupo, travaram charadas de bastidor.

O Povo, a Nação, transparência foram as tônicas principais em sua atuação política. Foi um resistente da velha guarda. Sabia como revelar suas decisões depois de bastante pensamento, dividir com quantos se manifestassem capazes do diálogo, fugindo ou dominando prejuízos socialmente danosos.

Ainda que debilitado anunciando um corpo frágil chegando a hora da partida, deixa muita saudade pela sua verticalidade de um homem público, da maior integridade, preocupado com o seu próximo, emocionado vezes sem conta e humilde.

Foi também capaz de conhecer o esforço dos demais quando trabalhavam com empenho e dedicação, como na sua viagem presidencial até Finlândia. Foi quando, na hora do regresso, fazendo o balanço, ficou uma frase que infelizmente tanto a Imprensa portuguesa, como muitos políticos responsáveis, nunca exploraram através das necessárias análises. “Gostaria que o meu Portugal pudesse ser uma Finlândia”. Mas ficou na História.

Só grandes almas como Jorge Sampaio poderiam ambicionar um sonho deliberado num país que, nos idos 1960, tinha 50% da sua pequena população emigrada nos países vizinhos da Escandinávia. Aos poucos, aprendendo, foi crescendo e se transformou numa sociedade exemplar, reformista e progressista.

Por isso Jorge Sampaio não teve vergonha nem absurdos do patriotismo bolorento, viajando milhares de milhas para ir contar aos finlandeses como os portugueses conquistaram oceanos, cantam fados, discutem desalmadamente o futebol comendo bolinhos de bacalhau junto ao bom tinto que lhes amadurece a coragem de lutar por um país mais sério e de sucesso.

Ele partiu com vontade de ver as suas ideias colocadas em prática. Como de tudo fica um pouco, fica a lembrança do que ele representa para o povo português. Só mesmo o “Furacão Ruivo” foi capaz de tudo isso e muito mais.

*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-cabo-verdiano

 

[Fonte: http://www.viladeutopia.com.br]

Entre los muchos beneficios del consumo moderado de vino, los estudios científicos señalan propiedades como la prevención del deterioro cognitivo asociado a la edad, la depresión y la ansiedad.

Según la Organización Mundial de la Salud (OMS), para prevenir el desarrollo de enfermedades crónicas degenerativas incluidas aquellas que afectan a la función cognitiva es importante mantener un estilo de vida saludable desde edades tempranas, prestando especial atención a la alimentación y el ejercicio físico. Por ello, está tomando cada vez más importancia nuestra dieta mediterránea que promueve un equilibrio en nuestra forma de comer y beber, relacionarnos y movernos. En este sentido, el vino forma parte de esta pirámide en un consumo siempre moderado. Su dimensión cultural e histórica y su factor socializador supone un elemento a tener en cuenta en cuanto a la salud mental ya que se asocia a momentos de relax para disfrutar en compañía.

En lo que corresponde al vino, además, se ha demostrado en numerosos estudios que su consumo moderado tiene factores beneficiosos asociados para la salud por ser fuente de compuestos fenólicos. En palabras del doctor Ramón Estruch, coordinador científico y responsable de portavocía de la Fundación para la Investigación del Vino y la Nutrición (FIVIN), miembro del Servicio de Medicina Interna del Hospital Clínic de Barcelona, del Centro de Investigación Biomédica en Red del Instituto de Salud Carlos III (Madrid) y uno de los mayores impulsores de la Dieta Mediterránea: « Estos compuestos tienen propiedades bioactivas que también se han relacionado con la neuroprotección ». A nivel cognitivo, su consumo moderado se ha relacionado con un menor riesgo de demencia y depresión[1] y se piensa que este tipo de compuestos podrían prevenir el avance del deterioro cognitivo asociado a la edad. Por este motivo, el consumo moderado de vino dentro de un contexto de Dieta Mediterránea « tendría un efecto positivo en la función cognitiva ».

Las propiedades beneficiosas del resveratrol según la ciencia

Estudios científicos avalan que otro componente de la uva con propiedades beneficiosas para la salud es el resveratrol, que destaca su capacidad antiinflamatoria y para reducir el estrés oxidativo. Asimismo, otros estudios con animales han demostrado que el resveratrol impide la actividad de moléculas altamente oxidantes, que dañan regiones claves del cerebro, como el hipocampo. Otros mecanismos que pueden utilizar el resveratrol para proteger la salud cognitiva son la regulación de la sirtuina 2, una proteína que, en pocas palabras, es esencial para regular el metabolismo de la célula ya que controla su expresión genética2.

Además, el resveratrol se ha asociado con un efecto positivo en la depresión y la ansiedad, ya que puede aumentar la cantidad de AMPc en el cerebro. Esta molécula, que se hidroliza por la enzima fosfodiesterasa 4, tiene una función clave en la comunicación celular. Los investigadores proponen, según estudios hechos en animales, que el resveratrol impide el funcionamiento de la fosfodiesterasa 4, lo que explicaría los efectos antidepresivos que produce (reducción de la ansiedad y de comportamientos asociados a la depresión)3.

Con el incremento de la esperanza de vida poblacional, ha aumentado la aparición de enfermedades crónicas degenerativas y cognitivas. Su impacto a nivel individual y social hace que deban tenerse cada vez en más consideración, por lo cual es importante fomentar una dieta equilibrada y hábitos de vida saludable que ayuden a prevenirlas. Los beneficios de la dieta mediterránea, declarada Patrimonio Inmaterial de la Humanidad por la UNESCO en 2010, son reconocidos por numerosos expertos y es indudable su vinculación con nuestra cultura y tradición.

Desde FIVIN se recuerda que aunque numerosos estudios han demostrado los beneficios para la salud del consumo moderado de vino, la mayoría de los investigadores advierten que ello no es suficiente motivo para que alguien que no bebe comience a hacerlo por motivos de salud. De hecho, la recomendación general de los científicos suele ser preventiva, advirtiendo que los beneficios para la salud del vino en un estudio en particular no garantizan que los no bebedores o abstemios deban comenzar a disfrutar de una copa al día para mejorar su salud. Cualquier estudio sobre el vino y la salud no reemplaza el consejo médico de un profesional. Las personas, independientemente de si padecen cualquier enfermedad, deben consultar con su médico antes de tomar decisiones sobre el consumo de alcohol por su salud.

La Ciencia del Vino y la Salud

Para ampliar estas y otras informaciones, la Fundación para la Investigación del Vino y la Nutrición (FIVIN) cuenta con La Ciencia del Vino y la Salud, una plataforma de referencia científica que busca aclarar los mensajes contradictorios que están surgiendo en los últimos años en torno al vino y la nutrición y ofrecer información contrastada y sujeta a rigor científico.

El sector vitivinícola lleva años trabajando en pro de la transparencia a la hora de comunicar los efectos del vino sobre la salud, ayudando a la sociedad a comprender y advertir de las graves consecuencias de un consumo excesivo, las limitaciones en determinados momentos y los posibles beneficios de la moderación en el consumo de vino que la ciencia está descubriendo.

[Fuente: http://www.vinetur.com]

Software de vigilância, vendido a governos, pode ter roubado dados de mais de 50 mil celulares. Ativistas, jornalistas e políticos em diversos países foram alvo. Mercado sem leis favorece corporações que atentam contra a privacidade

Ativistas de direitos humanos, jornalistas e advogados em todo o mundo foram alvos de roubo de dados e espionagem por meio de um software para telefones vendido a governos por uma empresa de vigilância israelense, segundo reportagens de diversos jornais publicadas no domingo.

Cerca de 50 mil números de telefone de pessoas que teriam sido monitoradas pela empresa israelense NSO vazaram para a imprensa. Não ficou claro de onde veio essa lista — ou quantos telefones foram realmente hackeados.

A NSO nega qualquer irregularidade. A empresa afirma que seu software se destina ao uso contra criminosos e terroristas e está disponível apenas para militares, policiais e agências de inteligência de países com bom histórico de direitos humanos.

Em maio, uma reportagem do portal UOL afirmou que o vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, teria participado de negociações para que a NSO participasse de uma licitação do Ministério da Justiça para compra do sistema. Segundo o UOL, o envolvimento de Carlos Bolsonaro teria gerado insatisfação em militares do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e da Agência Nacional de Inteligência (Abin), já que o tema estaria fora da alçada do vereador do Rio de Janeiro. Na ocasião, o vereador negou que tivesse articulado qualquer negociação.

O mais recente escândalo de espionagem e roubo de dados foi revelado em investigações feitas pela ONG Forbidden Stories, com sede em Paris, e pelo grupo de direitos humanos Anistia Internacional. As denúncias sobre o uso do software, conhecido como Pegasus, foram divulgadas no domingo pelos jornais Washington Post, Guardian, Le Monde e 14 outras organizações de mídia ao redor do mundo.

O Pegasus infecta iPhones e dispositivos Android para permitir que as operadoras extraiam mensagens, fotos e e-mails, gravem chamadas e ativem secretamente microfones e câmeras.

A firma israelense afirma que a investigação das duas entidades está “repleta de suposições erradas e teorias não corroboradas”.

O que sabemos sobre os alvos da espionagem?

Os números da lista não apareciam relacionados a nomes específicos, mas os meios de comunicação que trabalham na investigação identificaram mais de mil pessoas em mais de 50 países.

Muitos dos números da lista estão concentrados em 10 países: Azerbaijão, Bahrein, Hungria, Índia, Cazaquistão, México, Marrocos, Ruanda, Arábia Saudita e Emirados Árabes, de acordo com os relatórios.

Cerca de 180 jornalistas estariam na lista, de organizações como CNN, New York Times, Al Jazeera e muitos outros meios de comunicação.

Porta-vozes desses países negaram que ter usado o sistema Pegasus ou abusado de seus poderes legais de vigilância.

Não ficou claro quantos dos dispositivos na lista foram realmente hackeados, mas a análise forense de 37 telefones na lista mostrou que houve “tentativas” e “sucesso” nos hacks, relatou o Washington Post.

Isso incluiu duas mulheres próximas ao jornalista saudita assassinado Jamal Khashoggi e o jornalista mexicano Cecilio Pineda Birto, que também foi assassinado. Seu telefone nunca foi encontrado e não ficou claro se ele havia sido hackeado.

Cerca de 15 mil dos números da lista são de pessoas no México, incluindo políticos, críticos do governo, dirigentes sindicais e jornalistas, de acordo com o Washington Post.

O site indiano de notícias investigativas The Wire informou que 300 números de telefones celulares usados na Índia — incluindo os de ministros do governo, políticos da oposição, jornalistas, cientistas e ativistas de direitos humanos — estavam na lista.

Mais detalhes sobre quem foi alvo de espionagem e hack devem ser divulgados nos próximos dias.

A NSO já se envolveu em outras controvérsias no passado. Em 2019, o WhatsApp, empresa de aplicativo de mensagens do grupo Facebook, havia processado a firma israelense, alegando que ela estava por trás de ataques a 1,4 mil telefones celulares com o Pegasus.

Na época, a NSO negou qualquer irregularidade, mas a empresa foi proibida de usar o WhatsApp.

Análise: Joe Tidy

Repórter de segurança cibernética da BBC News

As alegações feitas agora não são novas, mas o que é novo é a escala de pessoas inocentes que teriam sido alvos do Pegasus. Os números de telefone de quase 200 repórteres em 21 países apareceram nesta lista, além de outras figuras públicas proeminentes.

Há muitas perguntas sem respostas, incluindo de onde vem a lista e quantos números de telefone foram ativamente alvos de spyware. O Grupo NSO nega todas as acusações, mas o escândalo é um golpe duro na empresa, que vinha tentando melhorar sua reputação.

Há apenas duas semanas, a NSO havia divulgado seu primeiro “relatório de transparência” detalhando as políticas e promessas relativas a direitos humanos. A Anistia Internacional havia dito que o documento de 32 páginas era um mero “panfleto de vendas”.

As mais recentes alegações prejudicarão ainda mais sua imagem, mas não prejudicarão a empresa financeiramente. Existem poucas empresas privadas capazes de produzir o tipo de ferramenta de espionagem invasiva que a NSO vende, e claramente esse mercado desregulamentado para o software está prosperando.

 

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

 

 

Escrito por Federico Romani

Los primeros cuentos de Ricardo Piglia eran los fotogramas de un ciclo de vida, un sistema con sus reglas explícitas, pero también enigmáticas. Con el descubrimiento de la potencia expresiva de sus materiales (citas, lecturas, experiencias personales), el futuro autor de Respiración artificial (1980) creó una zona de experimentación donde las tradiciones narrativas clásicas —del policial a la ciencia ficción; de la ficción histórica al diario personal— regulan un único proyecto narrativo que se mantiene en movimiento a través de una serie de obsesiones: el dinero, la traición, la fatalidad suicida del héroe melancólico, la literatura como historia imaginaria y alterada de la realidad. En sus inicios como cuentista, Piglia narra viajes (“El joyero”, “Un pez en el hielo”, “El fin del viaje”), y en todos esos recorridos el traslado es un riesgo sin proporciones directas con la transparencia de la prosa: la distancia entre dos puntos mide las formas del peligro, y las tragedias son pequeñas, casi domésticas, como si las situaciones consumieran de a poco las energías mismas del relato. El cine y la literatura nacieron con los viajes, y la propia trayectoria de Piglia nace con un exilio interior narrado como el descubrimiento de una dirección inesperada entre las páginas de un diario personal.

Piglia tiene una certeza: se narra para alojar un secreto. Sus “Tesis sobre el cuento” (1986) incluyen convenciones fantasmales sobre maniobras narrativas, la transformación y el tratamiento del enigma como un intercambio de planos ocultos. En Nombre falso (1975), la anécdota sobre el texto inédito de Arlt mueve la ficción desde la revisión de los sentimientos oscuros de un personaje hacia algo que solo tiene relación con el lenguaje. Es un cambio de eje en la relación entre ficción y realidad, pero también un punto de apoyo construido con la lucidez de quien adivina el instante preciso en que la literatura se vuelve una máquina capaz de interrogar el destino. Solo de esa manera la vanguardia crece desde su propia experiencia, y esa relación extraña pone en tensión el arco de una obra que la edición de Cuentos completos vuelve a lanzar de manera renovada contra el horizonte de la literatura argentina. El juego de espejos entre las dos nouvelles de Prisión perpetua (1988) y las historias seleccionadas de La ciudad ausente (1992) —aquí presentadas como “Cuentos morales”— asume el problema de la cronología para desatenderlo después. Piglia siempre jugó con sus textos, los acomodó y reacomodó más de una vez a lo largo de su vida, como tratando de revisar los efectos que su aparición provocaba o para descubrir cómo se entienden entre sí lo personal y lo social, esa forma compleja de lo colectivo.

Resulta difícil comprender los efectos de una poética personal sin caer en la evidencia del valor de una vida. Casi siempre, el contacto con la experiencia ajena se resuelve en perplejidad e incertidumbre, excepto cuando la literatura consigue capturar al mismo tiempo un universo personal y las tensiones del momento cultural —que es siempre un momento político— de una época específica en un país determinado. Así, el enigma de una vida puede derivar hacia una forma de reflexión histórica o transformarse en el borrador fantasmal y detectivesco de una obra que desde el primer momento se presentó a la manera de capítulos sucesivos de una biografía escrita en el futuro. Ricardo Piglia siempre narró en la estela de Walter Benjamin, como si la relación con el lenguaje no fuera otra cosa que el intento repetido y fulgurante de recuperar algo que se ha perdido. Como si la obra no estuviera completa hasta el preciso momento en que se fija en el porvenir el recorrido que la hizo posible.

 

Ricardo Piglia, Cuentos completos, Anagrama, 2021, 832 págs.

 

[Fuente: http://www.revistaotraparte.com]

En conjunto, los ‘Cuentos completos’ de Ricardo Piglia componen uno de los libros señeros de la literatura contemporánea en español

Ricardo Piglia en su estudio

Escrito por Federico Romani

Los primeros cuentos de Ricardo Piglia eran los fotogramas de un ciclo de vida, un sistema con sus reglas explícitas pero también enigmáticas. Con el descubrimiento de la potencia expresiva de sus materiales (citas, lecturas, experiencias personales) el futuro autor de Respiración artificial (1980) creó una zona de experimentación donde las tradiciones narrativas clásicas –del policial a la ciencia ficción; de la ficción histórica al diario personal– regulan un único proyecto narrativo al que se mantiene en movimiento a través de una serie de obsesiones: el dinero, la traición, la fatalidad suicida del héroe melancólico, la literatura como historia imaginaria y alterada de la realidad.

En sus inicios como cuentista Piglia narra viajes (“El joyero”, “Un pez en el hielo”, “El fin del viaje”), y en todos esos recorridos el traslado es un riesgo sin proporciones directas con la transparencia de la prosa: la distancia entre dos puntos mide las formas del peligro, y las tragedias son pequeñas, casi domésticas, como si las situaciones consumieran de a poco las energías mismas del relato. El cine y la literatura nacieron con los viajes, y la propia trayectoria de Piglia nace con un exilio interior narrado como el descubrimiento de una dirección inesperada entre las páginas de un diario personal.

Piglia tiene una certeza: se narra para alojar un secreto. Sus “Tesis sobre el cuento” (1986) incluyen convenciones fantasmales sobre maniobras narrativas, la transformación y el tratamiento del enigma como un intercambio de planos ocultos. En “Nombre falso” (1975) la anécdota sobre el texto inédito de Arlt mueve la ficción desde la revisión de los sentimientos oscuros de un personaje hacia algo que solo tiene relación con el lenguaje. Es un cambio de eje en la relación entre ficción y realidad, pero también un punto de apoyo construido con la lucidez de quien adivina el instante preciso en que la literatura se vuelve una máquina capaz de interrogar el destino.

Solo de esa manera la vanguardia crece desde su propia experiencia, y esa relación extraña pone en tensión el arco de una obra que la edición de los Cuentos completos vuelve a lanzar de manera renovada contra el horizonte de la literatura argentina. El juego de espejos entre las dos nouvelles de Prisión perpetua (1988) y las historias seleccionadas de La ciudad ausente (1992) –aquí presentadas como “Cuentos morales”– asume el problema de la cronología para desatenderlo después. Piglia siempre jugó con sus textos, los acomodó y reacomodó más de una vez a lo largo de su vida, como tratando de revisar los efectos que su aparición provocaba o para descubrir cómo se entienden entre sí lo personal y lo social, esa forma compleja de lo colectivo.

Resulta difícil comprender los efectos de una poética personal sin caer en la evidencia del valor de una vida. Casi siempre el contacto con la experiencia ajena se resuelve en perplejidad e incertidumbre, excepto cuando la literatura consigue capturar al mismo tiempo un universo personal y las tensiones del momento cultural –que es siempre un momento político– de una época específica en un país determinado. Así, el enigma de una vida puede derivar hacia una forma de reflexión histórica o transformarse en el borrador fantasmal y detectivesco de una obra que desde el primer momento se presentó a la manera de capítulos sucesivos de una biografía escrita en el futuro.

Ricardo Piglia siempre narró en la estela de Walter Benjamin, como si la relación con el lenguaje no fuera otra cosa que el intento repetido y fulgurante de recuperar algo que se ha perdido. Como si la obra no estuviera completa hasta el preciso momento en que se fija en el porvenir el recorrido que la hizo posible.

    Ricardo Piglia, Cuentos completos, Anagrama, Barcelona, 2021, 832 pp.

 

[Fuente: http://www.latempestad.mx]

 

Se endosa al contribuyente la acción de haberse apoderado del dinero como si lo hubiera hecho con engaño

Una mujer entra en una oficina del Servicio Público de Empleo Estatal, en Madrid, el pasado mes de abril.

Una mujer entra en una oficina del Servicio Público de Empleo Estatal, en Madrid, el pasado mes de abril.

[Foto: ALEJANDRO MARTÍNEZ VÉLEZ / EUROPA PRESS – fuente: http://www.elpais.com]

La European Right to Repair Campaign, Halte a l’Obsolescence Programme i eReuse exposen iniciatives i demandes per augmentar la durabilitat dels productes electrònics al Mobile Social Congress.

"Dena doing repairs on her phone" de dam (CC BY 2.0) Font: Dam (CC BY 2.0)

Escrit per Carla Fajardo

Reparar els nostres dispositius electrònics, reutilitzar-los i exigir a les empreses un compromís contra l’obsolescència programada, abans de recórrer al reciclatge. El Mobile Social Congress organitzat per Setem recorda quins mecanismes tenim les organitzacions i la ciutadania per allargar la vida dels productes electrònics, que tenen un impacte en el medi ambient i en la situació de les persones treballadores als països d’extracció de minerals i de fabricació.

A la llarga, la reparació pot estalviar al consumidor uns 200 euros depenent del dispositiu, diu Chloé Mikolajczak, de European Right to Repair Campaign. Nascuda el 2019, la coalició d’organitzacions europees que lluiten pel dret a la reparació compta amb la participació de xarxes de reparació, persones reparadores professionals, ONGs i diversitat de membres.

Consideren que els productes han de ser dissenyats perquè durin i siguin reemplaçats quan sigui necessari de tal manera que permetin desmuntar i reparar els seus components. Mikolajczak assenyala el preu com una de les principals barreres de la reparació: « No té sentit reparar quan te’n pots comprar un de nou ». Per això, treballen en un fons de reparació per retallar despeses amb aportacions de les organitzacions col·laboradores.

Demanen que es reguli i s’abordi la reparació des de la política europea, que ho està començant a tractar des de l’ecodesign. « Sobretot la dels softwares que impedeixen reparar molts productes », explica.

D’altra banda, Laetitia Vasseur, de Halte a l’Obsolescence Programme (HOP), ha explicat que hi ha diversos tipus d’obsolescència programada, que qualifica de « crim jurídic »:

  • Tècnica. Per exemple, quan el xip de la impressora ens diu que no hi ha tinta encara que en quedi.
  • Software. Per exemple, quan et descarregues un nou sistema operatiu que detecta que un ‘software’ no està fet per la pròpia empresa o no pots actualitzar-lo.
  • Cultural i psicològica. És la que exerceix la pressió social de la publicitat, que ens transmet el missatge que « encara que funcioni ja no està de moda ». En aquest sentit, Vasseur reclama més control: « Té un discurs global d’economia circular, però diu que compris cada vegada més. La incitació al consumisme no és compatible amb un futur sostenible« .

HOP ha portat als tribunals Apple i Epson per aquest tipus de pràctiques i treballa en un índex de reparabilitat i durabilitat per incentivar la transparència de les empreses i donar detalls de sostenibilitat a les persones consumidores. « Per què no sabem les hores que hem passat davant de l’ordinador o els cicles que hem fet amb la rentadora? Aquesta transparència ens ajudaria a fer un millor manteniment dels productes », diu Vasseur.

A Catalunya, també volem saber quants anys poden durar els nostres dispositius. EReuse aplega entitats locals que treballen per donar una segona vida als dispositius, forma part de la campanya del dret a decidir i lluiten contra l’obsolescència programada. Està formada per centres federats de reparació com Solidança o Andròmines, que treballen a través d’una aplicació de programari lliure que monitoreja el trajecte dels productes.

David Franquesa, participant de l’organització, comença la ponència amb una imatge de la nau espacial Orion de la NASA que va utilitzar una tecnologia que va durar dotze anys basada en la fiabilitat. « Per què no veiem el planeta com una nau espacial on utilitzem els nostres finits recursos infinites vegades? », es pregunta Franquesa, després d’haver comprovat amb dades que les persones consumidores valorem més la durabilitat que les noves funcionalitats.

Per saber quan duraran els nostres dispositius investiga la durabilitat dels productes que s’han utilitzat fins ara a través d’observacions de les persones consumidores. L’objectiu és un etiquetatge que doni informació a les persones consumidores per tal que puguin premiar fabricants que en el passat han fet productes mes durables.

« Fins ara les dades ens parlaven del processador, el futur són etiquetes d’impacte: si s’ha reutilitzat, la qualitat, els materials que s’han fet servir i, ¿per què no? La durabilitat », afirma, i afegeix: « Això pot generar un canvi sistèmic ».

 

 

[Foto: CC BY 2.0 – font: http://www.xarxanet.org]

El canvi de llengua era una de les principals queixes de l’alumnat en matèria de vulneració de drets lingüístics

[Font: http://www.racocatala.cat]

Conforme o aumento da presença das pessoas nas ruas durante a pandemia era detectado a partir de dados de localização compartilhados entre os setores empresarial e governamental, as imbricações do capitalismo de vigilância – que passa pelas plataformas de redes sociais – começaram a ser amplamente questionadas

As redes de wi-fi pode ser ferramentas de vigilância também

Passageiro com celular no aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek (Crédito: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil)

Escrito por Mariana Gomes

O aumento vertiginoso do número de infecções pelo coronavírus SARS-CoV-2 no Brasil coincidiu com um curioso crescimento do setor de tecnologia. Em abril de 2020, os valores do mercado de eletrônicos já estavam 30% mais caros do que no primeiro trimestre do mesmo ano. Em maio, o Ix.br, setor do Comitê Gestor da Internet (CGI.br) que promove a infraestrutura de internet no país, detectou 11 Tbps de tráfego de dados na rede, batendo o recorde histórico de 10 Tbps – consolidado em março anterior.

No período de setembro a outubro de 2020, 49% dos usuários de internet no Brasil já realizavam atividades de trabalho remotamente; 64% acompanhavam transmissões de áudio ou vídeo em tempo real e 72% buscavam informações relacionadas à saúde, segundo o Painel TIC Covid-19, do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação/CGI.br). “As pessoas tiveram de mudar, de maneira abrupta, do físico para o digital, ainda que muitos não estivessem preparados”, relata Flávia Carvalho, advogada especializada em direitos digitais.

Por outro lado, ao longo de 2020 nos deparamos com ataques cibernéticos a candidaturas eleitorais de pessoas LGBTs, mulheres, negros e indígenas, assim como a invisibilização da nova onda de protestos do movimento Vidas Negras Importam pelas plataformas de mídias sociais digitais. Também lidamos com a proposta do Cadastro Base do Cidadão[1] apresentada pela Presidência do Brasil e com os obstáculos on-line à distribuição do auxílio emergencial. Um ambiente complexo que nos levou a repensar o que em geral conhecemos como vigilância.

Privacidade não é luxo

O Brasil fechou o ano de 2019 com 134 milhões de pessoas acessando a internet, segundo o levantamento TIC Domicílios do Cetic.br. Contudo, 2020 é o ano que transforma profundamente nossos usos dessa tecnologia até aqui. Com a necessidade de cadastro on-line para recebimento do auxílio emergencial, ficava evidente que privacidade não é artigo de luxo.

Todo “esse movimento não veio acompanhado de uma educação digital necessária, tampouco do fortalecimento dos mecanismos de segurança. Então, como resultado, estamos ultrapassando uma grande onda de fraudes, ataques de ransomware[2], vigilantismo”, avalia Flávia Carvalho.

Conforme o aumento da presença das pessoas nas ruas durante a pandemia era detectado a partir de dados de localização compartilhados entre os setores empresarial e governamental, as imbricações do capitalismo de vigilância – que passa pelas plataformas de redes sociais – começaram a ser amplamente questionadas. Não à toa, a decisão do Whatsapp de compartilhar dados pessoais e conversas com o Facebook desdobrou-se em protestos já em janeiro de 2021. Pela influência de defensores dos direitos digitais, a big tech resolveu adiar a nova medida para 15 de maio.

“O monopólio das redes sociais desfavorece o alcance de postagens de alguns grupos políticos. Além de casos de monitoramento, espionagem, falta de transparência e suspensão de usuários que fazem denúncias de cunho racial. Ao passo que essas mesmas redes adotam uma postura condescendente sobre manifestações de racismo, xenofobia, misoginia e diversos crimes de ódio a grupos minorizados”, explica Bárbara Aguilar, programadora e fundadora do Kilombotech.

A pressão política também surge das disputas em torno da Lei 13.709/2018, mais conhecida como Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que entrou em vigor em agosto de 2020, mesmo mês em que o Brasil chegava aos 100 mil mortos pela Covid-19. As alterações propostas pela legislação impactam desde as big tech até as pequenas empresas de tecnologia.

No caso da plataforma AfroSaúde, por exemplo, a LGPD impacta desde o momento de sua fundação. “Conseguimos alinhar-nos, desde o início lá em 2019, para que o nosso principal produto estivesse de acordo com as diretrizes da LGPD. Hoje, com a plataforma em funcionamento e a lei em vigor, podemos assegurar que a coleta das informações dos usuários está de acordo com a LGPD”, argumenta Igor Leonardo, cofundador da healtech brasileira.

A AfroSaúde promove a visibilidade de profissionais negros da saúde e conecta com os pacientes que procuram por um serviço qualificado e atento aos aspectos raciais na mesma área. Durante a pandemia, com apoio de outras oito entidades, criou o TeleCorona, projeto de telefone gratuito e canal de respostas on-line para auxiliar moradores de bairros periféricos a conter a propagação do vírus e a desinformação.

Além da internet – vigilância e opressão

A partir da internet é possível desenvolver outras tecnologias. Atualmente a rede não conecta somente pessoas e computadores, mas também dispositivos diversos entre si, na chamada Internet das Coisas. Os dados pessoais e de experiência coletados massivamente na interação entre múltiplas ferramentas do nosso dia a dia fomentam o caminhar de outras inovações, como a inteligência artificial (IA), a nanotecnologia e a impressão 3D.

“A urgência de contenção da pandemia tem sido utilizada como justificativa para sedimentar o discurso de controle e vigilância cibernética, porém deve ser acompanhada com atenção para não influenciar o fortalecimento de práticas de vigilância em massa nos próximos tempos”, avalia a especialista Bárbara Aguilar.

Os negócios de vigilância mobilizados a partir do big data ou da IA são treinados primordialmente em regiões e populações que não estão no centro do ocidente. No caso da inteligência artificial, as ruas das grandes capitais brasileiras têm-se tornado, desde 2019, celeiro de teste a partir de políticas de segurança pública. Apesar do afã do mercado sobre o uso de IA no contexto de “guerra às drogas”, por exemplo, dos 151 casos de pessoas presas com informação de raça e cor só naquele ano, 90,5% eram negras – conforme levantamento da Rede de Observatórios de Segurança.

Imagem do centro de vigilância da Secretaria de Segurança Pública da Bahia.

Diferente do que corre no senso comum – e até mesmo em setores da produção tecnológica –, computadores não são máquinas neutras, à prova de erro e desconexos da cultura. Quem programa os sistemas e trata as bases de dados o faz a partir de suas intenções, crenças e expectativas. “A inteligência artificial precisa ser treinada para responder com maior assertividade, porém, hoje, os principais provedores de softwares de reconhecimento facial possuem altos níveis de vieses raciais e de gênero”, explica Aguilar.

Durante a pandemia, vimos no Brasil protestos de combate ao racismo e ao fascismo, em que os manifestantes se colocaram no risco de contrair a doença para defender valores democráticos. As máscaras até dificultam a identificação por câmeras de reconhecimento facial que utilizam inteligência artificial e são operadas pelas polícias, contudo, o uso da força nesses casos foi desproporcional em relação ao empregado nos protestos de apoiadores da Presidência da República no mesmo período.

No contexto de economias giradas pelo capitalismo de vigilância, parte dos grupos beneficiados em razão da raça, do gênero e do território, mas à margem das decisões do capitalismo de dados, também são afetados pelas técnicas de vigilância. No entanto, o acirramento das políticas de fronteiras internacionais e lockdowns setorizados na pandemia, retendo, principalmente no Brasil, moradores das periferias, demonstram que os alvos históricos da desumanização lidam com o acúmulo de violências a partir das inovações tecnológicas para vigilância.

“Existe a preocupação sobre o tratamento desses dados coletados, uma vez que a LGPD trouxe exceções sobre a aplicação de suas normas para fins de segurança pública. As situações serão regidas por legislação específica que até agora não foi criada, gerando insegurança jurídica e terreno fértil para arbitrariedades”, explica Flávia Carvalho.

Vigilância como resistência

Como escreve Simone Browne, professora associada da Universidade do Texas em Austin em seu livro Dark Matters: On The Surveillance of Blackness, os debates sobre vigilância continuam a desenvolver-se sem perceber como sistemas de vigilância se desenvolvem através da racialização. Produzido em sintonia com os estudos de Steve Mann e em análise feminista negra sobre os aspectos raciais depois do panóptico de Bentham[3], Browne analisa os aspectos de raça implicados na vigilância, partindo dos navios negreiros até os aeroportos e a internet. A pesquisadora então cria uma abordagem sobre vigilância que também nos permita traçar o registro de experiências de liberdades no contexto da escravidão.

Uma dessas memórias de liberdade remonta aos idos 1848 nos Estados Unidos. Ellen e William Craft, duas pessoas negras até então escravizadas, saíram do estado da Geórgia, sudeste do país, rumo à liberdade, mas não como o casal que eram. Mulher negra de pele clara, Ellen conseguia muitas vezes passar-se por branca. Ela era filha de uma mulher negra “mestiça”[4], escravizada, e um homem branco, dono de escravos. Ao resgatar essa história, a pesquisadora Simone Browne revela que, viajando em trens e navios, Ellen driblou as expectativas de raça e gênero, apresentando-se como um homem branco, o suposto Sr. William Johnson. No disfarce, ela fingia ser dona de William Craft, seu marido. Dessa maneira, jogando com as regras dos sistemas de vigilância da época, o casal garantiu a liberdade.

Aqui no Brasil, a vigilância tem um sentido caro às populações indígenas, no que diz respeito à proteção de suas terras. Isso não tem sido diferente no contexto da pandemia. Contudo, essas populações têm lançado mão de novas técnicas a partir das tecnologias digitais, principalmente das redes sociais.

Em agosto de 2020, quando o Brasil alcançava a marca de 100 mil mortos por Covid-19, a aldeia Novos Guerreiros, da etnia pataxó, no sul da Bahia, foi ameaçada de reintegração de posse, após pedido da empresa Sky Dream Escola de Pilotagem, que tentou se apoderar de uma área da aldeia ocupada por 24 famílias. “Se não fosse nosso modo de vigilância, teria sido pior”, afirma Thyara Pataxó, liderança da aldeia Novos Guerreiros.

Protesto na aldeia Novos Guerreiros, da etnia pataxó, no sul da Bahia (Crédito: Emerson Pataxó)

Com a ameaça de perda das terras, a comunidade Novos Guerreiros mobilizou-se a partir das redes sociais para fazer valer a decisão do Supremo Tribunal Federal, de 6 de maio de 2020, que determinava a suspensão de todos os processos judiciais de reintegração de posse e anulação de terras indígenas.

“Antes íamos até Brasília para tentar derrubar uma liminar, mas, com todas as secretarias fechadas na pandemia, é impossível. Então escolhemos usar o celular de maneira consciente, postando fotos e vídeos da tentativa de reintegração de posse”, explica Thyara Pataxó, que é graduanda em Agroecologia pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

A aldeia Novos Guerreiros localiza-se entre as cidades de Santa Cruz Cabrália e Porto Seguro, ao lado de outras 37 comunidades pataxós. As aldeias mais distantes do centro urbano não acessam televisão ou rádio. Entretanto, comunidades como a Novos Guerreiros acessam a internet, sobretudo por dados móveis nos celulares. Por meio de provedoras rurais de acesso à internet, são negociados também pacotes de wi-fi que auxiliam na comunicação entre as aldeias e nas escolas das comunidades.

A liderança relata ainda que os povos indígenas já vivem, desde antes da pandemia, em certa forma de isolamento, saindo das suas comunidades para resolver o que é necessário. “Esse modelo é o que nos faz bem hoje. Sentimo-nos confortáveis”, comenta a líder pataxó.

Ainda que usar as redes sociais para defesa dos direitos civis e políticos não seja mais novidade, as comunidades originárias têm muito a dizer sobre planejamento da vigilância como resistência. “De imediato, quando soubemos da Covid-19, colocamos o cadeado na entrada da comunidade. Fazíamos revezamento entre grupos de mulheres e homens, com álcool em gel e máscara, passando informações para quem não acreditava na pandemia. A vigilância que fizemos nas aldeias foi importante pela questão de suporte coletivo”, avalia Thyara Pataxó.

Com o acesso limitado à internet na região, o auxílio emergencial não chegou à maioria das famílias indígenas. Somado ao turismo em baixa, houve escassez de alimentos e outros insumos nas aldeias. Para solucionar o impasse, as comunidades pataxós do sul da Bahia organizaram-se para gerar renda por meio do comércio on-line. “Nós voltamos a cultivar nossos conhecimentos tradicionais, plantando e colhendo de três em três meses. Foi importante, porque, enquanto etnia pataxó, vivemos muito do artesanato, mas a gente não pode ficar à mercê de uma (única) fonte de renda. Além de vender a colheita, começamos a vender os artesanatos das aldeias pela internet”, afirma a liderança de Novo Guerreiros.

Hoje, os desafios em relação aos sistemas de vigilância são imensos: dificuldades de acesso à internet, “políticas de diversidade” segregadoras e algoritmos de redes sociais que minam a visibilidade de grupos historicamente desumanizados. Não esqueçamos também das corporações privadas que se satisfazem com a “guerra às drogas” e o desrespeito às comunidades tradicionais, lucrando com o uso do aparato tecnológico. Infelizmente o aumento da vigilância como estratégia de resistência não significa a diminuição da vigilância como tática de coerção. Assim, devemos questionar-nos: quais experiências de liberdade permitiremos daqui para frente? Já é mais que necessário abrir espaço nos altos postos de decisões para os saberes pioneiros das comunidades tradicionais, indígenas e negras, de LGBTs e mulheres em relação à miríade da vigilância.

Mariana Gomes, jornalista e cofundadora da Plataforma Conexão Malunga. Liderança negra apoiada pelo Fundo Baobá, é pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisa em Análise do Discurso – UFBA.

[1] Uma base de dados integradora de várias bases da administração pública que vai crescendo na medida que mais órgãos integram o cadastro. Com potencial de gradualmente reunir uma ampla diversidade de dados pessoais de toda a população brasileira, inclusive dados sensíveis, sem transparência ou explicação a respeito de finalidade específica de acesso a esses dados.

[2] Um tipo de código malicioso que torna inacessíveis os dados armazenados em um equipamento, geralmente usando criptografia, e que exige pagamento de resgate (ransom) para restabelecer o acesso ao usuário.

[3] Panóptico é um termo utilizado para designar uma penitenciária ideal, concebida pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham em 1785, que permite a um único vigilante observar todos os prisioneiros, sem que estes possam saber se estão ou não sendo observados.

[4] Nesta oportunidade, opta-se por mestiça para a tradução livre do termo “mixed race”, que, na língua inglesa, refere-se a pessoas nascidas de junções interraciais. Ao mesmo tempo, compreende-se que, na experiência brasileira, após as denúncias do mito da democracia racial, este termo tem sentido pejorativo. Contudo, o termo “parda” não seria adequado nesta tradução, visto as diferenças entre Brasil e EUA.

 

 

[Fonte: http://www.diplomatique.org.br]

Los relatos fueron publicados por Fondo de Cultura Económica, reunidos en una edición prologada y organizada por su biógrafo Benjamin Moser y traducida por la poeta Paula Abramo.

Novelista, cuentista, periodista y traductora, Lispector nació en la aldea ucraniana Chechelnik el 10 de diciembre de 1920.

Escrito por Emilia Racciatti

Todos los cuentos de la periodista, traductora y escritora ucraniana-brasileña Clarice Lispector, desde el primero que escribió a los 19 años hasta los que se encontraron después de su muerte, fueron reunidos en una edición prologada y organizada por su biógrafo Benjamin Moser y traducida por la poeta Paula Abramo, quienes dialogaron con Télam sobre la obra de una de las autoras más singulares del siglo XX, la que nunca dejó de escribir y se animó a distintos géneros y formatos.

En las primeras páginas del libro publicado por Fondo de Cultura Económica, Moser adelanta que en estos 85 relatos Lispector « invoca, ante todo, a la escritora misma » y dice que allí están « desde la promesa adolescente hasta la implosión de una artista que se acerca a la muerte -e incluso la invoca-, pasando por la seguridad de la madurez, permitiéndonos descubrimos esta figura adorada en Brasil, que es más grande que la suma de sus obras individuales ».

Novelista, cuentista, periodista y traductora, Lispector nació en la aldea ucraniana Chechelnik el 10 de diciembre de 1920, pero su familia dejó Ucrania al año siguiente y después de un intenso viaje, sus padres Pinjas y Mania Lispector lograron instalarse junto a sus tres hijas, en 1922, en el puertito de Maceió, ubicado en el Nordeste brasileño.

A sus cinco años, Clarice llega con su familia a Recife, capital del Estado de Pernambuco, también en el Nordeste y se apropia del lugar, ya que allí aprende la lengua portuguesa, esa en la que pensó, soñó, proyectó y a través de la cual expandió las capacidades de habitar lo cotidiano.

Moser descubrió a Lispector estudiando portugués cuando leyó « La hora de la estrella ». « Fue una obra tan genial que me enamoré de esa mujer, quería saberlo todo », rememora el editor, escritor y traductor que luego se dedicó a escribir « Por qué este mundo. Una biografía de Clarice Lispector », por el que fue finalista del National Book Critics Circle Award y obtuvo el Premio Estatal a la Diplomacia Cultural de Brasil por contribuir a divulgar internacionalmente su obra.

Para el biógrafo, la de Lispector es « una obra tan rica que contiene mil temas » y dice que lo que más le llamó la atención « es que escribió desde la adolescencia hasta la muerte sin interrupción ».

Desde México, Paula Abramo relata que en 2017 le propusieron este trabajo de traducción, y aunque se sintió « muy honrada », primero dudó, « por las dimensiones del reto: Clarice es difícil, por momentos muy oscura, muy adorada y estudiada, y el libro no era pequeño ».

« Además, no era una escritora con la que yo tuviera una relación de mucha intimidad. Pero, ¿cómo negarse a tan sabroso desafío? Y, además, en el trabajo de traducción, la intimidad se construye. Entonces me decidí. El proceso me llevó un poco más de dos años, con intervalos importantes », explica sobre el libro que hoy presentará a las 19 en una charla vía YouTube -en el canal de la editorial- con la escritora y editora Valeria Tentoni.

Cuenta que se preocupó por « preservar las rarezas gramaticales de la autora, sus giros sorpresivos, pero dejar que en sus momentos de sencillez y transparencia fuera sencilla y transparente también en español ». En el proceso detalla que consultó a colegas especialistas en literatura brasileña y traductores de Clarice para los puntos en los que no lograba decidirse por una u otra lectura.

« A veces las interpretaciones de todos ellos diferían entre sí, y eso me producía una sensación de libertad y vértigo. Al final grabé toda la traducción: era importante para mí saber cómo sonaba. Solo entonces revisé otras traducciones », precisa.

Su encuentro con la obra de Lispector fue a partir de « Lazos de familia », que recuerda haber leído « cuando tenía veintipocos años ». « Lo encontré, si no mal recuerdo, en una librería de viejo acá en México. Era la traducción de Cristina Peri Rossi, editada en España por Montesinos. En aquel momento lo que más me impactó fue el cuento ‘La cena‘, ese retrato inquietante de una figura masculina y poderosa, decayendo, desmoronándose en un restaurante mientras come carne. Luego, por muchos años, salvo por algunos encuentros esporádicos, dejé de leer a Lispector. Pero ese cuento, junto con ‘El búfalo’ y ‘Una gallina’, estaban siempre por allí, en mi memoria », repasa.

Abramo (Ciudad de México, 1980) dice que el conjunto agrupado en este volumen « reúne textos bastante heterogéneos, desde escritos muy poéticos, como ‘La repartición de los panes’ o ‘Silencio’, hasta un extraño auto de fe incluido en la heterogénea sección ‘Fondo de cajón’, de ‘La legión extranjera’, pasando por el demoledor ‘Mineirinho’, que es un posicionamiento político de la autora frente a la brutalidad policiaca, un texto más periodístico, que mantiene una tristísima vigencia en la actualidad ».

Lispector murió en Río de Janeiro el 9 de diciembre de 1977 a los 56 años en la víspera de su cumpleaños.

¿Cómo dialogan los cuentos con las novelas de Lispector? Para Abramo, autora del poemario « Fiat Lux », « la lectura de sus cuentos es una buena compañía para la de sus novelas, pues permite un recorrido diacrónico en el que muchas de las inquietudes y exploraciones presentes en los cuentos están también presentes en las novelas que escribió en esos mismos períodos y dialogan con ellas ».

« Clarice es un poco un pensamiento, un movimiento. Los límites entre los géneros es algo que no le interesaba para nada. Es algo académico que se ha impuesto a la obra de una escritora« .

BENJAMÍN MOSER, BIÓGRAFO

Para el escritor, que después de la biografía de Lispector se abocó a la de la escritora Susan Sontag, « algunos cuentos son casi como pinturas abstractas que no tienen nada que ver con la comprensión fácil, y muchos de esos cuentos empezaron como piezas periodísticas o comenzaron con cuentos y fueron transformándose en piezas periodísticas, porque tuvo una crónica en el Jornal de Brasil semanal durante varios años ». Ese trabajo, esas columnas son « un lujo para las ciudadanas y los ciudadanos de Río en los años 60 y 70 ».

Lispector publicó a los 23 años « Cerca del corazón salvaje », que había escrito a los 19, y por la que recibió el premio Graça Aranha como mejor novela. Ese mismo año se casó con el diplomático Maury Gurgel Valente, a quien conoció mientras estudiaba en la universidad, y comenzó una vida familiar que la llevó a compartir destinos internacionales sin dejar nunca de lado su vínculo con la escritura.

No se dejó atrapar por convenciones ni etiquetas, estableció una intervención única y personal sobre el lenguaje que puede encontrarse en los libros de cuentos « Algunos cuentos », « Lazos de familia », « La legión extranjera » y en las novelas « La pasión según G.H. », « Agua viva » « La lámpara » o « Para no olvidar ».

« La escritura fue algo fundamental en su vida. Ella dice siendo bastante joven, a sus 25, 30 años que escribir era lo que más quería, por encima de cualquier otra cosa, hasta más que el amor mientras sospechaba que no valía la pena, que no estaba a la altura de lo que pretendía ser, esa duda la acompañó siempre. Sin embargo, a pesar de sus dudas, se fue formando mientras escribía. Es la figura fundamental de la literatura brasileña del siglo XX, cada día es más famosa, más leída y más querida », destaca Moser.

Tanto Abramo como Moser eligieron aquellos textos que prefieren de la obra de Lispector. Para la traductora, los elegidos son los que están en « El viacrucis del cuerpo » y en especial « El cuerpo » al que define como « un cuento desternillante, que me reveló una Clarice totalmente otra: desparpajada, cómica, irreverente ».

Mientras que el biógrafo se inclina por « La imitación de la rosa », un relato que define como « absolutamente genial » donde « las frases del inicio son muy normales, comprensibles y poquito a poco se va deslizando su habla y el lector se puede dar cuenta de que esa mujer se está volviendo loca. Es algo que me fascina porque la frontera entre la sanidad mental y la locura es un tema que siempre le admiré a Clarice, ella tiene la fuerza de no volverse loca, de ir, de pensar en los extremos de la experiencia humana sin pasar los limites y volver para contarlo ».

Lispector murió en Río de Janeiro el 9 de diciembre de 1977 a los 56 años en la víspera de su cumpleaños y dejó un universo que convoca a explorar los lazos familiares, los límites con lo establecido y las injusticias atravesando las tensiones que permiten la lengua y la narrativa.

 

[Fuente: http://www.telam.com.ar]

 

La normativa aclareix quines entitats formen part del sector públic que han de facilitar la informació.

La Llei de Transparència, Accés a la Informació Pública i Bon Govern pretén regular la transparència en l’activitat pública.

Autor/a: Dani Gallart

El passat 9 de febrer, el Govern de la Generalitat va aprovar el Decret 8/21 sobre la transparència i el dret d’accés a la informació pública. El seu objectiu és garantir una implementació més homogènia, efectiva i exhaustiva de la Llei 19/2014 de Transparència, Accés a la Informació Pública i Bon Govern.

Montse Agudo, cap de l’àrea jurídica de Suport Tercer Sector, assenyala que el nou decret, a més de clarificar alguns aspectes que no estaven concretats a la llei, millora la confiança en aquestes entitats i administracions. “Per a les entitats, complir amb la llei de transparència dona confiança davant de tercers, millora la seva imatge i les seves relacions. D’altra banda, serveix perquè la gent que s’apropa a aquestes entitats tingui més coneixement de la mateixa i, d’aquesta manera, és més fàcil difondre la tasca que es fa”.

“El nou decret també ajuda a matisar alguns aspectes que estaven recollits de forma més genèrica a la llei, com la limitació en la protecció de dades o la identificació del personal directiu, entre d’altres”, afegeix Agudo.

Finalitats

La Llei de Transparència, Accés a la Informació Pública i Bon Govern té dos grans objectius.

Per un costat, es pretén regular la transparència en l’activitat pública i regular l’accés de la ciutadania a la informació pública. En aquest sentit, els deures de transparència activa imposen a les Administracions la necessitat de facilitar tota aquella informació de què disposen en raó de la seva activitat.

D’altra banda, la normativa pretén garantir el compliment de les obligacions de transparència i bon govern i l’exercici del dret d’accés per afavorir la millora de la qualitat democràtica en el funcionament de les administracions públiques en tot el territori català.

També pretén regular l’accés de la ciutadania a la informació pública.

Concrecions

El document clarifica conceptes jurídics a la vegada que resol dubtes interpretatius aprofitant la valuosa experiència adquirida per les administracions públiques de Catalunya en l’aplicació de la llei al llarg dels últims sis anys.

Respecte a la petició d’informació per part de la ciutadania, la normativa especifica una novetat que permet agilitar la tramitació de resposta de l’Administració quan la sol·licitud de la ciutadania és estimada. Al ser una llei molt àmplia, el decret també aporta claredatmatisos concrecions per tal de facilitar la seva aplicació.

En aquest sentit, concreta quins són els subjectes que d’una manera o altre resulten obligats per la Llei. D’altra banda, concreta els continguts que els subjectes obligats han de difondre proactivament, així com les condicions de la publicació. A més, es matisen els diferents tràmits que integren el procediment de resolució de les sol·licituds d’accés a la informació pública.

A qui va dirigit i quin contingut s’ha de presentar

Una de les novetats de la normativa és que s’especifica quines entitats formen part del sector públic i, per tant, han de facilitar informació proactivament. El decret és aplicable a les administracions públiques i altres organismes i institucions públiques, així com a les societats amb participació majoritària d’una administració pública (suficient si supera el 50% del seu capital). Així mateix, es defineix quines són les encarregades de tramitar les sol·licituds.

D’altra banda, també és aplicable a persones i entitats privades i s’especifiquen alguns aspectes que han de publicar amb l’objectiu de complir amb la llei.

La normativa també destaca quins són els continguts a publicar per part de les administracions, tenint en compte la forma, el lloc o el mitjà de publicació, a més dels terminis per a publicar. D’aquesta manera, es concreten les dades de declaracions patrimonials i d’interessos dels alts càrrecs i personal directiu a l’Administració de la Generalitat que cal publicar, i es determina quina ha de ser la publicitat de les seves agendes públiques respecte als contactes i reunions mantinguts amb els grups d’interès.

Novetats

Una de les novetats més importants amb un impacte directe i eminentment pràctic en la gestió de les sol·licituds ciutadanes d’informació pública és el fet que quan una sol·licitud és estimada per part de l’Administració, aquesta podrà emetre una comunicació simplificada de finalització del procés. Aquest fet agilitzarà el procediment per afavorir el tràmit, tant a la ciutadania com a l’Administració.

Una altra novetat és que es concretaran les causes legals per les quals una sol·licitud és admesa o no. Així mateix, la nova llei especifica els límits que cal tenir en compte a l’hora de facilitar la informació a la ciutadania.

D’altra banda, degut a la ràpida evolució que ha tingut la transparència en els darrers anys a Catalunya, per tal d’afavorir instruments que posin al dia l’exercici de la llei, el decret dedica un capítol a regular la lliure reutilització de la informació a publicar per tal de permetre la seva explotació a la ciutadania mitjançant la seva reproducció i divulgació per qualsevol mitjà.

[Fotos: Unsplash – font: http://www.xarxanet.org]

Instituto criado pelo chef paulista transforma a especiaria em marcas exclusivas e obtém financiamento de R$ 424 mil para pesquisa; kalungas recebem menos de 10% do valor e afirmam que são excluídos das decisões sobre o produto

Escrito por Caio de Freitas Paes

No Território do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, maior quilombo do Brasil, que engloba os municípios goianos de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás, existem especiarias e alimentos únicos, cultivados há gerações pelas comunidades quilombolas. São preciosidades como o arroz-de-pilão, o gergelim e a pimenta-de-macaco, típicas da Chapada dos Veadeiros, que encantam os visitantes e fortalecem a agricultura familiar e agroecológica na região.

Box do Instituto ATÁ no Mercado de Pinheiros. Foto: Heloisa Ballarini/Secom

Desde o último dia 13 de abril, parte desses produtos está à venda para um público mais amplo, graças ao lançamento da linha Ecossocial Kalunga no Mercado de Pinheiros, em São Paulo. A chegada à capital paulista se deu pelo renomado chef Alex Atala, reconhecido pelo uso de ingredientes de diferentes biomas brasileiros em pratos de alta gastronomia. Ele é o criador do projeto Baunilha do Cerrado, conduzido por sua organização – o Instituto Atá – no território quilombola entre 2016 e 2018.

O que não veio a público é que o projeto foi marcado por manobras jurídicas e entreveros entre a equipe do chef e os kalungas. A Associação Quilombo Kalunga (AQK), parceira local de Atala na execução das atividades, não foi convidada para o lançamento: no evento estiveram presentes apenas dois moradores da comunidade Vão de Almas, local onde o projeto foi desenvolvido – os contatos com eles foram feitos sem conhecimento dos representantes oficiais do quilombo.

“Só fiquei sabendo depois que eles foram apresentar esses produtos em São Paulo”, diz o presidente da AQK, Vilmar Souza Costa. “Eles [Instituto Atá] abordam as pessoas isoladamente, não sei se pagaram por essas participações, e o território é um só”.

O fio que desvela a intrincada história por trás dos desentendimentos é, afinal, a baunilha – especiaria à qual Atala teve acesso anos antes, durante uma viagem ao nordeste de Goiás; dali em diante, seu interesse por ela só aumentou. A baunilha agroecológica possui essência marcante e é usada em receitas de confeitaria e na aromatização de pratos de alta gastronomia. Extraído das favas de orquídeas do gênero Vanilla, o ingrediente é bem cobiçado no Brasil e no exterior.

Atala teve acesso às plantações e pesquisou propriedades da espécie. Foto: Associação Quilombola Kalunga

A aproximação do chef com quilombo culminou em um projeto de R$ 424 mil, criado para “ajudar os quilombolas a formar uma cadeia produtiva da espécie”. A Fundação Banco do Brasil, parceira na empreitada, garantiu pouco mais de R$ 382 mil dessa verba, que deveria ser usada em melhorias e capacitações para os kalungas. Concluído o projeto, os quilombolas estão descontentes com o que lhes restou.

Com a parceria, a equipe de Atala lidou com amostras e mudas nativas, teve acesso às plantações e pesquisou as propriedades botânicas da espécie. Enquanto isso, nos bastidores moveu esforços para tornar a baunilha do Cerrado uma marca exclusiva, sem partilha ou acordo prévio com os kalungas.

MANOBRAS JURÍDICAS E DUAS MARCAS REGISTRADAS

Foi em 2014 que Alex Atala descobriu que o quilombo goiano possui a tão desejada baunilha e que pequenos agricultores kalungas a vendiam por preços irrisórios. Preciosa, ela não é mais cara que o ouro, mas vale mais que a prata no mercado internacional: o preço do quilo pode ultrapassar US$ 600.

Em média, a dupla de favas custa entre R$ 10 e R$ 20 em feiras agroecológicas como a de Alto Paraíso de Goiás, a cem quilômetros da comunidade do Vão de Almas. O território kalunga possui pelo menos três espécies crioulas de baunilha: Vanilla bahianaVanilla pompona e Vanilla guaianensis, de onde as favas são extraídas. Acredita-se que menos de 1% da essência de baunilha vendida em todo o mundo seja derivado de favas livres de agrotóxicos, como as encontradas por lá.

Enquanto desenvolvia atividades no Vão de Almas, o instituto de Alex Atala tomou medidas legais em rel

ação à planta sem avisar os kalungas, dando início a uma série de tentativas para tornar a “Baunilha do Cerrado” uma marca comercial. Em 2019, com o projeto já terminado, o Atá obteve o registro do nome popular da iguaria em dois dos cinco pedidos que formalizou junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). Outros dois pedidos foram parcialmente indeferidos – o que significa que ainda cabem recursos para a concessão – e apenas um foi totalmente negado, no dia 26 de fevereiro.

As marcas são agora propriedade exclusiva do instituto pelos próximos dez anos.

As atividades com os quilombolas ainda estavam em andamento quando os pedidos foram protocolados. Os kalungas – que se reúnem com frequência para tomar decisões coletivas sobre o território e seu uso – foram pegos de surpresa, pois não havia nada combinado sobre registros ou criação de marcas comerciais no acordo com Atala. “A ideia do projeto era boa, mas da parte deles não houve respeito com a comunidade”, diz Vilmar. “Teve muita falta de comunicação, principalmente com a associação”.

“Ouro negro”: alta procura por baunilha levou à explosão de conflitos agrários em Madagascar. Imagem: Expresso

Desde 8 de maio de 2019, o Instituto Atá detém o uso exclusivo da marca “Baunilha do Cerrado” para serviços de beneficiamento de alimentos e de assessoria, consultoria e concessão de informações sobre pesquisas no campo de agricultura. No entanto, o INPI não autorizou o ATÁ a usar a marca “Baunilha do Cerrado” no comércio de alimentos produzidos pela agricultura familiar, povos e comunidades tradicionais, na divulgação e publicação de textos publicitários e na organização de eventos para fins publicitários e/ou comerciais. A proibição não evitou o lançamento da linha Ecossocial Kalunga, em abril.

O instituto ligado a Atala arranjou uma saída jurídica para a questão: sua equipe desenvolveu outra logomarca, caracterizada por uma reprodução em desenho da espécie com o nome “Projeto Baunilha do Cerrado”, em grafia estilizada. À época do evento em São Paulo, o Atá ainda não havia entrado com o pedido no 917283783 para registrar essa marca. Novamente, os quilombolas ficaram de fora.

Andrea Gonçalves, advogada da associação, afirma que o recurso do instituto desagradou a comunidade:

–  A proposta do projeto do Instituto à comunidade envolvia a geração de renda, acesso ao mercado-fim através do cultivo da baunilha e seus subprodutos, e a organização da comunidade para a comercialização de outros produtos da sua base produtiva. E tudo isto feito através da Associação Quilombo Kalunga. No entanto, a AQK não teve participação ativa em várias tomadas de decisões, inclusive, ocorrendo o lançamento dos seus produtos com uma identidade visual que carrega o nome KALUNGA, para a qual sequer puderam opinar na elaboração.

Em resposta aos questionamentos enviados pela reportagem, Alex Atala afirma:

– Fizemos esses pedidos com o objetivo de exclusivamente preservar o projeto, proteger a baunilha de uma possível superexploração em estado selvagem e cumprir com o convênio com a Fundação Banco do Brasil.

Questionada, a fundação esclarece que “não houve previsão para registro da marca”. Do lado quilombola, a assessoria jurídica garante que não foi consultada e sequer informada sobre os registros junto ao Inpi. O chef disse que os kalungas estão liberados para usar as marcas. A assessoria do quilombo não confirma, dizendo que não recebeu documentos que comprovem essa autorização.

A íntegra do posicionamento do instituto pode ser conferida em: “Respostas do Instituto ATÁ sobre registro da marca Baunilha do Cerrado

REAÇÕES CONTURBADAS ENTRE CHEF E KALUNGAS

As tentativas de tornar a baunilha do Cerrado e suas derivações em marca são importantes para entender os problemas em torno do projeto. Tais atitudes trincaram a imagem positiva que o Atá atribui à iniciativa e, por consequência, abalaram sua relação com os kalungas.

“Baunilha do Cerrado” é foco de disputa entre kalungas e o Instituto ATÁ.

 

No relatório final do convênio com a Fundação Banco do Brasil fica claro que as diferenças se tornaram um problema conforme as ações eram executadas, criando assim um clima conturbado entre a equipe de Atala e os kalungas. No documento, o Atá faz uma avaliação:

– Uma das grandes dificuldades deste projeto, devido ao modo de organização social e também às diferenças culturais e de entendimento que muitas vezes dificultam a comunicação de nossa equipe, é a coleta de assinatura para atividades pertinentes ao projetoMuitos não querem ou não se sentem nada confortáveis ao assinar documentos, mesmo com toda a explicação de nossa equipe de campo.

Do outro lado, a principal reclamação dos kalungas é que sua participação no projeto foi limitada desde o início. Eles questionam o saldo das palestras e das oficinas para produção, organização e comercialização de alimentos – compromissos firmados para, de fato, ajudá-los a fortalecer seu modo de cultivo e subsistência. Os quilombolas imaginavam que, terminado o projeto, teriam condições de explorar economicamente sua produção agrícola sem intermediários, com autonomia.

A realização das atividades está comprovada em fotos e vídeos mas, ao que parece, não se transformou em ganhos reais à comunidade. A consolidação de uma cadeia produtiva da baunilha do Cerrado e de outras especiarias cultivadas ali ainda não vingou. Os quilombolas acreditam que, na prática, serviram apenas para garantir o acesso da equipe de Atala à baunilha.

O kalunga Romes Santos foi um dos jovens líderes do Vão de Almas que participou das atividades. “Criamos um grupo para manter a transparência junto ao pessoal do Vão de Almas e do quilombo: de qualquer medida que fosse tomada a gente participaria e a comunidade estaria de olho”. Mas, segundo ele, a partir do momento em que entrou dinheiro, o Atá parou de prestar esclarecimentos. “Não davam explicação para mais ninguém, faziam as coisas do jeito que eles queriam”, afirma.

Do outro lado, o instituto se pronuncia:

– Trabalhamos em parceria com a comunidade Kalunga para que ela fortaleça seus sistemas de produção, torne-se independente e possa empoderar-se financeiramente.

MENOS DE 10% DO ORÇAMENTO FOI PARA A COMUNIDADE

O projeto Baunilha do Cerrado teve R$ 424 mil à disposição. A maior parte dos recursos veio da Fundação Banco do Brasil, mas houve outros aportes – como o da principal agência das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a FAO, que investiu R$ 25 mil, e o próprio Instituto Atá, que bancou em torno de R$ 40 mil.

Produtos da linha Ecossocial Kalunga

 

Encerrado oficialmente em 20 de dezembro de 2018, o convênio determinava que 9,85% da verba total – pouco mais de R$ 41 mil – fossem investidos na compra de produtos ou serviços para os kalungas, tidos como uma contrapartida do projeto. Diretamente, apenas R$ 8,7 mil foram gastos na comunidade até agora; o valor não chega nem a 3% do orçamento.

O valor foi usado na aquisição de arroz, farinha de mandioca, gergelim, mesocarpo de babaçu e pimenta-de-macaco, produtos que compõem a linha Ecossocial Kalunga. Segundo o Instituto Atá, “as aquisições foram intermediadas pela cooperativa Central do Cerrado, que selecionou quais produtos seriam adquiridos, beneficiou e embalou-os para a comercialização”; a cooperativa recebeu R$ 35 mil pelos serviços.

Para fechar a conta e completar os 9,85% da verba total, o instituto considera produtos e entregas que não foram de fato usados pelos kalungas até agora. Entram na equação o desenvolvimento de um site oficial, por R$ 18 mil, e a criação da logomarca do projeto, hoje registrada, por R$ 5 mil. Os kalungas reclamam da eficácia das palestras e oficinas voltadas à comunidade que, na prestação de contas, custaram R$ 10 mil. Romes diz que a comunidade não os quer mais na região:

– Disseram que iam ensinar a gente a fazer o plantio de mudas, receitas e jeitos de cozinhar usando a baunilha, mas nada disso prestou, tá tudo igual como era antes, e a comunidade não quer mais eles aqui. 

À reportagem, Alex Atala diz que sua equipe não foi ao Vão de Almas para encerrar oficialmente as atividades – apenas comunicou o fim do projeto à associação do quilombo via e-mail.

AO LADO DA EMBRAPA, ATÁ MIRA PRODUÇÃO NACIONAL

Por dois anos, voluntários e profissionais contratados por meio do projeto Baunilha do Cerrado tiveram amplo acesso às terras e aos saberes kalungas, enquanto os quilombolas sentiam-se, gradativamente, deixados de lado. Ao longo do processo, a equipe de Atala pode conhecer práticas tradicionais de extração e partes do território onde a especiaria é cultivada.

Amostras de Vanilla pompona são coletadas durante visita de pesquisadora mexicana.

 

A imersão rendeu frutos. Foram realizadas pelo menos três pesquisas botânicas sobre as baunilhas: especialistas franceses, mexicanos e brasileiros fizeram a coleta de amostras. Segundo o Instituto Atá, os pesquisadores atuaram apenas como voluntários na iniciativa. Há versões conflitantes em relação às amostras: moradores das comunidades do Engenho II, por onde a equipe de Atala também transitou, e do Vão de Almas, alegam que mudas de baunilha foram levadas sem qualquer aviso à associação do quilombo. À reportagem, Alex Atala negou as afirmações.

Hoje, os kalungas estão receosos quanto ao uso das informações concedidas sobre a baunilha. O presidente da associação afirma:

– No projeto, mostramos algumas áreas nativas de onde extraímos a baunilha aqui, além de apresentar técnicas tradicionais nossas, de manejo, para a equipe [do Instituto Atá]. Estamos preocupados com detalhes legais: vai que esse povo consegue registrar e patentear o uso? Ou o modo como plantamos nossa baunilha?

A atual legislação os resguarda, mesmo que minimamente, diante da possibilidade. No Brasil não é permitido o registro de patente e marca sobre “o todo ou parte de seres vivos naturais e materiais biológicos encontrados na natureza”.

Fato é que o Atá tem novos planos em relação às baunilhas. Em parceria firmada com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) pouco após a imersão no quilombo goiano, onde teve amplo acesso a amostras e saberes tradicionais, o instituto vai participar da criação de um estoque de sementes nativas das espécies brasileiras. Durante o projeto, a equipe do chef visitou os kalungas mais de quarenta vezes, filmando e registrando parte dessas visitas.

Em novembro de 2018, o instituto assinou um termo de cooperação para criar uma cadeia de produção nacional da especiaria. Segundo a Embrapa, o convênio vale por quatro anos e engloba “ações de pesquisa, desenvolvimento e inovação relacionadas às espécies brasileiras”. Estão previstas atividades de prospecção, coleta e criação de um estoque de sementes sem modificação genética. O órgão acrescenta que, “caso os resultados alcançados sejam objeto de patentes futuras, novos acordos terão de ser feitos”.

Na nota, Alex Atala informa que “nem o Atá nem a Embrapa possuem mudas de baunilha do Cerrado advindas do território quilombola. Não retemos em nenhum momento do projeto informações georreferenciadas e as técnicas quilombolas de seu cultivo”.

CIFRAS EXPLICAM DISPUTAS E INTERESSES

Cultivada sem agrotóxico, baunilha do Cerrado se destaca das demais.

A baunilha do Cerrado mal entrou no mercado e já se destaca. As favas cultivadas pelos quilombolas goianos crescem e pesam muito além das encontradas no resto do mundo, superando outras variedades, como a tradicional baunilha mexicana, que pesa, em média, 0,02 g.

Em Madagascar, ilha no leste da África responsável por 65% da produção mundial de baunilha, a procura pelo “ouro negro” tem gerado conflitos que vão do roubo de colheitas à expulsão de camponeses por grupos armados. Depois da passagem do ciclone Ava, em janeiro, o preço do quilo disparou. De algo como US$ 20, o valor pulou para a casa dos US$ 600, inflamando os confrontos no campo, com a formação de milícias rurais para proteção das colheitas.

Segundo o Banco de Dados Estatísticos de Comércio de Produtos das Nações Unidas, o Comtrade, a exportação de baunilhas de Madagascar atingiu US$ 894 milhões em 2017. Os Estados Unidos são o principal comprador no mercado mundial, concentrando US$ 575 milhões em importações nesse mesmo ano.

Esse contexto global tem aumentado a cautela dos kalungas, que temem que o cultivo intensifique os conflitos, somando-se a outras ameaças que os cercam – como projetos de hidrelétricas, garimpos ilegais e a expansão da soja no entorno. Os quilombolas ainda batalham pela posse definitiva de ao menos 118 mil hectares do seu território.

 

 

 

[Foto principal: Fartura Brasil – fonte: http://www.deolhonosruralistas.com.br]

La 2018 es una de las grandes cosechas en la historia de Don Melchor gracias a las condiciones climáticas ideales -con un buen equilibrio de precipitaciones y temperaturas- para el cultivo de Cabernet Sauvignon y el riguroso trabajo enológico detrás.

El reconocido vino chileno que se consolida con un puntaje perfecto

Escrito por Loreto Santibañez

« Un manjar ». Así se puede definir la experiencia de probar Don Melchor, uno de los vinos chilenos más reconocidos internacionalmente. Y no es casual, pues efectivamente es una cremosidad con carácter y presencia la que despierta los sentidos de este Cabernet Sauvignon que gana adeptos que incluso se reúnen en clubes en diferentes partes del mundo.

2018: Una cosecha perfecta

La reciente añada del vino tinto ícono de Puente Alto se dio en condiciones climáticas ideales, permitiendo una vendimia sin precedentes y un vino final que obtuvo el máximo reconocimiento -100 puntos- del crítico internacional James Suckling, marcando un verdadero hito para la marca y para la industria del vino chileno.

“Esto es alucinante. La vitalidad y energía en este vino son deslumbrantes. La complejidad de los aromas es impresionante con olores a grosellas negras, frambuesas y duraznos. Cuerpo amplio, aunque muy refinado y pulido con textura impecable y belleza. El largo es maravilloso. Este es un testimonio al equilibrio, la armonía y la transparencia en un gran tinto”, dijo el norteamericano.

Y es que las favorables condiciones permitieron obtener un vino que rescata la máxima expresión de la fruta y madurez de los taninos y que respeta fielmente su origen.

“La perseverancia en la búsqueda de la mejor expresión y calidad nos ha permitido obtener en la cosecha 2018 lo que llamamos una cosecha perfecta. Los vinos son muy expresivos, con la madurez precisa, rescatando toda la expresión de la fruta del Cabernet Sauvignon y Cabernet Franc. Vinos concentrados, pero con taninos muy suaves y elegantes, vinos que muestran diferentes capas de aromas y sabores que al momento de juntarlos en la mezcla logran producir esa emoción única que solo se percibe en los grandes vinos y las grandes cosechas”, señala su enólogo Enrique Tirado.

Con la obtención de estos históricos 100 puntos por parte de James Suckling, Don Melchor consolida su posición como uno de los grandes Cabernet Sauvignon de alta gama del mundo y posiciona, además, al terroir de Puente Alto como un lugar único y capaz de mostrar al mundo el gran potencial de Chile para producir grandes vinos.

Con más de 30 años de historia, la marca sigue cosechando lo más altos reconocimientos a nivel internacional, como cuando el medio internacional Wine Spectator elaboró un artículo llamado “El Cabernet coleccionable de Chile”, el cual se basó en la degustación retroactiva de las 30 cosechas de Don Melchor.

En la instancia participó el reconocido crítico y editor senior Kim Marcus, quien catalogó las cosechas con “una notable consistencia y profundidad de sabor”.

El especialista en vinos destacó además lo “distintivo y poderoso” de este Cabernet Sauvignon, resaltando los “aromas ricos y terrosos, sabores de frutas rojas secas, cerdo y especias que reflejan una notable combinación de finura al estilo de Burdeos y pureza otorgada por sus frutas”.

Tradición y calidad de 30 años

Wine Spectator destaca la historia del terroir de Puente Alto, ubicado en el valle del Maipo, contada por Enrique Tirado, quien ha estado involucrado en la producción de Don Melchor desde 1995. Sin embargo, la historia de este vino nace en 1987, cuando fue bautizado en honor al fundador de Concha y Toro.

El artículo destaca que el viñedo fue plantado originalmente hace 100 años, y cuenta con una superficie que alcanza las 127 hectáreas, donde 90% corresponden a Cabernet Sauvignon, 7,1% a Cabernet Franc, 1,9% a Merlot y un 1% a Petit Verdot.

Por otro lado, la revista especializada señala que este vino puede envejecer por más de 20 años y conservar su “frescura y vitalidad”. Entre las cosechas más antiguas, destaca la publicación, se encuentran la de 1997, 2003 y 2008, las que se caracterizan por un sabor profundo, con un gran agarre a los componentes de fruta madura, y respaldada por taninos ágiles.

 

[Fuente: http://www.elmostrador.cl]

 

La crónica que sigue la escribí en 1998, poco después de volver de 20 años en Barcelona, y se publicó en la extinta revista Página 30. Tenía unas vacilantes ganas de recuperarla, pero una sarta de falsedades odiosas, creo que producto de un desconocimiento alentado por pretensiones de ilustración, me dijo que por qué no. Vaya también como homenaje a un jugador sin igual, y eso que he disfrutado con varios de los mejores.

Escrito por Marcelo Cohen

Como muchas, la historia de Maradona entre los catalanes gira en torno a un error; si algo la distingue, y en cierto modo la eleva, es que los antagonistas nunca quisieron reconocer que se habían equivocado, probablemente porque no se dieron cuenta. Quizás no podían. Maradona nació pobre, pero ya muy joven empezó a hacerse rico y famoso en un país donde una dosis suficiente de fama da buenas perspectivas de lograr la inmortalidad ―y de avizorarla en vida―. A pocos pueblos como el argentino les encanta convertir cada belleza pasajera en imagen de panteón que, uniéndose a otras imágenes rutilantes, varias veces muertas, llene un poco el nicho de la identidad. Si la creación expeditiva de un dios o un santo lo exige, los argentinos humillamos al candidato antes de que muera y agigantamos los suplicios que le haya infligido algún bárbaro, para que a la ristra de virtudes no le falte la grandeza del martirio. Aceptado que la gracia de la perduración es disfrutarla en materia, en la Argentina el candidato puede realizarse como divinidad antes de morir; los requisitos, aparte de atributos reales, son una gran capacidad para almacenar elogios, una amplia superficie de reflejo, debilidades carnales paganas y un histrionismo egomaníaco que no parezca representación sino, más bien, autenticidad, transparencia, franqueza, espontaneidad, eterna adolescencia, ah, oh, etc. Se dirá que en el universo massmediático hoy pasa esto en la mayoría de los países. Es cierto solo en parte: en algunos países ―de América, sobre todo― el trabajo se toma más en serio, y el ego debe ser más resuelto, porque la inmortalidad es más inmediatamente accesible incluso para individuos de extracción dudosa y profesión baja. Así es que el candidato o héroe se ofrenda en vida con una no muy nublada conciencia de lo que está haciendo: extrema sus virtudes, insufla su persona, se adorna con deliciosas faltas y ―de lo anterior se desprende que esto es decisivo― practica la impudicia, tan abnegadamente que termina siendo impúdico de veras y le gusta.

El candidato debe ser tan ingenuo como el país. Está en el candelero mirando siempre cómo lo miran mientras despliega su don, mirando si lo miran, abriéndose el cuerpo para mostrar la interioridad visceral, persuadido de mostrar que no es solo una apariencia ―y el argentino le cree; le creemos―. El héroe es voluble, arbitrario; más cerca de lo divino si un poco asqueroso, objeto de alabanza zandunguera, de unción devota pero también de escupida denigratoria. La progresiva divinización se consolida con la caída del héroe en la negligencia y otras lacras, procedimiento que enmaraña las cosas cuando el héroe tiene efectivamente un don singular, una cualidad que hechiza pero la negligencia tiende a empañar.

En cambio en Cataluña, pequeño, próspero país que se solaza tanto en su singularidad como en pertenecer a la preclara Europa, la división entre leyenda y mito es cortante. Todo héroe pasa la vida entre la torridez del afecto popular y una penumbra de suspicacia, y solo es mitificado si una o más generaciones juzgan que dejó una contribución indiscutible, mejor si contante, a la solidificación de una comunidad laboriosa. Los catalanes admiran más que nada a los alemanes, empeñándose en ser graves como ellos, contentos de superarlos en ironía, acomplejados de no producir tantos genios rotundos, orgullosos de comprender mucho mejor a los genios que han dado o acogido ―Casals, Picasso o Schuster―, tristes de no ser tan productivos, acomplejados por no poder ser diligentes sin sacrificar el estro romántico, contentos de que el sacrificio les impida entronizar déspotas asesinos, sabedores de que, mediterráneos al fin y puede que herederos de los fenicios, se han ido haciendo en la eficaz tolerancia de las civilizaciones mercantiles, en la política liberal.

Casi por definición, todas las naciones practican alguna forma de racismo; algunas la soterran, no solo por hipocresía sino también por vergüenza. Considerar el racismo vergonzoso es un atenuante; lamentablemente, el racismo que se reprimió termina despuntando, bien por compulsión, bien por herida en el cálculo. La virtud nacional catalana es el seny ―se pronuncia “señi”, concepto que abarca el buen sentido, el juicio cauto, la mesura y la temperancia, sin descontar la astucia. Los catalanes, se dice, tardan en intimar, porque cuando dan la amistad es para siempre ―y uno se admira de la conveniencia práctica de esta ética―. Sin embargo, hay dos puntos en donde ese espíritu de impavidez se extravía, para peor conservando la frialdad mercantil, y esos puntos son el odio a los madrileños ―asentado en numerosas razones históricas― y el amor delirante por el Club de Fútbol Barcelona. El Barcelona es “más que un club”: es símbolo y espejo, institución nacional inmarcesible, monumento al progreso, escaparate y tripa; es el producto más acabado, más suntuoso, de un buen sentido burgués que trabaja meticulosamente para exhibir en periódicas fiestas su cara arrebatada de elegancia depuesta. El Barcelona ofrece las orgías que jalonan puntualmente la rutina de la ciudad: al Camp Nou se va a a llorar a mares o a derretirse de gozo, a soltar los gritos e insultos que en la apacible vida cotidiana serían un trastorno temible. Como los comerciantes de Ámsterdam en el siglo XVII, el Barcelona compra lo mejor y a veces hasta lo exótico, lo acoge con entusiasmo, lo defiende con pasión y al cabo empieza a vigilarle la conducta y el rendimiento, dispuesto a prescindir de su brillo ―como los comerciantes de Ámsterdam de los servicios de Rembrandt― cuando la actitud del artista o el precio de la mercancía les resultan desfavorables.

Un día, en 1982, el club compró a Diego Maradona. Como ya había comprado a Bernd Schuster, pasó a tener los dos mejores jugadores del mundo de aquel momento. Los barceloneses saltaban en una pata. Nadie advirtió ―por supuesto que tampoco nosotros, los emigrés argentinos residentes en Barcelona, exultantes de placer futbolero y vindicación jactanciosa― que la operación no pintaba bien. Y no por el flagrante bulto que hacía en la ciudad el clan de Dieguito, ni por los mentados actos de indisciplina, ni siquiera por la suma de estos y otros factores, sino porque, aun sabiéndose mercancía y dueño ya de una alta conciencia gremial, a Maradona jamás le iba a entrar en la cabeza que él pudiera resultar desfavorable para alguien.

Dos años y medio después llegaría al estadio del Nápoles, donde nadie debe admirar mucho a los alemanes, literalmente desde el cielo, beatificado antes de dar el primer pase; allí viviría sus mayores glorias, antes de empezar a exhibir los pecados necesarios para que en la Argentina lo colocaran apresuradamente en la hornacina donde hoy engorda, adelgaza y vuelve a engordar sin perder el sensor con que nació en el pie izquierdo.

Pero antes de esto, en 1982, en Barcelona se asentó muy pronto un malentendido que iba a acarrear desaliento y frustración. Maradona, semicroto advenido estrella universal en un abrir y cerrar de ojos, jovencito de talento cegador y mente comprensiblemente inconclusa, aspirante a la inmortalidad argentina, fue desplegando todo su arco de arrebatos y supuestas franquezas. Con la impudicia exigida por la mitología de un país donde los hombres no lloran en público salvo a veces, obligatoriamente, para demostrar que los hombres también lloran en público si son sensibles ―de un país avanzado donde todo el mundo sabe que la buena virilidad demanda un componente femenino―, Maradona gesticulaba excesivamente en la cancha, hablaba con la prensa hasta por los codos, lucía su jugosa melena, rugía por la calle en un Mercedes piropeando chicas a los gritos, iba ruidosamente de compras con toda la familia; es decir, trasladaba sin empacho su porteñidad a Barcelona porque estaba convencido de que así debía ser, o porque, claro, no podía ―ni quizá debía― hacer otra cosa. Ignorando que si la impudicia gárrula lo elevaba en la imaginación argentina, para los catalanes era una mancha que soslayaban para poder deleitarse con los goles. A los catalanes no les resultaba simpático Maradona. Tampoco antipático, hay que decirlo. Querían verlo jugar. Y querían que, como Cruyff unos diez años antes, los hiciera ganar por fin un campeonato ―una liga; no una Copa del Rey, que es emotiva y con final pero se juega por eliminación y sabe a premio consuelo―, para justificar la arrogancia y borrarse de la cabeza ―cosa que no conseguirán nunca, porque es una enfermedad crónica― la avasalladora, obsesionante presencia del Real de Madrid.

Hoy muchos catalanes lo denigran por despecho, porque abandonó a un club altivo y poderoso sin despedirse y sin haberles conseguido una liga. Pero algunos socios viejos del Barcelona, que habían visto a Kocsis, a Kubala y a Cruyff, dicen que nunca han tenido un jugador como Maradona; lo dicen con rencor; son los mismos que aplaudieron la venta de Romario, por mal bicho, aunque supiesen que iban a languidecer añorando sus goles.

Parecería ser que Maradona los cansó. Y ahora digamos: si el Barcelona se precia de ser históricamente un club amante del fútbol estilizado, si su hinchada se jacta de apreciar el buen juego, la verdad es que, como digna hinchada de un club que es un símbolo nacional, la mayoría de las veces no ve un comino. Es decir: ve las jugadas vistosas y efectivas y evidentes de su equipo ―solo del suyo―, pero en general hila un poco grueso. Por eso no advirtió un rasgo de Maradona que no todos los fuera de serie tienen en un grado tan intenso: el gusto por jugar, la gula y la desesperación por jugar, el idilio de Maradona con la pelota y los partidos, el reflejo dichoso que, uno se imagina, lo llevaría a correr para devolverle la pelota a un chico aunque estuviera vestido con esmoquin y camino a una cita con Diana de Inglaterra. Uno se imagina. Quizás sea una ilusión, sobre todo ahora que Maradona es disertante y publicista. Lo cierto es que los hinchas del Barcelona nunca se habrían imaginado una escena así, ni siquiera en 1983. Sin entrar en juicios, no tienen ese tipo de imaginación. Tampoco una comprensión de la clase de inteligencia y agudeza verbal de ese crack.

Sin embargo, el regocijo de Maradona en la cancha causaba prodigios, como bien se sabe, y al principio fomentó un hermoso romance. Hablando de esto, uno se niega a refrescarse en los archivos y se entrega sin más a la memoria involuntaria. Por la cabeza del cronista amateur pasan despachos visuales como nubes rápidas en atardeceres ululantes. Entre otros, el Barcelona tenía un stopper autoritario (Migueli), un volante de quite con tremendos pulmones (Víctor), tenía al gran Schuster (capaz de desembarazarse de dos rivales a cinco metros de su área, salir de un nudo de piernas por donde nadie esperaba y servir, casi sin haber mirado, un pase de cuarenta metros para la subida del lateral izquierdo, cuyo movimiento solo había visto él; encima de lo cual llegaba a buscar el centro en el otro arco) y tenía dos punteros, Marquitos y Carrasco, movedizos, ladinos y veloces. Marquitos y Carrasco eran muchachos de potrero ―de potrero catalán― y adoraban a Maradona; pero en los primeros tiempos, confesarían algo después, simplemente no esperaban que Maradona pudiera llegar en diagonal a una pelota larguísima puesta en la línea de fondo, dominarla con un defensor encima, frenar en seco para hacerlo pasar de largo, desembarazarse de otro y sacar un centro inverosímil que, burlando la altura del arquero, cayese blandamente en el segundo palo; de modo que cuando esa oportunidad de gol llegaba, Marquitos y Carrasco ya estaban volviendo al mediocampo, convencidos de que nadie habría podido hacer tamaña cosa en una situación tan difícil. A medida que fueron entendiendo las nuevas posibilidades de ese mundo bizarro, no sólo se beneficiaron ellos sino todo el equipo. Menotti los mandaba al ataque, a presionar con la defensa muy adelantada. Demasiado adelantada, digamos, con demasiada confianza en la trampa del off-side. Por el momento no era grave: en un mismo partido Maradona le hizo dos goles de tiro libre a Zubizarreta (el mejor arquero español de esa era, entonces en el Atletic de Bilbao, luego ganador de cuatro ligas con el Barcelona de Cruyff): uno al ángulo superior derecho y el otro al ángulo inferior izquierdo. Pero después, dice la memoria involuntaria, Maradona tuvo hepatitis y el especulativo Atletic de Bilbao se resarció de sobra ganando la liga. No obstante, el crédito de la hinchada barcelonesa al grupejo argentino todavía era holgado, y tuvo recompensa en la final de la Copa del Rey, con un triunfo en el último minuto sobre el detestado Madrid. En los inicios de la temporada siguiente, fines del verano europeo de 1983, el Barcelona arrasaba. Se comprobó que Schuster y Maradona podían jugar juntos sin recelos ni competencia ni embarazo, calladitos y en su papel. El entonces representante y amigo barrial de Maradona, el abracadabrante Cysterpiller ―corbatón amplio, rizos, traje como de raso― salió un día de una reunión con el presidente del club, el hierático, llorón y codicioso señor Josep Lluis Núñez, dueño de la constructora que había aprovechado prebendas durante el tardofranquismo para llenar la ciudad de muchos edificios horribles y algunos del gusto de los hijos de la inatacable burguesía, y dijo que, como el señor Núñez no había atendido a ninguno de sus reclamos, él, Cysterpiller, “muzzarellamente” había decidido retirarse. Todos los emigrés oímos esa maravillosa expresión por la radio; y comprendimos que, de veras, el choque de dos lenguajes y dos estilos nacionales iba a terminar estropeando la aventura. Eso, aparte de que salía de noche y, como sabríamos mucho más tarde, fue allí donde probó por primera vez la cocaína. Una lástima, porque ese otoño el Barcelona, jugando por la Recopa Europea, le ganó 4 a 3 al Estrella Roja, en Belgrado, y Maradona hizo un gol casi mejor que el que haría contra los ingleses: una carrera de cincuenta metros con pelota al pie y cabeza levantada, un frenazo seco en la medialuna, frente a la defensa que se apresuraba a cerrarse, y un disparo altísimo, por encima de todo el mundo, con un efecto que mandó la pelota a la red rozando el larguero. Después hubo un triunfo por 4 a 1 en Mallorca ―dos de Maradona y dos de Schuster― y la sensación de que esa liga ya estaba lujosamente en el bolsillo.

Pero entonces aparecieron los villanos, que a la sazón también se postulaban a campeones: en su caso, bicampeones. La fecha siguiente el Barcelona jugó en el Camp Nou contra el Atletic de Bilbao. A los treinta minutos ganaba tres a cero, dice la memoria involuntaria y puede equivocarse por un gol; pero no se equivoca asegurando que, antes de que terminara el primer tiempo, Maradona recibió de espaldas una pelota en su línea media y, cuando iba a darse la vuelta, el líbero del Bilbao le entró por detrás y lo dejó roto por cuatro meses. Se llamaba Goicochea, ese bruto; hoy es ayudante del DT de la selección española, Javier Clemente, que aquella tarde infausta era DT del Bilbao y por entonces gustaba decir que sus jugadores no eran violentos sino recios, que ganaban ligas porque tenían “raza”. Esa cretinez era una ofensa doble, contra los directores técnicos extranjeros y contra el moderado nacionalismo catalán. Hoy Clemente prolonga sus desvaríos peleándose con Cruyff y con Valdano.

Ese año el Barcelona no pudo vengarse; jugó casi toda la temporada sin Maradona y buena parte sin Schuster, también quebrado. Aparte de la falta de knack, el equipo no tenía sorpresa ni gol; jugaba desesperadamente, sin convicción, y Menotti fue ―como muchas veces― demasiado sabelotodo como para modificar el esquema. Por la defensa en línea adelantada siempre se colaba un contraataque, de modo que a menudo había empates ridículos o derrotas por un gol. Antes todavía de empezar a entrenarse, el angustiado Maradona se entretenía en su casa embocando pelotas, que pateaba sentadito, entre las cuatro patas de un taburete dado vuelta. Hecha con médicos del llamado entorno, la recuperación fue muy larga para la paciencia del club.

Sí: la distancia de C a Q es la misma que la de Q a C. El peculiar racismo de la nación F.C. Barcelona hacia el ídolo magistral pero frustrante encontró ocasión de ensañarse, después de dos ligas perdidas, en la ostentosa teatralidad y la protesta quejosa del espontáneo Maradona. El otro yo de Catalunya, sin articularlo, empezó a acusar al gordito de gordito, moreno patizambo, indolente, dispendioso, engreído, deslenguado y llorón rayano en la cobardía. Muchos creían que la hinchada iba a expurgar en Maradona la ―afortunada― impotencia catalana para alcanzar una reciedumbre racial como la que Clemente elogiaba en sus vasquísimos jugadores. Maradona, claro, creía que nada lo obligaba a aguantar un tratamiento criminal por parte de los rivales, ni la falta de comprensión psicológica y afán comunicativo de los dirigentes de su club. En los círculos más deportivamente perspicaces de los emigrés argentinos ―biyuteros, psicólogos prematuros, traductores precarios, futbolistas-golondrina― se comentaba que para Diego los catalanes eran unos frígidos, y que tenía razón. Pero la condescendencia de los emigrés con las ideas de Maradona no se basaba tanto en el cariño a un artista como, lo mismo que la arbitrariedad del artista, en el rencor hacia unos anfitriones que se atrevían a no aceptar la condición cada vez más divina de ese semidiós argentino.

Menotti, decían los catalanes por su parte, hacía entrenar solo de tarde porque él y Maradona ―no necesariamente juntos― se iban de juerga todas las noches. Probablemente fueran infundios xenófobos. Desde el punto de vista profesional, corrigiendo ciertos aspectos del equipo se habría evitado uno que otro problema. Aspectos como el estado físico de los jugadores, por ejemplo. Claro que además los cosían a patadas.

No había forma de entenderse.

Cuando Maradona volvió ya era tarde para alcanzar la liga, aunque también en la segunda ronda el Barcelona le ganó al Atletic. Para colmo, el Atletic le ganó 1 a 0 la final de la Copa 1984. Esa noche de primavera el terco sistema Menotti sucumbió ahogado frente a un horrible sistema Clemente que parecía bilardiano ―y la camiseta del Atletic es igual a la de Estudiantes―. Pero Maradona no lloró, porque ya había discutido tanto con sus dirigentes y con la prensa barcelonesa que estaba decidido a irse. En el fondo ya se había ido.

Para los emigrés argentinos fue una etapa tristísima. La memoria involuntaria se apretuja, cesa. A Barcelona llega a veces un viento africano, el garbí, no arenoso y ardiente como el sirocco sino húmedo, tibio: deja una película de gelatina en las aceras y en las farolas un nimbo macilento.

Maradona se fue a Nápoles, desde donde nos enviaría extraordinarias satisfacciones. Menotti ¿a México? El garbí empasta las huellas mnemónicas.

Para la temporada 1984-85 el Barcelona contrató a Terry Venables, un inglés fornido, experto, mundano pero férreo, que aún escribe novelas policiales con seudónimo y tiene un grupo de música pop. Venables, que venía de sacar campeón de la copa inglesa al Tottenham de Ossie Ardiles, se llevó a un centrodelantero veterano, el simpático escocés Archibald, que jugaba como nadie de pivote en los bordes del área: recibía solo, protegía la pelota esperando la llegada de un compañero, sabía tocar de primera con el pie o la cabeza y también era ducho en cazar centros perdidos. Según un serio emigré argentino dueño de una pizzería, Archibald era noctámbulo y disipado; pero como se callaba la boca en todas partes, y como además llegaba puntualmente a entrenarse, los dirigentes fingieron que no lo sabían. Con él, la sabiduría de Schuster, la picardía de Carrasco, un notable media punta de la cantera llamado Rojo, el inteligente centrodelantero Archibald y una pléyade de obreros, Venables armó un equipo de verdadera presión, aprovechador y sagaz.

El núcleo angloalemán, ayudado por dioses paganos, ganó esa liga para el Barcelona. Se normalizó la respiración del pueblo catalán, que solo volvería a sufrir ―cinco ligas para el Madrid― hasta que apareciera un salvador clan holandodanés que le daría cuatro ligas.

En 1986-87 Maradona y la virgen ganaron para el Nápoli el primer scudetto de su historia; en 1989-90 repitieron.

No sé si viene a cuento, pero para los emigrés argentinos en Barcelona se cerró una etapa de fuerte incomodidad.

 

[Fuente: http://www.revistaotraparte.com]

Viagem às origens da Saúde Pública, que o ministro Pazzuello confessa não conhecer. Em 1979, sanitaristas críticos desafiaram a ditadura ao propor superar a assistência e passar ao Comum. Um dos participantes narra como foi

Escrito por Paulo Amarante

Instigado a escrever este texto, fui tomado por uma forte recordação: a viagem da “delegação” do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES) à Brasília, para participar do I Simpósio de Políticas de Saúde da Câmara dos Deputados, em outubro de 1979. O CEBES tinha sido criado muito recentemente, em 1976, por iniciativa de David Capistrano, José Ruben de Alcântara Bonfim, dentre outros, com o objetivo de ser um espaço de reflexão crítica sobre as questões relativas à saúde em suas dimensões políticas, sociais e econômicas. Para alcançar tal objetivo, foi criada a revista Saúde em Debate, da qual tive a enorme gratificação de ter sido editor por vários anos, e que existe, ainda hoje, assim como o próprio CEBES, como uma referência fundamental para o pensamento crítico em saúde.

O CEBES contribuiu para a constituição do que passou a ser denominado de “movimento sanitário”, também conhecido como “partido sanitário”, em consequência de sua potência organizativa e mobilizadora. Uma das contribuições deste coletivo foi a de introduzir a possibilidade de se pensar a saúde não como mero tratamento de doenças, nem como a abstrata definição da OMS, de um “completo estado de bem-estar biopsicossocial”, ou coisa do gênero, mas de historicizar esta condição. Passou-se a considerar o binômio “saúde/doença” como um processo histórico, multicausal, dinâmico, sobredeterminado por variáveis que transcendem aquelas tradicionais do modelo médico-clínico ou epidemiológico, trazendo assim à discussão a concepção da “determinação social do processo saúde/doença”. Iniciava-se, desta forma, a superação das definições da própria OMS, que culminariam com os conceitos de “determinantes sociais” e de “promoção da saúde” expressos na Carta de Ottawa. Isto porque, enquanto a ideia de “determinantes sociais” remete a relações mais ou menos óbvias de causalidade social, onde os ditos “fatores sociais” estavam presentes de forma isolada, ‘individualizados’, num contexto teórico causa-efeito, oriundo das tradições mecanicistas unicausais, inspiradas em Newton, Descartes e Kant, sem qualquer teoria social que lhes fornecesse historicidade, e sem possibilidade de considerar as múltiplas determinações do processo. Enfim, é de posse destas concepções que o CEBES parte com sua “delegação” para Brasília para apresentar um documento que faria história nas políticas públicas no Brasil. Assim sendo, muitos anos antes da histórica 8ª Conferência Nacional de Saúde (realizada em 1986, sobre a presidência de Sergio Arouca) e da Constituição de 1988, a proposta de um Sistema Único de Saúde (SUS) foi apresentada no referido simpósio de saúde, por intermédio do próprio Sergio Arouca, então presidente do CEBES.

É importante ressaltar, no entanto, que o documento não se intitulava “por uma nova política de saúde”, ou “uma proposta de reformulação do modelo de saúde”, ou algo assim, mas “A questão democrática na área da saúde”! A observação é importante por vários motivos: desde o fato de conter no título a referência à democracia em pleno governo militar, quanto pelo fato de tal expressão ser destacada como aspecto nuclear da questão da saúde. Com as referências políticas e sociais anteriormente abordadas, embora de maneira breve, a proposta de um Sistema Único de Saúde viria revolucionar a forma de pensar o tema no país. Saúde e democracia passaram a ser relacionadas. Saúde é democracia; democracia é saúde! Saúde deixaria de ser entendida exclusivamente como tratamento de doenças ou promoção de hábitos saudáveis de vida, para ser compreendida a partir do modo de produção da vida, das condições materiais e simbólicas de viver, trabalhar, conviver e coabitar os espaços e as instituições. Desta forma, passaram a vigorar ideias relacionadas à saúde enquanto qualidade de vida (embora atualmente possam parecer princípios óbvios e banais) e saúde como processo civilizatório, dentre outros, e promoção da saúde passou a ser entendida como defesa das condições reais e concretas de vida, trabalho, educação cultura, moradia, transporte, segurança, direitos humanos e sociais.

E neste contexto histórico de luta pela redemocratização do país e de construção de um projeto nacional comum, construído e coabitado coletivamente, que foi proposto o SUS como um projeto que, em primeiro lugar, deveria garantir a saúde como um direito de todos e um dever do Estado, o que viria a ser aprovado na Constituição de 88 no capítulo sobre a saúde, posteriormente regulamentado na Lei Orgânica da Saúde (Leis 8.080/90 e 8.142/90). Para aqueles que não conheceram o sistema de saúde entes do SUS é muito difícil conceber a possibilidade de um modelo altamente elitizado, privatista e excludente, ao mesmo tempo que especialístico, curativista e hospitalocêntrico. Somente os mais ricos acessavam determinados recursos da saúde ou os “previdenciários”, que tinham direito aos serviços próprios ou conveniados pela Previdência Social. Os demais eram indigentes, miseráveis, à mercê da caridade pública ou a boa vontade do Estado! A universalidade implicaria também em acessibilidade. O sistema deveria garantir que, para ser universal, fosse accessível por todos. Por outro lado, um dos princípios do SUS era o da integralidade das ações, de tal forma que não se desmembrasse o processo social complexo da determinação social entre físico e psíquico, entre social e biológico e questões desta natureza. E o último aspecto abordado neste breve texto é o da participação social no sistema. Enquanto um sistema público, social, comum à toda a sociedade, sua construção seus princípios éticos, políticos ou operacionais deveriam contar com a participação ativa da sociedade, de toda a sociedade, na medida do possível a partir de critérios transparentes e accessíveis de participação. É neste sentido que se passa a desenvolver um amplo processo social de participação e controle social no âmbito do SUS, através da instalação dos Conselhos de Saúde, existentes nos níveis municipal, estadual e nacional, com critérios claros e igualitários de participação de representantes da sociedade, eleitos democraticamente por seus pares, e de representantes dos prestadores de serviços e do Estado. Os Conselhos teriam como missão definir as bases, os princípios e prioridades das políticas de saúde no âmbito de seus territórios e abrangência. Por outro lado, foram instituídas as Conferências de Saúde como um processo de consulta e construção social, e não como um congresso de autoridades e efemérides, como ocorreu até a VII Conferência. Foi por ocasião de sua nomeação como presidente da VIII Conferência que Sergio Arouca propôs mudar para algarismos arábicos (8ª), com isto simbolizando todo um processo de transformação social e político do caráter do acontecimento, em que seria mais compreensível e participativo. Antes da 8ª as conferências eram reuniões palacianas, da qual participavam ministros e outras autoridades, além de alguns representantes das entidades (especialmente patronais). A partir de então seria um processo participativo amplo, iniciado nos locais de trabalho, onde as questões eram debatidas e os representantes para as etapas posteriores eram eleitos, desdobrando-se em conferências municipais, depois estaduais e, finalmente, na etapa nacional. Sempre com estes princípios da discussão coletiva, com eleições em caráter paritário e representativo da multiplicidade de visões e contextos. Não se tratava “apenas” de um processo de construção de novas leis, normas e regulamentações, mas de um processo instituinte, permanente, de construção de pensamento crítico, de tomada de consciência, ou de construção de “consciência sanitária”, nas palavras de Giovanni Berlinguer, referente político e teórico do CEBES, que havia editado no ano anterior o seu livro “Medicina e Política” na coleção Saúde em Debate.

No âmbito específico da saúde mental e reforma psiquiátrica, uma das principais referências foi o da “Psiquiatria Democrática”, movimento inaugurado sob a liderança do psiquiatra italiano Franco Basaglia, que também adotou como princípios a questão do direito, das liberdades, do protagonismo das pessoas em sofrimento mental. Por ocasião da mesa destinada a esta discussão serão abordados aspectos do campo da saúde mental e atenção psicossocial no contexto da pandemia, que contribuem para a resistência aos processos de patologização das experiências e do sofrimento psíquico causado pelo confinamento e isolamento sanitário e para as estratégias de valorização das respostas dos sujeitos e coletivos envolvidos. O processo da reforma psiquiátrica brasileira é considerado por vários atores e autores como um caso exemplar de boa implantação do SUS!

Enfim, procuro demarcar a importância do projeto político, democrático, participativo proposto com o advento do SUS e da Reforma Psiquiátrica. Mas, na prática, começaram a surgir problemas: as tentativas de revogação da Lei Orgânica da Saúde ainda no governo Collor, e as restrições ao financiamento do sistema que serão perpetuadas em todos os governos posteriores, inclusive com claros indicadores de desfinanciamento; o privilégio dado ao setor privado, seja por meio das Agências Reguladoras (instituídas no período FHC, mas mantidas nas gestões posteriores), especialmente a ANSS, que francamente foi tomada de assalto pelo setor que ela deveria regular; a isenção e renúncia fiscal a planos de saúde e aos setores da saúde filantrópica e privada de maneira geral, que se fortaleceram em oposição e concorrência real ao SUS e que fortaleceram a concepção da ineficácia e inviabilidade do sistema público, público e universal, mesmo por lideranças sindicais, partidárias e sociais de trabalhadores; a não regulação da EC 29; a priorização de terceirização tanto da gestão de serviços equipamentos e dispositivos (notadamente nas áreas de dois setores que seriam exemplos de ruptura paradigmática do modelo biomédico como a atenção psicossocial e a estratégia saúde da família), quanto da terceirização e consequentemente precarização da mão de obra no campo da saúde, ao invés de constituir um quadro de estado de trabalhadores da saúde; a irregularidade na realização das conferências, com destaque para a não convocação das conferências específicas (que deveriam ser convocadas por seu caráter de políticas setoriais – tais como de saúde mental, saúde do trabalhador e outras), a falta de poder decisório dos conselhos de saúde, dos municipais ao nacional, que, de forma a agravar a situação, eram também convocados de forma irregular ao bel-prazer dos gestores correspondentes, e sem prestígio e reconhecimento político.

Enfim, com toda a oposição, o desfinanciamento, a persistência de uma mídia explicitamente contrária ao sucesso das políticas pública, o desprestígio e a negação do protagonismo da participação, o SUS resistiu e segue resistindo. Nos processos participativos nos conselhos nas conferências, nas entidades associativas, com destaque para o já citado CEBES, mas também a Abrasco, a Abrasme, o movimento sanitário e de reforma psiquiátrica, conseguiu implantar um compromisso ético com os princípios da saúde coletiva, da saúde como democracia, como direito da sociedade, como dever do Estado. E o SUS sobrevive fundamentalmente graças à esta ideia do comum, do coletivo, da saúde como promoção e defesa da vida. É por isto que neste contexto de pandemia o SUS maltrapilho e esfarrapado com todos os ataques que tem sofrido ao longo de sua história levantou das cinzas e demostrou sua capacidade de prestar cuidado, sua capacidade de respeito à vida, de escuta, de solidariedade. E de posse desta constatação de que o estrago, as mortes, as perdas, as sequelas, seriam muito piores se não houvesse o SUS, é que devemos nos colocar totalmente em sua defesa neste momento e no pós-pandemia. É o momento de escrever em nossas agendas e de inserir em nossas lutas cotidianas a cobrança do compromisso do Estado, do Legislativo, do Judiciário, da sociedade em geral a necessidade vital de defesa do SUS, enquanto princípios e práticas revolucionárias do comum, que resistem aos modos capitalistas de destruição da vida coletiva.

 

 

[Fonte: http://www.outraspalavras.net]

 

''Há um crescimento visível da candidatura do binômio do MAS, com Luis Arce e David Choquehuanca'', afirmou Mario Tordolla, presidente da Associação dos Bolivianos Unidos pela Whipala (LWS)

 »Há um crescimento visível da candidatura do binômio do MAS, com Luis Arce e David Choquehuanca », afirmou Mario Tordolla, presidente da Associação dos Bolivianos Unidos pela Whipala (LWS)

 

Escrito por Leonardo Wexell Severo

A comunidade boliviana voltou às ruas da capital paulista neste domingo para exigir “respeito à democracia” e condenar a tentativa da autoproclamada presidente Jeanine Áñez de fraudar as eleições de 18 de outubro em favor de uma candidatura “manipulada pelo império”.

Concentrados em frente ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), dialogando com a população, os manifestantes alertaram que “pelo menos 5.000 dos 45.000 eleitores bolivianos moradores no Brasil não terão acesso às urnas”. A situação é mais grave, apontaram, pois, 15.000 deles ainda não foi sequer informado do local de votação.

Entoando “garantam nosso voto!”, levantando cartazes patrióticos, e balões com as cores verde, amarela e vermelha da Bolívia, a comunidade denunciou que o prévio afastamento de eleitores majoritariamente simpatizantes do Movimento ao Socialismo (MAS) é uma forma de interferir abertamente nas eleições. E que, “mais do que cúmplice”, a Organização dos Estados Americanos (OEA) vem sendo um “instrumento para falsificar e contaminar todo o processo”.

“Mais do que uma traição, 30% dos eleitores não terem onde votar a duas semanas das eleições é uma tentativa de fraudar o processo democrático pelo qual tanto lutamos. É um golpe e não vamos permitir. A pátria se respeita! Saí da Bolívia, mas a Bolívia não sai de mim”, afirmou Mario Tordolla, presidente da Associação dos Bolivianos Unidos pela Whipala. Segundo Tordolla, “há um crescimento visível da candidatura do binômio do MAS, com Luis Arce e David Choquehuanca, que se está espraiando e fortalecendo pela profundidade do seu compromisso”.

“Criar obstáculos à participação é um atentado à democracia, é um atentado ao direito ao voto”, declarou Oscar Nacho, presidente da Juventude Boliviana de São Paulo, para quem “a única coisa que querem é impedir a vitória de Arce e Choquehuanca, que lideram todas as pesquisas”.

Na avaliação de Nacho, da mesma forma com que no Brasil, Evo Morales fez mais de 71% dos votos nas eleições do ano passado, há uma identidade com a candidatura do MAS, “porque o binômio representa a defesa da Pátria, da nacionalização dos recursos naturais, do desenvolvimento”. Na questão do lítio, especificamente, ressaltou, “a diferença com os demais candidatos fica bem clara, porque todos os outros querem a privatização, a negação da soberania, a dependência”. “Por isso são contra a democracia”, protestou.

DERROTAR A MANIPULAÇÃO

Dirigente da Organização de Mulheres Bolivianas na capital paulista, Yolanda Cortez sublinhou que a manipulação com que o órgão eleitoral e o consulado vêm agindo junto com o governo de Áñez visa “calar a boca de quem pensa diferente, impondo normas, mudando horários, reprimindo”. “Agem como máfia para cortar nossos direitos. Mas nós, como Bartolina Sisa [líder indígena que comandou várias batalhas contra o domínio espanhol], estamos aqui para defender nossos filhos e netos. Nossa Bolívia sempre estará de pé, nunca de joelhos”, apontou.

“Há uma completa falta de transparência no atual processo eleitoral, em que não sabemos nem quantos nem onde estão os recintos eleitorais. Queremos os locais com nome e sobrenome”, defendeu o licenciado Rubén Éguez. Isso é essencial, acrescentou, “para que possamos buscar parcerias com igrejas, sindicatos e associações a fim de viabilizar eleições limpas em espaços públicos”. “Também exigimos que, se a OEA vai mandar observadores, que não sejam cartas marcadas, para que haja democracia e imparcialidade”, frisou Équez.

Para a presidente da Organização de Mulheres da Bolívia em São Paulo, Sandra Joaquina Flores, “há uma lógica dependente com que os ianques querem fazer o país permanecer atrelado a eles”. “Os golpistas nos governaram por 500 anos e o que tivemos foi fome, miséria e analfabetismo. Os 14 anos do presidente Evo Morales representaram uma Bolívia diferente, por isso desrespeitaram o resultado das urnas. Para derrotar o atraso, estamos lutando. Queremos construir um novo tempo”, assegurou.

O presidente da Associação de Bolivianos de Bady Bassitt, Mario Martínez, disse que tinha vindo deste pequeno município no dia interior para “assegurar e fortalecer a voz da democracia, que o governo golpista tanto quer calar”. “É inaceitável que a mentira seja imposta como norma, como a fabricada pela OEA no ano passado e que depois demonstrou ser tudo uma farsa. Estamos aqui para defender a presença dos órgãos internacionais, porque a OEA está viciada”, sustentou.

 

 

[Fonte: http://www.cartamaior.com.br]

 

 

 

Une sélection de titres de médias anglophones montrant diverses pratiques éditoriales pour la transcription du nom de famille du dirigeant du Bélarus. Carte des provinces du Bélarus [1] par Golbez (CC BY-SA 3.0) [2]. Image d’Alexandre Loukachenko [3] par Serge Serebro [4], Vitebsk Popular News [5] (CC BY-SA 4.0 [6]). Image remixée par Georgia Popplewell (CC BY 3.0) [7].

É

Alors que la Bélarus fait la une des journaux du monde entier depuis les élections présidentielles controversées du 9 août, plusieurs orthographes du nom du président sont apparues dans la presse internationale anglophone. Loukachenka ou Loukachenko : lequel est exact ?

La réponse est : les deux. Le nom Loukachenko a deux orthographes différentes : en bélarusse, il s’écrit Аляксандр Лукашэнка, et en russe, Александр Лукашенко. Par conséquent, la translittération anglaise basée sur l’original bélarusse sera Alyaksandr Lukashenka, tandis que celle basée sur l’orthographe russe sera Aleksandr (ou l’équivalent anglais Alexander) Lukashenko.

Le russe et le bélarusse ont tous deux le statut de langue officielle [8] en République du Bélarus, où la population est majoritairement bilingue à des degrés divers. Alors que les deux langues sont souvent mutuellement intelligibles, comme toutes deux appartiennent à la branche orientale des langues slaves [9], elles sont néanmoins distinctes. Aujourd’hui, le bélarusse peut être vu et entendu lors des cérémonies officielles de l’État, sur les panneaux de signalisation et les ministères à travers le pays. Cependant, une grande partie de la vie quotidienne dans les grandes villes se déroule en russe et la présence du bélarusse a diminué ces dernières années, en partie en raison du déclin de son usage dans le système éducatif public [10] [en].

Alors que des médias tels que le Guardianle New York Times [11] [en] et la BBC [12] [en] ont utilisé la romanisation basée sur le russe (Lukashenko), Radio Free Europe [13], qui diffuse également en bélarusse, utilise la version bélarusse (Lukashenka). Fait intéressant, nous avons trouvé un article paru en 2006 dans le New York Times [14] [en], qui utilisait la version bélarusse Lukashenka.

Une distinction similaire peut être observée concernant le nom de famille de la cheffe de l’opposition : son nom est Sviatlana Tsikhanouskaya en anglais, romanisé à partir de l’orthographe bélarusse Святлана Ціханоўская. Mais elle devient Svetlana Tikhanovskaya lorsqu’elle est transcrite du russe, Светлана Тихановская.

Alors que les manifestations ont gagné tout le pays, nous pourrions également nous questionner sur l’orthographe de diverses villes bélarusses. Les travailleurs ont-ils fait grève à Grodno (russe) ou à Hrodna (bélarusse), les manifestations se sont-elles déroulées à Gomel ou à Homyel ? Les médias internationaux anglophones ont parfois orthographié les noms de lieux bélarusses de manière incohérente.

Pour compliquer les choses, le bélarusse, bien que maintenant écrit en cyrillique, possède également son propre alphabet latin, appelé Łacinka [15] [en], qui a été utilisé au 19e et au début du 20e siècle ainsi que pendant l’occupation nazie de la Biélorussie au début des années 1940. Une autre norme orthographique connue sous le nom de Taraškevica [16] est utilisée par certain·e·s locuteur·ice·s du bélarusse à l’étranger ; cette graphie utilise à peu près le même alphabet cyrillique que le bélarusse standard actuel, mais rejette certaines des réformes linguistiques introduites par le gouvernement soviétique en 1933.

De plus, à partir du XVe siècle, la minorité musulmane tatare vivant au Grand-Duché de Lituanie, qui comprenait le Belarus d’aujourd’hui, a également écrit le bélarusse en utilisant une forme adaptée de l’écriture arabe [17], appelée Кітаб [Kitab] ou ارابیصا [Arabitsa]. Cette population a progressivement abandonné sa langue turcique et adopté la langue slave bélarusse, tout en restant fidèle à l’islam.

Ce débat peut rappeler à certain·e·s lecteur·ice·s l’Ukraine, voisine méridionale du Bélarus. Après les événements de 2014 et la guerre qui a suivi dans l’est du pays, l’Ukraine a occupé de plus en plus d’espace dans les pages des journaux internationaux. Un débat houleux a conduit plusieurs publications à déclarer qu’elles épelleraient la capitale du pays, anciennement Kiev, avec la translittération ukrainienne Kyiv. Le russe est parlé couramment par des millions de personnes en Ukraine, dont beaucoup sont des Ukrainien·ne·s de souche, mais ce n’est pas une langue officielle – par conséquent, les villes orientales de Kharkiv et Louhansk sont par convention épelées dans leurs formes ukrainiennes, plutôt que Kharkov et Lougansk, comme beaucoup de leurs habitant·e·s les appelleraient.

La situation politique et sociolinguistique du Bélarus est très différente de celle de l’Ukraine. Mais ces problèmes continueront de tourmenter les rédacteurs et rédactrices en chef du monde entier. Une partie de la presse allemande continue de qualifier le pays de Weissrussland (littéralement « Russie blanche ») plutôt que de Bélarus, comme le préfèrent les Bélarusses. Le pays est largement appelé Белороссия (Biélorussie) dans la presse russe, malgré les objections des Bélarusses.

Des moments comme ceux-ci continueront de contraindre les rédacteurs en chef du monde entier à se demander à qui ils doivent rendre des comptes – à la politique linguistique de l’État, aux pratiques linguistiques des habitant·e·s d’un pays ou au public étranger qui connait souvent les contrées lointaines par des noms totalement différents, parfois archaïques ? Il n’y a pas toujours de réponses faciles. Mais lorsque l’attention du monde est fixée sur un pays inconnu, la transparence est la meilleure politique – permettant aux lecteurs et lectrices de comprendre l’importance d’une seule lettre.

Pour en savoir plus sur la crise que connaît le Bélarus, cliquer ici. [18]

 

Article publié sur Global Voices en Français: https://fr.globalvoices.org

URL de l’article : https://fr.globalvoices.org/2020/09/24/256538/

URLs dans ce post :

[1] Carte des provinces du Bélarus: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Belarus_provinces_blank.png

[2] (CC BY-SA 3.0): https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.en

[3] Alexandre Loukachenko: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Alexander_Lukashenko_President_of_Belarus.jpg

[4] Serge Serebro: https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Silverrebel

[5] Vitebsk Popular News: http://news.vitebsk.cc/

[6] CC BY-SA 4.0: https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.en

[7] (CC BY 3.0): https://creativecommons.org/licenses/by/3.0/

[8] statut de langue officielle: https://fr.wikipedia.org/wiki/Bi%C3%A9lorussie#Langues

[9] branche orientale des langues slaves: https://fr.wikipedia.org/wiki/Langues_slaves_orientales

[10] déclin de son usage dans le système éducatif public: https://belarusdigest.com/story/belarusian-language-declining-in-state-education-strengthening-in-civil-society/

[11] le New York Times: https://www.nytimes.com/topic/person/aleksandr-g-lukashenko

[12] BBC: https://www.bbc.com/news/topics/cjnwl8q4q28t/alexander-lukashenko

[13] Radio Free Europe: https://www.rferl.org/a/eu-leaders-election-crisis-belarus/30791276.html

[14] un article paru en 2006 dans le New York Times: https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/cfr/international/slot2_031606.html?_r=1&oref=slogin

[15] Łacinka: https://en.wikipedia.org/wiki/Belarusian_Latin_alphabet

[16] Taraškevica: https://fr.wikipedia.org/wiki/Orthographe_classique_bi%C3%A9lorusse

[17] forme adaptée de l’écriture arabe: https://fr.wikipedia.org/wiki/Alphabet_arabe_bi%C3%A9lorusse

[18] Pour en savoir plus sur la crise que connaît le Bélarus, cliquer ici.: https://fr.globalvoices.org/dossiers/le-belarus-dans-la-tourmente/

La commission parlementaire des libertés civiles, de la justice et des affaires intérieures remet en cause la volonté du bloc de créer une base de données paneuropéenne de reconnaissance faciale destinée à être utilisée par la police.

La commission parlementaire des libertés civiles, de la justice et des affaires intérieures remet en cause la volonté du bloc de créer une base de données paneuropéenne de reconnaissance faciale destinée à être utilisée par la police.

Écrit par Samuel Stolton

Traduit par Nathanaël Herman

Dans le cadre d’une révision du traité de Prüm (2005), qui prévoit l’échange de données génétiques, d’empreintes digitales et de données à caractère personnel au sein du bloc, les États membres ont proposé que les autorités policières soient habilitées à partager des images faciales.

Des experts ont alors averti les députés européens des risques que comprend le projet « next-generation Prüm ». Ainsi, les droits liés à la vie privée pourraient être entravés si de nouvelles catégories de données étaient introduites dans le traité, comme la reconnaissance faciale.

La Dr Niovi Vavoula, de la Queen Mary University à Londres, a soulevé plusieurs inquiétudes auprès des députés européens. D’une part, le risque de « faux positifs » est bien présent. D’autre part, certaines minorités ethniques pourraient être injustement ciblées en raison de préjugés algorithmiques.

Des points également soulignés par Chloé Berthélémy, membre de l’association européenne pour les droits en ligne (EDRi), pour qui il est était « troublant » de penser à étendre le champ d’action du traité afin de couvrir les images faciales, et ce, au vu des faux positifs et des « préjugés raciaux systémiques entretenus par les forces de l’ordre et le système de justice pénale ».

La Dr Rafaela Granja, de l’Université de Minho, se réfère à une étude récente sur les points de contact nationaux (PCN) à travers le bloc qui permettent de simplifier les échanges transfrontaliers de données.

D’après l’analyse, fondée sur les réponses reçues aux PCN, il semblerait que les « faux positifs et le manque de normes ainsi que les problèmes liés à la responsabilité et la transparence » soient inhérents à l’extension du traité de Prüm.

Les députés européens appréhendent d’ailleurs cette idée. « Même au cours du dernier mandat, nous savions que la qualité des données était de la plus haute importance », a indiqué la législatrice Birgit Sippel (S&D), ajoutant que « pourtant, nous bataillons toujours avec ces thématiques, nous parlons de faux positifs et de concordances erronées, comme si c’était normal ».

« Mais ces faux positifs ont des conséquences néfastes sur les enquêtes, qui pourraient ainsi prendre un mauvais tournant », renchérit-elle.

Sophie in’t Veld, de Renew Europe, se demande quelle approche l’UE devrait adopter afin de gérer les abus de pouvoir pouvant émaner de certains États qui utilisent les nouveaux instruments prévus dans le « next-generation Prüm ».

Le Parlement européen ne joue qu’un rôle consultatif dans le cadre de ce traité. C’est pourquoi Sergey Lagodinsky des Verts/ALE a laissé entendre qu’il faudrait mener une étude plus minutieuse sur les ramifications possibles de ce nouveau système.

« Je pense que les conclusions à tirer sont très claires : il faut évaluer avant de modifier », a-t-il dit. « Nous devons procéder à un examen du système actuel avant d’aller plus loin. »

Malgré les craintes exprimées, certains législateurs se sont prononcés en faveur de l’extension.

À cet effet, Tomas Tobé (PPE) a souligné qu’un « échange accru » de données entre les forces de l’ordre de l’UE était nécessaire pour lutter contre la criminalité, mais qu’il conviendrait d’abord de mieux comprendre l’utilité de la reconnaissance faciale dans ce contexte.

Les conclusions du Conseil de l’UE datant de 2018 proposent une extension du traité et invitent les experts des États membres – dans le cadre du groupe de travail chargé des échanges d’informations et de la protection des données (DAPIX) – « à étudier les procédures inscrites dans le traité de Prüm afin de peut-être y inclure de nouvelles technologies biométriques, comme la reconnaissance faciale ».

Selon le rapport, la Commission européenne s’est entretenue avec la boîte de consultance Deloitte afin de mener une analyse à ces fins, et ce, pour le prix de 700 000 euros.

L’étude fait désormais l’objet de discussions au sein des groupes de travail au Conseil de l’UE, et une mise à jour publique sur les projets prévus devrait avoir lieu en octobre.

 

[Image: Shutterstock – source : http://www.euractiv.fr]

 

Documentário no Netflix escancara o problema da tecnologia. Mas qual é a solução?

« Dilema das redes » – Netflix

Escrito por Tatiana Dias

Primeiro, um amigo me avisou: “Tati, você tem que assistir ao ‘Dilema das redes’”, no Netflix. O documentário, que havia estreado duas semanas antes, ainda não havia pipocado nas minhas timelines. Mas apareceu no dia seguinte na home, em destaque, e resolvi assistir. Quem acompanha o tema pode dizer que o longa-metragem sobre o impacto das redes sociais na democracia e nas pessoas não traz nada de novo. Eu discordo.

De fato, a maneira como somos manipulados para gerar lucros para as big techs e qual o impacto disso na nossa vida pessoal e no mundo já foram muito bem explorados. Eu mesma já escrevi muitos textos sobre isso, um deles há dois anos, exatamente sobre o mesmo tema, incluindo questões sobre vício, radicalização do debate, fake news e impacto na democracia.

Mas o mérito do documentário é que ele efetivamente desenhou o funcionamento dos algoritmos e da manipulação a que somos submetidos como ratos de laboratório. E esfrega isso na cara de quem entra no Netflix (que também é uma big tech). Não é pouca coisa.

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O longa parte de depoimentos de muitos ex-executivos da área, que incluem Guilhaume Chaslot, que ajudou a criar o mecanismo de recomendação de vídeos no YouTube (que está levando às pessoas à radicalização e fazendo a extrema-direita explodir), Justin Rosestein, um dos cocriadores do botão Curtir no Facebook, e Tim Kendall, ex-diretor de monetização do Facebook.

Os testemunhos dos insiders mostram o cinismo da indústria, que dedicou muito dinheiro e colocou algumas das melhores cabeças do mundo para criar as melhores soluções possíveis para fazer com que eu e você nos tornássemos viciados em tecnologia enquanto tentava nos convencer de que estava conectando as pessoas e tornando o mundo um lugar melhor.

Um deles explicou seu trabalho assim: como hackers, encontraram uma vulnerabilidade no nosso cérebro, que precisa de atenção, dopamina e reconhecimento, e tornaram aquela sensação acessível em segundos no celular. Exploraram a falha, criando maneiras de recompensa instantânea, e construindo ferramentas que aumentassem o nosso tempo online – e, assim, a possibilidade de tornar nossas interações mais lucrativas para os anunciantes.

A visão dos insiders é intercalada com análises críticas de pesquisadores como Shoshana Zuboff, professora emérita de Harvard e autora de “The age of surveillance capitalism” (“A era do capitalismo de vigilância”, em tradução livre, sem edição em português) e Jaron Lenier, filósofo e autor do livro “10 argumentos para você deletar suas redes sociais agora”. E há uma dramatização que desenha para os leigos como funciona a manipulação algorítmica, algo normalmente complexo de se explicar.

O documentário tem tom catastrofista, mas os ex-funcionários das big techs dizem ser possível mudar a realidade. Arrependidos, eles fundaram institutos e centros de pesquisa voltados a tecnologias mais humanizadas e fazem palestras e eventos apontando o problema que criaram e as soluções que pretendem emplacar. Concordo com a crítica de que, de novo, é o mesmo conjunto de homens brancos de Stanford tentando criar solução para um problema que eles mesmos criaram.

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Não acho, porém, que isso tira o mérito do documentário – mas é preciso falar sobre algumas questões. A primeira é que a solução para o “dilema das redes” não vai acontecer no plano individual, como às vezes o documentário parece colocar. Não se trata de “escolher sair das redes”, mas de se opor a essa lógica e pressionar por regulação e transparência.

Parece simples para um ex-executivo das big techs proibir o filho de ter qualquer contato com tecnologia (eles de fato fazem isso). Mas como falar isso para as crianças cada vez mais dependentes da tecnologia até mesmo para estudar num mundo que atravessa uma pandemia? Se os próprios governos usam essas plataformas para serviços públicos?

Além disso, no Brasil (assim como em Myanmar, citado no documentário) e em outros países em desenvolvimento, a questão é ainda mais complexa. Por aqui, o Facebook teve uma estratégia agressiva de expansão, com parcerias com empresas de telecom para oferecer acesso grátis aos seus serviços para a população de baixa renda. A pessoa contrata um plano de celular e leva o quê? Acesso ao Facebook, Insta e Zap de graça. Sem dados para outro tipo de navegação, para muita gente a internet se torna só isso.

Criou-se um mercado do qual é praticamente impossível sair: as pessoas confundem internet com as interações que acontecem nessas plataformas, e toda a vida acontece ali. Há dois anos, a Yasodara Córdova escreveu aqui no Intercept sobre como essa estratégia de expansão do Facebook em países em desenvolvimento aprofundaria o problema das fake news. Bingo.

Como sempre, como tudo que ronda as big techs, a política de “Zap grátis” vem travestida de benefício: te entregam que acesso grátis às redes sociais como uma vantagem, mas escondem que quem está sendo servido na bandeja é você. E como pedir a quem não tem plano de dados no celular e depende do acesso aos aplicativos grátis para simplesmente sair das redes sociais? Qual a alternativa?

Também não acho que a solução vai vir de centros para tecnologia humanizada em Stanford, mas de uma internet descentralizada e diversa por essência, feita por pessoas diferentes, baseada em outra lógica: redes comunitárias ou repositórios de conteúdos livres, por exemplo. Em um ensaio no ano passado, que discute justamente vício e dados, os pesquisadores Ricardo Abramovay e Rafael Zanatta também apresentam o conceito de “non addiction by design”. Ou seja: assim como há o design feito para nos viciar (não há exemplo melhor disso do que as notificações), deveria haver, também, o design que nos repele das redes. Eles também mencionam a pesquisa de Elaine Ou, da Universidade de Sydney, que propõe tratar a indústria das redes sociais com uma regulação estrita, como acontece com o tabaco e as bebidas alcoólicas.

No documentário, todos os executivos das big techs concordam sobre a necessidade de se desligarem as notificações, mas à pergunta sobre qual é o problema é mais difícil de responder. A narrativa fica mais asfixiante quando se projeta o futuro, com a capacidade de processamento computacional aumentando exponencialmente, e a possibilidade de essas ferramentas de manipulação caírem nas mãos de governos autoritários. As pessoas se cercam de opiniões semelhantes, algoritmos as bombardeiam com conteúdos cada vez mais extremos, e assim o debate público se corrói.[]

Eu postei há algumas semanas que estou cada vez mais cética sobre qualquer possibilidade de diálogo ou construção coletiva que dependa de plataformas, que só reforçam individualismo e premiam os piores comportamentos das pessoas. A solução, no fim, não virá dos mesmos caminhos ou de discussões no Twitter. Temos, aliás, de repensar nossos papeis na plataforma.

É um contrassenso querer construir uma unidade ou senso de coletividade, ou mesmo ter uma conversa, se a plataforma naturalmente transforma um debate em uma rinha para lucrar com isso. Qualquer tentativa descamba para a simplificação, exposição, linchamento – porque as redes sociais não são uma praça pública, são um ringue, e quanto mais treta, mais atenção, mais interação, mais seguidores. É para isso que elas foram projetadas. E cresce quem aprende como funciona essa lógica. Ganham a plataforma e os polemizadores. Perdemos todos.

Em “No enxame”, o filósofo Byung Chul-Han explica bem como a lógica das redes está corroendo o debate e a ação política. Nelas, não somos um coletivo, mas indivíduos isolados que não formam um “nós”. Claro que o fenômeno do individualismo não vem só das redes, mas é um reflexo anterior da própria sociedade. Mas é nelas que ele se manifesta – e cresce. A “egotização crescente e a atomização da sociedade leva a que os espaços para o agir conjunto encolham radicalmente e impede, assim, a formação de um contrapoder que pudesse efetivamente colocar em questão a ordem capitalista”, ele escreve.

No documentário, Shoshana Zuboff compara esse modelo de negócio baseado em dados e manipulação à venda de órgãos: deveria ser banido. No Twitter, ela desenvolveu o argumento: “Só a democracia pode interromper e banir o capitalismo de vigilância”, ela postou. “Agora a luta é sobre novos direitos e leis para um século digital democrático”.

“O dilema das redes” é bem-sucedido ao explicar o problema. Mas agora é preciso pensar em outras frentes de ação no âmbito público e no individual. Que tipo de regulação deve ser pensada para diminuir a concentração de poder e aumentar a transparência das big techs? E, individualmente, como lidar com a contradição de ocupar as redes sociais, sabendo que tudo o que é postado aqui vai ser capitalizado e usado justamente para alimentar o que criticamos?

Enquanto nosso debate público e nossas relações forem mediadas por plataformas que sabidamente nos manipulam para gerar lucro, não vai ter saída. Some-se a tudo isso o contexto de pandemia, que intensificou a nossa presença online e tornou praticamente todas as nossas interações sociais mediadas pela tecnologia. Não por acaso, das 12 empresas que mais lucraram na pandemia, seis são big techs. Os donos da Amazon, Microsoft, Apple, Facebook e Google aumentaram seus lucros na casa das dezenas de bilhões desde que a covid-19 apareceu.

O Netflix, ironicamente, também está na lista: enriqueceu R$ 55 bilhões só no período de pandemia.

 

 

[Fonte: http://www.theintercept.com]